Uma Análise Sobre Depressão, Melancolia e Suicídio

Uma Análise Sobre Depressão, Melancolia e Suicídio
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Resumo: A depressão vem crescendo gradativamente, e o suicídio é umas de suas consequências. O transtorno depressivo é um problema de saúde pública, podendo afetar indivíduos de diferentes faixas etária. A Depressão grave é o estágio mais extremo, sendo a principal influenciadora nos comportamentos suicidas ou idealização suicida. Uma série de fatores podem desencadear o risco suicida como, por exemplo, a doença mental. As discussões sobre esse tema vem agnhando cada vez mais força, tendo um mês exclusivamente para discutir a respeito. Este trabalho tem como objetivo fazer uma análise sobre a depressão, melancolia e suicídio numa perspectiva psicanalítica. A partir das leituras, pude perceber que esses temas são poucos discutidos em um único contexto. Visando isto procuro identificar e comentar o comportamento depressivo e melancólico no filme “As Horas”.

Palavras-chave: Depressão, Melancolia, Psicanálise, Suicídio.

1. Introdução

O diagnóstico de depressão vem crescendo gradativamente no século XXI, causando grandes impactos na sociedade em que vivemos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2017), mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão, um aumento de mais de 18% entre 2005 e 2015 e vem acometendo pessoas de variadas idades. Estima-se que 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem com esse transtorno e possivelmente, até 2020, a depressão será a segunda causa de morte mundial, ficando apenas atrás das doenças cardíacas.

Uma das principais consequências da depressão (que vem se tornando cada vez mais frequente) é o suicídio. Segundo a OMS (2017), cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano, sendo a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Como exemplo temos o caso do Kurt Cobain, líder da banda de rock chamada “Nirvana”, que cometeu suicídio no dia 5 de abril de 1994. Ele sofria de depressão profunda e fazia uso de drogas, dentre elas a heroína. Outro caso bem recente é o do cantor Chester Bennington de 41 anos, vocalista da banda Linkin Park. Cometeu suicídio no dia 21 de julho de 2017. Bennington também sofria de depressão e fazia o uso de drogas.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV, APA, 2002) descreve a depressão de acordo com vários sintomas, sendo eles: 1) Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias; 2) Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias; 3) Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta, ou redução ou aumento do apetite quase todos os dias; 4) Insônia ou hipersonia quase todos os dias; 5) Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias; 6) Fadiga ou perda de energia quase todos os dias; 7) Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada quase todos os dias; 8) Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias; 9) Pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida recorrente sem um plano específico, uma tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.

Apesar do termo melancolia ter desaparecido da classificação do DSM, para a perspectiva psicanalítica este se mantém como um diagnóstico importante para orientação clínica. A depressão é usada para descrever estados,  , tristeza, desgosto, preocupação e inibição geral. Já o termo melancolia caracteriza um estado depressivo mais intenso, define um quadro com presença de atividade delirante (delírio de menos valia ou inferioridade) e, por se tratar de uma estrutura psicótica, aumenta a chance de uma passagem ao ato, como o suicídio.

Pesquisando sobre esse assunto pode-se perceber que há poucos estudos relacionados aos temas propostos em um único trabalho. Por esta razão, tem-se como objetivo compreender mais sobre a depressão e o suicídio em uma perspectiva psicanalítica através da análise do filme “As horas”.

2. Contexto Histórico

O termo depressão foi usado pela primeira vez para caracterizar um estado de desânimo ou perda de interesse e já era usado em dicionários médicos em 1860, referindo-se ao fenômeno de diminuição de ânimo que acometia pessoas sofrendo de uma doença. No final do século passado, depressão tornou-se sinônimo de Melancolia, porém o significado do termo "melancolia" na antiguidade clássica é nebuloso e tem pouca relação com o uso psiquiátrico no século XX. Esse termo surge com a psiquiatria alemã, sendo concebida como uma doença e até mesmo como o mal do século (GONÇALVES E MACHADO, 2007).

Gonçalves e Machado (2007), no artigo “Depressão: o mal do século”, fazem um histórico sobre a depressão, que será descrito brevemente. Segundo as autoras, é possível encontrar as primeiras descrições de alteração de humor na Bíblia e na mitologia; essas alterações eram atribuídas a uma entidade divina, que era a origem de todas as disfunções.

Os gregos compartilhavam a ideia de que as doenças da mente de alguma forma estavam interligadas com as disfunções corporais. Consideravam que os fluidos corporais (a fleuma, a bile amarela, sangue e bile negra) eram consequência do temperamento dos quatros humores: sanguíneo, fleumático, colérico e melancôlico. De acordo com Bynum (2011), os gregos incorporaram uma teoria de temperamentos, que servia de guia para a personalidade humana. As propriedades dos humores eram: calor, frio, secura e umidade e estariam relacionados também a um dos quatros elementos: água, fogo, ar e a terra, respectivamente. Ainda em Gonçalves e Machado (2007) a depressão por muito tempo foi relacionada com o excesso da bile negra; porém, essa substância à qual os gregos se referiam até hoje não foi encontrada.

Gonçalves e Machado (2007) abordam que Hipócrates, no século V a.C., definia a depressão com a intitulação de melancolia, que tinha como sintomas: uma infecção sem ter febre, espírito triste que está frequentemente abatido e com a mente fixada em apenas uma ideia. O tratamento proposto para melancolia baseava-se em mudanças na dieta, hidroterapia, ginástica, medicamentos orais, ervas catárticas e purgantes, com a finalidade de eliminar o excesso da bile negra. Propunha e acreditava-se que o diálogo era importante. Por cerca de oito décadas a teoria grega persuadiu as formas de lidar com as doenças na Europa.

Na Idade Média (450-1400), a força política e religiosa do Estado modificou completamente a maneira como as doenças mentais eram interpretadas. Neste momento, o lugar da medicina foi ocupado pelo sobrenatural e superstições. Santo Agostinho alegou que o que separa os homens dos animais era o dom da razão. Desta maneira, a perda da razão era um descumprimento da ordem de Deus, e era um castigo para uma alma pecadora. Aqui ainda a depressão é denominada melancolia. No século XII, a melancolia foi considerada um pecado, de forma que algumas pessoas eram multadas e até mesmo presas por carregarem esse mal sem cura.

Deste modo, as pessoas que sofriam com os casos mais graves eram submetidas a tratamentos aterrorizantes, sendo um deles causar dor física para distrair a dor da mente, tentando fazer com que desviasse seus pensamentos a uma outra dor. Este tratamento, no século XIII, foi considerado o melhor remédio para a depressão. A partir do século XVI, a melancolia foi definida vagamente pelos sintomas: perda de sono, falta de apetite, desejo de morte e ideias delirantes.

No final do século XVII e início do século XVIII, com o desenvolvimento científico, há uma reversão no quadro e uma mudança dessa percepção. René Descartes, filósofo e matemático, no final do século XVII, utilizando a razão e a dúvida, chegou na proposição “Penso, logo existo”, contrariando claramente o pensamento dos filósofos dessa época. René Descartes situou a loucura em seu discurso filosófico. Um dos pontos mais significativos na visão cartesiana é que a loucura só atingia o homem.

Loucura e pensamento são dois termos que podem ser definidos separadamente. Na visão de Descartes, não poderia haver um pensamento louco, pois o pensamento era exatamente aquilo que, por ser regulado pela razão, opunha-se à loucura, e ficar louco seria exatamente a perda da racionalidade. O que difere o homem do animal é a sua racionalidade. O louco era, então, identificado com um animal, já que o animal não é um ser racional. Durante um certo período os loucos eram tratados como animais e as práticas utilizadas na dominação da loucura era idêntica às empregadas para domar um animal bravo.

Somente na primeira metade do século XX, com Kraepelin, a depressão veio a ser classificada como uma doença: a psicose maníaco-depressiva (MOREIRA; GARCIA; CAVAZZA, 2917).

3. Uma Breve Consideração Sobre Luto e Melancolia

Em Luto e melancolia (1917[1915])Freud apresenta algumas considerações a respeito destes dois estados. O luto é um processo característico normal de alguma perda significativa do sujeito, ou seja, nem sempre o luto é vivenciado quando alguém morre; ocorre também quando há qualquer outra perda significativa e que ocorre em tempo determinado. Dentre as consequências desse processo estão: cessação de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima. O luto consiste em desinvestir o objeto perdido, renunciar a ele, levando a libido de volta ao ego para que este possa, ao final do trabalho de elaboração, desejar outro objeto. A superação do luto é realizada pouco a pouco e com grande gasto de energia libidinal. É uma reação à perda de algo e não implica condição patológica desde que seja superado após certo período de tempo. Entretanto, quando o indivíduo não consegue sair do estado de luto ficando preso na representação do objeto perdido, o luto deixa de ser normal e passa a ser patológico.

Na melancolia o indivíduo não consegue identificar a perda; sabe-se que ocorreu a perda, porém não sabe o que foi perdido. Então, essa perda que ocorre na melancolia é desconhecida (inconsciente). Para que o indivíduo seja classificado como melancólico ele precisa ter uma estrutura psicótica, e então desenvolve, somado às manifestações apresentadas no luto, um delírio de inferioridade que se completa com a recusa de se alimentar e insônia, sendo o delírio sua principal característica.

A perda do objeto na melancolia possui um caráter ideal, ou seja, o objeto é perdido enquanto objeto de amor, pois não é preciso que ele tenha morrido ou desaparecido de fato. Então, pode-se dizer que na melancolia há uma perda objetal que foi retirada da consciência. A perda do objeto de amor forma uma grande oportunidade para que a ambivalência nas relações amorosas se torne efetiva e manifesta. O ódio intenso ao objeto amado está presente somente na melancolia, tendo em vista o grau de ambivalência em relação a esse objeto perdido.

Na melancolia encontramos três precondições que são: a perda do objeto, ambivalência e a regressão da libido do ego. Depois da ocorrência da perda do objeto, surge a ambivalência, que pode ser observada através das auto-recriminações obsessivas. Tais auto-recriminações são, na verdade, recriminações dirigidas ao objeto que foi perdido (sentido como abandonado), deslocadas para o próprio eu do paciente.

 O sujeito melancólico se descreve de forma repugnante, pois se sente injustiçado pelo objeto amado. Além disso, não ocorre o processo de elaboração do luto e, neste sentido, torna-se impossível deslocar a sua libido para um novo objeto. Temos então a regressão da libido é para o próprio eu, através de uma identificação com o objeto (FREUD,1917[1915], p.255).

O eu fica empobrecido, e ele acredita que é desprovido de valor e incapaz de qualquer realização. A libido nesse caso, sem ter direcionamento, desloca-se para o ego, estabelecendo uma espécie de identificação deste com o ente perdido. A perda objetal passa a ser uma perda do próprio ego. “Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pôde, daí por diante, ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto, um objeto abandonado” (FREUD, 1917 [1915], p.254-255).      

O luto só é desencadeado a partir da perda real, a morte do objeto. A melancolia é um quadro psicopatológico grave. 

4. Neurose e Psicose

Freud, em seu texto Neurose e Psicose (1924 [1923]), aponta uma diferença: “a neurose é o resultado de um conflito entre o ego e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o ego e o mundo externo”. Tanto a neurose quanto a psicose são expressões de uma rebelião por parte do id contra o mundo externo, de sua incapacidade de adaptar-se à realidade. Na neurose, um fragmento da realidade é evitado por uma espécie de fuga, ao passo que na psicose, a fuga inicial é sucedida por uma fase ativa de remodelamento.

No texto “A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose” (1924), Freud afirma que duas etapas podem ser discernidas na psicose, sendo primeira a de arrastar o ego para longe da realidade, e na segunda seria a tentativa de reparar o dano causado e reatar as relações do indivíduo com a realidade, o que ocorre no trabalho do delírio.

A depressão pode estar presente tanto na neurose quanto na psicose. Como podemos estabelecer o diagnóstico diferencial?

Na psicose, ocorre uma desordem referente ao estado mental que irá prejudicar os pensamentos e percepções. O indivíduo que passa por um episódio psicótico, pode passar pelos sintomas de alucinações e delírios, que é o caso da Virginia Woolf, em 1923, morando em Richmond, onde, junto ao marido Leonard, busca a tranquilidade necessária ao seu conturbado estado mental.

No filme As horas, Virginia Woolf denota evidentes traços de depressão psicótica, também considerada pelos psicanalistas como melancolia, que de acordo com o DSM V (APA, 2013), se enquadra na categoria como atípica de depressão maior. Os sintomas principais são as alucinações auditivas e delírios. Além desses principais sintomas, ela também passava por perda de memória, isolamento, lentidão de movimentos e falta de apetite. Vivia sob a própria ameaça, que é a si mesma, e rodeada de pessoas que controlam suas ameaças de suicídio; e no agravamento dos seus sintomas, não tendo o direito de opinar nem sobre o seu tratamento, é tratada como uma verdadeira marionete nas mãos das pessoas que a cercam.

As neuroses são frutos de conflitos e traumas inconscientes. As condições neuróticas não prejudicam ou interferem as funções normais do dia a dia do indivíduo. O indivíduo neurótico tem plena consciência de seus atos, porém não consegue controlá-los, dando origem aos sintomas.

5. A Melancolia e a Passagem ao Ato 

Passagem ao ato foi um termo criado por Lacan em 1967. De acordo com o dicionário enciclopédico de psicanálise (KAUFMANN,1996): o legado de Freud e Lacan:

O termo passagem ao ato serve, em psiquiatria, para sublinhar a violência ou a brusquidão de diversas condutas que curto circuitam a vida mental e precipitam o sujeito numa ação: agressão, suicídio, comportamento perverso, delito etc (Kaufmann, 1996, p. 55). 

O ato é uma tentativa de sair do impasse inconsciente, sendo caracterizado por uma ruptura entre ação e pensamento. Nessa acepção, todo ato equivale a uma espécie de suicídio do sujeito, a um rompimento com o Outro. A passagem ao ato ocorre no psicótico, situação em que o indivíduo não consegue a resposta para a angústia (MILER, 2014).

Virginia Woolf é a personagem que mais denota o estado melancólico. Na época em que vivia era comum manter os casos mais graves internados e os casos mais controlados davam continuidade do seu tratamento em casa. Ela se sentia impotente, não tinha decisão sobre a sua própria vida, era constantemente vigiada pelo seu marido e pelos empregados. Em uma cena do filme, a personagem foge de casa na intenção de retornar a Londres que é a sua cidade natal. Teve essa decisão após a visita da sua irmã em sua casa, porém, Leonard seu marido a encontra, e nesse momento ela diz que quer ir embora pois não gosta daquela cidade onde residem.

No entanto, seu marido não concordava com o seu desejo, devido às condições nas quais ela se encontrava quando residia em Londres; onde exatamente onde começou a desenvolver problemas psicológicos. Porém, depois dessa conversa ele acaba cedendo à sua vontade e afirma que irão voltar para Londres, porém, na manhã seguinte Virginia Woolf se suicida em um lago com pedras no bolso, na tentativa de afundar mais rápido e na perspectiva de que dessa vez seu ato suicida não falhe. O ano era 1941.

“Talvez seja da angústia que a ação retira sua certeza” (LACAN, 1962, p.88) Podemos então compreender essa frase de Lacan da seguinte forma: que os suicídios ocorrem em sinal da angústia da qual sentem, vivem na incerteza do amanhã, na insuportável dor existir, e a passagem ao ato, que é o suicídio, é a melhor opção para eliminar a angústia. “Agir é arrancar da angústia a própria certeza. Agir é efetuar uma transferência de angústia’’ (LACAN ,1962, p.88).

O suicídio tem a melancolia como referência, na medida em que a renúncia à autopreservação e o desapego à vida são características articuladoras do suicídio com o quadro melancólico (BRUNHARI; DARRIBA, 2014). É neste sentido que Freud nos indica que a melancolia é a cultura pura da pulsão de morte. Na melancolia o ego só pode se matar se houver o retorno do investimento objetal, ou seja, a energia psíquica que estava conectada em um objeto fora do sujeito voltar-se para si próprio, tratando a si mesmo como o objeto.

A análise da melancolia mostra agora que o ego só pode se matar se, devido ao retorno da catexia objetal, puder tratar a si mesmo como objeto – se for capaz de dirigir contra si mesmo a hostilidade relacionada a um objeto, e que representa a reação original do ego para com objetos do mundo externo (FREUD, 1917 [1915], p.257).

Richard, o grande amor de Clarissa, está insatisfeito e desinteressado pela própria vida, em seu discurso ele dizia estar vivo somente para satisfazê-la e a culpava por ainda estar vivo. Ele sabia o quanto do seu tempo ela dedicava somente a ele, e reconhecia o quão boa fora a relação deles e que duas pessoas não poderiam ser mais felizes do que eles foram, e em um ato autodestrutivo, ele se suicida, atirando-se da janela. Esse suicídio pode ser analisado como uma forma de libertar a Clarisse, afinal, ela vivia para ele e ele só vivia por ela, era notório a relação de dependência entre os dois.

Após a interrupção do investimento libidinal, este terá uma parte da qual irá voltar-se sobre o sujeito como uma forma de sadismo, que para Freud é importante no reconhecimento do processo melancólico pois, “é exclusivamente esse sadismo que soluciona o enigma da tendência ao suicídio, que torna a melancolia tão interessante e tão perigosa” (FREUD, 1917 [1915], p.257). Então o eu só pode se matar, se esse sadismo estiver voltado contra si próprio, ou seja, o eu só pode se matar a partir do momento em que ele se identifica a um objeto.

Segundo Freud, na melancolia há uma questão de ambivalência, uma luta entre amor e ódio que acontece inconscientemente. Na melancolia, a relação com o objeto é complicada pelo conflito, devido a uma ambivalência que pode ser tanto constitucional, elemento este, que é formado a partir das relações amorosas do sujeito formada por esse ego particular, ou precisamente, pode ser proveniente das experiências que envolveram a ameaça de perda do objeto (FREUD,1917[1915]).  

6. O Sintoma e a Angústia

O sintoma é consequência de algo inconsciente, algo que não conseguimos colocar em palavras. Freud em seu artigo Inibição, sintoma e angústia (1926-1929) fala que:

O sintoma é indício e substituto de uma satisfação instintual que não aconteceu, é consequência do processo de repressão. Esta para o- cede do Eu, que — por solicitação do Supereu, eventualmente não deseja colaborar num investimento instintual despertado no Id. Através da repressão, o Eu obtém que a ideia portadora do impulso desagradável seja mantida fora da consciência (Freud,1926-1929, p.19,20).

A angústia é concebida como sinal de perigo, e é discernida entre dois tipos: a angústia neurótica, que tem o perigo pulsional desconhecido, e a angústia realística, que tem o perigo reconhecido. É colocada como uma causa e não como uma consequência de um recalque, e também pode se resumir em uma ausência de um objeto de apego, ou um pressentimento de que algo muito terrível possa acontecer.

 A angústia é o retorno do recalcado, um desejo que sempre insiste em retornar, muitas vezes pela via do sintoma que tem a angústia como uma condição necessária. O desejo do recalcado reproduz novamente aquela angústia já vivida, sendo então colocado em ação os mecanismos de defesa que estruturamos durante a nossa vida.

A Clarisse Vaughan, Nova York (2001) é uma editora bem-sucedida, tem uma filha e há dez anos mantém um relacionamento homossexual. Clarissa sempre se coloca em segundo plano, e está sempre disposta para ajudar a Richard que além de seu amigo é seu grande amor. Ela é a personagem do enredo do qual não transparece a depressão do qual ela se encontra. Por viver no século XX é a personagem que tem mais chance de conseguir ajuda, pois a época em que Virginia e Laura viviam, a depressão e a melancolia eram vistos como outros tipos de doenças e até mesmo sendo confundidas com ansiedade e estresse.

Clarissa era uma mulher da qual as pessoas não desconfiavam do seu sofrimento, mas vivia em constante angústia. Após a presenciar a morte do seu amigo e grande amor Richard, percebe o quanto a vida pode ser banal, e quanto tempo da vida pode se perder idealizando coisas, vivendo por conta dos outros, perdendo tempo em transparecer para o outro a nossa felicidade e o quanto somos fortes, quando na verdade, as coisas não estão indo bem, passando então a maior parte do tempo usando máscaras para que ninguém notar o sofrimento. O adoecimento pode surgir a partir dessas preocupações, que muitos indivíduos não sabem como lidar com situações como estas, sendo então também uma possível causadora de angústia.

A angústia é um afeto presente tanto na neurose quanto na psicose. Todavia, na neurose ocorrerá um sintoma, como defesa em relação à angústia – por exemplo, um sintoma depressivo. Na psicose, o sujeito não tem esse recurso, o que pode levar à passagem ao ato, como o suicídio. Laura Brown (1949), em Los Angeles, casada com Dan, que é um antigo soldado, mãe de um menino de 5 anos e grávida do segundo filho, sente-se angustiada com sua vida. Está vivendo em um estado de apatia, desinteresse e não sente prazer em realizar as atividades normais no dia a dia, tem uma família e uma vida comum, sem aparentemente nenhum conflito, afastando-se então qualquer hipótese de motivo externo atual para a depressão retratada. Laura é a personagem do filme da qual denota traços neuróticos e psicóticos. Lembrando que na psicose, a primeira tentativa arrasta o ego para longe da realidade, e a segunda tentativa seria a de reparar o dano causado e reatar as relações do indivíduo com a realidade. Já na neurose, um fragmento da realidade é evitado por uma espécie de fuga. Deixa-nos então intrigados, e sem uma resposta.

Como diria Lacan, a angústia é da ordem do real, ou seja, ela invade o corpo e constitui para o sujeito uma certeza absoluta, ninguém tem dúvidas quanto ao fato de estar angustiado (LACAN,1962). Por conseguinte, a angústia, envolve sempre um sofrimento psíquico, físico e corporal, pois tem relação com uma sensação de estreitamento, um aperto no peito, uma dificuldade de respiração que muitos sentem nesse estado.

A angústia não é somente um sofrimento, mas também é sensação de impotência do indivíduo frente a essa situação. Essa sensação de impotência acontece em uma cena da qual a Laura tenta um fazer um bolo para comemorar o aniversário do seu marido. A personagem se sente na obrigação de fazer esse bolo, pois ela se sente culpada em estar em um lugar em que não queria estar, não se sentia merecedora da vida que tinha. O sentimento de culpa é característica do melancólico, do qual o ego fica empobrecido. A sua primeira tentativa do bolo não saiu como ela esperava. Após a visita de uma amiga, que lhe confessa que está sob suspeita de uma doença maligna, Laura tenta novamente fazer o bolo na intenção que este saia perfeito, e foi o que acontecera.

Laura, uma mulher que estava cansada da sua vida superficial, viveu em uma época pós-guerra, tinha um marido e uma vida dos sonhos da qual qualquer mulher da época gostaria de ter, se isso não era o suficiente para ela, o que mais ela queria? Libertar-se daquela vida da qual ela não se encaixava, da rotina de esposa e de dona de casa não era o que desejava. Sentia-se insatisfeita por não conseguir ser feliz ao lado da família, carregava a culpa e angústia da insatisfação. Diante disso ela planeja seu suicídio, assim como uma tarefa diária, porém desiste, optando pela vida e pela liberdade. Depois que seu segundo filho nasce ela abandona a família, tirando então o peso que carregava junto a ela.

7. Considerações Finais

 Há um alto índice de pessoas depressivas que tem comportamentos suicidas e que cometeram suicídio, tendo a depressão grave como sua influenciadora. Vale a pena aqui ressaltar que nem todos os indivíduos depressivos têm comportamento ou idealização suicida. Uma série de fatores pode desencadear o risco deste, incluindo a doença mental e a melancolia, que, para a psicanálise, é o estágio mais extremo da depressão. De acordo com a psicanálise, nem toda depressão é uma melancolia, isso justifica o fato de que nem todos os indivíduos depressivos irão cometer o suicídio.

 Para que o sujeito seja classificado como melancólico, ele deve ter uma predisposição patológica - psicótica. Melancólicos têm uma sensação de vazio que é muito mais grave do que quando se está deprimido. O melancólico tem uma estrutura psíquica diferente, que não necessariamente será despertada por um acontecimento triste. Por outro lado, a depressão neurótica é um estado, sendo também um fenômeno interno, e não precisa de um acontecimento para disparar este sintoma. A pessoa fica apática, não sente vontade de fazer nada e não entende o porquê, se distancia das pessoas queridas, fica desanimado, aparentemente sem motivo, além de não conseguir nomear o que está sentindo e nem dar sentido àquilo.

Tanto neuróticos quanto psicóticos se angustiam e podem ficar deprimidos, o que é fundamental para um diagnóstico diferencial é que o melancólico apresenta delírio de inferioridade, que ele se refere como insuportável de existir – tal como podemos observar em Virgínia e Richard. Outro ponto fundamental para diferenciar a depressão da melancolia são as alucinações auditivas, também apresentadas por estes dois personagens.

O transtorno depressivo é um problema de saúde pública, podendo afetar indivíduos de diferentes faixas etária. Os profissionais de saúde devem estar atentos sobre o assunto para poderem, assim, fazer o acolhimento das pessoas em casos de depressão e tentativas de suicídio. Devemos estar atentos para orientar e para fazerem os encaminhamentos necessários. Há um mês reservado somente para discutir o assunto, que tem sido chamado de “Setembro Amarelo”. Quanto mais conhecimento sobre a depressão e os riscos suicídio, maiores são as chances de prevenção.

Sobre a Autora:

Maria Cecília de Freitas Soares - Graduada em Psicologia, 2018, pela UNIVIÇOSA, MG, Brasil.

Referências:

AS HORAS. Direção: Stephen Daldry. Produção: Scott Rudin, Robert Fox. Intérpretes: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore e outros. Roteiro: David Hare. Música: Phillip Glass. Los Angeles. Paramount Pictures, Miramax Films. 114 min. 2002. color. 

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