O Brincar na Estrutura e na Direção do Tratamento: uma Leitura Psicanalítica

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Resumo: Este artigo é resultante de uma investigação teórica sobre o tema do brincar, pensada a partir de um caso atendido na Clínica Escola da UFMG. O brincar é aqui discutido abordado a parti do texto de Freud: Além do princípio do prazer (1920), acrescido de algumas contribuições da teoria de Lacan. A partir da discussão de fragmentos de um caso clínico, este artigo discute a importância do brincar na estrutura e na direção do tratamento das crianças.

Palavras-chaves: Criança, Brincar, Simbolização

1. Introdução

A ciência do inconsciente intitulada psicanálise, tem como fonte de informação a fala do paciente. Dessa forma, a regra fundamental que a psicanálise utiliza é a associação livre, que permanece como a única condição imposta ao analisante na direção do tratamento.

Logo, a psicanálise tem uma relação imediata com a linguagem. O próprio Freud aponta para uma estreita relação existente entre a psicanálise e linguagem. Para Freud, o psicanalista não tem outro meio para alcançar e explorar o psiquismo do sujeito senão pela própria fala do próprio. No entanto, para o psicanalista, o discurso vai além do que o sujeito diz, do dizer propriamente explicito, a fala carrega consigo o não dito e o dito entre linhas.

Para a psicanálise, o sintoma apresenta uma vertente da linguagem e outra do gozo. A vertente da linguagem foi assim descrita por Lacan:

“o sintoma psicanalisável é sustentado por uma estrutura idêntica à estrutura da linguagem. Isto se refere ao fundamento desta estrutura, ou seja, à duplicidade que submete a leis distintas os dois registros que aí se consagram: o do significante e o do significado. A palavra registro designa aqui dois encadeamentos tomados na globalidade e a posição primeira de sua distinção, a priori suspendendo de exame toda eventualidade de fazer registros se equivalerem termo a termo.” (LACAN, 1998: 444)

A partir do já exposto, é possível inferir que na análise é preciso fazer com que o sujeito fale, uma vez que, é por meio da mediação da fala que o inconsciente se manifesta e promove, de certa forma, o rearranjo da libido do sujeito. É por meio de uma fala dirigida ao analista, que na verdade do inconsciente emerge. Nessa abordagem do inconsciente, o sintoma é endereçado a um outro, como uma mensagem que busca ser decifrada. Assim, o inconsciente, enquanto transferencial, emerge como resultado desse endereçamento. Mas existe uma outra vertente do sintoma, enquanto aquilo que resiste à simbolização.

2. O Caso Clínico e uma Interpretação

O caso clínico aqui abordado trata de uma mãe que buscou o serviço de psicologia queixando-se de que seu filho estava com depressão; reclamava de muita dor; não tinha amigos na escola nem fora dela; foi diagnosticado com grave déficit de atenção; tinha muita dificuldade de aprendizagem; sofria com o fato de os pais viverem separados, além de ser apático, triste, não gostar de brincar, ter a auto- estima baixa. A partir do acolhimento da angústia e das queixas dessa mãe, a supervisão abriu-me a possibilidade de conduzir este caso tomando a criança como um sujeito, portanto, oferecendo a escuta à criança, para que ela pudesse construir a própria demanda de tratamento.

Nessa perspectiva, a escola de Lacan vem nos ensinar que não há especificamente uma psicanálise de adulto e outra de criança, mas há uma psicanálise que trabalha com sujeitos do Inconsciente.

Todavia, um primeiro diferencial da análise de um adulto para a de uma criança, é que esta sempre chega através de um outro, normalmente os pais. A escuta dos pais, nas entrevistas preliminares, é importante, uma vez que permite verificar que lugar aquele filho ocupa no desejo e no discurso de seus pais, quais as fantasias que eles têm sobre a criança. Para posteriormente, ao ouvir a criança, buscar saber como ela responde a esse lugar ao qual é convocada a ocupar. Ou seja, para a realização da análise com criança, é necessário fazer uma distinção entre o que os pais dizem ao analista, que corresponde às suas fantasias e ao seu desejo, e entre o que este filho diz, como ele responde ao que lhe é endereçado pelo Outro.

A psicanálise deve apostar no advento do sujeito, mesmo quando ele se coloca como objeto da fantasia de um Outro. A psicanálise, portanto, deve levar à separação da criança da posição de objeto da fantasia do Outro, para que ela possa surgir como sujeito do próprio desejo.

No caso da criança em questão, que nomearei como Carlos, o início da separação com relação ao Outro pode ser localizado quando ele mesmo propõe, depois de algumas sessões, as brincadeiras e os jogos, o que faz pensar no surgimento de uma cadeia de significantes, um significante remetendo a outro significante, solicitando, também, a participação da analista nas brincadeiras.

Carlos aparecia no discurso da mãe como um menino “frágil", doente, deprimido, que precisava ser medicado. Essa fragilidade, segundo a mãe, estava relacionada à separação do casal. A aparente preocupação com a doença do filho vai dando lugar, durante o processo de tratamento, a uma falta de implicação dela no tratamento do filho, que se manifestava pelas faltas constantes às sessões. A hipótese levantada na supervisão foi a de que essa criança parecia ser utilizada pela mãe como um objeto, que, com a sua suposta “fragilidade", deveria unir os pais. Como a criança não atende a essa demanda da mãe, o tratamento pela palavra passa a ser uma ameaça para ela.

Durante o brincar sob transferência foi possível identificar o jogo de esconde-esconde que me remeteu ao jogo do Fort-Da descrito por Freud Sobre o fundo da presença-ausência, a criança apropria-se da simbolização, através do jogo. Ela experimenta a ambivalência em relação à mãe como presença de que quer se livrar (fort); como ausência que a impulsiona a chamá-la para perto de si (). Assim, na análise do jogo do “Fort-Da", Freud considera o jogo, além dos desejos da criança, como uma forma de elaboração e experiências penosas e introduz o conceito de compulsão de repetição. A partir do estudo do jogo do Fort-Da, Freud conclui, em seu texto de 1920, Mais além do Princípio do Prazer, que

“... as crianças repetem experiências desagradáveis pela razão adicional de poderem dominar uma impressão poderosa muito mais completamente de modo ativo do que poderiam fazê-lo simplesmente experimentando-o de modo passivo. Cada nova repetição parece fortalecer a supremacia que buscam. Tampouco podem as crianças ter suas experiências agradáveis repetidas com frequência suficiente, e elas são inexoráveis em sua insistência de que a repetição seja idêntica" (1976, p. 52)

Relacionando o Fort-Da ao segundo tempo do Édipo, tem-se que, a partir da simbolização das idas e vindas da mãe, a criança deixa de ser um objeto primordial para o Outro para ser um símbolo. Assim, está em jogo o abandono de uma identificação, a criança deixa de ser o falo materno para se submeter à Lei paterna e, posteriormente, retomar o processo identificatório a partir da problemática de ter o falo, por meio da constituição do Ideal do eu.

Para Freud, a criança brinca porque deseja. O brincar nas sessões desta criança mostrou o desligamento contínuo que a mesma fazia do Outro. Em Lacan (1998), o brincar é um ato, surgido como efeito da estruturação significante do Sujeito. O Sujeito, enquanto tal, só é constituído a partir da fundação da experiência do Inconsciente, que por sua vez é estruturado como uma linguagem Para Lacan, o brincar é o momento em que a criança nasce para a linguagem.

Para Lacan (1998), é justamente no jogo que a criança recebe e se compromete com o sistema linguístico exterior a ela. Surge assim o Sujeito da Fala, Sujeito que consegue realizar a conexão entre a representação e o significante Além disso, “esse momento, que é também o momento da integração subjetiva da representação, é dificilmente concebível sem o significante, nem em outro lugar que não em um sujeito, no único sentido que damos a esse termo, de um sujeito que fala" (Id.ibid.; 111). O brincar, portanto, é uma atividade simbólica, que precede e acompanha o surgimento da palavra.

Na análise com crianças o que importa é o brincar e não o brinquedo, visto que o brincar é que se configura como uma atividade que lança a criança no campo do Outro, através da simbolização. Ao mesmo tempo, aponta para a separação do Outro materno. Ou seja, o brincar, associado à palavra, ilustra um tempo lógico em que a criança apropria-se dos significantes vindos do campo do Outro, inaugurando uma distância com relação à demanda do Outro.

Como adverte Ferreira (1999), o jogo não tem uma significação a ser desvelada pelo analista, mas faz irromper o significante Ele não pode ser tomado no lugar da palavra, mas como um apoio a ela. É o enlace entre o brincar e a palavra que nos interessa na clínica (Ferreira, 1999, p. 106). É nesse sentido que podemos tomar o brincar como suporte significante

Carlos, ao brincar, constrói uma significação própria ao desejo do Outro, constrói as próprias fantasias, separando-se da posição de objeto da fantasia materna. Através dos jogos e da fala, Carlos expressa a sua dificuldade em perder, a raiva que sente por ser usado como "peça" pela mãe, começa a desqualificar todas as mulheres (inclusive a analista) e a valorizar o pai, buscando identificar-se com ele. Diz que não brinca mais com a mãe, só com o pai. Nesse momento do tratamento, trava-se uma disputa entre os pais pela guarda da criança, que fica de casa em casa, muitas vezes “sozinho", “jogado", ou sob os cuidados de uma tia. Carlos fala dos medos através do medo “do bicho de pé" (que o pai teve) e começa a utilizar com frequência o significante “roubar” nos jogos, acompanhado de forte sentimento de raiva. Quando a analista ganha uma partida do jogo, ele diz que ela está roubando. Ao mesmo tempo em que mostra sua dificuldade em “perder", estaria ele se referindo ao uso que os pais fazem dele e do sentimento de se sentir usado, “roubado” por eles?

3. Considerações Finais

Por meio deste fragmento do caso mencionado, percebe-se uma evolução do caso. As queixas da mãe não foram confirmadas, ao contrário, a suposta “passividade da criança" deu lugar a uma forte atividade, e até, certa agressividade. Assim, a posição da criança diante do Outro foi se modificando ao longo das sessões, marcando uma diferença entre o discurso da mãe e o da criança. O brincar na situação analítica, sob transferência, possibilitou a ele um espaço para transitar entre o real e o imaginário, e, a partir daí, construir seus significantes. Foi, portanto, a possibilidade do brincar, de acordo com as próprias necessidades, uma característica fundamental da experiência analítica. O brincar, associado à palavra, foi o motor dessa mudança de posição do sujeito, que pôde se descolar dos significantes que o nomeavam, não mais identificado com eles. Mas, infelizmente, essa mudança de posição da criança teve como resposta da mãe a interrupção do tratamento.

Sobre os Autores:

Juliana Leila Campos - Possui graduação em Psicologia pela UFMG (2012) e pós graduação em Psicologia Fenomenológica/Existencial (2015) e está concluindo a especialização em Intervenção Psicossocial em Políticas Pública.

Nádia Laguárdia de Lima - doutora em Educação pela UFMG, Mestre em Educação pela UFMG, Especialista em "Docência do Ensino Superior" (CNP), Especialista em "Clínica e Saúde Mental" (CNP) e Graduada em em Psicologia pela UFMG

Referências:

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998

VIDAL, Maria Cristina. Questões sobre o brincar. In: Letra Freudiana, ano X, nº 9, s.d.

FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1976. V. XIX.

_________Recordar, Repetir, Elaborar (1914). Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1976. V. XII.

_________A dissolução do complexo de Édipo (1924). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1976. V. XIX.

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