Pedofilia e Perversão Sob o Olhar Psicanalítico

(Tempo de leitura: 12 - 24 minutos)

Introdução: O presente artigo propõe-se investigar a trajetória do conceito de perversão na psicanálise freudiana, que se estende como destino polimorfo e outra versão dos instintos, da fenomenologia e do discurso perverso à estrutura clínica. Neste último, produto do desmentido, ou seja, da castração desmentida pelo sujeito, do desmentido da inscrição da lei do pai, que é responsável pelas leis sociais. Antes de tudo, é preciso apontar que no caso da estrutura perversa, o desejo na modalidade narcísica é o único que existe em contraste com o desejo do outro que é desconsiderado. Por exemplo, ao se observar casos de pedofilia e sua dinâmica de gozo, pode-se inferir que, por apresentar traços fetichistas, há somente um objeto para satisfação sexual: a criança, logo, não há limite para o desejo e, então, a atuação é consumada, pois o outro é apenas um objeto disponível ao gozo perverso. O objetivo deste estudo é analisar as possíveis contribuições que a pesquisa psicanalítica pode dar à investigação da associação entre perversão e pedofilia, inferindo as principais características da perversão, do ato e a constituição psíquica do perverso e suas expressões fenomenológicas na pedofilia.  O método utilizado para formação será a pesquisa exploratória e seu recurso bibliográfico (revisão bibliográfica) a partir da literatura psicanalítica. Isto é, foi realizada a coleta de dados através de livros e materiais científicos referidos ao tema da possível articulação entre pedofilia e perversão. Os resultados encontrados possibilitam enxergar a pedofilia como um tema velado por muito tempo e que pode ser encaixado na fenomenologia das perversões, o sintoma de ignorar o respeito à liberdade e o desejo alheio, excedendo na satisfação pessoal perversa, aponta para esse encaixe. A pesquisa nos revelou que o sujeito perverso percebe a lei social, em outras palavras, mas a montagem do seu discurso e dos seus atos é da ordem do desmentido, por isso está no mundo para ver, gozar e mostrar sua satisfação em detrimento do outro. Assim, faz-se regra desmentir a alteridade.

Palavras-chave: Pedofilia, Perversão, Psicanálise.

1. Introdução

O crescente aumento de crimes de pedofilia tem mobilizado a sociedade contra essa parafilia. Dada à importância do tema, pretende-se investigar a possível associação entre a pedofilia e a perversão. Possivelmente, o termo perversão é sempre acompanhado de discursos e pensamentos moralistas por ter, por exemplo, a mesma origem da palavra perversidade.

Em contraste com essa tendência pretende-se percorrer o conceito psicanalítico de perversão e o enlace entre a pedofilia e a perversão, seguindo uma tríade já conhecida da psicologia: primeiro os aspectos psicológicos e psicanalíticos da vítima e do agressor; segundo o aspecto social, já que o abuso sexual é um crescente na sociedade e terceiro o aspecto jurídico, que se refere à legislação pertinente aos casos da violação.

O trabalho tem como objetivo principal analisar a perversão na sua expressão fenomenológica e sua relação com a pedofilia na perspectiva da psicanálise freudiana. Para tal finalidade, foi utilizada a pesquisa exploratória através de levantamento bibliográfico.

Os temas tratados estão divididos em quatro subtópicos. Cada um apresenta, de maneira mais aprofundada, a problemática do assunto escolhido. No início, a abordagem do tema apresenta o termo “perversão” a partir da trajetória desse conceito na obra de Freud. No segundo momento, a preocupação é em articular o conceito de perversão nas suas expressões fenomenológicas e estruturais. No terceiro momento, apresenta-se a articulação do termo perversão com o ato da “pedofilia”.

A pesquisa é importante na medida em que fornece certo conhecimento que não é absolutamente difundido quanto aos atos perversos no que diz respeito não apenas a sexualidade, e sim aos atos perversos como expressão da pulsão de morte e das diversas formas de desmentido, o que pode, também, subsidiar os estudos e a pesquisa em Psicologia Jurídica. Este acréscimo da pesquisa psicanalítica sobre perversão ao oferecer base teórica às investigações criminais, nos casos de crime contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes, ajuda a fornecer conhecimentos quanto às motivações que levam um indivíduo a cometer tal transgressão.

De modo geral, todos os trabalhos científicos são elaborados a partir de um alicerce teórico, porém, há trabalhos que são exclusivamente utilizados esse meio para o levantamento das informações. Portanto, a pesquisa realizada é de cunho bibliográfico, isto é, é realizada a coleta de dados através de livros e materiais científicos referidos ao tema da pedofilia e perversão segundo a abordagem teórica psicanalítica.

2. A Trajetória do Conceito de Perversão nas Obras de Freud

Desde as primeiras referências à perversão, Freud [01] a considerava uma expressão e experiência de prazer, natural e sadia da sexualidade. Assim, a perversão é uma condição humana em busca do prazer, deixando de ser vista como patologia, portanto todo sujeito humano é perverso. O que faz com que seja considerado patológico é a fixação objetal, é o sujeito ficar preso a um determinado objeto, um estado de desprazer, expandindo o estado de sofrimento (CORRÊA, 2006).

De certo, ao rastrearmos as aparições do tema da perversão na obra de Freud, constatamos que ele foi passando por sucessivas e significativas alterações. A princípio, ele apontava a perversão como uma saída, em oposição ao sofrimento neurótico. A noção da neurose como negativo da perversão continuará presente ao longo da obra. Assim, a primeira aproximação ao tema foi relacionada à teoria da sedução e ao axioma “a neurose é o negativo da perversão”. A segunda aproximação aparece nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” que se relaciona com a teoria do complexo de Édipo, núcleo não apenas das neuroses, mas, também, das perversões. A terceira aproximação, no qual muitos autores particularmente os Lacanianos veem a verdadeira essência da perversão, quando a figura da recusa da castração ganha à cena, associando-se à consequente noção de clivagem do ego (CHASSEGUET-SMIRGEL, 1991). Com toda certeza, todas as aproximações têm como elemento central a noção de pulsão, conceito importante na metapsicologia freudiana que aponta para a economia psíquica das perversões.

Na primeira aproximação, fica marcada uma relação de negativo/positivo entre perversão e neurose, mostra-se, ainda, bastante impregnado pela sexologia do século XIX, da qual, aliás, o próprio termo perversão foi retirado (FERRAZ, 2010). Freud definia a perversão como um desvio sexual relacionado ao ato de reprodução. Sendo assim, a sexualidade era vista como um feito perverso. Por fugir do processo de procriação e servir apenas como satisfação sexual. Sendo assim, a perversão seria, em uma palavra, a manutenção da sexualidade infantil perverso-polimorfa na vida adulta (FERRAZ, 2010).

Na segunda aproximação, relaciona-se com a formulação do complexo de Édipo e com a dinâmica das identificações. A perversão herda a carga libidinal que pertencia ao complexo de Édipo, podendo ainda, como ocorre no caso do masoquismo, onerar-se pela culpa a que está ligada, o que explica o gozo obtido a partir de fustigações e sofrimento. Freud monta a concepção de que o fetiche no perverso passa a ser o único objeto para satisfação da libido (FERRAZ, 2010). Segundo Chasseguet-Smirgel (1991), é nesse ponto que podemos começar a ver que a perversão se constitui como uma tentativa de se erguer uma barreira contra a psicose, deixando um pouco para trás a figura conceitual de mero “negativo da neurose”.

Na terceira e definitiva aproximação, Freud apresentou o mecanismo de recusa da castração essencial à formulação ulterior da perversão. A saída encontrada na formação da estrutura perversa nada mais é que um meio de contornar a realidade inevitável da castração. O ponto principal da estruturação perversa se passa pela negação (Verleugnung) da castração no outro, mecanismo que atua na montagem do ato e do discurso perverso. Se ele se dá conta de que há sujeitos fálicos e, ainda assim, castrados. Por outro, ele nega essa realidade, e conserva o falo no fetiche. Por esse motivo a não submissão do desejo do outro. O único desejo que importa para o perverso é o seu. Certamente, quanto maior a violação às leis, mais dono do desejo ele se sente (FERRAZ, 2010). Só para ilustrar, descrevo fragmento de um caso apresentado pela psicanalista Edilene Queiroz (2004, p. 60):

 [...] o excesso vivido no real deixou fortes marcas no seu aparelho psíquico e pouco conseguiu representá-lo, a não ser por meio da ameaça real de a potência poder faltar-lhe... a ameaça da castração era vivida como uma presença quase real e constante, como uma onda que o tomava, só havendo um caminho – desmenti-la por meio do ato para não sucumbir a ela.

Com o propósito de melhor entender o percurso do conceito de perversão em Freud, é necessário resgatar o primeiro modelo conceitual para integrá-lo a um modo global de concebê-la, onde também se incluam as peculiaridades do conflito edípico e os mecanismos presentes na formação do fetiche, traçando, assim, um corpo teórico que organize coerentemente os três modelos que se encontram em sua obra. Do primeiro modelo freudiano é importante recuperar o papel da regressão sádico-anal na formação da perversão.

Recorrendo aos textos mais antigos de Freud, especialmente os três ensaios, de 1905, em que suas intuições iniciais sobre este fenômeno já adivinhavam o que ele viria a constatar e definir, posteriormente, em outros termos deparamo-nos com formulações fundamentais, tal como a de que a analidade e o narcisismo dominam a solução perversa. Por certo, esta atitude de valorização dos escritos mais antigos sobre a perversão, no entanto, contrapõe-se a uma tendência de certos desenvolvimentos psicanalíticos que consideram aquela primeira abordagem freudiana como praticamente caduca, procurando entronizar o artigo sobre o fetichismo, de 1927, como a única e verdadeira elaboração teórica da perversão na sua obra.

O modelo inicial proposto por Freud não é descartável em função de sua abordagem posterior. Como ocorre com todos os conceitos importantes por ele formulados, uma referência não anula a outra, mas, soma-se a ela de modo a produzir um conceito mais amplo e geral, ainda que possa haver sempre algumas reformulações necessárias (FERRAZ, 2010).

3. A Perversão: da Fenomenologia à Estrutura Clínica

É comum escutar, nos meios psicanalíticos, que o perverso raramente procura uma análise, a fenomenologia do discurso perverso aparece para ver, mostrar e gozar, é compreensível quando se sabe que o propósito do discurso e do ato da perversão tem o poder de propiciar o gozo, sendo o sintoma experimentado muitas vezes, com uma sensação triunfal e não de sofrimento. Desse modo, escutar a recusa que o perverso faz das insatisfações, inibições, ruminações de culpa, dúvidas, medos e todas as outras formas de tormento psíquico que normalmente derrubam os neuróticos (FERRAZ, 2010), pode gerar uma recusa da escuta (QUEIROZ, 2004).

Fenichel (1945 apud FERRAZ, 2010, p. 125) já chamava a atenção para a dificuldade do engajamento do perverso na análise: o fato de os sintomas serem sentidos como prazerosos, diferentemente do que se verifica na neurose, acaba sendo um fator complicador no tratamento psicanalítico da perversão. Assim, o prognóstico terapêutico é melhor nos casos em que os pacientes piores se sentem, isto é, nos casos em que existe uma combinação entre a perversão e a neurose. De modo similar, Kernberg (1995 apud FERRAZ, 2010) é, também, bastante reservado quando considera o prognóstico do paciente perverso, julgando-o menos favorável do que o do borderline comum. Para ele, a falta de integração da identidade e a falta de constância objetal representam fortes obstáculos à análise.

A clínica da perversão pode, muitas vezes, exigir do analista que vivencie, no limite, a máxima exigência ética da psicanálise, que pressupõe a neutralidade e a abstinência. Porém, a prática dessas exigências não pode confundir-se com complacência ou conivência diante da perversidade eventualmente presente no padrão de conduta do paciente, seja na transferência, ou em suas relações com o mundo (FERRAZ, 2010, p. 135).

Em suma, o sintoma perverso não causa sofrimento, mas sim prazer. Na estrutura perversa o sintoma é a sensação de trunfo. O indivíduo não procura ajuda psicoterapêutica em função dos sintomas, mas das perdas significativas advindas da própria estrutura.  Como todo e qualquer sintoma neurótico, psicótico, psicossomático ou psicopático, por mais que nos impressione ou até mesmo cause incômodo constitui sempre o arranjo que foi possível ao sujeito em sua luta pela sobrevivência psíquica. Alguns pacientes apresentam sintomas que são, muitas vezes, considerados inacessíveis à abordagem terapêutica e certamente o perverso inclui-se entre eles.  Porém, há sempre algo a ser feito, como nos ensinaram os analistas que ousaram tratar dos pacientes ditos “difíceis” ou inacessíveis à análise. E essa colocação não decorre de um mero princípio da técnica, mas, antes, de uma disposição ética (FERRAZ, 2010, p. 140).

4. Pedofilia: um Recorte na Literatura

A pedofilia de acordo com o DSM-V (APA, 2014), se dá ao fato do indivíduo ter fantasias sexualmente excitantes, impulsos sexuais ou comportamentos intensos e recorrentes, envolvendo atividade sexual com criança, ou crianças pré-púberes (em geral 13 anos ou menos).  Se o indivíduo coloca em prática esses impulsos e fantasias sexuais, podem lhe causar sofrimento intenso ou dificuldades interpessoais. Para ser considerado um transtorno pedofílico, o sujeito tem que ter, no mínimo, 16 anos de idade e ser pelo menos cinco anos mais velho que a criança ou as crianças com ou menor que 13 anos.

Há muitos séculos que a pedofilia representa um tema tabu para a maioria das pessoas e isso se reflete na maneira como o assunto é tratado. O silêncio, a falta de credibilidade nas crianças e a negação da sexualidade infantil criam um clima de vergonha e medo diante do mundo da pedofilia. Como consequência, os pedófilos ficaram protegidos durante muitos anos, tanto pela complacência de uns como pela recusa de outros. Poucos eram os casos que chegavam ao tribunal, enquanto outros apenas formaram um aglomerado de vozes e denúncias esquecidas. Portanto, faz-se necessária uma revisão histórica da pedofilia no mundo e no Brasil, a qual resultou na busca inesgotável pela proteção aos direitos da criança (HISGAIL, 2007).

Hisgail (2007, p.13) relata que entre 400 a 200 a.C. diversos infanticídios ocorreram em sociedades incestuosas, referenciando que:

O sagrado e o profano mesclavam-se nas tradições e ritos da Nova Guiné, dos Incas e de outros grupos sociais. Em Cartago, arqueólogos descobriram um cemitério, denominado Tophet, com mais de 20 mil crianças. No Zoroastrismo, o matrimônio entre irmãos, pais e filhos era corrente, enquanto nos costumes indianos e chineses a masturbação exercida na criança funcionava para adormecê-la e apaziguar o ardor libidinal do adulto.

Hisgail (2007, p.13) fala sobre a antiga Grécia onde “O sexo dos efebos e as aventuras homoeróticas dos adultos eram consideradas como um rito de passagem da infância à adolescência”. O período do século IV ao XIII é denominado de modo de abandono “as crianças eram vistas como possuidoras do mal; por isso, apanhavam e eram mantidas emocionalmente distantes dos pais, abandonadas ou vestidas para a escravidão” (SANDERSON, 2005, p. 2). Entre o século XIV e o século XVII, houve o modo ambivalente. Segundo a autora, nesse período, “os pais eram mais ligados emocionalmente aos filhos, mas ainda os temiam como se tivessem diante de um mal absoluto. Durante o modo ambivalente, a tarefa dos pais era moldar a criança reprimindo-a e batendo nela” (SANDERSON, 2005, p.2). Evoluindo para o século XVIII, segundo a autora, houve o modo de intrusão:

[...] as crianças eram vistas como menos ameaçadoras e menos malignas, e era obrigação dos pais conquistar a atenção delas. Os pais procuravam vencer a vontade das crianças, controlando seu comportamento por meio de ameaças, culpas e punições. Nessa época, dizia-se que pela criança se podia rezar, mas com ela não se devia brincar. (SANDERSON, 2005, p. 2)

Entre o século XIX e a metade do século XX, houve o modo de socialização:

[...] no qual os pais tentavam guiar, treinar e ensinar boas maneiras, bons hábitos, corrigir o comportamento em público e fazer com que a criança correspondesse às expectativas dos outros. As crianças continuavam a ser surradas por causa da desobediência, mais não eram mais vistas como intrinsicamente más. (SANDERSON, 2005, p. 3)

Sanderson revela que, no decorrer do modo de socialização, houve uma mudança no comportamento:

Durante o modo de socialização (do século XIX à metade do século XX), os adultos e pais em geral se tornaram menos abusivos sexualmente e começaram a enfatizar a educação das crianças, conduta que prosseguiu até o modo de ajuda visto hoje, no qual a maioria dos pais e adultos tenta ajudar a criança a alcançar seus objetivos com amor e aceitação. (SANDERSON, 2005, p.7)

Entretanto, a doutrina afirma que o abuso sexual em crianças, ainda, persiste, pois, diariamente casos são divulgados pela mídia. Assim como no mundo, também, no Brasil os abusos sexuais são decorrentes da perspectiva sobre a criança e integram a história brasileira atual e passada. A partir de manifestações, buscou-se solidificar políticas e implantações legais de proteção à criança contra abusos sexuais, o que influenciou diversos países, que adaptaram suas legislações através de recomendações internacionais como no Brasil, que adaptou o Estatuto da Criança e do Adolescente a partir dessas recomendações. Todavia, é importante relevar que o Estatuto da Criança e do Adolescente antes de estipular os direitos e deveres implantou a doutrina da proteção integral à criança e ao adolescente, definindo como criança a pessoa até 12 anos de idade incompletos; e como adolescente a de doze a dezoito anos de idade.

5. O Abuso Sexual Infantil Associado à Perversão: uma Leitura Psicanalítica

A Organização Mundial da Saúde (OMS), ao referir-se à violência sexual em que a vítima é uma criança ou um adolescente, adota o termo abuso sexual infantil.

Abuso sexual infantil é o envolvimento de uma criança em atividade sexual que ele ou ela não compreende completamente, é incapaz de consentir, ou para a qual, em função de seu desenvolvimento, a criança não está preparada e não pode consentir, ou que viole as leis ou tabus da sociedade. O abuso sexual infantil é evidenciado por estas atividades entre uma criança e um adulto ou outra criança, que, em razão da idade ou do desenvolvimento, está em uma relação de responsabilidade, confiança ou poder. (OMS, 1999, p. 7)

O abuso sexual, a depender da relação estabelecida pela criança/adolescente com o autor, pode ser considerado intrafamiliar ou extrafamiliar. O abuso sexual infanto-juvenil extrafamiliar é definido como qualquer forma de atividade sexual entre um não membro da família e uma criança, podendo ser o vitimador um conhecido ou desconhecido da família/criança (VIODRES INOUE; RISTUM, 2008). O abusador, geralmente, tem acesso à criança em ocasiões de visita à família da mesma, ou quando goza de confiança por parte dos pais. Entretanto, pode ocorrer, ainda, que o responsável pelo abuso não seja conhecido pela criança e os atos sejam realizados fora do ambiente familiar (SEABRA; NASCIMENTO, 1998).

No que tange ao abuso sexual, o processo de vitimização infanto-juvenil envolve um espectro de categorias que podem não envolver contato físico (abuso verbal, telefonemas obscenos, exibicionismo e voyeurismo), podem contar com o contato físico (atos físicos genitais, exploração sexual para fins econômicos) e violência (estupro, brutalização e assassinato) (AZEVEDO; GUERRA, 1993; CFP, 2009).

O abuso sexual tem pouca visibilidade, já que normalmente é cometido por alguém próximo, em quem a criança confia. De acordo com dados da UNICEF, os principais abusadores são pessoas do sexo masculino, sobretudo pais, padrinhos, avós, irmãos, tios e o ambiente em que o abuso mais ocorre é o doméstico. Esse vínculo familiar contribui para que os dados sejam tão obscuros, pois o mesmo que agride é aquele a quem a criança ama. Dessa forma, abuso sexual em família não é facilmente denunciado. Acredita-se que no Brasil menos de 10% dos casos chegam às delegacias (RIBEIRO; FERRIANI; REIS, 2004).

Quer dizer, tanto socialmente intolerável quanto raro, um tema encoberto por muito tempo e que pode imensamente bem se encaixar no time de perversões, já que o cumprimento à liberdade e o desejo alheio são ignorados e o que de fato importa é a satisfação do perverso no instante em que ele deseja. Possui consciência da lei social, em outras palavras, ele sabe dos efeitos de seu ato, tem discernimento do “certo e errado”, mas mesmo assim, sua satisfação é mais importante e o gozar em detrimento do próximo se faz regra.

6. Considerações

A pedofilia, tema que muitas vezes causa asco em quem deseja estudá-lo, é fundamental, já que muitas de nossas crianças sofrem tal violência dentro da devida casa, levando consigo linhas psíquicas que perpassam com o tempo e que algumas vezes culminam em desvios psicológicos. Tema tão fundamental a ser discutido, não pode jamais passar despercebido, ainda mais quando se está na graduação de Psicologia.

Durante as primeiras leituras listadas ao tema, senti desconforto natural de quem é um ser benevolente, mas humano em uma lógica na qual a Lei se faz favor, em que a repreensão é o limiar entre o desejo e o ato, algo que, no que diz respeito aos motivadores do pedófilo, passa a revelia; esse que em suma faz de seu desejo algo acima de tudo, a única lei que importa é aquela na qual a satisfação pessoal é o ponto mais alto. Ao longo da realização do trabalho, busquei o cuidado no vocabulário quanto abuso e violência sexual, já que o significativo “abuso”, nos leva a refletir sobre algum limite em relação ao ato sexual relacionado à criança, como se estivesse em algum grau de permissão da violência.

O perverso é aquele que põe a criança como objeto de seu desejo e, a todo custo, usa, abusa e ultrapassa os limites sexuais daquele que muitas vezes nunca foi iniciado sexualmente, ou seja, a criança é colocada como fetiche ao indivíduo perverso, provocando prejuízos psíquicos e sociais ao sujeito que se depara com essa violência. Juridicamente falando, há um esforço de inimputabilidade do perverso, alegando aspectos patológicos, no entanto, a pesquisa nos mostra que o indivíduo perverso tem consciência da lei social, em outras palavras, ele sabe da importância de seu ato, tem noção de certo e errado, mas mesmo assim, sua satisfação é mais importante e o gozar em detrimento do outro se faz regra, ou seja, desmente a regra.

Pode-se concluir que os estudos sobre perversão e a clínica psicanalítica do perverso se fazem atuais porque é preciso entender para intervir nas condições em que não há vínculos. Como refazer as formas em que usar as pessoas como objeto de uso para a satisfação, sem nenhuma valorização, é a experiência. A preponderância da inveja dificulta a valorização do outro, o que leva ao tratamento do outro como objeto, ou melhor, a centralidade é a satisfação narcísica e a defesa ao horror à dependência, característica típica da inveja.  Na fixação da inveja o outro sempre fica devendo algo, nada é suficiente, de forma que a invejo não precisa da ajuda do outro ou de sua consideração, as qualidades do invejoso são sempre superiores as dos outros, de forma que nega qualquer evidência do valor do outro, suas necessidades e desejos estão sempre acima dos outros, devido à sua posição narcísica, por isso o outro é sempre um objeto para atingir sua satisfação, assim a tratar o outro como se fosse um objeto é um sinal de defesa à angústia frente à inveja. Atravessar o medo da dependência, que é uma característica da posição perversa, como reação à angústia, frente à inveja, é uma clínica possível.  

Sobre o Autor:

Bárbara Amanda Bezerra da Silva - Graduanda em Psicologia pelas Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão – FAINTVISA.

Glaudston Cordeiro de Lima - Mestrado em Antropologia Cultural pela Universidade Federal de Pernambuco (1998). Graduação em Psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco (1993). Docente do Departamento de Psicologia e Coordenador do Serviço de Psicologia das Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão – FAINTVISA.

Referências:

ASSOCIAÇÃO Psiquiátrica Americana (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V. 4. ed. Tradução de Maria Inês Corrêa Nascimento et al. Porto Alegre: Artmed, 2014.

AZEVEDO, M. A.; GUERRA, V. N. A. Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1993.

CHASSEGUET-SMIRGEL, J. Ética e estética da perversão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

CORRÊA, P. C. Perversão: Trajetória de um conceito. Psicanalista. Fundador e membro do Círculo Psicanalítico da Bahia – CPBA. Belo Horizonte, set, 2006. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372006000100012>. Acesso em: 10 abr. 2018

FERRAZ, F. C. Perversão. 5. ed. São Paulo, 2010.

FENICHEL, O.  Teoria psicanalítica das neuroses. Rio de Janeiro, Atheneu, 1945/1981.

FREUD, S. A Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 1887-1986.

HISGAIL, F. Pedofilia: um estudo psicanalítico. São Paulo: Iluminuras, 2007.

KERNBERG, O F.  Agressão nos transtornos de personalidade e nas perversões. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

ORGANIZAÇÃO Mundial de Saúde (OMS). Classificação Internacional das Doenças – CID 10. 10. ed., 1993. Disponível em: . Acesso em: 02 nov. 2008.  

QUEIROZ, E. F. A clínica da perversão. São Paulo: Editora Escuta, 2004.

RIBEIRO, M. A.; FERRIANI, M. G. C.; REIS, J. N. Violência sexual contra crianças e adolescentes: características relativas à vitimização nas relações familiares. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 20 n. 2, 2004.

SANDERSON, C. Abuso Sexual em Crianças: fortalecendo pais e professores para proteger crianças contra abusos sexuais e pedofilia. 1. ed. São Paulo, SP: M. Books do Brasil, 2005.

SEABRA, A.; NASCIMENTO, H. M. Abuso sexual na infância. Pediatria Moderna, Rio de Janeiro, v. 34, p. 395-415, 1998.

VIODRES INOUE, S. R.; RISTUM, M. Violência sexual: caracterização e análise de casos revelados na escola. Estudos de Psicologia, Campinas, SP, v. 25 (1), p. 11-21, 2008.

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