Possíveis Consequências da Terceirização das Funções Materna e Paterna para a Formação da Criança

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Resumo: O presente trabalho busca refletir sobre as possíveis consequências da terceirização de crianças a partir da atribuição da responsabilidade das funções paterna e materna a terceiros: instituições de educação e/ou profissionais e familiares. O referencial teórico foi desenvolvido sobre a ótica da psicanálise, pelo recorte de pensamento distintos de autores com eixo comum na importância das funções materna e paterna (Klein, Winnicott, Dolto, Freud, Dor entre outros). Partindo do pressuposto de que o vínculo e a função familiar são de grande importância para o desenvolvimento saudável da personalidade dos filhos, buscamos entender como crianças são afetadas por essa terceirização. Para isso foi realizada uma revisão bibliográfica no sentido de compreender o lugar da criança na família e na sociedade, o papel social da família no cuidado dos filhos, a terceirização, as funções materna e paterna, e a importância do vínculo na formação da personalidade do sujeito. No decorrer deste levantamento bibliográfico, verificou-se também que a privação do vínculo afetivo materno tem efeitos duradouros sobre a personalidade e que o vínculo entre mãe e filho é a fonte de onde irão provir, todos os futuros vínculos. As mulheres estão vivendo cada dia mais cedo à interrupção de seu contato intimo com o bebê devido à grande demanda de realizações e de trabalho, o que requer uma parceria maior entre pai e mãe. O tema é de extrema importância visto que a terceirização pode trazer prejuízos ao desenvolvimento do indivíduo, e a possibilidade de investigar o tema nos possibilitou a oportunidade de reflexões que possam  ser uteis ao trabalho de educadores ou outros profissionais que se predisponham a trabalhar com crianças, em especial o psicólogo que trabalha com atendimento á criança e adolescente assim como orientações de famílias e pais.

Palavras-chave: Família, Desenvolvimento, Vínculo, Formação da personalidade, Maternagem, Paternagem.

1. Introduçao

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, Art. 2º, considera-se criança a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre doze e dezoito anos de idade.

Nos relatos da história da sociedade tradicional encontram-se registros de como a criança e a família foram sofrendo transformações, visto que na idade média a criança era introduzida ao mundo dos adultos logo após conseguirem mínima maturidade física, participavam de suas vivências, atividades, jogos e trabalhos, não havendo, portanto, separação do que seria criança, adolescente ou adulto; não havia necessariamente o controle dos pais sobre a criança que se afastava muito cedo. Sua educação se dava através daquilo  que as crianças ajudavam os adultos a fazer.

Com o surgimento das sociedades industriais a criança passa a ter um lugar diferenciado, e seu processo de aprendizagem passa a ser por meio de colégio, ou seja, a socialização primária da criança passa a ser feita pelas escolas. Por outro lado, propiciou-se uma aproximação da família e a criança; deste modo, as famílias modernas surgem quase que concomitante à escola (ARIÈS, 1981).

Freud (1915) nos esclarece que a personalidade forma-se nos primeiros anos de vida,  é resultado de um desenvolvimento que ocorre em uma sequência de fases psicossexuais (ou libidinais). Das cinco fases descritas por Freud, as três primeiras são cruciais, e ele sugere que se em uma dessas fases não houver elaboração necessária pode ocorrer uma interrupção e repressão no desenvolvimento, que pode aparecer na personalidade adulta.

As primeiras fases do desenvolvimento psicossexual, conforme Freud são: fase oral  (do nascimento aos 12-18 meses) onde a principal fonte de prazer está ligada a boca e ao ato de sugar e alimentar-se; fase anal (de 12-18 meses aos 3 anos) o prazer está em reter e expelir as fezes, a zona de satisfação é a região anal ocorre o controle dos esfíncteres; fase fálica (3 a 6 anos) desenvolvimento do superego, período do complexo de Édipo, zona de gratificação na região genital (PAPALIA, 2008).

Com a criação da psicanálise, o psiquismo infantil é reconhecido em seu modo de formação. No acompanhamento desta é necessária uma atmosfera de afeição e segurança, que, de acordo com Bowlby (1989), definirá um comportamento de apego que é "...qualquer forma de comportamento que resulte em uma pessoa (criança) alcançar e manter a proximidade com algum outro indivíduo claramente identificado (mãe), considerado mais apto para lidar com o mundo" (p.39).

Martins (2007) afirma que a modernidade leva homens e mulheres a sonhar e faz exigências altas que não tem restado tempo para pensarem nos filhos, delegando a terceiros as responsabilidades de ser pai e ser mãe. O autor cita que as atitudes de pais após o nascimento dos filhos como a trocar fraldas, afeto, cuidados, passar noites em claro, colocar limites e regras estão sendo, cada vez mais, papeis atribuídos à babás, avós e creches nas quais as crianças passam até 12 horas, ficando expostas a excessos de TVs, games e escolas, ou seja, cada vez mais há transferências de responsabilidades, tanto paternas quanto maternas, à terceiros.

Nesta pesquisa verificamos a noção de terceirização de crianças, ou seja, quando os pais delegam a outros, os cuidados e educação dos filhos, transferindo os papeis maternos e paternos a terceiros.

Segundo o dicionário Michaelis, (1998/2009) o ato de terceirizar se refere a delegação a trabalhadores não pertencentes ao quadro de funcionários de uma empresa, das funções exercidas anteriormente por empregados dessa empresa.

Martins (2007) afirma que delegar a terceiros a função de cuidador, educador, alimentador, é uma forma diferente e “modernosa” de cuidar dos filhos na atualidade. Estabelecendo um paralelo com as ideias do autor, é possível pensarmos nos vários registros que encontramos no cotidiano, que estão pautados na cultura do consumo e no prover  material.

Nesta maneira de conceber as formas interativas e de formação de vínculos estabelecidos pela psicanálise perguntamos: que leitura estaremos fazendo dos acometimentos psíquicos e o que isso pode causar para todos? A família é de grande importância tanto nas relações sociais quanto na vida emocional de seus membros, por ser ela a mediadora entre o indivíduo e a sociedade, além de ter um papel estruturador duplo, de satisfação de necessidades básicas e de proporcionar um ambiente no qual a criança possa desenvolver suas capacidades (ACKERMAN, 1996).

Podemos pensar que o estabelecimento de um bom vínculo familiar é extremamente importante para um desenvolvimento satisfatório da criança, essa vinculação da criança na primeira infância reflete na continuidade da amamentação, enquanto facilitadora da  construção do vínculo entre a mãe e o bebê, que por esta ação se configura numa unidade, conforme aponta Winnicott (1994, p.03):

A amamentação pode se constituir em uma vivência significativa tanto para a mãe quanto para o seu bebê, tendo-se em vista que o contato do seio materno com a boca da  criança  favorece  uma  experiência  de  intimidade  e  união,  propiciando  assim satisfação, prazer e sensação de completude para a dupla envolvida. Contudo esta vivência somente se torna possível quando, efetivamente, a mãe possui o desejo real e a disponibilidade interna para amamentar.

As funções maternas e paternas para a psicanálise implicam também no desejo do  filho e em sentimentos e atitudes decorridas desse desejo. São funções consideradas essenciais para o desenvolvimento e estruturação do psiquismo da criança, essas funções possuem atributos práticos de acordo com a fase de desenvolvimento da criança, sendo exercida por adultos, sejam pais biológicos ou adotivos (FREUD, 1914/1996).

A criança para se desenvolver e sobreviver necessita de cuidados desde o nascimento, e são os pais que representam o principal vínculo com o filho, por isso é importante que os cuidados sejam dados por eles. Dessa maneira, segundo Winnicott (2001) a ausência da mãe, seja fisicamente ou por um não cuidado afetivo suficiente, pode prejudicar a criança e comprometer o seu senso de realidade. Assim, como afirma Rhode (2000), a figura paterna é fundamental para que as relações triangulares edípicas sejam vivenciadas, ou seja, a ausência ou presença inadequada do pai pode influenciar negativamente o desenvolvimento emocional. De acordo com Martins (2007) atos de violências e delinquência praticados por adolescentes, tanto de classe alta ou baixa, podem estar ligados à ausência de vínculo e de “modelos” comportamentos a serem seguidos; sendo estes características da terceirização, crianças que são “meio” abandonadas, sem carinho, sem atenção adequada e até mesmo sem amor.

Assim, ainda segundo o autor, a terceirização mais grave que pode marcar para sempre a vida de um ser humano é o tipo provocado pela agressão, pelo abandono, pelo abuso, podendo ter como consequência, baixa autoestima, agressividade, dificuldade de relacionamento pessoal, entre outros sintomas. Portanto, refletir e discutir os efeitos da terceirização assume uma dimensão de importância não só à sociedade atual, mas para uma sociedade menos adoecida.

1.1 Objetivo geral:

Refletir sobre as possíveis consequências da terceirização de crianças a partir da atribuição da responsabilidade das funções paterna e materna a terceiros.

1.2 Objetivos específicos:

  • Refletir como se estabelece o papel social da família quando da atribuição no cuidado dos filhos;
  • Refletir sobre a importância das funções materna e paterna para o desenvolvimento da criança;
  • Compreender a importância do vínculo na formação da personalidade do sujeito;
  • Identificar e refletir sobre formas de terceirização de crianças e seus possíveis prejuízos.

2. Revisão Bibliográfica

2.1 A família e a criança

2.1.1 O lugar da criança na família e na sociedade

O (ECA) Estatuto da Criança e do Adolescente, no Art. 2º declara, “Considera-se criança,  para os efeitos desta lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos e adolescentes aquela entre doze e dezoito anos de idade” (p.11).

Porém, nem sempre foi assim. Martins (2007) relata histórias em que crianças muitas vezes eram abandonadas à própria sorte, em alguns casos serviam de comida para cães, em outros eram encontradas em rios entre os peixes afogadas pelas próprias mães.

Segundo Ariès (1981) verifica-se que a sociedade mantinha um olhar diferente sobre  o conceito de infância, pois a criança era introduzida muito cedo ao meio adulto, e assim era conduzida a educação das crianças, e o processo de aprendizagem se dava pelo contato direto e pelas atividades as quais ajudavam os adultos a fazer.

Não se tinha um sentimento profundo com relação à criança que era vista como um animalzinho que divertiam as pessoas, isto é quando conseguia sobreviver aos perigos que muitas vezes causavam lhes a morte.

A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então, mal adquiria algum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude, que talvez fossem praticadas antes da Idade Média e que se tornaram aspectos essenciais das sociedades evoluídas de hoje (ARIÈS, 1981, p.04).

Em outras civilizações, como na Grécia antiga, meninos e meninas eram abandonados, descartados, enquanto que na Esparta a criança aos sete anos era considerada adulta e tinha início seu adestramento, treinamento ou começava o serviço militar aos oito anos, havendo  em alguns casos punições severas, flagelação pública de crianças por desobediência e fraqueza (MARTINS, 2007).

Nota-se que ao longo da história da humanidade não havia preocupação em proteger   as crianças. Era alto o número de mortalidade infantil. As crianças morriam no primeiro ano de vida. Gregos e Romanos tinham direito de vida e morte sobre os filhos. (MARTINS,  2007).

Os relatos citados acima levam a crer que a criança na construção sócio-histórica sempre teve pouca consideração e importância, visto que o abandono e maus tratos estiveram presentes em diversas sociedades e diferentes culturas até meados do século XVIII. A adolescência foi confundida com a infância dando a impressão de que de fato não havia um olhar ou interesse em valorizar a infância.

Difundido e popular, a "paparicação", limitava-se às primeiras idades e correspondia à ideia de uma infância curta; o segundo, que exprimia a tomada de consciência da inocência e da fraqueza da infância, e, por conseguinte, do dever dos adultos de preservar a primeira e fortalecer a segunda, durante muito tempo se limitou a uma pequena minoria de legistas, padres ou moralistas. Sem eles, a criança teria permanecido apenas o poupard, o bambino, o pequeno ser cômico e gentil com o qual as pessoas se distraiam com afeição, mas também com liberdade - quando não com licença - sem preocupação moral ou educativa. Passados os cinco ou sete primeiros anos, a criança se fundia sem transição com os adultos: Esse sentimento  de uma infância curta persistiu ainda por muito tempo nas classes populares  (ARIÈS 1981, p. 175).

É possível verificar que este contexto começa a sofre mudanças no reinado de Constantino que inicializa o movimento de fim do infanticídio entre Romanos. Já em outro momento o sentimento de infância começa a ser construído; a criança passa a conquistar um lugar diferenciado no âmbito familiar e social.

O primeiro sentimento da infância - caracterizado pela "paparicação" - surgiu no meio familiar, na companhia das criancinhas pequenas. O segundo, ao contrário, proveio de uma fonte exterior à família: Dos eclesiásticos ou dos homens da lei, raros até o século XVI, e de um maior número de moralistas no século XVII, preocupados com a disciplina e a racionalidade dos costumes. Tudo o que se referia às crianças e à família tornara-se um assunto sério e digno de atenção. Não apenas o futuro da criança, mas também sua simples presença e existência eram dignas de preocupação - a criança havia assumido um lugar central dentro da família (ARIÈS, 1981, p. 152).

A partir do século XVI uma nova personagem entra em cena: a criança. O sentimento da família se torna inseparável do sentimento da infância. A influência do sentimento da família pode ser reconhecida nos novos modelos de pintura de casamento, batismo, mas o fato mais importante é o da criança ter sido associada à principal prece da família, a única prece dita em comum pela família reunida, notavelmente a família se transforma conforme muda  seu modo de interação com a criança.

A forma da aprendizagem pela escola também teve o papel de aproximar a família e as crianças do sentimento de família e do sentimento da infância, outrora separados (ARIÈS 1981).

Entre o fim da Idade Media e os séculos XVI e XVII, a criança havia conquistado um lugar junto de seus pais, lugar este a que não poderia ter aspirado no tempo em que o costume mandava que fosse confiada a estranhos. Essa volta das crianças ao lar foi um grande acontecimento: ela deu à família do século XVII sua principal característica, que a distinguiu das famílias medievais. A criança tornou-se um elemento indispensável da vida quotidiana, e os adultos passaram a se preocupar com sua educação, carreira e futuro. Ela não era ainda o pivô de todo o sistema, mas tornara-se uma personagem muito mais consistente  (ARIÈS, 1981, p. 264).

A escolarização teve significativa participação e contribuição no que diz respeito à conjuntura familiar, tanto no ponto de vista positivo quanto negativo.

A família tornou-se o lugar de uma afeição necessária entre os cônjuges e entre pais  e filhos, algo que ela não era antes. Essa afeição se exprimiu, sobretudo através da importância que se passou a atribuir a educação. Não se tratava mais apenas de estabelecer os filhos em função dos bens e da honra. Tratava-se de um sentimento inteiramente novo: Os pais se interessavam pelos estudos de seus filhos e os acompanhavam com uma solicitude habitual nos séculos XIX e XX, mas outrora desconhecida. (ARIÈS, 1981, p. 06).

A criança conquista um lugar tão significativo que tudo o que se referia a ela e à família tornara-se um assunto sério e digno de atenção. Não apenas o futuro da criança, mas também sua simples presença e existência eram dignas de preocupação, a criança havia assumido um lugar central dentro da família (ARIÈS, 1981).

A família começou então a se organizar em torno da criança e a lhe dar uma tal importância, que a criança saiu de seu antigo anonimato, que se tornou impossível perde-la ou substituí-la sem uma enorme dor que ela não pôde mais ser reproduzida muitas vezes, e que se tornou necessário limitar seu número para melhor cuidar dela. Portanto, não surpreende que essa revolução escolar e sentimental tenha sido seguida, com o passar do tempo, de um malthusianismo demográfico, de uma redução voluntária da natalidade, observável no século XVIII (ARIÈS, 1981, p. 06).

O processo de modificação da mentalidade em relação à criança e à infância, que foi iniciada na Idade Média ganha reforço na Declaração de Genebra, aprovada em 26 de setembro  de 1924  pela  assembleia da  então  Liga das  Nações.  Sendo assim, no  dia 20 de novembro de 1959, por aprovação unânime, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a declaração dos Direitos da Criança em 10 princípios, visando que todas as crianças têm direito de serem amadas, cuidadas e protegidas para que possam viver num ambiente com oportunidades e facilidades onde possam crescer e se desenvolver tornando-se assim um cidadão (Declaração Universal Dos Direitos da Criança, 1959).

Apesar das significativas mudanças no mundo e nas leis, a criança ainda é vítima de muitos desajustes e acometimentos trágicos, onde a violência e os abusos ainda se perpetuam como nos tempos antigos em que crianças eram rejeitadas abandonadas e muitas vezes mortas pelos próprios pais.

2.1.2 O papel social da família no cuidado dos filhos.

As constantes mudanças nas diversas sociedades, na medida em que o mundo avança, repercutem em grande transformação na família, alterando, portanto, o papel e a função de cada indivíduo dentro do grupo familiar e social; no qual envolve a construção da subjetividade dos filhos e os processos simbólicos e inconscientes dos pais.

Segundo Lacan (1987), é na família que acontecem os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico e emocional. As relações familiares estão repletas de estruturas de comportamentos e de representações simbólicas que vão além do consciente.

Reis (1999, p.100) afirma: “A família teria por função desenvolver a socialização básica numa sociedade que tem sua essência no conjunto de valores e de papéis”.

Forte (1996) afirma que é da família o papel de socializar a criança, desempenhar o papel de organizadora primária da sociabilidade e dos laços de dependência emocional entre seus membros. Deste modo, compreende-se que a instituição familiar é responsável pela socialização dos indivíduos promovendo através das interações suporte indispensável para o desenvolvimento físico, social, emocional, afetivo e psicológico de seus integrantes.

A importância da família na construção e desenvolvimento holístico do indivíduo vêm se destacando em todas as sociedades e recebendo um olhar diferenciado nas diversas áreas conhecimento e de diferentes pesquisas conforme afirmação abaixo destaca.

A importância da família não pode ser negada, tanto ao nível das relações sociais, nas quais ela se inscreve, quando ao nível da vida emocional de seus membros. É na família, mediadora entre o indivíduo e a sociedade, que aprendemos a perceber o mundo e a nos situarmos nele. É  a  formadora  da  nossa  primeira  identidade  social. Ela é o primeiro "nós" a quem aprendemos a nos referir (REIS 1999, p.99).

Se partirmos do pressuposto de que a família é um organismo vivo e que está em constante mudança, facilmente vamos estar de acordo como Prado (1989, p.12) quando afirma:

A família não é um simples fenômeno natural. Ela é uma instituição social variando através da História e apresentando até formas e finalidades diversas numa mesma época e lugar, conforme o grupo social que esteja sendo observado.

Ao longo da história as famílias apresentam-se de várias formas, do ponto de vista estrutural e evolutivo, com grande potencialidade de sobrevivência, levando-nos a indagar a que se refere o conceito de família, como a família está organizada neste novo panorama. De acordo com (PRADO, 1989, p.51),

O termo FAMÍLIA origina-se do latim FAMULUS que significa: conjunto de servos e dependentes de um chefe ou senhor. Entre os chamados dependentes inclui-se a esposa e os filhos. Assim, a família greco-romana compunha-se de um patriarca e seus fâmulos: esposa, filhos, servos livres e escravos.

Ainda segundo a autora:

A palavra FAMÍLIA, no sentido popular e nos dicionários, significa pessoas aparentadas que vivem em geral na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos. Ou ainda, pessoas de mesmo sangue, ascendência, linhagem, estirpe ou admitidos por adoção (p.07).

Nas famílias antigas, a maior parte das funções era exercida somente pelo grupo familiar, embora contassem com a ajuda de terceiros, num regime de troca de serviços entre os membros de uma mesma comunidade. Na Idade Média as crianças em determinada idade passavam a morar com outras famílias onde faziam sua aprendizagem. Com a chegada da industrialização esse panorama se modificou (PRADO, 1989).

O modelo antigo de família, conhecida como família nuclear era composto por pai, mãe e os filhos, e ainda tem grande força cultural na atualidade, além de ser também a mais aceitável; muito embora novos modelos estejam surgindo, e a família se estende, não se restringindo mais aos laços de consanguinidade, portanto, entende-se que os laços entre os membros da família nuclear se enfraquecem, porque a responsabilidade coletiva da família, enquanto núcleo através do qual se realizam projetos em comum, diminui cada vez mais. E também porque cada um de seus membros é cada vez mais absorvido por suas atividades próprias e num meio ambiente específico (PRADO, 1989).

A família contemporânea é o modelo de família mais comum na sociedade brasileira, que é entendida como a unidade formada entre qualquer um dos pais e sua prole. Têm surgido vários estudos no que se refere às mudanças no panorama familiar, com intuito de questionar quais os fatores que têm contribuído para estes novos modelos e constelações familiares como sugere Prado (1989).

De acordo com a autora, as relações dentro da família vão se modificando, sendo que os aspectos mais problemáticos da evolução da família estão ligados ao questionamento da posição das crianças como "propriedade" dos pais e à posição econômica das mulheres dentro da família. E o questionamento da distribuição dos papéis ditos especificamente masculinos, ou femininos, é um problema chave para o surgimento de uma nova estrutura social.

As fortes transformações da família têm gerado discussão ao que se refere a sua possível dissolução, uma vez que socialmente restringe-se a família ao modelo nuclear.

Atribui-se, atualmente os problemas de comportamento na vida diária da criança como sendo resultado da falta de estrutura familiar, ou seja, a dissolução, o modelo tradicional, dando a ideia de que os novos modelos de famílias causam destruição social, com isso, termos como desestruturadas e desestruturantes são cada vez mais frequentes em órgãos como Conselhos Tutelares, Delegacias e outros; embora não seja a única razão e acontecimento que justifique as mudanças no panorama sociocultural da família.

O capítulo II do Estatuto da Criança e do Adolescente, (ECA) no Art. 17, ilustra este aspecto da seguinte forma:

O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.

O Art. 18. assegura que “É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.”

Os artigos 17 e 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente referem-se ao dever, não só da família como da sociedade de modo geral, de garantir os direitos da criança e do adolescente, o que pode gerar compreensão erronia a respeito das responsabilidades dos pais para com os filhos, esta última, por sua vez, é referida no artigo 22:

Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais.

Embora, a responsabilidade seja referida aos pais no artigo 22, ainda não está muito claro na nossa sociedade a respeito do papel e de quem deve educar as crianças, ficando muitas vezes por conta de terceiros, sejam avós, babas, creches, escolas de educação, recreação e reforço, podendo interferir no bem estar e desenvolvimento das crianças (MARTINS, 2007).

É através da própria família que a criança se integra no mundo adulto, é nesse meio que aprende a canalizar seus afetos, a avaliar e selecionar suas relações. Toda família visa, primeiramente, reproduzir-se a si própria em todos os sentidos: Seus hábitos, costumes e valores que transmitirão por sua vez às novas gerações. É na família ainda que a criança recebe orientação e estímulo para ocupar um determinado lugar na sociedade adulta, em função de seu sexo, sua raça, suas crenças religiosas, seu status econômico e social (PRADO, 1989).

Deste modo, a autora evidencia que a criança pode ter danos na formação de sua identidade, seu estar no mundo, quando em situação de desamparo, seja pela falta de uma família com consciência e entendimento de suas necessidades, seja pela falta de afeto, em estrita correspondência com as afirmações de John Bowlby sobre o papel e função da família.

De acordo com Bowlby (1988), a família, assim, tem dupla função no seu papel estruturador, primeiramente, na satisfação de necessidades básicas como alimentação, calor, abrigo e proteção; em segundo lugar, proporcionando-lhe um ambiente no qual possa desenvolver ao máximo suas capacidades físicas, mentais e sociais.

2.2 Sobre a terceirização de crianças.

As constantes mudanças no panorama social, as fortes influências do capitalismo, a inserção da mulher no mercado de trabalho têm sido fatores que tem contribuído significativamente para o afastamento dos pais cada vez mais cedo do lar, onde muitas vezes não se desenvolve um espaço de convivência familiar, devido ao cotidiano com rotina e jornadas longas de trabalho e compromissos dos pais, que, muitas vezes, encontram os filhos apenas nos fins de semana, deste modo, consequentemente os cuidados tanto materno quanto paterno podem  ficar prejudicados, embora sejam necessários para o desenvolvimento sadio da criança, amor  e dedicação dos pais desde o seu primeiro momento de vida.

Tais aspectos são apontados no trabalho de Martins (2007), que propõe uma interessante reflexão a respeito do que teria acontecido no século XX, até a atualidade, em que se passou a utilizar a mão de obra feminina pelo mercado de trabalho, afastando as mulheres do convívio com os filhos, agravada pela falta de cumplicidade do pai, do companheiro, levando ao aumento das atividades executadas pelas mulheres, que passam a ter jornadas duplas, ou até

mesmo triplas, isso significa que cada vez mais as crianças ficam sozinhas enquanto seus pais correm atrás de trabalho, seja para suprir as necessidades ou para alimentar o consumo desenfreado gerado pelo capitalismo, resultando em um distanciamento das relações com filhos e com a família.

Outro aspecto levantado pelo autor refere-se ao fato de que muitas mulheres hoje funcionam como arrimo de família, são também a única fonte de renda e de afeto, assim como aquelas mães que, mesmo tendo condições financeiras, não apresentam disposição para o cuidado mínimo com os filhos por estarem preocupadas com as futilidades de seu cotidiano, como festas, fama, culto excessivo ao corpo. Diante deste, entre tantos outros aspectos, o  autor questiona o que fazer com as crianças, como são e como serão nos próximos anos, que tipo de adultos se tornarão ou poderão ser, que papel nossas crianças terão no futuro, nos próximos anos, nas próximas décadas? E os pais que contribuição estão dando para seus filhos?

Os questionamentos feitos por Martins (2007) vêm de encontro às afirmações de Sinay (2012), que identifica atualmente a identidade das pessoas como sendo aparentemente construída a partir do que elas têm, embora poucos saibam o que são e quem são. Para o autor as pessoas vivem na sociedade do mercado, pois individualmente cada um é um consumidor e ao lado do outro faz parte do mercado, sendo assim os indivíduos são prioritariamente mercadorias, valem o que têm, por isso, precisam ter para valer; e o tempo todo encontram-se pessoas que querem engolir coisas novas, última geração, e depois as exibem devido a sua fome de amor, então, abraçam bens materiais e esperam que estes os abracem de volta, restando assim pouco tempo para as relações humanas, para o cultivo dos vínculos, para olhar e escutar, para falar e manifestar necessidades e sentimentos.

Tais afirmações nos remetem a outro posicionamento feito por Martins (2007) a respeito de quem são, como vivem, como reagem as crianças? Que características estão apresentando atualmente? Neste sentido o autor afirma que seus questionamentos têm sido compartilhados com outros profissionais e colegas pediatras, psicólogos, psiquiatras, juristas e educadores, todos apresentam muitas preocupações a respeito do futuro das crianças e dos adolescentes das favelas, das periferias, das classes média e alta, sobre como estão se relacionando com o mudo, com os mais velhos, com professores e com a autoridade.

Para o autor tanto as crianças quanto os adolescentes em grande escala vem apresentando estado de abandono, desorientação, violência, sem vínculo e sem “modelos” de comportamentos a serem seguidos, eles parecem órfãos de mãe viva, pois estão privados de carinho, amor, atenção, cuidado e até alimentação adequada, que são direitos assegurado à criança desde 1959, no Brasil o (ECA) foi promulgado só em 1988, visando ao desenvolvimento individual e social saudável da infância, pois este é o período fundamental para a formação do caráter e da personalidade humana.

Partindo deste princípio o autor afirma que as crianças e os adolescentes têm sofrido constantes privações de seus direitos, a começar pelo abandono e privação de afeto, e consequentemente o empobrecimento dos vínculos parentais por falta de interação e de troca de estímulos.

As consequências da terceirização apontadas por Martins (2007) nos remetem aos estudos de Spitz (1991) sobre o “Hospitalismo” que se caracteriza por uma privação afetiva total, os bebês tinham dificuldades no seu desenvolvimento físico, faltava-lhes apetite, não ganhavam peso e, com o tempo, perdiam o interesse por se relacionar, o que levava a maioria dos bebês ao óbito. Tendo, portanto, a ausência dos pais e do afeto como fator determinante  nas chances de sobrevivência das crianças estudadas, conforme as seguintes sintomatologias de “Depressão Anaclítica” que caracteriza-se por uma privação afetiva parcial.

Primeiro mês: as crianças tornam-se chorosas, exigentes e tendem a apegar-se ao observador quando este consegue estabelecer contato com elas; segundo mês: o choro transforma-se em gemido. Começa a perda de peso. Há uma parada no quoeficiente de desenvolvimento; terceiro mês: As crianças recusam o contato, permanecem a maior parte do tempo de bruços na cama, um sintoma patognomônico. Começa a insônia, a perda de peso continua. Há a tendência para contrair moléstias; o atraso motor torna-se generalizado. Início da rigidez facial;  após o terceiro mês: a rigidez facial consolida-se. O choro cessa e é substituído por lamúria. O atraso motor cessa e é substituído por letargia. O quociente de desenvolvimento começa a diminui  (SPITZ, 1991, p.202).

Fazendo um paralelo com as crianças estudadas por Spitz (1991) e as crianças e adolescentes terceirizadas apresentadas por Martins (2007) com a finalidade de proporcionar uma reflexão e um posicionamento a respeito dos meios que os pais encontraram para educar os filhos, que podem acabar sendo abandonados e consequentemente sofrerem danos reversíveis ou irreversíveis para seu desenvolvimento, pois estas crianças e adolescentes são deixados a cargo de escolas por períodos integrais, à creches, berçários, à diferentes babas ao longo do dia, da noite e aos fins de semana, à parentes e ou terceiros que são as “pessoas” que ficarão com a responsabilidade educar tanto de forma acadêmica quanto moral, fornecendo orientação, limites, além de cuidados alimentares, trocas de fraldas, banhos, afagos, acolhimento nas noites ou momentos de pesadelos, tensões e até mesmo doenças. O autor nomeia  como  sendo  um  ato  claro  de  terceirização  dos  filhos,  ou  “transferências” das responsabilidades e funções materna e paterna, para pessoas e ou instituições nem sempre preparadas para a tarefa.

Para Martins (2007) a atual e moderna sociedade pautada no consumo leva as pessoas, e os pais a sonhos altos, de grande crescimento econômico, de conhecimento e de estudos, parece não sobrar tempo para viver, criar, cuidar e se dedicar aos filhos. Segundo o autor este panorama pode ser observado em todas as classes sociais e esta forma de educar e criar os filhos tem estado presente no cotidiano de ricos e pobres, que transferem as funções maternas e paternas para outras pessoas, a ponto da criança, às vezes, não ter ideia da presença dos pais, que saem de casa quando os filhos estão dormindo e quando voltam os filhos já estão na cama, neste caso nos indica uma falha no ambiente que pode gerar grandes perdas para a relação familiar e principalmente para a criança.

Conforme afirma Winnicott (1983), as psicoses são distúrbios relacionados ao fracasso ambiental na sua missão de facilitar as conquistas dos estágios iniciais, que começam em algum momento da vida intra-uterina e vão até o estágio do “EU SOU”, que ocorre em geral, por volta de um ano ou um ano e meio. Se há falha repetidas vezes no ambiente ao modo de um padrão estabelecido em se adaptar às necessidades do bebê durante a etapa de  dependência absoluta, e mesmo relativa, ocorre traumas e o processo de amadurecimento pessoal é interrompido, nesse momento primitivo em que estão sendo constituídos os  alicerces da personalidade. Isso dá origem a um distúrbio psicótico. Naturalmente, haverá diferentes tipos de distúrbio psicótico segundo a etapa, dentro dos estágios iniciais, em que o bebê for traumatizado pelas falhas ambientais.

Martins (2007) menciona que há uma constante transferência das funções e das responsabilidades dos pais para terceiros, o que engloba também os equipamentos eletrônicos, seja, jogos, DVDs de filmes, brinquedos caros e de última geração e a TV em que a criança fica por muitas horas, o que influência fortemente na formação de seu caráter.

Deste modo o autor considera que a “transferência” de funções paterna e materna é assumida por profissionais, babas e creches, como também para irmãos, tios, avós. Diante do despreparo, quando alguns pais se veem na obrigação de cuidar, acabam criando grandes tragédias, como crianças esquecidas dentro de carro, consequentemente, falecendo em virtude da desidratação provocada pelo calor, mães que trancam seus filhos em casa ou em carro para irem à diversão noturna, sendo, assim, tanto os filhos das classes médias e altas quanto os filhos de classes mais pobres ficam negligenciados e abandonados, sem amparo e proteção sendo cuidadas por pessoas que são pagas para fazerem as funções materna e paterna que para Martins (2007) significa um jeito “modernoso” de terceirização das funções materna e paterna.

O autor descreve as consequências desta terceirização no comportamento que as crianças e adolescentes têm apresentado, entre elas estão baixa autoestima, baixo rendimento escolar, déficit de atenção e hiperatividade, delinquência, abuso de drogas, diminuição da capacidade cognitiva e do desenvolvimento da linguagem, gravidez precoce, e dificuldade de relacionamento pessoal, tendências agressivas ou agressividade instalada. O mais espantoso destes relatos é que em muitos casos as crianças e consequentemente os adolescentes desenvolvem estes comportamentos em “companhia” dos pais, embora alguns destes sintomas possam ser desenvolvidos por crianças bem cuidadas e amadas, a maioria destes comportamentos é frequente em crianças que vivem abandonadas, maltratadas e mal-amadas.

Bowlby afirma que os comportamentos de apego têm efeitos duradouros sobre as condutas das crianças e dos adolescentes e a privação do vínculo afetivo seguro, causado pela negligência materna nas primeiras vivências familiares, podem trazer consequências de modo a interferir no desenvolvimento saudável da personalidade dos filhos nos relacionamentos posteriores independente do nível sociocultural e econômico.

Os estudiosos constataram que as crianças que cometeram diversos crimes, que pareciam não ter sentimento por ninguém e com as quais era muito difícil lidar, tinham tido um relacionamento profundamente perturbado com suas mães nos primeiros anos de vida. O roubo contumaz, a violência, o egoísmo e a má conduta sexual são algumas de suas características menos agradáveis (BOWLBY, 1984, p.35).

Partindo deste pressuposto, entende-se que os cuidadores, como os tios, irmãos, as babás, avós, professores de creches e de berçários ou qualquer outra pessoa não possuem o envolvimento emocional necessário, ainda que tenha carinho pela criança, para proporcionar a construção do psiquismo e a segurança necessária para desempenhos no futuro.

A partir deste contexto cabe citar as possíveis interferências e consequências desta terceirização para o desenvolvimento infantil, a construção do psiquismo e estruturação da personalidade, uma vez que a criança quando privada de cuidados parentais, principalmente dos cuidados maternos fundamentais, tendem a desenvolver patologias e comportamentos agressivos, comportamento infrator, delinquência, agressividade, antissociais, abuso de substâncias psicoativa, álcool e outras drogas, relações sexuais promiscuas, dependência excessiva, estado depressivo, transtornos do ego entre tantos outros que podemos encontrar nocomportamento de crianças e adolescentes de nossa sociedade moderna ou sociedade dos filhos órfãos conforme conceituação de Sinay (2012).

Como faz notar (GOMIDE, 2009):

A negligência é considerada um dos principais fatores, senão o principal, a desencadear comportamentos antissociais nas crianças, e está muito associada à história de vida de usuários de álcool e outras drogas e de adolescentes com comportamento infrator. Crianças negligenciadas e espancadas tornam-se adolescentes e adultos infratores, usuários de droga, agressivos, enfim com uma  série de condutas antissociais que inviabilizam a sua adaptação à sociedade. A negligência impede o desenvolvimento da autoestima, que é o principal antídoto ao aparecimento do comportamento antissocial. A criança negligenciada é insegura, seu olhar não tem brilho. Por não ter recebido o afeto que alimentaria seu ser, ela é  frágil. (p. 69,73).

Nota-se que as constantes modificações ao longo do tempo provocam mudanças nas relações parentais. Em virtude das demandas sociais o período atual está repleto de acontecimentos violentos e catastróficos envolvendo muitas vezes crianças e adolescentes, e quando investigados sobre sua história de vida encontra-se registro de desamparo e negligências, ou seja, a criança não recebeu ou recebe os cuidados adequados, sendo assim registrada em sua identidade a desatenção, a omissão, a ausência, a e a privação materna que para Bolwby (1984):

Chama-se “privação da mãe” a situação na qual uma criança não encontra este tipo de relação. É uma expressão ampla, que abrange um grande número de situações diferentes. Assim, uma criança sofre privação quando, vivendo em sua casa, a mãe é incapaz de proporcionar-lhe os cuidados amorosos de que as crianças pequenas precisam. E ainda, uma criança sofre a privação se, por qualquer motivo, é afastada dos cuidados de sua mãe [...] (p. 14).

A partir dos conceitos e características das crianças terceirizadas apresentadas por Martins (2007), é possível estabelecer um paralelo com as pesquisas e argumentações de teóricos como Bowlby e Winnicott, sobre possíveis danos e consequências que a privação do vínculo afetivo materno, a privação da vida familiar e influências do ambiente podem causar ao indivíduo durante toda a sua vida.

As crianças foram privadas de todas as carícias e brincadeiras, da intimidade da amamentação através da qual a criança conhece o conforto do corpo materno, dos rituais do banho e do vestir com os quais através do orgulho e carinho materno para com seus pequenos membros, o bebê apreende o seu próprio valor. O amor e o prazer que a mãe tem com ele representam seu alimento espiritual  (BOWLBY, 1984, p. 17).

Em relação ao furto da criança, entende-se a privação da vida familiar tem uma forte relação com as condutas infratoras dos adolescentes apresentadas como comportamentos considerados antissociais como: uso abusivo de drogas, rebeldia, furtos, roubos e prostituição, com estas condutas a criança ou adolescente estão tentando encontrar o objeto perdido, conforme aponta Winnicott (2005, p.141):

A criança que furta um objeto não está desejando o objeto roubado,  mas a  mãe, sobre quem ela tem direitos. Esses direitos derivam do fato de que (do ponto de vista da criança) a mãe foi criada pela criança. A mãe satisfaz a criatividade primária da criança, e assim, converteu-se no objeto que a criança estava disposta a encontrar.

Martins (2007) relata que os pais da atualidade têm esquecido de atender as necessidades dos filhos, vivem viajando, em cruzeiros elegantes ou por diferentes  compromissos, deixam os filhos na mão de seus “tratadores”. As crianças ricas têm sido criadas em gaiolas de ouro cheias de brinquedos diversos, as mais pobres, além da falta de condições econômicas, sofrem principalmente a ausência de afeto.

Sobre isso, Bock (2002) afirma que não há possibilidade de sobrevivência física e psíquica no desamor, que a fragilidades dos vínculos familiares negligenciam as condições vitais de um desenvolvimento saudável para as crianças. Assim como faz notar Gomide (2009) ao afirmar:

Que nessas situações onde há uma “mãe negligente”, os filhos crescem sem que as mães saibam o que eles pensam, sentem ou gostam. A falta de interação, de vínculo afetivo positivo, de demonstração de interesse gera a situação de negligência (p.70).

Essa privação ocorre, quando as mães convivendo no mesmo lar da criança, não tem tempo para se dedicar aos filhos, delegando essas funções. Estas atitudes podem ser caracterizadas como terceirização dos filhos.

2.3 Função materna, função paterna e o desenvolvimento da criança

Os termos funções materna e paterna serão utilizados em várias partes deste trabalho, e para melhor explicitá-los Rosset (2008, p.74) define:

A função materna é a tarefa de vincular, de ser continente e alimentador; possibilita  a  relação  afetiva,  cuidado,  mantém  o  sistema;  dá  contato  e  realidade  e função paterna significa lei, organização, estrutura, palavra, autoridade; está ligada a crescimento; leva à aprendizagem e ensina regras e limites.

O autor complementa:

A função materna acontece quando se pega no colo, dando aconchego nas horas de tristeza, de dor ou naqueles em que só se quer colo; quando se protege alguém; quando se cuida da roupa ou da alimentação de alguém e a função paterna está sendo desempenhada quando se ensina alguém; quando se definem e mantém-se os limites; quando se definem e cumprem regras; quando ensina alguém a consertar algo, a organizar alguma coisa, a fazer uma atividade (ROSSET, 2008, p.74).

As funções maternas e função paterna na perspectiva psicanalítica são de grande importância na estruturação e no desenvolvimento do psiquismo infantil e possuem inúmeros atributos de acordo com a fase do desenvolvimento da criança, e são exercidas por tutores adultos, pai, mãe, podendo ser biológico ou adotivo (DOLTO, 1996).

Neste sentido (DOR, 1991) também comenta que, a possibilidade do desenvolvimento de modo geral dos seres humanos, as funções materna e paterna podem ser exercidas, enquanto funções simbólicas não apenas por pai e mãe “real” (genitores), mas por quem as assume efetiva e afetivamente, o que vem de encontro com as contribuições de Zimerman (1999), no que se refere ao papel familiar, ou daquele que assumir as funções materna e paterna.

A família constitui-se como um campo dinâmico no qual agem tanto os fatores conscientes quanto inconscientes, sendo que a criança, desde o nascimento, não apenas sofre passivamente a influência dos outros, mas reciprocamente, é também um poderoso agente ativo de modificações nos demais e na estrutura da totalidade  da família (p.103)

Dolto (1996) esclarece que a mãe desde o primeiro contato com o bebê exerce a  função de ir introduzindo o ser humano na linguagem simbólica e também no mundo simbólico. Para a autora o início da linguagem e da simbolização ocorrem a partir do momento que a mãe sinaliza e nomeia os gestos de seu bebê, e ressalta que a função simbólica é percebida pela psicanálise como função fundadora do ser humano, e é por meio desta função que o individuo pode se desenvolver, momento em que há vulnerabilidade, impotência e relação de dependência dos adultos provedores para uma futura independência. A autora afirma que o primeiro sorriso do bebê antes da mamada é entendido como uma “potencialidade” para a linguagem, ligada à necessidade de comunicação psíquica que se dá através das trocas afetivas no ritmo e no clima emocional, e é na esfera da mãe e do bebê  que vão se dando a linguagem dos desejos e das necessidades. Ou seja: tudo o que acontece no ser humano é função simbólica.

A função simbólica é fundadora do ser humano. É ela que permite ao filho do homem, nascido impotente para sobreviver sem a tutela parental, desenvolver uma relação inter-humana de dependência fundamental primária daqueles que desempenham em relação a eles o papel de provedores e posteriormente de tutores (DOLTO, 1996, p.231).

A este respeito Winnicott (2011) afirma que os papéis parentais têm uma grande importância, e se destacam primordialmente as funções maternas e paternas. É com os pais que o bebê tem seu primeiro contato com o mundo passando a existir e construir suas capacidades nos processos de simbolização e construção do psiquismo. A mãe tem uma significativa importância na saúde mental da criança, denominada assim de “mãe suficientemente boa” visto que atende as necessidades do bebê, não cometendo excessos de frustração e nem de cuidados, com isso proporcionará um desenvolvimento saudável do self de seu filho; caso isso não ocorra pode gerar aflição, devido ao bebê não sentir-se integrado e perder o sentimento do real. Ainda nesse sentido Winnicott (2013, p.27) conceitualiza o termo Holding como:

A capacidade da mãe de identificar-se com seu bebê. Um holding satisfatório é uma porção básica de cuidado, só experimentada nas reações a um holding deficiente. O holding deficiente produz extrema aflição na criança sendo fonte: Da sensação de despedaçamento, da sensação de estar caindo num poço sem fundo, de sentimentos de que a realidade exterior não pode ser usada para o reconforto interno e de outras ansiedades que são geralmente classificadas como “psicóticas”.

Outro aspecto levantado pelo autor que refere-se à relação mãe e bebê é a grande necessidade de haver uma adaptação exata da mãe às necessidades do filho para que a personalidade infantil se desenvolva sem distorções. Ainda neste sentido, quando a mãe tem um bom funcionamento com o bebê, ela apóia o seu desenvolvimento, o ego da criança se torna forte desde muito cedo. Já os bebês que recebem apoio egóico inadequado poderão desenvolver padrões de comportamentos como apatia estranhamento e inibição (WINNICOTT, 1985)

Cabe citar a contribuição de Bowlbly (2006) a respeito da “privação materna” nos primeiros anos de vida e seus efeitos negativos no desenvolvimento da personalidade. O autor ressalta que os efeitos da privação materna são variáveis de acordo com o grau, podendo gerar angústia, sentimentos de vingança, necessidade de amor, culpa e depressão, e por não possuir maturidade física e nem psíquica a criança não consegue lidar com tais emoções, poderá ter como consequência perturbações que pode resultar em distúrbios nervosos; em casos de privação total poderá ter danos maiores sobre o desenvolvimento da personalidade, podendo aniquilar a capacidade de se ajustarem nas relações com o outro. Ainda nesta mesma linha de considerações o autor sustenta que, para que o bebê e a criança pequena desenvolvam-se mentalmente saudável, é essencial que vivenciem um relacionamento afetuoso, íntimo e com continuidade com sua mãe ou mãe substituta, em que ambos encontrem prazer e satisfação, ou seja: precisam sentir-se profundamente identificados um com o outro, numa relação de troca que altera tanto a personalidade de um quanto do outro, ou seja: quando a mãe age sobre o bebê modifica-o, consequentemente, o bebê agirá sobre a mãe modificando-a, e será nessa vivência se dará o envolvimento afetivo. Conforme aponta Winnicott (1988, p.09).

Dizemos que o apoio do ego materno facilita a organização do ego do bebê. Com o tempo, o bebê torna-se capaz de afirmar sua própria individualidade, e até mesmo de experimentar um sentimento de identidade pessoal. Tudo parece muito simples quando vai bem, e a base encontra-se nos primórdios do relacionamento, quando a mãe e o bebê estão em harmonia.

Devido às mudanças que tem surgido ao logo do tempo, o pai e sua função tem sido um tema que tem se apresentado de maneira relevante nas discussões. O pai na teoria psicanalítica surge como um operador simbólico a-histórico, como apontado por Dor (1991), uma vez que o pai e sua função integram uma história mítica, uma suposição universal.

Outro aspecto levantado pelo autor refere-se à dinâmica da dialética edipiana, em que ocorre a edificação do pai simbólico a partir do pai real, e a função paterna vai exercer influência na estruturação psíquica da criança.

Segundo Dor (1991), o primeiro momento decisivo do ponto de vista da estrutura é aquele em que se inicia para a criança o questionamento da identificação fálica, trata-se aí de uma vivência identificatória primordial onde a criança é radicalmente identificada com o objeto único do desejo da mãe, o objeto do desejo do outro, o seu falo.

Assim, a intrusão da figura do pai, enquanto instância mediadora do desejo, introduzirá, na economia do desejo da criança, um certo modo de vetorização. O que se designa como função paterna nada mais é senão a função fálica, com toda ressonância simbólica. O autor salienta que a função fálica só é operatória, na medida em que vetoriza o desejo da criança em relação a uma instância simbólica mediadora: o pai simbólico.

Neste sentido, o pai enquanto função simbólica oferece estrutura, de modo que o cumprimento da função paterna é imprescindível na estruturação psíquica e no processo de desenvolvimento da criança. Como faz notar Coppolillo (1990) ao referenciar o pai como  um

aliado importante para os filhos durante a fase de separação-individuação, quando momento em que o bebê está incluído na relação simbiótica entre mãe-filho o pai é eficaz no que se refere ao desenvolvimento da autonomia da criança.

Na sociedade atual muito se comenta sobre o declínio das funções parentais, que têm no papel paterno seu maior destaque, a discussão ocorre em função da fragilidade dos laços e o distanciamento de suas funções. Nesse sentido faz notar os aspectos levantados por Dor (1991) e Winnicott (1999) que ressaltam a importância das funções paterna e materna e a contribuição que cada uma pode oferecer para o desenvolvimento da criança, assim como a contribuição de Rhode (2000) que destaca que a figura paterna é fundamental para que as relações triangulares edípicas sejam vivenciadas, deste modo a ausência do pai ou a sua presença de forma inapropriada podem causar confusão mental e pensamento desarticulado na criança, influenciando negativamente seu desenvolvimento emocional.

Portanto ser pai e ser mãe não significa apenas conceber o filho, prover o alimento e supri-los de bens materiais conforme exigência da lei se faz necessário à disponibilidade interna no casal para “tornar-se” mãe ou pai, neste sentido, o adequado desempenho das funções materna e paterna se torna indispensável devido a sua importância na estruturação da personalidade da criança.

Neste sentido são enumeras as necessidades que uma criança apresenta muito antes de seu nascimento. Vale ressaltar que além de um ambiente seguro, facilitador de crescimento, amadurecimento e integração, Coriat (1997) considera que é este outro que inscreverá as marcas primárias no corpo da criança, que serão a base do seu psiquismo, o que requer dos pais um comprometimento e dedicação mesmo antes do nascimento do bebê. A despeito disso Coppolillo (1990) afirma que a função materna tem papel indispensável como organizador psicológico, seu desenvolvimento corresponde ao relacionamento estabelecido entre a mãe- criança ou o responsável pelos cuidados maternos, que proporcionará capacidade de interação com o mundo externo e dos objetos humanos. Este aspecto também é comentado por Winnicott (1988), que considera que todo individuo possui um potencial para desenvolver física e mentalmente tendências que levam a integração e a consumação da totalidade.

Sendo a base sobre o desenvolvimento da personalidade humana, antes mesmo do nascimento do bebê se faz necessário um ambiente adequado. O autor ressalta que, à medida que prossegue o desenvolvimento e o bebê adquire um interior e um exterior, a confiança do meio ambiente passa a ser uma crença, introjeção embasada na experiência de confiabilidade humana e não mecanicamente perfeita.

Winnicott (2000) menciona que o ambiente é essencial para o desenvolvimento e estruturação da personalidade do indivíduo, e este poder favorecer condições para que o verdadeiro “self” do indivíduo se desenvolva. O verdadeiro “self” correspondendo ao desenvolvimento de um eu genuíno, sem deixar de respeitar as características individuais, próprias do sujeito, resultado da relação e sintonia mãe-bebê, em que a mãe aceita e reconhece os gestos espontâneos de seu bebê. O contrário disso é fruto da falha na função materna, em que o lactante não tem por parte da mãe sustentação para ter experiência e seguir na constituição de seu eu. Deste modo, o bebê começa a construir seu eu baseado na irritação do meio.

Existe algo que chamamos de ambiente não suficientemente bom, que distorce o desenvolvimento do bebê, e existe o ambiente suficientemente bom, que possibilita ao bebê alcançar a cada etapa, as satisfações, ansiedades e conflitos inatos pertinentes (WINNICOTT, 2000, p. 399).

Neste sentido, cabe aos pais preparar e monitorar os contatos do ambiente para que seja menos intrusivo possível, de modo que o bebê possa ser protegido de sensação de desintegração. Os pais devem suprir o bebê em suas necessidades básicas e essenciais, fisiológicas, psicológicas, como alimento, calor, higiene, afeto, calor humano e desejo pelo bebê.

Este ambiente deve ser propiciado pelo pai, ficando assim estabelecido pelo autor que cabe a função paterna ser “agente protetor”, pois o pai é aquele que possibilita à mãe tornar-se dedicada a seu bebê. Este pai suporta esperar suas demandas de atenção, possibilitando a ocorrência da simbiose entre mãe e filho; desta forma, de outra forma pode se dizer que a formação de um bom vínculo com o bebê e seu desenvolvimento emocional e psíquico está diretamente relacionada às condições propiciadas pelo ambiente apropriado e acolhedor.

O bebê tem no ato do nascimento o seu primeiro trauma, é abalroado por terrores, medos e ansiedade por estar defronte à sensações corporais e estímulos até então desconhecidos e sem sentido para ele. Partindo do pressuposto de que a mãe ou a figura materna é quem apresenta o mundo para acriança, é necessário ter condições receptivas e compreensivas para apoiá-lo na digestão dos sentimentos desconhecidos, dando-lhes sentidos e controlando sua ansiedade. De acordo com Klein (1981) a função materna deve propiciar alívio às ansiedades do bebê e auxilia-lo no contato com o mundo interno e a realidade, neste sentido a mãe necessita estabelecer um vínculo amoroso para compreender e poder atender às necessidades que o mesmo apresentar.

Ainda nesta mesma linha de considerações, Klein (1997) considera que a ligação que a mãe faz com o bebê confere-lhe sustentação na construção do seu eu, o que corresponde com as ilustrações da vida mental da criança, que é influenciada por emoções primitivas e fantasias inconscientes fazendo com que o recém-nascido experimente ansiedade de natureza persecutória, como se todos os desconfortos lhe fossem infligidos por forças hostis, o que desencadeia uma ansiedade da qual o ego precisa se livrar, para poder projetar.

A autora descreve que o ego usa os mecanismos iniciais para expelir seu próprio sadismo e atacar objetos hostis; e o efeito devastador sobre o desenvolvimento se esse mecanismo for usado excessivamente para eliminar todo o sadismo e ansiedade o ego fica desprovido de meios para um futuro desenvolvimento.

Portanto destaca a importância do vínculo mãe e bebê no sentido da mãe ser reservatório das angústias e do desamparo do bebê ainda recém-nascido.

Bleichmar (1994) destaca que a mãe ocupa um lugar central no psiquismo da criança, quando ela investe em seu bebê narcisisticamente, através de atos como acariciar o bebê, fixar o olhar em seus olhos durante a amamentação, acomodar sua cabeça e pernas no colo, de maneira tranquilizadora proporciona-lhe derivações na maneira de satisfazer uma pulsão.

Pode-se dizer que o bebê adquire a representação totalizante através do narcisismo egoico da mãe, que permite que a pulsão, intrusiva e atacante, encontre de início formas de ligação por vias colaterais; este processo possibilita a constituição do ego, que então inibe os processos primários e supõe a instalação do processo secundário. A criança adquire capacidade de tolerância à frustração, a partir instauração do princípio da realidade, que inclui a constituição do eu (ego). Quando ocorrem falhas nesse processo, o bebê fica exposto a uma dor constante, ficando apenas o registro de prazer-desprazer, sem tolerância à postergação.

Jerusalinsky (1984) afirma que a amamentação é o primeiro tipo de alimentação do bebê e repercute de forma múltipla na mãe, proporcionando um sentimento de proximidade com seu filho, através de um movimento circular de satisfação, que surge no ato de oferecer peito ao bebê, pela sucção, circula e retornando de forma glandular e psíquica sobre a mãe. Para a autora, a primeira forma de expressão materna ocorre através do leite, e vai se re- significando através de outros objetos, conforme prossegue o desenvolvimento da criança.

2.4 A importância do vínculo na formação da personalidade do sujeito

O lar é nosso ponto de partida. À medida que crescemosO mundo se torna mais estranho, mais complexo os padrões De morrer e viver. Não o momento intenso Isolado, sem antes nem depois. Mas uma vida ardendo em cada momento (T.S. Eliot, apud Winnicott, 2011).

De início é interessante destacar algumas contribuições e considerações acerca da personalidade, uma vez que sua construção desta está diretamente ligada aos estágios de desenvolvimento da infância, e que a saúde mental tem sua base na personalidade bem integrada, conforme elementos enumerados por Klein (1991): maturidade emocional, força de caráter, capacidade de lidar com emoções conflitantes, equilíbrio entre a vida interna e a adaptação à realidade e uma bem-sucedida fusão das diferentes partes da personalidade em um todo.

A relação mãe-filho é um dos aspectos mais estudados, devido às características e as complexidades dessa relação que ocorre logo no estágio inicial da vida da criança, e essa relação influenciará o seu desenvolvimento como um todo e, consequentemente, na formação da personalidade.

A palavra personalidade tem origem no termo latino “persona”, que significa máscara. A personalidade é então o conjunto de padrões duradouros do comportamento do indivíduo face à multiplicidade de situações. A personalidade encerra aquilo que torna o indivíduo diferente de todos os outros.

A personalidade é construção pessoal que decorre ao longo da nossa vida e é um processo dinâmico em que intervêm diferentes fatores como o meio social: família, grupos e culturas em que o sujeito esta inserido; fatores Hereditários: Singularidades fisiológicas e morfológicas, ou seja, traços específicos de natureza física e de base de temperamento, e também nos dons intelectuais; fatores de experiências pessoais: experiências adquiridas na ação efetuada sobre os objetos.

Cada vez mais se atribui a importância dos estágios de desenvolvimento emocional da infância na construção da personalidade, sendo a relação mãe-bebê no primeiro ano de vida e as características dessa relação um dos aspectos mais estudados devido a grande influência no desenvolvimento futuro da criança, além das complexidades das relações familiares que irá influenciar nas capacidades cognitivas, linguísticas e afetivas no processo de autonomia, de socialização, e construção de valores para a criança e posteriormente do adolescente. Larousse Enciclopédia e Gleitman (1999).

Para Ballone (2005) a ideia de personalidade poderia ser esboçada da seguinte maneira: A personalidade é a organização dinâmica dos traços no interior do eu, formados a partir dos genes particulares que herdamos, das existências singulares que suportamos e das percepções individuais que temos do mundo, capazes de tornar cada indivíduo único em sua maneira de ser e de desempenhar o seu papel social.

Ainda neste sentido na perspectiva teórica psicanalítica a personalidade é orientada  por forças pulsionais oriundas do inconsciente, tendo a infância e as relações objetais uma grande importância; partindo deste principio se faz necessário enfatizar a importância das relações parentais e a construção do vinculo.

Winnicott (1988) aponta que o termo “mãe suficientemente boa” pode gerar a um sentimento de culpa aos pais, frente aos efeitos do fracasso, da “mãe dedicada comum” enquanto atribuições das funções materna e paterna, mas, se faz necessário discriminar a importância da dedicação “comum” embora os pais tenham atribuições e desejos dos aspectos de culpa que vem da pouca dedicação à criança. Por isso o autor enfatiza a importância do vínculo mãe-bebê e a dependência absoluta do bebê no inicio de sua vida, assim se dá o desenvolvimento psicológico, psicossomático e de sua personalidade.

Tenho, entretanto, um motivo especial pelo qual sinto que devemos ser capazes de fazer uma divisão equitativa da importância da etiologia (e não da culpa), e esse motivo diz respeito ao fato de que não podemos reconhecer o valor positivo do fator ‘mãe dedicada comum’ de nenhuma outra forma – a necessidade vital que tem cada bebê de alguém que facilite os estágios iniciais dos processos de desenvolvimento psicológico, ou desenvolvimento psicossomático, ou desenvolvimento da personalidade mais imatura e absolutamente dependente, que é a personalidade humana (p.07).

Para Winnicott (1988, 1998, 2000) a mãe tem inúmeras formas para estabelecer um contato íntimo com seu bebê, mas enfatiza que a amamentação, quando bem-sucedida, favorece o estabelecimento de um vínculo muito especial, pode se também constituir uma vivência significativa tanto para a mãe quanto para o bebê. O contato do seio materno com a boca da criança favorece uma experiência de intimidade e união, propiciando assim  satisfação, prazer e sensação de completude para ambos. Entretanto, esta vivência somente se torna possível quando, efetivamente, a mãe possui o desejo real e a disponibilidade interna, uma  preocupação  materna  primária,  que  é  um  estado  psíquico  da  mãe  de  extrema sensibilidade para amamentar, que lhe permite intensa identificação com seu filho, e disposição interna para suprir-lhe as necessidades e os cuidados indispensáveis.

Quando bem-sucedida, a amamentação pode ser como um elemento que facilita a maternagem em sintonia com o bebê, atendendo às suas necessidades primordiais e contribuindo para que ele desenvolva a capacidade de estabelecimento de relações objetais; capacidade que se ampliará do objeto materno para o mundo exterior, norteando, inclusive, seus futuros relacionamentos.

Com o cuidado que ele recebe de sua mãe cada lactante é capaz de ter uma existência pessoal, e assim começar a construir o que pode ser chamado de continuidade do ser. Na base dessa continuidade de ser o potencial herdado se desenvolve gradualmente no indivíduo lactante. Se o cuidado materno não é suficientemente bom então o lactante não vem a existir, uma vez que não se dá continuidade do ser; ao invés a personalidade começa a se construir baseado em reações a irritações do meio (WINNICOT, 1990, p.53).

Sobre o desenvolvimento afetivo da criança, Bowlby (1990) aponta o vínculo afetivo como um laço relativamente estável e harmônico, enfatiza também a importância do primeiro contato mãe-bebê e a proximidade das figuras materna e paterna enquanto modelos e referências para a criança, de modo que os pais forneçam uma base segura a partir da qual uma criança ou um adolescente possa explorar o mundo exterior e a ele retornar desejos de que serão bem-vindos, nutridos fisicamente e emocionalmente, confortados em caso de um sofrimento e encorajados se estiverem ameaçados. A consequência dessa relação de apego é a construção de confiança e segurança da criança em relação a si mesma e, principalmente, em relação àqueles que a rodeiam sejam suas figuras parentais ou outros integrantes de seu  círculo de relações sociais.

Ainda nesta mesma linha de considerações o autor reforça que quando a criança é afastada de sua mãe, seja o afastamento de ordem física ou emocional, muitas são as consequências, tanto de ordem física, quanto intelectual e social, podendo, inclusive protagonizar o aparecimento de enfermidades físicas e mentais como: distúrbios psiquiátricos, psiconeuróticos, sociopáticos ou psicóticos que manifestam sempre deterioração da capacidade para estabelecer ou manter vínculos afetivos. Essa deterioração pode ser  em alguns casos, grave e duradoura, isso evidencia que muitos destes transtornos podem ter causas secundárias em relação a outros acometimentos, como também ser primária em virtude de uma falha no desenvolvimento na infância vivido no ambiente familiar desfavorável.

Outro aspecto destacado pelo autor é o período de gestação, uma vez que o bebê  neste período também aprende muito sobre a mãe, sua ansiedade, agitações e seu estilo agitado ou calmo; mas ressalta que para que a mãe tenha este contato intenso com seu bebê ela também precisa de um ambiente facilitador, sem interferência e sem preocupações.

Nesta perspectiva entende-se que elo afetivo formado será imprescindível para o desenvolvimento infantil e sua falta pode prejudicar a criança, por esta razão promover um ambiente adequado é de real importância, pois:

O ambiente que cerca a relação mãe-filho contribui para a qualidade da reatividade de ambos [...] Se a mãe é cercada de pessoas que realmente conseguem ajudá-la e apoiá-la, os sentimentos de autoconfiança e satisfação emocional tendem a aumentar, assim como a disposição de dar afeto ao bebê (MALDONADO, 2002, p. 52).

É possível notar que em muitas pesquisas envolvendo as relações humanas e o modo como estas se estabelecem a importância de como e a sua qualidade interferem diretamente no modo como o indivíduo se relaciona e significa suas vivências. Com estas considerações afirmamos a importância do vínculo materno como um dos aspectos fundamentais das relações humanas. Partindo das contribuições de Bowlby, em sua teoria do apego que define o comportamento de apego como: “qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa alcançar e manter proximidade com algum outro indivíduo, considerada mais apta para lidar com o mundo” (BOWLBY, 1989, p.38)

Esta definição vem de encontro ao que afirma Pichon (1988), que conceitua o vínculo como a maneira particular pela qual cada indivíduo se relaciona com outro ou outros, criando uma estrutura particular a cada caso e a cada momento. O vinculo é então um tipo particular de relação de objeto; e a relação de objeto é constituída por uma estrutura que funciona de uma determinada maneira. É uma estrutura dinâmica em contínuo movimento, que funciona acionada por fatores instintivos, ou seja, por motivações psicológicas. O vínculo é uma forma de relação particular com o objeto, deste modo há dois campos psicológicos do vínculo, um interno e outro externo. Ou seja, a forma particular que o indivíduo tem de se relacionar consigo mesmo e com as imagens internalizadas.

Neste sentido Bowlby (1989) afirma que existi uma forte relação causal entre as experiências de um indivíduo com seus pais e sua capacidade para estabelecer vínculos afetivos, e algumas variações dessa capacidade podem manifestar-se em problemas conjugais e em dificuldades com os filhos; igualmente nos sistemas neuróticos e distúrbios de personalidade.

Os comportamentos de apego referem-se a um conjunto de condutas inatas exibidas pelo bebê, que promove a manutenção ou o estabelecimento da proximidade com sua  principal figura promotora de cuidados, a mãe; dentre outros o comportamento de apego  inclui chorar, fazer contato visual, agarrar se, aconchegar-se e sorrir.

O apego é eliciado quando o bebê estiver assustado, cansado, com fome ou  em situação de estresse, levando-o a emitir sinais que podem desencadear a aproximação e a motivação do cuidador. Este por sua vez deverá oferecer-lhe as coordenadas do comportamento de apego, que traz ao bebê segurança e conforto e promove o seu desenvolvimento. Com isso o autor afirma que quando uma pessoa está apegada ela tem um sentimento diferenciado de segurança e conforto na presença do outro, e pode usar o outro como uma “base segura” que lhe favorece lhe explorar o mundo.

Assim, a qualidade do cuidado advindo da mãe ou cuidador principal pode proporcionar condições favoráveis à criança, seja nos aspectos físico quanto o afetivo-social,  e é de suma importância que os principais vínculos se estabeleçam ainda na primeira infância, e este, por sua vez, vão se estender por toda existência do indivíduo; por isso o autor sustenta que tanto a formação quanto o rompimento de vínculos, somados às características parentais, familiares e a dinâmica familiar na infância, estão profundamente ligados ao desenvolvimento de padrões de relacionamentos na vida adulta, e ressalta que a vinculação afetiva não é somente o resultado automático da fisiologia, pois somos seres biologicamente culturais.

O comportamento de apego, além da função de proteção, provedora de auxílio, conforto, confiança, e encorajar a autonomia do bebê, propicia uma série de interações sociais que colaboram para um desenvolvimento saudável. Esse apego instaurado, além de proporcionar oportunidades de treinar seus comportamentos contribui para que perceba as modificações dele no meio. Mas é a interação entre mãe e filho que garante a construção do vínculo afetivo; deste modo, quanto mais forte o vínculo inicial mãe-bebê, maior a probabilidade de a criança tornar-se independente no futuro. Para o autor, o vínculo quando bem formado proporciona à criança segurança e bem-estar.

Deste modo o autor afirma que todo ser humano nasce propenso a estabelecer fortes vínculos afetivos, mas, essa capacidade pode ser diminuída devido a fatores externos que impedem a criança desempenhar esse potencial com as pessoas que o cercam. A capacidade é inata, mas precisa ser estimulada adequadamente para que se concretize.

O estudou do apego, realizado Bowlby, concluiu que essa ligação era parte de um sistema de comportamento que servia de proteção à espécie, uma vez que os bebês humanos são indefesos e incapazes de sobreviver sozinhos por um longo período de tempo. Deste modo, o apego dos bebês às suas mães ou cuidadores é o que possibilitaria a sobrevivência da espécie.

Bowlby (1989) define o vínculo afetivo a partir de uma atração dirigida ao objeto, inexistindo, por conseguinte, vida desprovida de tonalidade afetiva. Assim, a vida humana será regida por dois afetos básicos: o amor e o ódio. Eles se encontram presentes na vida psíquica, nos pensamentos e comportamentos emitidos pelo homem.

Spitz (1991) apresentou sua contribuição a respeito do vínculo com o estudo da "Depressão Anaclítica", desencadeada pela privação parcial afetiva da figura materna, essa síndrome é um exemplo clássico de como a privação afetiva pode comprometer o desenvolvimento do bebê, segundo o autor é o quadro mais precoce e mais grave da depressão no bebê, cuja etiologia é de caráter relacional, sendo desencadeada pela ruptura da relação com o objeto maternal. Para o autor as relações objetais provém da percepção da criança, que se originam de sua interação repetida com o parceiro humano que se sintoniza com suas necessidades vitais, e enfatiza, as relações objetais se desenvolvem gradativamente durante o primeiro ano de vida e ao seu final estará estabelecida. Sendo assim, o conceito de objeto está intrinsecamente relacionado à mãe ou ao seu substituto.

Cabe citar o trabalho de Klein (1952, 1973) que traz contribuições significativas a respeito da importância do vínculo mãe-bebê, e aponta para a necessidade de haver qualidade no contato entre mãe e criança e o quanto o estabelecimento do vinculo necessita de  dedicação e tempo logo no início da vida do bebê.

A autora afirma que o primeiro objeto com o qual o bebê se relaciona é a mãe e o alimento que ela propicia. Sendo assim descreve que o melhor critério para compreender o mundo particular dos bebês seria estudar suas atitudes com relação ao alimento, isto porque a gratificação está tão intimamente relacionada ao objeto que dá o alimento, como também com o próprio alimento. É da relação entre mãe-bebê que se desenvolve a primeira relação objetal e esta só pode se desenvolver quando a ansiedade não é excessiva, para os dois sujeitos. Uma boa relação objetal num estágio primitivo constitui um ponto fundamental para as relações futuras com as pessoas e para o desenvolvimento emocional.

Outro aspecto levantado na teoria kleiniana referencia a relação com o seio amado e odiado, como a primeira relação de objeto do bebê com o mundo externo. Nesse sentido, a amamentação possui um papel fundamental para a construção da afetividade humana, estabelecido nas relações da criança com a sua mãe, (ou como o primeiro representante do mundo externo) que lhe oferece carinho e segurança essencial e que sobrevive na fantasia infantil.

Segundo Maldonado (2002), o contato epidérmico é indispensável para um desenvolvimento saudável na infância, pois estimula a formação e ou a manutenção  do vínculo mãe-bebê. Portanto é essencial a estimulação tátil e deve ser entendida como necessidade básica e essencial para a sobrevivência do organismo, tal como a necessidade de oxigênio, alimento, líquidos, atividades, e evitação do desprazer e do perigo.

Este aspecto também é considera por Lana (2001), pois quando o bebê  é  amamentado ao peito, este entra em contato corpo-a-corpo que possibilita conhecer o cheiro da mãe e de sentir o seu seio, além disso a distância entre o seio e o bebê favorece a criação dos laços afetivos e o conhecimento um do outro. No decorrer de cada mamada, o bebê vai conhecendo e reconhecendo sua mãe e esta vai tomando conhecimento das particularidades de seu bebê, sendo mais fácil atender suas necessidades em momentos difíceis, e possibilita que  o amor do bebê pela mãe se desdobre a cada contato, a cada palavra meiga, a cada olhar e abraço afetuosos, a cada encontro positivo durante as mamadas, o vínculo entre eles aumenta, dando ao bebê um sentimento de ser aceito e de segurança. Deste modo a mãe vai se identificando com seu filho, percebendo suas necessidades e atendendo a elas, este irá desenvolvendo um vínculo afetivo com sua mãe que tende a persistir por toda vida.

A amamentação deixa o bebê feliz pelo prazer de saciar a sua fome e sua sede, mas também pelo aconchego e contato que ele tem com a mãe. Se a mãe estiver  adorando amamentar, certamente o bebê estará adorando ser amamentado, porque o leito emocional é absorvido junto com o leite físico. A amamentação prazerosa é nutritiva, tanto física quanto psicologicamente, pois os bebês nascem com uma grande sensibilidade para captar sinais da qualidade do afeto dispensado a eles pelos pais. A sua sobrevivência depende da qualidade deste afeto (LANA, 2001 p. 67).

Amamentar é considerado um ato natural e melhor forma de alimentar, proteger e  amar uma criança, principalmente nos primeiros meses de vida, o que poderá proporcionar um crescimento e desenvolvimento sadio, pode ser também um meio de vinculação mãe-bebê. O termo amamentação se difere do aleitamento materno, segundo Rego (2008, p.11) esclarece: “O conceito da amamentação é o ato da mãe dar o peito diretamente para o bebê mamar e o aleitamento materno é o meio pelo qual a criança recebe o leite de sua mãe”, seja através da mama, pelo copinho ou até mesmo pela mamadeira. Porém, a amamentação vai muito além, ao propicia a melhor fonte de nutrição para os lactentes e a proteção contra diversas doenças, possibilita um melhor desenvolvimento psicológico. Conforme considerações deste autor:

A amamentação não é apenas uma técnica alimentar, é muito mais do que a simples passagem do leite de um organismo para o outro, ainda que diretamente ao seio. Ela é um rico processo de entrosamento entre dois indivíduos um que amamenta e o outro que é amamentado. A amamentação não só é propiciada como também propiciadora de uma gama de interações facilitadoras de formação e consolidação do vínculo mãe-filho (REGO, 2008, p.17).

Segundo Sptiz (1991), o par mãe-bebê é constituído de um adulto, que tem uma organização psíquica definida e estruturada e de uma criança que, em sendo psiquicamente  um organismo indiferenciado, vai ultrapassando sucessivamente diferentes etapas do desenvolvimento biológico, psicomotor, afetivo e social, na medida em que a mãe propicia à criança a satisfação das suas necessidades, estabelece-se entre ambos uma relação complementar. Por isso a ausência afetiva é extrema gravidade, seja ela parcial ou total prejudica todos os aspectos do desenvolvimento cognitivo, motor, mental e da personalidade do individuo.

Segundo Tavares, (2010) do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, bebês que são submetidos à institucionalização e privação afetiva por tempo prolongado podem ter sua personalidade seriamente comprometida no futuro e esta preocupação vai além do campo psicológico, atingindo o campo social, podendo gerar psicopatologias graves ou perversões e delinquência social.

Cabe citar o trabalho de Klein (1991) que considera, que um grupo seja pequeno ou grande consiste de indivíduos em relações uns com os outros, e que a compreensão da personalidade é a base para a compreensão da vida social, portanto é necessário investigar como o indivíduo desenvolve-se da infância à maturidade, assim, a história da vida  na infância deve ser sempre considerada.

Deste modo, compreende-se que o desenvolvimento social e o crescimento, físico e psicológico da criança é essencialmente dependente do estabelecimento e desdobramentos progressivos da vinculação mãe-bebê, que assim como ressaltado por pesquisadores do desenvolvimento é essencial para o sujeito, de modo a garantir relações sociais bem sucedidas e estrutura psíquica saudável, pois tem o papel de promover a segurança necessária para a estabilidade psicológica e o equilíbrio emocional da criança.

3. Método

A realização deste trabalho deu-se a partir de uma revisão bibliográfica, de autores renomados da área de desenvolvimento e da psicologia que falam sobre a importância da construção do vínculo e das funções materna e paterna no que diz respeito ao desenvolvimento e formação da criança.

4. Discussão

Este estudo procura fazer uma reflexão sobre as possíveis consequências da terceirização das funções materna e paterna para o desenvolvimento e formação da criança. Buscamos  subsídios teóricos em autores conceituados na esfera do desenvolvimento, como Bowlby, Winnicott, Dalto, Klein, Freud no que se refere aos processos de desenvolvimento e estruturação social, psicológico, emocional, afetivo e do psiquismo.

Primeiramente, buscamos compreender, a partir dos relatos históricos e contribuições de Ariès, qual o lugar da criança na família e na sociedade, fazendo um paralelo com as vivências atuais da criança e as normas legais de amparo e proteção à criança. Encontramos muitas divergências no que se refere ao cumprimento da lei que visa garantir condições humanas e dignas à criança. Muitas crianças vivem em condições miseráveis, de extrema pobreza, negligenciadas, sofrendo agressão física e psicológica, abandonadas em gaiolas de ouro, ou órfãos de pais vivos, conforme relato do pediatra Martins (2007).

O estudo deste tópico permitiu uma análise da sociedade ao longo dos anos e tristemente identificamos que a criança ainda busca um lugar, um olhar na família e na sociedade atual, que se considerarmos os acometimentos psicológicos e violentos que a criança tem sofrido, muitas vezes em seu próprio ambiente e nas relações familiares que, conforme o levantamento bibliográfico, tem grande dificuldade em atender as demandas das crianças e dos adolescentes, seja por imaturidade, falta de tempo ou despreparo para uma boa maternagem e paternagem. Provavelmente, o avanço e a globalização exigirá cada vez mais disponibilidade dos pais no cuidado dos filhos, requerendo um maior ajustamento e dinamismo entre os membros da família e principalmente nos papeis parentais de modo que todo o núcleo familiar se beneficie e, consequentemente, a sociedade.

A partir desse lugar da criança na família, passamos a discorrer sobre a terceirização propriamente dita. É muito natural, por diversos motivos, pais e mães deixarem os cuidados dos filhos na responsabilidade de avós, creches ou outras instituições, nesta pesquisa foi possível identificar que a terceirização se apresenta muito sutil e passa despercebida, pois a sociedade credita que deixar seus filhos sobre responsabilidade de terceiros, é um costume  tido como natural, e de fato tem raízes nas antigas civilizações em que a criança aparece em vários momentos como descartáveis, e que tornavam se abandonados à própria sorte exposto a todo e qualquer forma de perigo, encontrados entre peixes ou em margens de rios ou até mesmo tornando comida para cães.

Embora existam leis de amparo e proteção à criança e adolescente atualmente as crianças ainda sofrem por negligencias, desamparo, além de violências psicológicas e físicas, privação afetiva materna e paterna, o que pode resultar em consequências e danos  irreversíveis à constituição do indivíduo como um todo.

Bowlby (1990) reforça que quando a criança é afastada de sua mãe, seja o afastamento físico ou emocional, muitas são as consequências, tanto de ordem física, quanto intelectual e social, podendo, inclusive protagonizar o aparecimento de enfermidades físicas e mentais como: distúrbios psiquiátricos, psiconeuróticos, sociopáticos ou psicóticos que manifestam sempre deterioração da capacidade para estabelecer ou manter vínculos afetivos. Ainda neste sentido Tavares (2010) ressalta que bebês que são submetidos à institucionalização e privação afetiva por tempo prolongado podem ter sua personalidade seriamente comprometida no futuro e esta preocupação vai além do campo psicológico, atingindo o campo social, podendo gerar psicopatologias graves ou perversões e delinquência social.

As considerações a respeito dos possíveis danos e os atuais comportamentos de crianças, adolescentes e por que não dos pais e da sociedade atual é inquietante, o que nos faz pensar em medidas urgentes como: valorizar um pouco mais a função paterna dando-lhe a importância devida na dinâmica familiar, de modo a contribuir com o “holding”, que possamos de alguma forma trabalhar a conscientização da sociedade, abandonar antigas crenças e cuidar das crianças de modo a promover o seu desenvolvimento saudável.

A partir das concepções psicanalíticas sobre as funções materna e paterna foi possível estabelecer um diálogo propiciador de conhecimentos a respeito dos papeis parentais e sua importância para o desenvolvimento sadio da criança.

Verificamos que atualmente há uma grande discussão em torno da função paterna e de seu possível declínio, diante de todas as mudanças históricas ocorridas na instituição familiar, na atribuição de papeis, pode ser necessária uma reinvenção da função paterna, uma vez esta significa lei, organização, estrutura e autoridade. É impossível imaginarmos que a criança terá o desenvolvimento satisfatório na estrutura psíquica sem a figura paterna a quem possa-se identificar. Essa consideração vem de encontro com algumas características da criança e do adolescente de nossa atualidade, citadas por Martins (2007), que apresentam agressividade e dificuldade de lidar com figuras de autoridades e limites. Por isso fica indispensável a participação e contribuição do pai para o sadio desenvolvimento do filho.

Não poderíamos deixar de comentar sobre a importância da função materna enquanto promotora de saúde mental, a mesma é fundamental desde o primeiro momento de vida do bebê, para que sua personalidade se desenvolva atendendo as necessidades afetivas humanas.

Para concluirmos é importante reforçar que os pais têm grande importância no desenvolvimento global da criança, pois é a partir da relação com os pais que o bebê tem seu primeiro contato com o mundo, passando a existir e construir suas capacidades de simbolização e construção do psiquismo.

A psicanálise é pioneira em reconhecer a importância das primeiras relações na vida de um bebê como a base para o desenvolvimento. As primeiras relações estão vinculadas à formulação de que todos os bebês desenvolvem um forte vínculo com a mãe ou mãe substituta (cuidador primário).

No estudo deste item ressaltamos a importância do vínculo na formação da personalidade do sujeito. Uma vez que este segue seu desenvolvimento nos estágios da infância e estes estão em construção. A estrutura da personalidade é amplamente influenciada pelas experiências vividas em relação ao ambiente familiar. Deste modo compreende-se que este é indispensável para o processo da formação humana.

A relação mãe-filho é um dos aspectos mais estudados, e coloca muitas questões  ainda, pois a psicologia a descobre como possibilitadora do humanismo, ou seja, é crucial na forma humana.

Bowlby (1989) afirma que existe uma forte relação causal entre as experiências de um indivíduo com seus pais e sua capacidade para estabelecer vínculos afetivos, influenciando as capacidades cognitivas, linguísticas e afetivas no processo de autonomia, de socialização, de construção de valores para a criança e posteriormente do adolescente. Portanto, é de suma importância propiciar um ambiente suficientemente bom, conforme menciona Winnicott (2000). O ambiente é essencial para o desenvolvimento e estruturação da personalidade do indivíduo, e este pode favorecer condições para que o verdadeiro “self” do indivíduo se desenvolva.

A partir das considerações de Bowlby, Winnicott, Klein e Spitz, compreendemos que as vivencias atuais evidenciam uma falha nas relações parentais, na formação e construção do vínculo assim como no ambiente familiar.

Os prejuízos que a terceirização dos papeis paterno e materno podem causar, está diretamente ligado a deficiência do vínculo, principalmente o vínculo mãe-bebê, e consequentemente a falta de referência paterna e materna, quando vários outros em diferentes momentos assumem essas funções. Vimos no decorrer deste levantamento bibliográfico as considerações de vários estudiosos apontando para a importância do cuidado infantil por pessoas que de fato assumam os papéis de pai e mãe. O que não significa que a criança não possa estar com parentes, na escola, ou fazendo atividades com outras pessoas, mas que o papel destes são outros.

5. Conclusão

A estrutura familiar de nossa atualidade não segue o modelo triangular, ou modelos feitos e refeitos ao longo do processo histórico da humanidade referidos no estudo de Ariès (1981), ou seja: a estrutura familiar composta pelo pai (provedor), mãe (socializadora) e filhos.

Observou-se que uma série de fatores tem contribuído para as mudanças familiares e consequentemente sociais, sendo uma delas a inserção da mulher no mercado de trabalho e jornadas triplas, o que gera sobrecarga e contribui para o afastamento materno, comprometendo a dedicação e cuidados com a criança e consequentemente a relação de proximidade e de afetividade. Deste modo, o processo de socialização dos filhos, no envolvimento emocional e afetivo, passou a ser delegado a outras instâncias.

Diante destas circunstâncias o desenvolvimento dos laços afetivos duradouros com os filhos fica prejudicado, por não conseguir manter proximidade suficientemente junto aos filhos quando estes a solicitam. Sendo assim, não amamentar, não segurar, não acariciar, não cuidar dos seus filhos, ou seja, a ausência da mãe e a privação do vínculo afetivo materno, possivelmente contribua para as condutas desajustadas e as dificuldades de crianças e adolescentes de se apresentar para o mundo social que permeiam a atualidade. Tais desajustes ou dificuldades podem ser pensados como resultados da terceirização das funções materna ou paterna.

Neste sentido Bock (2002) considera que a formação dos vínculos é necessária para o desenvolvimento global da criança e o distanciamento, a omissão e a negligência de um cuidador nesse processo dificultam a garantia de um ambiente equilibrado, comprometendo a saúde física e mental dos indivíduos. A negligência está aqui relacionada como algumas atitudes das mães em relação a seus filhos, que são justificadas por uma jornada diária excessiva de trabalho, cansaço, ausência de tempo e disposição para cultivar um bom contato com os filhos.

Cabe ainda ressaltar as considerações de Martins (2007) sobre as condições atuais de vida em que a mulher entrou definitivamente para o mercado de trabalho e não existe uma legislação adequada para regular seu afastamento para cuidar dos filhos ficando assim quase que inevitável a terceirização dos cuidados às crianças. Neste sentido, o autor afirma que não abre mão de discutir o assunto da terceirização com intuito de buscar alternativas para melhor atender as necessidades das crianças

O contexto em que estão inseridas as famílias atuais requer uma negociação por parte de seus integrantes. Se deseja cumprir suas tarefas e contribuir no que se refere à formação, vínculo e funções e materna e paterna; de modo que permita que a funções materna e paterna circulem de modo saudável entre seus membros, que busque meios de adaptar-se às mudanças cotidianas sem perder o elo que propicia o desenvolvimento e crescimento contínuo no núcleo familiar. Isto vem ao encontro ás afirmações de Vygotsky (1992) que enfatiza a criança desde o nascimento está em constante interação com os adultos, ou seja, é através da mediação com os adultos que os processos psicológicos mais complexos se formam, como também os aspectos emocionais do indivíduo.

Para Winnicott (1993) todo indivíduo é dotado de uma tendência inata ao amadurecimento. Mas, apesar de inata, trata-se de uma tendência e não de uma determinação. Para que a tendência venha a se realizar, o bebê depende fundamentalmente da presença de  um ambiente facilitador que forneça cuidados suficientemente bons. Outro aspecto levantado em suas pesquisas com crianças afastadas de seus pais durante a segunda guerra mundial faz referência a relação mãe-criança: as separações precoces podem ser prejudiciais para o desenvolvimento das crianças e prejudiciais também para a sociedade.

Segundo Bowlby (1988) a privação prolongada de cuidados maternos para uma criança muito nova pode causar graves consequências no caráter, efeitos esses que podem se prolongar por toda a sua vida futura. Isso pode se aplicado tanto a criança do orfanato, quanto àquelas que sofrem separações dos pais, ou mesmo para aquelas que, apesar de viverem em seus lares, são abandonadas por negligência ou omissão. Esta última pode ser entendida quando a mãe se encontra fisicamente presente e emocionalmente distante. Nota-se que ausência paterna também tem um impacto negativo em crianças e adolescentes, sendo que estes estariam em maior risco para desenvolver problemas de comportamento.

Diante de todos os aspectos estudados é inevitável não considerar que a família tenha um compromisso (não apenas social) com as questões psicológicas, de modo a oferecer uma base segura e saudável para o desenvolvimento da criança, assim como promover um ambiente de troca e propiciador de relações e de crescimento, de modo que a elaboração de complexos emocionais ocorra garantindo, o desenvolvimento e mudanças no panorama social. Partindo da importância para o desenvolvimento que o vínculo e o papel paterno e materno tem, concluímos que de fato a terceirização das funções paternas e maternas podem trazer prejuízos ao desenvolvimento integral do indivíduo, já que ao ser cuidado por  terceiros esse vínculo e as referências paterna e materna ficam prejudicadas.

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