Heranças Psíquicas Intra e Transgeracionais: Fatores Subliminares da Perpetuação da Pobreza

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Resumo: Esse artigo aborda sobre heranças psíquicas, legados familiares, transmitidos ao longo do tempo de uma geração a outra, de natureza comportamental, religiosa, cultural e moral. Traz uma reflexão de como essa herança pode contribuir para perpetuação da pobreza, aprisionando gerações atuais e futuras no estrato social de seus ancestrais. Torna-se importante por projetar a vida de crianças em suas famílias, e no meio social e sugerir ferramentas para a quebra dessa maldição.

1. Introdução

“O sentimento de estar excluído da cultura legítima é a expressão mais sutil da dependência e da vassalagem, pois implica na impossibilidade de excluir o que exclui, única maneira de excluir a exclusão.” (PIERRE BORDIEU, 2002, p. 132).

Na construção do ego, da personalidade, cada indivíduo leva a sua marca, sua estrutura, sua idiossincrasia. Nessa construção o consciente de cada um é estruturado pelo consciente do outro ou mais de um. Assim, como somos animais criados em bandos ou mais especificamente em famílias, a vida psíquica de um membro é transmitido para outro no interior dessa unidade familiar. Essa transmissão pode atravessar o tempo, tornando-se transgeracional. O conteúdo transmitido é extremamente subjetivo, impalpável, inacessível à lembrança: a falta, a doença, vergonha, recalcamento, esperanças, objetos perdidos, possibilidades, impossibilidades, moldando o que chamamos de matriz psicossocial, ou seja, a lente pela qual conseguimos decifrar e reagir o que chamamos de realidade. A um conjunto de conteúdos subjetivos passados entre membros de uma mesma família ou ao longo do tempo atingindo gerações futuras chamamos de Transmissão Psíquica Intra e Transgeracional. Essa matriz psicossocial herdada, para alguns grupos de pessoas, pode coincidir com a padronização e manifestação imaterial da pobreza e/ou miséria, podendo subjugar indefinidamente o indivíduo a classe social de onde se originou, perpetuando assim a pobreza.

Uma das Grandes revoluções científicas da humanidade nos foi dada por Charles Darwin ao publicar a Teoria da Evolução das Espécies. Segundo essa teoria os ascendentes, de todas as espécies, transmitem aos descendentes as características físicas através dos genes. A novidade desse processo, segundo estudos da neurociência é que certas características psíquicas também são transmitidas nesse pacote.

Para nós, pessoas que habitam o século XXI, está em voga estudar o ser humano em sua totalidade, é a onda psicossomática. Segundo esse novo paradigma, as nossas estruturas corpóreas tais como a pigmentação da pele e o grupo sanguíneo, são igualmente transmitidas para nós, como o mapeamento mental e espiritual, adquiridos por nossos antepassados, resultantes de suas conquistas e fracassos. É o que chamamos de hereditariedade psíquica. O resultado desse processo é que uma criança ao nascer traz em si a herança da estrutura psicológica das pessoas que a rodeiam, que por sua vez, essas pessoas, carreiam de forma inata, às heranças das realizações, dívidas e fracassos de seus antepassados, bem como as aversões, vantagens e desvantagens, identificados na cultura e na classe social. Esse conteúdo psíquico é transmitido no interior de uma família (herança intrapsíquica) ou pode rasgar o tempo podendo atingir futuras gerações (herança psíquica transgeracional). Heranças não palpáveis, imperceptíveis, não conscientes: a doença, vergonha, caráter, recalcamentos, medos, fobias... Ou seja, tudo aquilo que impede a individuação e a liberdade do ser.

Algumas dessas heranças podem ser malditas. Quando acopladas a pobreza ou a miséria podem não beneficiar as gerações seguintes, perpetuando uma matriz psicossocial que mantém os seus herdeiros cativos ao estrato social no qual nasceram, eternizando assim um sofrimento sem fim. Nessas circunstâncias, o funcionamento psíquico dos netos estará irremediavelmente acoplado a dos seus avós. Esse tipo de transmissão alienante funciona como correntes invisíveis que aprisiona o crescimento individual de gerações futuras.

Torna-se integralmente verdadeiro o contrário, ou seja, que essas heranças psíquicas não transmitam apenas o negativo. Transmitem-se também vantagens competitivas, manutenção de vínculos subjetivos para fixação de formas complexas de se manter no poder. Fator esse que seria uma das explicações da existência de uma elite e de seus privilégios.

2. Heranças para Além de Bens e Genes

O pioneirismo na questão da transmissão psíquica é creditado a Sigmund Freud em 1921, quando mencionou pela primeira vez o termo em sua obra “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”, abordou a presença da intersubjetividade psíquica do indivíduo no processo de formação do self. Segundo Kães (2011), Freud inventou o termo “a genealogia da psique.” Zanetti e Gomes (2012) argumenta que a invenção ou a descoberta dessa genealogia foi um marco importante na história do estudo da espiritualidade humana, pois foi através dessa abordagem que se conseguiu pensar nos processos de transmissão psíquica entra as gerações, ou seja, aquilo que assegura as continuidades narcísicas, dando prosseguimento a manutenção dos vínculos intersubjetivos no seio da família e mesmo a complexidade da forma de viver, tais como ideais, certezas, dúvidas e mecanismos de defesa. Segundo Zanetti e Gomes (2012) esse processo envolve um trabalho de ligações e transformações entre as gerações de uma mesma família ou clã.

As transmissões psíquicas, mais especificamente as transgeracionais, segundo Zanetti e Gomes (ibidem), não se dão de forma espontâneas, como se ocorresse uma cooptação voluntária do sujeito, mas sim de forma imperativa, exigências pulsionais inconscientes, na qual, segundo este autor, permanecem as formas de coerções narcisística, manifestando-se no ideal do ego (ou no ego ideal) e no superego. Destarte, segundo Granjon (apud Zanetti e Gomes – 2012) a família funcionaria como um vírus, um totem que como qualquer entidade viva, teria como seu principal objetivo a transmissão da herança psíquica com finalidade de sua perpetuação.

As transmissões psíquicas, tal qual a genética, são fundamentais para a continuidade da espécie humana, argumenta Kães (2011), dentro das famílias existiriam outras, tais como: a cultura, os saberes, técnicas, mitos, crenças. Heranças essas sem as quais não existiria humanidade na qual como a conhecemos.

Zanetti e Gomes (2012) argumentam que a transmissão psíquica se processa pela configuração de objetos psíquicos precedentes a cada sujeito. É o que Kães (2005) chama de apelo positivo da continuidade narcísica e objetais e a manutenção dos vínculos intersubjetivos no seio da família. A perpetuação do que é negativo também é verdadeiro, que segundo Kães (ibidem)“...aquilo que não pode ser retido, contido, que não é lembrado, o que não se encontra na psique dos pais e vem depositar-se na psique da criança: a falta, a doença, o crimes, aos objetos desaparecidos sem traço na memória...”

Magalhães e Feres-Carneiro (2009) desmiuçam a questão das modalidades de transmissões psíquicas, na qual veremos com maiores detalhes na próxima seção, porém cabe aqui salientar a distinção feita por Kães (2011). Segundo esse autor, existem duas modalidades de transmissão psíquica. A primeira, “transmissão sem transformação”, também chamada de transgeracional. Nesse caso segundo Kães (ibidem), existe uma passagem direta de informações psíquicas de um sujeito a outro sem operações de individualidades ou transformações. São pulsões de morte, desejos, falhas ambientais transmitidas ao longo da linha do tempo, são as mais poderosas formas de transmissões, pois estão localizadas no processo de formação do ego. A segunda é modalidade de “transmissão com transformação” também chamada de intergeracional. Essa é mais superficial, podendo ser modificada pela fantasia, trabalhada pelo filtros que compõe as entidades psíquicas: ego, superego e o id.

3. Modalidades de Heranças Psíquicas

As heranças, de acordo com os objetos que foram transmitidos, podem ser uma maldição ou mesmo uma benção. Independentes dos resultados ambas são igualmente importantes para a perpetuação da humanidade, esta é a opinião de Horschutz (2009). Segundo esse autor a continuidade promovida por tais heranças evitaria que cada ser humano prosseguisse do zero quando o indivíduo nascesse, tendo que se reinventar a cada geração, destarte a força da humanidade estaria no inconsciente coletivo proposto por Jung. Esse inconsciente traria a sabedoria humana na forma de arquétipos, na qual ao longo de nossas vidas vamos acessando e os lapidando de acordo com nossas novas descobertas e necessidades.

De acordo com Magalhães e Féres-Carneiro (2009) e seguindo a teoria de Freud existiriam quatro formas de transmissões: intrapsíquica, intersubjetiva, transpsíquica e a questão da formação do eu. Esses autores argumentam que a transmissão intrapsíquica é colocada por Freud na obra “Interpretação dos Sonhos”. Segundo o autor a transmissão se processa entre membros da mesma família. Existe a passagem do sonho, do material inconsciente para outras instâncias psíquicas e vice versa. Nesse percurso o sonho (sonhado) seria manifestações de pensamentos latentes para o relato manifesto. Os sonhos seriam não apenas metabolização dessas transferências como funcionariam também como vetor de transmissão.

As transmissões psíquicas intersubjetivas segundo Kães (2005) também ocorreria entre membros contemporâneos de uma mesma família, sua distinção em relação à transmissão intrapsíquica ocorre entre as relações dos aparelhos psíquicos. Na segunda, o objeto transmitido nas trocas familiares é contemporâneo, envolve as relações imaginárias, simbólicas ou reais. Na primeira, o espaço das trocas familiares é estruturado por uma lei que antecede o sujeito, mas podendo ser alterado por ele. Estas leis são instituídas no grupo primário familiar (genealógico), onde são construídos os intercâmbios, os investimentos narcísicos. Nessas transmissões são garantidas as formas de representação e comunicação entre os membros.

Magalhães e Féres-Carneiro (2009) argumentam que a mais eficiente e inflexível forma de transmissão é a transpsíquica. Nesta forma não se permite o resgate de transformação do que é transmitido. Os objetos transmitidos não passam pelos filtros das entidades psíquicas formadoras do ser, dessa forma, o que é transmitido não faz oposição ao outro. Nessa transmissão aqueles obstáculos colocados na intersubjetividade não existem, sendo facilmente transpostos ao longo do tempo para gerações futuras. Como um totem, um vírus, a transmissão pode ser uma missão destrutiva ou até mesmo suicida argumenta Kães (ibidem), destarte, o processo de transmissão ocorre à base da submissão do hospedeiro ou até a sua total extinção.

Outra linha importante na transmissão psíquica hereditária observada por Kaes (2011) é a constituição do “eu.” Esse autor resgata o “eu” pelo sua importância na instância psíquica. Essa entidade opera como sendo intermediário, funcionando como um filtro dos objetos a serem transportados. Toda transmissão necessita de filtragem e regulação, se assim não o fosse o processo da individualidade já estaria destruído. A transmissão transpsíquica é altamente eficiente, segundo Kaes (2011), porque existe uma falha na filtragem do “eu.” Destarte, o que é transmitido não pode ser apropriado pela cognição. O contágio de massa, tão em voga com a questão da globalização em todas suas instâncias, forma uma espécie de contágio, levando as entidades formadoras da psique a confundir-se com outros “eus” propiciando a uma falha de seu funcionamento.

4. Heranças de Capital e Bens Simbólicos (A Herança Cultural)

Outra linha importante no processo de heranças psíquicas é a cultural, e isso se dá pela aquisição de bens simbólicos. Essa novo paradigma de investigação foi muito debatido pelo sociólogo Pierre Bordieu (2002). Para esse sociólogo, além de cada indivíduo ocupar sua posição dentro da família, cada unidade familiar ocuparia sua posição no nicho social, uma espécie de hierarquia topológica em que a parte visível do processo se manifestaria em condições puramente econômicas dessas famílias, e a invisível na configuração de uma “matriz psicossocial”. [01]

Os objetos resultantes de uma transmissão psíquica podem ser bens simbólicos. Um bem simbólico, segundo Bordieu (2002), se dá quando a configuração de um objeto artístico ou cultural é atribuída um valor de mercado, sendo assim, consagrado pelas leis gerais da oferta e procura (leis do mercado), ganhando destarte, o status de mercadoria. Dessa forma, para esses produtos, é formado um mercado consumidor, como também produtor de bens simbólicos. Porém o consumo de tais bens fica patentemente restrito àquelas pessoas que possuem códigos simbólicos para consumir esses bens. Seu consumo está vinculado à possibilidade de decifrar tais códigos. Por sua vez, a decifração destes está vinculada a sua aquisição que, só podem ser obtidas através do convívio com as obras produzidas de tais categorias e, a fonte disso encontra-se no seio da família.

A importância da compreensão da formação, consumo e produção de um bem simbólico é que ao redor deste tema podemos compreender o contexto das dinâmicas sociais. Mudanças de cunhos sociais motivadas pela incorporação ou não de um bem cultural podem estar no centro de uma identidade coletiva e/ou, simplesmente podemos entender o porquê de tais indivíduos se comportarem dessa forma ou não daquela. De outro modo podemos entender que a construção de um bem simbólico só pode ser feito sob um embasamento intelectual desses bens. Segundo Vieira e Silva (2012) é dessa forma que se constrói a história de um povo.

A passagem em que um determinado bem simbólico, particular, torna-se um bem histórico consolidado, do tipo universal, formando uma identidade coletiva, segundo Vieira e Silva (2012), se dá através da articulação de um discurso sobre diversas formas de violência para que se transforme em um discurso social hegemônico, como aponta Bordieu (2002) essa é a dinâmica do confronto entre classes. Destarte, esse discurso é marcado pela provisoriedade e pela precariedade. Essa luta pela hegemonia está em constante movimento. No centro desse discurso hegemônico são colocadas questões éticas e/ou morais. A atenção deve ser colocada pela intencionalidade dessas últimas e para quem esses valores são colocados a disposição. Assim sendo, como coloca Jardim Pinto (apud, Vieira e Silva, 2012), esses discursos lutam por estabelecer verdades, por excluir alguns campos de significação em detrimento de outros. Como podemos observar estes discursos ditos hegemônicos não podem conter o holístico, nem tão pouco representa uma maioria, sempre é contingencial, ou seja, representam uma imposição hegemônica estruturada.

Um bem simbólico quando tornado universal passa de um conteúdo hermético, privado, para ser, nas palavras de Vieira e Souza (2012), publicizado, usa-se diferentes estratégias de legitimação. Essa legitimação é feita por uma determinada classe social ou por um grupo muito reduzido de pessoas. Destarte, a constituição de um imenso capital fica restrito a esse determinado grupo. O valor desse bem é estabelecido como um único ponto de referência, ao do próprio grupo que o domina.

Os discursos para a construção de um capital simbólico é praticado, nas palavras de Vieira e Silva (2012), por atores sociais. Sua função é sobrevalorizar os produtos que produzem, e/ou dominam em detrimento das classes sociais que não possuem esses códigos. Podemos chamar esses atores sociais de militantes. Esses têm como finalidade a construção e a manutenção de um discurso que, acima de tudo, são mediadas pela educação. Por ela o discurso é construído e legitimado toda prática de valoração do bem simbólico na forma de “inculcação” e submissão do proletário ou classes subalternas. Essa educação é muito mais complexa do que a educação formal que é recebida nas escolas.

O enquadramento dessa legitimação e os códigos para absorção desses bens simbólicos é feito por contato permanente. Preferencialmente na família. E é por isso que a educação formal, dentro das escolas, não consegue romper os grilhões da submissão simbólica do proletariado, pois esses códigos não se encontram nos muros escolares. Essa escola não está capacitada para manusear símbolos e signos presentes nesses discursos ditos hegemônicos. Não obstante, essa mesma escola, através da academia, ao mesmo tempo em que nega esses códigos para as classes subalternas, legitimam o discurso hegemônico.

Concordamos que o grupo dito portador dos discursos hegemônicos não são homogêneos. Seu poder de ditar as normas simbólicas de produção e consumo determina a sua posição no campo intelectual e seu grau de participação. Torna-se imprescindível para esse domínio o controle intelectual, isto é, acesso às palavras e aos signos. Não estamos aqui argumentando a classe social assim como concebe Karl Marx no campo político, mas sim como a esfera econômica visualizada por Bordieu. Assim os possuidores e produtores de bens simbólicos são aqueles que possuem reservas de capital cultural que, por sua vez possuem um determinado valor dentro de um campo (de reconhecimento desses bens), o que garante seus portadores a possibilidade de acessar sinais e símbolos que, por sua vez estão ligados a militantes, ou seja, defensores desses bens por toda uma sociedade. Esses militantes, que não são políticos, funcionam como uma espécie de porta-vozes de todo interesse social. Estes são “untados” de poder e passam a negociar esses bens sob essas correlações de forças.

Esses militantes, revestidos de poder simbólico, embutidos de elevada concentração de capital cultural, funcionam para essa elite, nas palavras de Vieira e Silva (2012), como um “fiel depositário” desse capital, agindo como uma espécie de “banqueiro simbólico.” Essa delegação de poder, para algumas pessoas, não é feita ao acaso, ela serve para produzir uma ação orquestrada, impedir a ação de possíveis competidores e concentrar esse capital simbólico nas mãos de agentes específicos. Estamos diante então do que Bordieu (2002) chama sobre o ensaio das desigualdades. Desigualdades essas criadas a partir da produção e posse desse bem simbólico. É importante que se frise que esse processo não ocorre mecanicamente. Existe uma espécie de pacto subliminar, um consentimento entre dominadores e dominados. Russeau (apud, Vieira e Souza, 2012) sentencia que “o homem nasce livre e encontra-se algemado em todas as partes.” Ele falava sobre a sociedade e que esta é produtora de desigualdade.

Esse pacto não consciente entre “lobos e cordeiros” só pode ser evidenciado quando compreendemos a constituição de um “habitus de família,” pois esta nos possibilitará a compreensão entre dominantes e dominados. O habitus nos possibilita ver um esquema que possa traduzir a ação dos agentes sociais. Esse habitus é construído a partir da biografia e de acordo com o campo de atuação da família na qual está submerso o indivíduo. Este habitus é uma espécie de programação individual levando-se em consideração o campo do ator. Nele podemos antecipar o futuro do jogo, a predisposição para agir.

Dentro de um sistema de preferências individuais é o habitus que serve de orientação dessas preferências. Não se trata de uma posição determinista como relata Vygotsky (2010), mas é um esquema que guarda uma relação direta de como o indivíduo se ocupa no interior de cada campo. O habitus se dá, prioritariamente, com o acúmulo de aquisição de bens simbólicos, conhecimento e saberes específicos dentro de um campo.

 Nesse sentido o habitus é uma função prática dentro da sociedade. Todos os indivíduos possuem um status dentro da família e cada família possui uma posição dentro desse campo cultural. A competência do habitus é prática. O que é adquirido é inseparavelmente para a atuação do ator social. A ação prática está vinculada uma linguagem específica, este domínio prático as situações permitem produzir um discurso justo, adequado para diversas situações adequadas. Ou seja, o comportamento do ator, suas atitudes para as diversas situações estão vinculada ao seu campo intelectual.

O ápice da característica do habitus é o discurso. Ademais, falar o que se pensa, de forma clara, para que todos entendam só é possível com a manipulação dos símbolos verbais que correspondam aos seus reais pensamentos. E isso é privilégio para poucos. A palavra é uma atitude final na hora de demonstrar atitudes e assegurar a legitimação de valores. Mais uma vez coloca-se importante salientar que a concentração de capital simbólico parece estar ligada a origem social, pois estes códigos estão nas famílias sob a forma de saberes, capacitações. E sua legitimidade está na forma de capital social. A luta entre dominantes e dominados está irremediavelmente ligado ao capital simbólico. O poder dos dominantes não está simplesmente na coerção física, mas está acima de tudo sob a mudança na matriz psicossocial através do discurso reconhecido como universal. Essa sim é uma violência muito mais eficaz e contundente que a física. Destarte, o arbitrário é definido como bom, fino, caro, de bom gosto, enfim, uma ciência universal, etc.

A relevância de se estudar uma determinada classe social é que cada uma dessas ocupa uma posição na estrutura social historicamente construída e definida e, que estas, podem ser afetadas por todas as partes constituintes nesse processo. Destarte, cada classe possui propriedades inerentes a cada campo de atuação, certo tipo específico de prática profissional que lhe configura as condições materiais para sua existência. Podemos citar como exemplo a situação apontada por Max Weber (apud, BORDIEU – 2012), quando isola o modo de vida de um determinado agricultor. Sua prática de trabalhar a terra faz uma correlação de sua vida, direta com a natureza. Sua dependência com os fatores naturais e sua submissão a ela[02], o leva a ter traços únicos de religiosidade, o que determina, em alguma medida, a sua posição como classe social.

Max Weber (apud, BORDIEU – 2012) fala em classe como um sistema de relação de produção. Por se configurar dessa forma, argumenta ele, que a margem de progressão é muito pequena, ou seja, as movimentações sociais entre uma classe e outra é altamente restrita. Segundo Bordieu (2002), uma classe social não se define por si própria. Sua configuração e características estão vinculadas e moldadas a uma estrutura maior. Só podemos identificá-las quando fazemos analogias a outras03].

Um membro de uma determinada classe se distingue de outra por um set de inúmeras condutas cotidianas e principalmente por suas atitudes. Além disso, seus membros podem compartilhar certas características econômicas, sociais e culturais. Mesmo em classes sociais separadas pela história ou por culturas diametralmente opostas, Max Weber (apud, BORDIEU – 2002) argumenta que podemos observar as mesmas organizações estruturais. A elite, de uma forma geral, é donatária de bens simbólicos e os seus códigos de decifração; enquanto a classe proletária é despossuída desse tipo de capital. Não obstante, podemos observar, nessas análises estruturais, traços transitórios e transculturais, porém com poucas variações em todos os grupos e posições equivalentes. Destarte, nesse contexto, podemos admitir que a classe burguesa, em todas as observações, pode ser definida, nas palavras de Max Weber (apud, BORDIEU – 2002), “não por aquilo que é, mas principalmente por tudo que não é”. Suas atitudes são dúbias por flutuar no “limbo” entre a elite e o proletário.

A rigor a classe média e/ou a burguesia se manifestam por uma educação inicial muito rígida. Opõe-se, diametralmente, ao liberalismo permissivo das classes populares. Igualmente, também se opõe à ostentação e ao exibicionismo da elite. Dão forte valor ao trabalho árduo e são bastante rigorosos nas tradições religiosas [04].

Uma classe social não pode jamais ser definida por sua contextualização econômica ou então por sua estrutura social, isto é, as relações que mantém com outras classes sociais. Antes de qualquer coisa essa distinção se dará pela manutenção e apropriação de um bem simbólico, estocado como capital cultural. Max Weber (apud, BORDIEU – 2012) constata que o poder econômico, puro e simples e, sobretudo a força do dinheiro, não constituem, necessariamente, o fundamento do prestígio social. Assim sendo, indivíduos, da mesma classe social, competem no mercado ortodoxo e de bens simbólicos, em grau de absoluta igualdade, possuem as mesmas chances, típicas de mercado de bens e trabalho, pois possuem as mesmas condições de existência e de experiências pessoais na hierarquia de honra prestígio. O contrário também é absolutamente verdadeiro. Indivíduos de classes sociais diferentes não possuem condições alguma de uma disputa equivalente. A acumulação de bens simbólicos, no seio da família, que acumulados se transformarão em capital social, garantem ao possuidor desses bens desproporcional vantagem, no mercado de trabalho, por exemplo.

Max Weber (apud, BORDIEU – 2002) chama de ordem social a distribuição de prestígio ao elemento que está dentro da classe social. Este prestígio esta vinculado ao acúmulo de capital cultural que, em suma, está acoplado ao capital econômico. Para a elite não é apenas importante ter o poder simbólico e/ou econômico nas mãos. Faz parte da perpetuação desse poder se mostrar como tal. Destarte, surge o que Bordieu (2002) chama de “grupos de status”. Estes grupos se definem não por ter, mas principalmente por ser. Ou seja, muito menos pela posse simples do bem, mas principalmente a maneira de como esses bens é utilizada. Essa certa maneira de usar esses bens configura à classe uma forma de não ser imitado, uma espécie de raridade. A raridade do bom gosto, de tornar raro o mais elementar de um determinado consumo. Destarte, as diferenças econômicas são aplicadas pela distinção simbólica de usufruir esses bens, ou seja, não do consumo comum, mas através do consumo simbólico, ou nas palavras de Bordieu (2002), ostentatório que, de uma forma não simples, transmuta os bens em signos. A impossibilidade de ser copiado não está centrada em possuir ou não possuir o objeto de ostentação, mas sim a maneira como esse objeto é consumido.

Os traços da distinção entre classes ficam então patentes e quase impossíveis de serem copiados. A posição diferencial dos atores sociais se configura na roupa, no modo de se comunicar, a cultura e sobre tudo o “bom gosto”. Destarte, o que é realmente visto como cultura é transmutada como propriedade inerente a determinados indivíduos. Uma cultura transmutada em natureza, nas palavras de Bordieu (2002), “uma graça, um dom.”

Torna-se evidente que a entrada para um “grupo de status” se trata muito menos de aceitação e muito mais pela sobrevivência da classe social. Destarte, são impostas barreiras severas aos entrantes. Aqueles que desejam participar desse seleto grupo são exigidos, além de modelos de comportamento, modelos da modalidade de comportamento, ou seja, “regras convencionais que definem a justa maneira de executar os modelos” (BORDIEU, 2002). Essa lógica de exclusão/inclusão não pode ser entendida por um simples ingresso de um clube fechado. Ela remonta a conquista de bens simbólicos e sua manutenção que, em última análise se configura em bens de mercado. A chave é transmutação dos bens econômicos em bens simbólicos.

Quando do surgimento da revolução industrial na 2ª metade do século XVIII, onde a burguesia ascendia meteoricamente, em seu valor econômico, a elite social europeia, no instinto de sobrevivência, criou a figura do “esnobe”. Este ator social, dotado de grande poder econômico, era visto pela aristocracia europeia como um personagem social imitador. Mesmo com condições de manter procedimentos na matéria de vestuário, habitação e de estilo de vida, estes eram considerados como uma fraude.

Práticas de diferenciação entre classes sociais, como vimos até agora, é a base do sustentáculo das classes dominantes. Algumas práticas culturais apresentam um alto rendimento simbólico. Práticas essas que são necessárias para afirmação de poder. Por exemplo, a religião que é sagrada, principalmente para as classes populares, agora, por motivo de simples diferenciação, para a elite, dar a impressão de pessoas altamente esclarecidas, tornam-se agnósticos ou simplesmente ateus. Essa posição dogmática, independente de sua crença é um forte apelo de diferenciação. Destarte, a elite olha com desprezo para o povo que possui uma relação mais estreita com a crença e, com desdém para a burguesia que mantém sua postura moral ancorada ao dogma.

Percebe-se que a diferenciação de movimentos expressivos torna-se um marco para diferenciação. São vários e longos movimentos sutis e embasados cientificamente ou não que, distancia a elite da plebe. Além do toque de requinte e do “bom gosto”, o argumento, o discurso intrinsecamente articulado vai naturalizando os processos culturais. Até mesmo a linguagem tende a se bifurcar, pois as classes cultivadas utilizam uma linguagem virtualmente diferente das classes populares. Mesmo quando falamos em poder as classes sociais também diferem o conceito. Enquanto as classes populares falam em dinheiro, a classe média e/ou a burguesia adicionam a esse dinheiro a moralidade. Já a elite privilegia o nascimento e o estilo de vida.

No violento jogo do poder que acontece nas fronteiras dos campos das diversas classes sociais, os menos favorecidos economicamente jamais interferem no processo. São coadjuvantes. Servem apenas como ponto de referência para diferenciação. Os jogos das distinções simbólicas ocorrem virtualmente no interior dos limites estreitos definidos pela violência, ou seja, pela coerção econômica e, por esse motivo, permanece em um círculo fechado de privilegiados que se podem dar ao luxo de dissimular as oposições, criar e recriar regras e defendê-las através de um discurso fortemente articulado.

Talvez o elemento mais forte delineador do campo de uma classe social seja o habitus de família, e este é herdado psiquicamente intra ou transgeracional. Este se configura como uma espécie de molde da matriz psicossocial de um determinado indivíduo. Essa matriz seria uma espécie de código que, selecionaria bens simbólicos, em um leque de códigos disponíveis em função de sua classe social que, determinaria uma predisposição para que o indivíduo ocupasse sua posição social na hierarquia do poder no jogo entre as classes.

Destarte, segundo Bordieu (2002) o habitus seria um sistema de disposições socialmente construído: modo de olhar, perceber, conceber o mundo. Seriam concepções estruturadas e ao mesmo tempo estruturantes. Constitui um conjunto de ações e percepções unificadoras de práticas e crenças correspondentes a um determinado grupo ou grupos. Tais práticas e concepções ideológicas, serão determinantes para a configuração de uma trajetória estritamente vinculada no interior de um campo intelectual predeterminado que, por sua vez ocupará uma específica posição, também predeterminada na estrutura das classes dominantes.

O habitus é construído sob uma matriz subliminar, destarte é uma configuração inconsciente na formação da representação social de sua posição (a do ator social) na hierarquia das consagrações. Deste modo, essa configuração subliminar ou semiconsciente é a matriz pela qual se elabora a representação social das tomadas de decisões que, não são amplas, mas possíveis ou prováveis. Essa matriz determina menos o que o ator social será e muito mais de decisões que a pessoas nunca tomaram. Essa impossibilidade se dá por uma questão de tolerância, preferência ou simplesmente proibitivas no que se refere ao limite do seu campo intelectual.

Essas disposições inconscientes ou semiconscientes, como aborda Bordieu (2002), resulta de um longo processo de interiorização de um habitus primário de classe que, por sua vez, é um sistema que objetiva selecionar alguns tipos de signos em detrimento de outros. Nesse sistema são absorvidos também os valores éticos e morais e sanções adotadas pela quebra desses códigos societários. Disso tudo resulta ações práticas do cotidiano, palavras, condutas, enfim, um sistema particular de estruturas objetivas. As disposições que fazem com que indivíduos possam selecionar signos, não significam que estes devem permanecer para sempre nessa matriz. Ao contrário, em um set de signos dispostos no campo intelectual há possibilidades de constantes atualizações.

A configuração de um determinado indivíduo se dá de dentro para fora e não ao contrário. Ou seja, não é a condição de classe que determina o indivíduo, mas, o sujeito se autodetermina, se auto-reconhece a partir da tomada de consciência, parcial ou total, da realidade objetiva da condição de classe. Destarte, o que as classes abastadas chamam de vocação como sendo um dom espiritual, da estrutura do divino ou uma herança genética de classe, segundo Bordieu (2002), nada mais é que “uma mera transfiguração ideológica da relação que se estabelece objetivamente entre uma categoria de agentes e um estado de demanda objetiva.” Em outras palavras, o set de configurações que, vai determinar na desembocadura do sujeito em um dado mercado de trabalho se concretiza através de um sem número de interiorização de bens culturais disponíveis no campo intelectual do ator social.

Destarte, quando fazemos uma reflexão o porquê das pessoas serem escritores, engenheiros, advogados, pedreiros, soldadores, professores, esteticistas, artistas... Reflete o habitus socialmente construído para que lhes pudessem ter sido possível e/ou impossível ocupar as posições que lhe fora oferecidas dentro de um determinado campo intelectual. Ou seja, para o ator social, o limite de sua ascendência na hierarquia da valorização social está no campo intelectual de suas classes. As suas manobras, os livres arbítrios da escolha de suas profissões são cada vez mais restritos quanto restritas for o acúmulo de capital simbólico engajado em sua classe.

A esta altura podemos determinar também que consumo de bens simbólicos, como salientamos anteriormente, estar estritamente vinculado ao campo intelectual da classe social. O consumo de tais bens encontra-se restrito aos detentores dos códigos necessários para decifrá-los, então consumi-los. Esses códigos que detém as categorias de percepção a esses bens são adquiridas com o longo convívio das obras produzidas segundo tais categorias.

Como argumenta Rousseau (apud, Viera e Silva), os homens livres possuem grilhões de todas as sortes. O indivíduo está deliberadamente algemado a sua classe social [05]. Um estudo superficial sobre o assunto nos revelará que as práticas mais deliberadas interpeladas pelos atores sociais, ou aquelas que possuem uma inspiração, dita, divina, sempre levam em conta objetivamente o sistema de possibilidade/impossibilidade que define o futuro objetivo e coletivo de uma determinada classe. Logo o sucesso ou fracasso individual e seus desvios, estão acoplados a um feixe de trajetórias que impele inexoravelmente a um futuro previamente determinado.

5. As Feridas Genealógicas

As feridas genealógicas são aquelas heranças psíquicas que acabam funcionando como uma espécie de “maldição”, que se perpetua em uma família ao longo da linha do tempo, também atingindo indivíduos de gerações futuras. Como verificamos em Magalhães e Féres-Carneiro (2009), das transmissões psíquicas, a mais prejudicial é a “transpsíquica”, por ser transgeracional ela despi completamente as entidades formadoras do self de quaisquer formas de filtros subjugando assim o seu portador.

Outra linha de observação de feridas genealógicas é nos colocada por Freud (apud Magalhães e Féres-Carneiro – 2009). Segundo o pai da psicologia a neurose pode ser eternizada dentro de uma mesma família. Freud argumenta que a neurose não é uma herança propriamente dita, porém ela pode ser um elemento desencadeador de uma família predisposta a tal enfermidade. Destarte, a família funcionaria como uma espécie de ambiente multiplicador que acentuaria drasticamente a uma predisposição individual. Magalhães e Féres Carneiro (2009) nos lembram de que a herança maléfica é um processo fluídico, ou seja, a transmissão ocorre em um fluxo de energia livre, carreando símbolos e manifestações, embora as formas de transmissões e o conteúdo transportado não sejam lineares para todas as gerações. Estas podem ser conservadas por cortes intermitentes ao longo da linha do tempo, ocorrendo falhas ou mesmo circulares. Os recalques, vergonhas, traumas, podem ficar circulando por décadas ou para sempre.

Nas transmissões psíquicas transgeracionais, como nas neuroses e algumas vezes as psicoses, esses conteúdos podem não ser metabolizados pelas entidades psíquicas, existindo assim uma falha na metabolização desses conteúdos. O sujeito então incorpora esses pacotes psíquicos em um processo falhado, engessado, interferindo na formação da personalidade, aderindo tudo aquilo que estranho as suas experiências, vivências. Sua subjetividade é completamente estranha a si mesmo.

Nesse contexto o trabalho do terapeuta é deveras importante. É através dele ou mais ainda, do binômio terapeuta/paciente, através do mecanismo da transferência, que podemos resgatar e ressiginificar tudo aquilo que foi herdado. Dessa forma abre-se um caminho para a reapropriação do que foi herdado. Para o psicanalista a missão está em descobrir, revelar qual o lugar que o herdeiro assume no processo de transmissão, reavivando ou redescobrindo sua história psicossocial. Segundo Horshulz (2009) o trabalho do psicanalista nada mais do que se não um condutor que leva o paciente a uma tomada de consciência de sua herança, e que consequentemente levará a sua libertação. Quando faz isso não só torna a pessoa livre, mas como provavelmente dá o primeiro passo para a libertação de futuras gerações, que estarão aptas para dar novos passos, mudando assim o rumo de sua história e consequentemente do coletivo.

Segundo Zanetti e Gomes (2012), existe outra modelagem de transmissão psíquica: os mitos de família. Segundos esses autores, mitos se perpetuam na forma de narrações. Em um passado longínquo, um ancestral interpretou um fato, um comportamento, um afeto, uma situação muito peculiar e que foi tomado como verdade com os outros membros familiares e que foi perpetrado ao longo do tempo transformando-se em verdade incontestável. A crença associada ao sofrimento do ancestral e ressignificada pelo sofrimento das atuais gerações impede a contestação do mito e este se cristaliza como uma mensagem, uma advertência de proteção ao clã e ao mesmo tempo funcionando como um sentimento de pertinência do grupo.

Magalhães e Féres-Carneiro (2009) nos de relata em relação um forte sentimento que é a vergonha familiar, e o seu processo de ocultação desse sentimento. Quando essa vergonha torna-se conteúdo do que será transmitido, a família se utiliza de uma série de mecanismos de defesa contra a verdade que resultará em culpa dos membros atuais e futuros, consequentemente resultando em membros psicóticos, configuradas por famílias neuróticas e perversas, onde a transgressão não apenas é uma regra geral, como também é recompensada.

6. Considerações Finais

Em um mundo contemporâneo acossado pelos inúmeros processos de globalização sob a bandeira do individualismo, parece que a família foi renegada a um segundo plano. Porém, pesquisas psicanalíticas e de psicoterapia familiar indicam que essa família é uma matriz intersubjetiva onde estão guardados os moldes da vida psíquica individual. Essa esquecida família promove um duplo eixo estruturante: o horizontal, da mesma geração, que fornece ao indivíduo ferramentas de identificação mútua entre os seus membros, e o vertical, intergerações, que insere o sujeito no movimento da vida e da morte.

Nessa avalanche de informações provocada pela era eletrônica, o sujeito, a família, a comunidade, a vida passa por um processo de dessimbolização ou desterritorialização que afeta cada um de nós pela carência de referências morais estáveis, pela latente ausência de lei, pela desvinculação com o credo. Somente através da compreensão da transmissão psícogeracional e de que forma esse processo está sendo metabolizadas por essas novas gerações que podemos compreender os principais males da vida social e também individual.

É dentro da família, nos seus relacionamentos, é onde explode os impactos dessa revolução global, se contabiliza as novidades que chegam com o luto de tudo que foi perdido, reinventando assim o processo de transmissão. Como se pode aqui deduzir, a metabolização de tudo que é novo e a transformação promovida pela intersubjetividade da família faz com que essa herança não seja a mesma, mas vai se tornando o novo de novo ao longo dos anos.

A dessimbolização ou a desterritorialização das comunidades, a perda da autoridade do chefe da família e o próprio questionamento ou enfrentamento da definição de família nuclear por movimentos liderados pela homossexualidade são lados opostos da mesma moeda. Assim como são os movimentos fundamentalistas cristãos ortodoxos, evangélicos ou mesmo mulçumanos, um reflexo da dissolução social simbólica da sociedade planetária. Todos esses movimentos resultam em um desesperado apelo em defesa da tradição do modo habitual, que resulta em uma ruptura com o diálogo com o outro, tudo fruto de heranças psíquicas que não podem ser quebradas do dia para noite.

Cabe ao analista descontruir, ressimbolizar toda forma de herança que esteja em rota de colisão com o ego para a sua própria destruição. Analisar qual a posição da família no nicho social e qual o papel desempenhado por essa pessoa na família, são questões fundamentais para a cura. Porém, mais forte do que isso, no tocante a ascensão social do indivíduo são as heranças culturais. Essas são passadas na forma de bens simbólicos e esses são adquiridos no seio da família e dependem do nicho social da mesma. O problema é que o uso de um bem simbólico, e seja ele qual for, dependerá dos códigos de acesso que estão impreterivelmente no seio de família.

Famílias pobres, ou que estão vivendo abaixo da linha da pobreza, possuem muito pouco ou nada a passar intra ou intergerações para cada indivíduo que o possibilite se livrar da pobreza. O único modo artificial de driblar a pobreza como herança psíquica e econômica, é o dever de se apropriar desses bens e dos códigos que levam seu consumo é través da educação. Uma educação de qualidade promovida pelo Estado talvez seja o único modo mais rápido, não de uma equalização social, mas na diminuição da pobreza e consequentemente da violência que se radicou nos grandes centros urbanos. O problema dessa fácil resolução desse problema é que a elite nacional já se apoderou do sistema público educacional, ou pelo menos das sobras do que realmente funciona nesse setor.

Sobre o Autor:

Paulo de Jesus Amorim - Mestre em Economia, Doutor e Pós-Doutor em Educação, Psicanalista Clínico.

Referências:

BORDIEU, P. Economia das Trocas Simbólicas. Ed: Perspectiva, 7ª edição. São Paulo,SP. 2002.

MAGALHÃES, A. S.; Féres-Carneiro, Transmissão Psíquico-Geracional na Contemporaneidade. Artigo publicado na Psicologia em Revista; v. 10, n. 16, pp. 243 – 255. Belo Horizonte (MG), dezembro de 2004.

GIBIN, R. Hereditariedade Física e Herança Psíquica. Artigo publicado na Revista Reformador. São Paulo (SP), setembro de 2006.

HORSCHUTZ, R. W. A Herança Psíquica. Revista Anual da Associação Junguiana – Cadernos Junguianos nº 5. Ed: Ferrari e Artes. São Paulo (SP), 2009.

KAËS, R. (2011). Um singular plural: a psicanálise à prova do grupo.São Paulo:Edições Loyola, 2011.

SILVA, M. C. P. Herança Psíquica na Clínica Psicanalista. Artigo publicado na Revista Brasileira Psicanalista; v. 43, n. 2, pp. 195 - 198 Ed: Casa do Psicólogo/Fapesp, São Paulo (SP), 2009.

VIEIRA, E. V; e Silva, A. L. C. Memória Como Bem Simbólico: discursos, competências e legitimação. Revista Latino-Americana de História. Edição Especial – Lugares da História do Trabalho. Vol. 1, nº. 3 – Março de 2012. Porto Alegre, RS.

ZANETTI, S. A. S; Gomes, I. C. Efeitos da Herança Psíquica na Opção Pela Não Construção do Vínculo Amoroso. Artigo apresentado Estudos Interdisciplinares em Psicologia (UFPR). Londrina (PR), v. 3, n. 1, p. 57 -74, junho de 2012.

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