Orkut: Consideração Sobre Persona e Sombra nas Comunidades Virtuais

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Resumo: Este artigo traz a discussão de como se manifesta a persona e sombra no Orkut, buscando através desta temática, compreender primeiramente, a constituição histórica deste ambiente sócio – virtual, pois tem se configurado como mais uma ferramenta pontecializadora da sociedade do espetáculo. O foco principal desta pesquisa foi fazer uma análise dos perfis orkutianos, tendo como referencial teórico, os conceitos da persona e sombra, na tentativa de perceber as possíveis implicações deste site de relacionamento no processo de individuação dos usuários. Neste artigo, foi realizada uma pesquisa de campo através de entrevistas semi – estruturada no intuito de buscar subsídios que auxiliassem a coleta de informações trazidas pelos participantes, visando obter um entendimento sobre os pontos de vista e experiências descritas, promovendo a partir disso, reflexões a respeito das significações dadas pelos mesmos, acerca de tais vivências, descrevendo uma realidade sem nela interferir.
Palavras–chave: Orkut, persona e sombra, sociedade do espetáculo, processo de individuação.

I. Introdução

O Orkut atualmente é caracterizado como uma das comunidades virtuais mais populares, principalmente no Brasil, já que segundo pesquisas é o país que possui o maior número de usuários no mundo inteiro, desde quando foi criado em 2004. Ele simboliza as grandes transformações ocasionadas pela informática por que têm proporcionado significativas mudanças nos hábitos comportamentais dos brasileiros, principalmente no que se refere às relações interpessoais, pois o Orkut tem se configurado como mais uma nova forma de sociabilidade no momento atual. Favorecendo que o conceito de comunidade seja reformulado, pois hoje comunidade não se refere apenas a realidades “reais”, mas também virtuais, pois é perceptível que o sentimento de pertença, a necessidade de ser reconhecido pelo outro, ultrapassam a delimitação de fronteiras.

Partindo disso, este artigo traz como problematização, pensar se é possível visualizar as manifestações da persona e sombra, através deste contexto virtual. Até por que, os perfis construídos no Orkut, trazem possibilidades de enxergar personas, como também, a sombra e suas respectivas projeções, uma vez que, dentro da Psicologia analítica, a persona é entendida como uma maneira do sujeito criar máscaras para lidar com o mundo externo, enquanto a sombra, como uma personalidade reprimida por conta de valores sócio – culturais impostos pela sociedade.

Para trabalhar esta temática, foi necessário compreender a composição histórica do Orkut e o seu funcionamento, na tentativa de tornar possível, analisar os perfis dos usuários e relacionar os conteúdos elaborados pelos mesmos, com os conceitos de persona e sombra.

Permitindo dessa maneira, discutir as possíveis repercussões positivas ou não que o Orkut pode trazer no processo de individuação dos integrantes, pois este site de relacionamento permite aos usuários reinventarem seus perfis, favorecendo a constante necessidade do sujeito em modificarem suas identidades neste ambiente. A grande questão que envolve este fato é até que ponto criar estas representações, sentir a necessidade de estar inserido nesta comunidade, buscando corresponder aos padrões que a mesma propõe, pode ou não trazer interferências no processo de individuação do sujeito, pois a constante busca de ter um padrão adequado ao que a sociedade exige, pode ocasionar que o usuário não reconheça sua individualidade, que por sua vez, nem sempre poderá ser a mais adequada para o seu contexto virtual.

Sendo assim, escolheu-se falar sobre o Orkut, por que é um site que visa formação de redes sociais virtuais na Internet, e sua popularização tem se tornado cada vez mais crescente, chegando a ter um número de usuários recordes no Brasil.O que se propõem a necessidade de pensar o tamanho fascínio e o sentimento de pertença que esta comunidade virtual tem promovido na vida dos brasileiros, permitindo assumir uma posição crítico - reflexiva a respeito do tema proposto, pois não deixa de fazer parte do cotidiano.

No aspecto social se faz necessário entender como o surgimento do Orkut e a sua popularização tem se constituído um dos mais significativos fenômenos culturais da atualidade, pois tem afetado todas as esferas de forma direta e indireta da vida social, tornando – se no decorrer dos anos, um espaço particularmente importante para as relações humanas, configurando novas formas de sociabilidade.

A partir disso, considero de fundamental relevância para a Psicologia acompanhar as mudanças culturais geradas pelo avanço tecnológico, concentrando-se tanto nos aspectos subjetivos quanto nos sociais, os quais, aliás, longe de se excluírem, estão intimamente ligados. No que se refere aos relacionamentos virtuais, não importa apenas constatar as influências sofridas, nem perceber como se manifestam a persona e sombra, mas descrever e refletir acerca das mesmas, discutindo as experiências dos usuários do Orkut, investigando os processos subjetivos a eles relacionados.

Desta forma, a pesquisa possibilitará apontar as possíveis nuances que estas novas formas de relações sociais ocasionam no processo de individuação do sujeito.

II. Desenvolvimento

1. Principais Conceitos da Psicologia Analítica

A Psicologia analítica de Carl Gustav Jung de acordo com Nise da Silveira (1997), é designada por este termo por apontar para uma estrutura psíquica orientada nos fenômenos psicológicos vistos na sua complexidade, ambiguidade e contradições. Dentro desta ótica, a estrutura da psique é formada pelo inconsciente e a consciência.

A consciência segundo a autora, pode ser comparada a uma pequena superfície onde estão conteúdos que emergiram do inconsciente, sendo caracterizada por certa estreiteza, pois devido a sua limitação apreende poucos dados simultâneos num dado momento, enquanto todo mais é inconsciente. Algo a ser considerado sobre a consciência é que não pode existir elemento a nível consciente que não tenha o ego como ponto de referência, pois o que não se relacionar com o ego não atingirá a consciência.

O ego, portanto, é o centro regulador da consciência. É o responsável pela retenção de conteúdos na consciência, e também por eliminar os conteúdos da consciência deixando , sendo reprimidos. Tende a contrapor-se a qualquer coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer que sempre devemos planejar e analisar conscientemente as experiências (STEIN, 2006).

O inconsciente divide-se  em pessoal e coletivo. O inconsciente pessoal trata-se de uma parte mais superficial do inconsciente, onde estão armazenados conteúdos decorrentes das experiências individuais (carregados de potencial afetivo), sendo compreendidos como complexos. Já o inconsciente coletivo corresponde a uma maior profundidade do inconsciente, nele estão contidos experiências, comuns a toda humanidade, sendo chamado de arquétipos. Os arquétipos por sua vez, podem ser vistos de maneira evidente no nosso cotidiano, por exemplo, através da persona e sombra.

A partir da noção de arquétipos, símbolos e complexos serão abordados posteriormente os temas persona e sombra, que se fazem elementos fundamentais na realização deste trabalho.

Os arquétipos segundo Jung (2002, pg. 53) são, “possibilidades herdadas para representar imagens similares, são formas instintivas de imaginar”, pois da mesma maneira que existem pulsões herdadas para agir de modo instintivo, existem tendências herdadas para construir representações semelhantes potencializadas através de uma energia psíquica até então pouco conhecida.

A idéia trazida pelo arquétipo, fazendo alusão de uma base psíquica inerente a todos os seres humanos, permite compreender por que em tempos e lugares distintos, surgem temas semelhantes, seja nos mitos, contos de fadas, nos ritos e dogmas religiosos, nos sonhos, nas artes e inclusive nos delírios psicóticos, como afirma Jacobi:

Os arquétipos não se propagam, de forma alguma, apenas pela tradição, a linguagem e a migração, mas podem renascer espontaneamente em qualquer lugar e tempo, isto é, de um modo que não é influenciado por nenhuma transmissão externa.Esta constatação significa nada menos que, em cada psique, há prontidões vivas, formas que, embora inconscientemente, não são, por isso, menosativas, e que moldam deantemão e instintivamente influenciam o seu pensar, sentir e atuar (pg.41, 1999).

Os arquétipos não são observáveis em si, só é possível percebê-los através das imagens que ele proporciona, são imagens que expressam não só a forma da atividade a ser exercida, mas também, simultaneamente, a situação típica no qual se desencadeia a atividade. Tais imagens se tornam visíveis quando o arquétipo se atualiza e são percebidas pelo consciente, estas imagens são denominadas de símbolo. 

De acordo com Jacobi (1999), os símbolos apresentam uma bipolaridade que diz respeito a um duplo aspecto do arquétipo, que aponta para frente para trás, dentro de um espaço e tempo, onde essas variáveis ficam cada vez mais relativas, à medida que, o consciente se distancia até a sua total dissolução no inconsciente. No outro aspecto, os símbolos têm a características de unificador de pares antagônicos denominado por Jung de função transcendente, que consiste na união da tese e antítese formando uma totalidade (síntese). Sendo que o ponto de partida vem da relação consciente e inconsciente e posteriormente, de outras características existentes em ambas polaridades.

Como afirma Jacobi:

O símbolo é então, uma espécie de instância mediadora entre a incompatibilidade do consciente e do inconsciente, um autêntico mediador entre o oculto e o revelado. Ele não é nem abstrato, nem concreto, nem racional, nem irracional, nem real, nem irreal; é sempre ambos (1999, p. 90).

Ressaltando que, quando ocorre a polarização, o símbolo se torna mais um sintoma do que um símbolo propriamente dito, seria uma antítese reprimida, podendo afirmar que o símbolo está morto, pois pode ter ocorrido a dissociação do consciente e inconsciente.

Já a respeito dos complexos, podem ser compreendidos como caminhos que nos permitem chegar ao inconsciente Estruturam-se como entidades autônomas, quando uma parte da psique for cindida por causa de um trauma, um choque emocional ou um conflito moral.  Quando totalmente inconscientes atuam livremente e podem tomar o ego.  Geralmente, aquelas situações em que ocorrem alterações da consciência e também comportamentais, sem motivo aparente, são manifestações da possessão do complexo sobre o ego. Assim como símbolos, os complexos possuem um núcleo arquetípico e, em torno deste núcleo vão se concentrando idéias ou pensamentos cheios de afetividade.

Nise da Silveira (1997), afirma que Jung redefine os complexos em um segundo momento, como variáveis ao infinito, agrupando em várias categorias (complexo materno, complexo paterno, complexo de autoridade, de inferioridade, superioridade e do ego), constatando que existem complexos facilmente perceptíveis que se respaldam sobre bases igualmente típicas. Essas bases se referem ao arquétipo, ocorrendo uma ligação entre grandes experiências inerentes a todos os seres humanos e as vivências individuais.

Todavia, os complexos não são em si negativos, seus efeitos, no entanto, poderão ser, é possível superar um complexo vivendo-o intensamente e compreendendo o papel que exercem nos padrões de comportamento e nas reações emocionais.  No seu sentido positivo, os complexos poderão ser uma fonte de inspiração para futuras realizações.

Os complexos por terem o arquétipo como elemento nuclear, são dotados de significados favorecendo o surgimento de construções arquetípicas, como a anima, o animus, a sombra e a persona, sendo que estes últimos serão abordados nos parágrafos seguintes.

O termo persona se origina do latim que significa máscara. A persona se caracteriza por apresentar uma imagem de representação arquetípica de adaptação ao mundo externo e a coletividade visto que ela é muito importante, na medida em que dependemos da mesma em nossos relacionamentos diários, no trabalho, na roda de amigos ou na convivência com o nosso grupo (WHITMONT, 1998).

De acordo com Byington (1988), é através das personas que aprendemos a representar papéis atribuídos socialmente visando corresponder de forma adequada aos padrões sócio – culturais exigidos pela sociedade. Em seus aspectos benéficos, a persona auxilia a convivência em sociedade, extremamente importante em nossos dias atuais. Também transmite uma certa sensação de segurança, na medida em que cada um desempenha exatamente o papel esperado, da melhor forma possível, a fim de serem aceitos pelo grupo social que pertence. No sentido nefasto da persona, há o perigo de o indivíduo identificar-se com o papel por ele desempenhado havendo uma desconsideração dos verdadeiros elementos constituintes de seu ego, pois para Whitmont (1998, pg. 141) “o sujeito passa a agir como uma máscara tendo comportamentos que não se caracterizam como elementos de sua personalidade”. Neste caso, é o que se chama de pseudo-ego.

As características mais comuns do pseudo – ego se refere à rigidez, a falta de sensibilidade, devido a um estado de inflação que a persona promove, mas também pode ser frágil e quebradiço, por que permanece vulnerável mediante as pressões internas, estando freqüentemente beirando uma psicose.

Diante disso, Whitmont afirma:

A coletividade e a individualidade são um par de opostos polares; daí haver um relacionamento de oposição e de compensação entre a persona e sombra. Quanto clara a persona, mais escura a sombra. Quanto mais a pessoa estiver identificada com seu glorioso e maravilhoso papel social, quanto menos este for representando reconhecido simplesmente como um papel, mais escura e negativa será a individualidade genuínas da pessoa, como conseqüência de ser negligenciada dessa forma (pg. 142, 1998).

Desta forma, fica evidente que não pode ser estabelecida uma relação de identificação entre a persona e o ego, pois a ocorrência da mesma favorece o não reconhecimento de nossas características. Uma vez isto acontecendo, passamos a ignorar outros elementos constituintes da nossa personalidade, a sombra.

A sombra diz respeito a uma parte da personalidade que foi reprimida em favor do ego ideal. Para Sanford, o ego ideal:

É formado pelos ideais ou padrões que modelam o desenvolvimento do ego ou a personalidade consciente. Esses ideais do ego podem ser frutos da sociedade, da família, dos grupos com os quais se convive ou as regras religiosas. Podemos selecioná – los de forma consciente e deliberada, ou então esses ideais podem operar de modo mais ou menos inconsciente no desenvolvimento do ego (pg.64, 1987).

Existe, portanto, a necessidade de buscarmos no desenvolvimento da nossa personalidade, o que gostaríamos de ser, quando certas características nossas não se enquadra nesse padrão sendo rejeitadas, é o que constitui a sombra.

Entretanto de acordo com Whitmont (1998), a sombra inclui não só gêneros de qualidades negativas do ser humano como também qualidades positivas que são desconhecidas pela consciência. Ela possui diversos elementos, englobando desde fraquezas, aspectos imaturos ou inferiores, complexos reprimidos, até componentes maléficos, mas também podem ser encontrados traços valiosos que não se desenvolveram por condições externas que não foram favoráveis ou o sujeito obteve energia necessária para levá-las adiante.

A sombra, porém, não possui somente aspectos negativos e rejeitados. Possui também aspectos que impulsionam o ser humano para a criatividade e busca de soluções, quando os recursos conscientes se esgotaram. Por sorte, a sombra é insistente e não se sente acuada com a repressão exercida pela consciência. Sempre arranja um jeito de se manifestar, não só através da inspiração, mas a projeção é uma destas maneiras. Que de acordo com Sanford:

Projeção é um mecanismo psicológico inconsciente que ocorre sempre que uma parte de nossa personalidade, quando ativa, não tem relação com a consciência. Essa parte não reconhecida, mas muito viva em nós, projeta – se sobre outras pessoas de tal modo que vemos algo nos outros que realmente é uma parte de nós mesmos (...) (pg.77, 1987).

Nesse sentido, ainda que o desenvolvimento de potencialidades do sujeito seja impulsionado por forças instintivas presentes no inconsciente, ao mesmo tempo possuem a capacidade de trazer a consciência seus conflitos e confrontá-los com ego. Quando tal fato ocorre, chamamos de processo de individuação.

Portanto, é só através do processo de individuação que a pessoa vai se conhecendo, retirando suas máscaras, retirando as projeções lançadas anteriormente no mundo externo e integrando-as a si mesmo. O processo de individuação não visa alcançar a perfeição, mas sim, completar e aceitar características com tendências opostas ao que se espera. Para este começo, é necessário confrontar o ego com a persona e o ego com a sombra.

A partir disso:

... Persona e sombra podem ser confrontada pela consciência e, nesse momento, seus conteúdo se alteram. Os símbolos da sombra confrontados e produtivamente elaborados deixam de ser sombra. A persona confrontada não deixa de ser persona, mas pode ser conscientemente ratificada ou não, caso em que seus símbolos, já agora por decisão do ego continuarão ou não a ser através dela elaborados (Byngton, pg. 11, 1988).

Dessa forma, no confronto do eu com a persona, é o momento que a pessoa toma consciência das máscaras que utiliza na sociedade, reconhecendo que viver a persona significa viver as máscaras, desempenhar papéis sociais impostos pela sociedade em que se deixe exercer as qualidades da real personalidade, pois quando o indivíduo reconhece sua persona e integra de forma consciente ao seu ego, podemos dizer que  o sujeito vive aspectos positivos desta, adaptando – se mais facilmente as diversas situações sociais sem prejuízo da expressão das qualidades reais de sua personalidade. No confronto do ego com a sombra a pessoa passa tomar consciência de suas qualidades positivas e negativas inconscientes, pois perceber os aspectos positivos da sombra significa reconhecer em si virtudes que eram desconhecidas, enquanto que, perceber os aspectos negativos da sombra significa se defrontar com aspectos sombrios e aceita-las como constituintes da sua personalidade. Quando o sujeito reconhece sua sombra e a integra de forma consciente ao seu eu, adquire o conhecimento de suas virtudes e defeitos, o favorecendo o desenvolvimento de um convívio satisfatório, consigo mesmo e com outras pessoas.

2. Comunidades Virtuais

Historicamente, o ser humano sempre foi um animal gregário, pois desde os primórdios os homens estão divididos em clãs, aldeias, tribos e nações. Ao nascermos já somos membros de uma família, bairro, cidade, etc.

Baseando-se no livro Instinto gregário de Trotter, Freud (1976) fala que a necessidade de estar em grupo é algo inato aos seres humanos como nos animais, pois quando o indivíduo está sozinho sente – se incompleto e inseguro, exemplifica isto, através de uma criança que se sente insegura quando fica sozinha, ou quando fica com alguém estranho não pertencente ao seu grupo. Sendo assim, a vida social é uma condição de existência e sobrevivência humana, pois sobreviver é conseguir reproduzir os mesmos, viviam em grupos. Esses agrupamentos tempo depois, evoluíram com a nomenclatura de comunidade, que para Torre:

A comunidade caracteriza – se por abranger todo círculo de pessoas que habitando uma mesma área geográfica, vivem e participam juntas, não deste ou daquele interesse particular, mas de todo um conjunto de interesses. (1985, pg.113)

Mas ao longo dos anos, o modo de se compreender e viver em comunidade tem passando por grandes transformações a partir de influência, principalmente das ciências tecnológicas, pois de acordo com Costa:

... A partir dessa conquista, do desenvolvimento dessa capacidade genuinamente humana de representar e transformar o ambiente natural, cada grupo, compartilhando experiências comuns adaptadas ao seu modo próprio de vida, criou formas próprias de sociabilidade (2004, pg. 3).

André Sarmento (2006) desta maneira, aponta que a temática das novas tecnologias, não pode vir separada das concepções da sociedade pós – moderna, pois passou a ter uma força atuante no contexto urbano sobre as recentes e diversas formas de sociabilidade construídas na contemporaneidade. Devido a este avanço, o homem buscou novas formas de se adaptar ao novo mundo dos computadores, pois é fato desde o início dos tempos, que as pessoas buscam viver em grupos e com a evolução da internet, esses grupos passaram a ter existência dentro dos computadores, em um mundo virtual, onde a organização grupal ocorre de maneira semelhante a comunidades existentes no nosso cotidiano, por conta disto tem sido nomeada de comunidades virtuais. Este novo espaço de sociabilidade proporcionou novas formas de relações sociais, com códigos, símbolos e estrutura própria. Segundo Lévy (2000):

... Uma comunidade virtual é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e filiações institucionais (Lévy, 2000, pg.127).

Portanto, as comunidades virtuais se constituem independente de aspectos institucionais ou territoriais. O princípio fundamental é buscar assuntos e pessoas com interesses e propósitos em comum, onde o sentimento de pertença a um espaço simbólico é o fator preponderante na formação das mesmas. Neste ambiente, as comunidades se constituem dos mais variados formatos como salas de bate – papo, fóruns de discussão, blogs, ICQs, MSN  e Orkut. Dentre os quais o Orkut é dado o devido destaque (MOCELLIM, 2007).

O Orkut é uma gigantesca comunidade virtual criada em 2004 por Orkut Buyukkokten, engenheiro turco, que tem parceria com a empresa Google, onde os brasileiros lideram com 62% o acesso ao website. Este serviço permite ao usuário:

- Construir um perfil, incluindo idade, estado civil, estilos musicais, filmes favoritos, opção política, religiosa, sexual, etc.;

- Ter um álbum de fotos;

- Ter um scrapbook (livro de recados), enviar e receber mensagens e depoimentos;

- Fazer parte e / ou criar comunidades temáticas onde são (ou não) promovidos debates, troca de informações, além de conhecer pessoas com interesse em comum.

- Participar de aplicativos, onde os mais populares atualmente são:

O café mania, que tem como objetivo simular um pequeno negócio, onde você é o cozinheiro e pode personalizar o espaço da sua lanchonete ou restaurante. O sorriso é o que representa seu nível de popularidade no Café Mania, ele mostra a satisfação dos clientes. Aumentar sua popularidade é uma das metas, pois quanto melhor for seu desempenho, você sobe de nível, pode contratar amigos para trabalhar no seu Café, ganhando mais espaço para ampliar o seu restaurante, e pode se tornar chefe.

A Mini fazenda é um aplicativo que consiste em administrar uma fazenda e ganhar o máximo possível de dinheiro, podendo até expandir o seu território, se bem administrado. É possível também comprar sementes de plantas e animais.

A Colheita feliz, que semelhantemente a mini fazenda permite que os membros do Orkut possam gerir uma fazenda virtual que inclui o plantio, cultivo e colheita de diversas plantas, árvores e animais e permite até mesmo o roubo de bens de outros participantes (MOCELLIM, 2007).

Dentro destas possibilidades, o usuário pode editar, reformular e aperfeiçoar os dados fornecidos no seu perfil anteriormente. O mesmo tem um painel (onde pode gerenciar), com a relação de seus amigos e um outro com relação às comunidades. Cada usuário pode fazer uma pesquisa no seu próprio Orkut e achará uma descrição das comunidades que queira participar, como da mesma maneira pode pesquisar o Orkut de outros usuários e convidar para ser amigo ou vice – versa, podendo ao aceitar, se cadastrar como fã e caracterizá-lo como sexy, legal ou confiável (RECUERO, 2004).

Além desses, o Orkut permite que a pessoa veja quem visitou sua página durante a semana, que seus amigos comentem as fotos expostas no seu álbum virtual, que as mensagens e depoimentos enviados e recebidos fiquem disponibilizados para aqueles que visitem o seu perfil. Ressaltando que o dono do perfil tem a opção configurações, onde pode restringir o acesso a seus recados, fotos e atualizações para alguns amigos e visitantes.

Para Gomes (2007), hoje é quase impossível pensar em uma pessoa que não participe do Orkut. Nesse ambiente virtual, os usuários se comunicam com todas as esferas sociais: amigos, festas, paqueras, estudos, empregos e notícias de grande repercussão. Aqueles que se negam a fazer parte, acabam ficando de fora desse circuito de sociabilidade, das vinculações das informações, sendo muitas vezes discriminado, por ser visto como retrógrado, ultrapassado e excluído da era tecnológica.

Pode parecer exagero quando se fala do Orkut como um dos maiores fenômenos de sociabilidade no momento, mas se pararmos e prestarmos atenção numa simples conversa entre duas ou mais pessoas, certamente a palavra estará presente no conteúdo da conversa. Segundo Dal Bello:

Os processos de desferencialização do real trazidos pela pós – modernidade intensificam – se com o presente fenômeno da cibercultura: novas tecnologias de (tele) comunicação criaram virtualidades que substituíram formas consagradas de se relacionar com o outro, de se perceber, ser e estar no mundo, inaugurando na esfera privada a produção desenfreada de simulacros na composição de imagens do “eu” própria de uma cultura apresentacional, cujas dinâmicas de administração da impressão evidenciam – se na construção de perfis em comunidades virtuais de relacionamento, como o Orkut (2007, p.2)

Partindo do princípio que todos os perfis são criados pelo usuário, surgem as representações para atuarem, representarem no ambiente virtual revelando um “eu” apropriado para o Orkut, escondendo possíveis características do seu ego que podem ser vistas como inadequadas para o contexto que se insere, não sendo muito diferente da nossa realidade.

Nesse aspecto, o Orkut cumpre satisfatoriamente essa necessidade do sujeito pós – moderno, de se mostrar para o outro, a fim de se sentir pertencente do mundo contemporâneo, pois uma vez o Orkut representando esta possibilidade, então é nele que o sujeito procurará se inserir. Esta característica presente na atualidade, diz respeito à sociedade do espetáculo, tema que será abordado no parágrafo seguinte.

A palavra espetáculo tem origem no latim spetaculum, speculum, spectrum que significa tudo que chama atenção, atrai. O espetáculo é um espelho que reflete imagens, uma visão, uma representação teatral, englobando também a figura do espectador que assiste ao espetáculo (NASCIMENTO, 2007).

De acordo com Debord (1997), o surgimento da sociedade do espetáculo começa num período do capitalismo, no qual o capital se acumula em um crescente grau que se torna imagem. O mesmo afirma que o espetáculo não deve ser compreendido como apenas “um conjunto de imagens, mas uma relação social entre as pessoas mediada por imagens” (1997, p.14).

A sociedade do espetáculo seria, portanto, o ápice da cultura das massas associado ao excesso de visibilidade, onde se tem por objetivo parecer o que não é, pois já passamos da fase do ser para o ter, e atualmente vivemos o parecer. (DEBORD, 1997)

Desse modo, o Orkut potencializa a sociedade do espetáculo, pois favorece que nossas experiências cotidianas sejam moldadas pela espetacularização, pelas imagens construídas neste site de relacionamento produzindo, dessa forma, modos de agir, pensar, sentir e consumir.

III. Método

  1. Delineamento

A metodologia deste artigo, foi baseada na pesquisa de campo, pois tem como propósito reunir informações ou conhecimentos acerca de novos fenômenos, de um problema para qual se busca uma resposta, ou ainda uma hipótese que se queira comprovar (MARCONI E LAKATOS, 2008). Se fazendo bastante apropriado para o objeto de estudo analisado, pois o Orkut enquanto uma recente forma de estabelecer relações sociais, se configurou como um ambiente propício para a investigação de como se manifesta a persona e sombra no contexto virtual.

Integrando a idéia de campo já descrita, vale ressaltar a natureza qualitativa e o delineamento descritivo desta pesquisa, pois ela se caracteriza por enfatizar a experiência dos sujeitos, nas suas possíveis maneiras de ver ou relatar os fatos partindo de fenômenos socialmente construídos.

Portanto, esta pesquisa buscou instrumentos que dessem suporte a coleta de informações dadas pelos participantes, visando obter um entendimento sobre seus relatos e vivências descritas, promovendo a partir disso, refletir a respeito das significações dadas pelos mesmos, acerca de tais experiências (MARCONI E LAKATOS, 2008).

  1. Participantes

Participaram desta pesquisa quatro sujeitos adultos, na faixa etária entre 21 e 26 anos, de ambos os sexos, estudantes de nível superior em andamento, usuários do Orkut, moradores da cidade de Salvador no ano de 2010.

Seus pseudônimos:

Maria, 23 anos;

Carlos, 26 anos;

Paula, 21 anos;

Henrique, 21 anos.

  1. Contexto

O contexto estudado diz respeito às comunidades virtuais, mais especificamente o Orkut, no qual se caracteriza por agregar pessoas em um ambiente virtual, com propósitos em comum. Porém, o contexto das entrevistas foi realizado na cidade de Salvador.

  1. Instrumento

Quanto ao instrumento, a coleta dos dados foi realizada através da entrevista semi-estruturada. A mesma consiste em um roteiro de perguntas programadas em que o entrevistador faz ao entrevistado, no qual surgindo novas indagações, elementos imprevisíveis ou informações espontâneas, este modelo de entrevista permite que o entrevistador interrogue o participante esclarecendo suas dúvidas, dando a entrevista um caráter aprofundado, aperfeiçoando os resultados da pesquisa.

A flexibilidade deste instrumento, proporcionou a obtenção de respostas que surgiram em última instância, principalmente por ser tratar de um ambiente virtual, onde a todo momento da entrevista foram trazidos novos dados pertinentes para o artigo. Dessa maneira, contemplou de forma mais consistente a proposta do projeto (APPOLINÁRIO, 2006).

Após elaboração da entrevista piloto, a mesma foi testada com uma amostragem aleatória de participantes antes de ser aplicada definitivamente, para verificar possíveis falhas, como ambigüidade, inconsistência ou linguagem inacessível das questões, e principalmente averiguar se este instrumento tinha condições de ser aplicado, sem que houvesse resultados que não alcançassem o objetivo deste artigo. Como não foram detectadas possíveis falhas, não houve necessidade das perguntas serem reformuladas (MARCONI e LAKATOS, 2008).

  1. Marcação e realização da entrevista

Nesta etapa, ocorreu o primeiro contato com os participantes sendo feito o convite para participarem da pesquisa. Havendo a aceitação, foi realizada uma conversação mais ampla, explicando a finalidade e a relevância da pesquisa, sendo justificada a importância dos mesmos na realização do projeto, pois uma vez sendo usuários do Orkut, poderiam fornecer dados essenciais para responder ao problema da pesquisa.

Após esclarecimento sobre a proposta da entrevista, foi marcada a data e o local para a realização da entrevista para cada um dos participantes. Foi pedida a autorização aos participantes para que a entrevista fosse gravada e posteriormente transcrita, mas devido a problemas no gravador, só foi possível transcrever o relato dos entrevistados.

  1. Análise dos dados

Os dados coletados, foram analisados tendo como referência a Psicologia analítica, trabalhando mais especificamente os temas persona e sombra, onde através das respostas dos participantes, foram feitas relações entre os dados e os objetivos da pesquisa.

Ressaltando que, para se chegar à análise de dados, foi feita anteriormente uma revisão bibliográfica sobre o tema em questão. A mesma serviu, como ponto de partida para se ter a idéia em que momento este assunto se encontra na atualidade, que trabalhos já foram realizados e quais são as opiniões existentes acerca desta temática. Além disso, permitiu que se configurasse uma base teórica como fundamento nortear todas as etapas do trabalho (MARCONI e LAKATOS, 2008).

  1. Considerações éticas

No presente trabalho, foram mantidas a preservação das identidades dos participantes, onde seus nomes foram substituídos por pseudônimos, como também foram excluídas informações que mesmo com pseudônimos seriam capazes de identifica-los. Todos os participantes tomaram conhecimento destes pontos acima citados e do objetivo desta pesquisa, a partir do documento nomeado de termo de consentimento livre e esclarecido no qual receberam uma cópia com as devidas informações. 

IV. Resultados

1. Motivação e participação em sites de relacionamento;

De acordo com os resultados, todos os participantes da pesquisa acessam frequentemente o Orkut.

No que se refere à participação dos entrevistados em outros sites de relacionamento, apenas dois afirmaram participar de outros sites de relacionamento o MSN e o Facebook.

Com esses dados, fica evidenciado a preferência dos brasileiros pelo o Orkut pois:

Quando se fala em rede social no Brasil, o primeiro nome que vem à cabeça é o Orkut. Não poderia ser diferente. Todos os meses, quase sete em cada dez usuários de internet residencial do país acessam o site de relacionamento do Google pelo menos uma vez. No último ano, a audiência do Orkut cresceu 30%. A interação e as conversas entre os usuários são o coração e o sangue que mantém vivo esse tipo de site, e nesse quesito os internautas daqui são imbatíveis. (Dweck 2008 apud Dal Bello 2009)

Portanto, as pessoas buscam se cadastrar no Orkut justamente por viverem na sociedade da informação, do espetáculo. Em contato direto com as tecnologias digitais, se sentem atraídos pelas novas dinâmicas que se apresentam no ciberespaço e passam a se apropriar e a construir este ambiente utilizando as possibilidades disponíveis, além de criarem novas formas de estar juntos, novas formas de se comunicar e, portanto novas formas de “ser” e estar nos tempos atuais, demarcando um local, um espaço, uma rede entrelaçada de significados e de maneiras variadas de fazer no ambiente virtual. (REULE, 2007)

Entretanto, quando perguntados se em algum momento se perceberam envolvido mais em uma vida virtual do que real, apenas a participante Paula afirma ter passado por isso:

“Há alguns anos fiquei, ficava muito angustiada quando não entrava.

Ai meu Deus! Ai meu Deus! Tinha que entrar, tinha que entrar e no final não fazia nada...”

O relato da participante mostra uma intensa necessidade de estar no ambiente virtual, pois sua angústia só passava quando entrava no Orkut. Embora os outros participantes neguem, é válido pensar até que ponto não estão envolvidos neste contexto virtual, pois é um dado que todos os participantes acessam mais de uma vez por dia o site de relacionamento.

Um outro ponto a ser discutido nesta questão, diz respeito à pergunta feita para os entrevistados se conseguiriam viver sem o Orkut. Todos dizem que não viveriam sem o Orkut, ainda que apresentem justificativas distintas.

Dando destaque as respostas dos participantes Carlos e Paula respectivamente:

“...O que me prende no Orkut são as fotos ali, é uma memória virtual, elas só ficam até o Orkut existir, mas tem afeto ali também, então pra você se desvencilhar é complicado, existe afeto. Não serve pra nada, não representa nada, mas não desfaria.”

“ É.............. (risos) difícil viu, às vezes tenho vontade de ficar longe, mas se fico longe muito tempo sinto um vazio, mas pra desfazer do Orkut é tudo muito do momento, se me der vontade de desfazer eu desfaço.

Se pudesse deixar um recado pra as pessoas diria: Desfaçam seus Orkuts!!”(risos)

Dois pontos a serem considerados nos relatos dos participantes, dizem respeito às características do sujeito pós – moderno. A primeira, se refere uma era de virtualização, onde predomina o consumo das imagens, pois o Orkut permite que seus usuários construam e prestem manutenção à imagem, que permanecem mesmo quando não estão conectados, tanto que Carlos diz sentir afeto pela suas fotos. A segunda, envolve a falta de sentido para a existência como alega a Paula ao sentir um vazio longe do Orkut, que é supostamente preenchida participando do referido site de relacionamento sendo, então, marcada por uma falta de profundidade, pelo superficial, pela força da imagem. (REULE, 2007)

Quando perguntados acerca do que motivaram a entrarem no Orkut, as respostas variaram entre terem sido influenciados pelos amigos, a necessidade de fazer mais amigos, e ter mais interação social.

O que mostra o sentimento de pertença dos participantes, evidenciando a necessidade de estarem inseridos nesta recente forma de socialização, seja para manutenção de amigos ou adesão de novas “amizades”, que de acordo com Dal Bello (2008), fomenta o hiperespetáculo que se instala neste contexto sócio – virtual, onde as práticas contemporâneas de exposição do eu, encontra – se associadas não mais a obscuridade do indivíduo, mas  sim a uma dimensão visível e acessível ao olhar do outro. Embora o Orkut traga a sustentação de um rótulo de site de relacionamento que traz uma idéia que seja um espaço de encontro, onde é possível comunicar e estabelecer vínculos, na realidade corresponde apenas a crescente necessidade de uma exposição performática e narcísica do sujeito pós - moderno.

Por sua vez, o Orkut possui espaços interessantes de sociabilidade, funcionando como pontos de encontro de conhecimento, os fóruns. As interações que ocorrem nos fóruns, envolvem enquetes, atividades de leitura, produção de conteúdo e troca de informações, sendo um espaço que se difere do que comumente ocorre no Orkut, que seria buscar e interagir com amigos, “espiar perfis” ou fazer atualizações no seu perfil.

Pierre Lévy (2000) também defende a importância dos fóruns nas comunidades virtuais, pois segundo o autor, servem como um estímulo à formação de inteligências coletivas, onde os indivíduos podem recorrer para troca de informações e conhecimentos. Ele nota o papel das comunidades como filtros inteligentes que permitem lidar com o excesso de informação.

Uma rede de pessoas interessadas pelos mesmos temas é não só mais eficiente do que qualquer mecanismo de busca, mas sobretudo, do que a intermediação cultural tradicional, que sempre filtra demais, sem conhecer no detalhe as situações e necessidades de cada um. (p. 101)

Desta maneira, uma comunidade virtual bem organizada, representa de forma significativa riqueza de conhecimento distribuído e capacidade cooperativa entre os membros. Um exemplo disso, seria Henrique que afirma ter entrado no Orkut, principalmente pelos fóruns, pois durante a entrevista relata que os mesmos tem proporcionado conhecimento e aprendizagem e partindo disso, conta uma experiência de quanto os membros dos fóruns que participa, o ajudou diante de um problema que não sabia como resolver.

Um outro dado a ser discutido, se refere à Paula, pelo fato de ter desfeito o Orkut e voltado novamente. A participante diz ter saído do site de relacionamento pela falta de privacidade, porém algum tempo depois voltou, pois achou que estava sendo esquecida pelos amigos. Este ato é denominado pelos usuários de “orkuticídio”.

Segundo Dal Bello (2009):

... Assim, pode – se dizer que a identidade – perfil é um canal de acesso imediato a auto – estima e a auto – imagem, pois (re)presenta, promove e celebra o eu. Não por acaso o encerramento da conta da plataforma é sentido como uma espécie de morte (Dal Bello, 2008b, 2009): o orkuticídio contém o terror do assassinato [quando se toma o perfil como duplo, portanto, “ eu mesmo – outro” (MORIN,2005)] e o estupor do suicídio (já que só é possível atentar contra o perfil ao estar revestido pelo mesmo)

As justificativas mais comuns dadas por quem já pensou, ou de fato cometeu o orkutícidio e depois resolveu voltar (“reencarnar”), denunciam que esse espaço reforça práticas como controle, vigilância, a especulação e o roubo da identidade (DAL BELLO, 2009). Mesmo que tenha todas essas nuances, e ainda que a participante no final da entrevista faça um apelo para que as pessoas desfaçam seus Orkuts, é visível nela e nos demais participantes desta pesquisa, o incomodo de perceberem que não conseguiriam viver sem o Orkut.

Esta questão envolvendo o Orkutícidio, permite pensar nas bipolaridades do símbolo, pois além de se configurar uma constante tensão entre os opostos, pode representar a morte de inúmeros símbolos constituídos em seus perfis, quando acontece o orkuticídio. Enquanto, retornar ao Orkut, pode representar a reelaboração dos símbolos, como também o surgimento novos símbolos, anteriormente reprimidos na sombra.

Sobre a pergunta, se o Orkut modificou seu modo de ser apenas Paula afirma que sim, pois se diz mais paranóica por conta da exposição, que segundo Nascimento (2007):

A superficialidade, a eterna desconfiança do outro (paranóia) e o melindre são os correlatos do homem somático. Trata – se de um indivíduo, frágil, inseguro e insensível para o outro (ORTEGA, 2002, p. 169). O eu somático vive numa ambigüidade, incerteza e medo continuo, provocado pela cultura do risco, que produz um sentimento de angústia e apreensão constante (...) (pg.59)

O que exemplifica todo o discurso trazido pela participante durante a realização da entrevista, pois demonstrava muita insegurança, além de demonstrar constantemente a sua preocupação em se expor no Orkut, inclusive no momento que estava sendo entrevistada, pois mesmo esclarecendo que seu nome seria mantido em sigilo, perguntou algumas vezes se sua identidade seria preservada, demonstrando uma certa ansiedade e preocupação.

No que se refere ao modo de se relacionar com as pessoas, apenas Carlos diz que mudou pelo fato do Orkut ser uma maneira distinta de se relacionar com as pessoas.

Dessa forma, quando o participante aborda sobre a modificação de se relacionar com os demais usuários, é um dado que permite notar que estas relações transcendem relações de tempo e espaço, de como também a interação homem máquina está afetando e reconfigurando, não apenas a relação entre as pessoas, mas relação destas com a sociedade, pois ainda que, nas comunidades virtuais haja um significativo número de pessoas adicionadas em suas páginas de relacionamento, é perceptível o enfraquecimento das relações sociais.  

2. Perfis e identidade;

Os perfis do Orkut é um espaço onde permite ao usuário se apresentar da maneira que seja mais conveniente de se apresentar no referido site de relacionamento. Esta ferramenta, permite refletir que não só nesse contexto virtual, mas também no real, é comum criar tentativas de construir uma identidade ao qual gostaríamos de ter, porém esta busca pode acabar  afastando do que somos em nossa totalidade.

Por isso, é importante compreender o desenvolvimento do ego, persona e sombra. Sendo assim, é perceptível notar a relação entre a formação do ego e a sombra, pois esta personalidade reprimida é uma espécie de desvalorização no processo de construção do ego, tal repressão ocorre devido ao encontro do eu enquanto personalidade e as regras e valores presentes na sociedade.

É válido ressaltar que as qualidades que foram reprimidas por não serem adequadas com os ideais da persona e com os valores sócio – culturais podem ser fundamentais para a  estrutura da personalidade, mas por terem sido reprimidas se tornaram desconhecidas ou pouco acessíveis, se tornado de uma certa forma negativa. Ainda que reprimida, a sombra está apenas removida da consciência do ego e o fato de ser desconhecida escapam do controle do ego passando a atuar de forma independente, desenfreada e destrutiva, pois ela atua como complexos e são notadas principalmente por meio da projeção.

O desenvolvimento do ego e da persona corresponde a uma série de fatores ambientais que são norteados através de regras e valores transmitidos pela família, amigos, professores, etc. Dependem da aceitação dos valores coletivos e da persona, por que baseia – se na repressão do “mau” e do “errado” e na promoção apenas do “bom”.

A relação do ego com a persona se torna complicada pelo fato do ego se movimentar em direções opostas no sentido de ter uma certa autonomia, mas também a necessidade de adaptação ao mundo externo (VON FRANZ, 1991).

Estabelecendo essa relação do ego e da persona nas comunidades virtuais, é possível perceber que as múltiplas “identidades” que são apresentadas neste contexto não passam de uma composição indispensável ao indivíduo para que ele se ajuste a um mundo de variadas referências, incertezas, inseguranças e transformações constantes. Segundo Reule (2007) para sobreviver, o sujeito social precisa construir formas de conviver e ser inserido no contexto atual para poder estabelecer relações ou comunicar – se. 

Partindo disso, na pergunta referente ao uso dos personagens em seus perfis Maria e Henrique afirmam que só usam suas fotos como identificação.

Enquanto Paula, diz ter usado no seu perfil o personagem Sheila do desenho caverna do dragão, que se caracteriza por ser prestativa com os demais companheiros, sente medo de ficar sozinha e apresenta traços de meiguice e melancolia. Este personagem tem como principal arma uma capa de invisibilidade.

Tal personagem, remete a contradição existente no discurso da entrevistada por expressar a necessidade de privacidade, de não ser vista e, no entanto, faz parte do Orkut onde aqueles que participam estão  expostos. Ainda que, ponha fotos de costas como faz a participante, é perceptível o dinamismo existente tanto no discurso da participante, como nas características da personagem ao qual se identifica, podendo estar representando a movimentação do ego, persona e sombra. A mesma afirma:

“...eu gostava daquela capa que ela usava e sumia, ela com aquela capa sumia a hora que quisesse, ninguém achava ela. Daria tudo pra ter uma igual, um sonho de consumo (risos). Quando era pequena, queria ser como ela.”

Já Carlos escolhe o personagem principal do filme o estranho sem nome que após cometer três assassinatos e um estupro, este personagem é contratado pela cidade para protegê-la de três pistoleiros fugidos da prisão. Ele pinta então toda a cidade de vermelho, renomeiando – a de "Inferno”.

Quando perguntados sobre o que respondem quando vêem nos seus perfis a pergunta “Quem sou eu?”, foram obtidas as seguintes respostas:

Carlos diz que jamais responderia esta pergunta e prefere colocar algo com o qual se identifique, como o seguinte trecho do Diário do Rorschach(1985):

Carcaça de um cão morto no beco hoje de manhã com marcas de pneu no ventre rasgado. A cidade tem medo de mim. Eu vi sua verdadeira face. As ruas são sarjetas dilatadas cheias de sangue e, quando os bueiros transbordarem, todos os vermes vão se afogar. A imundice de todo sexo e matanças vai espumar até a cintura e as putas e os políticos vão olhar para cima gritando "salve-nos"... e eu vou olhar para baixo e dizer "não". Eles tiveram escolha, todos. Podiam ter seguido os passos de homens honrados como meu pai ou o presidente Truman. Homens decentes, que acreditavam no suor do trabalho honesto. Mas seguiram os excrementos de devassos e comunistas sem perceber que a trilha levava a um precipício até ser tarde demais. E não me digam que não tiveram escolha. Agora o mundo todo está na beira do abismo contemplando o inferno e os liberais, intelectuais e sedutores de fala macia... de repente não sabem mais o que dizer.

Já Henrique, diz não se questionar sobre isso e leva tudo na brincadeira. Como ele mesmo afirma que:

“...o ano passado botei anúncio de prostituto :  Tenho 1, 76 cm de altura e 62 Kg de muito prazer (risos).Uma amiga minha pediu pra botar essa também: 100% sensual. Faço isso pra brincar mesmo. (risos)”

Atualmente o seu perfil está descrito sobre os 5 clichês que as pessoas utilizam para responderem a pergunta quem sou eu no Orkut que são:

1. A velha piada "quem sou eu: eu"  e adjacentes;

2. utilização de horóscopo;     

3. Uma frase de efeito, que não precisa ter sentido lógico em sua vida ou personalidade;

4. Algum poema de autor famoso que fale sobre amor, felicidade, vida ou autoconfiança;

5. Uma letra de música da MPB ou pop americano, com frases de efeito, que rimem bem e que não necessariamente precisem fazer sentido.

A partir das características evidenciadas na descrição dos participantes Carlos e Henrique, é possível pensar que ambos possuem personas criativas, pelo fato de se apresentarem de forma muito distinta do que geralmente é percebida nos sites de relacionamento. Para Byington (1988), as pessoas criativas se distinguem por terem uma personalidade dotada para constelar novos símbolos em determinada dimensão e por se dedicarem à sua elaboração, fato a ser constatado pelo fato dos mesmos modificarem seus perfis no intuito de promover seja a mobilização ou riso, respectivamente. São pessoas geralmente consideradas não – confiáveis, mal adaptadas, perigosas, bizarras e até loucas, pois buscam personas com tais características descritas, talvez para que a comunidade reconheça sua “anormalidade” e não queira se enquadrar nas personas habituais.

Ainda para o Byington :

...Estas personas bizarras, adotadas frequentemente, são parte de um ritual de criatividade para unir a persona e a sombra, evitando a tensão normalmente existente entre elas e permitindo, com isso, captar muitos símbolos criativos que iriam para sombra por falta de receptividade. (1988, p.47)

Estes fatos mostram como a sombra realmente pode abrigar símbolos de toda ordem, desde as características mais terríveis até as mais geniais.

Com relação aos perfis fakes, três participantes afirmaram já ter criado, o intuito de dois destes diz respeito à necessidade de não serem identificados pelos donos dos perfis que visitavam, por que queriam obter informações em sigilo acerca dos mesmos.

Enquanto Henrique, criou um fake com o nome de Ednaldo Pereira que se trata de um gari paraibano que ficou famoso, a partir de uns vídeos lançados no You tube, onde canta músicas de sua autoria, porém, as letras de suas músicas não têm rimas, e ninguém consegue entender muito bem a mensagem que elas querem transmitir.

Estes dados permitem pensar que embora os participantes tenham criados estes perfis fakes por motivos aparentemente sem maior importância não se pode descartar que possa haver participação da sombra nos mesmos, pois já parece algo atípico pelo fato de serem anônimos, há uma intenção de fazer algo que as pessoas não descubram, pois criar um fake geralmente não é algo bem visto pelos usuários, principalmente por ser um artifício muito utilizado para fazer cyberbullying.

A partir destes dados aqui apresentados, se faz necessário perceber que se pode pensar na possibilidade da movimentação da persona e sombra por meio destes perfis, não necessariamente o Orkut pode acarretar o sujeito no processo de individuação, a questão está muito mais em torno de como o usuário utiliza esta ferramenta, pois pode - se observar que o Orkut se constitui um espaço também para expressão da criatividade.

3. Comunidades que participam;

As comunidades virtuais presentes no Orkut são grupos de pessoas que se unem espontaneamente em torno de assuntos, interesses, vontades, comportamento e atitudes comuns em relação a algum tema. Isto quer dizer que pessoas "parecidas" podem pertencer a comunidades diferentes e pessoas aparentemente "tão diferentes" podem pertencer às mesmas comunidades, ultrapassando premissas sócio-econômicas, geográficas e comportamentais, de crenças e valores. Tais características, podem estar relacionadas a uma camada mais profunda, baseando – se num motivo de origem arquetípica.

Dentro desta ótica, como os arquétipos não diretamente visíveis, eles só são percebidos pelo consciente quando recebe uma imagem, uma forma, que recebe o nome de símbolo. Esses símbolos por sua vez, que tem se configurado nas comunidades virtuais, podem vir acompanhados dos complexos no qual o elemento nuclear, também diz respeito aos arquétipos. Durante a vida do indivíduo, o seu núcleo se associa a fatores emocionais que fazem um produto psíquico mais ou menos autônomo, podendo se apresentar de forma invisível como um sintoma (WHITMONT, 1998).

Em se tratando das comunidades dos participantes, são perceptíveis possíveis características de possíveis símbolos e dos complexos através de seus temas, pois apresentam traços de uma carga emocional significativa e prováveis projeções em suas respectivas comunidades.

Nessa perspectiva, quando indagados se participavam de comunidades para expressar algum tipo de sentimento negativo ou não por algo ou alguém, Maria relata entrar em comunidade expressando amor deixando claro que permanece constantemente entrando e saindo de comunidades, por ser coisas muito de um determinado momento. A participante, além de participar de comunidade “Amar”, como já havia citado anteriormente, faz parte de outras comunidades como:

Odeio falta de consideração”, “Pai e mãe: amor eterno”, “Esporte clube vitória”, “Tenho ciúmes sim!! E daí?”,“Eu odeio depender dos outros” e “Eu amo dança”.

Henrique se refere ao ódio, quando diz ter participado da comunidade “Odeio o cara das Casas Bahia” relatando que este personagem era uma pessoa chata, antipática e irritante. Porém, entrando na sua página de relacionamento e acessando suas comunidades foi perceptível que participavam de outras comunidades que faziam menção a algum tipo de sentimento.

O participante 4 “Eu odeio gente prepotente”, “Odeio acordar cedo”, "Foda é meu pai, eu sou fodinha”.

Os participantes Carlos e Paula não foram citados, por não terem sido encontrados nenhuma comunidade que faça menção a pergunta realizada nesta pesquisa.

A respeito dos símbolos e complexos:

Segundo Jung, o complexo e o símbolo, em princípio, se cobrem em grande parte, no sentido de que ambos têm raízes num núcleo arquetípico e “moram” no inconsciente coletivo. Por isso, como noções, os termos arquétipo, símbolo e complexo, em sua significação essencial, podem ser usados, com certa justiça, alternadamente um pelo outro, tal como fez Jung. Jacobi (pg. 109,1999)

Dessa forma, pode – se compreender que os símbolos e os complexos funcionam em dinamismo constante, mudando, se transformando, sem deixar de possuir suas características antagônicas, pois uma vez ocorrendo à efetivação desses dois lados, se inicia o processo de ampliação da consciência e o desenvolvimento da personalidade.

Esses elementos nucleares, permitem notar as construções arquetípicas da persona e sombra, porém dentro de um contexto virtual sendo visualizados através das comunidades temáticas existentes no Orkut.

Quando perguntada sobre o que responde ao ver a pergunta “Quem sou eu?”, Maria traz a seguinte resposta:

“Não sei... Uma pessoa que já namora, uma pessoa querida por todos. Não sei..... Acho que só!

Acho que as comunidades ajudam a mostrar quem eu sou. Uma pessoa feliz, rodeada de amigos, que cultiva amizades, que sempre recebe depoimentos. Enfim, acho que é isso.”

Maria na descrição do seu perfil, usa apenas fotos. Este dado, faz pensar no que tem sido muito característico no mundo virtual, uma possível conversão do eu em imagem:

(...) essa mediatização se radicaliza no hiperespetáculo: tudo é imagem, tudo é visibilidade, de tal forma que as relações se dão para além da imagem que cada um tem do outro ou da projeção da imagem de si no outro: envolvem a “ imagem que idealizamos como imagem padrão” ( SILVA, 2007, p. 37) E, se tudo é imagem, é tela, não há mais real a ser refletido (...) (Dall Bello, 2008, p. 7)

A partir deste relato, a mesma afirma que as comunidades das quais faz parte caracterizam sua personalidade. No entanto, fazendo o comparativo de sua reposta, onde afirma não saber quem ela é, com as comunidades que participa, foi percebido que tanto em um como no outro, há uma predominante referência as suas personas e a sua vida social. Nesse sentido, ter um perfil não é apenas atender a condição de acesso à rede, envolve uma questão de existência, permanência, pois uma vez sendo representado por uma identidade – perfil, o sujeito por meio desses recursos de relacionamento e comunicação é convidado a projetar – se e ser, reconhecidamente alguém, que “necessita do outro” como instrumento de confirmação e admiração do próprio eu, sendo de certo modo, extensões da cultura narcisista, no contexto da era da visibilidade midiática. (DAL BELLO, 2009)

Já Paula, traz uma outra perspectiva, embora não afirme que as comunidades expressem traços de sua personalidade, em seu discurso é perceptível à necessidade freqüente de não se expor, de querer privacidade, por isso adere a poucas comunidades. Uma em especial chama atenção “Não me adicione”, sua descrição diz o seguinte:

Não sou legal.

Você conhece mais de 700 pessoas? OMG, Parabéns!

Quer um biscoito?”

Esses dados, permitem perceber como se estrutura sua persona, pois é notório que Maria apresenta uma provável identificação com a persona, pois parece preocupar – se excessivamente em agradar e adaptar – se a este contexto virtual e parece acreditar que esta imagem construída no seu Orkut são características da sua personalidade.

Enquanto Paula, possui uma trajetória distinta, uma necessidade de rejeitar as formas sociais de relacionamento existentes no Orkut, mostrando uma demasiada autopreservação.

Com relação a estas observações:

O desenvolvimento da personalidade sofre assim interferência em ambos os extremos; uma persona malformada é tão limitadora quanto seu oposto. Um relacionamento com o arquétipo da persona pode abranger desde a fixação no seu aspecto puramente coletivo até a incapacidade ou a recusa rebelde de aceitar qualquer exigência ou adaptação coletiva (Whitmont pg. 142, 1998).

Sendo assim, cabe compreender sobre a importância de aprender e adaptar as identidades às exigências sócio – culturais de acordo com os papéis que se representa  na sociedade, principalmente quando se trata do Orkut. É preciso desenvolver uma persona nem tão polarizada para as exigências da sociedade, nem tampouco para o isolamento, mas buscar um equilíbrio nessa relação ego – persona, saber transitar entre ambas de forma a ter consciência de sermos nós mesmos nos diferenciado desses papéis.

Agora se referindo a sombra, Henrique, por exemplo, participa de uma comunidade que diz “Eu odeio gente prepotente”. Esta comunidade se apresenta da seguinte forma:

Descrição: Quem abusa de sua autoridade para fazer os outros aceitar sua vontade................Para aquelas pessoas que odeia essa gente sem caráter e ignorantes nas suas próprias idéias mesquinhas e puramente intragáveis/ Que se acham a última bolacha do pacote/Estrelas, mas sem brilho nenhum/Dizem que sabem tudo, mas no fundo são uns burros/O que falta para essa gente é sandálias de humildade/ Vamos meter o pau nessa gente/ Deixe seu scrap no tópico do fórum e diga o que você pensa sobre essas pessoas.... Ser prepotente é nojento........”

A descrição desta comunidade faz notar visivelmente uma suposta projeção da sombra, pois corresponde exatamente à maneira de como geralmente se manifesta. Ressaltando que nesse caso das comunidades, não se pode pensar apenas em sombra pessoal, mas também na manifestação da sombra coletiva que segundo Miller:

(...) o indivíduo (ou o grupo) vincula – se e identifica – se  psicologicamente com um objeto, pessoa ou idéia , tornando – se incapaz de fazer uma distinção moral entre ele mesmo e sua percepção do objeto. No caso da sombra coletiva, isso pode significar que as pessoas se identificam com uma ideologia ou um líder que expressa os medos e inferioridades de toda sociedade (pg. 189,1991).

Dessa maneira, as comunidades temáticas, permitem refletir o quanto às comunidades tem sido espaço para perceber os aspectos dinâmicos de sombra e suas projeções, e de como as pessoas que participam dessas comunidades não percebem que ao entrar nessas comunidades podem estar se referindo a si próprias.

4. Persona e Sombra

A partir das análises realizadas nas demais categorias, é perceptível que o Orkut é uma forma de sociabilidade com tendências para exterioridade. As imagens representadas pela aparência física, corpos textuais expressos nos seus perfis e as comunidades temáticas, fomenta a cultura narcísica na atualidade, pois parece haver uma constante busca realização dos seus desejos e de uma “felicidade efêmera”, pois segundo Nascimento (2007), o conceito moderno de felicidade consiste numa ausência completa de dor, apontando como conseqüência da busca do homem contemporâneo por preencher sua vida vazia com uma série de episódios efêmeros de bem – estar.

Esta falta de sentido para a existência é um sintoma deste período pós – moderno. E a filosofia, conforme Deleuze, é uma sintomatologia, é uma semiologia, é uma leitura dos signos de uma época (DELEUZE, 1976, p.3). Essa artimanha de apagar a dor pode ser associada a uma maneira apolínea de se relacionar com o mundo. O Deus Apolo buscava libertar – se do sofrimento por intermédio da aparência, da imagem plástica, mas a nova concepção do trágico em Nietzche supunha que mundo “ideal” deveria conter estas duas forças aparentemente antagônicas que são as forças apolínea e dionisíaca. Para Dionísio o sofrimento é necessário para a individuação, é uma forma de afirmar a vida (NASCIMENTO, 2007, p. 84).

Estes dados, levam a pensar dentro da perspectiva da Psicologia analítica, a importância da integração da felicidade e dor no caminho de individuação do ser humano, pois a polarização focada apenas em um dos lados desses pares ocasiona exatamente o sintoma. E é dentro desta perspectiva, que esta categoria trará esta discussão, porém focando nas polaridades persona e sombra.

O Orkut representa a atualização de arquétipos na era virtual, sendo perceptíveis por meio dos símbolos, sintomas e complexos. Como afirma Jacobi (1999) “nunca se pode encontrar o arquétipo em si de maneira direta, mas apenas indiretamente, quando se manifesta no símbolo ou no sintoma ou no complexo” (p.73).

Partindo dessa idéia, a persona e a sombra, enquanto arquétipos atualizados se configuraram no Orkut, de maneira que favoreceu perceber características semelhantes das mesmas nos relatos dos participantes, principalmente no que se refere às personas representados por cada um deles. Em alguns deles, se fez notório personas provavelmente com tendenciosa polarização para o pseudo – ego e uma persona com dificuldades para atuar no mundo externo, como também evidências de projeções da sombra. Certamente devido ao fato dos usuários serem convidados constantemente a se tornarem sujeitos espetaculares.

Nesta ótica, envolve a dificuldade em aceitar os traços negativos e integrá – los , o que acontece é que nós reprimimos e projetamos, vendo em todas outras pessoas, exceto em nós mesmos. Todos os aspectos da nossa imagem que não são compatíveis com o ideal do ego são abandonados:

Em linguagem um tanto figurada, podemos dizer que cindimos a concórdia discors da psique em numerosas polaridades, contrários e opostos – aos quais, por conveniência, nos referimos coletivamente como o Quarto Dualismo (ou seja, a cisão entre a persona e a Sombra). Em cada um desses casos, associamo – nos com apenas “uma metade” da dualidade e lançamos o posto desta metade, rejeitando e geralmente desprezado, para o mundo crepuscular da Sombra. Portanto, a sombra existe precisamente como o oposto daquilo que nós, enquanto a persona, em nível consciente acreditamos e pensamos ser (Wilber, 1991, p. 300)

Consequentemente, a nossa identidade fica limitada, se tornando apenas uma fração do nosso ego, acompanhado de uma persona distorcida e empobrecida. Isto permite que, sejamos frequentemente assombrados pela própria sombra, pois a mesma força a entrada na consciência, da ansiedade, do medo, da culpa e da depressão, de acordo com Wilber (1991) “a sombra transforma – se num sintoma e agarra – se a nós como um vampiro a sugar o sangue da sua presa” (p. 300)

Sendo assim, para curar as projeções da sombra assumir a responsabilidades sobre elas, pois à medida que, enfrentamos nossos opostos, os sintomas e desconfortos que ela nos inflige, eles tendem a desaparecer.

Ressaltando que o sintoma não deve ser combatido, pois a questão não é livrar – se de algum sintoma e sim, aumenta-lo de forma intensa e consciente para ser sentido plenamente, pois quanto mais se sente culpa, vai ocorrer que se sinta menos culpado, deixando possivelmente de produzí-los. Agindo dessa maneira, estamos reconhecendo gradativamente a sombra, tornando consciente o que até então se manifestava inconscientemente (WILBER,1999).

No aspecto simbólico, fica evidenciado a função transcendente, pois os mesmos se manifestam como se fossem uma ponte, como o consciente – inconsciente, persona – sombra, sendo percebidos como positivo ou negativo, atraente ou repugnante, promovendo a unificação, e por sua vez a integração a personalidade. Ressaltando que:

... A razão é que, ao mesmo tempo que o símbolo anula os antagonismos, ao uni – los dentro de si, para logo deixar que novamente se separem, a fim de que não se estabeleça nem rigidez nem imobilidade, ele mantém a vida psíquica em constante fluxo e a leva adiante no sentido do seu objetivo determinado pelo destino. Tensionar e soltar podem seguir em ritmo constante como expressão da mobilidade viva do decurso psíquico. (JACOBI, 1999, p. 91)

Com relação à capacidade sintetizadora dos símbolos, foi percebido em dois participantes uma aparente mobilidade de sempre estar modificando seus perfis se apresentado de forma muito diferenciada do que comumente os usuários se descrevem em seus perfis, como se estivessem em constante processo de integração entre esses opostos, persona e sombra.

Sendo assim, a sombra não pode ser reprimida e nem dissolvida, sendo necessário relacionar com ela, ainda que, o ambiente virtual promova aspectos que nos distancie da mesma, se faz necessário tomarmos o rumo inverso, de atentarmos e reconhecermos aspectos inerentes a nossa personalidade.

Considerações Finais

Esta pesquisa, permitiu visualizar o Orkut no que se refere ao seu processo histórico, como fruto do progresso do capitalismo juntamente com as ciências tecnológicas ao longo dos anos, representando na atualidade, uma ferramenta que reforça a concepção da sociedade do espetáculo, no que diz respeito, a celebração e a representação do eu mediada por imagens. Modificando também, tanto a forma das pessoas se relacionarem com as outras, como a maneira de se apresentarem neste contexto sócio-virtual.

A partir da ótica da psicologia analítica, este fenômeno denominado Orkut, é compreendido como atualização de arquétipos, pois condições dadas pelo contexto da sociedade pós-moderna entranhada de suporte tecnológico permitiu notar diversas manifestações arquetípicas, sendo dada a devida ênfase a persona e a sombra.

Relacionando estes conceitos, com os depoimentos dos participantes e análise dos seus respectivos perfis, houve uma contribuição para o levantamento de hipóteses acerca das temáticas trabalhadas neste artigo, pois estes dados permitiram notar manifestações semelhantes à persona e sombra seja, nos seus relatos, nas identidades – perfil e nas comunidades temáticas que os entrevistados participam, onde tive permissão dos mesmos para visitar. Deixando claro do cuidado de não ser determinista em focar, conceituar de forma direta, o que foram encontrados nas análises dos dados por compreender a complexidade que envolve o ser humano e as similaridades com demais conceitos existentes nesta abordagem, havendo direcionamento maior nos aspectos dinâmicos das polaridades que são tema deste artigo.

No que se refere às influências do Orkut no processo de individuação dos usuários, o Orkut se constitui em um espaço para as mais variadas ordens e manifestações da psique. O fato do indivíduo pós-moderno possuir cada vez mais uma identidade frágil, superficial e fragmentada, envolve o modo como o sujeito lida na relação com sua individualidade e o mundo externo e não necessariamente o Orkut deve ser responsabilizado nesta questão, mesmo que, nos dados duas participantes, uma tenha apresentado uma suposta identificação com questões coletivas, como também a outra uma rejeição da persona ao entrar em contato com externo. Se fosse desta maneira, todos os integrantes estariam preocupantemente polarizados de alguma forma. Ao contrário disso, pois foi notório perceber também por meio das entrevistas, participantes com potencial de criatividade significativa para trazer a consciência símbolos que certamente permaneceriam na sombra.

Desta maneira este artigo, propõe-se a ressaltar a importância de buscar a singularidade, pois é fato que quanto mais nos envolvemos na sociedade espetacular da era virtual, da visibilidade midiática, mais nos distanciamos da nossa personalidade, sendo muitas vezes obscurecida. Não nos referimos a questão de desfazer o Orkut, mas ter o equilíbrio de estar neste ambiente virtual, porém se alinhando, buscando a individuação e não viver excessivamente ligados a normas e valores coletivos presentes em sites de relacionamento.

Sobre o Autor:

Íris Araújo - Graduanda do curso de Psicologia pela Universidade Salvador. Sob orientação da Profª. Leonor Guimarães. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

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