Investigação da Relação Transferencial e Contra Transferencial no Processo Terapêutico: um Estudo de Caso na Abordagem Junguiana

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Resumo: O presente artigo é um estudo de caso de uma paciente de quarenta e quatro anos e teve como objetivo, investigar a relação transferencial e contratransferencial, bem como a formação de vínculo no processo terapêutico, além de relatar os aspectos emocionais, as situações vivenciadas na prática, e a importância do estágio supervisionado para uma aluna do curso de psicologia. Para embasar teoricamente o conceito de transferência e contratransferência, foram utilizados textos de Mario Jacoby e Carl Gustav Jung, além de artigos pesquisados em bancos de dados e em sites na internet.

Palavras-chave: Transferência, Contratransferência, Relação Paciente-Terapeuta, Processo terapêutico, Estudo de Caso.

1. Considerações Iniciais

O Estágio supervisionado se faz importante no sentido que oportuniza possibilidade de vivenciar na prática as ações transformadoras de um contato profundo, humano e genuíno voltados para o cuidar do outro, manejo que demanda flexibilidade no lidar ambivalente, dialético, em encontros que promovem transformações, onde as subjetividades individuais entram em colóquio, o que resvala em novos sentidos e significados existenciais para os envolvidos.

A tarefa não é simples para o aluno que se depara com uma nova “persona”, o papel de psicólogo, no qual é responsável pelo cliente, diante dos colegas, do supervisor e também da instituição (no caso o Serviço de Psicologia da Faculdade da Cidade do Salvador).

Desenvolver uma atitude clínica frente a todos os envolvidos fundamenta-se na concepção que esse aluno tem dos diversos papéis que representa: amigo, colega, aluno etc., e da compreensão e apropriação do papel de psicólogo que precisa incorporar e se apropriar nas situações apresentadas. Nesse momento, expectativas, fantasias ocultas ou dissimuladas quanto aos respectivos papéis dos envolvidos no processo, se efetivam de forma contundente, fato que a prática clínica supervisionada, ajuda a desmistificar e a interiorizar: o papel de psicólogo.

É de fundamental importância manter uma atitude ativa nesse processo, não uma absorção passiva dos procedimentos que estão sendo aprendidos: é necessário sentir cada momento, pois segundo Danilo Cruz, meu supervisor, “só faz sentido se for sentido”.

Nessa fase da vida profissional, o medo que os pacientes abandonem o tratamento, o não dar conta de criar um vínculo faz-se presentes inicialmente, o que momentaneamente traz insegurança e coloca em xeque a competência de não estar desempenhando de forma eficiente a tarefa profissional. Dá medo de "fazer feio" diante dos colegas, do supervisor, de si mesmo e temem-se críticas destes, ao se expor. Entretanto, essas manifestações vão se dissipando na medida em que se sente o ambiente da supervisão acolhedor, sigiloso e confiante, o que oportuniza o crescimento individual e do grupo.

Neste momento do curso ao deparar-se com a prática, só o conhecimento teórico não é suficiente, a confrontação com conteúdos emocionais, o lidar de forma habilidosa com estes, exige um esforço pessoal enorme no sentido de convertê-los em instrumentos de trabalho.

Dessa forma, resolvi investigar de forma prática através de um estudo de caso, algo que envolve as relações no processo terapêutico e que para mim se constitui num momento crucial onde tudo começa a acontecer, a transferência/ contratransferência e a formação do vínculo.

2. Fundamentação Teórica

A situação de dependência e autonomia do paciente para com o terapeuta diz respeito à relação de transferência e contratransferência que se estabelece entre eles – para Jung (1985), esses dois fenômenos acontecem ao mesmo tempo e significam a mesma coisa.

A empatia, atitude que o terapeuta experimenta a partir do momento que se coloca no lugar do paciente e o acolhe deixando-o a vontade, oportuniza o surgimento dos processos transferenciais e contratransferenciais, o que favorece a psicoterapia, pois promove a adaptação do paciente ao processo, ajudando-o na resolução dos seus conflitos Então é de suma importância que este profissional preste bastante atenção aos seus sentimentos, pois o efeito da terapia está relacionado, dentre outras coisas, com o grau de doação do terapeuta.

Segundo Scarpato (2011), quando o terapeuta consegue estabelecer um vínculo positivo, empático e confiante com seu paciente, aí surgem o fator realmente mais importante de todos para o sucesso de uma terapia. Este fator é o paciente. A importância da contribuição do cliente é extraordinária, quando comparada com outros fatores. Sem essa contribuição nenhuma mudança se faz em nenhuma psicoterapia, seja ela de que abordagem for.

É imprescindível para a compreensão desse estudo a apresentação do caso que irei abordar. Trata-se da paciente que denominei de Rosa, primeiro nome que veio a mente a fim de preservar sua identidade, sexo feminino, quarenta e seis anos, solteira, a caçula de três irmãs que veio para a terapia por vontade própria e em busca de alívio para a dor pela perda do genitor. Sempre morou com os pais e atualmente, após a morte do pai, reside com a mãe e uma das irmãs. Inicialmente relatou não ter problemas no convívio familiar, entretanto no decorrer da terapia as queixas quanto a esse aspecto foram contundentes. Gosta de usar roupas relativamente curtas, enfeitar-se. Sempre foi sustentada financeiramente pela família. É professora primária, apesar de ter dificuldade em interpretação de texto, cálculos matemáticos, redação e não conseguir ser admitida nas empresas onde se candidatou a uma vaga de emprego, pois não consegue passar nas seleções a quais se habilita, “perde” nos testes.

Solteira, teve a primeira relação sexual aos vinte e um anos, nunca teve um relacionamento sério e está sem namorar há algum tempo. Possui um comportamento dionisíaco, oscilação de humor, ansiedade, tremores nas mãos quando nervosa e uma intrincada relação de dependência das pessoas. Padrão de relacionamento instável e intenso variando rapidamente entre ter um grande apreço por certa pessoa para logo depois desprezá-la. Comportamento impulsivo principalmente quanto a gastos financeiros, padrão recorrente de emoções sucessivas e de busca por atenção, tendência a dramatizar, comportamento sedutor, carente afetiva, exibicionista, exigente e lábil (muda facilmente de atitudes e de emoções). Transita do amor ao ódio com muita facilidade a depender do grau de satisfação em que se encontra. Esteve em atendimento por um ano com uma colega que concluiu o curso e por mim desde o início do oitavo semestre, há quatorze sessões.

Percebo na sua forma de se comportar, algumas características que me levam a supor hipoteticamente e que provavelmente serão corroborados ou contraditos posteriormente, tratar-se de alguns traços dos transtornos de personalidade Boderline e Histriônico.

Sabe-se que os transtornos de personalidade são maneiras de “ser” assim e não de “estar” assim. São estados e tipo de comportamentos característicos que expressam maneiras da pessoa viver e de estabelecer relações consigo mesma e com os outros. Fazem sofrer tanto a pessoa quanto quem as rodeia.

Quero evidenciar, que a questão aqui levantada não é critério preponderante para que o processo terapêutico se efetive, mesmo porque não é meu objetivo fazer diagnóstico através dos sintomas e sim entender toda a subjetividade que permeia e alicerça essa alma que fala através de características peculiares. Pretendo ter uma atitude diferencial, propor situações que digam respeito a minha paciente em sua totalidade e não apenas limitá-la a sua sintomatologia.

 Percebi em mim, nos atendimentos iniciais, certa animosidade e distanciamento, em relação à paciente. Seu discurso continuava o mesmo, apenas o estado de humor se alternava, mudando de um atendimento a outro consideravelmente. Entretanto, a partir do quarto atendimento, quando ao emitir um relato ela se mobilizou, chorando muito e externando sentimentos através de um processo catártico, a minha alma foi tocada e por um momento a “senti”, num processo de contratransferência, colocando-me no seu lugar. A partir desse momento, passei a ter um sentimento empático a seu respeito, comecei a adentrar no seu mundo e a efetuar as primeiras trocas de um “método” contínuo e inter-relacional.

A seguir acredito ser pertinente trazer a fala da paciente que ratifica o que me proponho a investigar. Tentando identificar a respeito da transferência perguntei o que era pra ela uma pessoa dedicada. Respondeu que era uma pessoa que tem “respeito, responsabilidade e gosta do que faz” (sic). Ao relacionar a uma pessoa que conhecia disse ser R, seu amigo. Pude constatar então, que ao me considerar uma pessoa dedicada na sessão anterior, estou a ocupar numa relação transferencial, o lugar de R. Dessa maneira, percebi que a partir desse momento a terapia passou a acontecer e a paciente iniciou nas sessões posteriores a etapa da confissão que segundo Jung (2011) faz parte do processo inicial da terapia que se constitui de mais três, o esclarecimento, a autoeducação e a transformação.

À medida que os relatos foram acontecendo, colocando-me às vezes em seu lugar, sentindo suas dores, mergulhando em seus devaneios, ouvindo sem julgamentos os seus “eus,” o contato foi tornando-se mais efetivo e intimista, facilitando o desabrochar dos aparatos psíquicos envolvidos no processo.

“Agora, tem uma coisa que não posso falar para você. Uma coisa muito feia, errada, avassaladora, se minha mãe souber, chorei muito, qualquer coisa me irrita” (...). Estou apaixonada e estou fugindo disso (...).Ele é muito novo, não tem maturidade,quero uma pessoa que me dê segurança(sic).

Segundo Scarpato (2001), o ser humano nasce, cresce e vive em ambientes vinculares. Destes ambientes depende seu bem estar e suas realizações na vida. Os problemas vinculares - da primeira infância à terceira idade - afetam profundamente a capacidade que as pessoas têm de amar, trabalhar e viver.

A base de uma eficaz terapia está na afinidade terapêutica. Um dinâmico e eficiente procedimento terapêutico se desenrola num espaço clínico com uma vinculação que favorece este processo. Aí está um dos mistérios desta conectividade: criar um espaço que permita o mergulho no mundo interno, a revelação do mesmo e favoreça a ampliação da atuação peculiar de cada um. Neste clima inter-relacional, adentramos com nosso aparelho simbólico numa relação genuína, onde o método utilizado de forma singular favorece as consciências e inconscientes atuarem de forma dialética e ambígua possibilitando ao ser mais camuflado e amedrontado se mostrar, se confessar, ser ouvido, esclarecido e transformar-se em busca da individuação.

Segundo Palhares (2008), a transferência em si já nos fala de algo vivo. Isso porque ela emerge do contato emocional dos pacientes com a situação analítica. No entanto, hoje sabemos que exatamente o acontecimento transferencial também induz o analista a produzir uma resposta emocional frente ao seu paciente. Considerando essas duas vivências, podemos enunciar a vivacidade do encontro analítico. Para isso é preciso sublinhar que esse encontro enlaça duas pessoas– e esse enlace envolve afetos, sentimentos, vivências inconscientes que vão engendrar mutualidade, o que nos permite dizer: estamos falando de um tratamento que se insere no âmbito da intersubjetividade. Ambos, assim paciente e analista, estão irremediavelmente vivos.

O reconhecimento da Transferência na análise foi feito primeiramente por Sigmund Freud, que utilizou o termo para se referir ao fenômeno de que “desejos do passado, reprimidos ou não satisfeitos, tendem a se transferir para um novo objeto, neste caso, o analista” (JACOBY, 2011). Em seus estudos e prática com a hipnose, Freud percebeu que muitos pacientes resistiam à técnica, por isso procurou investigar a causa desta resistência em se deixar ser hipnotizado. Dentre as causas descobertas, descreveu o fato de que alguns pacientes descobrem que estão “transferindo” para a pessoa do analista certas fantasias vergonhosas que inconscientemente gostariam de ter concretizado no passado (JACOBY, 2011).

Continuando seus estudos sobre o fenômeno, Freud concluiu que a ocorrência da transferência podia trazer muitas vantagens para o processo de cura. “Ela reativava os desejos e as experiências reprimidas na infância e assim conduzia ao âmago da neurose” (JACOBY, 2011). Entretanto, ao mesmo tempo em que começou a perceber que tal fenômeno era necessário para a dita cura psicanalítica, Freud também notou que ele pode boicotar a cura rápida, ao criar uma dependência do analisando em relação a seu analista. Assim, o manejo da transferência torna-se condição sine qua non para o sucesso da terapia. Neste sentido, Freud afirma que é necessário ao terapeuta manter-se afastado de qualquer reação emocional, pois, sendo uma forma de neurose, a transferência reflete um desejo do paciente de permanecer dependente de seu analista.

Jung considerava a concepção de Freud por demais limitada e unilateral. Contudo, o seu entendimento sobre o fenômeno da Transferência não foi sempre o mesmo, pelo contrário, após o seu rompimento com Freud em 1912, ele parecia minimizar a importância da transferência:

“Transferência ou não-transferência, isso não tem nenhuma relação com a cura... Se não houver transferência, tanto melhor. Você obtém o material da mesma maneira. Não é a transferência que possibilita ao paciente trazer à luz os elementos: você obtém dos sonhos todo o material que poderia desejar” (JUNG,2004, apud JACOBY, 2011, p.12).”

Para Jung, dois importantes fatores pareceram ter sido negligenciados na visão freudiana da transferência. Conforme explica Jacoby (2011, p.26):

Em primeiro lugar, Freud estava preocupado apenas com a causa da transferência. Jung achava que a transferência era uma ocorrência inteiramente natural em qualquer relacionamento e, por isso, também ocorre com frequência no decurso da análise. Assim, ela não apenas deve ter uma causa como também uma finalidade. Ele se tornou interessado na questão sobre qual o significado que a transferência poderia ter. Em segundo lugar, Freud acreditava que a transferência era uma repetição de experiências reprimidas na infância. Isso significaria que somente o material da história da vida pessoal, o inconsciente pessoal, estaria envolvido nela. Entretanto, num fenômeno tão importante, tão profundo e que ocorre com tanta frequência como a transferência, poder-se-ia esperar que elementos arquetípicos do inconsciente coletivo também entrassem em ação.

Considerando-se, portanto, que conteúdos arquetípicos inconscientes estão envolvidos na relação transferencial, conclui-se que os motivos para a ocorrência do fenômeno não poderão ser simplesmente uma repetição de situações da vida pessoal passada.

Para Jung, a transferência é uma forma de projeção, ou seja, “elementos psíquicos que pertencem às experiências subjetivas, intrapsíquicas, são vivenciados no mundo exterior em relação a outras pessoas ou objetos” (JACOBY, 2011). Isso denota que não estamos conscientes de que estes elementos fazem parte da nossa estrutura psíquica, entretanto devemos estar atentos a eles, uma vez que são nestes fatores inconscientes que encontramos as causas para nosso desenvolvimento futuro.

Sendo assim, a observação dos conteúdos projetados e transferidos para o analista fornece importantes indicativos para este, mostrando possíveis áreas de crescimento para o paciente. Para Jung, a transferência não era necessária, mas era algo que deveria ser cuidadosamente observado quando se faz presente. (JACOBY, 2011)

Em 1905, diante do fracasso do caso Dora, Freud escreve:

O que são transferências? Elas são novas edições ou fac-símiles de impulsos e fantasias que são despertadas e tornadas conscientes durante o progresso na análise; mas elas têm essa peculiaridade, que é uma característica particular, de que elas substituem alguma pessoa primitiva pela pessoa do médico. Colocando em outras palavras: toda uma série de experiências psicológicas são revividas, não como pertencentes ao passado, mas aplicadas ao médico no momento presente. […] Dora atuou um fragmento essencial de suas lembranças em lugar de relembrá-los (Freud, 1905/1974)

O trajeto do tratamento se movimenta incluso no drama e na trama transferencial, perpassando entre passado e presente, entre impedimento e desempenho terapêutico, entre uniões e repúdios a manobra clínica, configurando enigmas que manifestam a particularidade de cada paciente. Acredito que o amparo a esta singularidade leva o paciente a se sentir reconhecido e a depreender uma transferência que propicia um despojamento e um confiar-se ao terapeuta. Dessa forma, ao ouvir minha paciente relatar: “Lícia, ainda tenho muita coisa para te contar” (sic), de forma tão espontânea e amigável, pude constatar que o processo terapêutico que estamos desempenhando é propício para o desabrochar dessa singularidade.

Um olhar sobre os aspectos envolvidos na relação analítica é absolutamente necessário para o processo terapêutico, mas, como frisa Jacoby (2011), alguns destes aspectos podem favorecer este processo, enquanto que outros podem retardá-lo.

O contato de duas almas humanas na relação analítica é permeado de nuances que influenciam diretamente o processo que será estabelecido. Os envolvidos trazem consigo uma história, sendo que o analista precisa se despir de preconceitos e ajuizamentos a fim de estabelecer uma relação de empatia com o indivíduo que se encontra em sua frente. Entretanto, alguns aspectos conservam-se presentes ou serão acionados em determinados momentos, descrevendo relação de Transferência/ Contratransferência estabelecida. Alguns autores trazem que essa relação acontece concomitantemente e recebe o nome de cotransferência. Daí a importância do constante e profundo trabalho pessoal do terapeuta, a fim de impossibilitar o surgimento de projeções, aspectos ainda sombrios, interferirem nessa relação. Afinal, “o terapeuta só pode levar o paciente até onde ele foi.” (JUNG, 2004).

A transferência é um processo alquímico, transformador, onde os aparelhos psíquicos dos envolvidos se estruturam através da combinação entre conscientes e inconscientes favorecendo a percepção da dinâmica psíquica no procedimento terapêutico.

O analista deve ser conhecedor da possibilidade constante de ocorrerem projeções inconscientes também de sua parte, a chamada contratransferência. Enquanto que Freud reconhecia a contratransferência como um perigo para o analista, devendo ser eliminada da análise, Jung considerava-a como um fenômeno inevitável e do qual o analista deveria estar tão consciente quanto possível. É fato que, com frequência, as observações do paciente ou seu comportamento poderão atingir um determinado ponto fraco ou delicado do terapeuta.

O terapeuta deve estar constantemente ciente de ambas as possibilidades (transferência/ contratransferência) JACOBY, 2001 e precisa diferenciar uma da outra da melhor forma que conseguir. Algo relevante que busquei identificar no decorrer da condução do caso, nas sucessivas sessões e que certamente corroboraram para a tomada de consciência do processo e um fluir da relação terapêutica.

3. Considerações Finais

O trabalho reflexivo desse artigo foi motivado no caso de uma paciente, onde observei que, só a partir da efetivação da relação transferencial e contratransferencial, foi estabelecido o vínculo entre nós, o que propiciou o andamento da terapia.

Percebi nesse trabalho, que a atitude clínica impessoal, baseada apenas em teorizações não me levavam a sentir minha paciente, escutar sua alma, sua verdadeira demanda. Precisei abdicar às vezes da minha postura apolínea consciente e deixar o lado dionisíaco inconsciente relacionar-se com a consciência de Rosa escancarada à minha frente, oportunizando o surgimento de intimidade que favoreceu todo o processo. Só assim pude escutá-la, estabelecer a conectividade, pois inicialmente a dificuldade era intensa em acompanhar seu discurso desorganizado e volátil aos meus ouvidos.

Não foi fácil, pois a paciente veio mergulhar em si mesmo, ou em mim mesmo, e só através de uma relação genuína, investigativa a fim de compreender seu psiquismo, iria ajudá-la na estruturação do suposto caos em que se encontrava. Foi inevitável o surgimento da insegurança, do medo do novo e dos desafios em exercer a nova persona, a de terapeuta.

Como sensação que sou, um dos quatro tipos psicológicos identificados e estudados por Jung, na ânsia de acertar sempre, do perfeccionismo, de ter tudo delimitado e determinado previamente, sofri horrores, quebrei paradigmas, confrontei-me com aspectos sombrios, mas fundamentais para essa nova configuração, o papel de psicóloga.

Nas supervisões, a postura do meu supervisor e colegas, algumas vezes contestadas por mim, demonstrou que os processos transferenciais/contratransferenciais/citados por alguns autores, permeiam as relações humanas de forma unânime, interferindo no sentir e no atuar peculiar de cada um dos envolvidos. Dessa forma, entendo as relações de forma geral como aspectos importantíssimos na formação de vínculos e a transferência e contratransferência como questões cruciais no nosso trabalho clínico, e um dos grandes instrumentos que sustentam o processo terapêutico.  

É um encontro alquímico e inevitável que acontece no setting, sustenta os procedimentos psicoterápicos e encontra-se sempre presente, permeando e norteando o que está mobilizando nossos aparatos psíquicos.

Sobre o Autor:

Lícia Maria Madureira Lucena - Psicóloga, pós-graduanda em Saúde Mental pelo IDEP (2013), com ênfase em Saberes e Fazeres no campo da Atenção Psicossocial. Atualmente atua como Psicóloga Clínica, e Coordenadora do Serviço de Psicologia do AMAR - NATA (Núcleo de Atendimento Terapêutico). Possui experiência em atendimento clínico psicológico, com enfoque na Psicologia Junguiana, bem como aprimoramento em Psicologia no contexto hospitalar pelo Hospital Universitário Prof. Edgar Santos (2010), e Hospital da Cidade (2010). Tem Formação em Saúde Mental: Acompanhamento Terapêutico, e experiência nas áreas de Psicologia da Saúde, Hospitalar, atuando nos seguintes temas: Paciente com Doença Renal Crônica, Acompanhamento Terapêutico, Atenção domiciliar.

Referências:

AGUIRRE, Ana Maria de Barros; HERZBERG, Eliana; PINTO, Elizabeth Batista; BECKER, Elisabeth; CARMO, Helena Moreira e Silva; SANTIAGO, Mary Dolores Ewerton. A Formação da atitude clínica no estagiário de psicologia. Rev.Psicol. USP vol.11 n.1, São Paulo 2000. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642000000100004. Acesso em 09 set. 2012

JACOBY, Mario. O encontro analítico: Transferência e relacionamento humano. Tradução de Ana Paula Garbuglio-Petropólis, RJ: Vozes, 2011.

JUNG,Carl Gustav. A Prática da Psicoterapia: Contribuições ao Problema da Psicoterapia E À Psicologia Da Transferência/C.G.Jung; Tradução de Maria Luiza A Ppy; Revisão Técnica de Dora Ferreira da Silva. - 14 Ed.- Petropólis Vozes, 2001.

PALHARES, Maria do Carmo Andrade. Transferência e contratransferência: a clínica viva. Rev. bras. psicanál, São Paulo, v. 42, n. 1, mar. 2008.

SCARPATO, Artur Thiago. Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico. Rev.Hermes do Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, número 6, 2001, p 107-123. http://www.psicoterapia.psc.br/scarpato/t_vinculo.html. Acesso em 09 set.2012.

Uma introdução a psicoterapia. Rev. Psicol. teor. prat. v.11 n.1 São Paulo jun. 2009. Acesso em http://www.psicoterapia.psc.br/scarpato/psicoter.html acessos em 09 set. 2012

Transtorno Somatoforme. http://www.psicosite.com.br/tra/sod/somatoforme.htm#somatização. Acesso em 01/11/2012.

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