Reflexões Acerca da Adoção na Perspectiva Analítica

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Resumo: Alguns fatores, relacionados em torno do processo de adoção, acompanham tanto os pais adotivos quanto os filhos adotados, além da família e sociedade que os envolve. Tendo como referencial teórico a psicologia analítica, este trabalho visa refletir de que forma a adoção pode constituir-se num decurso de integração da sombra e consequente influência no processo de individuação dos pais. O presente artigo intenciona articular escritos publicados sobre adoção, sombra e processo de individuação, visando suscitar reflexões acerca do tema em todas as pessoas que se interessam em compreender de que forma a adoção pode emergir conscientemente elaborada a partir da integração da sombra, o que influenciará no processo de individuação dos pais adotantes, dentro da perspectiva analítica, bem como analisar os motivos que influenciaram na escolha pela adoção, refletir sobre a transição para a maternidade e paternidade no processo de adoção e estudar as mudanças sociais e psíquicas observadas nos pais adotantes decorrentes da adoção, além de trazer contribuições no sentido de auxiliar familiares e profissionais envolvidos com a adoção. Os dados coletados foram obtidos através de entrevista com um casal adotante. Pretende-se a partir da fundamentação analítica, contribuir a respeito dessas reflexões, revelando inclusive a carência de artigos relacionados e a necessidade dos profissionais dessa abordagem em produzir escritos que tratem do tema em questão.

Palavras-chave: adoção, psicologia analítica, sombra, processo de individuação.

Introdução

Vários mitos gerados em torno do processo de adoção acompanham tanto os pais adotivos quanto os filhos adotados, além da família e sociedade que os envolve. Todo ser humano vivencia algum tipo de conflito, sendo este constitutivo da sua formação, mas o que interessa neste trabalho é refletir de que forma a adoção pode constituir-se num decurso de integração da sombra e consequente influência no processo de individuação dos pais, segundo o referencial teórico da psicologia analítica.

Levinzon (2005) a partir de relatos dos pais e da sua experiência clínica traz diferentes motivos pelos quais as pessoas buscam a adoção. São eles: o contato com uma criança que desperta o desejo da maternidade ou paternidade, o desejo de ter filhos quando já se passou da idade em que isto é possível biologicamente, a esterilidade de um ou ambos os pais; a morte anterior de um filho, o desejo de ter filhos sem ter de passar por um processo de gravidez, por medo deste processo ou até por razões estéticas, o parentesco com os pais biológicos que não possuem condições de cuidar da criança, as idéias filantrópicas, o anseio de serem pais,  por parte de homens e mulheres que não possuem um parceiro amoroso.

Schettini (1998) acrescenta ainda a tentativa de salvar um casamento, o desejo de ter companhia na velhice; o medo da solidão; o preenchimento de um vazio existencial, a possibilidade de escolher o sexo da criança.

Normalmente as representações que a maioria das pessoas elabora acerca da família, se fundamentam nos laços consanguíneos, o que possivelmente aumenta a possibilidade do filho adotivo e pais ocuparem um espaço de exclusão, como Woodward (2000) afirma, relatando que essa “diferença pode ser construída negativamente por meio da exclusão ou da marginalização daquelas pessoas que são definidas como "outros" ou "forasteiros" (p.50).

Todos esses aspectos influenciarão na dinâmica psíquica dessa nova configuração familiar, e, portanto, a importância de situar a experiência da adoção como um processo de individuação, definido por Jung (1985) como “tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como  “tornar-se si-mesmo” ou “o realizar-se do si-mesmo” (p.49)”.

...o bebê, por exemplo, chega ao mundo preparado para desempenhar seu papel ao constelar adequadas atitudes e condutas maternais na pessoa que cuida dele, arrulhando, sorrindo, mamando e, de um modo geral, tornando-se uma criatura adorável. Ao mesmo tempo (se tudo correr bem) a mãe está preparada para assumir o papel de alimentar e criar o seu bebê. O par mãe-bebê descreve um padrão arquetípico de fantasia humana e de ação recíproca interpessoal que é primordial e tem importante valor de sobrevivência. (STEIN, 2005, p. 154).

Para cada etapa da vida existem tais constelações de instinto e arquétipo, as quais resultam em padrões de comportamento, sentimento e pensamento.

A forma de vivenciar essa maternidade/paternidade adotante dar-se-á de acordo com as singularidades e individualidades do casal o que possibilitará um avanço no processo de individuação, se olhado sob o aspecto de uma ampliação de consciência, incluindo a devida elaboração e integração da sombra.

Assumir a paternidade/maternidade implica em responsabilizar-se pelo desenvolvimento de um indivíduo, numa sequência de trocas que pode acarretar em transformações numa série de áreas da vida sejam elas materiais, emocionais e espirituais que possivelmente não foram cogitadas.  Com relação a essas transformações Jung (1986)constata que:

... por via de regra, as reações mais fortes sobre as crianças não provém do estado consciente dos pais, mas de seu fundo inconsciente. Para toda a pessoa de responsabilidade moral, que ao mesmo tempo é pai ou mãe, representa este fato um problema de certo modo amedrontador... Sobrevém a qualquer pessoa um sentimento de extrema incerteza moral, quando se começa a refletir seriamente sobre o fato da existência de atuações inconscientes. Como então se poderá proteger as crianças contra os efeitos provenientes de si próprio, quando falha tanto a vontade consciente como o esforço consciente?...Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os pais levam, pois o que atua sobre a criança são os fatos e não as palavras. Por isso deverão os pais estar sempre conscientes de que eles próprios, em determinados casos, constituem a fonte primária e principal para as neuroses de seus filhos. (p.45-46)

Nesse sentido, o processo de desenvolvimento psicológico, a tentativa de tornar-se uma personalidade unificada, mas também única, um indivíduo, uma pessoa indivisa e integrada, unindo aspectos conscientes e inconscientes da personalidade, é de extrema importância para integrar a adoção no processo de individuação.

O presente artigo intenciona articular escritos publicados sobre adoção, sombra e processo de individuação, visando suscitar reflexões acerca do tema em todas as pessoas que se interessam em compreender de que forma a adoção pode emergir conscientemente elaborada a partir da integração da sombra, o que influenciará no processo de individuação dos pais adotantes, dentro da perspectiva analítica, bem como analisar os motivos que influenciaram na escolha pela adoção, refletir sobre a transição para a maternidade e paternidade no processo de adoção e estudar as mudanças sociais e psíquicas observadas nos pais adotantes decorrentes da adoção tendo como viés os conceitos de sombra e processo de individuação, além de trazer contribuições no sentido de auxiliar familiares e profissionais envolvidos com a adoção.

Pretende-se a partir da fundamentação analítica, contribuir a respeito dessas reflexões, revelando inclusive a carência de artigos relacionados e a necessidade dos profissionais dessa abordagem em produzir escritos que tratem do tema em questão.

Este trabalho está estruturado da seguinte forma: a primeira parte abarca a revisão de literatura, na qual houve um aprofundamento do tema abordado, enfocando a conceituação e historicidade da adoção, os principais conceitos da psicologia analítica enfocando a sombra na família e como a adoção pode constituir-se num processo de individuação. A segunda parte aborda o método, onde se delineou a pesquisa, o contexto, os participantes, além do plano de coleta e análise dos dados. Na terceira parte serão apresentados e discutidos os dados coletados em entrevista para em seguida realizar a conclusão do trabalho.

1. Fundamentação Teórica/ Revisão de Literatura

Conceituação e Historicidade da Adoção

Segundo Houaiss (2001), adoção é a “ação ou efeito de adotar, de aceitar (alguém ou algo)” e por extensão “é a aceitação espontânea de (pessoa ou animal, geralmente doméstico) como parte integrante da vida de uma família, de uma casa”.  Diz ainda em termo jurídico que é o “processo legal que consiste no ato de se aceitar espontaneamente como filho de determinada pessoa, desde que respeitadas às condições jurídicas para tal” (p. 88).

SILVA e outros (1987) no dicionário de Ciências Sociaisdefinem adoção como “ato civil pelo qual alguém estabelece vínculo fictício de paternidade, geralmente com um estranho, obedecidos os requisitos da lei” (p.24).

As civilizações antigas como a Babilônia, Egito, Palestina e Caldeia já conheciam a adoção, inclusive há passagens bíblicas que relatam casos de adoção, porém, segundo os estudos teológicos, no antigo testamento bíblico, os legisladores não mencionam a possibilidade de alguém adotar o filho de outra pessoa; o direito assírio-babilônico, no entanto, conhecia tal adoção. Quando não havia herdeiros, era mais fácil os bens ficarem com um escravo do que adotar-se um filho. Há alguns casos que poderiam passar por adoção: Jacó adotou os filhos de José, José os de Maquir, mas em ambos os casos trata-se de netos que ganham os direitos de filhos. Mardoqueu adotou sua sobrinha Ester. A adoção de Moisés por uma princesa egípcia não se fez, naturalmente, conforme direito israelita, já no novo testamento bíblico, o apóstolo Paulo compara o modo como o homem se torna filho de Deus com a adoção greco-romana (STEIN, 1971).

Para a sociologia, a adoção está adaptada, em termos brasileiros, aos progressos que o judiciário experimentou em um campo aparentemente tão estável em suas normas e tão renitente a inovações, o direito de família. De fato, a adoção é uma interferência violentadora no tradicional direito da consaguinidade, de concepção tão arraigada. A adoção quebra o tabu do sangue da família natural e é olhada como um sacrilégio, ao mesmo tempo em que dela se espera um ato de perfeição e santidade e o fato de existir a tendência de não se revelar a verdade ao filho adotado explicaria a submissão ao mito do sangue. A mais revolucionária posição assumida doutrinariamente no campo da filiação foi exposta por J. B. Vilela, professor da Universidade de Minas Gerais, perante o primeiro congresso internacional de Direito de Família em 1975 em Berlim: a desbiologização da paternidade. Com esta tese pretendeu provar que a adoção não forma uma família de segunda classe, mas em resumo afirma que mais importante que gerar é criar. Dessa forma, a adoção ganha relevo e o aspecto biológico da paternidade perde sua importância absoluta (SILVA e outros, 1987).

O primórdio da existência da adoção se dá na fase pré-romana clássica e se remetia ao dever de perpetuar o culto doméstico. Como mostra CHAVES apud BORGES e outros (2005), era muito usada entre os orientais, sendo seu marco existencial no Código de Manu e de Hamurábi, entre os babiloneses e teve seu uso regular na Grécia Antiga. No Código de Hamurábi que data de 1728-1686 a.c., a adoção era vista como a substituição de criança quando não se podia ter filhos biológicos. Este Código traz em seu dispositivo 185 que: "se alguém dá seu nome a uma criança e a cria como filho este adotado não poderá mais ser reclamado", portanto, a adoção se dá, como ato não reclamável, a medida que se cria uma relação afetiva entre adotante e adotado.

Na Grécia o Código de Hamurábi, era utilizado, mas em Atenas só os tidos como cidadãos atenienses gozavam do direito de adotar e serem adotados. Em Roma a adoção foi ordenada juridicamente, já que esta era uma instituição de "direito privado, simétrico à da naturalização no direito público", (CHAVES apud BORGES et al, 2005). Na Roma antiga, a ação de adotar se tornou uma atividade essencial, para que a família - composta por escravos, servos, mulheres, crianças, animais e terras pertencentes a um único homem - não entrassem em extinção, visto que o pai adotivo tinha que dar continuidade a sua herança, através do filho adotado.

Na Idade Média, a adoção não constituía a vontade dos senhores feudais, visto que não tinham os mesmos costumes do patriarcado familiar romano, portanto, a adoção caiu em desuso, inclusive um dos fatores do não uso da adoção, foi a sacralização do matrimônio no declínio romano quando se dá o surgimento do cristianismo e as famílias passam a constituir-se por consanguinidade. Outro fator foi justificado por este ato depender da ordem real e nessa época o rei não concentrava tamanho poder em mãos para legitimar a adoção, já que, os feudos eram propriedades privadas não ligadas a um reinado único havendo dentro de cada um deles moedas, normas e culturas próprias (GATELLI , 2003).

No entanto, no final da Idade Média, o Código Civil Francês retira a adoção do esquecimento sócio-jurídico, influenciando diretamente as legislações modernas. Mas, ainda assim, no séc. XVI não se dava ao adotado o direito legítimo da adoção e nem o direito à sucessão (BORGES et al, 2005).

Conforme Albernaz Júnior (1996), a adoção cai novamente em desuso durante o século XIX, voltando a ser amplamente utilizada e difundida durante o século XX em vários países, sendo objeto de estudo e regulamentação em diversos congressos, convenções, acordos e tratados internacionais.

Segundo o Guia comentado sobre novas regras para a adoção, elaborado por Pachá, Vieira Júnior e Oliveira Neto em 2007 a adoção é um direito, dissolúvel e revogável em muitos casos, resultando a adoção em um ato meramente de filiação civil. O Brasil em meio a tal época incorpora esta noção de civil filiação e paternidade. O primeiro ordenamento brasileiro sobre a adoção data de 20 de outubro de 1823, um ato da Assembléia Geral Constituinte do Império Nacional sob ordens do Reino Português, corporificando a adoção como direito civil pátrio.

Os autores relatam que no Brasil, o primeiro ordenamento sobre adoção foi importado de Portugal em 1823, tornando a adoção como direito civil pátrio, quando esse país dominava a nação. No ano de 1916, após a Proclamação da República, surge a primeira lei nacional que institui a adoção. Neste Código de 1916 há uma diferenciação entre filho legitimo e filho adotivo principalmente no que se referia ao direito de sucessão, mantendo-se, portanto, a tradição da filiação de criação. A Lei não facilitava a adoção e nem reconhecia como direito da criança ou adolescente de modo a impossibilitá-la e condicionar o ato em mero desejo dos adotantes.

Em 1957 tem-se a Lei n° 3.133 que modifica alguns dos dispositivos sobre a adoção que constava no Código Civil de 1916, mas esta lei, ainda, não entendia as crianças e adolescentes adotados como sujeitos de direitos, pois podia ser revogado o pátrio poder do adotante e o restabelecimento aos pais naturais no momento de morte do adotante, maioridade penal/civil do adotado, reconhecimento do adotado pelo pai de sangue ou anulação do casamento celebrado entre os adotantes (PACHÁ, VIEIRA JÚNIOR, OLIVEIRA NETO, 2007).

E em 1965, surge o marco na legislação brasileira com relação à adoção a partir da promulgação da Lei n° 4.655 que traz a real igualdade de direitos entre os filhos legítimos e os legitimados.

Até mesmo o Código de Menores de 1979 refere-se a adoção como um ato de se retirar "o menor" da situação irregular que este se encontra, o abandono sócio-familiar que para muitos especialistas na época era uma das principais causas da delinquência juvenil. Foi, apenas, em 1990 que a adoção passou a ser tratada como um direito da criança e do adolescente à convivência familiar e comunitária estendendo a esses os mesmos direitos que nas legislações supracitadas eram exclusivos dos filhos consanguíneos (PACHÁ, VIEIRA JÚNIOR, OLIVEIRA NETO, 2007).

A adoção deu grande salto histórico ao tratar o adotando como sujeito de direitos. A primeira data referencia a Constituinte que em seus artigos, estabelece que os filhos terão os mesmos direitos e qualificações dos filhos havidos ou não da relação do casamento, sendo proibidas quaisquer designação discriminatórias relativas à filiação. A segunda refere-se ao ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n° 8.069/90) - que regulou a adoção de crianças e adolescentes de até 18 anos, salvo se já estiverem sob a guarda e tutela dos adotandos sem desdobrar a adoção em simples e plena e reconhece o ato como direito da criança e adolescente a ter família e colocam seus direitos e desejos em primeiro lugar no deferimento da adoção (PACHÁ, VIEIRA JÚNIOR, OLIVEIRA NETO, 2007).

Com o surgimento da Lei n° 10.406/2002 que trata do novo Código Civil que passou a vigorar no primeiro mês de 2003, normatiza a adoção dos maiores de 18 anos.

Em 2003, entrou em pauta no Congresso Nacional o Projeto de Lei n° 1.756 que almejava criar a Lei Nacional de Adoção e finalmente em novembro de 2009 entrou em vigor a Lei nº 12.010/09 que traz novas regras da adoção: Na impossibilidade de permanência na família natural, a criança e o adolescente serão colocados para adoção; O Estado deve proporcionar assistência psicológica e médica à gestante e à mãe interessada em entregar seu filho para a adoção, no período pré e pós-natal; As gestantes ou mães que manifestem interesse em entregar seus filhos para adoção serão obrigatoriamente encaminhadas à Justiça da Infância e da Juventude; A permanência da criança e do adolescente em programa de acolhimento institucional não deve ser superior a dois anos; A manutenção ou reintegração de criança ou adolescente à sua família terá preferência em relação a qualquer outra providência; Os grupos de irmãos serão colocados sob adoção, tutela ou guarda da mesma família substituta (PACHÁ, VIEIRA JÚNIOR, OLIVEIRA NETO, 2007).

Esta Lei define as hipóteses em que a adoção pode ser concedida, tratando-a como um direito da criança e adolescente caso haja impossibilidade de manutenção em família natural e dispõe que o adotado terá o direito a revelação de sua condição de adotivo, bem como o acesso a documentos acerca de sua família natural. Esta é uma lei específica sobre a adoção já que segundo o seu autor o Deputado João Matos (PMDB/SC) o Código Civil não incorporou os avanços contidos no ECA e na Constituinte de 1988. A Lei dispõe sobre quem pode adotar, a criação de um cadastro de crianças/adolescentes e adotantes adotáveis e sobre as adoções internacionais (PACHÁ, VIEIRA JÚNIOR, OLIVEIRA NETO, 2007).

Principais Conceitos da Psicologia Analítica

A criança adotiva também vem sendo pesquisada no campo da psicologia, sob os mais variados aspectos, tanto privilegiando dados estatísticos, quanto considerando a dimensão inconsciente presente nas relações entre coletividade e adoção. Um dos dados suscitados mais significativos nessas investigações é o preconceito da sociedade frente a uma criança adotiva, incluindo o de seus próprios pais, decorrente de seus medos e angústias (WEBER, 2002).

A despeito do desenvolvimento psíquico do sujeito, trazemos alguns conceitos básicos da psicologia analítica.

Segundo Robertson (1999) a psicologia analítica foi introduzida por Carl Gustav Jung na primeira metade do séc. XX (p.9). Também conhecida como psicologia complexa, é um ramo de conhecimento e prática da psicologia iniciado por Jung, o qual se distingue da psicanálise iniciada por Freud, por uma noção mais alargada da libido, onde esta “não era apenas energia sexual, e sim energia psíquica” (p.12) e pela introdução do conceito de inconsciente coletivo.

Para Stein (2005) a psique é o território, o domínio desconhecido que Jung estava explorando; a sua teoria é o mapa criado por ele para comunicar o seu entendimento da psique. Os conceitos fundamentais da psicologia analítica incluem os arquétipos, complexos, inconsciente coletivo, processo de individuação, persona, sombra, anima e animus, self e tipos psicológicos.

Segundo Jung, a consciência é a ponta do iceberg. Por baixo dela, encontra-se um substrato maior de recordações pessoais, sentimentos ou condutas reprimidas (ROBERTSON, 1999). Consciência é a percepção dos nossos próprios sentimentos e no seu centro existe um eu (STEIN, 2005).  A consciência do ego para Jung é a condição prévia para a investigação psicológica. Como seres humanos, o nosso conhecimento sobre algo depende das limitações e capacidades da nossa consciência.

O entendimento correto da psique ou de qualquer coisa está condicionado ao estado de consciência de cada um. A distinção feita por Jung entre características conscientes e inconscientes da psique é que consciência é o que conhecemos e inconsciência é tudo aquilo que ignoramos e mais ainda, o inconsciente é o psíquico desconhecido. A consciência é uma categoria mais ampla do que o ego e contém mais do que somente o ego, é o estado de entendimento e de conhecimento de eventos externos e internos (STEIN, 2005).

Jung (1985) via o inconsciente não apenas como um repositório das memórias e das pulsões reprimidas, mas também como um sistema passado de geração em geração, vivo em constante atividade, contendo “além do material reprimido, todos aqueles componentes psíquicos subliminais, inclusive as percepções subliminais dos sentidos” (p. 3) e ainda inclui componentes que ainda não alcançaram o limiar da consciência. “O inconsciente coletivo contém toda a herança espiritual da evolução da humanidade, nascida novamente da estrutura cerebral de cada indivíduo” (JUNG apud SHARP, 1997, p. 89).

É no inconsciente coletivo que se encontram os conteúdos arquetípicos universais, além dos instintos. Ele é resultante das experiências da humanidade sedimentadas na psique coletiva. Os conteúdos do inconsciente coletivo não podem ser adquiridos individualmente, só coletivamente. Para Jung, toda a Mitologia seria um exemplo de projeção do inconsciente coletivo ou da psique objetiva. Os conteúdos deste inconsciente constituem uma base da psique em si mesma, condição esta onipresente, imutável, idêntica a si própria em toda parte (RAMALHO, 2002).

Quanto mais profundas as camadas da psique, mais perdem sua originalidade individual. Jung afirmou que, “no mais profundo de si mesma, a psique é universo” (JUNG, 1963, p. 355).

Arquétipo corresponde às imagens primordiais ou padrões universais profundos da psique humana, presentes no inconsciente coletivo, que se mantêm presentes e poderosos ao longo do tempo. É o equivalente psíquico de um instinto, ou sua imagem. O Arquétipo é o padrão original, o afeto basal, a matriz inata, que coordena a formação de símbolos para a estruturação da psique. Experiências arquetípicas são aquelas comuns a toda a humanidade, como por exemplo: o nascimento, a maternidade, a paternidade, o amor, a morte, o abandono, o masculino, o feminino, a velhice, etc. (SHARP, 1997).

Alguns arquétipos são naturais ao processo de desenvolvimento de todas as pessoas; outros, já são ativados a partir de experiências pessoais, complexos, etc. Os arquétipos são imagens eternas, princípios formativos de poder instintivo, que se expressam por meio de reações físicas ou representações mentais (imagens, idéias, mitos, sonhos, etc) (SHARP, 1997).

O arquétipo o em si mesmo é vazio, apenas uma possibilidade de pré-formação, ou forma de representação. Ele só tem um conteúdo determinando a partir do momento em que se torna consciente e é, portanto, preenchido pelo material da experiência consciente. Assim, ele existe como energia potencial na vida psicológica inconsciente de todos (RAMALHO, 2002).

Os complexos são conteúdos psíquicos carregados de afetividade, agrupados pelo tom emocional comum (SILVEIRA, 1997). São temas emocionais reprimidos, capazes de provocar distúrbios psicológicos permanentes e que reagem mais rapidamente aos estímulos externos. Eles gozam de relativa autonomia, como se fossem unidades vivas da psique, de modo que por vezes somos por eles dirigidos. São como feixes de força contendo potencialidades evolutivas, mas que ainda não alcançaram o limiar da consciência, por isto exercem pressão para virem à tona. Eles não são elementos necessariamente patológicos, só quando guardam excessiva energia psíquica, mas representam conflitos. No âmago de um complexo, sempre se encontra um núcleo arquetípico. O complexo surge em virtude de conflitos, experiências traumáticas ou dolorosas; são carregados de intensa energia e se separam da consciência, formando uma espécie de realidade paralela (WHITMONT, 1998).

Persona é o aspecto ideal do ego, que se apresenta ao mundo e que se forma pela necessidade de adaptação e convivência interpessoal. É “o que se pensa que se é”, sendo muito influenciada pela psique coletiva. A identificação do Ego com a Persona provoca o afastamento da identidade pessoal. Para Jung (1985), a persona, a anima e o animus são estruturas de relação, ao passo que o ego e a sombra são estruturas de identidade.

A sombra indica o que não conhecemos ou negamos a respeito de nós mesmos. A sombra é o arquétipo que representa os aspectos obscuros da personalidade, desconhecidos da consciência, podendo se tornar mais acessível a ela. Normalmente há resistências do sujeito em reconhecer as próprias sombras, o que pode levá-lo inconscientemente às projeções. A integração da sombra é geralmente feita com relativo esforço moral. Ela se opõe à persona e se situa num regime mútuo de compensação. Reconhecer a sombra é um passo inicial no processo de individuação (RAMALHO, 2002).

Segundo Nise da Silveira (1997) “todo ser tende a realizar o que existe nele, em germe, a crescer, a completar-se” (p. 77). Embora o desenvolvimento das potencialidades humanas seja impulsionado por forças instintivas inconscientes, isso adquire um caráter peculiar: o homem é capaz de tomar consciência desse desenvolvimento e de influenciá-lo. É no confronto do inconsciente com o consciente, no conflito como colaboração entre ambos é que os diversos componentes da personalidade amadurecem e unem-se numa síntese, na realização de um indivíduo específico e inteiro, portanto, o processo de individuação não consiste num desenvolvimento linear.

Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por "individualidade" entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo (JUNG, 1985, p. 49).

Jung apud Sharp (1997) diz que “a individuação tem dois princípios: em primeiro lugar, é um processo interno e subjetivo de integração, e, em segundo, é um processo igualmente indispensável de relacionamento objetivo. Nenhum pode existir sem o outro, embora, algumas vezes, predomine um e, algumas vezes, outro” (p. 91).

A individuação e a vida vivida segundo os padrões coletivos são, contudo, dois destinos divergentes. Segundo Jung, eles se relacionam mutuamente pela culpa. Quem quer que trilhe o caminho pessoal torna-se, até certo ponto, afastado dos valores coletivos, mas não perde, por isto, aqueles aspectos da psique que são inerentemente coletivos. Para expiar esta “deserção”, o indivíduo é obrigado a criar algo de valor em benefício da sociedade (SHARP, 1997).

A individuação nos afasta da conformidade pessoal e, por isso, da coletividade. Esta é a culpa que o individuante deixa atrás de si, perante o mundo, a culpa que deve esforçar-se por redimir. Ele deve oferecer um resgate em lugar de si mesmo, isto é, deve gerar valores que sejam um substituto equivalente de sua ausência na esfera pessoal coletiva. Sem esta produção de valores, a individuação final é imoral, e, mais do que isto, suicida... (JUNG apud SHARP, 1997, p. 91)

Para Paolo Francesco Pieri (2002), o conceito da individuação é o conceito central da psicologia analítica com o qual se entende genericamente o vir a ser da personalidade, e em particular o processo de transformação contínua de uma individualidade que vem psiquicamente a constituir-se em referência a uma substância comum ou coletiva.

A partir dessa definição, surge outro elemento importante do processo individuativo: o entrelaçamento fundamental entre o indivíduo e o grupo, o colocar-se em relação entre o eu e o outro para a concretização desse estágio psicológico (PIERI, 2002).

O processo de individuação envolve fundamentalmente um diálogo contínuo entre o Ego e o centro regulador da psique, o Self.

Self é o centro regulador da psique e o arquétipo central da ordem e pode ser simbolicamente representado pelo quadrado, pelo círculo, pela mandala, pela criança, pelo quaternário, etc. Abrange a psique consciente e inconsciente e segundo Jung a meta da vida é chegar a essa totalidade, mas afirma que não devemos nutrir a esperança de chegar a essa totalidade, acrescenta ainda que o self está para o ego assim como o sol está para a terra (RAMALHO, 2002).

Segundo Leon Bonaventure apud Von Franz (1984), "toda experiência interior tem que ser mediada pela relação com o outro. Nunca alguém se individualiza sozinho, e a finalidade da individuação não é ficar só; pelo contrário, é estar em relação, cada um a seu modo" (p.11). Nesse caso, os pais adotantes compartilham com seus filhos adotivos suas experiências físicas e psicológicas, de forma voluntária e mesmo involuntária. Essa mediação com o outro é elemento fundamental do processo individuativo vivenciado por esses pais.

No processo de adoção, destacamos a trajetória dos pais adotantes, onde se percebe a elaboração psicológica vivenciada por eles, que transita de uma inconsciência inicial a um grau de consciência elevada ao vivenciar a maternidade/paternidade. Nesse sentido, eles tomam conhecimento de si mesmos, apesar de apresentarem cada um as suas particularidades. Muitos conteúdos podem emergir nessa trajetória de descobertas, o que possivelmente propicia uma viagem que esses pais empreendem ao passado a partir do ato de rever valores e expectativas antigas guardadas em suas memórias.

Pode-se pensar ainda que a trajetória da mãe se faz na recuperação de sua infância, na busca de sua maternidade perdida; ela recupera o filho que “não teve”. Assim, nesse processo, se, de um lado, podemos perceber a ligação adotiva como meio de encontro com a maternidade, por meio de uma espécie de ritual sagrado, também temos o embate entre dois sujeitos que, ao se encontrarem, simultaneamente se diferenciam e se integram, o que nos remete ao processo individuativo, em que o sujeito se reconhece como si mesmo após estabelecer o confronto com o que é do outro. A partir desse vínculo mãe-filho é possível que se atinja a individualidade e a unidade desejadas, portanto, os pais adotantes iniciam o processo individuativo por que começam a alcançar assim, o centro de si mesmos e o centro de um novo mundo, uma nova vida.

Como o sujeito não é apenas um ser à parte, independente, mas pressupõe, pela sua própria existência, uma relação coletiva, o processo de individuação deve apontar para relações coletivas amplas, e não ao isolamento. “A individuação não exclui a pessoa do mundo, mas aproxima o mundo dela” (JUNG apud SHARP, 1997, p. 91).

O processo de individuação envolve fundamentalmente um diálogo contínuo entre o ego e o centro regulador da psique, o self. Um dos estágios em que o processo de individuação se desenvolve é o reconhecimento da sombra e o desvestimento da roupagem da persona (RAMALHO, 2002).

A Sombra na Família

A família é a unidade básica de interação social que tem por finalidade assegurar a sobrevivência biológica da espécie, bem como propiciar o desenvolvimento psíquico dos descendentes decorrente da constante aprendizagem proveniente dessa interação social. Ela por sua vez, se desenvolve através de três tipos de relações pessoais, sendo elas: de aliança (casal); de filiação (pais/filhos) e de consaguinidade (irmãos) (OSÓRIO, 2002).

A família tem como principais objetivos, além de preservar a espécie, nutrir, proteger a descendência e fornece-lhe condições para aquisição de sua identidade pessoal, transmitindo valores éticos, étnicos, religiosos e culturais. Entretanto, deve-se considerar que a família é um sistema vivo de constantes interações e trocas de informações com o meio externo e, por conseguinte, está sujeita às demandas de mudanças vindas tanto da esfera intra como extra familiar (MINUCHIM, 2002).

A respeito das configurações familiares, pode-se afirmar que a família nuclear é aquela que se constitui pelo tripé pai-mãe-filhos; a família extensa é a que também é composta pelos demais membros da família que possuem algum laço de parentesco; e a família abrangente é a que inclui mesmo os não parentes, mas todos aqueles que coabitam juntos (OSÓRIO, 2002).

Toda família, independente de sua configuração, possui papéis familiares, que não necessariamente correspondem aos indivíduos que convencionalmente se designam como seus depositários, por exemplo, a irmã pode assumir o papel de mãe e vice-versa (OSÓRIO, 2002).

É importante ressaltar que o afeto é indispensável para a sobrevivência do ser humano. Segundo Osório (2002), a primeira e fundamental função psíquica da família é prover o alimento afetivo indispensável à sobrevivência emocional dos seus recém-nascidos.

Segundo Zweig e Abrams (2005) a família é o palco onde encenamos a nossa individualidade e o nosso destino, sendo o nosso centro de gravidade emocional, o local onde começamos a ganhar identidade e a desenvolver o caráter sob a influência das diferentes personalidades que nos cercam.

De acordo com Zweig & Wolf (2000), a sombra cultural é a estrutura maior dentro da qual a sombra pessoal se desenvolve. A sombra cultural ajuda determinar o que é permitido e o que é tabu, através da política, economia, religião, educação, arte e mídia, moldando assim a persona familiar e a individual. Na cultura contemporânea, em constante movimento, muitas imagens e idéias que não podiam ser sequer mencionadas há duas décadas vêm sendo publicamente discutidas: o abuso sexual de crianças, o hábito de bater na esposa, o alcoolismo e a dependência de remédios. Os autores afirmam que:

...neste momento cultural específico, a sombra está também irrompendo nas letras violentas do rock e do rap, em um número crescente de livros sobre o demônio e sobre o mal, e no ciberespaço, onde os usuários da internet assumem identidades de sombra para experimentar seus eus variados (p.70).

Além disso, Zuweig & Wolf (2000), relatam que:

...as sombras se formam dentro da família, fazendo de nós quem nós somos. E isto conduz ao trabalho com a sombra, que nos transforma em quem podemos vir a ser. As famílias são a nossa origem e, para muitos de nós, o destino. Nascemos em família, estamos encerrados na família, somos nutridos e apreciados pela família. Ao mesmo tempo, somos negligenciados pela família, traídos pela família, e testemunhamos a violência dentro da família. No final, morremos cercados pela família (p. 75).

Os autores enfatizam que atualmente à medida que foram emergindo da sombra cultural segredos familiares tais como abuso infantil, violência contra mulher e vícios epidêmicos, as fantasias de uma família perfeita, foram despedaçadas. Na verdade, muitas famílias existem para nos colocar à mercê exatamente daqueles sofrimentos dos quais prometiam proteção, contudo, vê-se que por todo o lado o amor e a violência, a promessa e a traição caminham juntos. “O lar também é a moradia da sombra” (p. 76).

De acordo com Zweig e Abrams (2005) “cada um de nós tem uma herança psicológica que não é menos real que nossa herança biológica” (p. 69). Herança essa que abrange um legado de sombra absorvido e transmitido pela formação psíquica do ambiente familiar, onde estão expostos temperamentos, valores, hábitos e comportamentos dos membros da família. Os autores constatam que com frequência, os problemas que os pais não conseguiram resolver em suas próprias vidas, acabam por se alojar nos filhos sob a forma de disfunções nos padrões de socialização.

Para Zweig e Abrams (2005) existe uma relação direta entre a formação do ego e da sombra: o “eu reprimido” que é um subproduto natural do processo de construção do ego que acabará se tornando o espelho do ego. Reprime-se aquilo que não se encaixa na visão que se faz de si mesmo e, desse modo, vai-se criando a sombra. Devido à natureza necessariamente unilateral do desenvolvimento do ego, as qualidades negligenciadas, reprimidas e inaceitáveis acumulam-se na psique inconsciente e se organizam como uma personalidade inferior – a sombra pessoal.

Esses autores afirmam ainda que aquilo que é reprimido não desaparece. Continua a viver dentro do sujeito, fora da vista e fora da mente, mas ainda assim, real; “um alter ego inconsciente que se esconde logo abaixo do limiar da percepção” (p.69). É frequente que ele irrompa do modo mais inesperado, em circunstâncias emocionais extremas.

A sombra dos outros membros da família exerce forte influência sobre a formação do eu reprimido da criança, especialmente quando os elementos escuros não são reconhecidos dentro do grupo familiar ou quando os membros da família conspiram para esconder a sombra de um deles, alguém poderoso, ou fraco, ou muito querido (ZWEIG e ABRAMS, 2005).

Segundo Pauli e Ferreira (2009), o fenômeno da adoção em seu aspecto psicológico, que abrange as diferentes perspectivas em que esse assunto pode ser compreendido, encontra-se fortemente alicerçada por uma visão negativa da família. Decorre daí um amplo conjunto de pesquisas demarcadas pela patologização de crianças e famílias, ideologia dominante, a qual tende a interpretar as situações vividas por esses sujeitos, como, por exemplo, a ruptura da relação com os pais, a probabilidade de permanência em abrigos e a privação de uma relação estável com uma pessoa específica, como fatores de risco, prejudiciais ao desenvolvimento. Nessa direção, a maioria dos estudos deixa claro que um passado com privações e maltratos não é gratuito para o desenvolvimento, ou seja, o arquétipo do abandono estaria instaurado e gerando área de sombra que “determina” desequilíbrios e anormalidades nestas crianças ou ainda um histórico de comprometimentos generalizados.

Nesse sentido, faz-se necessário uma análise do processo de adoção a partir do viés da psicologia, tanto no que diz respeito aos medos dos pais em revelar a origem da criança adotiva quanto do reconhecimento dos seus próprios anseios, expectativas e dificuldades, o que pode favorecer um distanciamento do processo de individuação, e, portanto, desintegração da sombra.

Adoção Saindo da Sombra

Pesquisadores afirmam que a curiosidade das crianças pode ser inibida diante da dificuldade que os adotantes venham a demonstrar para revelar a verdade sobre sua origem, por conta da dor que isso possa representar para todas as partes envolvidas (WOILER, 1987).

A criança, a todo o instante, é impelida a conhecer as conjunturas da sua origem que tantos os pais tentam negar, isolar, cindir e reprimir. Tais percepções também se ancoram em Levinzon (2005), Piccini (1986), Costa (1984), cujas observações clínicas explanam que, consciente ou inconscientemente, a criança sabe a verdade, que quando não revelada pode desencadear uma série de distúrbios, como o desinteresse pelos estudos e o uso de drogas. Pereira e Santos apud Pauli e Rossetti-Ferreira (2009) esclarecem ainda: "O interdito, em vez de ter um papel estruturante, aprisiona o psiquismo no campo da impossibilidade, já que lhe é vedado nomear determinados conteúdos ansiogênicos" (p.236).

Segundo Osório (2002), a família deve proporcionar o ambiente adequado para a aprendizagem empírica que norteia o processo cognitivo de suas crianças, bem como facilitar a comunicação e o processo de interação da sua prole com o mundo. Cabe aos pais ou as pessoas que exercem as funções parentais assegurarem a formação biopsicossocial dos seus descendentes. Contudo, deve-se lembrar que os pais influenciam e, em certa medida determinam os comportamentos dos seus filhos, mas as condutas desses, por conseguinte, igualmente condicionam e modificam as atitudes dos pais. As funções familiares não são vias de mão única, mas sim, um constante processo de trocas, mutualidade e interações afetivas na medida em que seus filhos vão crescendo. Qualquer que seja a sua estrutura, a família mantém-se como o círculo relacional básico para as relações da criança com o meio.

A família, ao desempenhar ainda o papel de mediadora entre a criança e a sociedade, possibilita o processo de socialização da mesma, outro elemento essencial para o desenvolvimento cognitivo infantil. Contudo, é imprescindível a existência e natureza das interconexões com outros ambientes complementares, que permitam contextualizar os fenômenos do desenvolvimento nos vários níveis do mundo social (ANDRADE, 2005).

No entanto, segundo Zweig e Abrams (2005), alguns mecanismos são postos em movimento quando uma pessoa foi profundamente ferida por experiências de traição e desilusão na infância. A criança se sente rejeitada e traída quando a transição da totalidade do estado arquetípico original para o relacionamento pessoal mais humano está ausente ou é inadequada. Um exemplo que os autores trazem é quando a mãe continua a se identificar com o papel arquetípico da mãe protetora e nutridora mesmo que outros sentimentos emoções talvez opostos, estejam surgindo no seu relacionamento com os filhos. Estes precisam experimentar um quadro mais abrangente da verdadeira personalidade da mãe para poderem, eles também, começarem a experimentar mais a sua própria individualidade.

Quando a mãe se identifica com o arquétipo materno positivo, a mãe negativa surgirá fortemente ao seu inconsciente. O filho ao invés de vivenciar uma transição da Mãe arquetípica para a mãe mais humana e dotada de muitos matizes de sentimentos e emoções, vê-se aprisionado entre duas forças arquetípicas opostas.

Essa descoberta destrói, de modo abrupto, seu senso de totalidade e produz um rompimento na sua personalidade; o que ele experimenta é a rejeição e a traição. Ele se ressente por ser desalojado dos limites da situação arquetípica mãe-filho positiva, mas, ao mesmo tempo, seu impulso para a individuação instiga-o a prosseguir. Suas escolhas são limitadas: ou permanece uma criança ou evoca a ira da repressora e exigente mãe negativa absoluta. Não existe escolha intermediária. Ele se defronta, portanto, com uma força escura que destrói todo e qualquer senso de gratificação ou realização, mesmo que prossiga rumo ao objetivo de formar e expressar sua própria individualidade. E assim é que ele é traído (ZWEIG e ABRAMS, 2005).

Na mesma medida em que a mãe positiva aceita e ama a natureza da criança com todas as suas fraquezas e inadequações, a mãe negativa a rejeita e exige que suas insuficiências sejam superadas. Isso, no entanto, ocorre num nível coletivo, de modo que equivale a uma rejeição de tudo aquilo que é único e individual na criança; ou de todos os fatores que não correspondam à imagem que a mãe possa ter de como seu filho deveria ser. A consequência de semelhante experiência é que a criança precisa esconder ou reprimir a sua singularidade, e essas qualidades incorporam-se à sombra. Já que a sombra sempre contém muitas coisas que são realmente inaceitáveis, repulsivas e prejudiciais para outros e à sociedade, essa contaminação de individualidade e sombra pode ser desastrosa. Pois a pessoa então experimenta a aceitação da alma e da sombra como idênticas. Isso faz com que lhe seja extremamente difícil estabelecer ou manter contato íntimo com qualquer pessoa. Sempre que alguém começa a se aproximar dela, ela invariavelmente fará algo para que esse alguém a rejeite. Portanto, quando uma pessoa rejeita e provoca a rejeição, a situação original de sofrimento está se repetindo. E é óbvio que ela não evita o sofrimento através desses mecanismos inconscientes (ZWEIG e ABRAMS, 2005).

Existem elementos infantis e regressivos na sombra que deveriam ter sido assimilados e integrados à personalidade como um todo; mas isso muitas vezes não acontece devido à experiência de severa rejeição pelo arquétipo parental negativo internalizado. Sempre que existe essa contaminação entre a alma e a sombra, a pessoa continua a se sentir rejeitada mesmo que encontre aceitação e amor profundos. Ela exige que a outra pessoa a redima da culpa que sente a respeito dos aspectos inaceitáveis e destrutivos da sua sombra, os quais ela não diferenciou da totalidade do seu ser. Alguns elementos da sombra, tais como exigências infantis e necessidades de dependência, sexualidade infantil ou indiferenciada, avidez, brutalidade, etc, embora façam parte da condição humana, precisam ser contidos ou irão ferir os outros (ZWEIG e ABRAMS, 2005).

Existe, portanto, uma necessidade profunda de se livrar da culpa e dos elementos amedrontadores da sombra; e é por isso que a sombra é continuamente trazida para aqueles relacionamentos que oferecem a possibilidade de contato humano íntimo.

Se pretendem ter sucesso ao lidar com a sombra dos filhos, os pais precisam aceitar e estar em contato com sua própria sombra. Os pais que tem dificuldade em aceitar seus próprios sentimentos negativos e suas reações menos nobres, acharão difícil aceitar de modo criativo o lado escuro dos filhos. Estar disposto a lidar criativamente com o problema da sombra exige dos pais uma dose incomum de sutileza, de consciência, de paciência e de sabedoria. Não se pode exagerar na permissividade; não se pode exagerar na austeridade (ZWEIG e ABRAMS, 2005).

A vida familiar em geral, e ser pai e mãe em particular – é um caminho no qual o problema da sombra pode ser enfrentado e trabalhado, pois é certo que a vida familiar inclui uma constelação de sentimentos negativos. O amor por um filho pode ser superado, ao menos momentaneamente, pelo ódio; o desejo sincero de fazer o melhor pelo filho pode ser superado por fortes sentimentos de raiva ou de rejeição. E, desse modo, vê-se o quanto somos divididos, e essa autoconfrontação vai gerar a consciência psicológica. Aí está um dos grandes méritos da personalidade da sombra: o nosso confronto com a sombra é essencial para o desenvolvimento da nossa consciência (ZWEIG e ABRAMS, 2005).

Zweig & Wolf (2000) sugerem que um meio ambiente natural, ou espaço psíquico, permite o aprofundamento e o desenvolvimento das almas individuais dos membros da família. Os autores denominam esse ambiente como a alma familiar e quando a alma familiar está presente, os membros se sentem compreendidos, mas tem conexões interiores uns com os outros, ao invés de um relacionamento obrigatório e imposto. Apontam ainda que quando a alma familiar é palpável, os membros se sentem à vontade, certos de que são vistos e aceitos como são. “Quando a alma familiar pode ser sentida, seus membros não precisam esconder” (p. 79).

2. Método

Foi utilizado neste trabalho o tipo de pesquisa descritiva pelo método qualitativo.O ambiente natural como fonte de dados e o pesquisador como instrumento fundamental; o caráter descritivo; o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida como preocupação do investigador e enfoque indutivo, são algumas características de um trabalho de pesquisa qualitativo que se encaixam na forma de sintetização do mesmo. As pesquisas qualitativas trabalham com: significados, motivações, valores e crenças e estes não podem ser simplesmente reduzidos às questões quantitativas, pois que, respondem a noções muito particulares. Entretanto, os dados quantitativos e os qualitativos acabam se complementando dentro de uma pesquisa. Além disso, a abordagem é atual e diferente dos métodos quantitativos, mas constitui-se numa alternativa de investigação que permite gerar condições mais abrangentes e holísticas em contextos organizacionais e sociais (GODOY, 2000).

O estudo de caso foi utilizado como estratégia de pesquisa, visto que se tem pouco controle sobre o evento estudado e o projeto encontra-se focado num fenômeno contemporâneo contextualizado na vida real (YIN, 2001).

Yin (2001) relata que o estudo de caso contribui para a compreensão dos fenômenos individuais, organizacionais, sociais e políticos, portanto, vem sendo uma estratégia comum de pesquisa na psicologia, na sociologia, na ciência política, na administração, no trabalho social e no planejamento. O estudo de caso permite uma investigação para se preservar características significativas dos ciclos de vida individuais, processos organizacionais, dentre outros e, portando, o mais adequado para a pesquisa em questão.

2.1 Contexto

Este estudo foi realizado na cidade de Salvador, Bahia, no ano de 2010, na residência da família, conforme horário escolhido previamente pelo casal, que optou em participar das entrevistas fora da presença das crianças, ou seja, no horário em que estariam na escola.

2.2 Participantes

O estudo de caso foi realizado com um casal da classe média, residente na cidade de Salvador-BA, na faixa etária de 35 a 55 anos, pais adotivos de crianças gêmeas, ambas do sexo masculino, atualmente com 4 anos de idade.  Tanto o pai quanto a mãe são doutores em química, sendo ele graduado em engenharia química e ela em nutrição e farmácia.

2.3 Instrumentos

Como se faz necessário conseguir informações ou coletar dados que não seriam possíveis somente através da pesquisa bibliográfica, optou-se em utilizar entrevistas  como instrumento mais adequado para essa pesquisa.

Por tratar-se de uma pesquisa qualitativa que exige a necessidade de aprofundamento, o instrumento utilizado como técnica de coleta de dados foi a entrevista por pautas ou semi-estruturada ou semi-diretiva, porque apresenta relação de pontos de interesse que guia o entrevistado durante a coleta de dados (GIL, 1995).

A entrevista é definida por Haguette (2003) como um “processo de interação social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo a obtenção de informações por parte do outro, o entrevistado” (p.86).

A entrevista como coleta de dados sobre um determinado tema científico é a técnica mais utilizada no processo de trabalho de campo. Através dela os pesquisadores buscam obter informações, ou seja, coletar dados objetivos e subjetivos. Os dados objetivos podem ser obtidos também através de fontes secundárias tais como: censos, estatísticas, etc. Já os dados subjetivos só poderão ser obtidos através da entrevista, pois que, eles se relacionam com os valores, às atitudes e às opiniões dos sujeitos entrevistados (GIL, 1995).

Neste caso, o pesquisador deve seguir um conjunto de questões previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito semelhante ao de uma conversa informal. O entrevistador deve ficar atento para dirigir, no momento que achar oportuno, a discussão para o assunto que o interessa fazendo perguntas adicionais para elucidar questões que não ficaram claras ou ajudar a recompor o contexto da entrevista, caso o informante tenha “fugido” ao tema ou tenha dificuldades com ele. (GIL, 1995).

As entrevistas semi-estruturadas (Apêndice A) foram realizadas e elaboradas pela própria pesquisadora. Para facilitar a execução destas entrevistas foi utilizado como recurso um gravador, com o propósito de que não fossem perdidos detalhes importantes do depoimento do casal com a devida permissão dos participantes.

O roteiro da entrevista com o casal participante (Apêndice A) foi dividido em 3 partes:

1ª parte: Identificação

2ª parte: Conceito e configuração familiar

3ª parte: Adoção: Conceito, maternidade/paternidade, expectativas e vivências e mudanças significativas

2.4 Procedimentos

Inicialmente, foi estabelecido um contato presencial com o casal para apresentar e explicar os objetivos do projeto e a possibilidade de desistência a qualquer momento que desejassem e para marcar a entrevista no tempo oportuno.

A última etapa, da análise dos dados, será a interpretação dos dados por parte da pesquisadora, onde se pretende estabelecer uma articulação entre os dados e os referenciais teóricos da pesquisa, a fim de responder ao problema de pesquisa e atingir os objetivos.                  

2.5 Análise dos Dados

As entrevistas foram transcritas na íntegra com a finalidade de obter informações relevantes, segundo a análise de conteúdo de Bardin e tendo como base teórica a psicologia analítica.

Bardin (2002) reúne um conjunto de instrumentos metodológicos cada vez mais sutis em constante aperfeiçoamento, que se aplicam a discursos diversificados. O fator comum destas técnicas múltiplas e multiplicadas, desde o cálculo de frequências que fornece dados cifrados, até à extração de estruturas traduzíveis em modelos, é uma hermenêutica controlada, baseada na dedução: a inferência.

2.6 Considerações Éticas

As entrevistas foram realizadas mediante a autorização dos sujeitos através do termo de consentimento livre e esclarecido (Apêndice B), elucidando os objetivos e métodos que serão utilizados, bem como será levada em consideração a integridade dos participantes, preservando seu bem estar e sua dignidade. As informações dos participantes serão utilizadas exclusivamente com objetivo acadêmico, deixando claro que nomes ou quaisquer informações que permitam a identificação dos participantes serão preservados. Por fim, os participantes possuirão o direito de, a qualquer momento, retirar a sua participação, se desejado for.   

3. Resultados e Discussão

Os dados foram analisados a partir do seu conteúdo e posteriormente relacionados com o que foi observado na revisão de literatura. O teor das entrevistas foi considerado a partir do agrupamento de quatro categorias. A primeira categoria retrata sobre a configuração familiar. A segunda categoria analisa os motivos que influenciam na escolha pela adoção. A terceira categoria visa refletir sobre a transição para maternidade e paternidade no processo de adoção e a quarta categoria analisa as mudanças sociais e psíquicas observadas nos pais adotantes decorrentes da adoção, ressaltando que todas estarão focadas na questão da sombra e processo de individuação.

3.1 Identificação dos Participantes

A família entrevistada é composta por quatro membros, o pai (Marcelo) que tem 52 anos, possui doutorado, uma graduação, natural de Dom Macedo Costa/BA, a mãe (Ana) com 48 anos, possui também doutorado, 2 graduações, natural de Itabuna/BA e os dois filhos adotivos, gêmeos, que possuem 4 anos, cujos nomes fictícios são Marcos e Mário.

Os participantes são casados com comunhão parcial de bens há 7 anos. Ambos relatam que esta é sua segunda união.

3.2 Configuração Familiar

Conhecer a família, sua constituição, a relação entre os membros que a compõe, quem são, como é seu cotidiano, como estruturam a vida familiar frente à adoção é de fundamental importância para compreender as configurações familiares.

Os pais adotivos podem complicar ou facilitar essa formação familiar. O perigo para uma criança adotada são as circunstâncias encontradas nas relações familiares, tais como: o adotado substituir um filho morto, ou os abortos de filhos, ou após a morte do pai ou da mãe de um dos genitores, ou ainda para substituir no casal o parceiro ausente por falecimento ou separação. É importante lembrar que existe, nas relações familiares, um caráter simbólico subjacente à estrutura familiar, que diz respeito ao modo como a família se organiza com referência aos acontecimentos vivenciados. A matriz, a estrutura familiar inconsciente, provê os significados para esses elementos (COSTA & ROSSETTI-FERREIRA, 2005).

As relações familiares constituem o plano consciente e se organizam em diferentes formas por intermédio de uma matriz simbólica inconsciente. Entretanto, estas e outras questões relativas ao surgimento do desejo da busca de um filho, da necessidade de ter uma família, não são só referentes a adoção mas, em geral, a todos os seres humanos (COSTA & ROSSETTI-FERREIRA, 2005).

Na entrevista, Ana narra que na sua primeira união não foi possível construir uma família, embora tenha gestado uma criança que nasceu no seu 8º mês de gravidez e por malformação genética, faleceu em seguida. Depois dessa gravidez, Ana teve mais 3 ou 4 gestações interrompidas espontaneamente. Iniciou um tratamento médico no qual foi diagnosticado o problema que gerava a sua dificuldade em engravidar, porém nesse período ocorreu a separação do casal.  Relata que teve que reorganizar sua vida e que tinha feito a opção pela adoção, decidindo ser mãe solteira. Ana, aos 39 anos já havia inclusive se inscrito no Conselho Tutelar, tamanho era o seu desejo de construir sua família, mas exatamente nesse período conheceu Marcelo.

Marcelo, por sua vez, também vinha de uma união longa onde não foi possível ter filhos. Relata que se conheceram no doutorado e conviveram juntos um ano e meio antes de se casarem oficialmente e propôs a Ana que tentassem filhos biológicos.

Quando questionados acerca do significado de família, Ana responde: “Família (pausa), óh pra mim família é a base de tudo, de uma vida estável, de uma família feliz, de uma vida equilibrada, tanto a família de origem quanto a família que a gente construiu juntos né?”complementa sua fala dizendo que sua família de origem é muito numerosa e que sempre quis ter uma família, sendo esta o caminho da felicidade.

Marcelo concorda com o conceito de família trazido por Ana, com a diferença de que o seu núcleo familiar é composto apenas por sua mãe e irmã mais nova. Acrescenta que vê a família como algo muito mais amplo, onde tem que realmente haver essa base sólida do lado psicológico, do emocional, porque sem isso nós não conseguiríamos não.”O entrevistado enfatiza ainda o seu desejo de constituir família: “Sempre quis ter filhos e gêmeos então, eu sempre quis, sempre achei muito bonito”.

Estes relatos parecem concordar com os autores Zuweig & Wolf (2000) quando citam que a família tem um poder mítico – a fonte de todo o bem, a defesa contra o mal. É exaltada como um ideal sagrado, que promete raízes, parentesco de sangue, gerações futuras. Ela liga cada vida individual ao seu destino, dando a esta vida seu código genético, bioquímico e psicológico, junto com bênçãos e maldições. “Imaginar a vida sem família é imaginar a vida em queda livre, sem um recipiente, sem um chão para pisar” (p. 75).

Zuweig & Wolf (2000) acrescentam ainda que o arquétipo da família compele o sujeito a segui-lo, a se vincular, a amar, a recriar, ou seja, a gerar uma família. Então, desejam-se inicialmente relações consaguíneas; anseia-se por uma comunidade de parentes que os compreenda implicitamente, que os ofereça segurança e aceitação. E no lugar onde se encontra a família, encontra-se o lar: “mais que um lugar, o lar é a moradia da alma” (p.76).

Em um casal que não tenha filhos, como na primeira união de Ana e na primeira união de Marcelo, os papéis seriam restritos ao marido e a esposa, no entanto, em uma família nuclear, teriam, além desses papéis, também os papéis de mãe, pai, filhos e irmãos. Na família extensa, aparecem os papéis dos avós, dos tios e de outros parentes do sistema familiar que convivem juntos (OSÓRIO, 2002).

Apesar da configuração familiar de Marcelo e Ana constituir-se em uma família nuclear, quando perguntados quem eles consideravam membros de sua família, fica claro em seus relatos que a consideração emergente é a de uma configuração de família extensa, prolongando ainda para as suas redes de amigos. Ana inclui, além dos pais e irmãos, seus sobrinhos, tios, cunhadas, amigos mais próximos e ainda a família do marido. Marcelo confirma ter a mesma visão de Ana, dizendo: “A família como ela coloca, a minha família é dela, a dela também é minha.” Compara a sua família como os núcleos de japoneses, os quais ele observou quando viveu em São Paulo, quando cita que são organizados, se fortalecem e se ajudam mutuamente. “...é um conjunto, é uma união né ? de dois conjuntos e não uma intercessão de alguns privilegiados”. Acrescenta que se algo lhes acontecer, os filhos serão amparados pela família.

Atualmente, em virtude da grande transformação que está ocorrendo nas configurações familiares, as possibilidades de adoção apresentam-se sob múltiplas formas e em diferentes contextos. Embora a maior demanda ainda seja oriunda de casais jovens com problemas de infertilidade, também casais com filhos biológicos, casais na meia idade, casais homossexuais e pessoas solteiras têm manifestado interesse em constituir ou aumentar a sua família através da adoção.

Como visto na revisão de literatura, à medida que emergem da sombra cultural segredos familiares, as fantasias de uma família perfeita são dilaceradas. Conforme Zuweig & Wolf (2000), muitas famílias existem para nos colocar à mercê exatamente daqueles sofrimentos dos quais prometiam proteção, contudo, vê-se que por todo o lado o amor e a violência, a promessa e a traição caminham juntos. “O lar também é a moradia da sombra” (p. 76).

3.3 Motivos que Influenciam na Escolha pela Adoção

É comum os casais sentirem-se discriminados socialmente por não poderem gerar filhos, percebendo-se diferentes daqueles que o conseguem. A necessidade de semelhança é inerente ao ser humano e é coerente o desejo de dirimir o desconforto da diferença.

Morales (2004) refere ter encontrado na sua prática clínica, vários casos em que o casal procurava inconscientemente a adoção como método de solução para a infertilidade ou outros impedimentos de procriação. Segundo o autor, esse tipo de casal não estaria apto para exercer a paternidade, pois ofereceria ao filho uma situação de inexistência psíquica.

Concordando com Whitmont (1998), é importante observar que características reprimidas por serem incomensuráveis com os ideais da persona e os valores culturais gerais podem ser básicas para as estruturas fundamentais da personalidade; porém, por terem sido reprimidas, permanecerão primitivas e, portanto, negativas.  Nesse sentido, a sombra consiste nos complexos, nas características pessoais que repousam em impulsos e padrões de comportamento, os quais são uma parte “escura” definida da estrutura da personalidade.

Quando perguntados sobre o significado da adoção, Marcelo relata que vê a adoção como um caminho de duas vias, onde duas questões são resolvidas: o desejo de ter filhos, de constituir uma família e o acolhimento de uma criança sem lar. Além disso, ressalta a sua consciência social, dizendo: “...Então, essa visão social dela, além de resolver o problema dela de adoção e o meu também, eu acredito, nós pensamos também no social.”Além de contribuir com algumas questões sociológicas, onde compara a China com o Brasil, Marcelo ressalta o desejo político de solucionar a questão da adoção Eu tô muito satisfeito por ter podido adotar meus filhos, mas eu ficaria muito mais satisfeito se o Brasil desse condições pra aqueles pais que não podem criar, pudessem criar os seus filhos... eu poderia até me sentir frustrado de não ter chance de adotar, de cuidar de meus filhos, mas o ideal seria isso aí”.

Ana reafirma as palavras de Marcelo e ainda acrescenta: “Eu acho que adoção, ela é uma forma legal, uma forma legalizada, agora mais do que nunca, legalizada de pais de família, de casais que não podem ter seu filhos biológicos poderem legalmente construir a sua família sem dever nada a ninguém, de forma legal”.

Weber (2002) enfatiza que o objetivo principal da adoção precisa ser o de proteger a criança e não o que tradicionalmente tem sido: a criança ser uma solução para a necessidade dos pais de formarem uma família. A autora aponta os diferentes significados e as variadas interpretações que foram dados à adoção por diversas leis, culturas e religiões, mostrando quanto esses instrumentos legais e os processos e procedimentos de adoção podem estar permeados de conteúdos inconscientes que influenciam a percepção de pessoas interessadas ou envolvidas em tais processos.

Todo ser humano, sente desejo, necessidade de procriação, de preservação da espécie, sendo natural que deseje ter e criar seus próprios filhos. Mas, segundo Levinzon (2005), “nem todas as famílias apresentam uma configuração na qual há uma continuidade biológica” (p.12). Diante deste fato, a adoção representa a possibilidade de ter e criar filhos com os quais não há vinculação genética. E, proporciona à criança adotada, ser criada, ser cuidada por uma família, ou seja, a adoção proporciona a satisfação das necessidades de desenvolvimento de uma criança ao mesmo tempo em que transfere legalmente a responsabilidade parental dos pais biológicos para os pais adotivos.

Observando na revisão de literatura os motivos pelos quais as pessoas buscam a adoção, identificou-se na entrevista o desejo de ter filhos quando já se passou da idade em que isto é possível biologicamente, quando Ana diz: Eu sempre tive na minha cabeça que eu ia ter uma família. Demorou um pouquinho porque eu podia, talvez assim, quando nos casamos, eu tinha 41 anos né? Eu tinha 41 né? Nos casamos já mais corôas, mais maduros, mas ainda foi  tempo de resgatar, então é isso aí...”

A esterilidade de um ou ambos os pais e a morte anterior de um filho como pontuado por Ana: “Adoção pra mim, sempre foi uma coisa muito resolvida, eu não tinha nenhum problema com adoção, nunca tive, até porque tem um histórico na minha família e porque eu já vinha de uma união que eu sofri muito pela via biológica, eu perdi um bebê com 8 meses, né? ... isso foi um trauma muito grande pra gente... Então aí depois de Renata eu engravidei mais umas três vezes aí com dois meses eu perdia e eu não perdia espontaneamente, eu tinha que fazer curetagem, eu tinha que me internar, então era muito sofrido assim, então quando a gente começou a descobrir o problema, o casamento acabou.”

Vêem-se ainda como motivos, as idéias filantrópicas, como mostradas no relato do casal: Marcelo - Como a minha também, com aquela visão social boa e não aquela coisa individual e que o resto se dane, não! Então, essa visão social dela, além de resolver o problema dela de adoção e o meu também, eu acredito, nós pensamos também no social”.

Ana - “e eu vejo também na adoção uma forma, como Marcelo falou, de minimizar esse impacto social de pobreza, de famílias, de mães que tem muitos filhos e que não tem condição mesmo financeira de cuidar dos seus filhos”.

O anseio de serem pais,  por parte de homens e mulheres que não possuem um parceiro amoroso, pode ser percebido na fala de Ana quando relatou que já havia se inscrito no Conselho tutelar depois da sua separação conjugal: “se não era possível ao lado de um companheiro, ia ser sem um companheiro, foi quando eu conheci Marcelo”.

A aceitação da própria incapacidade de procriar implica uma redefinição da identidade pessoal, da relação de casal, do projeto conjugal e das relações com a família extensa o que de alguma forma gera uma ampliação de consciência, onde os aspectos sombrios são integrados.

De acordo com D’Andrea (2002), se “assumir a diferença” das especificidades do processo adotivo é a primeira condição para configurar-se a opção pela adoção. O primeiro passo do percurso de um casal no caminho da adoção é assumir a “própria” diferença, ou seja, a condição de sua impossibilidade de procriar. Ao assumir as dificuldades e impedimentos, os pais adotivos precisam renunciar ao filho natural e abandonar as fantasias que sobre ele projetaram, reconstruir um pacto afetivo com o seu parceiro, escolhendo voluntariamente cuidar de um filho nascido de outros.

Weber (2002) demonstra que é possível construir uma relação de amor a partir de aspectos como a revelação precoce, o diálogo entre pais e filhos, a preparação dos adotantes, da família e dos amigos, a ausência de sentimentos de vergonha, a segurança na decisão, o afeto e responsividade dos pais e a igualdade entre filhos adotivos e biológicos. Esses aspectos são descritos como positivos na construção desse amor entre pais e filhos em uma relação de adoção.

Whitmont (1998) afirma que o reconhecimento da sombra pode produzir efeitos muito marcantes na personalidade consciente. A própria noção de que o mal da outra pessoa poderia estar apontando para nós mesmos apresenta impactos de vários graus, dependendo da força de suas convicções éticas e morais.

Quando se consegue formular e entender o sentido do conteúdo inconsciente envolvido na escolha, tem início um processo de conscientização e consequente individuação.

3.4 Transição para Maternidade e Paternidade no Processo de Adoção

É a inconsciência de uma pessoa em relação a ela mesma que traz a indiferenciação entre ela e os outros. Sendo a psique constituída pelo consciente e inconsciente, mesmo em pessoas atentas a si próprias, às vezes, pode acontecer de a consciência se achar mais próxima a processos instintivos. Para falar disso, C. Jung (1986) retoma a situação de relacionamentos que apresentam lacunas de inconsciência, onde se observa a falta de diferenciação com o outro e a identidade inconsciente com ele. Na prática, essa situação, mais voltada a processos ligados ao inconsciente, faz com que se suponha no outro uma estrutura psíquica semelhante à própria, é quando acontecem as projeções. Projeta-se no outro, conteúdos próprios e que se supõe serem do outro.

Geralmente enquanto tudo vai bem, os vínculos inconscientes de caráter projetivo podem servir de pontes agradáveis e úteis, porém, manter uma convivência requer consciência. Quando essas projeções em relação ao filho adotivo caem, os pais percebem que, na verdade, estavam se relacionando consigo mesmo, isto é, com a projeção.

Percebem-se essas projeções quando, perguntados o que é ser pai e mãe, Ana responde: “é a maior responsabilidade, a de educar dois rapazes que hoje são crianças, mas que passarão pela adolescência” e que o objetivo do casal não é formá-los para uma profissão, mas é “formar dois homens de bem”. Para ela, a profissão seria uma consequência. Acrescenta ainda que o amor é o motivador para educá-los porque além de ser um gerador de energias, traz renovação de forças  para o trabalho e para buscar a forma mais correta de educá-los. Ana demonstra uma preocupação com os limites, argumentando que pelo menos até os 7 anos é necessário trabalhar na formação do homem.

Marcelo, além de concordar com Ana, acrescenta que ser pai “é dar os fundamentos básicos para que Marcos se torne um bom cidadão, para ser um homem de bem”, acrescenta a questão de “dar os meios de sobrevivência, dar o sustento (pausa), as ferramentas para que isso ocorra, para que se torne uma pessoa de bem”.

Ainda em outros momentos da entrevistas, projeções puderam ser observadas, a exemplo, quando Marcelo coloca que “Eu quero passar para eles muito mais conhecimento, não ficar exigindo, mas passar para eles um conhecimento que nós já temos, eu e Ana...Eu digo, ó a gente pega o microscópio você fica com o micro mundo e eu pego com o telescópio e fico com o macro e assim vai e passar umas coisas...tem que procurar uma melhor maneira de encaixar isso...porque as escolas são muito precárias, cê tá entendendo?... Então essas coisas assim básicas, eu quero passar para eles, que foram da minha época e eu acho muito válido”

Marcelo ao responder sobre o ser pai constrói sentidos de que paternidade é compromisso. Compromisso de cuidar, de ser um encaminhador, de mostrar o caminho certo, dar bons exemplos e de formar caráter. Ao falar de si como pai, traz a sua história vivida como filho e a figura de sua mãe. Marcelo espera ser um orientador e formador de caráter como sua mãe foi para ele.

A escolha que se faz do objeto, no caso o filho, carrega projeções que não são aleatórias, são determinadas pela similaridade psíquica entre quem escolhe e projeta e pelos conteúdos psíquicos de quem é escolhido. Possivelmente a imagem que alguém faz do outro está baseada nas projeções que lança sobre ele. Só com o desenvolvimento da consciência há o distanciamento entre o sujeito e o objeto. A maturidade e a atenção a si mesmo promovem o desenvolvimento dessa consciência (NEUMANN, 1999).

Para Jung (1986), projetar conteúdos inconscientes é um fato natural e normal, assim todo o ser humano contemporâneo, que não possua um caráter reflexivo acima da média, está ligado ao meio ambiente por projeções inconscientes. A inconsciência é o que limita o contato da pessoa com ela mesma e com o outro.

Whitmont (1998) refere que é preciso ser forte para não recuar ou não ser esmagado diante da visão da própria sombra e é preciso ser corajoso para aceitar a responsabilidade pelo “eu” inferior. Quando esse choque parece ser muito grande para aguentar, o inconsciente costuma exercer sua função compensatória e vai em auxílio com uma visão construtiva da situação, como no seguinte relato, quando foi perguntado ao casal como é ser pai/mãe adotivos:

Ana - “Agora como é ser pai e mãe adotivo eu não sei, sabe por quê? porque pra mim é ser pai e mãe, então, eu às vezes eu esqueço, eu esqueço, no dia-a-dia, no convívio, a gente tá aqui, por exemplo, vamos supor que a gente passe uma semana de férias, eu Marcelo e os meninos, numa pousada, numa praia, eu não vou me lembrar de que eles são adotivos. Então para mim é ser pai e mãe, não é ser pai e mãe adotivos”

Marcelo - “a gente não lembra não, é como se fossem naturais. Eu acho que às vezes, a gente... Porque se há essa separação ou não eu não sei, só sei que eles agem como os filhos naturais”.

Ao mesmo tempo em que o casal retrata as desavenças e brigas entre os irmãos, afirma em seguida a união entre eles, parecendo demonstrar uma compensação, como percebido no relato do casal.  Marcelo: “Um agride o outro, já vem com o sangue quente, porque um meteu o pé na cara do outro, e é justamente o momento que a gente mais se dana, se chateia, quando um agride o outro.”

Ana - “E eles, como eles são meninos a testosterona é muito alta, e quando um vem pra cima do outro se a gente não apartar minha filha! Agora adoram se abraçar também, se esfregar um no outro e eles então por ser gêmeos então tem toda aquela coisa de retratar o útero, então eles gostam muito”.

Marcelo - “A gente incentiva esses momentos, a gente aplaude, agora a gente repudia quando eles ficam..., é isso que eu quero dizer”.

Segundo Woodward (2000), quando se trata da adoção, o sujeito torna-se consciente das representações sociais que constituem as identidades parentais aceitáveis do ponto de vista social. Como um bom pai e uma boa mãe devem ser, comportar-se, sentir. Tudo isso fica claro nos relatos abaixo quando os entrevistados foram perguntados se se consideravam um bom pai e uma boa mãe.

Ana: “Eu acho que sou. Eu acho que me considero. Eu quero assim amadurecer a cada dia né? e ser sábia, eu quero ser uma mãe sábia pra, assim para conduzi-los corretamente né? eu acho que isso é ser uma boa mãe né?”

Marcelo: “No caso sim, eu acho que sou também. Eu quero fazer mais ainda, porque eles são bem pequenos, ainda não dá. Eu acho que sim, tanto é que eu sempre tô testando, o tempo todo eu tô perguntando pra ver. É por isso que eu tô dizendo, eu ainda não sou aquele pai completo porque eu acho que o pai é aquele cara que passa o conhecimento adquirido para os filhos, para que eles não percam o tempo que nós perdemos aprendendo, para que seja mais um caminho direto, eles peguem os atalhos, entendeu? É isso.”

Para Dolto (1981) “um ser humano, desde a sua vida pré-natal, já está marcado pela maneira como é esperado, pelo que representa, em seguida, pela sua existência real diante das projeções inconscientes dos pais.” (p.13)

É como se o casal reproduzisse, de forma alienada, um determinado papel sem se dar conta disso, o que acaba por restringir todo seu potencial inerente, abrindo margem para a atuação da sombra.

Conforme foi salientado, nem sempre a escolha pela adoção é consciente. Ao invés de representar uma possibilidade de integração da sombra, também pode estar a serviço dela. Deve-se refletir acerca do perigo que traz a atuação inconsciente na transição paternidade/maternidade na adoção: quanto mais rígida for a persona mais autonomia e força a sombra terá.

Dessa forma, fica aparente a necessidade da ênfase psicológica na análise do processo de adoção. É preciso olhar e identificar quais complexos podem estar por trás, para assim tirar sua autonomia.

3.5 Mudanças Sociais e Psíquicas Observadas nos Pais Adotantes

Costa & Rossetti-Ferreira (2005), em pesquisa desenvolvida com pais adotivos e biológicos, argumentam que a transição para a parentalidade na adoção tende a ser abrupta, sem um envolvimento gradual dos pais com seus papéis parentais e, por isso, os pais adotivos tendem a ter mais dificuldades e passam por maiores tensões que os pais biológicos. Essas mudanças são súbitas nas relações sociais, pois muitos pais ainda enfrentam o estigma associado à adoção e atitudes negativas fundamentadas em concepções que valorizam a fecundidade e laços consanguíneos. As autoras reforçam esse aspecto da rápida mudança para a parentalidade nas famílias adotivas e argumenta que esse processo tende a ser mais estressante, pelas múltiplas escolhas que elas têm que fazer, sendo mais complexo e multidimensional que para pais biológicos.

Geralmente o casal que se propõe a adotar uma criança vai ser minuciosamente avaliado pela sociedade em vários aspectos. Por outro lado, o próprio casal desejará corresponder as expectativas, e isso pode dificultar a construção do espaço que esse filho vai ocupar em suas vidas (WOODWARD, 2000).

Nesse sentido, foi analisada a desconsideração / irrelevância dada a adoção pelos participantes baseado no conceito de sombra. Na entrevista o casal chegou a mencionar que “não lembravam que eram pais adotivos” (sic). Superficialmente é isso que mostraram, mas, olhando mais atentamente nas entrevistas, pode-se perceber contradições em seus discursos e o lugar onde o medo do comprometimento em relação a maternidade/paternidade aparece.

Segundo a Psicologia Analítica, as tentativas da consciência de entrar em contato com os complexos são inicialmente do tipo mágico-apotropáico, isto é, tentativas de exorcizá-los, considerando-os como não existentes, chamando-os de “imaginações”, constituindo assim uma forma de assimilação, ou seja, uma forma de negação, pois aquilo que se nega a existência não existe. Entretanto, com o decorrer do tempo, essas manobras vêm a falir e então insurge um estado de descompensação e deslocamento. A consciência não é mais em condição de negar e lentamente é o complexo que se apropria da consciência, assimilando-a (ZIMEO, 2001).

De acordo com Zimeo (2001), sem o conhecimento consciente, a energia psíquica que se direciona para o inconsciente não consegue se transformar saudavelmente, reaparecendo como sintomas muitas vezes neuróticos, resultantes das informações antagônicas entre o consciente e o inconsciente.

Quando uma família decide adotar um bebê, assim como os pais biológicos, cria inúmeras expectativas, conscientes e inconscientes, sobre o mesmo. Mas, muitas vezes, os pais levam para casa um bebê que está estressado, exausto, angustiado, por ter passado por privações, ter vivenciado sentimentos de abandono, de rejeição. Ou seja, não teve um bom começo. Outras vezes, o bebê não corresponde à expectativa física dos pais e, quando isso acontece, muitos pais não se sentem à vontade para expressar seus sentimentos. Consequentemente, não conseguem desempenhar suas funções maternas e paternas adequadamente, o que repercute no desenvolvimento emocional da criança (COSTA & ROSSETTI-FERREIRA, 2005). 

Com relação a essas expectativas e vivências (medos, anseios, desejos, fantasia sobre a criança adotada) do casal no processo de adoção, Ana e Marcelo corroboram com as autoras quando relatam as primeiras experiências relacionadas a chegada dos gêmeos e as mudanças as quais experimentaram e experimentam atualmente. Ana, após contar a triste história de negligência das crianças pelos pais biológicos, complementa dizendo: “Deus tem que tá muito presente na nossa família pra que isso possa ser apagado. Eles não precisam saber disso, nunca, nunca, nunca, não! assim eles saberem verbalmente, mas lá no id no ego, lá no , essa coisa, dessa história de rejeição deles, de quando eles eram pequenininhos”

O casal discorre sobre as mudanças ocorridas tanto no âmbito individual, quanto na vida do casal e da família que os cercam. Inicialmente trazem os relatos sobre os primeiros contatos e de como se sentiram mobilizados emocionalmente. Ana : “Sobre os meninos, ela (a assistente social) disse assim pra mim: - Olhe não espere nenhum bebê Johnson, são crianças desnutridas, mas são lindos e você precisa ver como eles são fofos! então eu via, eu já trabalhava isso na mente, então para mim a expectativa, eu não fiz nenhum desenho ideal, do bebê ideal, eu já fui preparada e lhe confesso que mesmo estando preparada, o primeiro contato agente tem aquele impacto né? de ver a condição das crianças, de como elas estão, então é impactante no momento que a gente depara né?”

Marcelo acrescenta o impacto sofrido no primeiro contato com os filhos. “Eu acho que, eu fiquei, eu fique assim pasmado, eu fiquei, olhei assim. Quem percebeu mais também foi Marcos, Marcos é mais assim, ele foi o observador. Quando Marcos percebeu, assim, acho que pela minha expressão, não foi de reprovação, não sei, talvez uma decepção, ele chorou, começou a chorar. Isso me tocou muito, até hoje, eu creio, em um determinado tempo eu ficava até protegendo mais ele do que Mário, como se tivesse pedindo perdão a ele, sabe como é que é? Compensação, porque Mário não percebeu, mas ele percebeu, chorou muito porque ele tava sendo rejeitado, foi do jeito que ele tava assim. Me choquei muito”.

Adotando a possível leitura da adoção a partir da psicologia analítica, observamos que querer modificar uma situação, não é sinônimo de poder modificá-la. Isso porque deve-se levar em consideração a atuação do inconsciente na maneira como o sujeito se coloca no mundo. A individuação exige do indivíduo um esforço de autoconhecimento e a dificuldade do sujeito de lidar com sua sombra pode constituir empecilho à individuação.

A entrevistada descreve a primeira manhã que ficou com as crianças em casa ao chegar da cidade de origem, demonstrando a sua fragilidade emocional e como esse aspecto influenciou no comportamento das crianças. “E eles sentiram a diferença porque eles choraram a manhã inteira! Foram os três chorando, ele dois e eu, Marcelo saiu logo pra trabalhar e eu fiquei com eles dois aqui em casa. Chorava, eu chorava, chorava e eles choravam e eu queria muito levar eles no médico, porque eu tava assustada. Meu Deus eles estão machucados! Eles estão chorando por causa disso, mas na verdade eles não estavam chorando, não era por causa do dodói, não era, era por minha causa, porque eu ainda tava muito instável”.

Marcelo acrescenta ainda mais dois momentos muito marcantes das primeiras vinte e quatro horas de contato com as crianças, que ele diz ter provocado profundas mudanças na sua vida. Momento em que pararam o carro, durante o percurso da cidade de origem para Salvador, em que ele deu a mamadeira pra Mário quando o sol estava nascendo “o sol nascendo assim no horizonte. Nós paramos o carro assim e me apoiei num degrau de uma casa abandonada assim e dei ali a mamadeira” e um outro momento que teria sido também na viagem quando relata “aquele sol batendo na cabeça deles, o cascão, aquelas feridas Ana, aí ele começava a ficar agoniado e metia a mão assim, a unha e aí o sangue descia tá entendendo? Era lágrima de sangue, porque o sangue desceu, eu tava com a camisa branca não sei se você lembra, minha camisa ficou ensanguentada e eu não podia fazer nada, a gente tinha que chegar logo pra cuidar logo, entendeu?... Os primeiros momentos angustiantes e felizes”.

Ana relata que as mudanças mais significativas que ocorreram na família com a chegada da criança foram positivas, principalmente para a família do marido que anteriormente não era muito favorável a adoção. “Agora, a chegada dos meninos foi assim especial pra toda a família... A família abraçou eles tanto, tanto quanto eles abraçaram a família, então foi uma reciprocidade muito grande”.

A mãe assinala que antes tinha três empregos e proposta de mais trabalho, mas o desejo de estar mais presente levou-a a fazer algumas opções pessoais.

Retrata também as mudanças ocorridas na vida do casal. “No casal teve mudança. Não, teve mudança sim né? Na questão da atenção, então a gente teve um pouco de, mudou um pouquinho a nossa rotina, porque antes, a gente, era só os dois né? então esse lado de casal a gente percebe que ele  fica um pouco comprometido e Marcelo as vezes diz: você esquece de mim, porque as vezes de fato, a gente tem uma atenção maior pra os meninos, lembra mais”.

Acrescenta ainda, quando perguntada como foi receber as crianças, que a casa se encheu de alegria com a presença dos gêmeos. “Eu era totalmente só para eles, eu acordava cedo dava o banho, sentava ali para tomar sol com eles, para tirar as caspinhas da cabeça, então assim eu curtir muito cuidar deles”

Ana aponta que os medos e dificuldades ainda existem hoje, mas que o medo não a acompanha todos os dias. Pontua que o medo a acompanha depois de alguns episódios de birra e que tem muito na cabeça a questão dos limites, buscando inclusive ajuda de uma amiga psicopedagoga para trabalhar essa questão com as crianças.

Quando perguntada se havia sofrido algum tipo de preconceito Ana relata que passou por um episódio muito negativo com uma vizinha que rejeitou muito as crianças em diversos momentos, até uma ocasião em que os chamou de “índios mal educados” (sic). Na ocasião, este episódio trouxe conseqüências psicológicas para uma das crianças que passou a fazer “xixi” a todo o momento e mudança no comportamento. Ana e Marcelo levaram o caso à justiça até o Ministério Público, alegando crime de racismo que é inafiançável. No entanto, esta vizinha levou dois advogados criminalistas e o parecer final do promotor é que pra ela ser condenada tinha que se configurar um crime de racismo e para isso Ana e Marcelo precisariam confirmar a ancestralidade indígena das crianças, o que não seria possível dentro do curto prazo estabelecido pela promotoria. Ainda em relação a discriminação sofrida, Ana diz: “quando estamos com os meninos, algumas pessoas na rua perguntam se eles são nossos netos, por uma questão mais de sermos maduros”.

Ana finaliza a entrevista acrescentando que “a adoção é um instrumento para um casal e o casal que faz essa opção deve entender que a família biológica foi só, vamos dizer assim, um transporte, mas é seu filho, é seu filho e apenas a forma de chegar é diferente”.

Ao contrário do início do desenvolvimento egóico, há um momento na vida que leva o sujeito a olhar para sombra para integrá-la e, assim, adaptar-se socialmente. Parece contraditório, porque é preciso resgatar os aspectos negados e negligenciados para que a atual adaptação social possa ocorrer.

Nas mudanças sociais e psíquicas ocorridas na maternidade e paternidade adotiva, tem-se a possibilidade de integrar aspectos da sombra e ter uma persona mais funcional. Uma persona funcional reforça e fortalece o ego, enquanto uma disfuncional leva ao adoecimento.

4. Considerações Finais

As crianças necessitam não só de cuidados físicos, mas principalmente de afeto, de carinho, de amor. Portanto o princípio básico da adoção, segundo Winnicott (1987), é o seguinte:

Se um bebê não pode ser criado por seus pais biológicos, a melhor coisa seguinte para ele é ser adotado por uma família e criado como uma pessoa dessa família. Além disso, a adoção legal dá à essa criança o sentimento de pertencer a uma família (p.127)

O sentimento de pertença a uma família é fundamental na estruturação de qualquer sujeito. Contudo, quando averiguado o universo que envolve a adoção não se pode furtar a pensar nas histórias de sofrimento, dor e desafios que a mesma envolve.

As possibilidades de adoção apresentam-se sob múltiplas formas e em diferentes contextos em virtude das transformações das configurações familiares.

A partir do caso apresentado e da análise teórica realizada, é possível constatar que a configuração familiar do casal, constitui o plano consciente e se organiza em diferentes formas por intermédio de uma matriz simbólica inconsciente. Entretanto, estas e outras questões relativas ao surgimento do desejo da busca de um filho, da necessidade de ter uma família, não são só referentes a adoção mas, em geral, a todos os seres humanos.

É importante lembrar que existe, nas relações familiares, um caráter simbólico subjacente à estrutura familiar, que diz respeito ao modo como a família se organiza com referência aos acontecimentos vivenciados. A matriz, a estrutura familiar inconsciente, provê os significados para esses elementos. Nesse sentido, é na família que se começa a ganhar identidade e a desenvolver o caráter sob a influência de diferentes personalidades. A sombra da família, portanto, exerce influência sobre a formação do eu reprimido da criança, especialmente quando os elementos sombrios não são reconhecidos dentro do grupo familiar ou quando os membros da família conspiram para esconder a sombra de um deles.

O presente artigo não tem dados suficientes para responder a essas reflexões e ainda confirma a escassez na literatura, mas conforme foi apontado, a escolha pela adoção pode ser consciente ou não podendo ser influenciada tanto pela persona, quanto pela sombra. A energia da sombra não pode ser simplesmente detida pela força da vontade, uma vez que representa padrões de sentimentos e comportamentos autônomos carregados de energia. Essa energia precisa ser recanalizada ou transformada e, para isso, é necessária a aceitação, consciência da sombra como algo que não pode apenas ser descartado pela força de vontade, conforme Whitmont (1998).

A escolha pela adoção, por ser feita de livre e espontânea vontade, é encarada pelos entrevistados como escolha exclusivamente consciente. Mas, sendo a psique, como mostra C. Jung (1986), constituída não só pelo consciente, mas também pelo inconsciente, este tem sua parcela de participação na escolha e é natural que o faça, daí o envolvimento de motivos inconscientes permeando essa escolha.

A conscientização dos motivos, como nos mostra C. Jung (1986), leva ao esclarecimento dos sofrimentos ocasionados pela atuação de conteúdos inconscientes presentes numa relação. Com a passagem para a consciência dos conteúdos e fatos até então desconhecidos, pode-se fazer algum tipo de alteração nos mesmos.

Adotar uma criança é um ato que deve ser relacionado a uma certa disponibilidade psíquica, que permite ao casal abrir-se para acolher uma criança. Não, porque não viria mais, ou para reparar uma injustiça ou suprir uma falta, mas sim, ocupar o desejo de um casal. É preciso solidez de desejo para chegar à adoção. Nesse sentido, o reconhecimento dos conteúdos inconscientes na escolha pela adoção, conduz a uma ampliação da consciência e consequente integração da sombra, o que se traduz no processo de individuação do sujeito.

Além disso, a transição da maternidade/paternidade no processo de adoção é seguida por expectativas e vivências, portanto, deve-se refletir acerca do perigo que traz a atuação inconsciente na transição paternidade/maternidade na adoção: quanto mais rígida for a persona mais autonomia e força a sombra terá.

Dessa forma, endossamos a necessidade de pesquisas que favoreçam uma reflexão sobre maternidade e paternidade adotivas, que contemple o seu processo de construção, visto que poucos estudos investigam o tornar-se pai e mãe adotivos. É importante olhar para esse processo a partir das dinâmicas das práticas discursivas dos envolvidos, onde múltiplos sentidos sobre o ser mãe e pai são produzidos e negociados o que mostra parte de um processo de desenvolvimento ao tornar-se pai e mãe.

Caso pretendam ter sucesso ao lidar com a sombra dos filhos, os pais precisam aceitar e estar em contato com sua própria sombra. Estar disposto a lidar criativamente com o problema da sombra exige dos pais uma dose incomum de sutileza, de consciência, de paciência e de sabedoria. Não se pode exagerar na permissividade; não se pode exagerar na austeridade

Diversas mudanças sociais e psíquicas foram observadas nos pais adotantes, tanto no âmbito individual, quanto do casal, família e sociedade que os envolve. Nas mudanças sociais e psíquicas ocorridas na maternidade e paternidade adotiva, tem-se a possibilidade de integrar aspectos da sombra e ter uma persona mais funcional. Uma persona funcional reforça e fortalece o ego, enquanto uma disfuncional leva ao adoecimento.

Quando perguntados se participam de algum grupo de apoio a adoção, o casal respondeu, ao mesmo tempo, que não participavam.

Ressalta-se, pois, a importância da participação em grupos de apoio a adoção, nos quais os principais temas relativos à adoção e acolhimento são discutidos e vivenciados: a motivação para adoção; o perfil idealizado da criança; as principais dúvidas, medos, mitos e preconceitos sociais; como lidar e contar sobre a história de origem da criança (temores, dificuldades, alternativas); os segredos (origem e consequências); trâmites legais e processuais (prazos, procedimentos, informações); cuidados específicos para recém-nascidos e adoções tardias (manejo); a infertilidade e a conjugalidade (possíveis dificuldades), demonstrando a importância da atuação do psicólogo, que muito tem contribuído para transformar a realidade da adoção, na medida em que proporciona um espaço de escuta, reflexão e suporte aos adotantes com suas angústias e receios, apoiando-se nos momentos de conflitos, desorientação e frustração.

Apesar de não terem sido encontradas respostas imediatas, o presente artigo abriu margem para muitas reflexões, que podem ser esclarecedoras. Novos estudos que explorem esse tema precisam ser empreendidos e a psicologia analítica mostrou como o seu modelo é esclarecedor e importante para esse novo enfoque.

Sobre o Autor:

Heleonora Alves Fernandes Macedo - Concluinte do curso de Psicologia da Universidade Salvador - UNIFACS.
E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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ZIMEO, A.M. A adoção e o inconsciente: uma abordagem simbólica da Psicologia Analítica. Revista Jung & Corpo, São Paulo, Sede Sapientiae, Ano I, n.1, 2001.

ZWEIG, C.; ABRAMS, J. Ao encontro da sombra. 5ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

ZWEIG, C.; WOLF, S. O jogo das sombras: Iluminando o lado escuro da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

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