Introdução ao Conceito de Histeria

Introdução ao Conceito de Histeria
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O conceito de histeria abrange muitas modalidades e graus de quadros clínicos dentro da categoria de “neurose histérica”, porém pode ser abordado sob outros vieses, como o de uma personalidade histérica (caracteriologia) ou ainda da presença de “traços histéricos”, que está presente em praticamente todas as personalidades normais ou psicopatológicas (Zimerman, 1999). Do ponto de vista psiquiátrico a histeria pode ser dividida em dois tipos: histeria conversiva e histeria dissociativa.

Alguns autores acreditam que a histeria se modifica conforme o contexto sócio-cultural vigente em cada época. A histeria é tão plástica proteiforme que de alguma forma, ela está presente em todas as psicopatologias, sendo que a compreensão dos psicanalistas deixou de ser unicamente da psicodinâmica dos conflitos sexuais reprimidos, mas também como uma expressão de problemas relacionados e comunicacionais (Zimerman, 1999).

Bergeret (2005) fala da estreita relação da histeria com o corpo. Ela (a histeria) leva plenamente em conta a onipotência da pulsão e assume suas consequências “da percepção vertiginosa de seu limite extremo, o desejo de desejo insatisfeito, a sua incorporação maior, a saber, a fantasia incestuosa. É nesse sentido que, com a histeria toda pulsão irá se tornar incestuosa” (Bergeret, 2006, p. 149)

Histórico da Histeria

A palavra histeria está em circulação há mais de dois mil anos. Desde a antiguidade e em particular com Hipócrates a histeria já era usada para designar transtornos nervosos em mulheres que não haviam tido gravidez. Em manuscritos egípcio muitos séculos mais antigos que a acepção de Hipócrates, aparece uma doença identificável correspondente ao termo.

A palavra histeria – histeros, que em grego significa útero – ao longo da história estava, por definição, ligada de forma indissociável ao feminino e com o sexual. Na Idade Média a Histeria passou a ser definida como possessão pelo demônio.

Charcot, no século XIX, soube distinguir a histeria da epilepsia mas ainda classificava a histeria como um transtorno fisiopático do sistema nervoso. Ele investigava a histeria através da hipnose.

Porém foi durante as aulas de Charcot que Freud ficou intrigado com o fato de que a histeria, embora não demonstrasse nenhuma perturbação neurológica orgânica, não se caracterizava como fingimento e notou, ainda, que a histeria não se apresentar somente em mulheres.

Depois de Charcot, Babinsky com quem Freud também estudou, sublinhando a sugestibilidade e cunhando o termo “pitiatismo”, permitiu separar o que pertence à Psiquiatria e o que concerne à neurologia.

Janet concebia a histeria como tratando-se essencialmente de uma diminuição da tensão psíquica que pode ser provocada por choques emocionais e recordações traumáticas

Histeria na Psicanálise

A histeria, como o próprio inconsciente, tem um jeito todo seu de guardar segredos. A Psicanálise, de certa forma, surgiu como uma consequência lógica de perguntas sobre sexo, conflito e poder que a histeria apresentou ao longo dos séculos, e ela tem uma maneira própria de colocá-las em prosa, em histórias próprias. (Borossa, 2005).

Na Europa do século XIX a histeria viria a ser a doença do momento, coincidindo com as profundas mudanças que afetaram a estrutura familiar sob a pressão da industrialização, quando os papéis de homens e mulheres se polarizaram como nunca.

Embora não fosse manifestamente culpável, o paciente histérico era estigmatizado por seus sintomas, era um suspeito, oriundo de uma linhagem talvez suspeita. Existia ainda a suspeita de que o ser humano era dividido num eu consciente, moral e em alguma outra coisa, problemática, irracional, que precisava ser contida.

Entre os sintomas clássicos das manifestações histéricas encontravam-se:

  • sensação de sufocação,
  • tosse,
  • acessos dramáticos,
  • paralisia dos membros,
  • desmaios,
  • incapacidades repentinas de falar,
  • perda de audição,
  • esquecimento de língua materna,
  • vômitos persistentes; e
  • incapacidade de ingerir alimentos.

No século XIX, em um mundo predominantemente patriarcal, “a histeria passou a incorporar a própria feminilidade como problema e enigma” (Borossa, 2005, p. 5).

O encontro de Freud com a histeria e com a histérica está na origem da Psicanálise. Ele, em um mundo patriarcal, ousou ouvir a histérica, e via na histeria uma manifestação psíquica, como uma forma de significar o corpo e o mundo. Ele pôde perceber o “valor do sintoma” e estuda-los sob uma nova óptica.

A histérica foi considerada vítima das condições sociais opressivas ou rebelde, por contestar aquelas condições cujo comportamento estranho, perturbador, exprimia um sentimento de desconforto profundo e/ou um protesto contra as limitações de sua situação (Borossa, 2005)

Em Estudos sobre Histeria (1905), Freud e Breuer apresentaram três pontos fundamentais da Histeria: os sintomas histéricos faziam sentido; existia um trauma que causara a doença, que tinha ligação com impulsos libidinais que haviam sido reprimidos; a lembrança desse trauma e sua catarse era o caminho para a cura.

Com a lembrança das histórias que estavam por trás dos sintomas estes seriam eliminados através da sugestão. No final do livro Estudos sobre Histeria, no caso de Elizabeth Von R., Freud chega à noção de um conflito entre dois impulsos contrários, o que acarreta nos sintomas histéricos e traz junto a idéia de recalque já que aquelas idéias não são lembradas.

Vem depois a ideia de uma sexualidade problemática, onde o desejo entra em contradição com a incapacidade de realização.

Os sintomas da Histeria eram manifestações físicas de queixas que não tinham expressão” (Borossa, 2005)

A histeria, ao mesmo tempo em que era um sofrimento e uma passividade, era uma forma de fugir da realidade, ou de pelo menos se abster das obrigações que essa realidade impunha.

A histérica, de acordo com Freud, é aquela cujas fantasias não lhe permitiram entre ser menino ou ser menina. Elas querem mas não conseguiram assumir as responsabilidades desse querer. 

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