Adolescência e Vida Contemporânea: uma Relação entre Limite e Identidade

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1. Introdução

O presente trabalho expõe como tema a relação entre o funcionamento de nossa sociedade contemporânea e a adolescência, no que diz respeito à ausência de limites e à formação da identidade, tendo como objeto delimitado a Psicanálise, e apresentando como problema de pesquisa a seguinte pergunta: De que modo o funcionamento da sociedade contemporânea tem influenciado no desenvolvimento do adolescente, no que se refere à formação da identidade, diante da ausência de limites?

O sujeito da Psicanálise é o sujeito moderno, sendo ele encarnado em suas circunstâncias. Esse ser humano está completamente implicado na cultura e inscrito sob coordenadas de um certo período histórico, observa Kehl (1998).

Birman (2001), ao falar das crises da atualidade, elenca a Psicanálise como caminho fundamental à compreensão da maneira como o desamparo humano, provocado pelo fim das utopias, aumentou significativamente o desespero e a constante busca por soluções que tragam alívio rápido às individualidades.

Sobre a adolescência, destacamos, à luz de Aberastury (1981), que esse é um período do desenvolvimento marcado por conflitos característicos, acompanhados de questões importantes a serem solucionadas e superadas, como é o caso dos lutos vivenciados pelo adolescente, devido à perda do corpo infantil, que passa a tomar formas adultas durante a puberdade, o luto pela identidade/status de criança e a perda dos pais da infância.

Quanto ao papel da Psicologia, veremos como ela pode intervir nos diversos contextos em que o adolescente está inserido, visando auxiliá-lo, bem como a sua família a superar as dificuldades presentes nessa fase.

Diante dessas reflexões, foram definidas as seguintes questões norteadoras: Qual a relação presente entre o funcionamento da sociedade contemporânea e a ausência de limites? Como se expressam os conflitos existentes na vida do adolescente contemporâneo e sua relação com a dificuldade de reconhecimento do lugar da autoridade? Como o psicólogo pode intervir nos diversos contextos em que o adolescente está inserido?

O objetivo geral definido foi: compreender a relação existente entre as exigências contemporâneas e o funcionamento dos adolescentes inseridos em nossa cultura. E os específicos: analisar o modelo de funcionamento da sociedade contemporânea e sua relação com a ausência de limites; compreender os principais conflitos presentes no desenvolvimento do adolescente de nossa cultura, sobretudo quanto à formação de uma identidade; compreender as possibilidades de intervenção da Psicologia.

Por fim, discriminamos as partes constituintes deste trabalho que se divide em três capítulos, sendo: 1. A contemporaneidade e a ausência de limites; 2. Sobre a adolescência e seus conflitos; 3. Possibilidades de intervenções psicológicas. E ainda: Considerações Finais e Referências.

2. A Contemporaneidade e a Ausência de Limites

“(...) e as ilusões estão todas perdidas, os meus sonhos foram todos vendidos, tão barato que eu nem acredito”
(Cazuza)

É possível percebermos certa confusão, sempre que se fala de modernidade e contemporaneidade. Assim, vimos a necessidade de esclarecer a definição dessas palavras, segundo o dicionário Larousse Cultural (1999). Modernidade se refere ao tempo presente ou a uma época relativamente recente; hodieno, atual; está relacionado ainda às artes em suas formas mais inovadoras em qualquer época e, sobretudo, no séc. XX. Quanto à contemporaneidade, diz respeito ao que é do mesmo tempo, da mesma época; que é da época atual, do tempo atual. Assim, compreendemos que falar sobre contemporaneidade, diferente de modernidade, não se refere a um tempo específico, mas sim ao tempo atual, do qual se fala, o hoje.

Neste capítulo, a palavra modernidade será bastante usada, fazendo referência às significativas mudanças que ocorreram a partir do século XX, e que têm total repercussão sobre nossa vida atual. Sobre isso, Bauman (2005, p. 33) afirma que “(...) a mente moderna nasceu juntamente com a ideia de que o mundo pode ser transformado”, e diz ainda que o sentido da modernidade está atrelado à rejeição do mundo como esse se apresentava até então, daí o surgimento do desejo de modificá-lo. Com isso, surgiu também o imperativo da mudança que é, segundo o autor, “(...) modernizar-se ou perecer” (p. 34).

É difícil falarmos de modernidade, sem lembrarmos de globalização. Apesar de saber o quanto esse tema é discutido, não podemos deixar de mencioná-lo aqui, definindo-o, a partir de Giddens (1991, p. 69) “(...) como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes, de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa”.

Giddens (2002), afirma, em outro trabalho, que a modernidade tem seu significado atrelado às inovações trazidas pelo mundo industrializado, compreendendo, dadas as devidas proporções, que esta não é sua única dimensão, mas está ligada à importância exercida pela força material e do maquinário no processo de produção. Nisso compreendemos que a velocidade com que temos nos desenvolvido, diante deste mundo moderno, segundo o autor, afeta, não apenas o ritmo da mudança social mas, devido à amplitude e à profundidade como essa tem ocorrido, atinge também as práticas sociais e, sobretudo, o modo como nos comportamos.

Lipovetsky (2009) afirma que a sociedade pós-industrial definiu-se como a sociedade dos serviços. No entanto, o autor menciona que o termo mais adequado ao tempo que vivemos seria “self-service”, uma vez que se pulverizou a disciplina dando lugar à sedução. Essa se tornou, então, uma das principais características das sociedades contemporâneas: as relações que antes se mantinham com base na produção, hoje se estabelecem em favor das relações de sedução.

Essa sedução à qual Lipovetsky (op. cit.) se refere está associada ao fato de vivermos em uma sociedade onde predominam a abundância e o consumo desmedido. Isso se dá a partir do hedonismo ao qual somos induzidos devido à vasta oferta de produtos, imagens e serviços. A tentação é cada vez maior, assim como a quantidade incomensurável de escolhas possíveis, o que caracteriza a abundância. Nesse sentido, o autor esclarece ainda que essa diversidade de ofertas nada tem a ver com a alienação das consciências, mas sim com a pluralidade e o caráter pessoal, que podem ser atribuídos aos bens e serviços adquiridos com base nos desejos pessoais e variados dos consumidores.

Aqui, o autor se refere ao surgimento do consumismo de massa nos EUA, datado de 1920, segundo Lipovetsky (2009), que acarretou grandes mudanças no modo de conduta da sociedade vigente, que passa a adquirir comportamentos hedonistas, antes característicos apenas de uma minoria composta por artistas e intelectuais, passando a ser um comportamento geral e cotidiano, “(...) e é aí que reside a grande revolução cultural das sociedades modernas (...)” (p. 63). O autor completa ainda dizendo que, se observarmos a cultura por determinado ponto de vista, veremos que é o capitalismo e não a modernidade artística a principal responsável pela criação dos moldes da cultura hedonista.

Assim, com a ampla propagação de produtos, que antes eram considerados caros ou de luxo, e agora passam a ser divulgados e vendidos pela mídia de massa, os valores morais conservadores deram lugar ao hedonismo, que encoraja o consumidor a gastar sempre mais, envolvido pelo discurso de aproveitar a vida, dando vazão à impulsividade até então reprimida (LIPOVETSKY, op. cit.).

Fávero (2007) traz uma outra reflexão pertinente às mudanças culturais, quando comenta sobre a importância do tempo no contexto social atual. Nesse sentido, a questão temporal é definida pelo autor como uma questão social e cultural, onde entra em jogo o significado da experiência individual com o tempo. Em seguida, faz uma série de questionamentos referentes à mensuração do tempo, o seu significado individual e coletivo, e ainda como preservar o passado e preparar o futuro em uma sociedade complexa como a nossa.

Referindo-se ao capitalismo industrial, o autor destaca que o tempo que a sociedade moderna tem conhecimento é medido por máquinas, e “(...) relógios são máquinas por excelência (...)” (FÁVERO, op. cit., p. 32), no sentido de que a máquina, cria uma nova dimensão de tempo em que já não se considera o tempo natural ou subjetivo, mas o tempo artificialmente construído. Um tempo onde prevalecem a quantidade, a comparação e a troca, através do mercado.

Com isso, alguns autores destacam a economia como uma importante dimensão da globalização, como é o caso de Martins (1996, p. 6), quando cita que:

A globalização da economia é realidade irreversível no momento em que reintroduz, à falta de uma política social de caráter mundial, o capitalismo selvagem. Levam vantagem, na globalização da economia, as nações desenvolvidas, na medida em que a detenção de tecnologia mais avançada permite colocar seus produtos, em todo o globo, com qualidade superior e preço inferior aos produtos dos países menos desenvolvidos.

Outro aspecto que marca o mundo contemporâneo é a disseminação da tecnologia e o seu uso cada vez mais frequente e necessário. Sobre esse ponto, Martins (op. cit.) também afirma que os avanços tecnológicos cresceram ao ponto de, mesmo representando uma das principais conquistas da inteligência humana, transformou-se, também, em um dos seus maiores vilões. A tecnologia nos permitiu usar a inteligência artificial, que é capaz de pensar em velocidade imensamente superior à nossa, e o autor arrisca dizendo que essa máquina pode, à qualquer momento, atingir raciocínio autônomo, tornando-se, por sua vez, incontrolável.

Porém, mais à frente, Martins (1996) afirma que aqueles que forem capazes de controlar a informação e a informática, serão capazes de controlar, também, o mundo futuro. Uma vez que, o acesso ao que há de mais moderno no mundo, é apenas uma questão de tempo.

Nesse sentido, Bauman (2005) se pronuncia sobre o excesso e a velocidade das informações que nos circundam, e sobre o modo como atingem as pessoas, bem como afirma a necessidade atual de utilizar a tecnologia como um suporte essencial.

O excesso de informação é grande demais para ser descarregado nos cérebros humanos – ou mesmo nos seus repositórios convencionais, as prateleiras das bibliotecas. A invenção da memória eletrônica veio a calhar: a rede mundial faz o papel de depósito de refugo da informação, de capacidade infinita e em crescimento exponencial (p. 37).

Ainda sobre a importância da informação no giro cultural da contemporaneidade, Lipovetsky (2005) afirma que a comunicação de massa se apresenta de modo fácil e espetacular, objetivando, sobretudo, atrair e reter um público numeroso, pela tecnologia rápida, “flash” e simples. Nesse sentido, não é necessária a memorização do conteúdo apresentado, ou mesmo a continuidade; basta ser plenamente compreensível e mudar rapidamente. Imperam a ordem da animação e da sedução. “De qualquer modo, é o show que faz a qualidade mediática das transmissões, que desenha a colocação em estado de informação” (LIPOVETSKY, op. cit., p. 231).

A sociedade de consumo à qual se refere Lipovetsky (2005) se caracteriza, além de outros aspectos, por ser uma sociedade centrada na expansão das necessidades, pautada na lei da obsolescência, sedução e diversificação. Uma modernidade construída sobre as aparências, a comercialização e utilização desenfreada de bens não duráveis.

O autor faz relação entre nossa contemporaneidade efêmera e a moda, uma vez que essa é representada pela instabilidade, e acelerada mudança de produtos. Nessa “forma moda” (p. 260) os produtos são pensados e criados no intuito de não durarem e serem cada vez mais descartáveis; seu tempo é breve e se direciona ao consumo das massas. Nesse modelo social, a qualidade é dispensável, e a opinião dos consumidores é sempre de que o novo é melhor e superior ao velho. A lei da oferta e da procura funciona pelo novo, o desuso se acelera, e a inovação é indispensável, ainda que promova mudanças mínimas.

No intuito de compreender a era democrática como enigma de uma sociedade que, diante da acelerada mutação da forma moda, tenta fazer com que os indivíduos coexistam entre si, Lipovetsky (op. cit., p. 265) questiona:

Como pode ela instaurar um elo de sociedade quando não cessa de ampliar a esfera da autonomia subjetiva, de multiplicar as diferenças individuais, de esvaziar os princípios sociais reguladores de sua substância transcendente, de dissolver a unidade dos modos de vida e das opiniões?

Lipovetsky (2009) menciona em outro trabalho que há nesse contexto um verdadeiro culto à espontaneidade, e à denominada pelo autoe cultura psi, que trata de incentivar as pessoas a serem, cada vez mais, elas mesmas, visto que a cultura pós-moderna é a cultura do “feeling”, da emancipação individual, onde até mesmo a educação, antes rígida e, por vezes, inflexível, torna-se permissiva e atenta aos desejos infantis e adolescentes. A linguagem, por sua vez, tornou-se o eco da sedução. São encontradas palavras substitutas para suprir os termos pejorativos conhecidos até então, ou seja, tudo que era traduzido com sentido de inferioridade passa a ser substituído por uma representação linguística neutra e objetiva.

Além da explosão da tecnologia e do livre acesso à informação, embasada pela sedução do consumo, a modernidade traz consigo, entre outros conflitos, a marginalização de diversos grupos sociais. Sobre isso afirma Martins (1996), em relação a esses grupos que, apesar de minimamente favorecidos, têm conhecimento sobre seus direitos e alguma noção sobre as mudanças que ocorrem no mundo à sua volta. Esses seres marginalizados, revoltados buscam se unir contra os que gozam livremente dos excessos, em detrimento de uma sociedade completamente desnivelada. Fica claro, segundo o autor, que as diferenças consistem nas posses e maiores condições de sobrevivência digna, e não nas possibilidades de conhecimento a ser atingido.

Martins (op. cit.) continua afirmando que, diante de tal situação de marginalização, o homem do século XX/XXI percebe que, aos poucos, se aproxima o fim da solidariedade real, buscando, cada vez mais, preparar-se para a dura luta da vida, uma vez que nenhuma estrutura presente é capaz de lhe assegurar tranquilidade. Já não há emprego estável, nem esperança externa. Resta ao indivíduo, apenas, acreditar nele mesmo, lutar sem tréguas e suportar as pressões diárias com um único intuito: sobreviver.

Essa referida luta pela vida nos remete ao que foi dito por Bauman (2005), que cita a parceria existente – ou que deveria existir – entre o homem e a natureza. Traz um exemplo da preservação da terra, através da agricultura e da sua destruição devido à mineração. Um paradoxo bastante ilustrativo, quando menciona ainda que, respeitando a natureza e trabalhando em conjunto com ela, o agricultor tem certeza da eterna colheita, uma vez que trabalha em prol de um crescimento sem perdas, representado pela continuidade, onde “(...) um grão é substituído por outros grãos” (p. 30). Do contrário, a mineração destrói a terra, e vai gerando cada vez mais refugo. Não há reaproveitamento, forte exemplo de descontinuidade. Destaca ainda que só se consegue obter metal puro afastando dele o que é descartável, a escória.

É neste ponto que se exemplifica a crise da contemporaneidade, quando percebemos, à luz de Bauman (2005) que vivemos, de fato, em um mundo descartável, onde o novo exige o descarte do velho. Não há reaproveitamento, como o próprio autor menciona na introdução de seu trabalho, ao falar da obra de Ítalo Calvino, “A cidade invisível”. Cidade essa chamada Leônia, onde seus habitantes tinham absoluta repugnância pelo que era velho, descartável, porém extrema adoração pelo novo, pelo inusitado. No entanto, às custas de uma constante busca pela novidade, os leonianos geravam quantidades exorbitantes de lixo diariamente, e não se davam conta de que todo esse refugo estava em seu entorno, e ia se acumulando dia após dia. Alguma semelhança com nossos tempos atuais? – questiona-nos o autor.

O novo é criado no curso de uma meticulosa e impiedosa dissociação entre o produto-alvo e tudo mais que se coloque no caminho de sua chegada. [...] E se assim for, então cada nova geração está destinada a, cedo ou tarde, compartilhar a sorte daquela que ficou para trás, apodrecendo e decompondo-se a fim de abrir caminho para uma criação ainda mais nova (BAUMAN, 2005, p. 31).

Porém Bauman (2004), tratando da liquidez dos relacionamentos modernos, menciona os relacionamentos virtuais e a necessidade de arriscar cada vez menos, a fim de não perder tempo, adquirindo velocidade e valorizando o que está a curto prazo. O autor afirma ainda que essas relações modernas parecem ter sido feitas sob medida para o mundo contemporâneo, onde as “possibilidades românticas” (p. 12) surgem e desaparecem em uma velocidade cada vez maior onde, diferente dos “relacionamentos reais” (p. 13), parece ser mais fácil entrar e sair.  É curioso, comenta o autor, que, em detrimento da autenticidade que parece pesada e lenta demais, estão esses relacionamentos modernos que aparentam facilidade e transparência. Esse modo de se relacionar com as pessoas facilmente se compara ao modo como as novas gerações se relacionam com as coisas.

Afinal, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que ‘novas e aperfeiçoadas versões’ aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra? (BAUMAN, op. cit., p. 28)

Birman (2001), nesse sentido, afirma que o Ocidente tem apresentado algumas nuances no contexto social, onde a subjetividade tem se constituído de maneira fragmentada, e o eu tem adquirido uma posição privilegiada. O que ocorre, segundo o autor, é que nessa nova subjetividade ocidental surge um paradoxo em que o autocentramento se opõe ao valor da exterioridade, havendo uma extrema valorização da estética, do olhar do outro e do julgamento social.

Sobre tal aspecto Laloup (1966), ao tratar sobre civilização e cultura em seu trabalho, compreende e relata que seria preciso muita força para que um povo conseguisse se sobressair diante de uma cultura materialista. Desse modo, destaca que o homem, ainda que integrado ao ambiente social, seria incapaz de adquirir esse equilíbrio. E completa que, no intuito de realizar-se “(...) e humanizar o mundo exterior o homem coletivo tende a alargar as fronteiras de seu espírito (cultura) e a projetar em torno de si os efeitos de sua ação sobre a sociedade e o mundo (civilização)” (p. 50). Assim, essas transformações, ao serem transmitidas de geração em geração, compõem identidades que se desenvolvem no decorrer da História.

Com isso, percebemos uma menção de Birman (2001) à presença marcante do narcisismo em nosso mundo contemporâneo, onde prevalece a cultura do espetáculo. O que entra em questão é que, devido à valorização exacerbada do eu em detrimento do outro, as relações intersubjetivas parecem tornar-se esvaziadas e pouco valiosas, não havendo espaço para as trocas inter-humanas, o que gera, por sua vez, um excesso de violência que se destaca no cenário atual. Assim, “(...) o que justamente caracteriza a subjetividade na cultura do narcisismo é a impossibilidade de poder admirar o outro em sua diferença radical, já que não consegue se descentrar de si mesma” (p. 25).

Dando sequência ao viés psicanalítico na discussão sobre contemporaneidade, podemos pensar, a partir do que foi ressaltado por Birman (2001) sobre a política do desamparo – aspecto que ganhou destaque na obra freudiana – que “(...) a posição de fragilidade estrutural do sujeito, ao relacionar este à sua corporeidade, às ameaças da natureza e aos horrores gerados nas relações ambivalente com os outros” (p. 36).

Nesse sentido, o autor se refere à segunda teoria das pulsões e relaciona o desamparo do sujeito à presença marcante da pulsão de morte sobre o psiquismo humano. Para tanto, consideramos relevante a exposição de uma breve definição sobre a pulsão de vida e a pulsão de morte:

As pulsões de vida tendem a investir tudo libidinalmente e a garantir a coesão das diferentes partes do mundo vivo. Em contrapartida, as pulsões de morte visam ao desprendimento da libido dos objetos, seu desligamento e o retorno inelutável do ser vivo à tensão zero, ao estado inorgânico (NASIO, 1999, p. 70).

Ainda sobre as pulsões de morte, Nasio (op. cit.) completa que o sentido de morte, nesse contexto, não se refere somente à destruição e agressão, mas sim à tendência do ser vivo de voltar-se para a tranquilidade, repouso e silêncio, sendo essas pulsões benéficas e regeneradoras, uma vez que permanecem dentro de nós.

Birman (2001) menciona ainda que o desamparo é uma vocação inata do ser humano, a qual marca completamente a sua subjetividade de modo indissolúvel e “(...) por tudo isso, o desamparo seria aquilo que instaura o mal estar na modernidade, sendo assim seu aguilhão mais poderoso” (p. 43).

Lipovetsky (2005) traz uma afirmação semelhante, quando menciona que “(...) o progresso das luzes e o da felicidade não andam no mesmo passo; a euforia da moda tem como complemento o abandono, a depressão, a perturbação existencial” (p. 285), e segue afirmando que, apesar dos diversos tipos de estímulos existentes, há maiores dores e problemas no viver. Apesar da autonomia crescente no comportamento das pessoas, há cada vez mais crises individuais, o que, segundo o autor, mostra que a moda, ao mesmo tempo que revela sua grandeza, remetendo o sujeito para si mesmo, deixa transparecer sua miséria, quando torna o indivíduo demasiadamente problemático para si e para os outros.

Continuando a referenciar o tema do desamparo, é possível compreender sua relevância para o estudo das relações humanas que compõem o nosso tempo, a contemporaneidade. Visto que, segundo Birman (2001), o sujeito desamparado sofre pressões constantes de suas demandas pulsionais que o atingem por todos os lados e o preenchem. Assim, o indivíduo vê-se frente à angústia de constituir circuitos pulsionais que, de algum modo, estejam ligados aos objetos de satisfação.

Pensando as questões pertinentes ao desamparo, é possível dialogar com o que nos trouxe Giddens (2002), afirmando que a sociedade pós moderna age como se não houvesse precedentes, como se a Idade Medieval, juntamente com todo o nosso passado nunca tivessem existido, antepassados erroneamente julgados como desnecessários. Nesse sentido, se desconsideramos o passado, estamos desamparados, soltos no mundo presente. E se, segundo o autor, assim continuarmos, é possível que amanhã sejamos nós os esquecidos, podendo até mesmo afirmar que nunca existimos. Sobre isso, Lipovetsky (2005) afirma que “(...) enquanto os indivíduos buscam antes de tudo parecer-se com os seus contemporâneos e não mais com seus antepassados, os fluxos de imitação se desprendem dos grupos familiares e dos meios de origem” (p. 273).

Em uma produção posterior, Lipovetsky (2009) traz afirmações semelhantes, quando cita que o modernismo, apesar de ser condicionalmente apto para produzir e construir apetrechos inéditos, não se contenta com essa capacidade estilística, e insiste em romper sua estreita ligação com o passado, através da instituição de obras completamente inovadoras, sem se dar conta que isso desqualifica a ela própria. Exemplificando sua afirmação, o autor traz que as produções de vanguarda, logo que criadas, desaparecem, permanecendo presentes apenas num constante “déjà-vu”; nisso, “(...) o modernismo proíbe a estagnação, obriga a invenção ininterrupta, a fuga sempre para adiante, tal é a ‘contradição’ imanente ao modernismo (...)” (p. 61).

Com as contribuições de Giddens (2002) e Lipovetsky (2005, 2009), entendemos que nossa sociedade se encontra fragilizada, porém encoberta pela máscara da independência, o que se assemelha à exposição de Lajonquière (apud KEHL, 2000) que traz à tona a questão do declínio da imago paterna na sociedade contemporânea, mencionando que o campo simbólico fica comprometido diante das patologias culturais que surgem em torno do projeto de vida moderno, em paralelo com o declínio do social.

O autor torna emergente em seu texto a problemática cultural que envolve a recusa da função paterna, característica de uma sociedade que parece ter perdido a noção de limites, buscando, assim, uma excessiva liberdade. Com isso, Lajonquière (apud KEHL, op. cit.) fala sobre a função fraterna e sua importância no contexto social, porém comenta que, em uma sociedade onde a compreensão da função paterna fica comprometida, torna-se difícil atribuir um papel relevante à fraternidade, no sentido do ser igual, e valorizar o semelhante, quando ocorre uma busca desenfreada pelo consumo, onde a prioridade é tornar possível a imediata realização do desejo.

Kehl (2000) afirma que a função paterna custou à humanidade um alto preço: o assassinato do pai da horda, e o desamparo que nasce como consequência da morte desse pai opressivo e, ao mesmo tempo, protetor tornou possível o surgimento da função paterna, que age com uma espécie de amparo simbólico. E completa que a ordem presente no acordo entre os irmãos “(...) exige a renúncia de algumas satisfações pulsionais, como condição para se pertencer à coletividade e se beneficiar das vantagens asseguradas pelo pacto civilizatório” (p. 33).

 Freud (2002) afirma que para viver civilizadamente, o homem necessita abrir mão da realização desenfreada de seus desejos, precisando sublimá-los, tornando-os aceitáveis socialmente. Em paralelo com o que afirma Kehl (2000), parece estar havendo uma contradição ou nova edição da forma como o ser humano se organiza em sociedade, quando essa busca realizar seu desejo em detrimento da importância do direito do outro, frente à convivência social fraterna. Esse individualismo moderno traz, por consequência, o recalcamento do caráter coletivo, gerando repercussões significativas nos atos cotidianos. Segundo Kehl (op. cit.), “(...) isto é justamente o que precisa ser recuperado para restaurar a confiança dos sujeitos no laço social, em relação ao qual somos todos, ao mesmo tempo, agentes e objetos” (p. 34).

Costa (apud KEHL, 2000) comenta, a partir do que foi disseminado pelos teóricos de Frankfurt, entre as décadas de 30 e 40, que a revolução capitalista fez surgir uma democracia econômica de massas, onde não há lugar para o poder do pai. Com isso, a sociedade industrial e capitalista despediu a função paterna, passando a desempenhar, ela mesma, tal função. Assumindo, assim, o sujeito e sua gama de desejos, buscando adequá-los às suas respectivas finalidades políticas e econômicas.

A ordem piramidal, com o pai no topo, deu lugar à proliferação de instâncias de controle e incentivo à produção de novas subjetividades. Desde então, surgiu-se o coro de vozes contra a ‘decadência da função paterna’, cujos últimos ecos se encontram nas ideias da ‘personalidade’ e ‘cultura’ narcísicas dos anos 70-80 (p. 12).

Posteriormente, o autor segue afirmando que, apesar dos maus presságios sobre a queda do poder e importância exercidas pela figura paterna, o mundo não desabou. Fomos capazes de conquistar e atingir diversos objetivos almejados socialmente, sem que nos tornássemos loucos e perversos. E, com tudo isso, ainda buscamos resolver nossos próprios problemas e nos sentimos responsáveis diante das aflições pelas quais somos acometidos. Costa (apud KEHL, op. cit.), não desconsidera a importância dessa figura representante da lei e do limite social, mas enfatiza claramente que a função paterna declina e tem sido substituída por imposições de gozo superegoicas de um outro que desconhecemos, tendo como arquétipo a sociedade de consumo.

Ainda sobre as questões relativas ao lugar da autoridade que, por séculos, fez emergir socialmente a noção de limite, Melman (2003) traz considerações sobre a falta, nos dias atuais, do limite que implica a autoridade. Sobre isso, o autor faz menção ao lugar do sagrado que, em nossa cultura, parecia estar sempre relacionado a uma autoridade maior. E não foi por acaso que, durante séculos, as maiores autoridades sociais exerceram seu poder político com fundamentos teológicos, pois se acreditava que o poder era delegado, sobretudo, pelo próprio Deus. E, apesar de tantos anos terem-se passado, o autor afirma que as repúblicas laicas ainda não se conseguiram desvincular completamente dessa herança.

Retomando a função fraterna destacada por Kehl (2000), a fim de melhor compreendê-la e defini-la, a autora diz que a sociedade moderna implica a organização do igualitarismo dos sujeitos que a compõem. Isso se concebe a partir da figura já instituída do irmão, no sentido de que a ordem social se estabelece necessariamente como uma ordem fraternal, visto que a fraternidade implica na igualdade dos agentes sociais inspirada no valor idêntico e permutável que há entre irmãos. Nisso a nossa sociedade moderna se diferencia da sociedade pré-moderna, segundo afirma a autora, já que, nessa última, os poderes e funções estavam divididos por hierarquias bem estabelecidas e regularmente respeitadas (ibidem).

Ainda nesse contexto e em concordância com que foi dito acima sobre a fraternidade, Birman (apud KEHL, op. cit.) comenta que Freud já afirmava que os homens não são animais de rebanho, mas, sim, de horda e, por isso, retomam constantemente à busca pela divindade. Isso adquire maior relevância, quando consideramos a construção do imaginário na modernidade, que, caracterizado pela morte de Deus e, consequente aposta do homem em substituí-lo, surge como principal resultante dessa condição o desamparo. Assim, o traço de onipotência presente na figura humana torna-se o maior obstáculo presente na possibilidade de uma sociedade fraterna e igualitária, o que, inevitavelmente, dissolve o imperativo da solidariedade.

Permanecendo na visão psicanalítica, Melman (2003) traz algumas considerações sobre o que comentamos anteriormente, com base em outros autores, acerca das relações sociais e afetivas e seu futuro em nossa sociedade contemporânea. Ele se remete à perversão, afirmando que ela se torna uma norma social. Porém, não no sentido moral ao qual estamos habituados a tratá-la, mas, sim, em uma conotação clínica, constituída na economia libidinal. Essa perversão, conforme afirma o autor, se instala nas relações sociais, uma vez que um sujeito se serve de seu parceiro do mesmo modo que descarta um objeto que julga não ter, para si, nenhuma utilidade. E continua afirmando que, inevitavelmente, nossa sociedade tenderá a tratar seus componentes desta forma em todas as circunstancias e contextos do convívio social.

Melman (2003) faz referência ainda ao prolongamento da existência, e afirma que a grande contingência de idosos que teremos em nosso planeta, daqui a alguns anos, custará muito caro às próximas gerações, sendo necessário que essas encontrem meios reais de resolver tal “problema” ou, em outros termos, segundo o mesmo autor, “(...) descartar o que, após ter servido, se tornou sem uso, fonte de despesas sem contrapartida” (p. 54).

Assim, veremos no capítulo a seguir, como o estilo de vida efêmero de nossa sociedade contemporânea se assemelha à conduta adolescente, que busca prioritariamente a vivência e o acúmulo de experiências, distante da preocupação com as consequências de seus atos. Com isso veremos que não é difícil entender porque o fenômeno da adolescência parece ter-se tornado um ideal cultural de nosso tempo, segundo afirma Calligaris (2000).

3. Sobre a Adolescência e seus Conflitos

“Tudo se desestrutura pra você se estruturar. Quando a fruta tá madura, ela pode se jogar (...)”
(Marcelo Jeneci)

Vimos, no capítulo anterior, o quanto nossa sociedade tem vivido em busca do imediatismo e do prazer desmedido. Nesse sentido, buscaremos apresentar aqui algumas considerações sobre a adolescência e a juventude que se tem desenvolvido diante de tais demandas culturais e contemporâneas. Nessa perspectiva, Aberastury (1981) considera que:

(...) este período da vida, como todo fenômeno humano, tem sua exteriorização característica dentro do marco cultural-social no qual se desenvolve. Assim, devemos em parte considerar a adolescência como um fenômeno específico dentro de toda a história do desenvolvimento do ser humano, e, por outro lado, estudar a expressão circunstancial de caráter geográfico e temporal histórico-social (p. 24).

Podemos fazer um paralelo com a afirmação de Osorio (1992), quando também menciona a importância de estudar a adolescência, não como um fenômeno individual ou apenas corporal (puberdade) e intrapsíquico, mas, sim, como um processo biopsicossocial.

A adolescência é uma etapa evolutiva peculiar ao ser humano. Nela culmina todo o processo maturativo biopsicossocial do indivíduo. Por isto, não podemos compreender a adolescência estudando separadamente os aspectos biológicos, psicológicos, sociais ou culturais. Eles são indissociáveis e é justamente o conjunto de suas características que confere unidade ao fenômeno da adolescência (p. 10).

Dito isso, podemos compreender o que afirma Calligaris (2000), quando menciona que tudo levar a crer que a adolescência se apresenta como um ideal social contemporâneo, como afirma: um “ideal necessário” (p. 57). Em um mundo envolvido pelo consumismo e pela propaganda, o adolescente apresenta-se como um excelente argumento promocional, onde podemos pensar, conforme questiona Calligaris (op. cit.) “(...) se a adolescência não surgiu justamente porque os adultos modernos precisaram dela como ideal” (p. 59).

Fávero (2007) apresenta a adolescência como o período da vida em que o indivíduo se depara com as relações conflitais trazidas pelo tempo, acompanhado da dimensão significativa e contraditória que é a formação da identidade.

Whitaker (2010) contribui também com a conceituação da adolescência afirmando que, após o surgimento do conceito da criança angelical, embasado pela filosofia cristã na Idade Média, o adolescente, que fica incluído em um tempo a posteriori da infância, acaba sendo qualificado como pervertido, por não se enquadrar ao estilo inocente, e por apresentar o caráter da rebeldia, ficando suscetível a receber tratamento repreensivo e não mais preventivo, como acontecia anteriormente.

Lebrun (apud MELMAN, 2003) afirma que a adolescência, de modo simples e resumido, é apenas o longo tempo em que o sujeito vivencia o intermédio entre o fim da infância e o início da idade adulta. É o tempo em que aquele que ainda não é um sujeito vai admitir ocupar ou, ao contrário, recusa-se a ocupar seu lugar de sujeito no mundo, assumindo seu desejo.

Porém é importante compreendermos que a adolescência não é um conceito universal, mas, sim, uma moratória vivenciada por nossa sociedade ocidental, segundo afirma Whitaker (2010), cujos estudos antropológicos mostram que, em algumas culturas, essa passagem infância-idade adulta, surge como uma breve fase, sem ímpeto, a qual é percorrida naturalmente pelo jovem, onde se valorizam a continuidade, a igualdade, a mesmice e a indiferença, em detrimento das condições geradoras de conflito, a partir das leis de diferenciação, valorizadas em nossa cultura.

Whitaker (op. cit.) continua, nessa perspectiva, relatando que as relações entre pais e filhos que ganham destaque em nossa cultura não são vivenciadas do mesmo modo em outras organizações sociais, pois não estão fadadas à intimidade. Nessas culturas as relações afetivas são marcadas pela inexistência de vínculos específicos, valorizando-se prioritariamente a educação mista e a amizade livre. Porém a interdição social, assim como em nossa sociedade, não deixa de existir, mas se estabelece por outros vieses.

Após compreender as questões globais que envolvem a adolescência, sobretudo quanto ao contexto social e cultural, podemos destacar alguns aspectos pertinentes ao trajeto pelo qual o adolescente passa, ao entrar nesse processo maturativo.

Em nossa cultura ocidental, o início da adolescência está intimamente ligado à puberdade que, segundo Osório (1992), tem seu início marcado pelo aparecimento e crescimento dos pelos, sobretudo na região pubiana e das axilas. Com a revolução hormonal, o corpo sofre diversas modificações internas e externas. Além dos pelos, os testículos começam a se desenvolver, e ocorre a primeira ejaculação, o que, para os meninos, representa uma importante marca de entrada na puberdade. Para as meninas, essa marca fica a critério do desenvolvimento dos seios, dos ovários e a ocorrência da menarca, a primeira menstruação. Essas transformações ocorrem por volta dos doze aos quinze anos para ambos, completa o autor.

Uma das questões primordiais a ser pensada quando falamos da adolescência é, segundo Aberastury (1981), o desejo e paradoxal temor de se inserir no mundo adulto. Isso implica para o adolescente a perda definitiva da condição de criança, juntamente com a presença de três lutos a serem elaborados lentamente, nesse período: o luto pelo corpo infantil, luto pela identidade/status de criança e perda dos pais da infância, afirma a autora.

Aberastury (op. cit.) traz em seu livro uma série de características referentes à adolescência, as quais descreve como uma sintomatologia que compõe a Síndrome Normal da Adolescência: formação da identidade; tendência à formação e participação de grupos; intelectualização; crises religiosas; pensamentos com características primárias; desenvolvimento sexual; atitudes sociais reinvindicatórias; contradições constantes no modo de se comportar; separação progressiva dos pais; alterações de humor e estado de ânimo.

É importante salientar, que não apenas o adolescente padece durante essa fase, mas também seus pais, que apresentam, na maioria das vezes, sérias dificuldades para lidar com o sentimento de rejeição que emerge diante da genitalidade e, a partir dessa, a manifestação da personalidade. “Esta incompreensão e rejeição se encontram, muitas vezes, mascaradas debaixo da concessão de uma excessiva liberdade que o adolescente vive como abandono, e que o é na realidade” (ABERASTURY, 1981, p. 14).

Diante disso, o adolescente sofre com a precocidade do exercício do papel genital e independência total, quando essa dependência ainda se faz necessária. Isso ocorre, segundo Aberastury (op. cit.), em decorrência do sentimento de ameaça iminente da perda da dependência infantil. A falta de manejo adequado dos pais para lidarem com as flutuações desse processo, dificulta o trabalho do luto, “(...) no qual são necessários permanentes ensaios e provas de perda e recuperação de ambas as idades: a infantil e a adulta” (p. 15).

Osório (1992) afirma que a sexualidade é um elemento estruturador da identidade na adolescência, e essa se dá a partir da representação mental que o adolescente possui de seu próprio corpo. Essa imagem corporal é uma representação condensada de experiências passadas e atuais, reais ou fantasiadas do corpo do sujeito, contendo em si aspectos conscientes e inconscientes.

Ainda sobre as questões pertinentes à formação da identidade, Erikson (1976) traz ainda que, quando o jovem não se sente seguro de sua própria identidade, a forma como lida com a intimidade pode percorrer por dois caminhos diferentes: pode o adolescente sonegar a intimidade ou entregar-se à uma intimidade promíscua, sem que haja uma verdadeira entrega pessoal e sentimental. O autor acrescenta ainda que, se este jovem não consuma suas relações íntimas com outros e, sobretudo, se não as estabelece com os próprios recursos internos, ao fim da adolescência e início da adultez, é provável que ele busque relações interpessoais de caráter estereotipado e retenha, por fim, um profundo sentimento de isolamento.

Erikson (op. cit.) ainda comenta que os adolescentes frequentemente se mostram preocupados com a forma como os outros o observam. O que entrelaça com a afirmação de Osório (1992), quando afirma que, durante as mudanças corporais, o adolescente se confronta com a imagem do corpo real, do seu corpo em transformação e o protótipo idealizado do corpo adulto. Sobre isso, é conhecido o dilema sofrido pela maioria dos adolescentes em relação a seu corpo, onde as roupas se tornam extensões dele, dado o incômodo com a aparência física, que é responsável pelo frequente sentimento de estranheza do “self” na adolescência, completa o autor.

Osório (op. cit.), ao falar sobre as questões pertinentes à formação da identidade na adolescência, apresenta conceitos que vão além da conhecida rebeldia e busca por grupos de identificação. E faz referência à aquisição do sentimento de identidade, embasado pela “(...) universalidade da origem simbiótica da condição humana e na concepção de um processo de separação/individualização que começa logo após o nascimento e se estende por todo o desenvolvimento ulterior do indivíduo” (p. 16).

Essa relação se apresenta quando Osorio (op. cit.) compara a puberdade e consequente passagem da infância para a idade adulta, como uma reedição da diferenciação “eu-não eu” que ocorre na primeira infância. Esse processo de diferenciação é vivenciado no momento da saída da criança de uma fusão simbiótica com sua mãe. Tal desenvolvimento se completa durante a aquisição das características individuais que completam a formação da identidade. Diante da angústia gerada pela ameaça da perda de tal vínculo simbiótico residualmente infantil, o adolescente busca incessantemente restaurar esse vínculo através da adesão aos substitutos aleatórios dos objetos parentais, tendo como exemplo a identificação com os ídolos, as relações possessivas de amizades e a supervalorização do objeto amado, durante a paixão.

Em contraponto, à ansiedade de retomar a fusão, anterior à individuação, há um impulso que leva o adolescente a estabelecer uma identidade pessoal. Considerando a necessidade imperiosa de tal diferenciação, Osório (1992) menciona a convencional denominação conflito de gerações, que acentua o confronto de ideias e a contraposição aos desejos e expectativas parentais. Porém, apesar do caráter caótico que se instala no ambiente familiar, em decorrência desses pontos de conflito, sem tais experiências não seria possível o adolescente encontrar sua própria identidade e vivenciar seu processo discriminatório.

Pensando em uma perspectiva da psicologia do desenvolvimento, Tardeli (in VALLE e MATTOS, 2010) afirma que:

(...) a adolescência marca o início de um período de vida no qual aparece maior número de preocupações interpessoais e maior consistência entre o juízo moral e a ação, o que contraria o senso comum que, normalmente, atribui a essa fase um esvaziamento de sentido. O que ocorre não seria falta de sentido, mas sim um sentido egocêntrico, típico do adolescente (p. 128)

Inicialmente, segundo Valle e Mattos (2010), o que caracteriza uma das maiores preocupações do adolescente, nessa fase, é a ideia relacionada ao que os outros pensam sobre ele, não sendo capaz, ainda, de distinguir “(...) os pensamentos dos outros e suas próprias preocupações” (p. 129). Isso ocorre, devido à construção do pensamento formal, que começa a se tornar mais presente no funcionamento mental do adolescente. Com isso o jovem começa a desenvolver a capacidade de conceituar o próprio pensamento e dos demais que o cercam.

Com base na visão de Elkind (in VALLE e MATTOS, op. cit.), o egocentrismo adolescente traz consequências sociais, uma vez que o sujeito precipita, em si mesmo, as reações dos outros. Isso ocorre devido à alta criticidade que permeia o imaginário do adolescente que ora vê as pessoas como críticas, ora como admiradores, na mesma proporção em que o jovem age internamente, construindo uma espécie de audiência imaginária.

Fávero (2007) afirma que, para os adolescentes de nosso tempo, se tornou primordial a necessidade de testar os limites, considerando que, se os limites não forem atingidos, não há formação de experiências ou comunicação. É necessário que haja a consciência da perda da existência do outro, para que se estabeleça o significado da possibilidade de manter uma relação.

O autor comenta, ainda dentro desse aspecto, que a experiência do adolescente com a noção de tempo e limite é essencial para que esse compreenda a importância da continuidade e duração, como forma de evitar que o próprio tempo seja destruído e acabe tornando-se mera sequência fragmentada de momentos, ou seja, que a vida perca o sentido cronológico e histórico, compondo-se apenas de pontos aleatórios sem tempo.

Whitaker (2010) afirma que o receio de que o adolescente, com a sua impulsividade e criatividade, tenha o ímpeto de utilizar suas capacidades com o objetivo de criar ou remodelar o futuro a seu modo faz com que a educação seja utilizada como meio de controle e por isso há uma demasiada preocupação com a educação desses jovens. Isso se dá, segundo a autora, devido ao papel que sempre foi desempenhado pela figura do adolescente, desde a Idade Média, até o início do século XIX, onde ele exercia uma função de regulação no arranjo social através da crítica e também articulação entre as culturas denominadas trabalhistas e as aldeias da época. Essa posição, segundo Whitaker (op. cit.), que o situa nos entremeios relacionais e culturais, mantém-se até os nossos dias atuais.

Fávero (2007) afirma que, são próprios do adolescente a pluralidade e o imediatismo. Porém isso tem se tornado ainda mais frequente, assim como o modo de construção de suas experiências têm se tornado cada vez mais fragmentada. Os adolescentes e jovens têm participado ativamente de diversos grupos e redes sociais, porém as entradas e saídas desses grupos é cada vez mais rápida e frequente, havendo cada vez menos tempo investido em tais relações. O autor comenta, no entanto, que a abundância de possibilidades e de informações e mensagens recebidas e trocadas pelos jovens tem contribuído diretamente para a desconstrução dos pontos seguros de referência sobre os quais a identidade era construída.

À medida que os progressos tecnológicos ampliam cada vez mais o intervalo de tempo entre o começo da vida escolar e o acesso final do jovem ao trabalho especializado, a fase de adolescência tornou-se um período ainda mais acentuado e consciente; e, como sempre aconteceu em algumas culturas, em certos períodos, passou a ser quase um modo de vida entre a infância e a idade adulta (ERIKSON, 1976, p. 128).

Erikson (1976) continua afirmando que, nos últimos anos de escolaridade, os adolescentes, ao serem atingidos pelas intensas transformações corporais e, sobretudo, genitais e pelas incertezas dos papeis adultos a serem desempenhados, tentam estabelecer, uma subcultura adolescente, que mais parece um fim, ou objetivo a ser alcançado do que um meio, uma trajetória a seguir, como percurso de busca e formação da identidade.

3.1 Adolescência, família e sociedade

Osorio (1992) afirma que, na tentativa de situarmos o tema adolescência na contemporaneidade, deparamo-nos socialmente com uma crise de identidade que se assemelha àquela enfrentada pelo adolescente. Nesse sentido, temos experimentado o conflito entre os valores tradicionais adquiridos no decorrer da vida familiar e a necessidade de enfrentar as exigências atuais, o que se assemelha aos sentimentos do adolescente que, muitas vezes, traz consigo elementos de uma educação embasada por valores conservadores, e sente-se confrontado pela sociedade competitiva e passível de mutações culturais à qual precisa se adequar para viver em sua condição de adulto.

(...) poderemos genericamente concluir que a época em que vivemos assinala a sofrida transição de formas autocráticas de governo oriundas do passado para modalidades de autogestão democrática que vislumbramos no futuro, com todos os movimentos de avanços e recuos que caracterizam igualmente o processo de substituição da dependência infantil pela autonomia adulta durante a crise adolescente (OSORIO, op. cit., p. 35).

Compreendemos, à luz de Vinha e Mantovani (in VALLE e MATTOS, 2010), que os valores morais e os modelos de juízo não são inatos ao ser humano, no entanto construídos através das representações adquiridas no decorrer da vida, como consequência da interação entre as pessoas. Com isso, La Taille (in VALLE e MATTOS, op. cit.) menciona a personalidade como um conjunto dessas representações que são constituídas por diversos valores inter-relacionados, cuja organização hierárquica é influenciada pela afetividade.

Segundo Levisky (2002c), é importante olhar a sociedade nesse processo de globalização, como acontecimento que vem surgindo com uma velocidade vertiginosa, onde o virtual se confunde com o real, tornando-se um fator primordial nesse conflito de identidade no adolescente. O autor enfatiza a desordem na identificação como:

O reflexo da condescendência para com indivíduos e instituições que deveriam preservar a qualidade da evolução ética dos grupos sociais, através de mecanismos adequados de comunicação, leis, normas de convivência, a preservação dos bens comuns, da memória. Mas tristemente, o que se consta é a quebra destes papéis, suas funções e valores sem que nada lhes aconteça, transformando-se em qualidade cultural (p. 20).

Tomando ainda o autor Levisky (op. cit.) como base, compreendemos que o adolescente traz características próprias, onde espontaneamente tende a passar para ato em vez descarregar seus impulsos através dos processos primários, dessa forma ele pensa após ter agido, percebendo de forma tardia as consequências de suas atitudes. Características essas que são frutos da fragilidade egóica, da ausência do autoconhecimento e de sua falta de capacidade para reprimir eficazmente seus desejos, o que, consequentemente, tem hipertrofiado no adolescente e na sociedade o conformismo com a realidade.

Levisky (2002c) afirma que “(...) o vandalismo, a delinquência, a prostituição, a perda de respeito pelo privativo, pelos bens comuns da sociedade, a má qualidade das relações humanas tornam-se modelos de autoafirmação e de contestação” (p. 21), o que, consequentemente, traz um paradoxo entre a tentativa de incorporar objetos de identificação confusos e a desesperada tentativa inconsciente de readquirir o que foi perdido ou não vivenciado no processo de desenvolvimento, o que implica a necessidade de ser resgatado, durante a adolescência, seja através do contato com a família, seja pela sociedade.

Erikson (1976) desenvolve um outro conceito, afirmando que, caso o jovem sinta que o seu meio, de algum modo, tenta contê-lo radicalmente em relação às suas formas de expressão, que lhe permitiram, anteriormente, desenvolver e unificar, ele pode resistir ferozmente, utilizando até mesmo reações selvagens, comparadas aos animais que, acuados, são forçados subitamente a defender sua própria vida. Na selva social, afirma o autor, não há existência humana ou sentimento vivencial, sem a formação e o sentimento de identidade.

Levisky (2002c) apresenta ainda alguns fatores existentes na sociedade contemporânea, especificamente a brasileira, que contribuem para incrementar a violência da sociedade sobre ela mesma. Nesse sentido, correlaciona as visões de Freud (1921) e Winnicott (1975), mencionando que Freud, com seu trabalho “Psicologia das Massas”, apresenta que, dentro de um grupo, ocorrem mecanismos regressivos que possibilitam a perda da identidade individual, prevalecendo a identidade grupal, que conduz o sujeito a perda do senso crítico e de sua própria autonomia. Já Winnicott, segundo a visão do autor, com seu trabalho sobre espaço transicional, permite a compreensão acerca da cultura que se mostra comprometida pelas patologias de formação do espaço virtual, enfatizando, como a delinquência é tida como fruto de uma movimentação de resgate da criatividade perdida nas primeiras relações emocionais.

Dolto (1990) traz uma significativa contribuição acerca da presença da família como mediadora entre o adolescente e a sociedade. Faz menção aos pais que trabalham fora de casa e acabam delegando para os filhos a capacidade de se auto cuidar e afirma ainda que é nesse momento do desenvolvimento em que os adolescentes se sentem menos seguros que a educação moral-sócio-cívica lhe faz grande falta.

Os pais observam que seus filhos demonstram conseguir cuidar de si mesmos em uma residência tomada por aparelhos eletrônicos. Assim, esses pais passam cada vez mais tempo fora de casa e tendem a dizer que são os filhos que já não precisam mais de seus cuidados. Parecem se desvincular da função de educadores e cuidadores, abstendo-se de intervir, opinar e aconselhar seus filhos sobre o modo como eles devem se comportar em sociedade.

Assim, segue afirmando que os adolescentes necessitam de regras de “auto paternidade” e comenta que é inconcebível que esses indivíduos aprendam a viver e conviver em sociedade, se não recebem dos pais os exemplos necessários através do diálogo, tendo, em um apartamento isolado, onde adultos estão ausentes, a televisão como única fonte de referência. Assim, observa ainda Dolto (op. cit.) a solidão na qual se encontram os adolescentes contemporâneos, devido à ausência dos pais que se torna constante até mesmo quando esses – os pais – estão em casa.

Winnicott (1999) faz, em seu trabalho sobre o delito juvenil, uma relação entre a delinquência e a privação de vida familiar nos primeiros anos de vida da criança, o que pode acarretar sérias consequências para o seu desenvolvimento na adolescência e juventude.

Sobre a importância da família no desenvolvimento infantil, ressalta que, nos estágios iniciais de desenvolvimento emocional, a criança está completamente envolvida em conflitos e desintegração potencial. A realidade externa ainda não foi assimilada pelo infante, não havendo ainda uma personalidade integrada, “(...) o amor primitivo tem um propósito destrutivo e a criança pequena ainda não aprendeu a tolerar e enfrentar os instintos” (WINNICOTT, op. cit., p. 130). É necessário que ela vivencie um ambiente amoroso, tolerante e fortalecido, afim de sentir-se segura frente à seus pensamentos e imaginação destrutivos, para que consiga desenvolver-se emocionalmente de modo saudável.

Quando a criança percebe que não há quadros referenciais, deixa de se sentir livre, tornando-se angustiada. Passa, então, a buscar novos quadros de referência fora do próprio lar, uma vez que esse já não lhe proporciona um sentimento de segurança. Tendo em si alguma esperança de encontrar fora de casa as quatro paredes que lhe forneçam estabilidade, recorre aos avós, tios, amigos da família e escola, alguém que a ajude a retomar a segurança.

Sobre a criança antissocial, Winnicott (1999) afirma que ela tem um olhar mais à frente, buscando na sociedade a estabilidade de que necessita, em vez de recorrer primeiramente à família e à escola. Nesse sentido, o autor faz a seguinte analogia: quando a criança rouba em casa, está tentando encontrar a boa mãe e também o pai, que a defenderá de seus ataques contra ela (a mãe); quando rouba fora de casa, ainda assim procura a mãe, porém com maior nível de frustração e maior necessidade de encontrar a autoridade paterna, a fim de que esse pai estabeleça os limites aos efeitos de seu comportamento impulsivo.

Segundo Ehrlich (apud LEVISKY, 2002a), a violência é um componente próprio do ser humano, pois se apresenta como um dos métodos que o indivíduo utiliza para expressar sua força, demonstrar controle e promover mudanças reais ao seu redor, inclusive mudanças relacionadas a si próprio.

Para Winnicott (1999), “(...) amor e ódio constituem os dois principais elementos a partir dos quais se constroem as relações humanas. Mas amor e ódio envolvem agressividade. Por outro lado, a agressão pode ser sintoma de medo” (p. 93). O autor afirma ainda compreender que, o bem e o mal são inerentes às relações interpessoais e encontram-se no interior do ser humano.

Mencionando de modo mais abrangente a questão da agressividade, Kehl (2000) comenta, à luz de Lacan (1948), que a entrada do outro mobiliza no sujeito a agressividade, enfatizando ainda que há uma estreita relação entre a agressividade, o semelhante e a estrutura narcísica do eu, que surge como defesa à tentativa de invasão do outro, onde, paradoxalmente depende desse outro para se constituir.

Ainda nesse sentido, percebemos uma semelhança na colocação de Cassorla (apud LEVISKY, 2002b), quando afirma que a violência pode ser considerada a antítese do amor. Referindo-se à violência social, o autor afirma que a falta de assistência básica para a sobrevivência do ser humano se caracteriza, primordialmente, como violência básica, onde estão incluídas a fome, a miséria, a falta de oportunidade e a coisificação do homem que, nesse contexto, é tido como objeto de uso e abuso desumanizado. Esses sujeitos são impossibilitados de pensar, manipulados por ideias de consumo, religiosas e ideológicas perversamente constituídas, onde estão incluídos alguns dos tipos de violência mais concreta, que podemos supor: os maus-tratos, acidentes, tortura, morte e condutas autodestrutivas.

Cassorla (apud LEVISKY, op. cit.) se refere ao adolescente como mais vulnerável à violência social mencionada anteriormente.

O adolescente (assim como a criança) será a vítima preferencial dessa violência social, pois ele é mais vulnerável. Essa vulnerabilidade decorre da invasão de seu ser por estímulos internos ligados à sexualidade e à agressividade, de difícil controle, que interagem com um ambiente externo que não lhe permite sua transformação adequada, gratificante, que implique também pensar e agir de formas úteis para si e para os demais (p. 16).

Essa violência se instala, sobretudo, no âmbito da desigualdade social, fortemente presente nos países em ascensão, como é o caso do Brasil. É nesse contexto que a delinquência finca suas raízes, no sentido da privação e consequente rejeição social. Sem dúvida, os principais afetados por essa realidade são os jovens de classes sociais menos favorecidas. É o que afirma Adorno (apud WHITAKER, 2010, p. 109).

Essa relação, baseada na opressão que os condena a uma posição de desamparo, produz o estabelecimento tênue e curto entre as noções de cidadania e seus direitos, como protesto, revolta, conflitos, e o outro sentido menos legalista, desses mesmos conceitos, em que os jovens encontram vias pragmáticas para sua exteriorização, seja na delinquência, seja na criminalidade.

Nesse sentido, Whitaker (op. cit.) estabelece uma relação entre o Direito e a Psicanálise, no que se refere à responsabilidade e sua presença na vida do adolescente, afirmando que, se para o Direito o indivíduo deve ser responsabilizado por seu ato, diante do outro social, para a Psicanálise, o sujeito também é responsabilizado, no entanto, diante de si mesmo, sendo a culpa o principal sinal da falta subjetiva manifesta.

Assim, entra em vigor uma outra discussão atual e polêmica, no que se refere à criminalização de adolescentes e jovens que comentem atos infratores. Whitaker (2010) se refere à redução da maioridade penal, onde as pessoas julgam a pertinência desse ato à luz de uma mídia exploratória que estampa anúncios acerca dos adolescentes, atribuindo-lhes o papel de algozes sociais. No entanto, a lei, assim como a Psicologia reconhecem no adolescente a necessidade de possuir uma condição particular por estar em pleno desenvolvimento, carregando por esse aspecto a qualidade da inimputabilidade.

Sobre o adolescente delinquente, Calligaris (2000) afirma que ele tem o seu pedido de ingressar no mundo adulto rejeitado pela sociedade e, para alguns, a única alternativa pensada é rebelar-se, tentando impor pela força e/ou violência o desejo de ser ouvido. O autor menciona ainda que é próprio do adolescente estar vinculado aos grupos e, do mesmo modo ocorre com aqueles que se utilizam da delinquência como forma de reconhecimento: praticam a violência em grupo, a fim de serem reconhecidos dentro e fora dele.

Os adolescentes burlam as leis e agem de modo transgressor, “(...) não na esperança de escapar das consequências de seus atos, mas, ao contrário, para excitá-la, para que a repressão corra atrás deles e assim os reconheça como pares dos adultos, ou melhor, como as partes escuras e esquecidas dos adultos” (p. 42).

Ainda segundo Calligaris (op. cit.), quando os adolescentes infringem uma regra, imaginam que serão amados pela capacidade de portar os sonhos recalcados dos adultos, o que torna ainda mais difícil para os pais e adultos, em geral, encontrarem a forma mais adequada para tratá-los, uma vez que essa circula entre a tolerância e a repressão.

Whitaker (2010) afirma que, no trabalho com o adolescente infrator, para aceitar o sujeito é necessário, primeiro, admitir que ele age sem o saber, impulsionado por uma composição subjetiva particular, movida pelo princípio de morte. E identifica que o ato infracional pode surgir como uma tentativa do adolescente de ser visto, notado. A abordagem atual, que lida com as infrações buscando apenas puni-las, geralmente age no sentido de silenciar a voz desse sujeito, impedindo-o de falar sobre si e sobre o que o motiva. “Há um sujeito no ato infracional. (...) É com a palavra, com a voz, que o sujeito pode aparecer. A violência em nome da lei, imposta, simplesmente, realimenta uma estrutura de irresignação, que (re)volta mais e mais” (p. 19).

Nesse sentido, a autora ressalta a importância de permitir que o adolescente infrator tenha a possibilidade de ser ouvido, diferente do que propõe a nossa sociedade atual, em que a atitude inicial é punir e impedir qualquer forma de expressão através da fala. Por isso, é necessário que o profissional de psicologia esteja atento ao sujeito adolescente em sua complexidade e totalidade, para que identifique as formas mais adequadas de ajudá-lo a continuar, do modo mais saudável possível, a sua trajetória de desenvolvimento. E é sobre isso que trataremos no capítulo a seguir: as intervenções possíveis ao psicólogo no contexto familiar, social/grupal, judicial, escolar e individual do adolescente.

4. Possibilidades De Intervenções Psicológicas

“(...) Pois uma psicanálise não é uma investigação científica imparcial, mas uma medida terapêutica. Sua essência não é provar nada, mas simplesmente alterar alguma coisa (...)” (FREUD, 1996, p. 97)

Neste capítulo, trataremos de enumerar as possibilidades de intervenção presentes na clínica analítica, que podem ser utilizadas nos diversos contextos em que o adolescente está inserido, bem como em todo campo de atuação do psicólogo, embasado por essa abordagem. E, para isso, é necessário compreender quem é o sujeito da clínica analítica ao qual desejamos atingir.

Referimo-nos, até aqui, ao sujeito cotidiano que compõe nossa sociedade contemporânea que, segundo Kehl (2000), é o sujeito do dia-a-dia da cultura, e sobre o qual a clínica psicanalítica tende a se debruçar. Sobre isso, Costa (apud KEHL, op. cit.) afirma que os sujeitos não são meros frutos de nossas fantasias pois, as imagens que estes elaboram de si, embasados por uma economia inconsciente, estão pautadas no material cultural disponível. O autor afirma ainda que é ingenuidade pensar que podemos ignorar os aspectos sociais e culturais, na busca por um “(...) psiquismo sem cultura, [e assim nos leva à compreensão de que] (...) não nascemos ‘sendo’; somos o que nos tornamos, e, salvo exceção, nos tornamos o que a cultura permite que venhamos a nos tornar” (p. 10).

Nessa perspectiva é que enfocamos formas de abordar as questões atuais da adolescência de hoje. Em linhas gerais, Cordioli (1998) introduz a conceituação da Psicoterapia de Orientação Analítica afirmando que Freud mostrou-se ambicioso, quando criou a técnica psicanalítica que buscava atingir objetivos e conteúdos psíquicos diferentes das técnicas aplicadas na época. Em decorrência da Psicanálise, outras técnicas semelhantes, com os mesmos princípios teóricos surgiram, como é o caso da Psicoterapia de Orientação Analítica.

O método de trabalho psicoterápico ao qual nos referimos, segundo Laplanche; Pontalis (apud CORDIOLI, op. cit.), assemelha-se a Psicanálise, no que se refere aos níveis de investigação e teoria, mas se diferencia quanto à especificidade do “setting”, uma vez que trabalha na perspectiva de comunicação verbal e não-verbal livre entre terapeuta e paciente, onde o terapeuta se coloca através de intervenções e interpretações acerca do conteúdo trazido pelo próprio paciente.

Ao se tratar do adolescente inserido em um contexto de psicoterapia individual, há, segundo Cordioli (1998), características peculiares na clínica analítica, que se diferenciam do método de trabalho tradicional, mencionado anteriormente. Essa especificidade é percebida desde os primeiros contatos, uma vez que deve ser feita, antes de iniciar o acompanhamento propriamente dito, uma entrevista inicial com o adolescente e, em seguida, algumas entrevistas com seus pais, para que o psicoterapeuta compreenda o que está sendo vivenciado pelo adolescente e possa traçar algumas hipóteses diagnósticas para o tratamento. É necessário ainda que o adolescente deseje aderir ao tratamento psicoterápico, para que o vínculo terapêutico seja devidamente criado, completa Cordioli (op. cit.).

Kalina (1999) se refere ao momento em que os adolescentes chegam para o tratamento psicoterápico: algumas vezes trazidos pelos pais, aconselhados por um colega, pela escola, ou, com menos frequência que os demais, quando o próprio adolescente o solicita. A forma pela qual chegam aos consultórios não é determinante sobre a questão de aceitar ou não o tratamento; muitos deles buscam acompanhamento por vontade própria, no entanto, desistem em seguida, enquanto outros, apesar de terem sido trazidos ou encaminhados, aceitam o tratamento espontaneamente. Por isso, o autor ressalta que não importa a via pela qual o adolescente chega à entrevista, mas é necessário que ele aceite voluntariamente o tratamento, após a exposição dos objetivos desse tratamento.

Ao fazer ainda uma breve descrição sobre o comportamento habitual do adolescente durante as sessões de psicoterapia, Kalina (op. cit.) observa: momentos relativamente longos de silêncio; tentativas de imitar um linguajar adulto; busca constante por respostas imediatas e, frequentemente, por opiniões do psicoterapeuta. Segundo o autor, existe grande dificuldade em trabalhar com o adolescente o “como se” pois, se torna difícil para ele compreender a ambiguidade das interpretações, sendo mais fácil entendê-las como incerteza e insegurança do terapeuta.

Durante o processo de psicoterapia individual com o adolescente, é importante compreendermos que o profissional de Psicologia deve estar ciente de que a capacidade de abstração do cliente ainda está em desenvolvimento, por isso as interpretações às quais o autor se refere devem ser dosadas na medida em que estejam disponíveis à compreensão do jovem paciente.

Brodacz e Lewkowicz (in EIZIRIK et. al., 2005) afirmam que o “acting out”está para o adolescente, assim como o brincar está para a criança e a verbalização para o adulto, no acompanhamento psicoterápico. Compreendemos, segundo as autoras que é necessário ao adolescente atuar os seus conflitos dentro do “setting”, pois essa é uma das condições para que consiga encarar o processo terapêutico. Esses comportamentos podem ser exemplificados através das ausências sem motivos aparentes, a agressividade verbal e a forma de ignorar o objeto (terapeuta). A ação dirigida ao mundo externo, bem como vivenciada na relação transferencial possibilita que o adolescente consiga tolerar o caos do seu ambiente interno.

Assim, Kalina (1999) nos fala sobre a importância de o profissional ser capaz de suportar a agressividade do adolescente através da transferência, para que esse cliente sinta-se fortalecido diante de seus conflitos, com o apoio de seu terapeuta.

Por tudo isso, é necessário oferecer ao paciente um vínculo real suficientemente positivo, para que lhe permita tolerar a frustração que esta passagem determina, mas suficientemente distante, para ajudá-lo a fazer melhor a diferenciação entre os objetos primários e os objetos deslocados (p. 96).

Outra possibilidade de atuação em uma perspectiva de Psicoterapia de Orientação Analítica é o trabalho junto à família do adolescente. E, quando nos referimos ao termo família, geralmente estamos falando de um grupo onde os relacionamentos estão definidos e marcados por laços de parentesco estabelecidos (WADDELL, apud BOX, 1994).

Para Zimerman & Osorio (1997) a família não pode ser definida por um único conceito, pois não é passível de conceituação, mas sim de descrição. Os autores dizem que, ao falar de família cabe apenas descrever as modalidades e estruturas vivenciadas por ela, e não enquadrá-las em um conceito ou modelo pré-estabelecido. E ainda que, “(...) dizer que a família é a unidade básica da interação social talvez seja a forma mais genérica e sintética de enunciá-la” (p. 49).

Waddell (apud BOX, 1994) afirma ainda que o ingresso de novos membros na instituição familiar ocorre pelo nascimento. Sobre isso a autora destaca que o nascimento de uma criança no seio familiar, faz surgir uma realidade externa, através da formação de um triângulo no mundo externo que poderia existir anteriormente, apenas no mundo interno do casal.

No caso da família que possui um membro adolescente, há uma forte sensação de que todo o grupo familiar parece adolescer. Os pais vivenciam os mais variados sentimentos acerca da adolescência dos filhos e o apoio que são capazes de oferecer ao adolescente está intimamente ligado ao modo como sua própria adolescência (dos pais) foi vivenciada (KALINA, 1999).

No que se refere à psicoterapia familiar, Minuchin (apud CORDIOLI, 1998) criou uma teoria acerca da vida familiar, quanto aos objetivos e tarefas pertinentes a essa instituição, correspondente a independização dos filhos e ao envelhecimento das figuras parentais. Nesse modelo, o que antes era considerado e tratado como patologia individual, passa a ser concebida como a possibilidade de haver falhas e/ou rupturas na organização familiar. O autor se refere especificamente à adolescência, afirmando que esse período da vida representa uma ameaça iminente a coesão familiar e a “(...) manutenção do mito familiar que a organiza” (p. 477). Isso se evidencia, como ressalta Marcelli (apud CORDIOLI, op. cit.), principalmente quando se considera a adolescência como uma segunda fase de separação-individuação, que tem como resultado a autonomia e consequente saída de um dos membros da família.

No que se refere ao relacionamento entre o terapeuta e a família que está inserida ou começa a caminhar para o processo terapêutico, Waddell (apud BOX, 1994) afirma que esse relacionamento se firma a partir do momento em que os problemas forem admitidos. Não é um processo fácil, visto que esse reconhecimento dos problemas existentes frequentemente está focalizado em alguns indivíduos específicos, não sendo admitidos como problemas do grupo familiar.

A tarefa do terapeuta, então, é de desvendar o que está implícito no discurso e expressão das tensões ou desintegrações familiares. Desvendar, neste sentido, não significa simplesmente expor as questões pertinentes às relações familiares, anteriormente desconhecidas ou ocultas, sobretudo para que não seja compreendida pelos membros da família como uma atitude persecutória.

O papel do terapeuta é permitir a compreensão do que está, e tem estado, acontecendo na mente individual por um lado – os mecanismos intrapsíquicos – e tomar consciência da natureza e funcionamento dos fenômenos do grupo por outro – os mecanismos interpsíquicos (WADDEL, apud BOX, op. cit., p. 32).

Desse modo, compreendemos que a terapia familiar conquistou seu espaço e se apresenta como uma modalidade estruturada e bem reconhecida de tratamento psicológico, entendendo ainda que muitas famílias, embora não identifiquem a necessidade de buscar apoio psicológico, precisam de tal acompanhamento para que possam compreender seus conflitos e buscar, se possível, sua resolução (ZAWADA apud BOX, 1994).

A necessidade do trabalho terapêutico com a família de adolescentes se confirma ainda no que é trazido por Pratta e Santos (2007), quando afirmam que a literatura demonstra diversas evidências de que a família ainda exerce, no cerne da contemporaneidade, um importante papel no desenvolvimento de seus membros, sobretudo durante a adolescência.

Cano (in PRATTA e SANTOS, op. cit.) menciona que as novas configurações familiares, associadas ao modo como os pais foram educados e à formação dos novos padrões de relacionamento que surgem na atualidade, podem desencadear dificuldades na educação dos filhos. A preocupação dos pais com o desenvolvimento, com o modo mais adequado de educar crianças e adolescentes, e com a condução ideal para uma adultez saudável nunca se mostraram tão pertinentes e presentes nas discussões como em nosso tempo atual.

Em concordância com o autor citado acima, Nogueira (in PRATTA e SANTOS, 2007) afirma que as famílias ainda mantêm seu papel em destaque na sociedade atual, preservando o seu lugar central no que concerne ao desenvolvimento dos membros nela inseridos.

Por isso, compreendemos a importância de atuar junto à família no que se refere à escuta e consequente apoio aos pais, para que eles possam encontrar a forma mais adequada de lidar com seus filhos adolescentes, principalmente quanto à necessidade de reflexão e tomada de decisões. Com isso, encontramos uma forma de ajudar os pais a reduzirem suas angústias relativas à adolescência dos filhos, bem como para que esses filhos possam enxergar neles uma fonte de suporte emocional ao qual poderão recorrer no momento em que se encontrarem diante dos conflitos e dificuldades de ajustamento enfrentados nessa fase (PRATTA e SANTOS, op. cit.).

Outra alternativa possível para o trabalho com adolescentes é o processo grupal. Para tanto, consideramos importante destacar o homem como um ser gregário, dada a sua necessidade de agrupar-se, como forma de afirmar sua identidade e assegurar sua sobrevivência enquanto espécie. No entanto, o intuito de viver em grupo, ao contrário de outros animais, não está relacionado apenas à defesa dos perigos naturais ou multiplicação da capacidade de prover sustento e proteção, mas para demonstrar seu poder dominante e força sobre os seus semelhantes (ZIMERMAN e OSORIO, 1997).

É importante observar que, independentemente do modo como esses grupos são formados – espontânea ou artificialmente –, haverá de surgirem inúmeros fenômenos psicológicos – conscientes ou inconscientes – que tendem a se reproduzir nos mais distintos grupos ainda que possuam objetivos diferenciados, salvo algumas variações minimamente específicas. Por isso é necessário recordar as diferenças existentes entre os pequenos grupos pertencentes à área da psicologia e os grupos mais amplos – comunidades, sociedade, nações – que pertencem ao campo de estudo e atuação tanto da Sociologia como da Psicologia.

Para o trabalho com adolescentes, Zimerman e Osorio (op. cit.) consideram a psicoterapia (no caso) de base analítica de grupo a mais adequada para a atuação do profissional de psicologia junto a esse público. Sobretudo por “(...) corresponder à natural inclinação dos adolescentes de procurar no grupo de iguais a caixa de ressonância ou continente para suas ansiedades existenciais” (p. 321).

No entanto, é necessário estar atento às indicações e contraindicações desse tipo de trabalho com grupos de adolescentes. Os critérios utilizados para tal avaliação coincidem, geralmente, com o que se observa em outras faixas etárias. Assim, considera-se a grupoterapia indicada nos casos de pacientes neuróticos que estejam passando pela habitual crise adolescente e suas exacerbações e/ou variantes patológicas. A grupoterapia analítica está contraindicada para adolescentes com tendências psicopáticas, paranoides e com características psicóticas em geral.

Quando falamos acerca de agrupamento de adolescentes para um possível grupo terapêutico, é necessário considerar as diferentes faixas etárias e consequente fase de desenvolvimento de cada uma delas. Os subgrupos adolescentes se dividem da seguinte forma: os púberes (ou escolares do primeiro grau), com idades dos treze aos quinze anos; os intermediários (ou escolares de segundo grau), de dezesseis a dezoito anos; e os adolescentes tardios (ou universitários e/ou profissionais), dos dezenove anos em diante (ZIMERMAN & OSORIO, 1997).

Goldin (in ZIMERMAN e OSORIO, op. cit.) menciona que há problemáticas com características diferentes dentro de cada subgrupo. No caso dos púberes, há grande dificuldade na verbalização, e as defesas em destaque nessa fase são de caráter fóbico e obsessivo. Quanto aos adolescentes intermediários, a verbalização torna-se mais fluente, no entanto, a larga utilização da intelectualização como defesa tônica bloqueia o acesso ao psiquismo de modo mais profundo. Nos adolescentes tardios, a verbalização dos conteúdos conflituosos torna-se mais frequente, bem como a maior capacidade de “insight”.

Quanto à técnica utilizada, consideramos, segundo os autores, que a dramatização se sobressai em relação às demais técnicas, pois através delas buscamos obter “insight” sobre as manifestações inconscientes que se revelam nas situações críticas que emergem no grupo, através das representações vivenciadas.

Assim, Zimerman e Osorio (1997) concluem que a grupoterapia analítica oferece diversas possibilidades de atuação terapêutica junto aos adolescentes, uma vez que o grupo formado por seus pares é o local que oferece a dinâmica mais adequada para que o adolescente possa adquirir “insight” da “(...) condição e vicissitudes peculiares à crise normativa desta etapa evolutiva, podendo assim melhor elaborar os lutos pelas perdas que acompanham o necessário abandono da identidade infantil e preparar-se para bem usufruir as aquisições da emergente idade adulta” (p. 329).

Sabemos que grande parte das crianças e dos adolescentes passa um significativo tempo de seus dias na escola, assim, consideramos importante mencionar aqui algumas intervenções psicológicas que fazem parte da vida do adolescente inserido no contexto escolar. De modo geral, Minto et al. (2006) citam que as intervenções têm maior receptividade no adolescente quando estão envolvidos aspectos afetivos, cognitivos e sociais inter-relacionados, fazendo com que as informações sejam repassadas de maneira abrangente.

Pelicioni eb Torres (in MINTO et al., 2006) afirmam que as intervenções realizadas no âmbito escolar, que buscam promover a saúde, visam atingir um sujeito integral, inserido no contexto familiar, comunitário e social, cujo objetivo é desenvolver, no adolescente, a capacidade para o auto cuidado, no sentido de prevenir atitudes e comportamentos de risco, estimular a reflexão e a crítica sobre valores, modos de conduta e estilo de vida, no intuito de melhorar a qualidade de vida do jovem.

Mangrulkar, Whitman e Posner (in MINTO et al., 2006) afirmam que, para atingir tais objetivos, os métodos interativos são os mais indicados, visto que a capacidade de desenvolver habilidades deve estar intimamente relacionada com uma pedagogia ativa. A elaboração de um planejamento com estratégia bem definida é essencial para o trabalhado interventivo com grupos de adolescentes, uma vez que a exploração das habilidades individuais possibilita maior motivação e interação com o grupo, bem como valorização das vivências e partilha das experiências. As técnicas de trabalho em grupo são instrumentos preciosos que auxiliam os jovens na descoberta e aprimoramento de suas habilidades.

Oportunizar ao adolescente falar sobre suas próprias questões, sobre suas sensações, sentimentos e atitudes é essencial para que consiga desenvolver suas capacidades e se fortalecer diante das situações cotidianas. Intervir junto a ele visando à promoção de habilidades de vida implica considerar a importância dos afetos, da cognição e dos aspectos sociais, compreendendo que esses influenciam diretamente no comportamento humano. Intervir desse modo incentiva a promoção da saúde na comunidade em que os jovens estão inseridos.

Nesse sentido, Minto et al (op. cit.) destacam que, para planejar uma intervenção psicológica para adolescentes, sobretudo no contexto escolar, é fundamental que as ações (temas e técnicas) priorizem a flexibilidade e coerência com o ambiente e linguagem juvenil, para que haja motivação, implicação emocional e obtenção de conhecimento, com base na experiência dos temas abordados.

Em uma outra linha de atuação, podemos destacar a atuação do psicólogo forense junto aos adolescentes infratores. Compreendemos que esse profissional responde diretamente a uma demanda institucional específica, que corresponde a um trabalho de intersecção entre a Psicologia e o Direito, o que permite que a psicologia marque seu lugar de modo peculiar no âmbito jurídico (WHITAKER, 2010).

É importante destacarmos que a clínica com o adolescente infrator está mais dirigida para a questão da filiação e identificação do que para “(...) uma suposta perversidade individual” (p. 154). A cultura infracional passa a figurar como um tipo de idealização, onde jovens, em sua maioria do sexo masculino, provenientes da periferia, tendem a se inserir, porém, apesar de ser uma cultura pré-existente a esses adolescentes, como um ciclo vicioso, também é alimentada e sustentada por eles. Essa condição não se estabelece por acaso, mas o laço social se serve de sua construção e validação, que garante ao adolescente a capacidade de atingir uma identidade desejada.

Conforme mencionamos anteriormente, a necessidade de vinculação e formação de grupos na fase da adolescência é importante, também destacar que, no âmbito infracional isso não ocorre com menor frequência. Raramente um adolescente comete um delito sozinho, mas geralmente organiza-se em pares ou trios, formados para essa ação específica, porém, continua Whitaker (op. cit.), assim como essas formações grupais tendem a sustentar as práticas delitivas, também podem auxiliar na desvinculação de tal objetivo infracional, no sentido de que a prática profissional no campo jurídico leva a perceber que, de forma operacional, a formação de grupos de trabalho com funções especificamente distribuídas, e regras claras, auxiliam o adolescente a vivenciar uma nova experiência com uma lei exterior a ele, que reproduz a ideia de castração e o ajuda a assimilar o lugar da alteridade.

O psicólogo que atua nessa perspectiva precisa estar aberto a pensar criticamente e se preocupar em identificar questões relativas à subjetividade dos jovens que estão inseridos no contexto social do campo infracional, compreendendo que há grande diversidade de articulações a serem realizadas, para além das informações já estabelecidas e percebidas pela única ótica do ato transgressor (WHITAKER, 2010).

Assim, compreendemos que há no adolescente uma ampliação dos sentimentos de desamparo e vazio, ao se defrontar com o declínio da autoridade simbólica, muitas vezes representada pelas instituições sociais – vistas, anteriormente, como sinônimo de referência –, o que faz com que o indivíduo busque constantemente modelos identificatórios. Isso explica, segundo Moriconi et al. (apud CARDOSO, 2006), os motivos que levam o adolescente, no nosso mundo contemporâneo, a tentar se incluir no pacto social e, consequentemente, em um grupo que possa suprir sua necessidade de vincular-se às instituições que sejam sinal de referência.

Vimos neste capítulo que o profissional de psicologia está inserido em diversos âmbitos, podendo auxiliar o adolescente no enfrentamento de seus conflitos em situações extremas, como diante da punição por um ato infracional cometido; através do apoio à família, auxiliando os pais e demais componentes da família a melhor compreenderem seus filhos ou membros que estão vivenciando essa fase; ou através do próprio trabalho individual ou em grupo com adolescentes.

Compreendemos, assim, à luz de Pichon-Rivière e Taragano (1982) que o indivíduo encontra diversos modos de se relacionar com o mundo e isso prova que não há apenas um tipo de vínculo. As relações que o sujeito desenvolve em seu contexto social são mistas, uma vez que concentra, simultaneamente, diferentes estruturas vinculares.

Concluímos, ainda mencionando Pichon-Rivière e Taragano (op. cit.), que analisar os vínculos patológicos que o sujeito estabelece com as outras pessoas permite que o profissional compreenda se há algum tipo de perturbação no desenvolvimento estrutural normal da personalidade, possibilitando ainda que o psicólogo encontre a melhor forma de operar com seu paciente, no intuito de tornar possível a formação de vínculos menos danosos e mais saudáveis, contribuindo terapeuticamente, bem como preventivamente para a proteção de sua evolução sadia da personalidade.

4. Considerações Finais

No presente trabalho, buscou-se apresentar, inicialmente, alguns dos aspectos que tornam nossa sociedade contemporânea um ambiente competitivo, de mudanças constantes e tecnologias cada vez mais aprimoradas. Não é difícil percebermos o quanto a modernidade tem nos afetado de modo positivo, favorecendo o desenvolvimento e o atingimento de metas anteriormente inalcançáveis. Então, será que deveríamos questionar a nós mesmos se não estamos sendo ingratos por identificarmos alguns problemas emergentes num tempo de tantas evoluções? Será que estamos sendo ingênuos por achar que “tudo isso” tem nos causado algum tipo de dano irreversível?

(In)felizmente a bibliografia aborda diversos aspectos que nos levam a identificar que não temos agido adequadamente, sim, sobretudo em relação aos excessos. Percebemos que, ao falarmos sobre o mundo contemporâneo, o nosso olhar parece se voltar, automaticamente, para os desperdícios, o materialismo e o consumismo desenfreado. A sedução do consumo nos conquistou de tal maneira que dificilmente percebemos a ferocidade com que somos engolidos pela propaganda massificada e pela abundante oferta de produtos que “devemos” consumir.

E tudo isso se torna ainda pior devido ao fato de que a força desse movimento social atual tem nos tornado não apenas consumidores potenciais, mas produtos que parecem estar igualmente disponíveis para consumo. Afirmamos isso pautados na ideia de que, numa sociedade onde o que importa é a aparência, andamos nas ruas como se fôssemos vitrines ambulantes. Nesse sentido, o que carregamos internamente como sentimentos, anseios, projetos de vida parecem ter perdido a importância, uma vez que tudo o que “somos”, “temos” e “desejamos”, precisa estar no lado de fora, para ser visto e apreciado pelos demais.

Um dos aspectos mais significativos e característicos de nosso tempo é a tecnologia, e sobretudo o amplo acesso à Internet. De fato, temos nos percebido cada vez mais dependentes dessa “inteligência auxiliar”, tanto no campo profissional, como no âmbito pessoal. Vemos o quanto a Internet e a tecnologia em geral têm exercido cada vez mais poder sobre as pessoas, inclusive em relação ao modo como elas pensam e agem, o que se torna ainda mais preocupante. Principalmente pelo fato de muitos passarem os seus pensamentos ao modo “automático”, “sem filtro” sobre as informações que recebem e fornecem ao mundo, devotando à tecnologia toda confiança e fazendo dela sua própria voz. As relações tornaram-se virtuais e a liquidez dos relacionamentos modernos tornou as pessoas, assim como os objetos, inutilizados, simplesmente descartáveis.

Vendo isso, percebe-se que nossa sociedade caminha para o futuro como se desejasse esquecer o passado, como se fosse possível existir uma sociedade sem história. E, se essa empreitada continuar, não teremos a que nos apegar e seremos obrigados a viver flutuando num presente sem origem. Mas, se isso ocorre no contexto social, ocorre também no âmbito individual. Não é por acaso que a velhice tem se tornado sinônimo de inutilidade. Os velhos de nossa sociedade, antes considerados sinônimos de sabedoria e experiência de vida, tornaram-se, simplesmente, artigos obsoletos do nosso vívido mundo contemporâneo.

Entra aqui uma questão significativa à discussão psicanalítica atual, sobre a qual nos debruçamos no decorrer desta produção. Uma reflexão sobre o lugar da função paterna numa sociedade onde tudo é permitido e onde parece não haver lugar para os limites. Vimos, no início desta pesquisa teórica, que segundo afirmam os autores, Deus está morto e o homem tem lutado constantemente por esse “cargo”, buscando refazer o mundo com base na igualdade, sem uma hierarquia a seguir, esquecendo-se, no entanto, de sua origem. Visto que o homem, conforme estudamos, é um animal de horda e não de rebanho.

 Assim, não é difícil percebermos as semelhanças existentes entre o modo como a nossa sociedade atual tem se comportado e o imediatismo adolescente, que busca, muitas vezes de forma distorcida e aparentemente sem direção, um sentido para sua existência e, consequentemente, uma identidade que o defina como sujeito, uma vez que essa busca tem se tornado cada vez mais conflituosa diante da instabilidade social que acolhe esse jovem em desenvolvimento. Diante dessa realidade, alguns autores afirmam que nossa sociedade vive atualmente, assim como o adolescente, uma crise de identidade, onde busca, através da tentativa e erro, encontrar um caminho adequado a trilhar.

Numa sociedade onde prevalece a ausência de limites, assim como a aparente decadência da função paterna, a família tem deixado de exercer o seu papel fundamental. E com isso compreendemos que, embora essa célula também se encontre muitas vezes perdida sobre a melhor forma de educar os entes que dela fazem parte, é primordial que o adolescente encontre forças no seio familiar para sentir-se protegido e vinculado a uma base segura, onde possa buscar o apoio necessário para um desenvolvimento saudável. Pois, se essa base lhe faltar, é provável que ele busque no ambiente externo, fora dos laços de parentesco, a segurança e a lei que lhe são ausentes internamente. E, na tentativa de retomar a segurança, busque, fora do lar, algo que lhe forneça a sensação de estabilidade.

Com isso pode-se compreender as falhas que levam o jovem a enxergar no ato de delinquência a única possibilidade de se defrontar com uma lei que seja capaz de contê-lo em sua agressividade, ou, ainda, como a única possibilidade que encontrou de se fazer ver e aparecer para uma sociedade que, muitas vezes, parece duvidar de sua capacidade para executar atividades aparentemente adultas.

Diante disso, percebeuse a necessidade de o psicólogo estar atento aos conflitos que envolvem a adolescência, sejam eles conflitos internos, familiares, grupais e/ou sociais, compreendendo que o sujeito analisado pela Psicanálise é aquele implicado na cultura, cujo psiquismo é completamente influenciado pelo que o contexto social lhe permite assimilar.

Elucidou neste trabalho a abordagem do adolescente em uma perspectiva de psicoterapia individual de orientação analítica, onde foi possível exemplificar algumas das particularidades do trabalho com esse público.

Percebe-se, embasados pelo referencial teórico e em consonância com a experiência clínica vivenciada no estágio curricular, que não é difícil recebermos no consultório, para acompanhamento psicoterápico, adolescentes trazidos por seus pais ou responsáveis. Esses familiares, na maioria das vezes se direcionam às clínicas psicológicas muito mais pela dificuldade em saberem lidar com os conflitos desafiadores da adolescência, do que por problemas peculiares apresentados pelo jovem em desenvolvimento. Por isso, é necessário que o profissional de psicologia esteja atento às possibilidades de atender a essas demandas, lançando um olhar e uma escuta clínica para que consiga identificar a melhor forma de ajudar tanto o adolescente, como a sua família a vivenciarem essa fase de forma menos dramática e mais saudável.

Identificou na literatura apresentada que o trabalho em grupo com adolescentes também é uma alternativa possível e que tem demonstrado bons resultados, visto que o envolvimento dos adolescentes em grupos de identificação é uma das marcas dessa fase. Assim, também é possível utilizar o processo grupal a serviço do trabalho com adolescentes em conflito com a lei, entendendo que, do mesmo modo que os adolescentes que comentem atos infratores o fazem geralmente em grupos, também é possível ajudá-los para que em grupo consigam encontrar novas formas de se reinserirem no contexto social, descobrindo um novo jeito de lidar com as cobranças culturais que o cercam.

Numa perspectiva de atuação do psicólogo no âmbito escolar, entendemos que as intervenções funcionam melhor, quando agem focadas na prevenção e promoção da saúde, sobretudo quando envolvem aspectos afetivos, cognitivos e sociais, pautados na relação do adolescente com o mundo à sua volta. Desse modo, as intervenções que surgem apenas como forma de eliminar um conflito específico, ou que se detêm apenas às ações pontuais apresentam menor eficácia.

Isso posto, identificou-se que há diversas problemáticas envolvidas na adolescência, assim como há formas distintas de ajudar o jovem a superar e a passar de forma saudável por essa importante fase de desenvolvimento.

Assim, percebeu-se o quanto a Psicologia está envolvida em diferentes contextos e conteúdos presentes em nossa sociedade. Isso nos faz refletir sobre a necessidade de estarmos atentos não apenas ao sujeito que chega à clínica e ao seu conteúdo psíquico, mas a tudo que o envolve, enquanto membro de uma sociedade complexa e mutável como a nossa. Como vimos, o sujeito da clínica psicanalítica é o sujeito da cultura. É sobre esse indivíduo que nos debruçamos e dedicamos a nossa atuação profissional e estudo, no intuito de contribuir individual e coletivamente com a saúde e o bem estar psíquico.

Sobre o Autor:

Jéssica Caroline Silva Tenório - Psicóloga - Graduada pela Faculdade Frassinetti do Recife - FAFIRE.

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