A Alteridade Familiar na Constituição do Sujeito Contemporâneo: a fragilização das funções parentais no cotidiano infanto-juvenil

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Resumo: Este trabalho foi resultado de uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório, cujo tema discutido foi a alteridade familiar na constituição do sujeito e as implicações da fragilização na função parental na vida do sujeito infanto-juvenil. O nosso objetivo, à luz da psicanálise, foi discutir a perda de hierarquia dos pais frente aos filhos e como tem se dado o exercício da função parental na contemporaneidade. Considerando que a função materna é fundamental para a formação psíquica do sujeito, buscamos ainda discutir como esta se apresenta hoje e se a alteridade enquanto apresentação do Outro no campo simbólico tem se dado de forma satisfatória. Tratamos deste assunto fazendo uma leitura histórica, das mudanças sócio-culturais que ocorreram desde o século XIX considerando tais eventos como fatores inerentes à mutação presente no atual contexto familiar. Essas mudanças inevitavelmente atingem a subjetividade da criança e do adolescente cujo impacto tende a repercutir por toda a vida. Enfatizamos os novos modelos familiares para contextualizar essa discussão sobre o exercício da parentalidade. Assim, buscamos desenvolver uma reflexão acerca da função parental e do impasse que os pais enfrentam no momento de se ausentar do convívio diário com os filhos. Acredita-se que o vazio que se instala na subjetividade infanto-juvenil nem sempre é restituído ou substituído satisfatoriamente por novas alternativas de cuidados. Dentro desta perspectiva, uma reflexão em torno da família foi desenvolvida, considerando neste contexto as mudanças psico-sociais, culturais e políticas.

Palavras chave: Família; criança; adolescência; cultura contemporânea; função parental.

1. Introdução

As mudanças próprias à evolução histórica-cultural produzem o surgimento de novos modelos familiares. Estes modelos são campos significativos de estudos, especialmente quando o olhar é voltado para o sujeito infanto-juvenil. Em princípio a alteridade familiar, sejam pais ou pessoas que assumem essa função, é parte constituinte da identidade dos filhos. De acordo com Winnicott (2001), o lar deve estar unido a serviço do bebê para que este se desenvolva de forma saudável. Não se trata necessariamente de união conjugal entre os pais, mas, de união relacional entre pais e filhos, que propicie a esta criança e/ou adolescente um ambiente adequado ao seu desenvolvimento. As reflexões apresentadas neste texto obedecerão assim, uma sequencia de fatores sócio histórico, que serão fundamentais à compreensão do processo de mutação na organização familiar. Segundo Roudinesco:

Não basta definir a família de um simples ponto de vista antropológico; é preciso também saber qual a sua história e como se deram as mudanças que caracterizam a desordem de que parece atingida na atualidade (2003, p.17).

A partir dessa perspectiva tomada por Roudinesco, tomamos por questão, qual a importância da função parental na constituição do sujeito e como se dão as mudanças no exercício da parentalidade nos tempos atuais? Nosso objetivo é explanar estas questões através de pesquisa literária, a fim, de se fazer compreender a família contemporânea pela sua história, considerando o impacto das mutações familiares sobre a constituição sócio- afetiva dos filhos. Utilizaremos uma pesquisa exploratória de base bibliográfica para compreender a alteridade familiar na constituição do sujeito contemporâneo, considerando a fragilização das funções parentais na atualidade.

Neste sentido, fazer um diálogo com Winnicott e Figueiredo parece-nos apropriado por permitir-nos pensar na importância conferida a maternagem para a construção psíquica da criança e suas futuras relações.

Pode se dizer que, de inicio, a mãe deve adaptar-se de modo quase exato às necessidades de seu filho para que a personalidade infantil desenvolva-se sem distorções (WINNICOTT, 2001, p. 09 ).

Com isto, entendemos que a pessoa que exerce a maternagem deve estar desejante da sua função junto à criança a fim de compreender o universo da mesma e harmonizar-se ao seu desenvolvimento psíquico. Esses “cuidados primeiros” são fundamentais para instalação da confiança primária.

De acordo com Figueiredo (2007), a instalação da confiança primária é fundamental para o existir criativo e depende especialmente da vicissitude desta relação. Segundo este autor, é no conforto e desconforto, na tensão e relaxamento, da constância dialética de falta e presença materna, que a  criança internaliza as emoções e os contratempos como fatores essenciais da formação da personalidade. A confiança mencionada por vários outros autores, não se trata da “certeza” de que tudo pode ter um fim satisfatório e prazeroso, mas, a confiança no outro, ou no objeto propicia ao bebê desde cedo, ousar nas suas descobertas e na sua identificação do eu e do não-eu. Essa relação primária contribui na formação estrutural psíquica, imprimindo na sua subjetividade a alteridade como constituinte do aparelho psíquico, como também a linguagem e o desejo, ou seja, o seu ingresso no mundo do outro e a sua busca por satisfação.

Até aqui vimos em síntese, à criança como um sujeito dependente do outro, um ser que se constitui gradualmente a partir, principalmente, da sua relação com a família.

O espaço potencial entre o bebê e a mãe, entre a criança e a família, entre o individuo e a sociedade depende da experiência que leva à confiança. Ele (o espaço Potencial) pode ser visto como sagrado pelo indivíduo na medida em que experimenta o viver criativo. (FIGUEIREDO, 2007, p.78)

Percebe-se assim, a importância da função parental, visto que, é nessa relação que se constitui a condição para confiança e desconfiança, fatores que definem basicamente a maneira de existir. Se há na contemporaneidade uma fragilização da função parental, uma função muitas vezes, terceirizada [1], como compreender o sujeito infanto-juvenil inserido neste contexto? Como essa confiança básica tem se instalado psiquicamente? A nosso ver, para entender  a “fragilização da função parental” na atualidade é necessário uma retomada histórica do lugar conferido a criança no decorrer dos séculos. Visto que, até o século XII, segundo Postman (1999), não existia um conceito de infância, este, surge historicamente na estrutura social como instrumento de especulação matrimonial e profissional. A educação nesse sentido emerge como fator importante na construção da criança como ser social e futuramente como homens produtivos. É a partir do século XIX que se pode pensar numa estrutura familiar diferenciada, que tende a desenvolver um modelo de vida privada.

De acordo com Birman (2005), com os avanços tecnológicos no século XXI, a criança passa a ter acesso a uma gama de informações e formas criativas de relacionamento, e emerge como efeito deste avanço, a adolescência precoce suprimindo esse espaço infantil. Ao considerarmos na atualidade a grande valorização às atribuições reconhecidas no mundo adulto, como forma do futuro promissor da criança, podemos perceber a busca cada vez maior por atividades extraclasse como forma de promover desde cedo à competitividade e a independência, a produtividade e o “ter”.

Cabe aqui, uma reflexão em torno da família moderna do século XIX e família contemporânea. Como se apresenta atualmente a infância e que lugar ela ocupa no contexto familiar?

Para Postman (1999), a infância se desenvolve de acordo com a tecnologia, e tende a cada dia desaparecer do contexto familiar, ou seja, até o século XII as crianças participavam das mesmas informações, das mesmas conversas adultas e isso fazia com que a criança fosse vista como uma criança-adulta [02]. A inocência e a ingenuidade são características que só aparecem após o século XII, como forma de preservar a ingenuidade atribuída a criança. Compreende-se, nesse sentido, que o acesso fácil a todo tipo de informação veiculada livremente, tenderia a suprimir o espaço infantil, dando lugar à criança-adulta de séculos atrás. Vale ressaltar, que não é a criança que desaparecerá do contexto familiar, mas, o conceito de infância que foi construído ao longo dos séculos.

Ao estendermos nossa leitura para a adolescência, observamos que o espaço familiar foi ficando demasiadamente aberto, como refere Birman (2005). Ele coloca em pauta a adolescência precoce como produto histórico e social, a partir de uma leitura da juventude, onde traçou perfis de modelo familiar, considerando a história, a cultura, as revoluções por direitos na política e no mercado de trabalho etc. Conquistas, que foram exigindo do jovem adulto mais disponibilidade, e assim, a casa foi ficando “demasiadamente aberta para o externo” [03]. Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, muitas das restrições anteriores se romperam, tendo por consequência uma submissão das crianças e adolescentes a uma performance imposta pelos adultos desde a terceirização dos cuidados à atividades extraescolar [04]. Distanciando-se deste modo, cada vez mais, do lugar anteriormente ocupado por brincadeiras e lazer infantil de outrora, junto aos pais.

Na atualidade com o acesso a internet e outras tecnologias, observamos um maior isolamento por parte das crianças. Autores como Birman (2005), chegam a referir que a criança de hoje parece estar envolta em uma solidão, isto, quando pensamos nas relações interpessoais. Assim, o que antes era ocupado pelos vínculos afetivos entre os pais e filhos, e entre os amigos (presenciais), foi substituído por relações e jogos virtuais. Com essa evolução tecnológica a criança passou a conectar-se com o mundo, o que a faz por vezes, se deparar com um excesso de informações, além da sua maturidade psíquica permite, favorecendo uma adolescência precoce.

Com a substituição das relações parentais por internet, jogos e TVs na atualidade, falta a muitos pais, assumir seu papel de educador, impondo à criança e ao adolescente, restrições e limites tão necessários à constituição do sujeito. Sabemos que, quando há um afastamento da responsabilidade familiar, a criança pode ficar endereçada ao abandono. Não nos referimos a um abandono amoroso, mas, a própria dificuldade que muitos pais enfrentam no momento em que são convocados às responsabilidades exigidas pela função parental, deixando as crianças muitas vezes, à mercê das suas próprias escolhas.

De acordo com Kehl (2003, p.5), “O abandono e a consequente falta de educação das crianças ocorre quando o adulto responsável não banca sua diferença diante delas”. Para a autora, o que é insubstituível para a criança em relação à função parental, não é apenas o olhar amoroso do adulto, mas também, o Ser responsável pela criança, pois, ainda que se dê carinho, impor limites se faz necessário para a condição de crescimento e para o conhecimento dos parâmetros éticos que rege as gerações e, ao não ser apresentado desde cedo, as consequências podem ser mais desagradáveis ao meio familiar e social.

Ao considerarmos que a constituição psíquica do sujeito depende primordialmente das suas primeiras relações e do exercício efetivo da função parental, levantamos a questão: Quais são os impactos na subjetividade do sujeito infanto-juvenil, e como se justifica a crescente falta de limites nesta faixa-etária?

Nosso objetivo, nesse sentido, foi desenvolver um estudo acerca da alteridade familiar na constituição do sujeito contemporâneo, enfatizando a fragilização da função parental, pois, não seria possível entender a perda da hierarquia que se firmou neste contexto, nem compreender o discurso de muitos pais que lamentam a falta de obediência dos filhos se não fizéssemos uma leitura histórica do referido tema.

Assim sendo, realizamos uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório que segundo Lakatos e Marconi (2010), esse tipo de pesquisa tem como finalidade, aprofundar o conhecimento em um tema já existente e visa responder ou problematizar - fundamentados em dados científicos - questões que surgem no cotidiano. Este método torna-se indispensável para o estudo do referido tema, como também, para discutir o processo de mutação na relação familiar no contexto sócio-histórico-cultural. Nossa busca de dados se norteia pelo viés psicanalítico, empregando como base teórica os Autores, Freud e Winnicott, assim, como autores contemporâneos, a saber, Maria Rita Kehl, Joel Birman, Roudinesco e Luis Figueiredo. Neste recorte Bibliográfico, refletimos sobre a importância da família e o exercício da parentalidade na constituição do sujeito.

No primeiro capítulo trazemos um histórico, discorrendo sobre  a cultura e suas implicações na família e os novos modelos de família que surgem no decorrer dos séculos, por fim, os eventos históricos que modificam o contexto familiar e consequentemente a subjetividade infanto-juvenil. No segundo capítulo, tratamos da constituição psíquica pela função parental, a sustentação dada através dos cuidados materno e paterno. Contemplamos ainda, a apresentação da Lei e a instalação da confiança primária, além do exercício da função materna na contemporaneidade.

2. Objetivos

2.1 Objetivo Geral

Estudar a alteridade familiar na constituição do sujeito contemporâneo, considerando a fragilização na atualidade das funções parentais.

2.2 Objetivos Específicos

  1. Refletir sobre a influência da fragilização da função parental na constituição subjetiva da criança e adolescente;
  2. Discorrer sobre os novos modelos de relação familiar na atualidade, a partir do contexto histórico.
  3. Analisar as consequências da necessidade da inserção cada vez maior da família no mercado de trabalho e as repercussões desta, para a criança e o adolescente.

3. Metodologia

O presente trabalho utilizou como método, uma pesquisa de caráter exploratório em base bibliográfica. De acordo com Lakatos e Marconi (2010), uma pesquisa de base exploratória tem como finalidade, aprofundar o conhecimento em um tema já existente e visa responder ou problematizar questões que surgem no cotidiano, fundamentado em dados científicos. Para realizar uma pesquisa deste caráter, geralmente se emprega procedimentos sistemáticos como observação empírica e/ou análise de conteúdo. No presente estudo foi utilizado como procedimento, análise de conteúdo especificamente, por se tratar de uma revisão bibliográfica. Para conceituar teoricamente este estudo e fazer uma articulação coerente com o tema proposto, uma revisão bibliográfica de caráter exploratório tornou-se indispensável, uma vez que, a “Instituição Família” é um tema sócio-histórico-cultural e para fazer essa contextualização histórica se fez necessário o apoio da literatura científica.

Utilizamos como base de consulta o site BVS-psi (Biblioteca virtual em Saúde – psicologia) por ser um site de referência em toda a América Latina e no Brasil, e pela confiabilidade nos materiais publicados; pesquisamos ainda, artigos científicos e livros da biblioteca da Faculdade ESUDA. A escolha dos autores pesquisados no corte bibliográfico do presente estudo se deu pelo seguinte critério: a imersão e propriedade sobre o tema, a qualificação de artigos publicados, como também a visão psicanalítica, visto que nos fundamentamos por este viés, privilegiando clássicos de Freud e de Winnicott, e autores contemporâneos que dialogam com o tema em questão, a saber: Maria Rita Khel, Joel Birman, Roudinesco, entre outros.

Esta Pesquisa teve início em Fevereiro de 2014 e foi concluída em Novembro do mesmo ano.

4. A cultura e suas implicações na família

Neste capítulo traçamos uma articulação considerando o contexto e a cultura de diferentes épocas, no sentido de viabilizar uma compreensão da metamorfose constante que atinge a família no decorrer do tempo, desde a época medieval até os dias atuais e dessa forma identificar o lugar ocupado pela criança no contexto familiar, bem como, o comportamento dos pais frente à criança.

De acordo com Postman (1999), não foi sempre que a criança ocupou um lugar diferenciado na família e até o século XII não havia diferença entre a criança e o adulto, a criança era vista como um adulto em miniatura, sem que houvesse restrições quanto ao trabalho e a informação. Até o final do século XIV a criança ainda não aparecia nos legados e testamentos da família; o que nos faz pensar da pouca importância dada à criança, o que em muitos casos favorecia a mortalidade infantil da época – nascia muitas crianças e morriam antes mesmo de chegar a “idade adulta”. Somente a partir do século XVI, com o surgimento da imprensa e a alfabetização socializada, um novo ambiente comunicacional foi tomando forma e com isso a concepção de infância foi se estabelecendo, visão esta, que vai se inscrevendo na história da família por vários séculos.

Segundo o mesmo autor, no século XVII a criança aparecia na história como um instrumento de especulação matrimonial e profissional. A partir da constatação de que o homem letrado se diferenciava dos demais pela sua produtividade, a educação começa a emergir como fator importante na construção do homem. Fato que fez com que se investisse na criança para que se tornasse um adulto mais produtivo. Ao longo do tempo a infância passa a ser vista como uma fase de ordem natural e com necessidades e natureza diferentes da do adulto, de modo, que deveria ser protegida. Postman (1999) refere ainda que, a partir desta visão é que se começa a incutir na criança o conceito de vergonha, fundamental para o processo civilizatório e a educação da época. As Restrições impostas pelo adulto seria uma forma de preservar a ingenuidade atribuída à criança, deste modo, assuntos sobre violência e sexo só eram colocados a partir de uma fase determinada pelos pais. Com isto, entendemos que a criança precisava ser educada para servir ao social e o processo educativo e a disciplina eram de fundamental importância. Nesta época, a forma de educar era predominantemente rigorosa e por vezes através de métodos humilhantes para a criança.

À medida que surgem as mudanças históricas, culturais e sociais, a família tende a se ajustar neste contexto. Já no século XIX a estrutura familiar se diferencia totalmente do padrão do século XVII, de modo que, um modelo de vida privada começa se desenvolver, estreitando o vínculo entre pais e filhos numa intimidade doméstica. Os pais começam a assumir a função de educadores e teólogos, visto que, a criança teria também que se tornar um adulto temente a Deus (ARIES, apud ZANETTI; GOMES, 2011). A criança era educada basicamente pela mãe, que até então, tinha suas funções restritamente doméstica, num modelo familiar predominantemente patriarcal, onde o pai era o provedor enquanto a mãe era responsável pelos cuidados internos da família.

Segundo Kehl (2003) essa privatização familiar que se desenvolveu no século XIX, nada mais era, do que a própria limitação das mulheres que ficavam restritas aos afazeres domésticos, incluindo cuidar dos filhos sem participar da vida pública, como por exemplo, a política e o trabalho externo. A autora aponta ainda, que essa privatização foi abalada na metade do século XX, quando as mulheres começaram a controlar a procriação, ou seja, os filhos já não eram uma consequência inevitável das relações sexuais entre o homem e a mulher, ao mesmo tempo em que a dependência absoluta da família patriarcal sofre um declínio considerável. Assim, a mulher dos anos 50 que antes tinha suas tarefas restritas aos cuidados com os filhos e ao papel de esposa, ganha espaço progressivamente fora do âmbito domiciliar, passando a trabalhar fora, transição que modifica significativamente a instituição família.

Birman (2005) justifica essa mutação na família dizendo, que a história do sujeito, além de biológica é também produto psicossocial, em outras palavras, é produto da história e da cultura, na qual, este está inserido, de outro modo, não seria possível descrever ou explicar os conceitos de existência que se modificam ao longo dos anos. O registro biológico, evidentemente não deve ser descartado, entretanto, é preciso que esse registro seja relativizado e devidamente contextualizado de acordo com a cultura. Assim, baseando-se em Philippe Ariés, e em outros autores, afirma que essas mudanças não decorrem simplesmente de um processo naturalista, mas, principalmente de fatos históricos, psicossociais. As mudanças que ocorreram nas décadas de 50 e 60 foram cruciais, neste processo de transição de cultura e de novas formas de existir. As revoluções políticas e sociais culminaram ainda, num novo ideal de juventude e novos modelos familiares emergiram destes acontecimentos, transformando a sociedade, a cultura e a história.

4.1 Novos modelos familiares

Para Kehl (2003), um marco significativo que desencadeou novos modelos familiares, foi a independência conquistada pela mulher, desde meados do século XIX até os dias de hoje. Essa independência contribuiu e validou as alterações familiares, política e social. Surge em torno disto, uma cultura modificada, assim, o que antes era considerado como ideal de família hierarquizada pela figura paterna, vem cedendo lugar a modelos alternativos de família. E não se trata apenas dos modelos de família que se apresentam ampliados numa extensão de avós, tios, e por vezes, enteados, padrastos, madrastas, entre outros, mas, de novos modelos de relações familiares. Estes modelos na atualidade se apresentam numa horizontalidade, caracterizando que as relações estão no mesmo patamar de igualdade, sem subordinação. No caso específico da família, pai, mãe e filhos, estariam em condição de igualdade, diferente das relações familiares anteriores, onde se preservava uma hierarquia, seja por parte da religião, da instituição, do Estado ou dos pais.

De acordo com Lebrun (2004), a figura paterna ou o poder patriarcal foi abalado quando a ciência contrariou o poder da igreja questionando sua legitimidade divina. Ao fazê-lo, desencadeou o declínio da hierarquia patriarcal. Ainda para o autor, o novo modelo social − o de horizontalidade − seria responsável pela crescente dificuldade enfrentada pelos pais na contemporaneidade,  quanto  a  dar  limites  aos  filhos.  Para  Kehl  (2001),  o narcisismo parental seria outra questão, uma vez que, para ela, os adultos ao ver nos filhos a possibilidade de reviver sua infância, aquela criança que eles não foram e a quem nada deveria faltar, reforçaria a dificuldade em conter o excesso de liberdade dos filhos.

Assim, pensamos que as crianças na contemporaneidade, tendem se desenvolver num contexto onde a alteridade familiar não se insere na sua subjetividade e a função parental parece ser atingida por uma fragilização. Daí, acharmos interessante a articulação com a família “pública” (social) do século XVII que se “privatiza” no século XIX numa restrição de “cuidados e educação” doméstica sem interferência do social e que se desprivatiza nos dias de hoje. Segundo Kehl (2003, p. 03),

A família desprivatizou-se a partir da segunda metade do século XX, não porque o espaço público tenha voltado a ter a importância que teve na vida social até o século XVIII, mas porque o núcleo central da família contemporânea foi implodido, atravessado pelo contato intimo com adultos, adolescentes, e crianças vindas de outras famílias.

Pode se dizer que, “outras famílias”, referida pela autora, são os novos arranjos familiares que surgiram em decorrência da liberdade sexual e da independência financeira conquistada pela mulher no século passado. Não havendo mais na atualidade, Lei de Deus ou dos Homens, que mantenha um casal unido pelo matrimônio. Assim, com a possibilidade de separação, os componentes familiares tiveram que se adaptar e se reinventar quanto às novas possibilidades de lar ou de modelos familiares. Diante desta convivência, é preciso identificar quem vai tomar o lugar do adulto referencial, o adulto que impõe os limites, que se responsabiliza pelas tomadas de decisões e que assume efetivamente a função parental. Nestes novos modelos de família, foi inserida a terceirização de cuidados, que nem sempre assume de fato essa função, e nem tem autonomia para colocar os interditos, estes, importantes na construção da subjetividade.

Segundo Birman (2005) foi na década de 60, que os jovens conseguiram revirar a ordem familiar de ponta-a-cabeça, incluindo as uniões temporárias  que foram se fazendo e se desfazendo constantemente. O autor considera estes acontecimentos, como um, dos indicadores que fragilizaram a função parental e esses novos arranjos familiares, que se engendravam de casamentos anteriores atingiram a autonomia e as responsabilidades que exigiam à função paterna/materna junto às crianças/adolescentes. Afirma ainda que, a ausência relativa da mãe não foi substituída satisfatoriamente pelas novas alternativas de cuidados. Entretanto, salienta que a função parental é responsabilidade de ambos, e os pais precisam assumir efetivamente suas funções à fim de conter a economia de cuidados que foi sem dúvida um golpe na subjetividade infanto-juvenil. Em outras palavras, esse golpe e economia de cuidados são na verdade, o vazio, que subjetivamente se instalou no campo afetivo e constitutivo da criança, quando os cuidados da mãe foram minados pela jornada de trabalho fora do seu domicílio.

De acordo com Winnicott (2001), a mãe tem uma participação fundamental na constituição psíquica do bebê, através da relação mãe-bebê. É nesta relação suficientemente boa que o bebê desenvolve adequadamente cada fase da vida. Ainda que a cultura seja um dos fatores responsáveis pela metamorfose que permeia a instituição família, seria cabível preservar a afetividade que institui laços e que contribui para a formação da personalidade do bebê. Em referência a esse ponto de vista, Grando, Katzwinkel e Braz afirmam que;

As contribuições de Winnicott são inquestionáveis na contemporaneidade, precisando apenas fazer algumas reformulações devido às diferentes épocas [...] Cabe deixar claro que a família embora conviva com eternas mudanças necessita de um ambiente afetuoso para a solidificação saudável da personalidade dos seus filhos (GRANDO; KATZWINKEL; BRAZ, 2012, p. 07).

Kehl (2003) coloca como um contraponto a essa relação, a cultura do individualismo, onde o adulto, seja pai ou mãe, busca suas realizações pessoais abrindo mão desses cuidados fundamentais ao desenvolvimento do bebê. A criança, segundo a autora, ocupa um lugar de realização dos pais, ou seja, é uma forma de gozo, porém, o risco e a responsabilidade que à função parental exige destes pais é passada para outras formas de atenção e cuidados, o que nem sempre é suficiente. Ainda segundo seu texto, A gravidez e o vazio (2000), os pais não se sentem no direito de repreender o comportamento mal educado dos filhos, porque eles nasceram pra levar vantagem em tudo.

Os filhos além de retratar uma realização dos pais, representam uma juventude que se sente convocada a realizar os desejos dos mesmos. Desejos estes, que não foram realizados em virtude dos interditos de suas respectivas épocas. Entretanto, os filhos atualmente já não sabem o que fazer com tanta liberdade e poder. Os desejos da criança/adolescente se confundem no desejo dos seus pais e, dessa forma, reproduz-se “uma nova geração de crianças hiper investidas, condenadas ao vazio de quem veio ao mundo apenas para preencher o vazio de quem as concebeu” (KEHL, 2000, p. 03).

Ao mesmo tempo em que os adultos que assumem a função parental, perdem a posição de autoridade, e responsável pela criança, compromete a inclusão da lei na subjetividade do sujeito e nas suas relações com o mundo. É comum na contemporaneidade, perceber através das propagandas e merchandising, os novos modelos familiares despontando numa nova proposta de relacionamento, que parecem nos induzir a um nivelamento nas relações, onde todos exercem “direitos” iguais. Assim, crianças e adultos não se diferenciam mais, seja pela maturidade e responsabilidades atribuídas a cada faixa etária, seja pela horizontalização das relações predominante nos modelos familiares atuais.

5. A alteridade na família contemporânea

Enfatizaremos aqui, a alteridade como o reconhecimento do Outro no mesmo universo, noções de limites e, além disso, o reconhecimento do Eu- indivíduo. Esse conceito é visto nas teorias psicanalíticas como fundamental para estruturação da personalidade infantil, principalmente, através do complexo de castração. É a partir deste “corte”, que se rompe a onipotência do bebê e, é nessa condição de limite que ele se constitui como sujeito. A função que é atribuída à figura materna, é a de apresentação do grande Outro, que na leitura lacaniana, se configura como o lugar ocupado pela figura paterna. Diante disto, é imprescindível que consideremos o que Zoring (2008, p.95) traz, quando refere que, “a importância da mãe é vital no inicio da vida, pois é por intermédio de seus cuidados, efetuado de maneira contínua e uniforme, que o bebê passa a conhecer o mundo”.

A Mãe como o objeto primordial, apresenta ao bebê o Nome-do-Pai e este através da função paterna instaura a Lei. Isso não define a mãe como única responsável pela função parental, mas, para que o pai entre nessa relação mãe/bebê, é necessário que a mãe o nomeie para esta função. Esta nomeação ou complexo de castração pode ser considerado um dos eventos importantes que inscreve a alteridade na subjetividade da criança,

E a partir daí ocorrerá à renúncia ao narcisismo primário, em função dos valores culturais aceitos e outros processos de perdas e de limites marcados por movimentos pulsionais e identificatórios. (XAVIER; FERREIRA; PARAVIDINI, 2011, P. 48).

Para dar continuidade a este tópico sobre a alteridade como forma de limite, de interdito, assim como um universo compartilhado, fundamentamo- nos, dentre outros textos, em Totem e Tabu (FREUD, 2013), visto que o texto em questão nos dá subsídios para entendermos o que é determinante para o processo civilizatório, como as proibições e as punições, isto é, os interditos necessários à civilização, os quais aparecem fragilizados na contemporaneidade.

No texto de Freud, Totem e Tabu, publicado em 1913, podemos identificar o quão importante foi e ainda é em algumas culturas, um referencial que represente uma família, uma comunidade, ou uma nação. E o quanto é indispensável, os interditos e proibições como impulso, inclusive à “civilização” e a ordem.

Totem e Tabu são termos primitivos que orientavam o homem em sua maneira de viver; uma forma que as antigas civilizações encontravam para definir o proibido e o não proibido, a obediência e a punição à desobediência. Uma das normas era que os “membros do mesmo Totem, não podem ter relações sexuais entre si, ou seja, também não podem se casar” (FREUD, 2013, p. 10). Ao transgredir essa Lei o membro daquele Totem era punido e assim foi se instalando a civilidade e a ordem por meio dos Tabus. Desde os primórdios, percebe-se a necessidade de uma autoridade que represente o limite, a hierarquia etc.. O Tabu surgiu para categorizar o que era proibido e o que era admissível frente ao Totemismo. Ao trazermos esse conceito para os dias atuais, buscamos refletir acerca de quem é o “Totem” nos novos modelos de família e o que representa o Tabu, numa cultura que nos incita transgredir, possuir, gozar sem que haja interditos efetivando essa noção de limite.

Segundo Kehl (2000), até poucas décadas atrás a adolescência era marcada por condições culturais que de certa forma, definia a dependência infanto-juvenil em relação aos pais, a entrada no mercado de trabalho e coincidentemente, adiava suas experiências sexuais impostas pelo tabu da virgindade. Hoje esses meninos e meninas desfrutam de liberdade sexual e muitas outras experiências, entretanto, no plano legal e profissional eles continuam na condição de criança. Isso é sem dúvida uma retratação do quanto foi perdida a simetria que delimitam aos pais e filhos, os seus respectivos lugares. A criança e o adolescente são “livres” no momento de experimentar toda forma de gozo, entretanto, no plano legal, são “imaturos” para assumir as conseqüências de seus atos. Percebe-se assim, o quanto a noção de limites ou punição está precária no campo familiar.

As mudanças ocorridas neste contexto estão atreladas à história e acontecem de maneira quase imperceptível, de modo que a família frente as insatisfações e, até mesmo por certa culpa, manifestam um discurso saudoso aos referirem-se aos antigos modelos familiares. Modelo estes que em pleno apogeu, diz Kehl, (2001), foi onde Freud percebeu em maior quantidade, manifestações e sofrimentos psíquicos como a Histeria, a neurose obsessiva entre outras que marcava o sujeito da época. O que se pode perceber com isto, é que em toda época a família conviveu com queixas e mudanças e se a falta de limite preocupa a família contemporânea, o seu excesso no século XIX patologizou a família moderna, cultuada pela hierarquia paterna e estrutura tradicional.

Diante do exposto, podemos inferir que a contemporaneidade aparece marcada por uma cultura narcísica, de interesses particulares, onde a alteridade se apresenta de maneira precária. Os vínculos afetivos são efêmeros, prevalecendo “o poder, e o ter” como um ideal de existência, que “vale tudo” para alcançar, sejam quais forem os desejos. Tendo em vista a fragilização da função parental que culmina na precária noção de alteridade, o respeito e o limite, já não são vistos como fator importante às relações saudáveis, tornando-se assim inviável, cobrar das crianças e adolescentes, a obediência que elas desconhecem e um limite, o qual não foi colocado pelo adulto a quem foi conferido à função parental.

6. A função parental na contemporaneidade

A função parental refere-se aos cuidados e sustentação psíquica, empregado à criança e ao adolescente pelo adulto. Neste capítulo, pretendemos articular a necessidade do trabalho fora do lar, às exigências da função parental. Discorreremos sobre a importância da mãe no exercício desta função, não como única detentora desta responsabilidade, mas, como a figura que mais modificou sua rotina nos últimos séculos.

Tentaremos articular a dificuldade surgida na contemporaneidade quanto ao exercício da função parental, ao individualismo encontrado nos dias atuais. Para tal diálogo, recorreremos a Postman (1999), por sua teoria da evolução social. Para o autor, podemos pensar que a manifestação individualista familiar e, por conseguinte, social, vem submergindo historicamente e se firmando como uma nova forma de existir. Ao escrever sobre a evolução social após o surgimento da prensa tipográfica (impressão dos livros e a leitura individual) no século XV, Postman (1999), faz uma alusão ao enclausuramento do sujeito:

“A oralidade emudeceu e o leitor e sua reação ficaram separados de um contexto social. O leitor enclausurou-se em sua própria mente e, desde o século dezesseis até o presente, o que a maioria dos leitores exigiu dos outros foi a sua ausência ou, se não isto, o seu silêncio.” (POSTMAN, 1999, p. 41).

Ao contemplar o texto de Postman, estamos associando a tecnologia do século XV à tecnologia contemporânea e ao individualismo. Um individualismo que outrora se apresentava de forma parcial e que hoje ocupa um espaço cada vez maior; que a nosso ver, decorre de toda uma evolução tecnológica, dificultando por vezes, o diálogo entre os sujeitos e repercutindo nas relações familiares e sociais. Com relação à criança, o individualismo se mostra mais claro quando ela se enclausura no seu quarto, frente a um computador, não permitindo ser incomodada sequer, por pais ou cuidadores. Daí, Postman (1999) referir ser esse o legado que herdamos do século XV.

Ainda que nos dias de hoje as novas tecnologias tenham transformado o mundo em uma aldeia global, o que de um lado nos trouxe muitos benefícios, facilitou por outro, a individualização. No caso da família, muito do tempo frente a um computador ou a uma televisão, por exemplo, poderia ser utilizado com um lazer presencial, favorecendo as brincadeiras e fortalecendo os vínculos entre pais e filhos que ao que parece, aos poucos está se perdendo.

As crianças são monitoradas por babá eletrônica e agendas escolares, porque os pais precisam trabalhar para atender as necessidades que o capitalismo e o consumismo exigem. O que se fez, ao custo da abdicação das funções parentais, foi terceirizar os cuidados domésticos, incluindo os cuidados com os filhos. Esta foi à solução encontrada por alguns pais contemporâneos. Deste modo, as funções parentais foram substituídas por outros adultos da família, babá, escolas, etc. O que contribuiu para o distanciamento e o enfraquecimento das relações afetivas entre pais e filhos e, no sentido de compensar essa ausência, os pais tendem a realizar todos os desejos dos filhos. Para Kehl (2000), os pais se sentem desautorizados a conter o excesso dos filhos.

Nesse percurso, lembramo-nos do ensinamento de Winnicott, ao referir, que a necessidade da criança precisa ser saciada, mas, de forma adequada. Ao teorizar sobre mãe suficientemente boa, ele coloca a necessidade e importância da falta como constitutiva do sujeito. Assim, se utilizarmos o mesmo raciocínio, o atendimento a todos os desejos das crianças e adolescentes não substituiria as funções parentais, que vão além dessas realizações. Do mesmo modo, a simples presença dos pais não garantiria o bom exercício dessa função, pois, como refere VITORELLO (2011, p.11),

“A presença do pai e da mãe não garante o desempenho da função paterna e materna, há famílias "monoparentais" nas quais a mãe  vive sozinha com os filhos e as funções estão instaladas, via desejo materno”.

Vitorello (2011), reforça nesta perspectiva, que a função parental, embora complexa, pode ser exercida satisfatoriamente pelo desejo de quem a assume, ou seja, a mãe pode ter dado à luz, mas, se não desejar ou poder assumir esta função, não atenderá adequadamente às necessidades do bebê.

Figueiredo (2007) chama a atenção à importância que deve ser conferida ao que concerne o espaço potencial, cujo papel, é promover ao bebê a instalação da confiança primária, fator fundamental que possibilita o desenvolver criativo. Para o autor, esta confiança primária dará subsídios para o bebê enquanto sujeito em seu desenvolvimento e uma maior autonomia e responsabilidade ao longo da sua existência. Afirma ainda, que este espaço é promovido também pela função parental, endossando a importância do adulto à constituição do sujeito. Para Winnicott (2001), a união do lar é um espaço potencial que sustenta a instalação da confiança, repercutindo na formação psíquica do sujeito, o que o leva a se identificar e se diferenciar do outro.

Para finalizar, discutiremos como a função materna, sendo objeto primordial no universo do filho, vem se realizando diante da grande necessidade de permanecer no mercado de trabalho, e os desdobramentos da figura materna para suprir a demanda da maternagem na contemporaneidade.

Diante de uma cultura narcísica, onde todos buscam a realização dos seus projetos pessoais, a função materna muitas vezes fica em um segundo plano. Em alguns casos, ter um filho representa mais um projeto de realização pessoal, assim, assumir a função materna, nem sempre está associada à realização do ter filho (Kehl, 2000). Neste ponto de vista, a autora se refere às mães adolescentes que não tem maturidade para assumir a maternagem, que ainda não sabem o que fazer com um bebê que tem suas necessidades o tempo todo, solicitando satisfação, diferente de uma boneca. Neste mesmo contexto, afirma a autora, há meninas que engravidam para ser mãe dos seus próprios filhos, uma vez que, já não querem mais, assumir a responsabilidade de suas mães, ou seja, exercer os cuidados terceirizados que em  alguns casos, é assumido pelos filhos mais velhos. Por este viés, essas mudanças e terceirização de cuidados na família contemporânea, têm suas implicações na criança cuidada e na criança/adolescente cuidadora.

No momento em que se ver na função de mãe, a mulher procura atender com eficácia, ao filho, a família, a sociedade e a si mesma. Segundo Kehl (2001), o abandono que atinge a criança no seu desenvolvimento, nem sempre é a negação do cuidado parental e afeto, mas o receio de errar com a mesma, de correr o risco que exige a referida função. Assim, a mãe recorre a outros saberes, porque não sabe, por exemplo, em que momento nem de que forma tirar o uso da fralda da criança, ou porque não quer frustrar uma criança que já passa muito tempo do seu dia sem os pais etc. Diante do impasse de satisfazer ou frustrar a criança, muitos pais, principalmente a mãe, deixa de reconhecer sua autoridade e responsabilidade frente ao filho e não significa dizer que se trata de um desamparo afetivo, mas, do receio de se impor e falhar.

Estas são características comuns na função materna nos dias atuais. Mulheres que desenvolvem uma elasticidade para manter a identificação com a maternagem, herança das mulheres do século XIX e ao mesmo tempo ocupar outros espaços conquistados ao longo das gerações, entre eles, o espaço público, os “direitos iguais” frente ao masculino, que, segundo Fernandes (2006), foi na verdade um acúmulo de projetos e afazeres que foi agregado ao que já era delegado à mulher pela cultura de outras épocas.

Neste capítulo enfatizamos a mulher como a figura que mais sofreu mudanças desde o século XIX até os dias atuais, que, embora seja referida como fundamental na constituição do sujeito, não é apenas a mãe que definirá a personalidade do filho, mas o exercício suficientemente bom que se estabelecerá entre o (a) cuidador(a) e o bebê.

7. Considerações Finais

Com esse estudo, visamos compreender a fragilização nas funções parentais, sua ocorrência ao longo dos anos e os impactos desta, na subjetividade infanto-juvenil. A pesquisa nos levou a pensar no distanciamento da função parental na contemporaneidade, e na construção da subjetividade, fundada a partir da relação com o outro. Assim, a falta de limites dos filhos, a desobediência e os conflitos que se instalam na “instituição família”, a nosso ver, é resultante das mutações advindas dos processos culturais, históricos e sociais.

As revoluções sociais, o declínio da família patriarcal e o avanço tecnológico impulsionaram essas mudanças, culminando inexoravelmente na fragilização da função parental, as quais foram referidas no decorrer do trabalho. Pudemos constatar que, na medida em que os pais ou os cuidadores se ausentavam de suas funções, estendiam a outros suas responsabilidades, nem sempre a contento quanto à tarefa de educar e formar filhos para o mundo.

Vimos ainda, a horizontalização regendo nossa cultura ocidental alterando as novas formas do relacionamento entre pais e filhos; diferente da então predominante família patriarcal, submetida a hierarquia e a verticalização. O novo modelo de relação familiar iniciou-se com a perda da hegemonia da igreja enquanto representante divino e do valor do Pai, ao ter sua legitimidade questionada com o surgimento da ciência. Em razão disto, entendemos que há uma grande influência dos fatos históricos sociais se implicando nessa desordem da família contemporânea. O avanço tecnológico e o ingresso de pais e mães no mercado de trabalho geraram uma economia de cuidados às crianças, e a tecnologia ocupou um espaço que antes era preenchido por atividades e brincadeiras infantis entre os familiares que facilitava a convivência, as relações com o outro, as delimitações de espaço, etc.

Neste estudo, deparamo-nos com teorias que nos surpreenderam, como por exemplo, o conceito de Postman de “enclausuramento do leitor” (sujeito), onde refere o individualismo no século XV despontando com a evolução tecnológica e que hoje opera contra a alteridade no âmbito familiar.

A proposta deste trabalho não é buscar os culpados pelas mudanças quanto às dificuldades encontradas por alguns pais na sustentação dos filhos, visto que, ao nosso entendimento são inevitáveis pelo próprio contexto histórico social. Portanto, o que almejamos, foi refletir sobre as responsabilidades que nos cabe, frente a tal contexto. Ainda que não haja um fator determinante para a fragilização que acomete a família em todos os níveis e classes, aprendemos que as funções parentais estão envolvidas pelos fatores sócio-histórico- culturais, e isto interfere positiva ou negativamente na constituição sócio afetiva dos filhos.

Sabe-se que a criança se vê através do adulto, que o referenda como sujeito; cabe então pensar que os pais na atualidade se veem diante de um impasse: frustrar a criança para que possa continuar de forma saudável seu percurso subjetivo, mesmo ao preço de toda culpabilidade por sua ausência, ou mitigar a falta dando-lhe tudo para compensá-lo.

Remetemos-nos às dificuldades que os pais sentem no momento de dizer não aos filhos, pois, à medida que essa lei simbólica não se instala subjetivamente, o filho futuramente terá dificuldades ao se deparar com a Lei real, entrando em conflito com o social.

Esperamos que essa discussão possa contribuir com a compreensão que precisamos edificar em relação à família, não no sentido de categorizá-la, mas principalmente de compreendê-la no lugar onde ela se encontra atualmente. Que outras pesquisas sejam desenvolvidas e ultrapasse os muros acadêmicos, no intento de melhor acolher essa demanda que surge na clínica psicológica, na Instituição escolar, que entra cada vez mais cedo no mundo infanto-juvenil, na organização de trabalho, que é onde se encontra um número significativo de pais que abriu mão de estar com os filhos pela necessidade de trabalhar fora, dificultando o exercício de suas funções parentais. Pois, ao falarmos da constituição psíquica do sujeito, através da relação com o outro, estamos falando de um tema amplo e complexo, que não se restringe apenas ao sujeito, mas, a todo contexto no qual este está inserido.

Ao finalizar, parafraseamos Maria Rita Kehl, que ao escrever sobre o lugar do feminino e do masculino na família, nos incita a “desidealizar” a família do século XIX como modelo que produz conforto psíquico e boa formação a criança, pois esta família estruturada e estável, cultuada pelo poder patriarcal, produziu a histeria e a neurose obsessiva como sintomas emergentes do mal- estar do referido século. Assim, vale ressaltar que é possível, na família monoparental, homoafetiva, nuclear ou tentacular, construir o ambiente saudável e o espaço potencial que Winnicott referiu nas suas teorias.

Sobre o Autor:

Marlucia dos Santos Souza - graduada em psicologia clínica analítica, pós graduanda em Saúde Pública, saúde mental e dependência química, pela Faculdade de Ciências Humanas - ESUDA

Trabalho orientado por: Sheyla Speck: Doutora em psicologia clínica pela Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP

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