Wolfgang Amadeus Mozart: uma reflexão psicológica sobre arte e criatividade

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Resumo: Neste artigo reflete-se,  à luz dos conceitos da Psicologia Analítica, sobre a vida e a personalidade de Mozart, que viveu há mais de dois séculos e é até hoje mundialmente reconhecido por suas obras. Destacam-se quais foram as condições que permitiram e levaram o artista a desenvolver seu dom musical e como ele lidou, durante sua vida, com a sua criatividade e sua música. Wolfgang Mozart revelou-se desde o início de sua vida dotado de uma genialidade musical. Lançou-se de corpo e alma para expressar sua criatividade, viveu fiel à sua arte, aos seus pensamentos, sentimentos e ideais. Nesta reflexão busca-se compreender como sua dedicação intensa ao desenvolvimento de seu lado genial parece ter ocorrido em detrimento do desenvolvimento de outros aspectos de sua personalidade, principalmente em relação à adaptação social e ao desenvolvimento de papéis sociais adultos.

Palavras-Chave: Mozart, Arte, Criatividade, Psicologia Analítica

Introdução: A biografia

Se entendermos por genialidade uma extraordinária facilidade e precocidade para desenvolver alguma atividade ou talento, Mozart pode ser considerado um dos maiores gênios da história da música. Desde sua infância, revelou-se como um menino-prodígio, compondo sua primeira sonata aos seis anos de idade, quando já era competente nos instrumentos de cravo e violino. Passou como um fenômeno fugaz na história da humanidade, compondo em ritmo febril ao longo de seus 34 anos de vida mais de 600 obras. Exerceu extrema influência na música clássica, revolucionou a atividade dos músicos e tornou-se um dos compositores mais populares de todos os tempos.

Mozart viveu de 1756 a 1790, nas cidades de Salzburgo e em Viena, na Áustria. Seu pai, Leopold vinha de uma família de artesãos humildes, porém, bem conceituados na região onde viviam, e rompeu com a tradição profissional da família ao tornar-se músico. Nesta época, a música não era considerada um aspecto nobre, porém, era um veículo de promoção social, ser músico de capela ou de corte era aspiração de muitos jovens de origem humilde. Casou-se com Anna Maria, uma mulher de boa família, boa dona de casa, de caráter doce e temperamento submisso.

Ainda criança, Mozart mostrou ter talento inato e ser dotado de excepcional criatividade. Com três anos de idade, assistia as lições de música que seu pai passava a Nannerl, sua irmã mais velha. Ao final da aula, ele próprio subia ao piano para tocar algumas notas e dava risadas de satisfação ao conseguir tirar sons melódicos do instrumento.

Leopold, ao notar a predisposição do filho, começou a lhe ensinar música também e assistia impressionado à facilidade com que ele aprendia e tocava com perfeita nitidez. Não escondia sua progressiva admiração pelo pequeno, que em poucos meses de estudo já podia executar as mesmas obras que sua irmã, cinco anos mais velha.

Aos seis anos, Mozart escreveu um minueto para cravo e tirou lágrimas de seu pai, quando este reconheceu como todas as notas tinham colocação exata. A partir daí, Leopold compreendeu que seu filho não era só um menino precoce, ele era um milagre, e que precisava ser mostrado ao mundo.

A infância de Mozart foi marcada por inúmeras e longas viagens pela Europa, quando se apresentava em impecáveis performances à realeza em casas aristocráticas e principescas.

Mozart era uma criança divertida, curiosa, viva, esperta e engraçada. Era impossível para ele conceber uma vida sem música, na medida em que esta foi a protagonista em sua vida, desde o início. Todas as suas relações eram intermediadas pela música, o modo como ele se apresentava para os outros era tocando, assim como o modo como se expressava. Ele não tinha amigos de sua idade, não era uma criança que brincava, e sim um menino-prodígio alvo da admiração da nobreza e dos amantes da música.

Aos dezesseis anos, Mozart foi aceito como Konzertmeister (mestre de concerto) na capela de Salzburgo, a pedidos do pai, pelo recém coroado arcebispo Hyeronimus Colloredo, que tratava os músicos da capela como criados em uma condição servil. A relação entre os dois foi marcada por conflitos e teve fim com uma briga escandalosa, onde Mozart escreveu em uma carta ao pai ter sido chamado por Colloredo de malcriado, moleque e cretino. Segundo registros biográficos, Mozart falou com o Arcebispo de uma maneira que nenhum homem em sua condição ousava fazer. Com isso, conseguiu sua liberdade e os riscos que ela acarretava.

Em Salzburgo, Mozart sentia-se preso; ele tinha a cidade como provinciana, que não reconhecia suas criações, onde tudo lhe parecia mesquinho e insuportável. Sua inquietação o fez viajar em busca de reconhecimento e liberdade para compor. Em 1782, Com 26 anos, resolveu ir morar sozinho em Viena a contragosto do pai e estabeleceu-se como músico independente na cidade que era considerada a capital da música.

Na capital Austríaca passou todo o resto de sua vida, até o dia de sua morte. Casou-se com Constanze Weber e teve quatro filhos, dos quais apenas dois sobreviveram. Na sua vida adulta, alcançou o auge de sua atividade como profissional autônomo. Compunha em ritmo febril, dava aulas, organizava audições e concertos privados, sendo pioneiro nessa tentativa autônoma de comercialização de sua obra.

Pouco a pouco foi encontrando um lugar na sociedade musical Vienense e logo transformou-se no músico do momento; tinha prestígio de todas as classes sociais e ganhava muito dinheiro. Nesta época, foram muitos os momentos de glória, mas apesar disso, o casal não tinha uma vida estável, devido à má administração de suas finanças. Eles levavam uma vida de esbanjamento, gastavam mais do que recebiam e mudavam diversas vezes de moradia (chegaram a mudar nove vezes em apenas um ano).

Em 1785, compôs junto com o libretista Lorenzo da Ponte, “As bodas de Fígaro”, com algumas modificações sobre o tema original da peça, que havia sido banida pelo imperador José II. Para a apresentação desta, Mozart teve que convencer o imperador de que a obra havia sido expurgada de qualquer intenção política. Mesmo assim, a peça revela uma hostilidade em relação à nobreza imperial, que tanto havia enaltecido o músico até o momento. Mozart desafiou os padrões da época, ao colocar os servos como personagens protagônicos, em vez de deuses ou da realeza; e ao usar um formato cômico para satirizar figuras de grande poder sócio-econômico e político.

A obra “As bodas de Fígaro” não teve muito sucesso, foi representada apenas nove vezes em Viena, onde recebeu poucos e reticentes elogios. Depois disso iniciou-se a decadência de Mozart como compositor aclamado em Viena. Sua popularidade começou a cair, junto com o público Vienense e isso agravou sua condição financeira.

Apesar de trabalhar muito, Mozart, em seus últimos anos de vida, aproximou-se da condição de miséria. O casal enfrentou dificuldades financeiras devido à má administração do dinheiro, agravadas pelas gestações comprometidas de Constanze e pela morte dos filhos. É dessa época o episódio em que Mozart, em uma de suas viagens, sentou-se ao piano e começou a contar casos de sua infância, fazendo especial referência aos seu quatorze anos. Segundo Casas, dizia ele:“O que senti, então... o que senti, não voltará jamais. Só resta agitar-se no vazio da vida cotidiana” (Mozart apud Casas, p.234). O músico mostrava certa nostalgia em relação à sua infância, aquela fase que havia ficado para trás, onde ele era querido e admirado por todos, pelo fato de ser aquela criança admirável que habilmente mostrava toda sua genialidade.

Em 1790, compôs “Cosi fan Tutti”, que lhe rendeu muito pouco dinheiro. Wolfgang pedia auxílio aos seus amigos, endividava-se e piorava da saúde. Queixava-se de dores de cabeça, mal estar, cansaço e depressão anímica.

Segundo Casas, o doutor Peter J. Davies, afirmou que desde os primeiros anos da maturidade de Mozart, surgiu uma alteração crônica de seu caráter que estava associada a mudanças repentinas em seu humor, nas quais alternavam-se a hipomania e a depressão. Os artistas com esse tipo de alteração no humor, segundo o médico, são capazes de desenvolver uma incrível atividade durante os estados hipomaníacos, onde a autoestima cresce vertiginosamente e a necessidade de descanso é diminuída.

No início de 1791, ano que Mozart não veria acabar, ele entrou em um período de febre criativa que só terminaria com sua morte. Compôs suas duas últimas óperas: “A Clemência de Tito” e “A Flauta Mágica”, que foi encomendada por um amigo maçom e que revelava os ideais maçons e grande parte de seus cerimoniais e cabalas. A ópera, sobre a qual Mozart trabalhou com grande empenho, foi apresentada em um teatro popular na periferia de Viena.

Na primavera deste ano, recebeu a encomenda de um Réquiem, por meio de um mensageiro secreto. Segundo Casas, sua saúde já estava debilitada, ele sentia muitas dores, seu olhar era apagado, e ele sentia que estava escrevendo este réquiem para si mesmo. Não conseguiu terminá-lo, falecendo a 5 de dezembro de 1791. Diante da miséria sócio-econômica em que morreu, foi enterrado como indigente em uma vala comum e houve alguns poucos amigos no enterro.

Reflexão Psicológica

A Psicologia Analítica acredita que cada indivíduo nasce com uma configuração psíquica onde os arquétipos, predisposições e talentos se apresentam em uma disposição única. Durante o desenvolvimento da consciência, esta disposição manifesta-se de forma indissociável com os fatores externos, dando origem à individuação. Assim, um dom ou um talento pode ser entendido como uma potencialidade que já nasce com a pessoa e que pode ser desenvolvida ou não ao longo da vida. No caso de Mozart, fica claro que ele já nasceu dotado de um talento musical inato e que muito cedo revelou este dom, ao tirar sons melódicos no cravo que pertencia à sua irmã.

Além disto, é necessário ressaltar a importância da família para o desenvolvimento da criatividade de seus membros. Segundo Denise Morel (1990), o ambiente familiar pode tornar-se um espaço potencial que propicia as atividades criadoras, na medida em que a dimensão de partilha e ressonância fantasística é um suporte que ajuda o criador a encontrar um continente eficaz. Segundo a biografia escrita por Casas, é possível observar a contribuição de sua família, principalmente de seu pai, para que Mozart desenvolvesse seu talento.

A relação entre pai e filho estimulou intensamente a atividade criativa e musical do menino prodígio. A Psicologia Analítica considera que a criança, no início de seu desenvolvimento, procura comportar-se de maneira a atender às expectativas dos pais, confirmando assim o movimento de idealização dos pais em relação a ela. Leopold dedicava todo seu tempo e atenção à educação e às apresentações musicais dos filhos. De caráter inflexível e autoritário, combinava um profundo amor a uma severidade educacional próxima da brutalidade, como fica claro na seguinte passagem de uma carta enviada a um amigo, no ano de 1766:

“Sabeis que estão acostumados ao trabalho. Se pegassem o costume de ter algumas horas de ócio, sob qualquer pretexto, toda minha obra desmoronaria. O costume é como um corpete de ferro” (Leopold apud Casas, 2006, p.61).

O fato de Leopold não esconder sua progressiva admiração pelo filho, de derramar lágrimas de emoção ao reconhecer seu talento, de exigir  dedicação exclusiva à educação musical e levá-lo em apresentações pela Europa, parecem ter estimulado e proporcionado a Mozart uma entrega total e compromisso com seu dom criativo.  

A Psicologia Analítica atribui à criação artística a possibilidade de comunicação entre aspectos conscientes e inconscientes da psique, na medida em que o ato de criar é conceber o novo, é trazer para a consciência, por meio de símbolos, algo que antes era desconhecido, inconsciente. Segundo Silveira (2006):

No mistério do ato criador, o artista mergulha até as funduras imensas do inconsciente. Ele dá forma e traduz na linguagem de seu tempo as intuições primordiais e, assim fazendo, torna acessíveis a todos as fontes profundas da vida. (p.143).

A criação artística possibilita então um fluxo de conteúdos do inconsciente coletivo para a consciência.  Para a Psicologia Analítica, o inconsciente coletivo representa uma base psíquica comum a todos os indivíduos e se constitui dos arquétipos, ou seja, imagens primordiais que foram acumuladas pela humanidade desde os tempos mais remotos. Deste modo, o inconsciente coletivo não faz parte da experiência pessoal do indivíduo, mas sim das experiências suprapessoais da humanidade. Ele guarda possibilidades e potencialidades humanas, sendo assim uma base para a criatividade. Mozart mostrava estar frequentemente suscetível e sensível às manifestações inconscientes e a partir daí, transformava esses conteúdos em criações artísticas.

Ao discorrer sobre criatividade, Morel(1990) cita o filósofo Gabriel Marcel em uma frase de sua obra literária “O mistério do ser” (1955), que diz o seguinte:

“Toda vida humana está centrada em alguma coisa que varia enormemente: é talvéz um ser amado, de maneira que, se ele desaparecer, a vida se reduz a uma simples caricatura dela mesma; ou talvez uma ocupação predileta, a caça para uns, o jogo para outros; para outros ainda, uma busca ou uma criação” (p.19).

A vida de Mozart estava centrada na música, todas as suas relações com o mundo eram intermediadas por ela. Todos os seus encontros eram musicais, assim como as viagens, os amigos e todas as suas atividades. Ele nunca foi à escola e teve raros amigos de sua idade com quem pudesse brincar.

Em um relato de sua irmã, podemos perceber o comportamento de Mozart ainda criança: “durante uma execução musical, irritava-se diante do menor ruído. Enquanto durasse a música, tudo no mundo era música para ele. Só quando cessava tornávamos a ver o menino” (Nannerl, apud Casas, 2006, p.22).

O modo como Mozart sentia mais habilidade para expressar-se e comunicar-se como mundo era por meio da música. Segundo Da Costa (2000),

a linguagem sonora está ligada a aspectos corporais, ela mostra ser capaz de expressar aspectos dos seres humanos de forma mais instintiva e espontânea, tendo uma ligação mais íntima com o corpo. Isto facilita a comunicação de conteúdos abstratos, menos precisos em nós, referentes a instintos, emoções, impressões e sentimentos. Ela tem a capacidade de acessar mais diretamente o interior da pessoa de uma forma mais visceral tendo uma ligação mais íntima. Em uma carta ao pai datada de 8 de novembro de 1777, ele refere-se a isto de forma bem humorada:

“Não posso escrever um poema; não sou poeta. Não posso colocar as palavras de forma tal que difundam luzes e sombras; não sou pintor. Não posso expressar por gestos e pantonímias meus pensamentos e meus sentimentos; não sou bailarino. Mas, sim, posso fazê-lo por meio dos sons: sou músico” (Mozart apud Casas, 2006, p.116).

A Criação Artística

Ao discorrer sobre a criação artística, Jung, em seu livro O espírito na arte e na ciência (1985), distingue dois modos nos quais ela pode se dar. No primeiro processo, chamado de processo psicológico, Jung afirma que:

“O autor submete seu material a ser trabalhado a um tratamento com propósito definido, tirando ou adicionando, enfatizando um efeito, atenuando outro, dando um toque colorido aqui, outro acolá, considerando cuidadosamente os efeitos e observando constantemente as leis do belo e do estilo” (Jung, 1985, p. 61).

No segundo processo, chamado “visionário”, as obras de arte vêem à luz prontas e completas, como se o autor fosse apenas um instrumento da arte. Jung descreve da seguinte maneira a relação entre a obra e o artista:

A obra traz em si a sua própria forma; tudo aquilo que ele gostaria de acrescentar, será recusado; e tudo aquilo que ele não gostaria de aceitar, lhe será imposto. Enquanto seu consciente está perplexo e vazio diante do fenômeno, ele é inundado por uma torrente de pensamentos e imagens que jamais pensou em criar e que sua própria vontade jamais quis trazer à tona. Mesmo contra sua vontade tem que reconhecer que nisso tudo é sempre o seu “si-mesmo” que fala, que é a sua natureza mais íntima que se revela por si mesma anunciando abertamente aquilo que ele nunca teria coragem de falar. Ele apenas pode obedecer e seguir esse impulso aparentemente estranho; sente que sua obra é maior do que ele e exerce um domínio tal que ele nada lhe pode impor. Ele não se identifica com a realização criadora; ele tem consciência de estar submetido à sua obra ou, pelo menos, ao lado, como uma segunda pessoa que tivesse entrado na esfera de um querer estranho (Jung, 1985, p.61-62).

Eternamente comprometido com sua criatividade, Mozart não inventava nem reformava. No seguinte relato, descreve de tal maneira o modo como se davam suas composições:

“Quando me sinto em boa forma física, seja em um coche durante uma viagem, seja dando um passeio depois do jantar, ou se não consigo dormir, as idéias me chegam abundantes. Não sei de onde vêm nem como chegam, mas ali estão. Guardo, então, as que gosto, canto-as em voz baixa – ou pelo menos é o que dizem – e pouco a pouco as vou transformando, em minha cabeça, em algo coerente. A coisa avança, eu vou desenvolvendo mentalmente essas idéias, vejo tudo cada vez com maior clareza até que, em um momento, a obra fica terminada dentro da minha cabeça. Posso abarcá-la com um único olhar, como se se tratasse de um quadro ou de uma estátua. Não vejo a obra em seu decorrer, como quando é representada ou executada, mas como se fosse um bloco. E isso é um presente de Deus. A invenção, a elaboração, tudo isso é, para mim, um sonho magnífico: mas, quando percebo a totalidade da obra em seu conjunto, o momento é indescritível” (Mozart, apud Casas, 2006, p.216)                                                                                          

As idéias lhe vinham abundantes e ele logo se via tomado por elas. Seu processo de criação mais se assemelhava a uma transcrição dos conteúdos que lhe vinham à consciência do que uma composição pessoal. Mozart, enquanto criava, parecia estar tão absorto, envolto com suas idéias, que nem percebia cantar em voz baixa a música que dele estava nascendo.       

Este relato deixa claro que sua composição se dava de acordo com o processo que Jung denominou “processo visionário, no qual o autor é inundado por idéias que não lhe parecem próprias, e desta forma a obra vêm completa, como que se impondo a seu criador, trazendo conteúdos do íntimo de sua natureza” (Jung, 1985, p.78).

Segundo o autor, neste tipo de processo criativo, o artista encontra-se fortemente submetido ao material inconsciente. Para Jung, esses conteúdos que surgem na alma do artista em seu processo criador, vêm por meio de símbolos da camada mais profunda do inconsciente, e trazem as imagens primordiais, ou arquetípicas.

O Desenvolvimento da Consciência

O contato próximo com aspectos inconscientes mostra-se como semelhante ao estado descrito por Edinger (1995), que caracteriza o início do desenvolvimento da consciência, quando Ego e Self começam a se diferenciar.

O Ego é o sujeito da identidade pessoal, que se prolonga no tempo e no espaço e que é capaz de refletir sobre si mesmo. Ele está ligado às ações do indivíduo relacionadas a planejamento, escolhas e tomada de decisões.

O Self é um dos conceitos mais fundamentais da Teoria Junguiana. Também chamado de Si-mesmo, é a totalidade psíquica – que abrange aspectos conscientes e inconscientes – e ao mesmo tempo o arquétipo do centro da psique, que confere orientação e sentido aos conteúdos arquetípicos.

Edinger, em seu livro Ego e Arquétipo (1995), identifica que o processo de desenvolvimento psicológico consiste na diferenciação progressiva entre Ego e Self.  Ao longo de toda a vida é esperado que ocorra esta diferenciação, porém, Ego e arquétipo nunca se separam totalmente. Eles mantém-se unidos pelo eixo Ego-Self, que possibilita ao Ego experimentar uma reunião recorrente com o Si-Mesmo, para que seja mantida a integridade da personalidade total.

Segundo o autor, no início da vida psíquica, nada mais existe além do Si-Mesmo. O Ego, nesta etapa, existe apenas como potencialidade, pois ele ainda encontra-se mergulhado, ou seja, indiferenciado da totalidade psíquica, do Self. Newmann, segundo Edinger (1995), descreve este estado de indiferenciação como a uroboros (a serpente que morde a própria cauda), pois o Ego, totalmente identificado ao Si-Mesmo, percebe-se como divindade.

Em suas palavras:

“Esse é o estado original de unidade e perfeição inconscientes, responsável pela nostalgia que todos sentimos com relação às nossa próprias origens, tanto pessoal quanto historicamente” (p.27).

Nesta fase inicial do desenvolvimento da consciência, chamada de “inflação e totalidade original”, a energia psíquica da criança volta-se totalmente para dentro de si mesma, que reconhece-se como o centro do mundo. O Ego ainda encontra-se próximo do inconsciente e procura adaptar-se exclusivamente ao seu Self, ou seja, às suas potencialidades e qualidades internas. Quase não há reconhecimento do outro, pois a estruturação do Ego ainda é mais importante. Edinger (1995) refere-se a esta fase inicial do desenvolvimento da consciência da seguinte maneira:

“Quando olhamos retrospectivamente nossa origem psicológica, vemos que ela tem uma dupla conotação: em primeiro lugar, ela é vista como condição paradisíaca, unidade, um estado de unicidade com relação à natureza e aos deuses infinitamente desejável; mas, em segundo lugar, com base nos nossos padrões humanos conscientes, que estão relacionados à realidade do tempo e do espaço, trata-se de um estado de inflação, uma condição de irresponsabilidade, de luxúria incorrigível, de arrogância e de desejo rude”. (p. 32).

Posteriormente a esse estado de total indiferenciação, o Ego começa a emergir das profundezas inconscientes, iniciando sua separação em relação ao Self. No decorrer do desenvolvimento de autonomia do Ego, ocorre o reconhecimento de que ele não é idêntico à totalidade psíquica, que não é o centro do mundo. Assim, ele começa a reconhecer o outro, procurando atender às expectativas dos familiares e do mundo em geral.

Edinger (1995) define que no processo de desenvolvimento da consciência operam duas tendências arquetípicas básicas e opostas entre si. A primeira tendência, segundo ele, é o automorfismo, onde a pessoa adapta-se aos próprios potencias, às suas possibilidades e aos seus conteúdos internos. A segunda tendência, que é posterior ao automorfismo, é a adaptação ao meio ambiente externo, que pressupõe o desenvolvimento de papeis socialmente aceitos.

Para ser socialmente adequado, o Ego seleciona aspectos da psique que são mais adaptados para integrar a consciência e ignora outros que julgue de menor valor, sempre procurando adaptar-se ao meio externo, às leis e à cultura.

O desafio para a consciência é, então, desenvolver uma noção realista e responsável de sua relação com o mundo, ao mesmo tempo em que mantém seu vínculo vivo com a psique arquetípica, com suas potencialidades e energia vital. Para isso, é necessário que se mantenha o fluxo de energia no eixo Ego-Self, para garantir a integridade de nossa personalidade.

Quando o desenvolvimento do Ego é prejudicado, as características similares às primeiras fases de diferenciação podem persistir além da infância. Isto porque nestes casos, o Ego continua, mesmo na idade adulta, identificado com a totalidade psíquica, com a divindade, reconhecendo-se como o centro do universo. É evidente que uma pessoa com este desenvolvimento prejudicado está bem adaptada ao si-mesmo, às suas potencialidades, porém, pouco adaptado à realidade externa.

O estado de inflação do Ego geralmente causa a sensação de pertencimento, de unidade e perfeição. Tudo encontra-se misturado, indiferenciado, não é possível reconhecer o que é do sujeito e o que é do mundo no qual ele está inserido.

Mozart mostrava-se extremamente voltado para dentro de si, suscetível aos conteúdos do inconsciente coletivo, que pareciam preencher seu ser. Quando se encontrava em contato íntimo com toda a sua potencialidade, sentia-se pleno, completo. Considerava uma graça de Deus encontrar-se neste estado. Mesmo sem identificar de onde surgiam suas idéias, entregava-se livremente a elas.

Ele era tão fiel às suas composições e às idéias que surgiam em sua psique, que a música e sua capacidade criativa eram sua razão de viver. Seu ímpeto criativo se apoderava dele de modo que ele ficava a serviço de sua obra. Ele amava encontrar-se nesse estado, onde era inundado pelo mar inconsciente. Em uma carta ao pai datada de 11 de outubro de 1777, deixa claro o seu maior prazer:

“Estou contente porque tenho o que compor, o que realmente é minha única alegria e paixão” (Mozart apud Curzon, p.07).

Genialidade e criatividade

Jung, em seu livro O desenvolvimento da personalidade (1986), discorre no capítulo O bem dotado sobre a superdotação e o talento que se expressa em alguns indivíduos como um ser supranatural e quase divino. Ele diz que a genialidade é sempre um fator que direciona a vida da pessoa e cedo manifesta os sinais de sua presença. Afirma ainda que o dito gênio impõe-se a tudo que lhe for contrário, pois faz parte de sua natureza ser incondicionável e indomável.

Segundo Jung (1986), a dotação psíquica do indivíduo que possui um grande talento situa-se entre contrastes muito amplos. A maturação do talento, segundo ele, é geralmente desproporcional à maturidade de outros aspectos da personalidade. É raro que o talentoso atinja de modo igual todos os campos do espírito, ou seja, todos os aspectos da personalidade.

Jung (1986) afirma que muitas vezes o superdotado encontra dificuldades no âmbito afetivo e moral. Em uma frase, ele salienta que “Grandes dotes são na verdade os mais belos frutos, mas também às vezes os mais perigosos, nessa árvore que é a humanidade”. (Jung, 1986, p.146). Segundo o autor, frequentemente se tem a impressão de que o talento desenvolve-se à custa da pessoa humana.

Para que o talento torne-se mesmo algo de valor, é importante que outros aspectos da personalidade o acompanhem, fazendo com que o talento possa ter maior aproveitamento e utilidade e também com que todas as potencialidades do indivíduo sejam desenvolvidas.

Jung (1985) afirma que durante o processo criativo, o artista recua ao inconsciente para buscar a imagem primordial que irá compensar a carência e a unilateralidade da consciência e sociedade da época. Da mesma maneira como ocorre esta compensação, é necessário também que o artista, assim como qualquer outro ser humano, caminhe em sua vida no sentido de desenvolver sua totalidade. A isso, Jung chamou de processo de individuação. É o caminho que todo ser humano percorre ao longo de sua vida em direção ao desenvolvimento de seu ser em sua totalidade, através da integração de opostos, isto é, da integração entre aspectos conscientes e inconscientes da sua personalidade.

Segundo Jung (1986), o desenvolvimento unilateral de uma função da personalidade em detrimento de outros aspectos da psique total, significa a não integração de opostos e prejudica o desenvolvimento da psique em sua totalidade.

No livro O espírito na arte e na ciência (1985), Jung diz que “O anseio criativo vive e cresce dentro do homem como uma árvore no solo do qual extrai seu alimento” (p.63). Considerando esta metáfora, podemos pensar que para a árvore crescer e se alimentar, ela precisa de energia, que será retirada da personalidade total. Porém, se ela absorve muita energia, isto pode significar que algum outro aspecto do psiquismo fica debilitado, desprovido de combustível para desenvolver suas funções.

O autor nomeou essa essência viva dentro do homem de complexo autônomo criativo, que segundo ele, funciona em nós como uma outra pessoa, com vontades, intenções e sentimentos próprios. Jung afirma que o complexo autônomo leva uma vida independente dentro da psique, de acordo com sua força, podendo até tomar a seu serviço o próprio Ego. Para seu desenvolvimento e atuação, o complexo usa energia retirada da psique, assim podendo causar uma diminuição gradativa das atividades do comando consciente, culminando em um desenvolvimento regressivo das funções do Ego. Janet (apud Jung 1985), descreve que nesses casos é possível que haja uma imposição do instintivo sobre o ético, do infantil sobre o adulto e da inadaptação sobre a adaptação.

Para exemplificar que a obra pode dominar o criador, Jung lembra que em diversos artistas, seu ímpeto criativo era tão grande que se apoderava dele, mesmo à custa de sua saúde e até de sua felicidade. Em suas palavras:

A obra inédita na alma do artista é uma força da natureza que se impõe, ou com tirânica violência ou com aquela astúcia sutil da finalidade natural, sem se incomodar com o bem-estar pessoal do ser humano que é o veículo da criatividade. (Jung, 1985, p.63).

Em Mozart, seu complexo criativo parecia atuar consumindo grande parte de sua energia psíquica. Ele dedicava-se intensamente à sua atividade musical, amava compor e trabalhar com sua música, porém toda essa dedicação e maturação de seu lado genial parece ter ocorrido em detrimento do desenvolvimento de outros aspectos da psique, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento do Ego para adaptação à realidade externa. Mesmo em sua época de glória, quando ganhou mito dinheiro, Mozart nunca atingiu estabilidade financeira, tinha muita dificuldade em organizar e administrar sua vida e conciliar os outros papéis sociais que não fossem o de criador, como marido, professor e pai.

Jung (1985) afirma que o ímpeto de alguns artistas é tão grande que ele pode dominar o criador às custas de sua saúde e bem-estar. Lembrando que no caso do superdotado o desenvolvimento de diferentes aspectos da personalidade mostra-se de extrema importância para que o talento possa ser aproveitado, no caso do artista, é de extrema importância também o desenvolvimento total da psique e manutenção de saúde e bem-estar, para veicular sua criatividade.

Mozart comprometia-se tanto com suas criações que dedicava menor atenção a todas as suas outras atividades, desde as necessidades básicas que lhe garantiam o bem estar, como se alimentar e dormir. Trabalhava em um ritmo febril, em detrimento de sua própria saúde. Attwood (apud Casas, 2006) descreve Mozart, na época da composição de As bodas de Fígaro, da seguinte maneira:

“Parecia de muito bom humor, mas sua saúde não era boa. De tanto trabalhar, tornou-se impossível para ele ficar sempre inclinado sobre a mesa, e teve que construir uma mesa vertical sobre a qual compunha em pé” (p.201).

Sua dedicação intensa e descontrolada à criatividade em detrimento de tudo e todos pode ser lida como a fidelidade do músico ao seu conteúdo interno, inconsciente, em outras palavras, a sua adaptação a seu Self. Ele parece ter se voltado para si mais do que para a realidade externa. Talvez sobrasse pouca energia, interesse e disposição psíquica para o desenvolvimento de um Ego separado da totalidade e da divindade, adaptado socialmente.

Realmente ele amava encontrar-se no estado nomeado por Edinger (1995) de totalidade original e fundia-se com sua obra, mas isto pareceu custar o desenvolvimento regressivo de aspectos do Ego.

A Criança Eterna

Marie Louise von Franz (2005) reconhece essa mesma condição de desenvolvimento comprometido do Ego como uma identificação com o arquétipo do Puer Aeternus, que segundo ela, representa o deus da juventude divina e significa “juventude eterna”.

Segundo a autora, as pessoas que se identificam com o arquétipo do Puer Aeternus apresentam algumas características como dificuldade de adaptação a situações sociais, atitudes arrogantes em relação aos outros e necessidade de reconhecimento por sua genialidade.  Em suas palavras,

“Em alguns casos, há um tipo de individualismo associal: sendo alguém especial, ele não tem necessidade de adaptar-se, pois as pessoas é que têm que se adaptar a um gênio como ele” (Marie Louise von Franz, 2005, p.14).

A qualidade positiva de tais jovens é uma espiritualidade de caráter, justamente por causa de seu contato próximo com o inconsciente coletivo. Von Franz afirma que os pueri aeterni geralmente são muito agradáveis para conversar; usualmente têm assuntos interessantes e não gostam de situações convencionais.

Em relação ao trabalho, os pueri só conseguem trabalhar quando ficam fascinados ou em estado de grande entusiasmo. Quando encontram-se em meio a esta excitação, são capazes de trabalhar vinte e quatro horas por dia, mas se o trabalho for entediante esta questão torna-se um problema.

Segundo a biografia escrita por Casas, Mozart preservava, mesmo na idade adulta, algumas características pueris. A autora de peças de teatro Karoline Pichler, grande admiradora das obras de Mozart, deixou registrada sua impressão sobre Mozart e seu amigo próximo, também compositor, Joseph Haydin. Segundo ela,

“Mozart e Haydin, a quem conheci muito bem, foram pessoas que, em suas relações com os outros, não mostravam absolutamente nenhuma capacidade extraordinária, quase nenhum tipo de preparo intelectual ou de educação científica ou superior. Brincadeiras bobas e uma vida irresponsável (no caso de Mozart) era tudo quanto exibiam na frente de seus conhecidos. Porém, quanta profundidade, que mundos de fantasia, de harmonia, de melodia e sensibilidade se ocultavam por trás dessas fachadas nada brilhantes! Qual foi a revelação interior que permitiu que tal entendimento chegasse a essas pessoas? Como puderam se apoderar dela até produzir efeitos tão poderosos e expressá-los em sons, sensações, pensamentos e paixões que fazem que os ouvintes conheçam as regiões mais profundas do espírito, e pelas quais se sintam interpelados?” (Pichler apud Casas, 2005, p.196).

O jeito brincalhão de Mozart mostra-se evidente no trecho final de uma carta enviada a seu pai, momento no qual ele manda saudações à irmã. Nesta época, Mozart tinha 27 anos. Assim ele a saúda:

“PS. À Nannerl 1. uns tapas;  2. uns    tabefes;
3. uns murros no queixo; 4. umas bofetadas; 5. bofetões de nó dois”  (Mozart apud Gedeon, 2004).

A identificação com o arquétipo do Puer Aeternus também é caracterizada pela dificuldade no desenvolvimento de papéis sociais adultos, como os de pai e professor. O papel social melhor desenvolvido de Mozart era o de gênio musical. Porém, em outros aspectos da sua vida parecia muito menos comprometido.

O primeiro filho do músico, Raimund Leopold, nasceu em julho de 1783. Foi curiosamente descrito pelo pai como um menino “bonito e robusto, redondo como uma bola”. No mesmo mês do nascimento de Raimund, o casal realizou uma viagem a Salzburgo, que duraria quatro meses, para que Constanze enfim conhecesse Leopold e Nannerl. O recém nascido foi deixado com uma babá, porem, não resistiu. Faleceu por conta de uma “desinteria”, segundo a terminologia da época, com poucos meses de vida.

O casal mostrou certa irresponsabilidade com essa atitude em relação ao filho recém nascido. Porém Mozart não parece ter se abatido muito. Em relação a isto, escreveu poucas palavras em uma carta ao pai datada de 10 de dezembro: “Ambos sentimos muita pena do pobre menino gorduchinho”. (Mozart apud Gedeon, 2004, p.172).

O segundo filho do casal nasceu em setembro de 1784. Este chegou à idade adulta. Quando teve seu terceiro filho, em outubro de 1786, Mozart pretendia viajar para a Inglaterra e enviou uma carta ao pai com o pedido de que este hospedasse em troca de uma pensão seus dois filhos. Leopold recusou energicamente o pedido, corroborando com a ruptura definitiva entre pai e filho.

O terceiro filho de Mozart morreu com apenas um mês de vida por conta de um “catarro asfixiante”. O quarto filho do casal era uma menina, mas apesar de ser aparentemente saudável, morreu com apenas seis meses, por decorrência de uma infecção intestinal. A quinta filha viveu apenas uma hora.

A saúde de Constanze estava muito debilitada. Isto talvez explique a grande mortalidade dos filhos do casal, além do fato de que era muito alto o índice de mortalidade infantil naquela época. Porém, além disso, fica claro que Mozart não desenvolveu muito bem com seus filhos o papel de pai.

Por outro lado, o sentimento de pai zeloso aparece em uma carta a seu amigo Haydin. Mas ele não falava de filhos propriamente ditos, e sim de quartetos que compora para o amigo. No trecho da carta, diz assim:

“A meu querido amigo Haydin: um pai que havia decidido enviar seus filhos à vastidão do mundo, julgou conveniente encomendá-los à proteção e disciplina de um homem muito célebre que, para maior sorte, era seu melhor amigo. Eis aqui, então, da mesma forma, homem célebre e amigo querido, estes meus seis filhos. [...] Receba-os, portanto, com benignidade e seja seu pai, seu guia e seu amigo. A partir deste momento cedo-lhes todos os meus direitos sobre eles, e suplico que olhe com indulgência o que o olho tendencioso de pai pode ter me impedido de ver, e que, apesar deles, continue oferecendo sua generosa amizade a quem tanto a aprecia. Enquanto isso, sou, de todo coração, seu mui sincero amigo W. A. Mozart”(Mozart apud Casas, 2005, p.194-195).

Para o artista, suas obras eram como seus filhos, a quem ele tinha um enorme amor e apreço, preocupado com o destino deles na imensidão do mundo.

Ao exercer seu papel de professor, Casas descreve que às vezes Mozart se concentrava nas aulas, mas outras vezes punha seus alunos para trabalhar enquanto jogava bilhar. Segundo o biógrafo, o compositor Thomas Attwood, que fora aluno de Mozart, afirma que havia ocasiões em que o professor convidava seus alunos a jogar bilhar com ele, enquanto falava das dificuldades de uma passagem ou das características de uma forma musical.

No século XVIII, a música não era considerada uma atividade nobre. Pelo contrário, ela era tida como uma atividade servil. Os músicos submetiam-se à nobreza aspirando obter cargos de compositor de apela ou de corte. Mozart não aceitou esta condição servil, arriscou-se em nome de sua arte:

“É ele, e não Bethoven, o primeiro a, no mundo dos compositores, fazer soprar um ar revolucionário. É esse jovem, de 25 anos, que às vezes foi visto como músico de corte por excelência, o primeiro que se atreve a pôr a dignidade de sua arte acima de uma vida segura” (Girdlestone, apud Casas, 2005, p.155).

Considerações Finais

Mozart viveu fiel à sua arte, aos seus sentimentos, emoções e ideais. Dedicou-se intensamente à sua música, colocando-a acima de uma vida estável e segura. Tinha um temperamento irreverente, espírito libertador e indomável, que segundo Jung, são características típicas de pessoas que possuem uma superdotação. Durante a sua vida, desafiou corajosamente regras, quebrou padrões e não adaptou-se à estrutura rígida da sociedade de sua época.

Desde o início de sua vida entregou-se totalmente ao seu ímpeto criativo, adaptou-se a toda sua potencialidade. Foi intensamente estimulado por sua família a desenvolver sua criatividade e viveu para isso. Tudo em sua vida ocorria em função da música: seus encontros, viagens, festas e trabalhos. Sentia como uma graça de Deus a possibilidade de encontrar-se no estado de entrega total às idéias que lhe surgiam, fundindo-se com sua obra.

O processo criativo de Mozart mais se assemelhava a uma transcrição de seus conteúdos internos do que uma composição pessoal. As idéias lhe vinham abundantes, sem que ele reconhecesse de onde e como vinham. Desenvolvia essas idéias, ia vendo tudo com mais clareza, não percebendo a obra em seu decorrer e quando se dava conta, ela já se fazia completa em sua cabeça. Jung chama este modo de compor de processo visionário, que promove grande fluxo entre aspectos inconscientes para a consciência, no qual as obras de arte vêem à luz prontas e completas, como que usando o criador apenas como um instrumento.

Este contato próximo com aspectos inconscientes mostra-se como semelhante ao estado inicial de desenvolvimento da consciência, quando o Ego ainda encontra-se muito identificado com o Self e reconhece-se como a própria divindade. Nesta fase chamada de “inflação e totalidade original”, a energia psíquica da criança volta-se totalmente para dentro de si mesma, que se reconhece como o centro do mundo. No decorrer de seu desenvolvimento, o Ego distancia-se progressivamente do Self, porém sem nunca se desligar completamente.

O processo de desenvolvimento é governado por duas tendências arquetípicas opostas entre si. O auto-morfismo é a tendência à adaptação de uma pessoa aos próprios conteúdos, talentos e potencialidades. E a adaptação ao ambiente externo é o voltar-se para fora, atender às expectativas dos outros e agir segundo as leis sociais. O desafio para a consciência é desenvolver uma noção realista do mundo, adaptar-se ao ambiente externo sem perder o vínculo com sua energia vital, com a psique arquetípica.

Se o Ego desenvolve-se de forma unilateral, governado mais por uma tendência do que pela outra, aquelas características iniciais de inflação, identificação com o Self e com a potencialidade arquetípica podem persistir além da infância, por toda a idade adulta. No caso em que a pessoa volta-se extremamente a si mesma, esquecendo-se de olhar para fora, ela pode estar muito bem adaptada às suas potencialidades internas, porém pouco adaptada à realidade externa.

As funções psíquicas podem atuar construtiva ou destrutivamente na personalidade e na cultura, em função da sua forma de agir, mas nunca em função da sua natureza. A criatividade, a expressão artística não é por si prejudicial, muito pelo contrário, ela é fonte de vida, possibilita a comunicação entre aspectos conscientes e inconscientes, traz à luz as intuições primordiais. Mas se o voltar-se para si mesmo ocorrer em detrimento da adaptação social, este fato pode gerar sofrimento, dificuldades para lidar consigo mesmo e/ou com o mundo externo, ou até mesmo o adoecimento psíquico.

O desenvolvimento regressivo do Ego pode ser reconhecido ainda como uma identificação com o arquétipo do Puer Aeternus, que significa criança eterna. Segundo Marie Louise Von Franz, quem se identifica com este arquétipo apresenta características como necessidade de reconhecimento, certa arrogância, dificuldade de desenvolver papéis sociais adultos e de adaptar-se à realidade.

Refletindo sobre sua personalidade, sua vida e o modo como lidou com sua música, podemos perceber que Mozart adaptou-se mais às suas próprias potencialidades e possibilidades do que à realidade externa.

Não se adequou de forma passiva a regras socialmente estruturadas. Impôs-se à nobreza e à aristocracia e revolucionou a posição dos músicos. Teve, em sua vida, grande sofrimento, principalmente devido à miséria sócio-econômica de seus últimos anos.

Sendo fiel à sua musa e aos seus ideais, deixou sua marca na história: sua música que é ouvida até hoje e que tem o poder causar a quem entra em contato com ela a mesma sensação de unidade, pertencimento e perfeição à qual Mozart se entregava.

Referências:

CASAS, Lincoln Maiztegui. Mozart por trás da máscara. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006.

DA COSTA, Valéria C.I. Observação e análise da atividade apresentada por um bebê de quatro meses de idade durante a audição de duas peças musicais: Sinfonia no. 40 de Mozart e a música Happy Nation do grupo Ace of the Base. Universidade de São Paulo, 2000. Trabalho consultado no site http://neurociencia.tripod.com/labs/lela/textos/mateus.pdf  em 18/03/08.

EDINGER, EDWARD F. Ego e Arquétipo: Individuação e Função Religiosa da Psique. São Paulo: editora Cultrix, 1995).

JUNG, Carl Gustav. O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis: Editora Vozes, 1986).

JUNG, Carl Gustav. O espírito na arte e na ciência. Petrópolis: Editora Vozes, 1985.

MOREL, Denise. Ter um talento, ter um sintoma: as famílias criadoras. São Paulo: editora Escuta, 1990.

SILVEIRA, Nise. Jung: Vida e Obra. Rio de Janeiro:Editora Paz e Terra, 2006.

VON FRANZ, Marie Louise. Puer Aeternus: A luta do adulto contra o paraíso da infância. São Paulo: Paulus, 1992.

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