O Jovem e a Descoberta do Mito Pessoal: mobilizadores e bloqueadores

(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: Neste trabalho, pautado na abordagem analítica junguiana, refletiremos acerca do jovem e da descoberta do mito pessoal, entendido como convocação do Self; tendo em vista o processo de individuação e ainda, possíveis aspectos mobilizadores e bloqueadores no decorrer do processo. Após breve consideração do contexto histórico, buscaremos definir o termo mito pessoal e relacioná-lo com o conceito de individuação. Ser e viver, segundo uma mitologia própria, ou melhor, segundo uma designação pessoal, desenvolver a personalidade, estão intimamente ligados com às escolhas que fazemos. Somos mobilizados, tanto interna quanto externamente, a viver sendo ‘fiéis à própria lei’. Contudo, este movimento só se efetivará se pudermos escolher nosso próprio caminho. Enriquecemos nossa reflexão com testemunhos de jovens. Não obstante a suposta ‘falta de sentido’, vislumbramos possibilidades, os percebemos como sendo ‘provocados’ a ter uma nova percepção acerca de si mesmos. No entanto, eles necessitam encontrar espaços temênicos, nos quais sintam-se mobilizados, despertados, para tomar suas vidas como próprias; onde eles possam acolher o chamado do Self e percorrer o caminho da individuação com mais consciência.

Palavras-chave: Mito pessoal, Individuação, Sentido da vida, Escola, Educação, Psicologia Analítica

1. Introdução

A meta de toda nossa existência é alcançar a Individuação, compreendida, segundo a concepção analítica junguiana, como a realização mais plena possível de nossas potencialidades, processo este construído ao longo de toda vida; que, por sua vez, possui como marco inicial a descoberta do mito pessoal, entendido aqui como o chamado fundamental, ou seja, aquilo para o qual o ser humano é convocado a realizar segundo suas características pessoais. Estar consciente deste chamado e da missão à qual se é convocado face a determinado modo de vida  é condição sine qua non para se viver com sentido e ser “fiel à própria lei.” (JUNG,1982)

Por acreditamos que a linguagem que mais nos toca é a simbólica, usaremos a palavra mito pessoal, equivalente à vocação, compreendida como o chamado da psique para vivermos a vida que por nós é para ser vivida. Comumente relacionamos vocação à profissão, porém, nossa proposta aqui é compreender melhor o sentido do chamado em nossa vida, que transcende a realização profissional, diz respeito àquela porção genuína na história da humanidade que somente eu devo revelar.

 No contexto atual, principalmente entre os jovens, percebe-se uma considerável valorização da chamada realização pessoal, para maioria está relacionada com a escolha de uma profissão rentável. Faz-se necessário um olhar atento para aspectos subjetivos, para questões as quais mobilizam as escolhas, nem sempre vão ao encontro do mito pessoal. Neste sentido, questionamos: os jovens possuem consciência do mito pessoal? Quais são os aspectos que os mobilizam a escolher, seja uma profissão ou outro modo de ser no mundo que proporcione o desenvolvimento da personalidade? Ou o contrário, o que bloqueia, limita esta escolha? Como a psicologia analítica pode contribuir para a tomada de consciência do mito pessoal e processo de individuação?

Jung (1980), em seu texto sobre o desenvolvimento da personalidade, afirma que um dos maiores propósitos de nossa existência consiste no “desenvolvimento daquela totalidade do ser humano que dá se o nome de personalidade” (p. 173). Atingir o pleno desenvolvimento da personalidade exige, como bem pontua Jung, determinação e inteireza, tarefa para toda vida. Corroborando com este pensamento, Hillmam (2001), em seu livro O Código do Ser, desenvolve a teoria do fruto do carvalho, na qual “cada pessoa possui uma singularidade que pede para ser vivida e que já está presente antes mesmo de ser vivida” (p.16). Ainda que desde o início de nosso desenvolvimento possuamos características que nos convocam para a escolha de determinado caminho, a juventude é vista como um tempo oportuno, no qual espera-se que se descubra qual é de fato seu mito pessoal, a fim de acolhe-lo, com “máxima liberdade de decisão própria.” (JUNG, 1980 p. 177). Diante de sua própria angústia e mistério este pode acomodar-se, aceitar respostas prontas ou fechar-se considerando-se incapaz de assumir e construir sua própria história, de acordo com suas possibilidades.

 Muitos são os discursos vigentes acerca dos jovens, estes oscilam entre luzes e sombras, todavia, compreender este fenômeno requer muito mais que simples rótulos, exige deter-se longamente sobre o mesmo, com o intuito de aproximar o mais possível de sua verdade, considerando que esta será sempre um recorte, dada a complexidade do mesmo. Numa época onde os jovens, em sua grande maioria, vivem como que anestesiados, cada vez mais conduzidos para fora, ‘distraídos’ por ideologias que procuram silenciar a pergunta pelo Sentido, refletir acerca de seu mito pessoal e descobrir a força mobilizadora que ele contém, talvez seja uma das questões mais pertinentes no que diz respeito à mudança de paradigmas.

2. A descoberta do Mito Pessoal e o Processo de Individuação

A psicologia analítica possui como um dos conceitos centrais a Individuação.  Jung destaca: “uso o termo "individuação" no sentido do processo que gera um "in-dividuum" psicológico, ou seja, uma unidade indivisível, um todo” (JUNG, 2002, § 266). Individuar-se é processo para vida toda. “A meta da individuação não é outra senão a de despojar o Si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais.” (JUNG, 2008, § 269). As imagens primordiais se constituíram através das gerações, estas são frutos de experiências comuns às quais nos marcaram profundamente, além do que, são essenciais à estruturação da personalidade como um todo. Estas mesmas imagens que foram forjadas em nossa psique, por serem coletivas em sua essência, tendem a reproduzir em cada época os mesmos símbolos, estes por sua vez,  “persistem através dos milênios e sempre exigem novas interpretações. Os arquétipos são os elementos inabaláveis do inconsciente, mas mudam constantemente de forma.” (JUNG, 1940 IX/1, §301).

Se ontologicamente estamos assentados sobre o coletivo, individuar é paradoxalmente viver o mais parecido com os demais e ao mesmo tempo ser essencialmente indivíduo, sendo este o chamado fundamental a todo ser humano. Ademais, enfatiza Jung: “Há uma destinação [...] é o caminho da individuação. Individuar-se significa tornar-se um ser único, à medida que por ‘individualidade’, entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos nosso próprio Si-mesmo” (JUNG, 2008, § 267). Sendo individuação, destinação, de certo modo estou ‘condenado’ a este movimento vital, caso contrário, me será ‘cobrado’ das mais variadas formas sintomáticas, desde uma simples sensação de mal estar até uma invasão total de aspectos negligenciados. Resta-nos então, caminhar em direção ao chamado através do qual teremos “o fastigioso encontro – fastigioso, mas indispensável para a integração do inconsciente- com as componentes inconscientes da personalidade” (JUNG, 1977/1954, VIII, § 430).

Para Jung, o processo de individuação é vivenciado como um evento alquímico na qual, através da união dos contrários, chega-se a ‘lápis’, pedra fundamental, que equivale à unificação, tornar-se uno. “Diríamos que a pedra é a projeção do Si-mesmo unificado.” (JUNG, 1982, § 264). Entretanto, ele chama a atenção para a função transcendente do Si-mesmo, ainda este que se manifeste à consciência via símbolo ele é indubitavelmente superior à consciência, “o Si-mesmo constitui a quintessência da individuação” (JUNG, 1982, § 257).  Porém, a individuação como tal não acontece de forma natural, como algo dado, faz-se necessário a participação consciente, ou até mesmo aprendizado, “a apercepção é impossível sem conceitos conscientes preexistentes.” (JUNG, 1982, § 259)

Jung (1982), aos 85 anos, inicia sua autobiografia com as seguintes palavras: “minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade” (p.5). Cremos que a tarefa de todo ser humano é colaborar da melhor maneira possível afim de que a convocação do Self, à exemplo da encarnação do Verbo, ‘que se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1,14), se torne vida em nossa vida. Viver sendo levado pelas circunstâncias, embalados através das inexoráveis mudanças do tempo, sem a consciência do ‘para que’ da própria existência é fazer a terrível escolha de, como diz Jung, ‘caminhar com sapatos pequenos demais’ (JUNG, in HOLLIS, 2004 p. 20).

Segundo Francis Wickes, “o homem moderno não tem consciência do mito que vive em seu interior, da imagem frequentemente invisível, que o impulsiona de uma forma dinâmica em direção à escolha,” (WICKES, 1963 in FEINSTEIN e KRIPPENER, 1988 p.15). Contudo, devemos ter claro que ser possuído por um mito, não equivale a ser possuído por algo fechado, ao contrário, deve ser entendido como uma orientação pessoal que confere significado à existência, cuja força criativa abre possibilidades a partir de um centro unificado que possui atributos de um daimon. O vocábulo grego daimon exprime um poder determinante que vem ao nosso encontro, tal como o poder da providência e do destino.

Ser e viver segundo uma mitologia própria, ou melhor, segundo uma designação pessoal, desenvolver a personalidade, está intimamente ligado às escolhas às quais fazemos. Neste sentido, abrimos a reflexão para uma nova perspectiva: escolher o próprio caminho, não obstante ao fato de primeiramente termos sidos ‘escolhidos’ ou possuir um destino ‘escrito no fruto do carvalho’.  Jung (1982) enfatiza que o único aspecto capaz de ativar o desenvolvimento da personalidade é a necessidade e esta por sua vez: “precisa ser motivada pela coação de acontecimentos internos e externos” (§ 293). Sendo assim, é pertinente a reflexão sobre quais seriam estes acontecimentos? Provavelmente, são os aspectos aqui entendidos como mobilizadores. Somos mobilizados, tanto interna quanto externamente, a viver sendo ‘fiel à própria lei’. Para tanto, este movimento só se efetivará se pudermos escolher nosso próprio caminho: “a personalidade jamais poderá desenvolver se a pessoa não escolher seu próprio caminho de maneira consciente e por uma decisão consciente e moral” (JUNG, 1982, § 296). Por certo, ainda que exista uma necessidade, a escolha deverá ser feita a partir de uma decisão, consciente e moral. “Se faltar a necessidade, esse desenvolvimento não passará de uma acrobacia da vontade, se faltar a decisão consciente, o desenvolvimento seria apenas um automatismo indistinto e inconsciente.” (JUNG, 1982, § 296)

A partir desta perspectiva Jung acrescenta que só se escolhe um caminho quando se tem claro que se está escolhendo o melhor. Escolher o melhor é certamente, ainda que pareça redundante, escolher ‘escolher’ seu próprio mito. Este aspecto torna-se essencial para o caminho da individuação, uma vez que se não estamos em sintonia com nosso mito podemos viver toda uma vida em função de outros mitos, nomeados por Jung de convenções. Na atual conjuntura estas nos tomam a todos, de modo muito sutil, conduzindo-nos cada vez mais para um mundo com respostas prontas e poucas oportunidades de se pensar nas perguntas mobilizadoras, grávidas de esperança no ser humano, possuidor de luzes e sombras, porém artífice de seu destino.

3. O jovem atribuindo sentido ao seu Mito pessoal

Mais do que nomear os possíveis aspectos referentes à questão norteadora, almejamos compreender o jovem inserido na atual conjuntura, esta certamente permeada por ricos valores socioculturais, porém um tanto carente de ‘espaços temênicos’. Na cultura grega, havia nos templos, a delimitação de um território considerado especialmente sagrado, onde, entre outros propósitos simbólicos, propunha-se unificar o que estava cindido, fragmentado e ao mesmo tempo separar o eu do não eu.  Para Jung apud Pieri (2002), o temenos possuía em sua simbologia a função de proteção, uma vez que arquetipicamente constelado evitava que conteúdos inconscientes fossem projetados para o ambiente circundante ou, ao contrário, houvesse uma absorção de elementos externos de forma evasiva. Em se tratando de ‘espaço temênico’, para além do ambiente físico, embora este também seja necessário, seria o espaço favorável para o encontro consigo e consequente descoberta e adesão ao mito pessoal.

A cada época as gerações são nomeadas conforme suas características pertinentes, as mais recentes são X, Y e Z, esta última, segundo estudiosos, é composta por jovens nascidos no início da década de 90, traz como característica o ‘zapear’, mudar, seja o canal da televisão, do celular para a internet, da internet para televisão e assim sucessivamente, consequente, de uma visão de mundo para outra cujo prazer seja mais imediato, para Miranda (2011) algumas características comuns desta geração são a inércia e o tédio, exemplificados na seguinte declaração da jovem Diana, 20 anos: “As ambições das gerações anteriores deixaram de ser eficientes e não despertam mais motivação alguma em nós [...] Nos falta um motivo, um motivo forte, e sem isso acabamos sempre entediados novamente”. (MIRANDA, 2011, p. 14)

Neste discurso podemos encontrar aspectos de uma tentativa ‘forçada’ de buscar fora, nas convenções, um motivo ‘forte’ e ‘inédito’ para se viver. A sensação é de se está caminhando com ‘sapatos pequenos demais’ em detrimento de perceber a própria vida como inédita, parece haver um esvaziamento do sentido da própria existência, a vida torna-se evento ‘entediante’ porque não me são ditos os motivos pelos quais devo viver. Suportar a falta como possibilidade ou chamado para uma compreensão mais ampla acerca de si é alternativa quase desconhecida para esta geração altamente conectada, ávida por novidades. A percepção da falta pode ser um aspecto que mobiliza a busca daquele ‘resíduo de originalidade’ outrora adormecido, no entanto, esta é imediatamente calada pela próxima novidade, conforme pontua o universitário Pedro, 21 anos: “acabamos tão desesperados para sair deste vazio, para sentir algo que nos afete que topamos qualquer coisa... e é bem por aí mesmo!” (MIRANDA, 2011 p.15). O desespero provavelmente se configura como um dos maiores clamores da alma tendo em vista o existir autêntico. Os aspectos mobilizadores ou bloqueadores são avaliados pela situação psíquica, minha reação frente ao obstáculo. O destino é forjado perante situações vivenciais às quais sou impelido a confrontar, ali sou questionado sobre o modo como desenvolvo minhas características pessoais, únicas e irrepetíveis.

Um dos benefícios advindos do temenos era evitar a ‘dispersão’ ou mantê-la distante das ‘distrações provocadas pelo mundo externo’. Muito provavelmente ‘dispersão’ e ‘distração’ são palavras presentes no território das juventudes Y e Z. Corroborando com este pensamento encontramos o depoimento de Ana, 21 anos, universitária: “O dia inteiro fico ligada ao MSN [...] com informações sobre tudo o que aconteceu no mundo [...] tem um monte de informação, mas pergunta se fica na memória de alguém? Não fica. E a vida dos jovens acabou meio assim: você tem muita informação [...] mas, na verdade, não sabe quem você é”. (MIRANDA, 2011, p. 10)

Possivelmente, outro aspecto mobilizador para a descoberta do mito pessoal seja a inquietação. Esta característica pode ser encontrada no discurso de Ana, no qual percebe-se um misto de insatisfação e angústia diante do volume de notícias, todavia, em meio a tantas e constantes informações, corre-se o risco de distanciar-se cada vez mais da informação essencial, saber quem se é. Jung (1981) chama de ‘fatal’ a pergunta acerca do sentido da própria vida. A própria cultura deforma o ser humano no sentido de distanciá-lo de sua voz interior, mesmo pressentindo que esquivar-se à designação é correr o risco de pagar um preço elevado, uma vida inteira vivida na mediocridade. 

Não é novo o discurso de que nos distanciamos do senso de mistério e não possuímos a capacidade de encantar com acontecimentos cotidianos. Vejamos a declaração de Sarah, 20 anos, estudante: “A vida cotidiana já está saturada, ela é insuportavelmente chata [...] simplesmente não me afeta de forma alguma, é indiferente. O que é insuportável não é minha vida em si, mas o sentimento de inutilidade, de vazio, de tédio, que são consequentes dela. É aquele lance de ‘normalização’ de tudo sabe? Temos informações sobre todas as coisas e nada nos choca, nada é novo, nada é original”. (MIRANDA, 2011, p.90). A perda do mistério leva à perda do protagonismo e consequente da originalidade, perdas estas ligadas ao fato de não se fazer perguntas, uma vez que acredita-se que possuímos as respostas ou, na pior das hipóteses, podemos, usando uma linguagem comum aos jovens internautas, ‘baixá-las’ de algum site.

Perceber o mistério que permeia nossa existência é também permitir-se ser questionado pela voz interior, “a voz interior é a voz de uma vida mais plena e de uma consciência mais ampla e abrangente” (JUNG, 1981 p. 190). Esta voz nos desinstala do mundo metodicamente pensado, entediante, o convida-nos a uma mudança radical de perspectiva, consequentemente de ação, jamais seremos os mesmos, a este movimento possui ‘ação curativa’, “é como um rio, que antes se perdesse em braços secundários e pantanosos descobrisse seu verdadeiro leito” (JUNG, 1981 p. 190).  Além do mais, continua Jung (1986): “nunca se sabe se o que mais nos encanta é a vista de novas margens ou a descoberta de novas vias de acesso aquilo que, conhecido desde sempre, já está também quase esquecido.”(p.219)

Outro ponto que merece reflexão diz respeito à fala de Pedro, 21 anos, universitário: “Ninguém quer viver a própria vida, porque ninguém quer ter a mesma vida que todo mundo e fingir que gosta dela, fingir que se diverte, fingir que sente alguma coisa. Acho que estamos todos em estado vegetativo, não sentimos mais nada. Nada nos afeta e nem nunca nos afetou, para falar a verdade. Simplesmente fingimos até o ponto de estarmos desesperados para sentir algo. E se a cocaína de deixa um lixo, você volta para os básicos. Passa a tomar qualquer coisa a base de anfetamina [...] ou a experimentar drogas alternativas” (MIRANDA, 2011, p.43). Com esta colocação nos deparamos em outro aspecto importante, a persona. Uma de suas características positivas é nossa adaptação ao meio, serve também como proteção, uma vez que necessitamos manter determinados papéis sociais e nossa identidade, até certo ponto, se constitui através deles. Quando Pedro usa a palavra fingir, sinaliza para uma não integração entre o indivíduo e a persona, sente-se ‘obrigado’ a desempenhar papéis que mascaram seus sentimentos, entendidos por ele como ‘fingir’, aquilo que se mostra no coletivo está distante do que de fato é.  O resultado parece indicar uma completa alienação de si, sensação de despersonalização, nada mais faz sentido, com isso ‘viaja-se’ para o fictício mundo onde se pode vivenciar a ilusão de que se é alguém, seja nas drogas ou nas ‘identidades virtuais’ postadas na internet. Conforme verificamos no depoimento de Fernando, 17 anos: “É um tédio ...viver minha vida é um verdadeiro tédio. Eu me sinto como se não fosse nada[...]eu não quero ser medíocre, não quero ser mais um [...] minha vida vai passando e eu fico assistindo, quase babando de tão entediante. A internet ocupa sua cabeça, as horas passam despercebidas. Aí você embarca numa viagem como se usasse droga, mas você não está realmente alucinado. Só que vicia, eu não sei o que fazer com as minhas horas sem o computador.”(MIRANDA 2011, p.78)

A fala de Fernando nos remete à temporalidade, dimensão fundamental em nossa existência, segundo Pieri (2002) o tempo possui duas acepções, uma da ordem do mensurável, cronológico e outra da intencionalidade psíquica, estas, ainda que vistas como opostas, estão intimamente ligadas. Individuar é também percorrer a linha do tempo, sendo convocado à transformação segundo o momento em que se vive. Quando supostamente se está parado, assiste-se a vida passar, ‘despercebido’. Para Maroni (2008) é preciso aprender a ler os sinais para atender ao chamado, ela usa a palavra ‘dis-traídos’ para chamar a atenção para situações temporais nas quais traímo-nos, distanciando-nos de nossa jornada. Fernando, embora insatisfeito com seu modo de ser ao afirmar ‘eu não quero ser medíocre, eu não quero ser mais um’, mostra-se ao mesmo tempo mobilizado a buscar viver de modo coerente às inquietudes mais íntimas, a distanciar-se do coletivo, porém, bloqueado pelo tédio, com isso, acolher o chamado do Self parece uma possibilidade distante, uma vez que para Jung, chamado e busca faces de uma mesma moeda.

Então surge o questionamento: qual o sentido e o significado de tudo isso? Uma vez que olhamos ao nosso redor e nos percebemos envolvidos por estas forças que obscurecem nossos sentidos, lançando-nos sempre mais para a mediocridade, para o cômodo. Por outro lado somos acalentados por uma certeza, expressa por Jung, o novo flui na torrente do tempo (apud Moroni 2008). Ou seja, é possível. Por certo, faz-se necessário uma escuta atenta para seguir a intuição e manter a atenção aos eventos sincronísticos, para assim iniciar a mudança a partir de nós. Antes, porém, vale recordar: “Os maiores e mais importantes problemas da vida são, no fundo, insolúveis; e deve ser assim, uma vez que exprimem a polaridade necessária e imanente a todo sistema autorregulador. Embora nunca possam ser resolvidos, é possível superá-los mediante uma ampliação da personalidade”. (JUNG, 2001 apud MARONI, 2008 p. 46)

É inegável que, enquanto humanidade, estamos vivenciando fortes ‘abalos sísmicos’, nos quais tudo está sendo posto em discussão, isso pode ser muito bom, uma vez que: “nesse afã louco, nesse profundo autoengano, a época moderna gerou destroços, caos, ruínas, desordens, mas também, e inadvertidamente, gerou condições para reintroduzir no mundo ‘pós’ a força do mistério” (MARONI, 2008 p. 108). Somos morada do mistério, talvez o aspecto que mais mobiliza um jovem na busca de seu mito pessoal, seja a possibilidade de vivenciá-lo como mistério que habita o mais íntimo de seu ser, mas que ao mesmo tempo vibra em sintonia com todo o universo.

Se perguntássemos para Jung, qual é então o segredo? Com sua sabedoria única, talvez nos diria as mesmas palavras com as quais concluiu sua reflexão sobre a formação da personalidade: “Tudo poderia ser deixado como estava. Se o novo caminho não exigisse de modo absoluto a ser descoberto, atormentado a humanidade com todas as pragas do Egito, até ser achado. O caminho por descobrir é como algo psiquicamente vivo, que a filosofia clássica chinesa denomina “Tao”, e comparando-o a um curso de água que se movimenta inexoravelmente para a meta final. Estar dentro do Tao significa perfeição, totalidade, desígnio cumprido, começo e fim, e a realização completa do sentido inato da existência. Personalidade é Tao (JUNG, 1981, p. 192).Quais são então as novas ‘pragas do Egito’, que nos interpelam? Talvez delas queiramos fugir através do saudosismo de um tempo onde as ‘cebolas’ (respostas prontas) eram fartas, ou o contrário, acolher o deserto que se nos impõe e a partir dele vislumbrar oásis de possibilidades.

4. Considerações Finais

 Havíamos nos proposto um desafio, conhecer um pouco mais o jovem no processo de descoberta daquilo que chamamos mito pessoal e ao mesmo tempo perceber quais seus aspectos mobilizadores e bloqueadores, bem como as possíveis contribuições da psicologia analítica junguiana. Acreditamos que nosso objetivo foi alcançado, pois, além das questões refletidas, vislumbramos novas possibilidades.

No que se refere à descoberta do mito pessoal, percebemos que esta é uma questão um tanto ambígua em nosso atual contexto, uma vez que valoriza-se mais o sucesso profissional, em detrimento de uma escolha que ao encontro do sentido mais profundo. Muitos jovens, infelizmente, vivem alheios a si mesmos, angustiados, confusos, estagnados em meio a tantos sinais obscuros. São poucos os espaços oferecidos aos jovens nos quais possam abrir-se de um modo efetivo para essa dimensão simbólica do chamado, da convocação. O que não significa que este não se sinta mobilizado, isso podemos considerar a partir das colocações relatadas ao longo do trabalho. Estas, por sua vez, são entendidas como um ‘arranjo’ da psique, no sentido de criar toda espécie sinais: sentimentos, sensações, experiências, etc., a fim de que a pessoa ‘perceba’ que existe algo mais.

O distanciamento dos símbolos e ritos culturais, o viver a partir das conversões sociais, as mudanças contínuas, a perda do senso de mistério, o mundo ‘padronizado’ e respostas prontas, a dificuldade de suportar as peripécias da vida, o conformismos, o consumismo massificador, o mau uso dos meios de comunicação social, a falta de sentido para a vida, a racionalização desmedida, são alguns dos aspectos que podem atuar como bloqueadores na descoberta do mito pessoal.

Em contrapartida, sempre ouvimos dizer que nada é tão unilateral que não contenha seu oposto, neste sentido, os aspectos mobilizadores e bloqueadores são faces de uma mesma realidade. O diferencial está em criar condições, aquilo que chamamos de ‘espaços temênicos’, nos quais o jovem sinta-se mobilizado, despertado, provocado para tomar sua vida como própria, acolher o chamado do Self e percorrer, com mais consciência, o caminho da individuação.

Jung via a educação como um dos meios eficazes de levar o ser humano, muitas vezes alheio à própria história, a ampliar suas perspectivas, movimento este que só é possível a partir da capacidade de tolerar os opostos. Diga-se de passagem, um dos maiores desafios do homem moderno. Neste sentido, a psicologia analítica, pode fazer-se mais presente junto à área educacional, que em muito apresenta uma tonalidade um tanto unilateral, principalmente em sua prática.

A escola deve ser primordialmente espaço de vida e cidadania, proporcionar ao jovem o que chamamos de ‘espaço temênico’.  Grandes educadores nos alertam para esta realidade, isso não é novidade, talvez um sonho. Este é o desafio da educação, formar pessoa como um todo, humanizar. Ela cumprirá de modo afetivo e efetivo seu papel quanto mais favorecer este ‘espaço temênico’, onde, o jovem possa expressar suas preocupações, anseios, desejos, expectativas, temores, seus sonhos, bem como entrar em contato com os mitos, símbolos e ritos presentes nas culturas, não para produzi-los, mas para se estabelecer uma comunicação mais ampla e profunda com os arquétipos prenhes de possibilidades criativas.

Na escola, além dos educandos, os próprios educadores podem ser beneficiados com as contribuições da psicologia analítica, o que refletirá diretamente na relação estabelecida com os destinatários de seu ofício. Passarão então, de modo mais consciente a preparar o terreno humano a eles confiados. Acreditamos estamos no caminho certo, ainda que tenhamos percorrido apenas uma pequena parte, há muito que aprender e viver. Nosso horizonte se amplia, vislumbramos possibilidades, tanto no sentido de pesquisas, quanto na atuação prática junto aos jovens e educadores.

Sobre os Autores:

Flávia Moreira da Silva - Psicóloga Graduada pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo Unidade Lorena. Pós Graduanda em Psicologia Analítica.

Rosana Pena - Professora Orientadora, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.

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