Sonho: a Revelação do Inconsciente

Sonho: a Revelação do Inconsciente
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Resumo: O estudo apresentado neste artigo decorre de um levantamento bibliográfico acerca do sonho através da abordagem psicanalítica. Foi realizado um estudo com base em “A Interpretação dos Sonhos” (1900) de Sigmund Freud, procurou-se fazer um apanhado sobre como se dá a elaboração do processo onírico dentro do sono, como o sonho era visto anteriormente por filósofos e sua representação na bíblia, até então se chegar à psicanálise. Freud começou a estudar seus próprios sonhos para a formulação dessa teoria, em que postula que o sonho tem um conteúdo latente e um conteúdo manifesto e que cada interpretação deveria levar em conta a história de vida desse sonhador.

Palavras-chave: Sonho, Conteúdo Manifesto, Conteúdo Latente, Psicanálise.

1. Introdução

O conteúdo apresentado nesta revisão tem como objetivo abordar os sonhos sob a luz da Psicanálise, bem como na visão da neurociência no que diz respeito às questões fisiológicas do corpo humano, relacionadas ao sono REM e NREM. Além disso, o estudo objetiva apontar a manifestação do inconsciente durante o sono (sonho), apresentando a análise de Freud, sua revisão histórica e as críticas do estudo dos sonhos, que causaram grandes indagações desde o lançamento da obra “A Interpretação dos Sonhos” (1900). Procuramos sintetizar e especificar, através de buscas sistemáticas na literatura científica, o processo onírico, tendo como base a Psicanálise.

Para a elaboração desse estudo foram pré-selecionados 21 artigos científicos de acordo com os conteúdos mais relevantes estritamente relacionados aos sonhos, na Psicanálise. Desses, foram excluídos 7, tendo como critério de exclusão os artigos que evadiram do tema em questão e os que não se encontravam entre 2001 a 2013. A pesquisa foi realizada através dos portais Pepsic, Scielo e Google Acadêmico, utilizando os descritores: “o sonho na psicanálise”, “Freud e o sonho”, “o sonho e o inconsciente”. Por conseguinte, também foram utilizados livros que abordavam sobre o tema discutido

2. Desenvolvimento

Antes de abordar o tema específico sobre a análise dos sonhos na Psicanálise, faz-se necessário compreender a visão da neurociência sobre o processo do sono, o qual sem ele é impossível realizar tal análise. O sono é um aspecto essencial para o ser humano, sendo o mesmo responsável pelo descanso e revigoramento do corpo humano, é caracterizado como um processo vital. Cientificamente, o sono pode ser definido pelas alterações comportamentais e fisiológicas do corpo humano, as quais ocorrem através da associação com as atividades elétricas cerebrais, responsáveis por tal ato (NEVES et al., 2013).

O processo do sono é dividido em duas fases principais: a fase REM (Movimento Rápido dos Olhos) o qual equivale a 25% do sono e onde que ocorrem os sonhos, e a fase NREM (Movimento Não Rápido dos Olhos), a qual equivale a 75% do sono (NEVES et al., 2013). Segundo Silva (2013) o sonho é um estado de equilíbrio psíquico entre o real e o irreal, tornando-se, desta forma, um local propício para a manifestação do inconsciente que aparece juntamente ao consciente em nossos sonhos. Esse processo onírico pode ser composto de elementos do dia-a-dia, desejos e traumas ou contextos totalmente surreais e inexplicáveis.

O processo de sonhar vem sendo investigado desde os primórdios, mas nunca tendo algo de realmente concreto para poder assim ser explicado (MILHORIM; CASARINI; SCOORSOLINI-COMIN, 2013). Os questionamentos mais recorrentes a esse tema têm como pressuposto o que é o sonho, de que é formado e para que serve. Nos primórdios o sonho era empregado a símbolos e significados metafóricos, impregnados de sentidos religiosos, crenças e filosofias. Com a perda do caráter divino referente às sociedades antigas que acreditavam no poder de deuses, como gregas e egípcias, a explicação do sonho passou a ser analisada por meio de filósofos. Na concepção de Platão, o sonho estaria intimamente ligado à alma e o indivíduo só deveria se entregar ao sono após se alimentar com belos pensamentos, caso contrário, os sonhos iriam manifestar os desejos impuros, como o incesto ou crimes (COSTA, 2014).

Para Aristóteles, a significação do processo do trabalho onírico seria um resultado a estimulações exteriores, como fome, calor, frio e sede (WEBB, 1990). Hipócrates definiu uma utilidade para o processo de sonhar, determinando um diagnóstico de enfermidade através do que o paciente sonhava (SANTANA, 2005). Posteriormente, foram encontradas citações acerca do sonho na Bíblia, suas menções baseiam-se em eventos sobrenaturais, proféticos e a real comunicação de Deus com o indivíduo (SANTANA, 2005).

Filón de Alexandria, ao analisar os sonhos do Antigo Testamento, os descreveu como uma atividade da alma, onde o sujeito ao distanciar-se do mundo teria a capacidade de receber mensagens divinas, e prever o futuro (COSTA, 2014). A partir do século XIX, o sonho se afasta cada vez mais do significado transcendental, devido a crescente modernidade e passa a ser cada vez mais explicado pelas funções neurofisiológicas do corpo humano durante o sono (MILHORIM; CASARINI; SCOORSOLINI-COMIN, 2013).

Desse modo, a correlação do estudo da mente através da neurobiologia e da Psicanálise não pode ser uma relação direta, mas complementar, porque a Psicanálise fornece à neurobiologia dados que não podem ser obtidos experimentalmente. Para a neurobiologia, o sono é uma consequência de um processo fisiológico cerebral, e não um trabalho mental com o objetivo de realização do desejo, como Freud relata em seus estudos (ISAAC, 2001).

No ano de 1900 é inserida uma nova forma de pensar sobre o sonho, com a publicação de “A Interpretação dos Sonhos”. Na obra, Freud caracteriza o sonho como a via régia de acesso ao inconsciente, sendo o ato de sonhar um exemplo de regressão a categoria mais primitiva do sonhador, uma forma de reviver a sua infância, representar suas pulsões; quando o indivíduo é influenciado pelas circunstâncias casuais da vida. A partir daí o sonho passa a ser analisado através do processo da associação-livre, onde o paciente irá dizer livremente o que lhe vem à mente, e através disso as informações desse sonho serão decodificadas em elementos (FORRESTER, 2009).

Sigmund Freud (1856 – 1939), nascido em Moravia (República Tcheca), conhecido hoje como o pai da Psicanálise, concluiu sua formação em medicina no ano de 1881, tendo realizado em 1873 um curso de filosofia o qual não pertencia à grade curricular do curso de medicina, especializou-se também em biologia, tendo clinicado como neurologista (1825-1893). Em 1885, Freud ganhou uma bolsa de pós-graduação no Hospital Psiquiátrico Salpêtrière com Charcot, tendo posteriormente ingressado nos estudos a respeito da histeria utilizando método hipnótico, no entanto, no decorrer do tempo percebeu que não conseguia hipnotizar com facilidade os pacientes e continuou a utilizar o método de livre associação (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009).

No decorrer das análises em seus pacientes, Freud começou a assimilar que os sonhos poderiam ser fonte de matéria emocional significativo, podendo ainda ter causas subjacentes para um distúrbio levando-se em consideração que os sonhos são a diferenciação entre o saudável e o patológico, sendo assim produto da mente inconsciente. Ademais, Freud começou a realizar análise de seus próprios sonhos:

Por meio da exploração do sonho, Freud acabou percebendo certa hostilidade que nutria pelo pai. Lembrou-se pela primeira vez da sua paixão sexual infantil pela mãe e sonhou ter desejos sexuais pela irmã mais velha. Essa intensa exploração do próprio inconsciente tornou-se a base da sua teoria. Desse modo, grande parte do sistema psicanalítico foi formulada pela análise dos próprios episódios neuróticos e das suas experiências da infância. Freud chegou a comentar com perspicácia que “O meu paciente mais importante fui eu mesmo” (GAY, 1988, p. 96 apud SCHULTZ; SCHULTZ, 2009).

Através da autoanálise, Freud começou a dar mais atenção aos seus sonhos assimilando- os com a raiva que sentia por seu pai, e sua paixão sexual infantil pela sua mãe. Ademais, através dos seus sonhos e da busca de seu inconsciente, ele passou a ter base para a sua teoria de interpretação dos sonhos. O estudioso realizava a análise dos sonhos como procedimento padrão da Psicanálise, sempre dedicando um tempo de seu dia para realizar a análise de seus sonhos. Isso que ocorreu durante dois anos, culminando com a publicação de sua obra prima “A Interpretação dos Sonhos” (1900), quando pela primeira vez foi tratado a respeito do Complexo de Édipo, uma das fases mais importante do desenvolvimento psicossexual (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009).

A tese em relação às interpretações dos sonhos de Freud foram produções categoricamente originais, sem que houvessem qualquer tipo de influência, tendo o mesmo diferenciado sua interpretação com as dos demais, nos informando a respeito de três técnicas que diferem da sua. Na primeira, o sonho tem um valor somático, sendo a parte do sonho onde tudo acontece, onde todo o sentido fica claro para o próprio sonhador. A segunda técnica refere-se aos simbolismos provenientes da essência do sonho em si, ou seja, seria como se o sonho desejasse dizer algo ao sonhador a partir de uma comunicação abstrata; nesse caso seria necessário a influência de uma pessoa com amplos conhecimentos de interpretação, o qual substituiria o conteúdo do sonho por outro para assim lhe dar sentido. O terceiro e último tipo de interpretação se tratava do sonho com um sentido fixo, ou seja, dependendo do sonho, já existiria uma interpretação conceituada para isso, independente dos sonhadores, tratando-se de uma crença, não tendo necessidade do sonhador participar de sua interpretação (FONTENELE, 2002).

Para Freud, a interpretação dos sonhos é realizada em cada pessoa, de forma única e distinta, pois sua técnica não depende apenas do sonho em si, mas também de todo o contexto de associações que o sonhador é capaz de realizar, mesmo quando nas formações socioculturais do sonhador há o simbolismo. Dessa forma, o intérprete analisa todo o contexto compreendido pelos sonhos, suas ocorrências existenciais e não como ocorrências de um sentido único. Cumpre ainda informar que para Freud, todo sonho tem um centro indomável, denominado por ele como umbigo do sonho, parte essa inacessível do sono. O pesquisador focava em transmitir a singularidade de seus métodos de interpretação, demonstrando a transformação dos atos comuns/insignificantes da alma em condições que levam a razão científica (FONTENELE, 2002, p.). Freud não se apropriou da ideia de inconsciente sozinho, através de seus estudos ele acredita que o inconsciente lhe foi revelado:

Ocupar-se de sonhos, de chistes, de lapsos de memória para expor que admitem a inteligibilidade da interpretação por comportarem, ao mesmo tempo, um sentido manifesto e um latente (considerados mais por sua divisão do que por sua duplicidade) significava libertá-los de seu sentido místico — a revelar a verticalidade de uma verdade transcendente — e, concomitantemente, de sua conotação de atos superficiais indignos de qualquer sentido profundo ou superior. [...] Não foi Freud quem construiu essas evidências, elas se revelaram em seu trabalho clínico. Foram as banalidades e as chatices das neuroses — dos outros e as suas próprias — que lhe ensinaram a relevância de seu sentido. O inconsciente se revelou a Freud e, a partir daí ele não mais conseguiu deixar de vê-lo e de tentar transmiti-lo com palavras. O privilégio que dará aos sonhos para, com sua interpretação, realizar o intento de transmitir as leis que permitem a tradução textual de suas imagens é correlativo da própria descoberta de que o inconsciente tem uma estrutura que lhe é própria (FONTENELE, 2002, p. 19).

Durante seus estudos Freud fez um amplo levantamento sobre a literatura que trata dos sonhos, desde a filosofia à medicina, dos clássicos interpretadores de sonhos da antiguidade à psicologia de seu tempo. Isso levou a reprodução de uma dicotomia: ou a produção do sonho que provém de estímulos externos obtidos por meio de percepções, ou resulta de estímulos internos. Chegando à conclusão que ambas as fontes se fazem presente nas experiências do indivíduo e consequentemente no ato de sonhar. A partir dessas construções, Freud vai originando uma ruptura radical com as concepções de sua época (COSTA, 2006).

A teoria freudiana não elimina as variáveis orgânicas que influenciam o sonho, porém propõe que a realidade psíquica, correspondente à realidade interior e ao princípio do prazer, é a responsável pela formulação das fantasias e dos sonhos. Trazendo o sonho como o portador de uma mensagem não explicita, constituída por meio de imagens e signos, sendo, portanto passível de decifração através da leitura feita pelo psicanalista, durante a fala do paciente; por isso a importância da observação nas falhas linguística durante o relato (COSTA, 2006).

Cabe ressaltar que a interpretação freudiana necessariamente implica a inclusão de elementos que contextualizam os sonhos, podendo ser fornecidos unicamente pelo sonhador em relação ao seu cotidiano (meio cultural e linguístico). O que justificaria o motivo pelo qual Freud não considerava possível a interpretação de sonhos com fontes desconhecidas, já que nas mesmas não era possível averiguar a história do sonhador e como isso se relaciona com o significado do sonho (AIRES, 2011).

Ao defender seu método, Freud apresenta dois modos clássicos de interpretação dos sonhos: de um lado considera que a interpretação simbólica, assemelhando-se a arte, tomando o sonho como um todo e depende de dons particulares do intérprete; por outro lado, afirma que a interpretação por decifração observa os elementos do sonho de forma isolada. Durante a elaboração onírica ele utiliza ambos os métodos (AIRES, 2011).

A formação do sonho é a seleção de uma fantasia para assim ser satisfeita através de uma representação, e é caracterizado por satisfazer impulsos do id tendo como conteúdo os desejos e impulsos reprimidos presentes no inconsciente (BRENNER, 1975). Santana (2005) enfatiza que o sonho poderia ter três possíveis origens:

1) Conteúdos inconscientes que foram reprimidos pelo ego;

2) Acontecimentos do dia-a-dia, conhecidos como restos diurnos;

3) E influências noturnas, como: fome, sede, calor e frio.

Desse modo, dentro dessas origens entram a formação do sonho, que é composto por conteúdos latentes e conteúdos manifestos.

A interpretação freudiana fundamenta-se na ideia da existência de significações complexas durante o sonho, que só podem ser reveladas após o uso de técnicas analíticas. Nesse processo o conteúdo manifesto, parte mais evidente durante o relato do sonho, se apresenta como a distorção do conteúdo latente. Ao analisar o conteúdo manifesto, composto por imagens reais e pensamentos, é possível observar que o verdadeiro significado se encontra disfarçado e os desejos inconscientes do sonhador distorcidos (AIRES, 2011).

O conteúdo latente é a real significação por trás do sonho, o que vai ser discutido em análise. Essa parte do sonho são os desejos reprimidos pelo ego e afastados da consciência, durante o sono o trabalho do ego é diminuído e o id tenta abordar esse conteúdo através do processo de elaboração onírica. O conteúdo latente é um processo inconsciente. Esse desejo expresso pelo id passa por uma censura do ego para evitar uma angústia no sonhador. Essa deformação causada pelo ego é composta dos seguintes elementos (SANTANA, 2005):

1) dramatização,

2) condensação,

3) deslocamento,

4) inversão da cronologia,

5) simbolismo,

6) representação pelo nímio,

7) elaboração secundária.

A dramatização é a transformação do pensamento em representação visual sem ter uma lógica racional (SANTANA, 2005). A dramatização é a representação de imagens em ação. O sonho se apresenta, portanto, de forma semelhante ao teatro. Esse processo é responsável pela elaboração do sonho, onde as operações mentais inconscientes se transformam em sonho manifesto. Freud a considerava a parte essencial da atividade onírica, e o funcionamento do sonho. No processo de dramatização os fragmentos do sonho, condensados e deslocados da racionalidade na vigília, são transformados em cenas (ALVARENGA; LUCINDA, 2007).

A condensação é a junção de pensamentos, sentimentos, desejos e características em uma única imagem, pelo qual vários elementos como ideias e imagens, se ajustam num só, tornando o sonho mais compacto (FREUD, 1900). Segundo Castro (2009), a condensação ocorre durante o processo de transformação dos pensamentos oníricos, similares ao pensamento da vigília, em conteúdo onírico, ligado à simbologia dos sonhos. Na condensação, segundo Laplanche e Pontalis (2001), uma única representação concebe várias cadeias associativas, constituindo uma tradução resumida e traduz-se no sonho através do relato manifesto, que aparece como uma versão abreviada dos pensamentos latentes.

Juntamente com a condensação, o deslocamento é um dos fatores dominantes que produzem a distinção entre o pensamento dos sonhos e o conteúdo dos mesmos, processo pelo qual o desejo sobre uma pessoa ou objeto é representado por outro indivíduo, constituindo o deslocamento como a transferência da energia de uma imagem para outra (SANTANA, 2005).

A inversão da cronologia acontece quando o conteúdo inverte a ordem de representação (SANTANA, 2005). A simbolização é quando há uma carga emocional muito grande que é transformada metaforicamente em um objeto para que possa ser censurada (FREUD, 1900). A representação pelo nímio é quando o desejo apresenta um papel insignificante na elaboração onírica, ficando em segundo plano (SANTANA, 2005). E por fim, a elaboração secundária, caracterizada pela formação de uma lógica compreensível objetivando representar uma realidade (KLEINMAN, 2015).

Os sonhos de angústia pareciam ser um impasse para Freud, pois pareciam ir contra ao que era exposta em sua obra “A Interpretação dos Sonhos”, em que os sonhos eram a realização de desejos. Freud chegou a observar que parecia que os sonhos de angústia tornavam impossível afirmar a fórmula geral de que os sonhos seriam as realizações de desejos (FREUD, 1900). Assim, em 1911, o estudioso caracteriza os sonhos de angústia como uma falha na produção onírica (FREUD, 1911). Este impasse entre os sonhos como realizações de desejos e os sonhos de angústia, é resumido pelo mesmo como sendo a angústia o oposto direto do desejo (FREUD, 1916).

Na visão médica, os sonhos de angústia foram definidos como pesadelo, ou transtorno de angústia ligada ao sonho: sonho carregado de ansiedade ou medos intensos, acompanhado por lembrança detalhada de seu conteúdo, que geralmente é associado a ameaças à existência, à segurança ou à autoestima, tendendo a se repetir (COUTINHO, 2009). Com base na Psicanálise, o sonho de angústia pode ser definido como conteúdo manifesto ou latente provocando o súbito despertar por uma crise de angústia, frequentemente associada a manifestações corporais (COUTINHO, 2009).

A angústia no sonho exerce o papel de evitar que o sonhador enfrente algo para o que não está preparado. No entanto, Coutinho (2009) conclui que no sonho, a angústia exercerá função de autoconservação psíquica na medida em que o súbito "despertar" por ela causado, evita que o sujeito se encontre com algo ameaçador e psiquicamente intolerável, sinalizado pelo umbigo do sonho. Freud define o umbigo do sonho como ponto onde o sonho é insondável, onde se interrompe o sentido ou toda a possibilidade de sentido (FREUD, 1900). Pois o umbigo que deriva do latim umbilicus, que significa "saliência em uma superfície" é também usada como referência ao elo biológico que liga o filho a sua mãe, indicando uma relação de dependência que se rompe ao nascimento. Assim:

"[...] despertar durante um sonho de angústia é deparar-se com o insuportável que seu umbigo anuncia e recusar-se a enfrentar a verdade de que o sujeito não está pronto para revelar sobre si mesmo" (COUTINHO, 2009, p. 56).

Sendo a análise de sonhos uma ferramenta de trabalho a disposição do psicanalista, dentro do processo de associação livre só se faz possível a interpretação por meio da observação detalhada de sensações e representações involuntárias durante o relato. O trabalho deve ser realizado com persistência, analisando que nem sempre a interpretação será realizada de uma só vez, seja por falta de tempo ou esgotamento mental de ambos durante a sessão; devendo retomar o trabalho interpretativo em posterior momento. Esse procedimento é conhecido como interpretação fracionada do sonho (BISSOLI, 2005).

O psicanalista pode inserir a tradução dos sonhos em sua prática psicanalítica, utilizando de quatro formas distintas para analisar o sonho do sonhador: empregando as associações relacionadas aos elementos dos sonhos e na ordem em que surgiram, utilizando seu trabalho de interpretação diante de algum fato específico ocorrido no decorrer de todo o sonho, pode também desprezar o conteúdo manifesto e ter uma interpretação a partir de relatos de acontecimentos anteriores os quais correlacionam com o sonho descrito e por último, caso o paciente já for adepto a análise dos sonhos, deixar que o mesmo indique quais associações que o sonho poderá iniciar (BISSOLI, 2005). O psicanalista então, faz a análise do relato de sonhos e não análise dos sonhos. Acrescenta-se também, que o sonho é uma das manifestações do inconsciente.

3. Considerações Finais

Os resultados da pesquisa apontam que é impossível conseguir interpretar todos os sonhos, porém os que são passíveis de compreensão têm como oponentes as forças psíquicas que são responsáveis por sua distorção ou censura. O sonho seria precisamente o elemento da vida psíquica natural, em que os processos inconscientes da mente são confessos de forma clara e acessível ao estudo. Ao que se refere aos sonhos na Psicanálise, Freud é a maior referência de todos os tempos, tendo como contribuição além da sua obra A Interpretação dos Sonhos, a sua teoria psicanalítica, a qual é fundamentada e dotada de sentido. Servindo como base para compreender a inconsciência do sujeito sonhador, é instrumento importante para revelar a personalidade humana, incluindo seus desejos mais íntimos suprimidos pelo ego, assim, dentro de sua teoria os sonhos são analisados através da associação livre.

Sobre os Autores:

Fabiana Schimer Correa - Acadêmica do Curso de Psicologia, FAROL – Faculdade de Rolim de Moura.

Gleyce Llavinya Costa dos Santos - Acadêmica do Curso de Psicologia, FAROL – Faculdade de Rolim de Moura.

Katiele de Souza Sá - Acadêmica do Curso de Psicologia, FAROL – Faculdade de Rolim de Moura.

Mayara Aparecida Kalb - Acadêmica do Curso de Psicologia, FAROL – Faculdade de Rolim de Moura.

Thalianny Lima da Cruz - Acadêmica do Curso de Psicologia, FAROL – Faculdade de Rolim de Moura. 

Referências:

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