Sobre o Processo Quântico da Consciência

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Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Eis alguns questionamentos que carregamos ao longo da vida e, segundo C. Gustav Jung (1987), estarão mais presentes a partir da metanóia (ou segunda metade da vida) - palavra grega que tem duas raízes: meta, que significa tanto “grande mudança” quanto “além”, e noia, derivada de nous, uma palavra de múltiplos e complexos significados, inclusive “consciência superior” -, quando o homem passa a se questionar sobre o sentido da vida, em busca da espiritualidade. Respondê-los tem sido o grande desafio das ciências, que realizam estudos e pesquisas na tentativa de elucidar tais mistérios.

O que trazido neste trabalho não carrega consigo a pretensão de verdade, mas constitui-se apenas num modo de compreensão da realidade. Nada posso dizer sobre a origem ou finalidade do homem, visto que o processo ainda se dá, isto é, há sempre um “sendo” (devir, vir-a-ser), uma constante transformação que parece ter a ver com aquilo que Jung denominou “individuação” – ou principium individuationis -, que consiste em realizar ou concretizar conscientemente o pleno potencial de cada um. O que cabe a este trabalho é apenas a comunicação de uma observância.  

O Processo Quântico da Consciência

Penso que o fato de não conseguirmos responder às questões colocadas acima nos leva a tentar, de algum modo, elucidar a experiência chamada vida. Desse modo, o homem é suficientemente livre para organizar sua experiência conforme a observa. Um modo de pensar essa experiência me levou à idéia de que, se a realidade não está pronta e o nosso olhar sobre ela possibilita novas organizações da mesma, isto é, se podemos afirmar que a mente cria a realidade, então talvez seja também possível construirmos um modelo que dê a essa experiência um sentido, uma ordem, um funcionamento próprio. Contudo este modelo ainda não foi descoberto (ou inventado) pela física (atualmente considerada quântica), enquanto ciência natural, isto é, esta última ainda não pôde criar (ou sequer imaginar) um modelo atômico que atenda aos novos estudos que relacionam a consciência com a realidade, levando em consideração que a valoração de uma ciência está muito mais relacionada com o que ela pode produzir de novo (ainda que este novo não seja um conceito) do que com aquilo que ela já traz enquanto saber – porque não dizer última “verdade”.
 
Jung (1986) acreditava que os eventos da vida possuem uma relação sincrônica. Esta relação é composta de um sujeito vivenciando sua experiência subjetiva e atemporal, e um objeto aparentemente manifesto fisicamente por uma consciência que o observa. Nessa relação o sujeito necessita momentaneamente se identificar com a consciência para, a partir daí, relacionar-se com o objeto percebido. Contudo, Jung (1986) compreendia que essa relação não partiria nem de um pólo nem do outro, pois na duração do evento (duração esta percebida pela intuição) tanto o sujeito quanto o objeto participam simultaneamente do acontecimento, isto é, o acontecimento é resultado do colapso entre a consciência que observa e a apreensão de uma possibilidade (dentre diversas) da realidade. A causalidade estaria, então, na compreensão da relação dos eventos como causa e efeito, o que para Jung ainda é limitado para explicar as relações não-causais, as quais ele chamou de sincronicidade. Tal conceito seria uma quarta condição a priori da experiência (as outras três são espaço, tempo e causalidade), sendo estes “conceitos formulados através de hipóteses nascidas da atividade discriminadora da mente consciente... as coordenadas indispensáveis para descrever o comportamento de corpos em movimento que são, por conseguinte, de origem essencialmente psíquica” (JUNG, 1990, p.28 apud CLARKE, 1993).

Desse modo, a sincronicidade poderia ser considerada como “um exemplo especial de uma regularidade não-causal” (ibid, p.139-40), um princípio a priori de ordem, no qual os eventos estariam relacionados de forma significativa, isto é, os fatos teriam relação entre si não somente pelas conexões causais aos quais eles estão submetidos – que as coordenadas tempo e espaço conseguem abarcar – mas também conexões dotadas de significância para o desenvolvimento da consciência, que circunscreve em si mesma nossas dimensões moral, psicológica e espiritual. Para Jung, isso significava que o mundo psíquico do significado e da intenção não estava jogado aleatoriamente no universo – como um órfão cósmico – todavia ele, juntamente com o mundo da vida e da matéria, formava um único cosmo. Nesse sentido a mente seria, então, um retrato dessa ordem cósmica, enquanto parte integrante do funcionamento das leis da natureza.

Contudo, o que registra e repensa a experiência? Não vejo outro recurso do que a própria consciência, uma consciência que se volte para o seu próprio processo e participe da realidade tanto quanto a realidade participa dela. Nesse sentido, a consciência pode se perceber em diferentes níveis de organização do Cosmos, o que me levou a pensar em sete categorias (ou “conjuntos”) que vão do Macro ao Microcosmo. Assim, a primeira categoria em que a consciência poderia se reconhecer seria a totalidade do organismo vivo: o nosso sistema corpóreo (onde geralmente nos posicionamos, isto é, nossa consciência se percebe egoicamente enquanto participante da matéria em sua totalidade e é justamente a atitude reflexiva do ego enquanto não pertencente a esse conjunto corpóreo que possibilita o desenvolvimento da consciência); a segunda categoria seria o “conjunto” de órgãos; a terceira o “conjunto” de tecidos; a quarta o “conjunto” de células; a quinta o “conjunto” de moléculas; a sexta o “conjunto” de átomos; e a sétima categoria seria o “conjunto” das partículas subatômicas. Entretanto, vale a pena fazer uma ressalva: é justamente a perda desta visão de conjunto que possibilita a extrema nitidez, clareza e certeza da dinâmica do Cosmos (leis gerais da Natureza). Na verdade, usei a palavra “conjunto” muito mais para delimitar as fronteiras de cada categoria e as conceber como universais em suas particularidades do que para defini-las como um todo distinto das outras partes. Assim, justifica-se o uso da palavra entre aspas.

Uma vez que a consciência começa a se reconhecer como participante do “conjunto” de partículas subatômicas, ao meu ver ela passa a pertencer ao funcionamento do Cosmos, da organização do Universo. Mas como realmente funciona esse Todo ordenado?

Admitindo-se agora que a consciência pertence ao “conjunto” das partículas subatômicas, recorremos à Física para nos ajudar a compreender essa dinâmica. Atualmente a física quântica, ainda que não tenha chegado à imagem de um modelo atômico que explique o funcionamento do Universo a partir do Princípio de Incerteza de Heisenberg - onde não precisamos se o elétron se apresenta como partícula ou como onda – continua a adotar estados estacionários que constituem os níveis de órbita dos elétrons: K, L, M, N, O, P e Q.

Segundo Heidegger, a consciência - enquanto fenômeno - nasce das dinâmicas ou modos de realização da realidade de todo e qualquer real. Ela se processa no exercício operativo que o homem realiza em sua temporalidade, ou seja, em seu tempo histórico. O ser não pode ser sem as próprias condições espaciais e temporais para se exercer. Ele somente é este sendo porque também a realidade está se realizando, isto é, em processo. Visto que a consciência exercita uma fenomenologia, conforme foi afirmado acima, ela agora participa do “conjunto” das partículas subatômicas que transitam entre os referidos estados estacionários, tendo como objetivo identificar a existência dos nódulos energéticos (ou complexos) a fim de dissolvê-los para possibilitar o fluxo natural da energia psíquica.

Para uma consciência que se exprime na temporalidade da existência, a necessidade do seu próprio desenvolvimento somente surge quando um emaranhado de afetos, com todo seu potencial energético, irrompe-lhe a consciência levando o homem a pensar sobre si e sua relação com o mundo. O alcance de um novo nível quântico se dá na medida em que o homem sustenta a tensão originada pela presença daqueles afetos. Tanto mais for carregado energeticamente, isto é, quanto mais quanta dinâmicos estiverem atuando na relação de tensão com outros quanta dinâmicos, maior a probabilidade de se realizar o salto quântico para um nível mais desenvolvido da consciência. Isto poderia ser melhor compreendido pela tensão entre consciência e inconsciente presente na teoria junguiana. Em Jung (1990) existe um movimento em direção a uma compreensão dialética dos dois, quando nas Obras Completas vol. 8 pgf. 385 ele fala, e.g., de uma consciência na qual o inconsciente predomina, assim como de uma consciência na qual a consciência de si mesmo predomina, ou seja, uma consciência tão ampla que engloba tanto a consciência de si mesmo quanto o inconsciente (enquanto possibilidade de realização do ser). Assim, o chamado “inconsciente” é sempre consciência do próprio inconsciente. Todavia, em que consistiria de fato esta tensão? Ora, para Hegel esta tensão dialética proveniente de um jogo de forças – como um conflito entre tese e antítese, resultando numa síntese –não recebeu o nome de conflito entre afetos, o que por sua vez aparece nos escritos de Nietzsche.

Quando há um sujeito em contato com seus afetos, a compreensão da natureza dos mesmos possibilita um caminho que antes foi representado por aquilo que Jung denominou “função transcendente”. Segundo este autor, a “função [...] ‘transcendente’ resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes” (JUNG, 1981, Vol. VIII p. 69). Dito de modo outro: um sujeito que tem conhecimento da natureza inconsciente de seus afetos é capaz de conectar-se ao seu centro ordenador (centro este denominado por Jung de “Si-mesmo”), na medida em que este se apresenta como resultado de um esforço contínuo da tomada de consciência dos afetos que lhe traspassam. Então, vendo seus afetos se chocarem num jogo de forças, o indivíduo passa a ter liberdade na escolha daquele que fundamentará sua ação. Daí, a ação realizada afeta os outros e também o próprio indivíduo. Por feedback do meio social de sua ação na realidade, o indivíduo passa a ter consciência da relação positiva entre o afeto “do comando” (aquele que age sobre todos os outros) e o meio. Como num laboratório, há que se valorar (avaliar, interpretar) constantemente os afetos presentes em cada situação.

Quando se chega a esse nível de observância, o indivíduo é capaz de sustentar as ações nesse “ótimo” encontrado dentro de si: aquele lugar por Nietzsche denominado de “pathos” da distância (neste contexto a palavra tem o sentido de “a dosagem certa de paixão”). Nele, o indivíduo se mantém como quem sustenta o doloroso embate entre os afetos inconscientes e a consciência que tende a recebê-los em processo de transformação.

Assim, posso compreender que esse esforço contínuo de sustentação do conflito é o que constitui a função transcendente: sustentar a imagem (símbolo) através da recordação – constante rememoração para que ela possa se firmar enquanto afeto (quanta dinâmico) – e suportar a vontade racional de interpretar o seu significado. Entendo que a “ponta” é o encontro da consciência com o inconsciente, quando cessam todas as polaridades e se constela a união dos opostos, dos princípios feminino e masculino. O modo como eles se apresentam tem relação com os modos de apresentação do neutrino - ou “pequeno neutro”-: são três tipos jocosamente chamados de “sabores” (o elétron-neutrino, o múon e o tau), que ainda não têm seu funcionamento compreendido pela ciência física, mas que a meu ver correspondem a esta dinâmica dos princípios mencionados, com acréscimo do vetor correspondente à função transcendente, um princípio que não pode ser causado por nenhum outro, por ser ele mesmo causa de si próprio). Penso que a ciência física deve ainda levar em consideração a possível existência do quarto tipo de neutrino – o chamado neutrino estéril -, o que daria mais sentido à dinâmica dos princípios, pois para mim o entendimento do funcionamento desta somente poderia se dar pela presença de um quarto princípio: aquele para o qual o homem é destinado, isto é, um princípio equivalente à finalidade da existência do homem.

Resumidamente, portando-se a um gráfico bidimensional, poderíamos compreender o eixo C (consciência) como correspondente a um esforço de interpretação e o eixo I (inconsciente) como correspondente a um “acolhimento” das imagens originárias. Se todo pensamento carrega um afeto, conforme escreveu Nietzsche, então cada vez que existir um esforço do pensar esse pensamento será dotado de uma imagem constituída de densidade afetiva. Atentemos para a percepção de que tais eixos representam um conflito inicial do ego, como se correspondesse a uma primeira etapa do processo de individuação. Estarei a discorrer sobre a etapa posterior num momento próximo deste trabalho.

No que diz respeito ao ego, afirma Jung:

“[...] é um dado complexo, formado primeiramente por uma percepção geral do nosso corpo e existência, e a seguir, pelos registros da nossa memória. Todos temos uma certa idéia de já termos existido, quer dizer, de nossa época em vidas passadas; todos acumulamos uma longa série de recordações. Esses dois fatores são os principais componentes do Ego, que nos possibilitam considerá-lo como um complexo de fatos psíquicos. A força de atração desse complexo é poderosa como a de um ímã: é ele que atrai os conteúdos do inconsciente, daquela região obscura sobre a qual nada se conhece. Ele também chama a si as impressões do exterior que se tornam conscientes do seu contato. Caso não haja esse contato, tais impressões permanecerão inconscientes. O Ego é o centro de nossas atenções e de nossos desejos, sendo o cerne indispensável da consciência” (JUNG, 2000, p. 29).

A arte de guiar conscientemente a psique para a autêntica vivência do que Jung chamou de “experiência religiosa” sugere uma observância apurada das imagens oriundas do inconsciente. Porém, para que tais imagens possam chegar à consciência da forma mais fidedigna possível, faz-se necessário que o ego – unidade potencial da personalidade que media o mundo interno e externo - esteja em plena observância de si. Não basta a existência de um ego que faça o diálogo entre a consciência e o inconsciente, mas também um ego que, no contínuo conhecimento de si, na contínua descoberta de si, possa ser apenas veículo das imagens do ser originário. Desse modo, o diálogo entre o inconsciente e a consciência dar-se-ia muito mais por um fluxo imagético do que por interpretação analítica, realizada por meio do intelecto.

Uma conduta fundamentada nesta observância proporciona a experiência do “religere” (observação cuidadosa de si mesmo), num sentido mais ontológico que o “religare” (religar, reunir, tornar a unir). Todavia, a tarefa de voltar os olhos para seu próprio processo, quando o mundo contemporâneo estimula a alienação da sociedade de consumo - e onde os males da mesma não são mais do que o conjunto dos males individuais - encontra-se por demais dificultosa para indivíduos imersos nesta circunscrição. Costumo dizer que não se orientar pelos valores, crenças e convenções é um ato de coragem, é um “dizer sim” nietzschiano à vida. Mas, como a alma é “naturaliter religiosa” - isto é, possui em sua natureza mesma uma função de reconexão com seu centro ordenador -, ao homem cabe esta experiência do “relegere” (recolher, compreender, revisitar, reler). Ele até pode negar a experiência religiosa, entretanto este “não” também estará impulsionado pela sua vontade de realização de si e, diante da força avassaladora do inconsciente, nada a ser dito restaria para o mesmo. Sua vontade jamais se sobrepõe à potência do Si-mesmo.

No eixo ego-self inicialmente é preciso dispor o ego para percorrer os níveis de consciência, como se ele próprio se constituísse como um veículo de transição até o Self.Aqui surge, porém, um obstáculo. Tendo reconhecido o ego, torna-se necessário um acompanhamento dele – aquilo que em Hegel compreende-se como “olhar do filósofo” -, como se pegássemos alguém pelo braço e levássemos até determinado lugar. Assim, o filósofo deve carregar o ego (como se fosse ele, porém tendo a consciência de que essa atitude – essa pseudo-identificação - é necessária apenas para dar início ao processo) até percorrer todo o trajeto circumambulatório. Como afirmei anteriormente, o obstáculo de agora consiste em como o filósofo posicionará o ego, e este fator é de extrema relevância, já que a partir daí configurar-se-á o percurso em espiral a ser trilhado pela consciência.

Nesse sentido o filósofo, enquanto ego, deve se prostrar em observância do conflito entre a consciência e o inconsciente, não se identificando nem como sujeito nem como objeto de conhecimento, mas sim sustentando a tensão dialética originada do conflito entre ambos. Este conflito entre a consciência e o inconsciente nada mais é senão o conflito daquilo que Nietzsche, num póstumo de 1888, chamou de “quanta dinâmicos numa relação de tensão com todos os outros quanta dinâmicos...” (KGW VIII 3, 14 [79]). Acontece que atualmente concebemos a consciência que possuímos como o último recurso para nossa compreensão da realidade. Partimos dela e a ela retornamos como se fosse o único instrumento (terminado em si mesmo) que temos, ou melhor, como se nós já fôssemos ela, em sua totalidade.

Supondo que a nossa época esteja isenta de espiritualidade - o que a mim parece visível - faz sentido encerrarmo-nos no modelo de consciência vigente em nossa contemporaneidade perdendo a riqueza dos questionamentos, acerca de nossa origem ou finalidade, reflexões estas que talvez possibilitassem um novo olhar sobre a nossa singular presença no mundo? Porque será que nós mesmos nos boicotamos de um progresso que compete a cada um realizar? Porque será que nos prendemos a modelos quando, no exercício de nossa criatividade, a realização de um novo (olhar, pensamento, construção científica) seria a fonte de um desenvolvimento coletivo? Isso pressupõe um processo de reflexão que nos retira do que até então tem se vigorado como último recurso ao qual recorremos quando se trata de identificação do ego. Um homem imerso nos valores vigentes do mundo atual é um homem ausente de contato consigo mesmo, fora da sua “ethos” (morada), e por isso distante de uma ética que se constitui não enquanto norma de conduta, mas sim como constante avaliação daquilo que lhe é útil ou não, daquilo que lhe convém ou não. Eis o grande obstáculo: pensar na natureza inconsciente do que nos constitui, pensar que o homem não finda nesse modelo de consciência vigente atualmente (mais direcionado para os processos neurofisiológicos originados no cérebro, segundo mostram os estudos da neurociência).

Para esclarecer melhor aquilo que Nietzsche chamou de “quanta dinâmicos”, posso dizer também sobre um jogo de forças, vetores quânticos que se chocam mutuamente no interior do indivíduo, tensionando-o em busca de uma síntese. Nesse sentido, quem age sobre todos esses vetores é o “afeto do comando” (ou a resultante que Jung denominou “Função Transcendente”), o afeto que se sobressai na relação conflituosa entre a consciência e o inconsciente. Para explicitar de forma mais acessível o que vem a comunicar a expressão “afeto do comando”, deveria eu recorrer a uma breve explanação ao que Nietzsche denominou “vontade de potência”, o que não me parece salutar neste trabalho. Em Além do Bem e do Mal, por exemplo, ele afirma que “a vontade não é apenas um complexo de sentir e pensar, mas, sobretudo, um afeto: aquele afeto do comando” (1992a, p.24). Por isso que o filósofo, temporariamente identificado com o ego, deve sustentar o conflito de forças para que o “sendo”, no seu vir-a-ser, se constitua enquanto expansão da consciência, fazendo com que o ego experiencie novos estados, naturalmente mais elevados.

A cada síntese elaborada um novo estado de consciência é alcançado, um salto quântico é dado. Como tudo o que é novo causa temor, espanto, ou perplexidade, o ego se percebe também meio confuso nessa nebulosidade em que agora ele se encontra. Ora, justamente nesse instante o ego - ser - não é nem o que ele era nem o que ele está por vir-a-ser. Ele é, ainda sob meu ponto de vista, uma nuvem quântica formada de ondas (visto que, durante a transição de um estado para outro, não existem as coordenadas de tempo e espaço: elas voltarão a surgir quando o ego alcançar uma nova órbita, ou estado de consciência). Até lá os elétrons estarão a se organizar para dar estabilidade ao ego que ainda “tateia” um assento, pois só poderá novamente reconhecer-se enquanto tal quando alcançar o próximo estado estacionário.

Se antes falava do ego enquanto complexo energético, coloco que a cada estado de consciência alcançado aquele complexo anterior tende a se dissolver, possibilitando um amálgama – porque não dizer uma união - entre o ego e a consciência (por muitos chamada de Consciência Moral), isto é, quando já não há mais distinção o entre o que somos e aquilo que possuímos enquanto valores morais, quando nos tornamos a nossa própria consciência:

 “A consciência que de espontânea passa a reduzida se o objeto da experiência for tão grande que diminua o indivíduo, é responsável por um domínio da moral, algo também de certa forma incomensurável. Entendemos por isso que qualquer ação praticada pelo sujeito não pode ser julgada conforme expectativas criadas e sim como algo resultante de um conceito destituído de mensuração. Somente ao aprender a conviver com a moralidade sem falsos moralismos é que o sujeito pode resgatar o Eu perdido para noções pouco cristalizadas, por isso mais condizentes com a humanidade a ser resgatada” (Madalena Machado, in Moral e Dialética n'O Homem Duplicado).

De modo mais objetivo e detalhado, parece que no decorrer do processo de individuação o ego, que até então se configurava como um nódulo (um condensado e por isso sólido), tende a perder e a ganhar energia bem como acontece com os elétrons quando interagem entre si e emitem radiação. Contudo, isto somente ocorrerá se a carga energética presente no vetor for equivalente (tiver a mesma carga, porém com spin contrário) à carga do complexo (nódulo energético) a ser dissolvido. (vale ressaltar que penso os complexos como tendo o mesmo comportamento dos elétrons: cargas negativas que giram nos seus estados estacionários em torno do núcleo – Self ou Si-Mesmo -, não previsíveis mas passíveis de dissolução quando submetemos a psique a uma leitura mais apurada de seu funcionamento).

A meu ver, a dinâmica dos complexos corresponde à dinâmica dos elétrons em torno do núcleo atômico. Para Jung os complexos são os caminhos que nos permite chegar ao inconsciente: “A via régia que nos leva ao inconsciente, entretanto, não são os sonhos, como ele [Freud] pensava, mas os complexos, responsáveis pelos sonhos e sintomas” (JUNG, [1971]1984). Segundo ele, os complexos referem-se a agrupamentos de idéias carregadas de afeto, são autônomos e possuem funcionamento e memória próprios. A psique pode ser abordada como uma constelação de complexos, sendo que os mesmos possuem um conteúdo peculiar:

“Complexo é a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições e situações habituais da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior, tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia. (...), está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta na esfera do consciente como um (...) corpo estranho e animado de vida própria” (JUNG, 1984, p. 99).

Apenas o conhecimento deste agrupamento de idéias afetivas pela consciência não garante que este deixe de perturbar o funcionamento da psique, mas pode-se dizer que a conscientização é o primeiro passo para a redistribuição da energia psíquica contida nele. Libertando esta energia do aprisionamento do complexo, ela pode fluir e distribuir-se em direção a novos conteúdos em busca de um equilíbrio psicológico. Jung ([1971]1984) considerava este fenômeno um dos fatores mais importantes do processo terapêutico e, na minha opinião, ele se configura como fundamental para o processo de cura dos pacientes.
 
Uma vez que o ego tenha se tornado a própria consciência do sujeito, as tensões de forças (relação de quanta com outros quanta dinâmicos)  não deixarão de existir, só que desta vez a função transcendente constituir-se-á no conflito entre o ego e o inconsciente, como constituinte de uma segunda etapa do processo, a fim de alcançar o que Jung chamou de Si-Mesmo, “a soma total dos conteúdos consciente e inconsciente” (Obras Completas, vol.11, parág. 140) ou ainda, nietzschianamente falando, quando o indivíduo “torna-se o que se é”. Nesse percurso do complexo energético – reunião de elétrons vistos como partículas (o ego é denso, enquanto afetado por vetores quânticos) – na medida em que eles liberam ou absorvem determinada quantidade de energia, haverá saltos quânticos em que seu tamanho será diretamente proporcional ao quanta absorvido ou liberado pelos elétrons. A título de informação, o “quanta” foi proposto por Max Planck em sua tentativa de provar que a radiação eletromagnética é  constituída por pacotes individuais (que também são chamados de fótons). A quantidade elementar, indivisível, dessa energia é denominada “quantum”. Portanto, o afeto seria um feixe de luz (quantum) que transmite energia através de pacotes individuais (quanta ou, mais precisamente, fótons).

Durante a transição dos elétrons entre a órbita antiga e a que está para ser alcançada eles vivem numa espécie de neblina, um espaço nebuloso em que os elétrons comportam-se como se estivessem “espalhados por uma ampla região do espaço” (D’ESPAGNAT, vol. 241, p.128). O ego, enquanto um complexo (reunião de quanta de energia), encontra-se “perdido” numa espécie de poeira quântica – o que antes eu chamei de uma consciência ainda em formação – em busca de uma nova estabilidade. Para isso são emitidos “sensores” temporários que vão – como possíveis caminhos da consciência – até a próxima órbita na qual os elétrons podem assentar-se. Na teoria quântica estes “sensores” são chamados de “transições virtuais”, ao passo que a sua nova “casa” é denominada “transição real”. A liberação destes sensores equivale às imagens originadas no inconsciente para orientar a direção dos elétrons na tentativa de assentá-los numa nova órbita.

Definir esse temporário ser ainda não me parece possível. Concordo com Danah Zohar, quando ela argumenta que “a física quântica, e mais especificamente um modelo mecânico-quântico da consciência, permite que vejamos a nós mesmos – nossas almas, se quiser – como parceiros integrais dos processos da natureza, tanto na matéria como da matéria” (ZOHAR, 1990, p.47). Se o ser é um “sendo”, possivelmente somos capazes de acompanhar sua dinâmica, contemplar a beleza imanente do Cosmos manifesta nas conexões acausais (coincidências significativas denominadas por Jung de “sincronicidade”) que se estabelecem de forma harmônica com o Universo.

O vetor que simboliza a função transcendente poderia ser compreendido como um feixe de luz (quantum) que atravessa o indivíduo. Para melhor esclarecimento acerca do que vem a ser “função transcendente”, Jung nos diz:

“(...) temporalmente, com uma onda de depressão e desespero... no âmbito da transformação da personalidade... a conscientização e vivência das fantasias determinam a assimilação das funções inferiores e inconscientes à consciência, causando efeitos profundos sobre a atitude consciente... Não discutirei agora em seus pormenores a forma desta mudança da personalidade. Quero sublinhar apenas o fato de que se trata de uma mudança essencial. Dei o nome de função transcendente a esta mudança obtida através do confronto com o inconsciente” (JUNG, 1984, p. 234).

Tendo o indivíduo percorrido os diversos níveis de consciência, não mais ocorrerá a identificação (como por exemplo: “isto diz respeito a mim”) com os afetos (feixes de luz) que o interpelem. Nessa “camada” a natureza dos “problemas” passa a ser outra. O nível nada tem a ver com a complexidade dos “problemas”, daquilo que afeta, e sim com a natureza mesma dos afetos. Na verdade, o que muda no decorrer do processo é o modo como nos relacionamos com as questões surgidas na vida. Somente quando somos afetados podemos pensar em compreender o que nos causou esta “sensação”, qual a origem desta densidade energética. Quanto mais se compreende a natureza dos afetos, mais o indivíduo se distancia do campo energético (morfogenético) em que por hora era afetado.

Quando um paciente em seu processo terapêutico, por exemplo, começa a discorrer sobre suas questões, naturalmente o seu discurso revelará sua densidade afetiva, isto é, em todo discurso há uma carga afetiva (psicofísica) que poderá ser calculada se o terapeuta estiver a ler, através do intelecto, o módulo, a direção e o sentido do vetor (do afeto enquanto vetor deslocamento).

Se porventura em algum momento o terapeuta se identificar com o afeto, ou seja, se durante o deslocamento do afeto ele for “atingido” (ou afetado passivamente, como afirma Spinoza) provavelmente haverá uma reação contrária do paciente, já que ele ainda não tornou-se consciente da natureza dos seus próprios afetos, o que inviabiliza a precisão da leitura.

Considerações Finais

Este trabalho, conforme foi dito inicialmente, não carrega a pretensão de verdade nem qualquer outra pretensão que não tenha como objetivo valer-se do conteúdo para comunicar, isto é, para tornar claro o que para muitos, tanto quanto para mim, ainda se apresenta obscuro.

O fato de encontrarmos, no interior deste trabalho, nomes de pensadores e filósofos anteriores a nossa época somente significa a tentativa de dialogar com aqueles que porventura voltaram o pensamento para tais questões, ajudando no esclarecimento do que hoje compreendemos como necessário para o progresso da humanidade.
 
Os termos aqui utilizados não podem ser definidos porque ainda não se tornaram conceitos. Na medida em que a construção do pensamento tornar clara a idéia que pretende transmitir, aí sim surgirá o conceito e então poderá ser colocado como definição.

Tenho ciência de que muito do que aqui se encontra escrito foi mencionado anteriormente por Carl Gustav Jung. Isso não deve se constituir como um peso na medida em que lanço observações e reflexões de natureza mesma. Qualquer ser humano que se debruce sobre o sentido da vida, sobre o sentido do homem no mundo certamente irá se aproximar de tais pensamentos. Portanto, é de boa procedência que tomemos como de grande valia a contribuição dele para os estudos no campo da psique, mas que estejamos abertos para novas construções e novos olhares sobre os mesmos fenômenos.     

Referências:

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CLARKE,J.J. Em busca de Jung. Rio de Janeiro: Ediouro,1993.

COTRIM,G. Fundamentos da filosofia. São Paulo: Saraiva,1988.

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__________. Obras completas. Vol.XI. Petrópolis: Vozes, 2000.

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NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 2001.

___________, F. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. 2ª ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.

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SPINOZA, Benedictus de. Ética, demonstrada à maneira dos geômetras. 3ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Pensadores).

ZOHAR, D. O Ser Quântico. 9ª ed. São Paulo: Best Seller, 1996.

INTERNET

http://www.letras.ufrj.br/ciencialit/garrafa11/v2/madalenaaparecida.html

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