A Rotina Cotidiana como Símbolo Sagrado: O Mito de Sífiso

A Rotina Cotidiana como Símbolo Sagrado: O Mito de Sífiso
(Tempo de leitura: 8 - 16 minutos)

Resumo: O presente artigo tem caráter reflexivo unindo psicologia e cotidiano. O método utilizado pautou-se pela pesquisa bibliográfica. Tem por objetivo relacionar o Mito de Sífiso com a rotina cotidiana. Ela [rotina] sendo um cosmos da vida do humano, que na tentativa de organizá-la, recupera a cosmogonia [criação] dos deuses, portanto, torna-se símbolo sagrado na medida em que lhe confere significado a partir da repetição do rito que se apresenta em um recomeçar sucessivo dentro dos limites de seu condicionamento humano, em que escolhe ceder ou resistir. Sífiso é arquétipo da sociedade e da humanidade que carrega a pedra da rotina e confere-lhe sentido dentro da óptica de um novo começo para seguir em frente e continuar a existir no tempo e na sacralidade da rotina.  A superação do Mito se dará na conscientização de que o ser humano é caminhante no tempo, não é determinista e sim alguém que escolheu fazer o seu próprio caminho indagando-se pela sua existencialidade e as razões pelas quais fez o que se fez e não fez o que poderia ter realizado.      

Palavras-chave: Mito, Rotina, Sagrado.

1. Introdução

A rotina estabelecida no cotidiano encontra-se inserida na dimensão de temporalidade, na qual situa-se o ser humano, a sua história, seu projeto de existência; sendo onde o mesmo organiza o seu modo de ser e existir em um cosmo específico que pode-se denominar: rotina. Ela é símbolo sagrado, pois na tentativa do ser humano em reproduzir o mundo no seu cotidiano, recupera o cosmo dos deuses. Os gregos acreditavam que o mundo criado (cosmogonia) pelos deuses poderia ser reproduzido através da ação do ser humano na medida que este organiza o espaço em que habita. Na ação de organização é, portanto, recuperada e atualizada a ação dos deuses no princípio criador do cosmos.  

A rotina cotidiana de nossa sociedade tem um mito que a sustenta, e na qual a humanidade encontra um arquétipo: Sífiso. Esse assume o seu passado, vivendo um presente carente de sentido, e um futuro por vezes desprovido de esperança em uma práxis que não permite-lhe a mudança assim como explorar o caos, sendo esse a possibilidade da criativa para os gregos.      

Sífiso funciona como arquétipo (arché = princípio, matriz, modelo. Termo criado por JUNG [01]) da humanidade. No pensamento de Feist (2015) os Arquétipos são:

Tendências inatas da vida mental (estrutura da personalidade), herdadas, armazenadas no inconsciente coletivo que levam o indivíduo a comportar-se de forma semelhante aos ancestrais que passaram por situações similares. Os conteúdos do inconsciente coletivo não estão adormecidos, mas são ativos e influenciam os pensamentos, as emoções e as ações de uma pessoa (FEIST, 2015, p.73).

Caracteriza-se por ser arquétipo, a experiência que o Ser Humano vivencia como universal presente em diferentes culturas e provenientes de seus ancestrais. Portanto, Sífiso torna-se modelo para a humanidade e sociedade, pois a experiência de “carregar algo” é universal e aprendida dos ancestrais. Nesse caso, esse “algo que carrega” é a pedra da rotina na qual procura conferir-lhe um sentido ao seu modo de proceder. Ao mudar o modo de agir, o como recria-se e permite-se ao caos; recomeça, aprende a desfrutar da rotina cotidiana com leveza. Deste modo, cumpre com o seu objetivo: carregar a pedra, conferindo-lhe sentido de continuar a viver.

Esse mito e arquétipo justifica a escolha da temática, pois encontramos em nossa sociedade, bem como em nossa humanidade, o desejo e o esforço em manter-se vivo dentro de uma rotina que num primeiro momento pode aparentar impossível ser mudada. Resta então dar razões para a sua práxis, a fim de garantir sentido para permanecer vivo, enquanto pergunta-se: O porquê se faz o que está fazendo? E para que serve o que se faz?  

Este artigo tem por objetivo uma reflexão a partir da psicologia, unida ao cotidiano através da temática da rotina, como automatização da vida humana relacionada com o Mito de Sífiso. Ela (rotina) apresenta-se como sendo um cosmos da vida do humano, que na tentativa de organizá-la, acaba por recuperar a criação (cosmogonia) dos deuses, e por isso torna-se símbolo sagrado. Optou-se intencionalmente pela metodologia de pesquisa bibliográfica para o desenvolvimento do tema.

2. O Mito de Sífiso

Sísifo, rei da Tessália e de Enarete, era o filho de Éolo. Fundador da cidade de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto, e também dos jogos de Ístmia (ou Ístmicos). Sísifo tinha a reputação de ser o mais habilidoso e esperto dos homens e por esta razão dizia-se que era pai de Ulisses. Sísifo despertou a ira de Zeus quando contou ao deus dos rios, Asopo, que Zeus tinha sequestrado a sua filha Egina. Zeus mandou o deus da morte, Tanatos, perseguir Sísifo, mas este conseguiu enganá-lo e prender Tanatos. A prisão de Tanatos impedia que os mortos pudessem alcançar o Reino das Trevas, tendo sido necessário que fosse libertado por Ares.Foi então que Sísifo, não podendo escapar ao seu destino de morte, instruiu a sua mulher a não lhe prestar exéquias fúnebres. Quando chegou ao mundo dos mortos, queixou-se a Hades, soberano do reino das sombras, da negligência da sua mulher e pediu-lhe para voltar ao mundo dos vivos apenas por um curto período, para a castigar. Hades deu-lhe permissão para regressar, mas quando Sísifo voltou ao mundo dos vivos, não quis mais voltar ao mundo dos mortos. Hermes, o deus mensageiro e condutor das almas para o Além, decidiu então castigá-lo pessoalmente, infligindo-lhe um duro castigo, pior do que a morte. Sísifo foi condenado para todo o sempre a empurrar uma pedra até ao cimo de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Este processo seria sempre repetido até à eternidade (BRANDÃO, 2009, p.34)

O mito é uma narrativa de como o mundo veio a existir; a origem do ser humano e de sua busca, que surge na realidade em tentativa de dar resposta a uma existência, da necessidade de compreender-se em sua finitude e transcendência dentro de uma dimensão específica. Assim como, a temporalidade, sua visão do cosmo e sua organização dentro dele, procurando saber de onde veio e para onde encaminhar seu existir:

O mito desempenha um papel importante: ele revela como uma realidade veio à existência. O mito cosmogônico serve de modelo arquetípico para todas as “criações”, seja qual for o plano em que elas se desenrolem: biológico, psicológico, espiritual (ELIADE, 1992, p.44).

Contar o mito, é fazer a narrativa de uma história sagrada de como as coisas passaram a existir. Segundo Eliade (1992):

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério pois as personagens do mito não são seres humanos: são deuses ou heróis civilizadores. [...] O mito é pois história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou seres divinos fizeram no começo do Tempo. [...] é solidário da ontologia: só fala das realidades, do que aconteceu realmente, do que se manifestou plenamente (ELIADE, 1992, p.50-51).

O Mito de Sífiso, para a atualidade, expressa bem a condição do ser humano que retoma sua história de origem, seu passado, assumindo-o, muitas vezes, como “pedra” que pesa, considerando parcialmente como uma condenação a ser aceita e que impede-lhe de viver o presente com satisfação e projetar um futuro, pois sente-se preso ao passado do qual se apropriou. É parcial, pois o seu passado não é somente condenação, mas utiliza-se dele como forma de segurança, porque tem com ele uma familiaridade, e isso faz com que desenvolva uma atitude de conservação diante do presente, mantendo-se nas estruturas adquiridas (físicas, psíquicas). E assim, dificulta a mudança, pois essa, devido ao medo, gera a insegurança e desorganiza o seu cosmo em um futuro incerto.

Na tensão entre um passado conhecido para um futuro incerto, o ser humano prefere viver um presente condicionado por esse passado estruturado e desenvolve um ritual no comportamento o qual podemos denominar de repetição: de ideias, de hábitos, de costumes, de relacionamentos (com as pessoas, com a natureza, consigo, com o Transcendente), e de organizar o seu cosmo cotidiano. O símbolo que bem expressa essa forma de compreender-se e viver no mundo, tendo o Mito de Sífiso como plano de base, é a rotina estabelecida no cotidiano “ter que rolar a pedra até a montanha todos os dias, até a eternidade”.

Outro ponto que o Mito ajuda a discutir, é aceitação da finitude. Na narrativa faz a tentativa de enganar a morte, representada na mitologia pelo deus Hades (deus do fogo). Essa atitude de Sífiso para enganar Hades constitui a realidade existencial na humanidade que, na morte, entrega uma dimensão de sua corporalidade: a orgânica. Sendo que outra dimensão, o espírito, continua a lutar para viver, pois isso significa dar um sentido à existência, em transcender o seu próprio sentido, afinal “mesmo o sentido da vida sendo modificado pela morte não deixa de existir [...] O Ser humano está pronto até mesmo para sofrer, desde que este tenha um sentido (FRANKL, 2008, p.137)”. Focaremos nossa discussão não na finitude, e sim acerca da relação do Mito com a rotina como símbolo sagrado.

3. A Rotina Cotidiana: Símbolo Sagrado

Antes de tratar da rotina como símbolo sagrado, tomaremos uma definição do que significa esse termo. Segundo o Dicionário on-line Michaelis:

[...] rotina corresponde ao caminho habitualmente seguido, sabido ou trilhado; hábito de fazer as coisas sempre da mesma maneira, maquinal ou inconscientemente, pela prática, imitação, e se opõe a inovação ou progresso relutando ao novo e permanecendo com espírito conservador.    

Essa definição demonstra o que é próprio do humano, em sua natureza, seguir o que já é conhecido, pois lhe é familiar, garante segurança e o domínio pelo que lhe é conhecido e está acontecendo consigo, em seu cosmo. Esse domínio revela apontando o que é próprio do mundo dos deuses, o poder. O humano apropria-se dessa capacidade dos deuses, pois ele é criado à sua imagem. É pelo fato de estar instituído de poder que capacita ao ser humano decidir, criar o cosmo, organizá-lo. Por esse motivo, sente-se favorecido a tramar guerras, cometer violências, permitindo a desigualdade e as injustiças, desse modo, reproduzindo o mundo mítico dos deuses na rotina cotidiana.   

A rotina que representa o cosmo do ser humano, sua capacidade de se instalar num determinado espaço, organizá-lo, e nessa organização, dar respostas à sua existência procurando relacionar-se com os outros, consigo e com o transcendente e compreender-se nela. A rotina não como algo monótono, e sim como possibilidade de organização de um cosmo, da atividade a ser executada. Na compreensão de Cortella (2016, p.39-40) “a rotina não é sinônimo de monotonia. O que faz com que haja um enfado em relação ao cotidiano é a monotonia, não a rotina. A rotina permite a organização da atividade e, portanto, a utilização inteligente do tempo. A rotina garante maior eficácia e segurança naquilo que se faz. [...] a monotonia que é a morte da motivação”.

Segundo Eliade (1992, p.23) “[...] organizando um espaço é reiterar-se à obra exemplar dos deuses (a “cosmogonia”, fundação do cosmos). Instalar-se num território equivale a consagrá-lo”. Por isso, torna-se símbolo sagrado, pois recupera a cosmogonia que acontece na dimensão de temporalidade, que por sua vez, torna-se sacro, no cosmo que é a rotina cotidiana, o lugar habitual conhecido e comum consagrado através de um rito de repetição.

Esse ritual de repetição da rotina do cotidiano pode ser expresso por meio de forma geométrica gráfica, o círculo, que representa o infinito. O voltar sobre si incondicionalmente, pois no seu início não está um fim e sim um começo que liga um fim a um outro começo. É um eterno recomeçar a rolar a pedra que é representada no Mito.

Sífiso foi condenado pelos deuses a rolar a pedra eternamente, mas não menciona sobre o modo de como deve levá-la até a montanha para cumprir com seu objetivo. Isso pode significar que mesmo que não se tenha a força necessária para se modificar a rotina (o objetivo, o cosmo) devido a fatores que não dependem da decisão da pessoa, pode-se decidir pelo modo de como enfrentá-la, se cede ou a resiste, e esse modo “do como” torna possível a pessoa dentro de sua habitual rotina viver outras experiências. Pode-se fazer o mesmo caminho concedendo-lhe a oportunidade de vislumbrar a mesma paisagem a partir de outra óptica de compreensão, do seu cosmo a que lhe é comum.

Ao ser condenado a “rolar a pedra”, significa que não lhe foi permitido decidir, mas Sífiso permitiu-se diante disso, escolher a dar sentido ao que faz através do modo a ser realizado, isso lhe foi possível. No modo está o sentido, encontramos o espírito, pois para quem tem um porquê viver, suporta a tensão e o que lhe é considerado insuportável, pois “o Ser humano, realmente não precisa de um estado livre de tensão, mas antes a luta por um objetivo que valha a pena, o desafio de um sentido em potencial à espera de seu cumprimento” (FRANKL, 2008, p.130).

A rotina cotidiana de Sífíso é o arquétipo pelo qual pode-se identificar boa parte da humanidade, levada a assumir o seu passado, vivendo um presente carente de sentido, morto, e um futuro por vezes desprovido de esperança, do dever voltar ao eterno recomeço. Essa é a imagem de uma humanidade que vive em uma rotina, que não permite-se a mudar a óptica pela qual compreende-se no mundo e organiza seu cosmo, não permitindo-se entrar no caos.

Todos aqueles que olham sempre para a mesma direção, que teimam em ser, fazer e falar sempre e da mesma maneira perdem a oportunidade de experimentar realidades completamente novas e belas, porque, acomodados no lugar ordinário, esquecem que o extraordinário estava sorrindo logo ali, ao seu lado (ROSSI, 2008, p.72).

Há outra parte que também se identifica com Sífiso, que ao carregar a pedra da rotina confere-lhe um sentido a sua causa, à sua vida. Ele carrega a pedra da rotina, mudando o modo, assim recria-se e permite-se ao caos, vê em cada recomeço o que de significativo aprendeu, podendo desfrutar da rotina cotidiana com leveza. Cumpre com o objetivo: carregar a pedra conferindo-lhe o sentido de continuar a viver.

Essa foi a estratégia utilizada por Sífiso diante de uma situação existencial impossível de mudar: a morte. Encontrar diante dela um sentido para continuar a viver, pois o seu espírito assim o quer. Carregar a pedra ao alto da montanha e sentir-se vivo, é tarefa específica sua e nela não pode ser substituído, é sua responsabilidade em realizar o sentido para qual sua vida veio a origem no cosmo.

“Ao declarar que o Ser Humano é uma criatura responsável e precisa realizar o sentido potencial de sua vida, quero salientar que o verdadeiro sentido da vida deve ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa, ou de sua psique, como se fosse um sistema fechado” (FRANKL, 2008, 135).

Buscar realizar esse sentido para qual veio ao mundo é uma característica da existência humana, é o seu autotranscender.

4. Considerações Finais

Esta proposta de temática aponta a possibilidade de uma releitura da vida sob o aspecto da rotina, como lugar em que se organiza o caos, integra as experiências recolhidas em torno da existência, da dialética de um presente que conhece o passado e um futuro que ainda não é, mas de alguma forma se faz no presente.

Empurrar a “pedra da rotina” simbolizada no Mito, é a expressão de um ser humano que faz a tentativa de recuperar o tempo que passa, que é irrecuperável pelo fato de ser passado, a fim de tentar salvá-lo, pois desse modo busca resgatar-se a si mesmo, conferindo-lhe significado ao que se realizou e está por realizar, ainda que no ritual de repetir um novo começo: pois no princípio há vida, e onde há vida, há esperança.

Iniciar uma rotina em um novo dia, mesmo que sendo algo semelhante e havendo um começo já vivenciado ergue-se, a possibilidade de suportar melhor as situações difíceis a partir da óptica do novo, pois para empurrar a pedra ao topo da montanha há de existir um início, um novo começo, um sentido para seguir em frente e continuar a existir, permanecer na historicidade e na sacralidade da rotina.

A superação do Mito se dará na conscientização de que o ser humano é caminhante no tempo, sobe e desce montanhas, não é determinista e sim alguém que escolheu fazer o seu próprio caminho indagando-se pela sua existencialidade e as razões pelas quais fez o que se fez e não fez o que poderia ter realizado.

Sobre o Autor:

 Ricardo Demenech Fermo - Graduado em Teologia (Unilasalle Canoas/RS); Pós-graduando em Psicopedagogia do Acompanhamento Formativo (Transcender, São Paulo/SP) e graduando em Psicologia (IMED/Passo Fundo, RS). 

Referências:

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, 2009.

Definição de Rotina. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/definicao/rotina%20_1039288.html> acessado em 14 de agosto de 2017. Dicionário on-line.

CORTELLA, Mario Sergio. Por que fazemos o que fazemos? Aflições vitais sobre o trabalho, carreira e realização. 2ª ed. São Paulo: Planeta, 2016.  

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

FEIST, Jess. Teorias da Personalidade. 8ª Ed. Porto Alegre: Artemed, 2015.

FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. Ed. São Leopoldo:Sinodal; Petrópolis, Vozes: 2008.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. V. 9/1. Ed. 11ª. Petrópolis: Vozes, 2014. P.12-14. art.4-7;

ROSSI, Luiz A. Solano. Reencantar a vida. São Paulo: Paulus, 2008.

Mito Sífiso. Disponível em: <http://www.infopedia.pt/$mito-de-sisifo> acessado em 14 de agosto de 2017.