Histeria: Sintomas da Psicanálise aos Romances Portugueses

(Tempo de leitura: 12 - 23 minutos)

Resumo: Este trabalho tem por objetivo explanar a respeito dos sintomas da Histeria, tomando por referência a Psicanálise e a Literatura, o romantismo e o naturalismo. Um paralelo e também uma comparação dos sintomas apresentados pelas personagens, muitas escritas antes da Psicanálise, com a teoria psicanalítica. A psicanálise teve início a partir da clínica da histeria. Foi a partir da escuta das histéricas que Freud pôde reconhecer a existência de um psiquismo com suas determinações inconscientes, assim como a existência de um corpo erógeno, através do qual a vida pulsional se manifesta.

Palavras-chave: Histeria, Psicanálise, Literatura, Romance, Sintoma.

1. Introdução

A Psicanálise deve grande parte de suas descobertas às histéricas... Se Freud deve às histéricas a descoberta da transferência, estas devem o dar-lhes, através de sua escuta, uma possibilidade de se reencontrarem com seu próprio desejo alienado no sintoma. (LIBÓRIO, 1991)

A histeria sempre existiu na história humana, sempre acompanhou o ser humano desde sua introdução na vida gregária. Descrições de quadros de histeria são encontradas nos papiros egípcios que datam de 4 mil anos, como o de “Kahun”. O histórico documento descrevia vários sintomas encontrados em mulheres, normalmente representados por dores em diversos órgãos, variando até a impossibilidade de abrir a boca, caminhar e mexer as mãos. Na antiguidade, todos estes distúrbios eram remetidos a uma causa uterina.

Antes de Freud, a histeria já era algo que rondava o universo feminino, as crises nervosas, rompantes e desmaios são e foram elementos muito usados para compor as personagens de romances.

Freud explica que “(...) na técnica da psicanálise existe uma regra de que uma conexão interna ainda não revelada se anuncia pela contigüidade, pela proximidade temporal entre as associações, exatamente como, na escrita, um a e um b postos lado a lado significam que se pretendeu formar com eles a sílaba ab” (Freud, 1996, 46). Para a psicanálise, o sintoma é um fenômeno subjetivo que não é sinal de uma doença, mas a expressão de um conflito inconsciente (Chemama, 1995, 203). “O sintoma tem a sua origem no reprimido; é como se fosse o representante do reprimido, em relação ao ego; o reprimido é um território estrangeiro para o ego, um território estrangeiro interno, tal como a realidade é (desculpem-me a expressão inusitada) um território estrangeiro externo” (CUNHA, 1978, 187).

2. Desenvolvimento

2.1- A História da Histeria e seus Sintomas

Antes de relacionarmos a histeria da Psicanálise com a histeria apresentada por personagens de livros, devemos entender mais sobre o que é histeria e de onde surgiu este termo.

O vocábulo “histeria” deriva-se da palavra grega hystera (matriz, útero). A noção da doença histérica remonta a Hipócrates, época em que era considerada uma doença orgânica de origem uterina presente, então, nas mulheres. No século XVI, a ideia de que a histeria provinha do cérebro abriu caminho para se pensar em o sintoma histérico estar presente também nos homens. Já no século XVII, “(...) pôde-se invocar, em vez da antiga sufocação da matriz, o papel das emoções, dos ‘vapores’ e dos ‘humores’, a ponto, aliás, de confundir numa mesma entidade a histeria e a melancolia” (ROUDINESCO, 1998, 338).

Para os organicistas, a histeria era uma doença cerebral, de natureza fisiológica e de caráter hereditário; já para os artíficies da psicogênese, era uma afecção psíquica, uma neurose. O termo, neurose, foi introduzido pelo médico escocês William Cullen em 1769; “Ele incluía nessa categoria as afecções mentais sem origem orgânica, qualificando-as de ‘funcionais’, isto é, sem inflamação nem lesão do órgão em que aparecia a dor. Essas afecções, portanto, eram doenças nervosas” (ROUDINESCO, 1998, 339). No fim do século XIX, “Muito esquematicamente, podemos dizer que a solução era procurada em duas direções: ou, na ausência de qualquer lesão orgânica, referir os sintomas histéricos à sugestão, à auto-sugestão e mesmo à simulação (...), ou dar à histeria a dignidade de uma doença como as outras, com sintomas tão definidos e precisos quanto, por exemplo, uma afecção neurológica” (LAPLANCE E PONTALIS, 1995, 211). Nesta última tentativa, consistiram os trabalhos de Charcot.

Mesmer na França, Braid na Grã-Betanha e Charcot em Salpêtrière, a partir do século XVIII, mostram o poder da hipnose sobre os sintomas histéricos. Os sintomas formaram um quadro clínico do ponto de vista de Charcot. A histeria para ele tinha sua etiologia na hereditariedade, na degenerescência.

Para Freud:

Não era Charcot um homem dado a reflexões excessivas, um pensador: tinha, antes, a natureza de um artista — era, como ele mesmo dizia, um “visuel”, um homem que vê. Eis o que nos falou sobre seu método de trabalho. Costumava olhar repetidamente as coisas que não compreendia, para aprofundar sua impressão delas dia-a-dia, até que subitamente a compreensão raiava nele. Em sua visão mental, o aparente caos apresentado pela repetição contínua dos mesmos sintomas cedia então lugar à ordem: os novos quadros nosológicos emergiam, caracterizados pela combinação constante de certos grupos de sintomas (FREUD, (1893), 1996, p. 21-22).

Essa postura de pesquisador de Charcot afirma a autenticidade e a objetividade dos fenômenos histéricos, dando dignidade à histeria e indo contra os preconceitos e a suposição de que esses fenômenos eram somente uma simulação dos doentes. Em séculos anteriores, os histéricos tinham sido lançados à fogueira ou exorcizados; seu estado era tido como indigno de observação clínica.

Charcot trata a histeria como sendo um tópico da neuropatologia, fornecendo uma descrição de seus fenômenos e mostrando como reconhecer os sintomas que possibilitam fazer o diagnóstico de histeria. Com o estudo científico do hipnotismo Charcot chega à “teoria da sintomatologia histérica” e reconhece tais sintomas – a natureza do ataque, a anestesia, os distúrbios de visão, os pontos histerógenos – como sendo reais.

Os fundamentos para o diagnóstico da histeria não eram jamais estabelecidos pela etiologia ou pelo mecanismo de formação dos sintomas, mas unicamente relacionados ao tipo previamente estabelecido e descrito [...] Embora Freud tenha relatado que ouviu de Charcot a afirmação, [...], de que a histeria c’esttoujourslachosegénitale!, seria necessário esperar que o próprio Freud, ao teorizar a etiologia sexual da histeria e fundar a psicanálise, pudesse comprová-la (CHARCOT, 2003, p. 11).

Freud considerava a histeria como “(...) uma doença psíquica bem definida, que exige uma etiologia específica. Por outro lado, procurando estabelecer o ‘mecanismo psíquico’, ligou-se a toda uma corrente que considera a histeria uma ‘doença por representação’” (LAPLANCHE E PONTALIS, 1995, 212). As duas principais formas histéricas, para Freud, eram a histeria de angústia, que tem como principal sintoma a fobia, e a histeria de conversão, na qual vem em destaque a intensidade das crises emocionais e os mais diversos efeitos somáticos. Buscando desvendar os primórdios da histeria, Freud percorreu um longo caminho; desde os traumas sexuais reais à noção de fantasia, Freud chegou ao conceito de conversão nos seus “Estudos sobre a histeria”. Graças à conversão, “(...) tornou-se possível compreender como uma energia libidinal se transformava numa inervação somática, numa somatização dotada de uma significação simbólica” (ROUDINESCO, 1998, 340).

Até mesmo a palavra “sintoma” adquiriu um sentido novo quando, em 1892, Freud apontou que “(...) o sintoma de conversão histérica, em geral considerado como uma simulação é, de fato, pantomima do desejo inconsciente, expressão do recalcado” (Chemama, 1995, 203). Na primeira tópica, Freud afirmou: “‘A causa da maioria dos sintomas histéricos deve ser classificada de trauma psíquico’. A lembrança do choque, tornada autônoma, age então no psiquismo à maneira de um ‘corpo estranho’: ‘A histérica sofre reminiscências’. De fato, o afeto ligado ao incidente causal não foi ab-reagido, isto é, não ocorreu descarga de energia por via verbal ou somática, porque a representação psíquica do trauma estava ausente, proibida ou insuportável” (CHEMAMA, 1995, 96).

Na histeria, portanto, o trauma não foi elaborado. Consta em Chemama: “O mecanismo de defesa que preside à formação do sintoma histérico é então qualificado como ‘recalcamento de uma representação incompatível com o eu’” (CHEMAMA, 1995, 96). Portanto, o sujeito, sem condições de elaborar a situação traumática, recalca o afeto ligado ao trauma psíquico. Esse é um “corpo estranho”, porque é algo que vive presente no sujeito; porém, sem um significado.

A histeria, por conseguinte, é uma neurose que apresenta quadros clínicos bastante variados. Para Roudiesco, “Sua originalidade reside no fato de que os conflitos psíquicos inconscientes se exprimem de maneira teatral e sob a forma de simbolizações, através de sintomas corporais paroxísticos (ataques ou convulsões de aparência epiléptica) ou duradouros (paralisias, contraturas, cegueira)” (ROUDINESCO, 1998, 337).

As características do sintoma histérico consistem em um enigma para a Medicina. Afinal, na somatose um dano é provocado no órgão; enquanto, na histeria acontece a cura espontânea quando o conflito é elaborado. Poderíamos afirmar, então, que os conflitos são formações inconscientes a espera da escuta; se reconhece, assim, o desejo inconsciente. A respeito da expressão somática do conflito no quadro histérico, Freud denomina de “antecipação somática” a espécie de apelo do corpo para que uma representação recalcada vá se alojar nele (CHEMAMA, 1995, 96). Segundo Cunha, “Um sintoma histérico somente tem origem, quando duas realizações contrárias de desejo, tendo as suas fontes em diferentes sintomas psíquicos, são capazes de se encontrar numa única expressão” (CUNHA, 1978, 188).

Ele ainda considera que o sintoma histérico “(...) é baseado na fantasia, em vez de o ser na repetição de uma experiência real” (CUNHA, 1978, 188). “A psicanálise contemporânea destaca a estrutura histérica do aparelho psíquico, engendrada por um discurso, dando lugar a uma economia e também a uma ética propriamente histérica” (CHEMAMA, 1995, 95).

A sintomatologia da “grande histeria" é composta por uma série de sintomas, entre eles: ataques convulsivos, zonas histerógenas, distúrbios de sensibilidade, distúrbios da atividade sensorial, paralisias, contraturas. Em relação ao tratamento direto da histeria, Freud escreve que consiste na remoção das fontes psíquicas que estimulam os sintomas, ou seja, “consistem dar ao paciente sob hipnose uma sugestão que contém a eliminação do distúrbio em causa”. (FREUD, 1888, p. 93).

Assim na concepção freudiana, a histeria é uma defesa contra a recordação (idéia) de um evento traumático de natureza sexual ocorrido na infância: “Freud descreve duas características sexuais da histeria: o desprazer e a contradição interna de sua sexualidade”. (QUINET, 2005, p. 104). O sujeito ainda criança,diante de uma experiência sexual, cuja carga de afeto foi insuportável à consciência, recalca tal idéia (experiência inconciliável) deixando-a ativa no inconsciente. Já na fase adulta, esse mesmo sujeito, despertado por algum acontecimento, recorda tal fato e converte em um sintoma corporal.

2.2- A descrição do sintoma da Histeria pela Literatura Romancista Portuguesa

Os personagens analisados abaixo datam de uma época em que começam a surgir alguns estudos sobre a Psicanálise, sendo este nome, usado por Freud pela primeira vez em 1896, enquanto os romances datam entre 1850 a 1888, ou seja os romances forma escritos antes de qualquer publicação que relacione a Psicanálise.

São célebres nesse período as mocinhas da literatura romântica às voltas com crises nervosas, como Elisa Maria Verona, em O romance, a mulher e o histerismo no século XIX, identificou ao analisar as representações femininas na literatura brasileira do final do século XIX e início do XX. Neles, há a maciça presença de mocinhas à beira de ataques de nervos, trêmulas, melancólicas e pálidas, bem condizentes com os elementos daquilo que se entendia na época como "a natureza feminina”

Seguem-se agora trechos dos livros, onde os autores descrevem as personagens, detalhando suas crises nervosas.

“Esta crise prostou-a de cama por dois dias, dois dias de febre e delírios, em que ela não deu acordo de si (...). Quando se levantou havia já entrado totalmente no terceiro período da moléstia. Estava cadavérica, os olhos muito fundos, as faces cavadas”.

Este trecho pertence ao livro de O homem, do escritor brasileiro Aluísio Azevedo (1857-1913), publicado em 1887, outra obra contemporânea a Psicanálise. O exemplo de Magda, a quem se refere o trecho acima, é quase caricato. A menina apaixona-se pelo irmão, sem o saber, e da impossibilidade de casar-se com esse homem decorrem incontáveis crises nervosas que terminam em histeria. Emília, no romance Diva, “sucumbiu num ataque de nervos” quando, aos onze anos, resolveu aventurar-se sozinha pelos arredores da chácara onde morava. Aurélia, em Senhora, depois de exaltada conversa com Seixas, abateu-se de repente e ficou prostrada no tapete, depois de uma breve síncope. A personagem principal Helena Matoso, do Livro “A Carne” de Julio Ribeiro, mais conhecida pela alcunha de Lenita, sente fortes concupiscências. Para muitos críticos, esse intenso desejo, provocado pela carne, será considerado um “histerismo”.

Verona (2008) nos narra que esse não foi o único caso de histeria noticiado pela literatura brasileira oitocentista, literatura que, apesar de apresentar as causas e os sintomas de tal moléstia de uma maneira quase consensual, concebeu diferentes desfechos para as personagens acometidas por esse mal. A histeria, a propósito, aparece como moléstia diretamente relacionada ao sexo feminino e é fruto dos muitos distúrbios que, comumente, afligem a maioria das mulheres dos romances. Emília, no romance Diva, “sucumbiu num ataque de nervos” quando, aos onze anos, resolveu aventurar-se sozinha pelos arredores da chácara onde morava. Aurélia, em Senhora, depois de exaltada conversa com Seixas, abateu-se de repente e ficou prostrada no tapete, depois de uma breve síncope.

No romance “O crime do Padre Amaro”, Eça de Queiroz nos apresenta Amélia, uma moça facilmente influenciável. Após uma decepção amorosa na adolescência, busca consolo na fé católica, tornando-se uma beata excessivamente confiante nos padres. Assim como Amaro, não consegue controlar os instintos sexuais e se deixa seduzir em sua casa, onde o jovem padre alugara um quarto por um tempo. Trai o noivo, João Eduardo, para ficar com Amaro. Aos poucos, passa a ter crises de consciência, que se manifestam em ataques de histeria. É fraca e, por mais que resista, não consegue livrar-se da influência de Amaro. Morre de hemorragia, logo após o parto.

A histeria, a propósito, aparece como moléstia diretamente relacionada ao sexo feminino e é fruto dos muitos distúrbios que, comumente, afligem a maioria das mulheres dos romances. Nos romances de Aluísio Azevedo e o de Júlio Ribeiro, as descrições de ataques de nervosismo são mais constantes e pormenorizadas.

2.3- A descrição do sintoma da Histeria pelos estudos de caso de Freud

O caso de Ana O. se tornou fundamental no desenvolvimento da psicanálise. Inteligente e atraente, Anna O, apresentava sintomas profundos de histeria, incluindo paralisia, perda de memória, deteriorização mental, náuseas e distúrbios visuais e orais. Os primeiros sintomas apareceram quando ele cuidava do pai, que sempre a mimara e estava morrendo. Dizem que ela nutria por ele uma espécie de paixão (ELENBEGER, 1970, p. 274).

A doença se agravou com a morte do pai, o que foi um trauma muito grande na vida da paciente. Seus sintomas eram bastante graves como paralisias dos membros sob a forma de contraturas, alterações da visão, sonambulismo, momentos de ausência da consciência, ou melhor, presença de um "outro estado de consciência" em que ficava agressiva e depois não se lembrava do havia acontecido.

Já a paciente Dora, já apresentava desde a infância sintomas histéricos. Com sete anos apareceu o primeiro sintoma conversivo, enurese norturna, passando, ao longo dos anos, por dispnéia, tosse nervosa, afonia, enxaquecas, depressão e insociabilidade histérica. Todos esses sintomas estavam relacionados a um recalcamento sofrido por Dora algum tempo antes.

No caso de Emmy Von N, foi à primeira tentativa de Freud utilizar o método catártico de Breuer. A paciente era uma histérica, de mais ou menos 40 anos, que tinha como sintomas: fala com interrupções espásticas, agitação incessante nas mãos, tiques, estalido com a boca. Freud também suspeitava de alucinações.

Em Miss Lucy R. - 30 anos, os sintomas se diferem um pouco. A paciente encaminhada a Freud por um colega médico que estava tratando a rinite supurativa desta paciente. Quando chega à Freud, Lucy já havia perdido completamente o olfato, sofria de analgesia no nariz e era perturbada constantemente por um cheiro de pudim queimado.

No caso de Katharina, a paciente lhe falou sobre seus sintomas de falta de ar, sufocação, etc. Pela descrição dos sintomas, Freud percebeu que Katharina sofria de crises de angústia. E a angústia, segundo Freud, é algo relacionado, nas moças, com "o horror de que mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade" (p. 153).

Elisabeth Von R, outro caso de histeria atendido por Freud, a paciente sabia a origem e causa precipitante da doença e a guardava como um segredo. Conforme a paciente ia falando de suas aflições e relacionando-as com as dores no corpo, Freud passou a se basear nas dores para saber se uma determinada história relativa ao sintoma já se havia esgotado. Se o sintoma não sumisse totalmente seria por que a paciente não falara tudo. A análise possibilitou a elucidação do mecanismo do sintoma. A carga afetiva é simbolizada e convertida para uma parte do corpo (p. 175).

Resumindo as considerações de Freud apresentadas neste texto, ele afirma que:

(...) a histeria é uma anomalia do sistema nervoso que se fundamenta na distribuição das diferentes excitações, provavelmente acompanhada de excesso de estímulos no órgão da mente. Sua sintomatologia mostra que esse excesso é distribuído por meio de idéias conscientes ou inconscientes. Tudo o que modifica a distribuição das excitações do sistema nervoso pode curar os distúrbios histéricos (p. 94).

2.4- Considerações Finais

Laplanche assim define a histeria em seu Vocabulário da Psicanálise:

A histeria faz parte de uma classe de neuroses que apresentam quadros clínicos muito variados. As duas formas mais bem identificadas são a histeria de conversão (em que o conflito psíquico vem simbolizar-se nos sintomas corporais mais diversos - exemplo: crise emocional com teatralidade ou outros mais duradouros como anestesias, paralisias histéricas, sensação de "bola" faríngica, etc.), e a histeria de angústia (em que a angústia é fixada de modo mais ou menos estável neste ou naquele objeto exterior - fobias).

Maria Clementina Pereira Cunha, historiadora brasileira que investigou as relações entre loucura e gênero feminino, cita, num ponto de seu estudo, práticas médicas utilizadas como estratégia de controle da sexualidade da mulher em casos de histeria: a injeção de água gelada no ânus, a introdução de gelo na vagina, a extirpação do clitóris ou dos órgãos sexuais internos, estão entre essas práticas.

Era sempre comum às protagonistas dos romances um sorriso pálido, uma mão trêmula, uma melancolia, um desmaio, um abatimento, uma volubilidade nervosa, um gesto convulso, uma febre intensa, um delírio, uma síncope, etc. Na maioria dos casos, o principal motivo que desencadeava toda essa série de reações era um amor impossível ou não correspondido.

Tais sintomas apresentados pelas personagens pouco se diferem dos apresentados por Freud em seus estudos, com relação às especificidades da sintomatologia histérica, Freud afirma que as manifestações são comumente exageradas: a dor é dita como extremamente dolorosa, a anestesia e/ou paralisia pode tornar-se absoluta, etc. No entanto, essas manifestações são limitadas e não respeitam a anatomia. Por exemplo, um braço pode ficar paralisado, enquanto a perna, ou mesmo a mão, mexem normalmente. Por isso, Freud afirma que a histeria funciona como se anatomia não existisse. Sendo assim, os sintomas excluem a possibilidade de lesão orgânica e não provocam alteração no corpo.

Entre as mulheres que sofriam de histeria, as crises nervosas eram mais corriqueiras e agravadas pela ausência do homem amado. Ausência que pode ser lida como entrave à realização de um “instinto nato” da mulher, a procriação. Mesmo se estabelecermos uma comparação entre os romances O homem e A carne, pode-se concluir que, entre os casos de histerismo retratados por ambos, o destino das personagens histéricas não aparece como incontornável. A menina Lenita, de A carne, ao contrário de Magda, do romance O homem, engravidou e encontrou um “homem vil” que a aceitou por esposa, apesar de ela já ser uma “mulher desonrada”. Ou seja, Lenita obteve a possibilidade de regenerar-se através da realização de duas missões essenciais então atribuídas à mulher por praticamente todos os romancistas: a de ser mãe e esposa.

Freud e Breuer falam sobre a Histeria em sua Comunicação Preliminar (1893) e, posteriormente, em seus Estudos Sobre a Histeria (1895):

"De maneira análoga, nossas pesquisas revelam para muitos, se não para a maioria dos sintomas histéricos, causas desencadeadoras que só podem ser descritas como traumas psíquicos. Qualquer experiência que possa evocar afetos aflitivos tais como os de susto, angustia, vergonha ou dor física — pode atuar como um trauma dessa natureza; e o fato de isso acontecer de verdade depende, naturalmente, da suscetibilidade da pessoa afetada (bem como de outra condição que será mencionada adiante). No caso da histeria comum não é rara a ocorrência, em vez de um trauma principal isolado, de vários traumas parciais que formam um grupo de causas desencadeadoras. Essas causas só puderam exercer um efeito traumático por adição e constituem um conjunto por serem, em parte, componentes de uma mesma história de sofrimento. Existem outros casos em que uma circunstância aparentemente trivial se combina com o fato realmente atuante ou ocorre numa ocasião de peculiar suscetibilidade ao estímulo e, dessa forma, atinge a categoria de um trauma, que de outra forma não teria tido, mas que dai por diante persiste". (Std. Ed. VolII pág.41)

3. Conclusão

"Os sintomas de afecções orgânicas, como se sabe, refletem a anatomia do órgão central e são as fontes mais fidedignas de nosso conhecimento a respeito dele. Por essa razão, temos de descartar a ideia que na origem da histeria esteja situada alguma possível doença orgânica..." (Freud S., Histeria, 1888 - Std. Ed. p. 85).

Em “Estudos sobre a histeria” (1895/1995), Freud coloca o cuidado e a atenção com outras pessoas, como uma submissão à demanda do Outro, como algo comum na vida dos pacientes antes dos sintomas histéricos. Essa forma de viver das mulheres da época justificaria a supressão das suas emoções para cumprir com seus deveres morais na sociedade e que estão dirigidos a outras pessoas. Segundo Freud, os sintomas histéricos significam a moção afetiva suprimida que é projetada para fora do corpo, através dos ataques histéricos, atribuídos na Antiguidade à sufocação da matriz. Assim, a sociedade e seus valores morais sobre a mulher podem ser pensados como causadores dos sintomas histéricos, o que tornaria mais claro o motivo da ocorrência maior em mulheres, uma vez que se sabe que o útero não se move de forma autônoma.

Pode-se ressaltar é que nos romances as “crises nervosas” sempre estam ligadas a algum desequilíbrio romântico, um amor impossível ou mal compreendido enquanto na Psicanálise existe um estudo mais profundo, com fundamentação teórica para sustentar a existência desta histeria, não se fixando a possíveis causas mais superficiais de amores não correspondidos.

Referências:

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CHEMAMA, R. (1995). Dicionário de psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas.

ELLENBERGER, Henri. A descoberta do inconsciente: a história ea evolução de Psiquiatria Dinâmica. New York: Basic Books, 1970

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LIBÓRIO, M. H. R. O Feminino – Fios de Alinhavo. In: A Psicanálise e seus destinos. II Fórum Brasileiro de Psicanálise, 1991.

QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. São Paulo: Editora Três, 1972

QUINET, A.A lição de Charcot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

RIBEIRO, Júlio. A carne. (1888) Rio de Janeiro; São Paulo; Belo Horizonte: Livraria Francisco Alves, 1938.

ROUDINESCO, E. (1998). Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar

VERONA, Elisa Maria. O romance, a mulher e o histerismo no século XIX. Histórica - Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, Ano 4, n. 32, ago. 2008. Disponível em: http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao32/materia06/. Acesso em: 06 mai. 2013.

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