Contos de Fadas e Arquétipos Inconscientes: uma análise do conto da Bela Adormecida

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1. Introdução

Há muito tempo os mitos e os contos de fadas estão presentes no imaginário do homem e desempenham um papel singular nas sociedades. Estas histórias sobrevivem ao longo dos anos, pois, contém símbolos universais que provém do inconsciente coletivo, que é “a parte da psique que retém e transmite a herança psicológica comum da humanidade.” [01] Mitos e histórias fantásticas acompanhados ou não de ritos ajudam o ser humano a lidar com problemas emocionais e pessoais que povoam sua psique, assim como a realizar difíceis passagens e segundo Hendersen: “alguns símbolos relacionam-se com a infância e a transição para adolescência, outros com a maturidade, e outros ainda com a experiência da velhice, quando o homem está se preparando para sua morte inevitável.[02] Isso acontece pois os mitos e os ritos possuem, para a psicologia analítica, um elo muito forte com os símbolos do inconsciente.

Os contos de fadas tem igualmente a função de lidar com dramas existenciais, dramas psicológicos inconscientes. Segundo Bruno Bettelheim: “enquanto diverte a criança, o conto de fadas a esclarece sobre si própria e favorece o desenvolvimento de sua personalidade.[03], isso se dá porque a partir dos contos de fadas é possível ter contato com os sentimentos mais profundos de forma menos ameaçadora, a criança consegue simbolizar aqueles sentimentos. Como por exemplo, o medo de uma mãe que se torna ameaçadora pode ser facilmente visto na figura da bruxa má, da madrasta, isso acontece porque “embora a mãe seja na maioria das vezes a protetora dadivosa, ela pode se transformar na cruel madrasta se for má a ponto de negar ao menino algo que ele deseja.[04], com isso a criança pode manter sua imagem da mãe boa “a salvo”.

O conto de fadas da Bela Adormecida está enraizado há muitos anos na cultura ocidental e segundo Marie-Louise von Franz isso se dá porque “ele reflete uma estrutura psicológica humana de base e portanto universal (...) ele exprime um  processo comum a todos os seres humanos.” [05] Isso faz com que o conto tenha também múltiplas versões, as mais conhecidas sendo a versão italiana “Sole, Luna e Talia” onde a heroína recebe o nome da deusa da beleza Talia, a versão francesa de Charles Perrault “La belle au bois dormant” onde há um príncipe/rei que encontra a princesa porém este já é casado com uma ogra(em algumas versões a mãe do príncipe que é uma ogra) e a versão dos irmãos Grimm que no inglês é chamada “Little Briar Rose” que serviu de base para o aclamado desenho animado dos estúdios Disney “A Bela Adormecida”, que também será analisado mais a frente.

Podemos perceber que os personagens heroicos, exceto os heróis trágicos, não possuem uma subjetividade muito grande, apenas executam tarefas e passam por etapas, logo se trata de “um modelo impessoal (...) são imagens de processos arquetípicos, aos quais falta o modelo humano, a vida real, individual e objetiva.[06] O herói ou a heroína são sempre seres humanos mas que são de uma forma ou de outra especiais. A autora Isabela Fernandes fala que essa imagem arquetípica do herói funciona de forma a “suprir as carências “existenciais” da comunidade ou do sujeito. Nos grandes momentos de crises e transformações culturais ou individuais, o arquétipo do herói é ativado para oferecer a comunidade ou ao homem um modelo ideal de comportamento frente a dificuldades. [07] No conto da Bela Adormecida, não só a princesa Aurora (ou em outras versões, Rosa) desempenha este papel como também o príncipe Phillip (em outras versões o príncipe/rei não possui nome), havendo então dois heróis no conto

2. A Bela Adormecida

O conto da Bela Adormecida trata da temática do desaparecimento de uma filha, temática esta não sendo nova e já vista em diversos contos e mitos como por exemplo o mito de Deméter, Perséfone e Hades onde a deusa Perséfone é raptada por Hades e é levada ao Érebo sendo levada assim para longe de sua mãe Deméter.

O nascimento da princesa acontece já em situações anormais e adversas. Uma rã (em algumas versões, um peixe) é que comunica a uma rainha que não conseguia engravidar que finalmente sua tão desejada gravidez irá se concretizar. Sobre esta rã e este anúncio miraculoso a autora Marie-Louise von Franz diz: “O aspecto irracional do nascimento do Herói ou da Heroína é uma prova de que não se trata de seres humanos, e sim de conteúdos psíquicos.[08] Mas ainda, além de ter o nascimento previsto por uma rã este ainda foi acompanhado por uma maldição lançada por uma fada má. Neste sentido o nascimento da princesa se encaixa em uma das etapas propostas por Campbell [09] (citado por FERNANDES) para a trajetória do herói, esta etapa seria o nascimento complicado.  No caso da Bela Adormecida, houve também um grande período de esterilidade pois há muito tempo a rainha desejava ter um filho e não conseguia. As condições do nascimento complicado vão fazer com que os pais (na versão dos estúdios Disney) entreguem a princesa para que as fadas a cuidem, logo esses pais vão abandonar a filha.

A maldição é lançada sobre a criança quando uma das fadas deixa de ser convidada, isso ocorre em algumas versões porque há talheres e pratos de prata insuficientes (irmãos Grimm) ou porque ela está reclusa em uma montanha há muitos anos (Perrault e possivelmente dos estúdios Disney). A história da deusa, neste caso fada, esquecida também não é algo novo, na mitologia grega em certa ocasião de festa os deuses do Olimpo deixaram de convidar a deusa Éris por esta ser a deusa da discórdia, a deusa apareceu mesmo assim e jogando uma maçã dizendo esta ser a maçã para a mais bela deusa provocou uma briga entre as deusas que mais tarde culminou na Guerra de Tróia. Pode-se notar uma tentativa de exclusão de algo que sempre retorna e então causa estragos ainda maiores, neste sentido trata-se de uma alusão a ideia de sombra da psicologia analítica, que deve ser integrada ao ego e que se deixada “de fora” ela se torna imensa, ameaçadora e devastadora. Para Henderson deve-se “entrar em contato com o seu poder destrutivo (...) para que o ego triunfe, precisa antes subjugar e assimilar a sombra.[10] Já para a autora Marie-Louise von Franz o tema da deusa esquecida refere-se a “mulher ignorada que não suporta a situação[11] e isso em nível arquetípico estaria ligado a um comportamento psicológico natural, que neste caso seria uma face do feminino, que está sendo negligenciado e esquecido.

A ideia de uma fada má é semelhante a ideia de uma madrasta já citada anteriormente. Após ser agraciada com presentes das fadas boas, figuras maternais boas, a criança recebe uma maldição da fada má, que seria o lado terrível do arquétipo da Grande Mãe.

Pode-se pensar na princesa como sendo também uma projeção humana desta fada má, a fada em si é o instinto puro, esse feminino indomável e a princesa é aquela que vai integrar este feminino e canaliza-lo.

A maldição lançada sobre a princesa é a de que ao completar 15 anos (16 anos em algumas versões) ela picará o dedo no fuso de uma roca e morrerá. Para atenuar este destino a última boa fada, que ainda não havia dado seu presente, a encanta para não morrer e sim dormir um sono de 100 anos até que um beijo doce a despertará. Diante deste destino os pais da princesa mandam queimar todas as rocas existentes no reino, esse ato pode ser visto como uma tentativa vã dos pais de evitar que a filha entre em contato com a sexualidade e assim evitar também este crescimento da filha. Para Bruno Bettelheim [12] a tentativa de evitar a maldição está profundamente ligada ao desejo de não crescimento dos filhos pois para ele a maldição da fada má simboliza a menstruação, o “sangramento fatal”, que a menina tem uma vez chegada a puberdade.

Na versão dos estúdios Disney, a criança é entregue aos cuidados das três boas fadas para que a crie escondida na floresta, no Chalé do Lenhador, para que depois de passado o tempo da maldição esta retorne ao palácio. Nesta altura podemos identificar outra etapa do herói proposta por Campbell(apud FERNANDES) [13], “a educação iniciática”, onde o herói ou heroína no caso é abandonado por seus pais verdadeiros e é criado por pais adotivos que são o oposto dos pais verdadeiros. No caso da princesa que cresceria em meio ao luxo e um tanto quanto mimada pela mãe, por ser uma filha única e muito deseja, ela crescerá então em meio a floresta em um chalé simples e bastante próxima da natureza. Segundo Isabela Fernandes: “a educação inciática possui as características simbólicas de um rito sagrado.[14] E isto se deve ao fato de que prepara o herói para a aventura.

Apesar de todos os esforços para afastar da princesa a maldição, esta se concretiza mesmo assim mostrando serem inúteis os esforços dos pais para evitar este encontro com o amadurecimento, mais cedo ou mais tarde essa princesa terá de morrer. Em algumas versões a princesa está andando sozinha pelo palácio e em outras(estúdios Disney) ela é hipnotizada, mas em ambas ela encontra um quartinho com uma chave na fechadura onde há uma velha senhora fiando. Segundo Bettelheim: “um quartinho trancado costuma representar, nos sonhos, os órgãos sexuais femininos; girar uma chave na fechadura com frequência simboliza a cópula.[15] É importante ressaltar o fato de que a princesa está sozinha neste momento quando sua maldição se cumpre e “a ausência temporária de ambos os pais quando este fato ocorre simboliza a incapacidade de todos os pais de protegerem a criança das várias crises de crescimento pelas quais todos os seres humanos tem de passar.[16] Por mais que os pais tentem não podem evitar que a fatídica “morte” aconteça.

Aqui há uma ideia de um sono com simbolização de morte, um sono de longos 100 anos. Podemos dizer então que há uma katábasis da princesa, sua descida ao reino dos mortos para então renascer. Esse sono de 100 anos é uma morte simbólica que a princesa precisa passar para retornar então com uma maturidade interior alcançada. Esta morte simbólica simboliza a morte de um estado anterior infantil, é o sacrifício do “velho eu” [17] para que possa então permitir um crescimento e um amadurecimento. Segundo Isabela Fernandes: “a morte simbólica representa o despedaçamento de estágios ultrapassados do indivíduo, a superação dos desejos regressivos e dos medos que dominam o sujeito na sua passagem para o mundo adulto.[18] Essa descida a morte também pode estar relacionado com a entrada em contato com o masculino inconsciente, chamado pela psicologia analítica de ânimus.

Quando a princesa adormece, o castelo também adormece junto e é tomado por espinhos. Esta imagem é semelhante a imagem do mito de Perséfone que quando é raptada por Hades e “desaparece” sua mãe Deméter faz toda terra secar enquanto sua filha está desaparecida.

O despertar da princesa ocorre a partir do beijo do príncipe/ rei porém em algumas versões ele só ocorre depois de passado o período de 100 anos previstos na profecia havendo antes vários príncipes que ficaram presos e mortos nos espinhos por tentar adentrar o castelo antes do prazo determinado. Segundo Bettelheim [19] isso significa que  o despertar sexual antes do tempo de maturação terminado(simbolizado pelo sono) pode ser extremamente destrutivo. E também a autora Marie-Louise von Franz segue nesta linha ressaltando que em situações que dependem do princípio feminino o tempo é essencial e que nada deve tentar prolongar ou reduzir este tempo. [20] O beijo do príncipe simboliza tanto o despertar sexual quanto a integração do ânimus por parte da princesa e assim o fim de seu processo de individuação e de sua maturação.

Mas já em relação ao príncipe em algumas versões o “final feliz” terá de ser retardado por mais algum tempo. Segundo Henderson [21] a missão de salvar uma donzela em perigo simboliza a missão do homem de integrar sua ânima, feminino existente dentro da psique masculina. Em algumas versões [22] o príncipe ou abandona a princesa (após o casamento) aos cuidados de sua mãe ogra que pretende devora-la e aos filhos que ambos tiveram e parte para guerra ou, na versão de Perrault, retorna ao reino sem contar ao pai que havia se casado e somente após a morte de seu pai é que assume a esposa e os filhos. Na visão da psicóloga Marie-Louise von Franz [23] isso significa que o príncipe ainda não esta amadurecido o suficiente em sua afetividade e virilidade para poder assumir um casamento. Em palavras da mesma: “Ele é incapaz de afirmar-se diante do pai (...) é uma atitude de adolescente ainda enrolado nos Complexos parentais, e parece que precisa enfrentar o fogo dos combates para tornar-se enfim um homem capaz de viver feliz no casamento.[24] Em todos as versões do conto o príncipe consegue superar suas dificuldades e ambos vivem felizes para sempre.

Tanto o príncipe quanto a princesa neste conto passam pelo Processo de Individuação em que cada um, de sua forma, consegue cumpri-lo e vencer as dificuldades. A mulher de forma um tanto mais passiva, feminina, sua longa morte. O príncipe mais heroico e ativo porém igualmente complicada e enredada passagem, onde tem de enfrentar seus pais e assumir seu casamento.

Sobre o Autor:

Juliana Rodrigues - Graduanda em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Referências:

BETTELHEIM, Bruno, A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo, Editora Paz e Terra, 2010.

CAMPBELL, J., O Herói de Mil Faces, 1988, p. 59-101 In: FERNANDES, I. , A Imagem Mítica do Herói.

FERNANDES, Isabela, A Imagem Mítica do Herói

FRANZ, Marie-Louise, O Feminino nos Contos de Fadas. Petrópolis, Editora Vozes, 2010.

HENDERSON, Joseph L., “Os Mitos Antigos e o Homem Moderno”, In: Jung et alli, O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2011.

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