Winnicott e Watterson: diálogo mais que pertinente

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1. Introdução

William B. Watterson II publicou “Calvin and Hobbes” pela primeira vez em 11 de novembro de 1985; nascia assim um dos personagens mais instigantes do mundo dos quadrinhos, alguém capaz de se transformar em tiranossauro, tubarão, detetive, astronauta, super-herói, todos alter-egos de um menino que se existisse seria tido como hiperativo e talvez medicado com metilfenidato e não vivenciaria seu “objeto transicional” presente em seu tigre de pelúcia, Hobbes; sem medicação “morreu” em 1º de janeiro de 1996, deixando órfãos fãs saudosos de um moleque de seis anos que varava o mundo real dos adultos perseguido por seu tigre de pelúcia e com uma perspicácia tão insinuante quanto embaraçosa.

Winnicott e Watterson transitaram pelo mundo infantil de um modo que raros conseguiram. O primeiro, psicanalista britânico reconhecido por sua imensa contribuição para o entendimento da relação mãe-bebê e que cunhou termos como falso-self, holding e espaço potencial, estabeleceram novos parâmetros acerca do desenvolvimento materno-infantil. O segundo, cartunista americano, ganhador de vários prêmios, pessoa reclusa, tímida, criou um dos mais queridos personagens de HQ (histórias em quadrinhos) no mundo ocidental: Calvin e Haroldo. Em comum, Winnicott e Watterson demostram a capacidade de perceber o universo da criança de um modo que até então havia apenas sido superficialmente sondado por psicanalistas e cartunistas. Se Freud se interessou pelos aspectos psicossexuais da criança, e Quino, cartunista argentino, criou Mafalda, uma menina hiper intelectualizada, tanto Winnicott como Watterson optaram por retratar a “criança infantil” mesmo, aquela que vive seu mundo narcísico, onipotente e (des)vinculado.

Calvin é um menino de seis anos, de cabelos espetados e pés de “pãezinhos”. É dotado de uma inteligência dinâmica e reativa, por meio da qual remodela a intrusão que sofre de conceitos e contextos do mundo real, defendendo-se do mesmo e adaptando-o à sua forma de ver as coisas (ainda que isso implique em deixar seus pais confusos, desanimados e sardônicos no caso do pai, e autoritária no caso da mãe). O traço mostra um garoto tido como hiperativo, às vezes diabólico (nunca demoníaco, porque nunca há maldade imanente), Calvin se assenhora soberbamente do espaço adulto em que está inserido tanto através das leituras peculiares que faz deste espaço, como por meio das representações dos seus alter-egos funcionais que catalizam suas pulsões. O cartunista tomou o nome emprestado de João Calvino, o radical reformador protestante, uma alusão não toda desprovida de sentido, visto que Calvin derruba todas as fronteiras psíquicas, transitando com versatilidade e prontidão entre o real e imaginário.

Seu companheiro – “objeto transicional” – é um tigre de pelúcia, chamado Hobbes (no Brasil, incrivelmente “traduzido” para Haroldo), outro insight de Watterson pelo tom subversivo da autoridade moral do crítico e político inglês do século XV. De fato, Hobbes – o “ego assessório” de Calvin – faz o contraponto instigante à criativa vivência do menino, na medida em que traduz a intangibilidade dos constructos do garoto em algo palpável, passível de ser interpretado. Ele é, de fato, a ponte entre o mundo imaginário de Calvin e o real. Hobbes cria vida quando está sozinho com Calvin (na frente de outros é de pelúcia), e Watterson é perspicaz o suficiente para não deixar transparecer quem é que de fato está enxergando a realidade: se o garoto ou os outros. É Hobbes que faz Calvin trafegar pelo universo adulto – o real – servindo como colchão, um amortecedor emocional de suas fantasias, mágoas, descobrimentos e desilusões. O tigre – o lado (mais) selvagem de Calvin – funciona nas instâncias do id e do superego do menino. 

2. Espaço para a Onipotência

Garry Trudeau, cartunista americano, criador de Doonesbury, disse: "Há poucas fontes de humor mais constantes e regulares do que a mente de uma criança. Muitos cartunistas, ao criar personagens infantis, reconhecem isto, mas quando se propõem a captar o ativo mundo infantil, quase sempre se enganam, criando crianças irreconhecíveis, espertinhas miniaturas de adultos”. A respeito de Watterson e seu personagem, discorre: “Ele acertou ao captar com precisão a infância como ela realmente é, com suas constantes mudanças no sistema de referências. A realidade, para ela, depende profundamente da situação. Uma afirmação que um adulto julga ser uma “mentira”, pode muito bem refletir uma profunda convicção da criança, pelo menos no momento em que esta aflora. A fantasia é tão acessível e é vivida com tal força e frequência, que pais ressentidos como os de Calvin, convencem-se de estarem sendo manipulados, quando a verdade é muito mais assustadora: eles nem mesmo existem”.

Algumas vezes, a impressão que se tem do mundo autossuficiente de Calvin, que se vincula ao real apenas para lhe tomar referências, leva a crer mesmo que seus pais não existam. O próprio autor afirma que nunca deu nomes aos pais de Calvin porque eles são importantes apenas como o  pai e a mãe de Calvin. Mas por trás disto há a necessidade ingente de Calvin de brincar, algo que o faz subordinar tudo o mais a essa atividade. E Calvin, ao brincar, remete às ideias de Freud acerca do papel da brincadeira no universo da criança. Para ele, no brincar é que se situam os primeiros traços da atividade fantasiosa, algo que ele descreve em “Além do Principio do Prazer” quando discorre sobre o brincar, depois de observar seu neto manipulando um carretel. As brincadeiras proporcionam à criança o experimentar de emoções iniciais, fazendo-as travar contato com perda, frustração, etc. Klein diz que é na brincadeira que se exteriorizam os jogos internos, um meio de prazer pela manipulação da angústia.

Bettelheim também anatomizou a brincadeira, asseverando que a privação do brincar na vida da criança poderá torná-la um adulto com graves reveses intelectuais, devido a sua “falha na elaboração projetiva”. Contudo, ninguém dissecou mais o brincar do que Winnicott. Suas investigações levaram-no a concluir que as crianças brincam para dar vazão aos seus impulsos agressivos e coléricos, num cenário que ela conhece e que todos aceitam. A “agressão”, nesse sentido, possui a conotação do “enfrentamento” do que não “é/está nela”. A brincadeira é ainda um espaço de controle das ideias e dos impulsos que levam à angústia, caso não sejam domados, um modo por meio do qual a criança tateia os mundos externo e interno, se associa e interage com o meio trocando experiências emocionais. Para o psicanalista britânico, o brincar é um tempo-espaço de criação e elaboração da realidade subjetiva/objetiva, o manejar incipiente da agressividade. É a experiência da onipotência infantil descrita por Freud.

3. Bombardear a Escola

E poucos personagens de histórias em quadrinhos são tão onipotentes como Calvin. Na sua interação com Hobbes, ele subverte toda e qualquer lei de espaço-tempo, de transfiguração de ícones, de fronteiras. Calvin caçoa do mundo extremamente regrado dos adultos e o usa como pano de fundo para liberar suas fantasias nada sutis. Bonecos de neve com cabeças decepadas, banheiras transbordantes pelas quais singram porta-aviões e tubarões imaginários, sanduíches com recheios “exóticos” que enojam sua coleguinha Susie Derkins, o Calvinball, um jogo maluco absolutamente caótico e sem nenhuma regra, fazem parte do portfólio do “brincar” do menininho. Em uma tira colorida de domingo, Calvin, no cockpit de um avião-caça F-15, destrói a escola. O autor foi criticado: “Eu recebi algumas cartas desagradáveis sobre esta tira. Alguns leitores acharam que era indesculpável mostrar um menino fantasiando bombardear sua escola e tirar-a da face da Terra. Aparentemente, alguns dos meus leitores nunca foram crianças”.

Não devem ter sido mesmo. Porque se alguém na infância não imaginou destruir, fazer desaparecer uma fonte de angústia, é porque provavelmente não “brincou” ou pouco brincou. De qualquer modo, nesta fase, pode não ter sido experienciado de forma mais construtiva um dos conceitos mais importantes da teoria psicanalítica winnicotiana, que é a da mãe suficientemente boa. Quando Winnicott se refere a essa mãe, ele a conceitua como alguém que, na quantidade e na qualidade de provisão (atenção, sustentação, nutrição) ao bebê, favorece seu desenvolvimento na medida em que, cada vez que falha no atendimento das necessidades da criança, a torna mais “ser”.  Winnicott explica que tais falhas são percebidas pelo bebê como ameaças potenciais de aniquilação do seu “continuar a ser”, das quais o bebê repetidamente se recupera. Alguns autores afirmam que a ameaça sentida pelo bebê é de extinção, o que torna o retorno do atendimento provisional da mãe mais reconfortante e mais seguro.

É essa corrente contínua de “provisão-falha” que permite ao bebê edificar um ego capaz de manejar a frustração. Colabora para isso, o fato de um adulto estar sempre por perto nas suas primeiras experiências do brincar (experimentação do mundo), o que lhe dá segurança no exercício da atividade. Ao penetrar esse novo mundo, a criança o faz por meio de símbolos e objetos que ao mesmo tempo em que lhe mantém seguro no “colo emocional da mãe”, a permite perambular pelo real do mundo. Com o tempo, a criança percebe que a mãe continuará existindo e que adquirirá cada vez mais segurança para incursionar no universo concreto e tangível dos fatos. Cria, deste modo, o seu mundo, a antessala de convivência com o mundo real que irá experienciar mais esmiuçadamente nos anos seguintes. Da capacidade de criar, de brincar, provém a conexão dos mundos interno e externo da pessoa, com repercussões na sua vida adulta. Se houver uma falha na percepção da conexão desses mundos, há um split do self.

4. Objetos e Fenômenos Transicionais

Entrincheirados no seu mundo interior, a pessoa toma a realidade externa como algo subjetivo, passível de ser interpretado de acordo com valores internos, o que leva a ao delírio e ilusão. Na psiquiatria são os sujeitos com transtornos esquizoparanóides, esquizoafetivos ou esquizofrênicos. O contrário – pessoa voltada para a realidade externa – está desconectado dos seus conteúdos internos, sem contato com afeto, apego, emoção, ditando-se por valores geralmente inflexíveis. Para a psiquiatria são esses os quadros de transtornos afetivos, de humor e de personalidade. Esse é o motivo pelo qual a transição do mundo interno infantil para o mundo externo da “realidade adulta” precisa ser muito bem conduzida, a fim de que o fio condutor não se rompa no processo, deixando a criança em alguma das fases, desprovida de ferramentas de sustentação emocional. Confusa, ela irá proceder do mesmo modo que qualquer outra pessoa em um ambiente hostil e desconhecido: irá se adaptar.

Entretanto, se a passagem for bem feita, um adulto completo em formação estará em caminho. E tal passagem pode ser bem feita se o conceito de objeto transicional for bem compreendido. No artigo “Objetos transicionais e fenômenos transicionais”, Winnicott observa que “os dedos, panos, ursos e canções de ninar seriam objetos ou fenômenos transicionais”. Seu uso pela criança está numa fronteira entre seus mundos interno e o externo e embora seja uma representação interna já é, ao menos em parte, tido como realidade externa por ela. Seria um “não-eu” embrionário, a fase em que ela trás para a realidade de sua onipotência elementos externos, perdendo assim a condição de “centro do seu mundo”. É exatamente isso que Hobbes faz com Calvin, ainda que, em vários momentos, Calvin tente – e consiga – recuperar sua onipotência. Hobbes o faz lembrar que as regras que valem no Calvinball – e a regra maior do Calvinball é a de que não há regras – não se aplicam, sempre e necessariamente, a vida real.

É por isso que se Calvin fosse um menino real e pudéssemos acompanhar seu desenvolvimento, dificilmente ele deixaria de ser uma pessoa mais ou menos integral. Watterson sempre respondeu a questão de que não se valia, no geral, das próprias experiências infantis para dar cor a vida de Calvin (exceto, talvez, pelos acampamentos que o pai arranjava e seu discurso de que andar de bicicleta reforça o caráter). Winnicott afirma que uma evolução saudável dos primeiros fenômenos transicionais leva a criança a brincar e o adulto a se integrar nas artes, cultura, profissão, religião ou, de outro modo, ao vício em drogas, ao desapego e ilegalidades. Tais comportamentos podem apontar para uma criança que apesar de ter tido uma vivência suficientemente boa, com possibilidades criativas e recreativas, em dado momento passou por um período privação expressivo. A resultante disso foi que, na fase adulta, ela buscou os recursos de que não dispunha lá trás, com atitudes descompensadas e nada construtivas.

5. Alter-egos Utilitários

A imensa capacidade de brincar de Calvin, os insights fabulosos que possui (mesmo que minimamente corretos como “Eu sei que o mundo é injusto, mas ele não podia ser injusto a meu favor?"), faz desse personagem um exemplo típico de um dos maiores conceitos da teoria psicanalítica winnicottiana que é a do objeto transicional. Calvin é tão rico que não se basta. Além de ter em Hobbes seu superego domador, seus alter-egos – personagens que Calvin inventou para lidar com as situações – são peças fundamentais do seu universo onde tudo é permitido. Tracer Bullet, por exemplo, é um investigador particular que parodia os filmes noir cheio de bad boys. O Homem Estupendo, mascarado que sai dos armários da escola, é capaz de resolver problemas que Calvin não pode, e quando está entediado se transforma em T. Rex, zumbis, lobisomens e outros monstros liberando a veia agressiva, “carnívora e brutal”.

Mas entre todos os alter-egos de Calvin, o cosmonauta Spiff talvez seja o que mais tenha a ver com a personalidade inquieta do menino. Ele aparece na escola (justamente o ambiente que Calvin menos gosta de estar – o que remete a questão sobre o quanto a escola tem sido interessante para crianças de seis anos) e sempre está às volta com os Zorgs, criaturas que ele cria a partir, geralmente, da senhora Wormwoood, sua professora. De outro modo, Spiff  “toma o self de Calvin” quando monstros gosmentos surgem ou quando ele se encontra em situações de perigo, como, por exemplo, uma prova ou um escorregador. Sátira reconhecida de Flash Gordon, Spiff é a alternativa ilusória encontrada por Calvin para atuar num ambiente várias vezes pouco criativo, entedioso ou assustador. Por meio de Spiff, Calvin paira sobre o colégio e recria um mundo fantástico e fantasioso onde pode atuar de acordo com suas regras. E quando isso não é realizável, sempre é possível bombardear a escola.

Conceitos Chaves:

Mãe suficientemente boa

O conceito de mãe suficientemente boa exprime a ideia de uma mãe capaz de atender às demandas egóicas da criança, respondendo à sua onipotência de forma construtiva, seja na provisão da nutrição, seja na facilitação da construção do espaço potencial da criança.

Espaço potencial

É a área intermediária entre o eu interior da criança e o mundo externo; local das primeiras experimentações, incursões no mundo real, sem que haja distanciamento do ilusório erguido por meio dos laços com a mãe.

Objeto transicional

O objeto transicional – ou fenômenos transicionais –  representa a primeira posse “não-ego” da criança, têm um caráter de intermediação entre o seu mundo interno e externo. Pode ser um brinquedo, um bicho de pelúcia, um pano, uma canção de ninar.

Sobre o Autor:

José Antonio Mariano é psicanalista.

Referências:

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