O que Fica Quando Acaba: uma Abordagem Psicanalítica Sobre as Separações Amorosas

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A temática do amor é recorrente e há séculos vem sendo interpretada, significada e ressignificada – pela literatura, pelas religiões, pela filosofia. Platão o definia como a completude e falta, Jacques-Alain Miller sustenta que ao amar, a pessoa acredita que alcançará uma verdade sobre si, enquanto Sigmund Freud profetizava que precisamos amar para não adoecer [01].

Antes de se adentrar o amor propriamente dito, a Psicanálise buscou definir a pulsão, conceito bastante difícil e não unânime entre os teóricos, mas fundamental para entender o lugar que o amor ocupa na vida dos homens. A pulsão estaria localizada na fronteira entre o mental e o somático - representando psiquicamente os estímulos que se originam no corpo, alcançando a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com o corpo.

Diferentemente do instinto animal, a pulsão possui uma plasticidade em relação ao seu objeto. Além de um objeto, a pulsão se caracterizaria por possuir uma pressão), uma meta e uma fonte, sendo uma representação psíquica complexa. Em 1920 Freud amplia essa compreensão, passando a definí-la como algo anterior a representação psíquica das estimulações somáticas, que objetiva rebaixar completamente as tensões e por isso conduziria o organismo ao estado anterior à vida, ao inorgânico.

Há uma belíssima metáfora na mitologia que nos faz melhor compreender a amálgama entre as pulsões. No mito grego, Eros é deus do amor e Thanatos, o deus da morte. Eros, o mais belo dos deuses, possui arco e flecha com os quais enlaça de amor homens, mulheres e deuses e certo dia, ao adormecer numa caverna, embriagado por Hipno (deus do sono, irmão de Thanatos), suas flechas se espalharam, misturando-se às flechas da morte. Ao acordar, recolheu-as, levando, sem querer, algumas que pertenciam a Thanatos, passando, assim, a portar flechas de amor e morte [02].

André Green compreende Eros por meio da noção de corrente erótica, que tem o seu momento originário na pulsionalidade, estende-se nas manifestações de prazer-desprazer, expande-se no movimento de expectativa e busca de objeto, organiza-se sob a forma de fantasias inconscientes e conscientes e enraíza-se no campo das sublimações. Ampliando um pouco mais essa reflexão, Freud situa a libido  como  manifestação  da sexualidade na vida psíquica, representação das pulsões de vida nas dinâmica da função sexual. Eros e libido também aparecem, na maioria das vezes, como sinônimos: libido é a energia total disponível de Eros.

Partindo dessa constatação e da teoria freudiana dos instintos, pode-se concluir, na esteira de Herbert Marcuse, que a história do homem é também a história de sua repressão, pois, desde o estabelecimento da civilização, a vida humana passou a ser mediada por um conflito permanente entre dois pólos: Eros, que representa a vida e os instintos sexuais, e é governado pelo princípio do prazer que impulsiona o ser humano na superação da repressão para obter satisfação e desfrutar de atividades lúdicas; e Thanatos, que representa a morte e os instintos de autopreservação, e é regido pelo princípio da realidade, que leva o ser humano a adiar o prazer, buscar a segurança e desempenhar atividades produtivas. Em Eros e Civilização, o filósofo se dedica ao estudo do mito de Narciso, antagonista de Eros e símbolo da existência hedonista - ele dirige todo seu amor a si mesmo, desprezando a afeição alheia, buscando toda admiração possível e obtendo dela seu próprio prazer. Por causar paixões e sofrimentos aos quais se mostrava insensível, Narciso foi castigado por Afrodite, a deusa da beleza e do amor: apaixonou-se pela própria imagem refletida em um lago e renunciou à vida afogando-se em suas águas [03].

Em seu ensaio Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância e no caso Schreber, Freud avaliou o narcisismo como um estádio normal da evolução sexual, mas somente a partir do “Sobre o narcisismo: uma introdução”, é que ele passou a ocupar importante lugar na teoria do desenvolvimento sexual, com a idéia do narcisismo primário infantil, que seria a escolha da criança por si como objeto de amor, num momento precedente àquele em que se voltará a objetos externos. É importante notar que as escolhas amorosas da vida adulta seriam uma atualização dessa relação primária com as figuras parentais - a busca pelo objeto de amor representaria uma tentativa de recuperação do narcisismo infantil, o retorno à sensação ilusória de completude vivenciada em sua relação primitiva com seu cuidador [04].

O ser humano, para o pai da Psicanálise, teria originalmente dois objetos sexuais: ele próprio e a mulher que cuida dele – o outro seria o objeto que funcionaria como complemento ao narcisismo do indivíduo. A paixão, portanto, se classificaria como uma doença narcísica, onde o sujeito buscaria sua completude através de um objeto idealizado.

Na primeira fase da criança, geralmente nos primeiros cinco anos de idade, as pulsões sexuais são unificadas, se satisfazendo em uma das figuras parentais, que constitui o seu primeiro objeto de amor [05]. O recalque, entretanto, entra em ação, fazendo com que ela seja obrigada a renunciar aos seus objetivos sexuais, o que acaba por modificar sua relação com seus pais.

As pulsões sexuais são inibidas em seus objetivos e preservadas no inconsciente, passando a criança a se relacionar com os pais por emoções afetuosas. A corrente afetiva é, portanto, espécie de sexualidade recalcada a dirigir-se aos pais, familiares ou aos cuidadores. Novos impulsos sexuais surgem na puberdade e essa corrente tende a investir e buscar satisfação através dos objetos da escolha infantil primária, entretanto esses impulsos esbarram no interdito do incesto, buscando, assim, investir em objetos estranhos com os quais seja lícito obter uma satisfação sexual. Esses novos objetos, então, constituem substitutos eleitos no modelo dos objetos primários.

Observa-se, com frequência, que a partir da puberdade o adolescente efetua uma síntese entre a corrente sensual e a corrente afetiva, e a sua relação com o objeto sexual se dá pela interação entre as pulsões desinibidas e as pulsões inibidas em seu objetivo [06].

A interdição do incesto, fundante da perda do objeto primário faz com que todos os objetos posteriores eleitos sejam meros substitutos do objeto original, não tendo, nenhum deles, o condão de satisfazer plenamente o sujeito, o que talvez explique ‘a fome de estímulo’ tão comum na vida amorosa dos adultos e a busca incessante pela completude através do amor.

É certo, também, que as exigências das pulsões sexuais são incompatíveis com as imposições da civilização. Freud assinalava que o homem não poderia evitar o sofrimento e as renúncias próprios do desenvolvimento cultural da sociedade, surgindo daí uma espécie de não-satisfação inerente à civilização, sendo certo, também, que acaso fosse possível à pulsão sexual alcançar satisfação plena, certamente o homem não distribuiria sua libido a realizações tão indispensáveis ao progresso da humanidade [07].

Conforme dito anteriormente, as relações amorosas que travamos ao longo da vida adulta buscam reproduzir as experiências vividas na infância e essa tentativa ilusória de buscar no objeto da paixão amorosa a completude narcísica anteriormente perdida é, para Freud, a mais importante característica da Verliebtheit [08]. O apaixonado quer a todo custo reconquistar o paraíso perdido de sua infância.

Antes mesmo de construir uma teoria da sexualidade infantil, Freud já havia aludido ao desamparo inicial do ser humano, onde ele se depararia com ameaças do próprio corpo, condenado à decadência e dissolução, do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças esmagadoras e impiedosas; e finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens [09] - restando ao sujeito a tentativa de “gerir” esse mal estar, constituindo destinos eróticos e sublimatórios para a pulsão [10].

A primeira etapa do processo de amor corresponde à sedução que uma pessoa provoca em nosso desejo e a segunda, a resposta que damos a essa sedução, quando nos apegamos a ela e a incorporamos, fazendo dela, parte de nós. Posteriormente, cobrimos a pessoa com várias imagens sobrepostas de amor, ódio ou angústia e a fixamos de maneira inconsciente, através de várias representações simbólicas, ligadas a uma característica sua que nos marcou. Todas essas imagens e significantes que fazem essa ligação entre o amado a mim e o transforma em “duplo interno”, podem ser chamadas de fantasia [11]
A fantasia do amado tem a finalidade de impedir a satisfação plena do desejo, instalando a insatisfação e garantindo a estabilidade do aparelho inconsciente. Desse modo, podemos dizer que a fantasia [12] nos protege do que seria o caos pulsional - o risco que ocasionaria uma agitação desmedida do desejo.

No início da fase de apaixonamento, alguns indivíduos passam a encarar o companheiro como imprescindível na luta contra o retorno de uma parte recalcada, fazendo com que o outro - objeto a ser possuído e controlado- transforme-se em traidor, caso consiga existir fora da relação.

A ruptura de uma relação amorosa, com todas as vicissitudes inerentes a esse momento, é percebida como ferida ao narcisismo do sujeito. Constatar que o ex- companheiro tem apresentado certa habilidade para gerir sua vida após a separação, é encarado, por alguns, como algo ofensivo, afrontoso, sobretudo por aqueles que depositam nas relações afetivas seus anseios fusionais [13].

O término de um relacionamento amoroso [14], apoiado na expectativa de debelar o desamparo, provoca intensa emoção e uma tentativa de manter um rígido controle sobre o outro, não reconhecido em sua alteridade. Quando o relacionamento se rompe, o trabalho necessário para recuperar o equilíbrio emocional e existencial requer um dispêndio de energia psíquica, e esse dispêndio, não raramente, provoca enorme deterioração do sujeito, tal qual o luto. Caruso, em sua obra A Separação dos Amantes: uma Fenomenologia da Morte, afirma que estudar a separação amorosa importa em analisar a presença da morte na vida, como se houvesse um luto por um amor vivo.” [15].

Tendo em vista que a perda do objeto amoroso na vida adulta remete a uma perda infantil e que a paixão surge como tentativa de suprir essa falta, parece correto afirmar que a paixão, em verdade, se origina da separação e que a perda é uma condição permanente da vida humana.

O que fica quando o relacionamento acaba é o luto profundo - estado de espírito em que o interesse pelo mundo externo cessa, onde se perde a capacidade de substituir o objeto de amor e onde, não raramente, se experimenta um desejo de reparar a perda, destruindo o objeto até então, internalizado como “bom”.

Sobre a Autora:

Tânia Nigri é psicanalista pelo Centro de Estudos Psicanalíticos.

Referências:

BARROS E SILVA, M. H. (2002). A paixão silenciosa: uma leitura psicanalítica sobre as paixões amorosas. São Paulo: Escuta.)

BIRMAN, Joel. O mal-estar na modernidade e a psicanálise: a psicanálise à prova do social. Physis,  2009. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
73312005000300010&lng=en&nrm=iso>. accesso on03 Abril, 2009. doi:10.1590/S0103-73312005000300010.

CARUSO, I. A Separação dos Amantes: uma Fenomenologia da Morte. São Paulo: Cortez, 1981.

FERREIRA GOMES MOURA, Danielle. A Paixão Amorosa e a Fantasia. “Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicanálise da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do Título de Mestre em Psicanálise. ”Orientador: Marco Antonio Coutinho Jorge. RIO DE JANEIRO, OUTUBRO DE 2007

MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização apud PENSATA – EROS E NARCISISMO NAS ORGANIZAÇÕES Ana Paula Paes de Paula disponível in http://www.scielo.br/pdf/raeel/v2n2/v2n2a08.

MEGANE RODRIGUES, Samara. Eros e Tânatos: nossas porções de vida e morte in http://www.rodadepsicanalise.com.br/2013/11/eros-e-tanatos-nossas-porcoes-de-vida-html

NASIO, Juan-David. O livro da dor e do amor. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

PAULA FERREIRA, Elen. A SEPARAÇÃO AMOROSA: UMA ABORDAGEM PSICANALÍTICA in http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/15/p&brev15ferreira.pdf

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