A Influência da Cognição no Bem-Estar Subjetivo na Visão da Teoria Cognitiva

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Resumo: Esse artigo foi desenvolvido com o objetivo de elucidar quais as características de indivíduos felizes apresentadas na literatura científica da área e analisar a relação entre essas características, o bem-estar subjetivo e o processamento cognitivo baseado na Teoria Cognitiva, assim colaborando no entendimento de como ocorre a aquisição e manutenção do bem-estar subjetivo. Levou-se em consideração esta necessidade, em consequência de uma lacuna literária existente. Foi realizada pesquisa bibliográfica a partir de artigos científicos, teses e livros, com preferência pelos autores clássicos. Os resultados das pesquisas já publicadas pelos autores foram apresentados em formato de tabela, contendo as seguintes informações: Autor, ano de publicação, a característica que influenciou o bem-estar subjetivo e explicita a relação: positiva, negativa ou não identificada. Apontou-se a cognição, em uma visão da Teoria Cognitiva, como determinante na relação de influência das características mencionadas e o bem-estar subjetivo.

Palavras-chave: felicidade, bem-estar subjetivo, cognição, processamento cognitivo e terapia cognitiva. 

1. Introdução

Porventura não seja exagero imaginar que a busca pela felicidade tenha sido a grande mola propulsora a conduzir a espécie humana em sua trajetória. “Como ganhar, manter e recuperar a felicidade é de fato o motivo secreto pelo qual a maior parte dos homens faz o que faz” (JAMES, 1902, p.76 apud MYERS, 2006, p. 379).De acordo com DSM IV (APA, 2002) os dados estatísticos revelam que o transtorno depressivo maior está associado com uma alta mortalidade, onde a taxa de suicídio dos indivíduos que são acometidos pelo nível severo chega a 15%. E ainda as técnicas indicadas em literaturas de auto-ajuda possuem pequeno fundamento científico e nenhuma confirmação empírica de sua eficácia (RODRIGUES, 2007).

No campo da ciência, uma variedade de pesquisas citam características de indivíduos felizes, mas a grande maioria se limita apenas a esta caracterização, deixando uma lacuna na literatura no que se refere a entender o determinante das variáveis que influenciam a aquisição e manutenção da felicidade. A partir do entendimento destes fatores, os profissionais da Psicologia podem oferecer meios para auxiliar os seus pacientes a conquistarem uma vida mais feliz e com maior qualidade de vida.

O objetivo desse artigo foi o de elucidar características de indivíduos felizes apresentadas na literatura científica da área e analisar a relação entre essas características, o bem-estar subjetivo e o processamento cognitivo baseado na Teoria Cognitiva. Levou-se em consideração esta necessidade, em consequência de uma lacuna literária existente. Foi realizado um levantamento bibliográfico a partir de artigos científicos, teses e livros, com preferência pelos autores clássicos. Os resultados das pesquisas já publicadas pelos autores foram apresentados em formato de tabela, contendo as seguintes informações: Autor, ano de publicação, a característica que influenciou o bem-estar subjetivo e explicita a relação: positiva, negativa ou não identificada.

Os termos felicidade e bem-estar subjetivo (BES) serão tratados neste artigo como sinônimos com base na literatura pesquisada. Para Giannetti (2002) quando alguém se declara feliz, o acontecimento pode ser descrito de diversas maneiras: Popularmente, o indivíduo pode estar feliz com algo específico; pode ser uma felicidade momentânea, somente em um espaço de tempo; ou pode-se dizer que é feliz porque ao avaliar a vida como um todo, sente que no geral, é satisfatória. É neste último caso que este artigo foi baseado, onde a felicidade não é apenas uma sensação passageira e local (estar feliz), mas inclui um componente reflexivo, ou seja, é calcalda em uma avaliação global da vida (ser feliz).

Historicamente, observou-se que a concepção humana de felicidade esteve sempre baseada em dois tipos de premissas extremistas: uma de natureza extrínseca e outra intrínseca. A premissa que se baseia na natureza extrínseca da felicidade leva o indivíduo a buscá-la para além de si mesmo, na expectativa de encontrá-la em eventos ou conquistas externas a sua própria pessoa (DELUMEAU, 1997). Como exemplo dessa concepção, Giannetti (2002) cita o Iluminismo por tê-la como consequência do progresso, ou o próprio hedonismo, por acreditar que o segredo da felicidade consiste no aumento dos bons e diminuição dos maus momentos da vida. Para os que se baseiam neste tipo de premissa, a sociedade contemporânea não parece ter muito a oferecer: terrorismo, guerras, crises econômicas, violência urbana, desemprego, são apenas alguns exemplos daquilo que se tem que conviver, de modo que vincular nossa felicidade a sua eliminação, ou mesmo diminuição destes fatores, seria o mesmo que abrir mão de uma vida feliz.

Tendo em vista a concepção de felicidade através da natureza intrínseca, Seligman (2009) discorre sobre a Psicologia Positiva, onde embora não negue a influência de eventos externos, trabalha com o conceito de bem-estar subjetivo que corresponde à avaliação, tanto cognitiva quanto afetiva que uma pessoa faz acerca de sua própria vida, e que é a partir de seu próprio esforço que o indivíduo conquista o bem-estar.

Diversos estudos demonstram que determinadas características predispõem o indivíduo ao sentimento de felicidade, onde uma delas é a personalidade humana. Diener (2002) compara a felicidade à extroversão ao relatar que o afeto positivo facilita a sociabilidade e ocasiona uma natural interação com as pessoas. Portanto, compara-se a felicidade com a extroversão. Entretanto, conforme Giacomoni (2002) são as habilidades sociais que possuem o efeito mais significativo quando comparadas com as outras variáveis.

Seligman (2009) investigou as relações existentes entre medidas de felicidade e personalidade, a partir da participação de 95 estudantes voluntários. Seus resultados indicaram que a estrutura básica de personalidade tenciona uma pessoa a ser caracteristicamente feliz ou não. O neuroticismo mostrou-se negativamente associado às medidas de felicidade, enquanto a extroversão mostrou-se positivamente relacionada a elas.

Diener e Seligman (2004 apud PASSARELI, 2007) indicam que nos casos em que as pessoas possuem relações superficiais no grupo que fazem parte, ou ainda quando não conseguem pertencer a algum grupo que almejam, há uma tendência a apresentarem sofrimento. Lundin (1979) cita que para o teórico Maslow, a necessidade de pertencimento é a segunda necessidade básica que o indivíduo pode vivenciar, para que conquiste a auto-realização.

Muitos estudos têm indicado que as pessoas com estado civil de casada apresentam saúde psicológica e física melhor, comparadas às solteiras (COMIN e SANTOS, 2009). Segundo Watson (2000) entre as pessoas muito felizes, há uma maior representação de pessoas casadas, sugerindo que a felicidade cause o casamento, e não o contrário. Segundo Argyle e Martin (1991 apud RODRIGUES, 2007) mais importante do que propriamente o estado civil de casado, é a qualidade do casamento. As pessoas que dizem que seus casamentos são satisfatórios e que se descobrem ainda apaixonadas por seus parceiros dificilmente informam serem infelizes, descontentes com a vida ou com sintomas de depressão.

Seligman (2009) sugere que as pessoas felizes resistem melhor à dor e adotam um maior número de precauções relativas à segurança e a saúde quando necessário, mas também as emoções positivas desfazem as emoções negativas vivenciadas. Entretanto, ainda não foi determinado entre a felicidade e a saúde, qual é a causa e qual é o efeito.

Ao contrariar a crença popular, Passareli (2007) indica que o aumento da renda produziria pouco benefício adicional ao bem-estar, o que sugere uma baixa correlação entre indicadores econômicos e o bem-estar. Diener e Seligman (2004) apud Passareli (2007) relataram que nos últimos 50 anos os rendimentos aumentaram continuamente nos Estados Unidos, triplicando a renda per capita, mas no mesmo período não se observou aumento proporcional de satisfação de vida. Resultados complementares de estudos sustentam que uma renda maior auxiliaria na avaliação de bem-estar subjetivo no caso de pessoas extremamente pobres, porém a partir de uma determinada renda, não se verificaria a correlação entre aumento da riqueza e aumento do bem-estar subjetivo. Assim, é possível concluir que o dinheiro está intimamente ligado com aspectos pessoais, acadêmicos, profissionais, de saúde e afetivo-relacionais da vida, sendo que é percebido como meio de alcançar os fins valorizados pelos sujeitos.

Ferraz et al (2007) apresenta os resultados da maior pesquisa internacional já realizada nesse campo, a World Values Surveys (WVS), no período de 1999 à 2002, onde após a realização de uma revisão feita em 125 artigos que continham o tema felicidade, apontou que os escores mais elevados foram encontrados, por ordem decrescente, em Porto Rico, México, Dinamarca e Colômbia. O Brasil é o 32º país do ranking, e os Estados Unidos, o 15º. Na opinião de Freire (2001), o bem-estar subjetivo é influenciado pelos padrões, crenças e valores do homem, bem como da sociedade a que ele pertence, e infere que a felicidade do homem contemporâneo não é a mesma que a do homem medieval. Portanto, a felicidade é histórica e culturalmente construída.

A felicidade é relativa não apenas as nossas experiências passadas, mas também às nossas comparações com os demais, é o que acredita o pesquisador Lyubomirsky (2001 apud MYERS, 2006). Nós nos comparamos com os outros, e podemos nos sentir bem ou mal, dependendo de qual é a referência. Segundo Myers (2006), as pessoas felizes tendem a: ter elevada autoestima, ser otimistas, pró-ativas e flexíveis, utilizam as suas habilidades no trabalho e lazer, possuem uma fé religiosa, dormem bem e se exercitam. E ainda não foi encontrada relação da felicidade com: idade, gênero (as mulheres tendem a ser mais deprimidas, mas também mais felizes), nível educacional, parentalidade (possuir ou não filhos) e a beleza física. Seligman (2009) através da análise de sorrisos em fotos de formatura não descobriu ligação entre aparência e um bom casamento ou satisfação pessoal. O que acontece apenas é que a mulher sorridente tem maior probabilidade de ser bem casada e feliz.

O número de pesquisas que permeiam uma resposta para a validade da fé, o poder da mente e a ciência, são inúmeras e crescentes. E o que dizer sobre a relação da religião e da felicidade? Seligman (2009) demonstra consistentemente que as pessoas religiosas são mais felizes e satisfeitas com a vida do que as não religiosas. A relação causal entre a religião e uma vida mais saudável não é mistério. A maioria das religiões condenam as drogas, o crime e a infidelidade, enquanto incentivam a bondade, a moderação e o trabalho árduo. As religiões infundem esperança no futuro e dão significado à vida. A relação entre a esperança no futuro e fé religiosa é provavelmente o motivo pelo qual a fé afugenta o desespero e aumenta a felicidade.

Para Seligman (2009), a satisfação com a vida aumenta ligeiramente com a idade, o que talvez se deva as realizações atingidas no decorrer da vida, mas em contrapartida, o estado de espírito agradável diminui um pouco e o estado de espírito negativo se mantém estável. Conclui-se que o que muda com a idade é a intensidade das emoções. Ainda assim, em estudo realizado através da análise de relatos das biografias de 180 noviças da School Sisters of Notre Dame demonstra que mesmo com um padrão de vida rotineiro e protegido, alimentação e hábitos saudáveis, elas faleciam em faixas etárias diferentes. Ao final, as pesquisas mostraram que a expressão de sentimentos positivos faz toda a diferença. Então, ao que parece, noviça feliz vive mais tempo (SELIGMAN, 2009).

Seligman (2009) categoriza uma semelhança no processamento cognitivo de indivíduos felizes, relatando que esses se recordam de acontecimentos positivos, com impressão de que foram em maior quantidade, e se esquecem de grande parte dos negativos. Os deprimidos, ao contrário, possuem lembranças precisas em ambos os casos. As felizes são parciais em suas convicções sobre sucesso e fracasso: se deu certo, foi por mérito delas e vai durar, se deu errado, foi por mérito de outros, vai passar logo e não teve importância. As deprimidas são imparciais na avaliação de sucesso e fracasso.

Lyubormirsky (2001 apud PASSARELI, 2007) mostrou que existe uma propensão às pessoas felizes apreciarem mais o que pertencem a elas, se desprendendo daquilo que não possuem. De acordo com Tiba (2012) é uma boa autoestima que permite viver com esse sábio e feliz equilíbrio. Giannetti (2002) argumenta que o bem-estar do ser humano é em parte objetivo, e em parte subjetivo, pois, depende de como as pessoas se sentem e avaliam as suas vidas.

Rodrigues (2007) conclui em sua tese sobre a felicidade e o controle por lócus interno (percepção que o indivíduo possui acerca da sua vida, se própria do sujeito- interna, se pertencente a elemento fora de si- externa), que o fato do indivíduo perceber-se como controlador de sua própria vida gera altos níveis de bem-estar subjetivo. Isto pode ser explicado devido ao fato de que a crença em ser o responsável pelas suas escolhas, ações e esforços gera maior satisfação de vida e mais afetos positivos. Por outro lado, a percepção de pouco controle individual, associado à crença no controle externo, ao acaso, implica em baixo grau de bem-estar subjetivo.

Para uma vida boa, Snyder e Lopez (2009) recomendam a receita da Psicologia Positiva, onde diz ser necessário usar diariamente as suas forças pessoais, produzindo assim felicidade autêntica e gratificação abundante. Eles relatam uma categorização do potencial humano em 6 virtudes e 24 forças. São elas: Sabedoria (criatividade, curiosidade, abertura a novas idéias, gosto pela aprendizagem e perspectiva), coragem (valentia, perseverança, integridade e vitalidade), humanidade (amor, bondade e inteligência social), justiça (cidadania, justiça/moralidade e liderança), temperança (perdão e misericórdia, humildade e modéstia, prudência e autocontrole) e transcendência (apreciação pela beleza e excelência, gratidão, esperança, bom-humor e espiritualidade).

Seligman (2009) relata uma das atividades realizadas com seus alunos da Universidade de Virginia- Estados Unidos, que objetivava a comparação da sensação ocasionada logo após o exercício de uma atividade prazerosa e outra de bondade. A sensação de conforto após praticar uma atividade prazerosa, como passear com amigos ou assistir a um filme, foi inferior à deixada pela ação da bondade. Em outro experimento o pesquisador comprova que a relação inversa entre felicidade e boa ação também é verdadeira, ou seja, os resultados demonstram que crianças e adultos induzidos à felicidade demonstram maior empatia e ficam mais dispostas à doação, ou caridade. Quando se é feliz, pensa-se menos em si, gosta-se mais dos outros e deseja-se compartilhar o que se tem de bom. Quando tristes, no entanto, fica-se desconfiado, apreensivo e concentra-se defensivamente nas próprias necessidades.

Há também outro aspecto muito importante para o entendimento do bem-estar subjetivo. Será que o que me faz feliz hoje me fará feliz amanhã novamente? Ou o indivíduo somente se satisfará com um nível maior de estimulação do que o anterior? O fenômeno do nível adaptativo ou acomodação descreve a tendência de julgamento de estímulos em relação aos já experimentados. Assim, por exemplo, se uma condição atual melhorar, como o prestígio social, inicialmente sente-se uma onda de prazer. Mas logo ocorrerá a adaptação e esse novo nível de vida será considerado normal, o que exigirá algo novo para se sentir outra onda de felicidade (MYERS, 2006).

De acordo com Seligman (2009) após três meses o nível de felicidade que havia sido aumentado em decorrência de um evento positivo, ou diminuído em decorrência de um evento negativo, retornará ao seu nível médio. Uma das explicações para esse fenômeno de estabilidade é a crença de que existe um componente genético operando sobre a felicidade. Ao estudar o humor das pessoas hora após hora, Watson (2000) descobriu que as emoções positivas crescem a partir das horas iniciais do dia e diminuem nas últimas horas. McCrae e Costa (1986 apud GIACOMONI, 2002) indicam que pessoas com alto nível de bem-estar subjetivo relataram o uso dos seguintes comportamentos de coping em eventos de dificuldade: ação racional, procurar ajuda, extrair força da adversidade e fé.

Após várias mensurações de características e resultados de pesquisas, busca-se saber se é possível uma pessoa se tornar mais feliz do que já é. A partir disso, Seligman (2009) afirma que em torno de 50% dos traços da personalidade podem ser atribuídos à herança genética, mas o fato de ser herdado não determina se uma característica pode ser alterada.

De acordo com Snyder e Lopez (2009) os positivistas acreditam que a satisfação com a vida está nas mãos de cada um, e que para isso basta alterar as ações cotidianas e buscar o controle de sua própria vida. Apesar de parecer tão simples, muitas pessoas são infelizes. De acordo com Lyubomirsky (2001 apud RODRIGUES, 2007), acredita-se que, essas pessoas apresentam comportamentos que conduzem ao estado emocional de insatisfação ou infelicidade.

Rangé (2001), ao discutir a teoria cognitiva, afirma que o indivíduo possui uma forte tendência a estabelecer uma grande variedade de metas e propósitos. Assim, apesar de diferirem em relação ao que lhe traz felicidade, as pessoas constroem e percorrem suas metas, o que demonstra um esforço para dar sentido às suas vidas. Diante dessa afirmação, pode-se dizer que o fato da pessoa ter ou não alcançado as metas planejadas está intimamente ligado à satisfação de vida, ou seja, a interpretação que fazemos dos fatos está altamente relacionada à sensação do bem-estar subjetivo.

Com o objetivo de explicar a felicidade humana, Seligman (2009) propõe a seguinte fórmula: H = S + C + V onde, H (hapiness) corresponde ao nível de felicidade constante, S (set range) são os limites estabelecidos a qual o indivíduo é submetido, C (circunstance) são as circunstâncias da vida e V (voluntary) representa os fatores que estão sob o controle voluntário do indivíduo. O nível constante de felicidade, H, não é considerado um simples aumento de situações prazerosas, mas é unicamente compreendido como a vida feliz. A variável S, que são os limites estabelecidos ou barreiras que impedem uma felicidade maior, se resume ao componente genético, rotina hedonista e limites estabelecidos por circunstâncias externas. C são as situações da vida e é nesta variável que existe uma distorção de entendimento. Seligman (2009) escreve que ao contrário da crença popular, muito sofrimento não impede a alegria. Fortes evidências negam a relação de reciprocidade entre as emoções positivas e negativas.

Seligman (2009) finaliza o esclarecimento da fórmula da felicidade argumentando que ainda que seja possível alterar as circunstâncias externas, não há muita diferença, já que juntas elas provavelmente correspondam a não mais de 8% a 15% da variação na felicidade. Uma alteração, sabendo que nenhuma mudança ocorre sem esforço real, nas variáveis que dependem de controle voluntário, V, tem maior chance de aumentar ou manter o nível de felicidade.

Snyder e Lopez (2009) relatam as contribuições da Psicologia Positiva nessa mudança do nível de felicidade através de ações específicas que podem ser realizadas considerando a temporalidade: o passado, o presente e o futuro. Entende-se que o presente feliz é resultado de uma boa visão do passado e uma boa expectativa para o futuro. A satisfação em relação ao passado ocorre através da reescrita e ressignificação dos acontecimentos. Para Seligman (2009) a felicidade no presente consiste em estados muito diferentes da satisfação com o passado e futuro, compreendendo os aspectos como prazeres e gratificações. Os prazeres físicos são imediatos, passageiros e são conquistados através dos sentidos. É necessária pouca ou nenhuma interpretação e podem ocorrer algumas dificuldades na aquisição, como: A habituação, o mesmo prazer repetido com frequência perde o efeito, e a apreciação, a dificuldade em prestar atenção focada e consciente. A habituação pode ser neutralizada pelo espaçamento dos prazeres e por um acordo com um amigo ou pessoa amada para fazer surpresas recíprocas. A apreciação e a atenção acontecem pelo partilhamento dos prazeres, pelas fotografias mentais, pela autocongratulação, pelo aguçamento das percepções e principalmente pela concentração.

Snyder e Lopez (2009) argumentam que o resultado de um futuro feliz dependerá do exercício da fé, da confiança, da esperança e do otimismo, onde os dois últimos aumentam a resistência à depressão, melhoram o desempenho profissional e a saúde física, através de afastamento de ideação pessimista. Suas indicações se assemelham com as Técnicas Cognitivas de verificação de evidências, questionamento socrático para combate de erros cognitivos ou distorções de pensamentos, fala interna positiva, verificação de soluções alternativas e análise das consequências.

A Teoria Cognitiva (TC), uma das abordagens de atuação e entendimento da Psicologia, entende as emoções e ações das pessoas através da análise de suas cognições, onde cognição se caracteriza pelo ato ou processo de conhecer que envolve atenção, percepção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e linguagem. Para Beck et al (1997) as respostas emocionais, comportamentais e motivacionais, são influenciadas pelas interpretações que ocorrem através do processamento das informações, não sendo influenciadas diretamente pelas situações, mas sim pelo significado atribuído a elas. O conteúdo dessa interpretação se transforma no conteúdo dos pensamentos automáticos, que fazem parte do nível pré-consciente da cognição, e que por sua vez ativa as estruturas inconscientes, denominadas como esquemas e crenças. São essas estruturas que fazem com que os indivíduos se comportem como tal, tendo suas próprias ações e reações.

Após a categorização do bem-estar subjetivo, apresenta-se uma tabela que relaciona características pessoais de indivíduos e o bem-estar subjetivo, indicando se a relação é positiva (quando possuir esta característica ou o exercício desta, proporcionar ou favorecer o bem-estar subjetivo), negativa (quando possuir esta característica ou o exercício desta, dificultar o bem-estar subjetivo) ou não identificada (quando nas pesquisas acessadas não houve identificação de relação entre os construtos).

Tabela 1- Características de indivíduos e sua correlação com o bem-estar subjetivo

Autor

Ano de Publicação

Descrição da Característica

Correlação

Myers

2006

Gênero (As mulheres tendem a ser mais deprimidas, mas também mais felizes)

Não identificada

Myers

2006

Nível educacional

Não identificada

Myers

2006

Parentalidade (ter ou não filhos)

Não identificada

Seligman

2009

Maior número de eventos de emoção positiva e menor de eventos negativos

Não identificada

Seligman

2009

Personalidade neurótica

Negativa

Seligman

2009

Idade

Negativa

Myers

2006

Se comparar com outras pessoas (Dependerá do referencial)

Negativa ou Positiva

Comin & Santos

2009

Estado civil casado

Positiva

Myers

2006

Dormir bem e se exercitar

Positiva

Diener

2002

Personalidade extrovertida

Positiva

Giacomoni

2002

Utilização de estratégias de coping, como: ação racional, procurar ajuda, extrair força da adversidade e fé.

Positiva

Lundin

1979

Sentimento de pertencimento ou aceitação à um grupo

Positiva

Myers

2006

Beleza física (Baixa relação, mas indivíduos que se percebem feios, são mais infelizes)

Positiva

Myers

2006

Possuir elevada auto-estima

Positiva

Myers

2006

Ser otimista

Positiva

Myers

2006

Utilizar as próprias habilidades no trabalho e lazer

Positiva

Myers

2006

Ter uma fé religiosa

Positiva

Passareli

2007

Possuir dinheiro (Baixa relação, mas é um diferencial para as pessoas muito pobres)

Positiva

Passareli

2007

Apreciação do que já possui

Positiva

Rangé

2001

Análise para a interpretação dos fatos

Positiva

Rangé

2001

Realização e conquista de objetivos

Positiva

Rodrigues

2007

Lócus de controle interno

Positiva

Seligman

2009

Expressão dos sentimentos

Positiva

Seligman

2009

Memorização maior de acontecimentos positivos, com impressão de que foram em maior quantidade, e esquecimento de grande parte dos negativos.

Positiva

Seligman

2009

Exercício de 6 virtudes e 24 forças. São elas: Sabedoria (criatividade, curiosidade, abertura a novas idéias, gosto pela aprendizagem e perspectiva), coragem (valentia, perseverança, integridade e vitalidade), humanidade (amor, bondade e inteligência social), justiça (cidadania, justiça/moralidade e liderança), temperança (perdão e misericórdia, humildade e modéstia, prudência e autocontrole) e transcendência (apreciação pela beleza e excelência, gratidão, esperança, bom-humor e espiritualidade).

Positiva

Seligman

2009

Exercício da empatia

Positiva

Seligman

2009

Exercício da caridade

Positiva

Giacomoni

2002

Possuir habilidades sociais

Positiva

Myers

2006

Ser pró-ativas e flexíveis

Positiva

Seligman

2009

Possuir saúde (Baixa relação, mas indivíduos felizes se precaveêm mais e resistem melhor à dor, e indivíduos sadios conseguem se satisfazer mais)

Positiva

Seligman

2009

Herança genética (50% da personalidade)

Positiva

2. Considerações Finais

A partir dos resultados encontrados na literatura verificou-se que a dimensão cognitiva pode ser o ingrediente secreto da felicidade, fazendo com que todos os demais fatores, tenham ou não relevância e um significado para a percepção de felicidade.  Para Graziano (2005) a felicidade e a qualidade de vida estão intimamente relacionadas com a capacidade de controlar a consciência. Lyubomirsky (2001 apud GRAZIANO, 2005) concorda com esta visão e afirma que ao estudar a felicidade humana, notou-se a importância dos múltiplos processos cognitivos e motivacionais que moderam o impacto que o ambiente externo pode exercer no bem-estar subjetivo. Assim como Cskszentmihalyi (1999 apud GRAZIANO, 2005) esse artigo faz menção de que, sendo a felicidade um estado mental, as pessoas são capazes de controlá-la cognitivamente.

Das 24 características positivas apresentadas na Tabela I, 23 delas possuem a influência dos múltiplos processos cognitivos, sendo elas: Sentimento de pertencimento ou aceitação à um grupo, Possuir dinheiro, Beleza física, Possuir elevada auto-estima, Ser otimista, Possuir habilidades sociais, Saúde, Ser pró-ativas e flexíveis, Ter uma fé religiosa, Expressão dos sentimentos, Utilizar as próprias habilidades no trabalho e lazer, Apreciação do que já possui, Interpretação dos fatos, Memorização maior de acontecimentos positivos, com impressão de que foram em maior quantidade, e esquecimento de grande parte dos negativos, o exercício de 6 virtudes e 24 forças, Exercício da empatia, Exercício da caridade, Realização e conquista de objetivos, Lócus de controle interno, Utilização de estratégias de coping, como: ação racional, procurar ajuda, extrair força da adversidade e fé, Estado civil casado, Personalidade extrovertida e Herança genética (50% da personalidade).

Pode-se questionar como o processamento cognitivo pode mudar a personalidade de uma pessoa. De acordo com Seligman (2009) alguns traços fortemente herdados (como orientação sexual e o peso corporal) são dificilmente mudados, enquanto outros (como o pessimismo e a timidez) podem ser bastante modificados. Lu (1999) apud Rodrigues (2007) diz que há um movimento no sentido de correlacionar a personalidade com o bem-estar subjetivo, porém cabe ressaltar que a personalidade não pode ser considerada um determinante para o bem-estar subjetivo, porque se fosse assim, os níveis de bem-estar teriam que permanecer idênticos por toda a vida.

As 2 características negativas, foram: Personalidade neurótica e idade. Nesses casos, os indivíduos felizes bloqueiam ou não possuem essa característica neurótica. Já no caso da idade, com o passar dos anos, a percepção e o processamento cognitivo já não são mais os mesmos. Sobre a ótica da Psicologia Cognitiva, Graziano (2005) cita que o bem-estar subjetivo de uma pessoa é fortemente delineado pela maneira como ela interpreta a realidade que a cerca, de forma que mais do que a própria realidade, será esta interpretação que determinará sua felicidade e, nesse sentido, a crença na internalidade exerce um papel crucial.

Uma das características positivas da tabela, dormir bem e se exercitar, não foi citada como influenciada pelo processamento cognitivo, por ser um comportamento propriamente dito.

Os indivíduos que exercem esses comportamentos positivos (Tabela I) agem de forma ativa em suas vidas, o que corrobora com Graziano (2005), onde o indivíduo que acredita controlar sua vida, também acredita na felicidade como resultado de seu esforço, dedicando-se assim, muito mais à sua conquista.

Rodrigues (2007) afirma que, na realidade a felicidade não depende diretamente do que possuímos, e das condições objetivas de vida, pois essas características podem influenciar o bem-estar subjetivo, mas não são indispensáveis para tal. Pode-se verificar esse fato no caso de um dos itens citados como Não identificada à relação, mencionando que maior número de eventos de emoção positiva e menor de eventos negativos, não traz felicidade.  O que importa, é como nos sentimos a respeito de nós mesmos e do que nos acontece. Para que a vida seja melhor, precisa-se aprimorar o modo como se percebe a vida.

O item da Tabela I que apresentou relação tanto positiva quanto negativa foi o de se comparar com outras pessoas, tendo em vista que a sensação após a comparação poderá ser agradável ou desagradável, dependendo do referencial em que foi baseada a comparação. Pode-se observar que a dimensão cognitiva possui uma função essencial no bem-estar subjetivo, sendo que as pessoas podem tanto se beneficiar, ou se prejudicar, dependendo da maneira que conduz este processamento. “Os pensamentos podem desempenhar um papel principal para as experiências emotivas, de forma que a avaliação cognitiva pode ser tanto uma ameaça potencial, como um grande benefício para a qualidade de vida do sujeito” (RODRIGUES, 2007, p. 40). Não basta uma pessoa ter um ótimo emprego se ela não acredita ter, da mesma forma que existem pessoas que não possuem nem mesmo emprego e avaliam a sua vida como muito boa.

Os fatores objetivos como os apresentados na Tabela I podem ser fundamentais para a felicidade, desde que nos façam sentir melhor. Em síntese, o que realmente influenciará a felicidade é a importância que a pessoa dará a esses fatores. O conceito de felicidade é o mesmo, o que muda de uma pessoa para outra, são as crenças quanto ao que traria felicidade para si mesmo. É possível que uma pessoa seja totalmente infeliz porque acredita que “precisa” de um namorado para ser feliz, enquanto que outras não incluem o “quesito” namorado como pré-requisito para felicidade. Tudo se resume nessa interpretação.

Este artigo possui uma limitação no que se refere à manipulação das características, por ter sido realizada uma pesquisa bibliográfica. Sugere-se que seja realizada uma pesquisa empírica, onde os resultados do estudo poderão ser analisados e relacionados ao processamento cognitivo e a Teoria Cognitiva. Ademais, este artigo atingiu o objetivo proposto através da análise e relação entre o bem-estar subjetivo e o processamento cognitivo baseado na Teoria Cognitiva. Há muito a se estudar para que seja determinada uma “receita” a seguir para uma vida feliz, mas foram apontados caminhos que podem ser percorridos. Uma estratégia pronta, que sirva para todos os indivíduos, é impossível de ser descoberta, uma vez que somos indivíduos únicos, entretanto foram apresentadas características, padrões de comportamento e mudanças cognitivas que podem auxiliar a sociedade na libertação de uma vida infeliz.

Sobre os Autores:

Daiane Domiquile Pinto - Aluna de Psicologia do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí∕SP. CRP 06/118560

Maria Angélica de Castro Comis - Professora Orientadora do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí∕SP, Mestre em Ciências.

Referências:

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM IV)- 4. ed. Porto Alegre: Artmed, [2000] 2002.   

BECK, A. T. et al. Terapia Cognitiva da Depressão.São Paulo: Editora Artmed, 1997.

COMIN-, Fabio S. e SANTOS, Manoel A. Casar e ser feliz: mapeando a mensuração da satisfação conjugal.  Revista Psico. v. 40, n. 4, pp. 430-437, out./dez. 2009. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/article/viewFile/4512/4928> Acesso em: 22 set. 2012

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