A Influência da Utilização da Repetição como Artifício Mnemônico no Processo de Ensino-Aprendizagem Musical pelo Método Suzuki

A Influência da Utilização da Repetição como Artifício Mnemônico no Processo de Ensino-Aprendizagem Musical pelo Método Suzuki
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Resumo: O presente trabalho tem um caráter bibliográfico e investiga a influência da utilização da repetição como artifício mnemônico durante o processo de ensino-aprendizagem musical pelo Método Suzuki. Considerado como um dos principais Métodos Ativos de Educação Musical do Século XX, o Método Suzuki parte da premissa de que é possível educar e desenvolver o talento ou habilidade musical através de treinamento, desmistificando a noção do inatismo desta capacidade. No seu modo de conduzir a progressão nos estudos, a repetição consta como elemento primordial. No entanto, existem críticas ao referido método. Estas sugerem que a repetição estimula a mecanização e ocasiona a ausência de espaço para a criatividade. Refletindo sobre os pontos positivos e/ou negativos desta prática para o ensino de música e para o desenvolvimento cognitivo do aprendente, esta pesquisa traz a contribuição teórica de Vygotsky (2004), Gainza (1988), Gardner (1995), Suzuki (1994), Ilari (2011), Fonterrada (2005), Sloboda (2008), Levitin (2010) entre outros. As discussões apontam para a necessidade de estabelecer uma utilização criteriosa deste recurso na mediação da aprendizagem, ressaltando aspectos como a presença da afetividade no processo de transmissão e apropriação do conhecimento e a importância do estímulo à formação da autonomia. Esta pesquisa pretende suscitar novas reflexões, que podem ir além do âmbito da psicopedagogia musical, sobre o treinamento das funções cerebrais relacionadas à cognição, buscando contribuir com o desenvolvimento consciente e efetivo das habilidades pessoais e com a divulgação e o fortalecimento de processos humanizados de educação.

Palavras-chave: Aprendizagem, Repetição, Memória, Psicopedagogia Musical, Método Suzuki.

1. Introdução

Pensar sobre os processos de ensino-aprendizagem e compreender os aspectos inerentes às suas implicações para o desenvolvimento cognitivo é uma das atribuições da psicopedagogia. A Psicopedagogia Institucional busca refletir e encontrar o lugar da chancela semântica do processo educativo onde teoria e prática estão articuladas e se realizam sincronicamente, permitindo o diálogo e favorecendo a melhoria dos aspectos observados cientificamente. Desta forma, a condução metodológica de ensinamentos ao aprendente através da mediação do professor é realizada de acordo com concepções que norteiam e especificam a sua prática pedagógica. É, portanto, interesse da psicopedagogia compreender os efeitos das ações metodológicas no processo de aprendizagem.

Na presente pesquisa temos o foco de discussão voltado para o efeito da utilização do artifício da repetição e do estímulo à memorização presentes na metodologia do violinista e educador japonês Shinichi Suzuki (1898-1998). Temos o objetivo central de refletir sobre os pontos positivos e/ou negativos desta utilização, tomando como fundamentação teórica autores como Vygotsky (2004), Gainza (1988), Gardner (1995), Suzuki (1994), Ilari (2011), Fonterrada (2005), Levitin (2010) entre outros. Ao mesmo tempo, iremos expor os princípios filosóficos e pedagógicos que regem o Método Suzuki e apresentar as principais críticas e considerações a ele destinadas. Assim, dentro do enfoque da psicopedagogia musical, esta pesquisa que tem cunho bibliográfico, justifica-se pelo seu caráter discussivo em relação ao desenvolvimento cognitivo com ênfase no treinamento da função cerebral da memória através da repetição como auxiliar da aquisição da habilidade e consequente fortalecimento da inteligência musical.

A capacidade de intervir no desenvolvimento da inteligência musical através da repetição como artifício  mnemônico  traz para a psicopedagogia musical a sugestiva e desafiadora pergunta: De que forma, a repetição influencia positivamente ou não o processo de aprendizagem musical? Vamos buscar as respostas, com a hipótese de que esta ferramenta da repetição, quando utilizada conscientemente como meio de superação e alcance de um nível de excelência e virtuosidade, pode ser um modo eficaz de apropriação do conhecimento.

Inicialmente, faremos considerações sobre o processo de ensino-aprendizagem situando os papéis dos envolvidos nesta relação de acordo com as teorias estudadas, bem como iremos expor conceitos gerais a respeito da função cognitiva da memória, com destaque para a repetição enquanto artifício mnemônico. Em seguida, faremos uma breve explanação sobre o Método Suzuki, seus princípios e especificidades. A partir daí, traremos para o debate de ideias, as considerações e críticas de diversos autores que fizeram uma análise do referido Método.

2. Repetição e Memorização no Processo de Ensino-Aprendizagem Musical

Os estudos e pesquisas que surgiram a partir do Século XX na área da  ciência cognitiva revolucionaram alguns paradigmas em relação à capacidade cerebral humana quanto à aquisição de habilidades. Neste mesmo período, no campo da educação musical, uma questão central relacionada ao assunto foi desmistificada com a contribuição de Shinichi Suzuki que, contrapondo-se ao inatismo da competência musical, propôs a possibilidade do treinamento do talento. De acordo com Suzuki (1994 p. 27):

O homem é governado pela força da vida. A alma viva, com seu desejo de sobrevivência, demonstra grande poder de adaptação ao seu ambiente. A força da vida humana, vendo e sentindo o meio ambiente, forma e desenvolve novas faculdades. Essas faculdades com novos treinos constantes vencem as dificuldades e se transformam em relevantes habilidades. Esta é a relação entre o ser humano e a habilidade. O desenvolvimento de uma habilidade não pode ser conseguido pelo simples fato de pensar e teorizar, mas tem de ser acompanhado por ações e práticas. Só na ação a potência da força vital pode se desenvolver inteiramente. A habilidade se desdobra com a prática.

A ciência então, na busca de indícios que comprovem como se desenvolve a habilidade musical, passou a procurar explicações para avaliar a influência de fatores genéticos, ambientais e educacionais que podem levar à especialização ou alta qualificação do indivíduo em relação à música. Levitin (2010, p.221), ressalta que John Sloboda foi um dos pesquisadores que iniciou um debate internacional em torno desta questão. Reconhecendo que o nível de aprendizagem varia de pessoa para pessoa, inclusive entre irmãos, Levitin (2010 p. 221) afirma:

Pode haver interferência de fatores genéticos, mas é difícil separar os fatores secundários – presumivelmente com algum componente ambiental –, tais como motivação, personalidade e dinâmica familiar. Fatores semelhantes podem influenciar o desenvolvimento musical, encobrindo as contribuições da genética para a capacitação musical.

O autor comenta que o fato de algumas pessoas adquirirem habilidades com mais rapidez do que outras podem reforçar a tese do talento para aqueles que acreditam no inatismo. Contraditoriamente a esta opinião, várias pesquisas comprovam que a prática leva à perfeição e que este resultado depende da quantidade de treinamento. Segundo Levitin (2010 p.222), “Em vários estudos, constatou-se que os melhores alunos dos conservatórios de música eram os que mais praticavam, às vezes duas vezes mais que os que não eram considerados tão bons”.

As pesquisas realizadas na Universidade Estadual da Flórida por Anders Ericsson que tratam a questão da especialização musical como um problema geral da psicologia cognitiva, chegaram a afirmar que é preciso 10 mil horas de prática para alcançar o nível de mestria associado aos especialistas de categoria internacional em qualquer campo. De acordo com Levitin (2010 p.223):

A teoria das 10 mil horas está de acordo com o que sabemos sobre a maneira como o cérebro aprende, necessitando da assimilação e da consolidação de informações no tecido neural. Quanto mais experiência tivermos com determinada área, mais forte se tornará o traço mnemônico e de aprendizado dessa experiência, embora haja diferenças entre as pessoas no que diz respeito ao tempo necessário para tal.

Como vimos, as pesquisas enfatizam que o esforço da prática musical durante um considerável período de tempo, pode levar a um nível excelente de mestria. Sloboda (2008, p.284) afirma que o treinamento musical é o meio de aquisição de habilidades específicas que tem como base a enculturação, a formação e a aquisição de hábitos. Este autor considera a noção de que “para aprender habilidades é preciso passar de um conhecimento factual (saber o quê) para um conhecimento procedimental(saber como).” (SLOBODA, 2008 p. 285).

Para Sloboda (2008) a experiência da aprendizagem envolve condições essenciais como a motivação, a repetição e a presença de um retorno (feedback). Para ele, o tempo despendido para tornar-se hábil em uma tarefa é um fator determinante. Baseado nas ideias de Fitts (1964 apud SLOBODA, 2008 p. 286), o autor coloca em evidência que os processos de aquisição de habilidades podem ser quebrados em três fases. Segundo Sloboda ( 2008 p. 286):

O estágio cognitivo (codificação inicial, o aprendiz repete as informações necessárias à execução da habilidade, presença da mediação), o estágio associativo (a habilidade passa a ser executada de maneira suave, os erros são detectados e eliminados) e o estágio autônomo (desaparece a mediação verbal, há uma melhoria gradativa e continuada na performance da habilidade).

A presença do mediador, portanto, é imprescindível para a aquisição da habilidade musical e para a construção gradativa da autonomia do aprendiz. É o que podemos refletir a partir do pensamento de Vigotski (2007 p. 19): “Através de experiências repetidas, a criança aprende, de forma não expressa (mentalmente), a planejar sua atividade. Ao mesmo tempo  ela requisita a assistência de outra pessoa, de acordo com as exigências do problema proposto”.

Desse modo, encontramos na repetição, um ponto crucial para o desenvolvimento da habilidade musical, pois é através deste recurso que o aprendente realiza a construção de artifícios mnemônicos capazes de fixar as informações e recuperá-las a contento quando necessário. Este processo de internalização, de acordo com uma a visão interacionista social vigotskiniana, ocorre através da mediação. “O aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daqueles que as cercam.” (VIGOTSKI, 2007 p. 100). Neste contexto, o autor destaca a importância da relação social para a aprendizagem, bem como do meio onde a mesma acontece. Segundo Vigotski (2007 p. 103):

Um aspecto essencial do aprendizado é o fato de ele criar a zona de desenvolvimento proximal; ou seja, o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança.

A capacidade de memorização é inerente ao ser humano e como tal pode ser desenvolvida de forma positiva ou negativa de acordo com as condições ambientais e sociais de aprendizado que interferem diretamente nas condições psicológicas. Assim, o desenvolvimento da habilidade musical que supõe o desenvolvimento da capacidade de memorização envolve tanto condições ambientais e sociais, como também psicológicas para que a aprendizagem se realize de forma tranquila, agradável e duradoura trazendo benefícios para os envolvidos.

A escolha do método ou da forma de abordagem pedagógica mais adequada para a educação seja ela musical ou não, é fundamental para o professor. Conhecer muito bem as informações e selecioná-las criteriosamente também cabe ao professor. A criação de um ambiente positivo e motivador para o ensino-aprendizagem, bem como o estabelecimento de um vínculo de afetividade com o aluno e a definição dos papéis dos envolvidos neste processo são tarefas primordiais. As mudanças que ocorrem com o crescimento da criança também devem ser consideradas pelo professor. De acordo com Vigotski (2007 p. 47):

À medida que a criança cresce, não somente mudam as atividades evocadoras da memória como também o seu papel no sistema das funções psicológicas. [...] Com uma mudança no nível de desenvolvimento, ocorre uma mudança não tanto na estrutura de uma função isolada (que poderia, no caso, ser a memória), mas, também, no caráter daquelas funções com a ajuda das quais ocorre o processo de lembrança; de fato, o que muda são as relações interfuncionais que conectam a memória a outras funções.

De acordo com Romanelli (2003, p.53), linguagem e memória se desenvolvem juntas. Enquanto a linguagem fixa a aprendizagem, a memória traz à tona o conteúdo por meio da fala. A aprendizagem leva a uma mudança no comportamento e faz com que o cérebro também modifique a sua estrutura para acomodar o conhecimento. Vigotski (2007 p. 164), apoiado na visão interacionista social enfatiza o diálogo e as diversas funções da linguagem na instrução e no desenvolvimento cognitivo mediado.

Segundo Antunes (2006, p.65), “a memória humana registra fatos com maior acuidade sempre quando associa o elemento novo que busca saber a um elemento ‘antigo’ presente na estrutura cerebral do aprendente”. Vejamos agora, a conceituação de memória de acordo com Malloy-Diniz (2008 p. 76):

A memória é uma das mais complexas funções neuropsicológicas, possibilitando ao indivíduo remeter-se a experiências impressivas, auxiliando na comparação com experiências atuais e projetando-se nas prospecções e programas futuros; assim, a memória para o processo pelo qual as experiências passadas levam à alteração de comportamento. O caráter excepcional da memória parece repousar na complexidade de seus processos.

Pensando na aprendizagem como algo complexo e que depende de várias condições, o psicopedagogo deve levar em consideração todos os fatores inerentes a este processo para que possa auxiliar os envolvidos a reconhecer e compreender o papel que desempenham nesta tarefa, contribuindo desta forma para que ocorra mais eficiência. Acreditamos ser essencial que haja uma motivação pessoal para a aprendizagem, bem como uma postura ativa em relação ao conhecimento. Este, por sua vez, deve fazer sentido e ter uma utilidade prática para o aprendente. A experiência do aprender deve ser permeada de atitudes positivas de afetividade e deve ocorrer em um ambiente saudável. Assim, o aprendente deve ser levado a tomar consciência das suas habilidades e dificuldades e a perceber que é sujeito da construção da sua aprendizagem. Desse modo, poderá agir em busca da superação dos fatores que implicam em suas dificuldades, como também poderá investir no desenvolvimento das suas habilidades.

3. “Repetir, repetir, repetir!”: assim dizia o mestre Shinichi Suzuki!

Piletti (2013, p. 57) cita a repetição como um dos fatores capazes de contribuir para melhorar o rendimento da aprendizagem. Porém, adverte para o sentido que este recurso deve ter no processo de ensino-aprendizagem. O autor comenta que as repetições, por si mesmas, não produzem aprendizagem. Destaca também que algumas pesquisas apontam para o fato de que a retenção do material aprendido ocorre de forma favorável quando as repetições são feitas de forma espaçada e em diferentes períodos de tempo, do que de forma exaustiva num mesmo período. Assim, recomenda os seguintes procedimentos a serem observados em sua utilização:

  • a) manter períodos de trabalho bastante longos para aproveitar o entusiasmo, mas não tanto que provoquem cansaço;
  • b) após cada período de estudo intenso, dar um intervalo de descanso, antes de entrar no novo assunto;
  • c) um assunto pode ser introduzido num dia, estudado com mais profundidade no dia seguinte e revisto no terceiro dia, o que pode ser mais eficiente do que começar e terminar o estudo num só dia (PILETTI, 2013 p. 65)

A repetição, como vimos, pode ser considerada como um dos recursos favoráveis à memorização e retenção dos conteúdos aprendidos. Podemos pensar em sua utilização não só na educação musical, mas em todas as áreas. Segundo Piletti (2013, p. 110) “Reter o aprendido significa incorporá-lo ao nosso sentir, pensar e agir, ao nosso dia a dia, fazer com que faça parte da nossa vida”. Entre outros fatores, além da frequência de revisões, o autor ressalta que a intenção de memorizar é uma condição indispensável para que haja a retenção de qualquer conteúdo.

Suzuki (1994, p. 87) ressalta que a memória é essencial para a aprendizagem e deve ser treinada e cultivada: “A capacidade de memorizar é das mais importantes na via e deve ser incutida profundamente”. Para ele, a criança deve ser estimulada a ver o trabalho de memorização com prazer, assim como a prática de violino pode significar uma forma de brincar com o instrumento. Por isso, cabe aos pais e ao professor criar um ambiente positivo para a realização dessas atividades. Segundo o autor, sem a prática é impossível adquirir alguma habilidade. Como afirma a seguir:

O caminho para adquirir uma habilidade é praticar de acordo com o método correto e praticar o mais possível. Se acreditarmos nesse princípio, podemos desenvolver habilidades superiores sem falha, sem fracasso. A diferença entre quem pratica cinco minutos por dia e quem pratica três horas por dia é imensa, embora ambos pratiquem cada dia. Quem não pratica o suficiente, não pode adquirir habilidades. Somente o esforço que realmente assumimos traz resultados. Não existe atalhos (SUZUKI, 1994 p. 92).

De acordo com Mora (2011, p. 454), a memória é um conjunto de processos destinados a reter, evocar e reconhecer os fatos passados. Segundo a autora, a capacidade de memorização tem relação com o interesse, com a atenção e com o adequado funcionamento do cérebro. Através dos sentidos a memória obtém os dados que serão processados pela mente. Para a autora a memorização leva em conta os seguintes fatores:

Fatores físicos:  alimentação equilibrada, descanso suficiente e boa respiração.

Fatores psíquicos: objetivos realistas; controle do pensamento e capacidade de enfrentamento e de resolução de situações problemáticas.

Fatores intelectuais: motivação e interesse (MORA, 2011 p. 454-455).

A autora citada anteriormente também lista alguns conselhos para facilitar a memorização. São eles: “associação de ideias; recodificar o material; fragmentar o material; tirar proveito do estímulo; repetição regular; adequação aos interesses pessoais; regras mnemotécnicas” (MORA, 2011 p. 455).

O Método Suzuki quando direcionado a crianças com idade a partir dos três anos aplica-se primordialmente com o recurso da imitação e da repetição. A criança aprende a tocar um instrumento praticando-o com frequência, sempre em um ambiente de estímulo e com o acompanhamento dos pais, sendo motivada também pela audição das músicas que compõem o método. Na visão de Vigotski (2007, p.101), “As crianças podem imitar uma variedade de ações que vão muito além dos limites de suas próprias capacidades. Numa atividade coletiva ou sob orientação de adultos, usando a imitação, as crianças são capazes de fazer muito mais coisas”.

Os métodos tradicionais de educação musical instrumental, diferente do Método Suzuki, tomavam a teoria musical e o solfejo como pré-requisitos para a prática. Esse caminho tornou-se um impedimento para a aquisição da habilidade musical de muitas pessoas. Ao ter dificuldades de compreender os signos musicais, pelo fato da ausência de uma associação real ao som e pela falta do prazer da prática instrumental desistiam de seus esforços, pois não encontravam sentido nos seus estudos. Quantas pessoas não devem ter acreditado que não deu certo porque não tinham talento?

Percorrendo o caminho inverso, o Método Suzuki propõe um modo diferente de conduzir o ensino-aprendizagem da linguagem musical, tomando como ponto de partida a formação do vínculo com o instrumento através da prática. Treinando a habilidade para tocar com a participação ativa do aluno, fazendo-o acreditar que é capaz e que cada pessoa tem o seu próprio tempo para aprender, Shinichi Suzuki criou novas possibilidades metodológicas.

Chega um momento em que surge para a criança a curiosidade em aprender a leitura e a escrita musical. A possibilidade de utilizar o registro simbólico como uma ferramenta de auxílio à memorização pode ser tomada pelo aprendente como um recurso facilitador da prática instrumental. Neste ponto então, o professor conduz o aluno a descobrir uma nova maneira de apropriação da linguagem musical que irá promover a continuidade do seu desenvolvimento e abrirá novas perspectivas como a prática orquestral, por exemplo.

De acordo com Piletti e Rossato (2011, p. 92):

A criança necessita aprender a dominar estes recursos como meio de memorização, descobrindo o uso funcional do signo, como forma de ampliar a sua capacidade natural de memorizar. Processo que vai substituindo os métodos mais primitivos de memorização por outros mais eficientes, tal como utilizar-se do sistema numérico para lembrar uma determinada quantidade.

Pedagogicamente, torna-se necessário ao professor avaliar continuamente os estágios de desenvolvimento cognitivo alcançados pelo aluno a fim de estabelecer estratégias capazes de potencializar os resultados positivos e minimizar cada vez mais as dificuldades inerentes aos novos conteúdos.

4. Método Suzuki: considerações e críticas

O Método Suzuki se enquadra como um dos principais métodos ativos de educação musical do Século XX. Com ênfase na prática em detrimento da teoria musical na iniciação da aprendizagem instrumental, o inverso do que era proposto pelos métodos tradicionais do ensino de música, o Método Suzuki inovou e democratizou o acesso ao estudo do violino, especialmente para crianças bem pequenas, que ainda não estavam em idade escolar. Ele queria através da música, resgatar a autoestima e promover a alegria para que as crianças superassem os horrores da 2ª Guerra Mundial no Japão.

A abordagem do Método Suzuki está baseada em uma analogia com a aprendizagem natural da língua materna, que ocorre em um ambiente de estímulo e convivência social, sempre com o reforço e a gradativa ampliação vernacular. Na música, o mesmo sistema ocorre por um processo simples de imitação e repetição permeado de afetividade e tendo como base a experiência aural e a observação atenta que prepara para a integração. Como afirma Suzuki (1994, p.46):

Devemos esbanjar esforços em nos aperfeiçoar. É um erro acreditar que nascemos com talentos que se desenvolverão sozinhos. Se temos um jeito fácil de realizar algo, isso significa que, por constante repetição, conseguimos tornar essa habilidade uma parte de nós mesmos. Tornar-se parte de nós é dizer que o nosso objetivo foi conseguido por trabalho e repetição até o ponto de se ter estabelecido firmemente em nosso consciente.

A prática instrumental é estimulada desde cedo e é mediada pelo professor e pelos pais que se inserem no método como potenciais corresponsáveis pelo sucesso na aprendizagem. Assim se forma o triângulo Suzuki: pais-aluno-professor, onde há uma parceria e uma postura ativa dos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Segundo Barber (1991),

Suzuki aconselha professores e pais a nutrir suas crianças e alunos em uma atmosfera de amor, construindo a autoestima com constante paciência, tolerância, oferecendo elogios e reforçando positivamente estes ideais. Sua proposta não é transformar alunos em profissionais de carreira, mas enriquecer suas vidas através da apreciação de boa música e torná-los seres humanos sensatos, sensíveis e pacíficos.

Ao utilizar a repetição no processo de ensino, o professor Suzuki, vamos chamar assim o profissional que trabalha com o Método Suzuki, pretende formar junto ao aluno a consciência da utilização de seus próprios processos neuropsicológicos como técnicas para alcançar determinados fins. De maneira natural, o professor estimula o aluno a repetir pequenos trechos musicais até memorizar, sempre buscando a melhor qualidade de som e expressão musical. A progressão organizada e sequenciada de pequenos e novos desafios e elementos selecionados criteriosamente a cada nova peça de um repertório musical, por exemplo, estimula a readaptação e o consequente amadurecimento que provoca a criação da necessidade de apropriação constante, condição que se torna essencial para a autoafirmação da competência musical. De acordo com Suzuki (1994 p. 87),

Não importa o que for o progresso não pode ser conseguido sem novas habilidades. Sem ação, todo o pensamento é inútil. Por isso, é essencial habituar-se a agir, a transformar ideias em ações. Habilidades de todos os tipos podem ser desenvolvidas pela repetição. [...] O mais importante, entretanto, é a meu ver, a educação do talento da memória. A capacidade de memorizar é das mais importantes na vida e deve ser incutida profundamente.

Um detalhe importante deste processo de repetição e memorização durante o ensino- aprendizagem musical pelo Método Suzuki é a forma como o professor se relaciona com o aluno e conduz a mediação. O respeito e a cordialidade antecedem a prática musical e esta é feita em um ambiente de motivação, com um diálogo positivo constante do professor em relação ao que solicitou ao aluno e ao que teve como resposta. Ressaltando-se cada progresso com um elogio, valorizando todas as tentativas, refletindo sobre o que não deu certo e por que, pensando sobre o que precisa mudar e como deve mudar, para então realizar novas tentativas e alcançar o desejado. Para Suzuki (1994, p. 15) “O início de qualquer aprendizado é vagaroso, até que o broto da capacidade se estabeleça. Na verdade, precisa-se de muito tempo, mas devagar se chega a uma grande capacidade [...] tudo se baseia na paciência e na repetição”.

Para a criança tudo funciona como um jogo com novas chances de brincar e alcançar objetivos. Dessa forma, a repetição é uma estratégia de ensino utilizada pelo professor Suzuki como recurso para ajudar a criança a desenvolver a sua capacidade de memorização, o que irá contribuir para a sua performance instrumental. Esta estratégia deve ser colocada no processo de aprendizagem com a atribuição um de sentido para tal. Algumas metas podem ser definidas em função do uso da repetição, como alcançar a memorização das notas para dirigir a atenção para a melhoria da produção de som no instrumento, ou memorizar o movimento correto do arco para conseguir executar um trecho com mais expressividade artística, entre outras. Cabe ao professor agir como mediador e articular os seus objetivos aos objetivos do aluno. Conforme Meier (2007, p. 141-142):

É importante que as situações de aprendizagem sejam relevantes e interessantes para os sujeitos. O significado cria uma nova dimensão para o ato de aprender, levando a um envolvimento ativo e emocional no desenvolvimento da tarefa. Mais do que tudo é preciso que a criança ou o adolescente aprenda a buscar significado naquilo que faz. Para isto são necessários três requisitos: despertar o interesse pela tarefa em si; discutir com o educando sobre a importância de tal tarefa; explicar a finalidade estabelecida para com as atividades propostas e com a aplicação das mesmas.

Como vimos, a motivação é essencial e neste contexto cabe mencionar que o Método Suzuki valoriza cada progresso do aluno, por mínimo que seja, utilizando o reforço do elogio, mas sempre o fazendo perceber os aspectos que podem melhorar. Meier (2007, p. 144) defende a ideia de que é preciso ter uma atitude positiva do professor em relação à mediação do sentimento de competência e da continuidade dos estudos. Como afirma:

Sentir-se capaz de realizar uma tarefa difícil é pré-requisito para que o sujeito invista esforços para obter êxito. Quando o sujeito não acredita ser capaz, quando não se sente competente, ele desiste a priori. [...] Muitas vezes, o indivíduo deixa de aprender ou evidenciar sua potencialidade justamente por não acreditar em si mesmo ou porque é subestimado (MEIER, 2007 P. 144-146).

Cabe ao mediador, portanto, organizar adequadamente as atividades a serem desenvolvidas de acordo com a capacidade de realização dos alunos possibilitando-o alcançar os objetivos e sentir-se valorizado pelo seu esforço. Shinichi Suzuki elaborou seu método de ensino pensando em vários aspectos práticos relacionados à aprendizagem, como por exemplo, a passagem de um nível de execução instrumental a outro através de exercícios de tonalização e de técnicas de dedilhado e arco e também a escolha de peças musicais com níveis progressivos de dificuldade. A cada peça do repertório é acrescentado um novo conteúdo que exigirá a compreensão dos anteriores e possibilitará a realização de futuros desafios.

De acordo com Barber (1991) o Método Suzuki é na realidade uma filosofia educacional que pode ser aplicada ao ensino de qualquer conteúdo. Esta filosofia baseia-se no preceito de que as crianças podem ser educadas através do seu ambiente. Considerando que toda criança nasce com um potencial extraordinário e que se for exposta a um ambiente musical e receber um treinamento adequado poderá aprender a tocar um instrumento musical. Assim, o talento para Suzuki não é herdado, mas sim treinado e educado.

Segundo Daniel (2008 p. 77),

Independente da herança genética da criança é o uso de seu cérebro que coloca em funcionamento o processo de conexões criando, para cada um dos estímulos, uma pequena junção funcional que se instala para o resto da vida. As conexões se efetuam durante a primeira infância, e o número delas depende diretamente da variedade e da qualidade dos estímulos que a criança recebe de seu ambiente e das pessoas que a cercam. [...] O que a criança recebe ou não recebe do seu entorno, de seu ambiente e das pessoas com as quais está envolvida, é determinante para o desenvolvimento de sua inteligência.

As mais recentes pesquisas de Howard Gardner - neuropsicólogo e educador da Escola Superior de Educação da Universidade de Harvard- em relação à sua Teoria das Inteligências Múltiplas reforçam que as habilidades podem se desenvolver ou não de acordo com os estímulos do ambiente, em diferentes níveis de pessoa para pessoa de acordo obviamente com o contexto, com as escolhas e com o treinamento das funções cerebrais relacionadas a cada área específica.  De acordo com Mora (2011, p. 33),

Na época de Mozart, em uma Europa onde floresciam as artes em geral, ricos mecenas sustentavam os artistas, reforçando a hierarquização e o desenvolvimento das habilidades que hoje conhecemos e chamamos de inteligência musical e inteligência espacial. A cultura favorece e valoriza algumas inteligências em detrimento de outras. Assim, crescem intelectos de desenvolvimento parcial, que poderiam de outra maneira, ser muito mais completos.

A referida psicopedagoga comenta que geralmente tem predominado a estimulação das inteligências linguísticas e matemática dando-se pouca importância às outras possibilidades de conhecimento. Ressalta que o lar e a escola são corresponsáveis pela educação das crianças já que interfere em sua capacidade de interagir. Assim, afirma: “Os meios são poderosos, mas o feedback do pai e do professor é o que tem mais influência no desenvolvimento”.(MORA, 2011 p. 33)

De acordo com Fonterrada (2005, p. 153):

Suzuki propõe que a música faça parte do meio da criança desde pequena, como ocorre com a língua materna, assim, ela aprenderá naturalmente; segundo ele, todo ser humano tem, potencialmente, o mesmo talento para falar e fazer música. Mas para que esse potencial se desenvolva, é preciso que a criança seja exposta a um meio favorável desde muito cedo. A música tem que ser parte importante desse meio e os agentes da musicalização do bebê serão seus pais.

Fonterrada (2007, p. 156) ressalta que o meio para Suzuki é fabricado artificialmente para que as condições essenciais para a aprendizagem sejam produzidas e possam desenvolver o talento potencial de cada criança. A autora cita os principais procedimentos elegidos por Suzuki quando fez a analogia da aprendizagem de música com a aprendizagem da língua materna. São eles:

Repetição constante; Utilização de discos e gravações para que a criança tenha um ótimo referencial musical; Contato positivo com a criança e aceitação de seus esforços e possíveis falhas; Oportunidade de tocar em público; Formação de repertório; Estímulo à habilidade de memória; Estímulo à execução “de ouvido” antes de iniciar a prática da leitura (FONTERRADA, 2007 p. 156).

Os princípios básicos da aprendizagem pelo Método Suzuki, elencados por Fonterrada (2007, p. 158) são:

Busca de tranquilidade interior, repetição, estudo sistemático, consistência, expressão mental, qualidade do ser (saúde mental e física), generosidade na transmissão do conhecimento, economia no ensinar (permitir que o aluno descubra coisas por si mesmo), pensar positivamente, não julgar (ter uma atitude aberta para crescer), imaginar mudanças.

A autora considera que a maior importância deste método é o fato de ter mostrado que as crianças podem desenvolver as habilidades necessárias à execução de obras importantes na literatura do instrumento. Mas, afirma que elas não desenvolvem outras habilidades como leitura à primeira vista e compreensão aprofundada das estruturas musicais das obras que tocam; além disso, não são preparadas para integrar orquestras (FONTERRADA, 2007 p. 155).

A autora centraliza suas críticas exatamente ao fato de que a repetição e a memorização defendidas por Suzuki. Argumenta que estas estratégias distanciam-se dos princípios dos modernos educadores que baseiam suas propostas em outros conceitos de aprendizagem, nos quais a construção do conhecimento ocorre a partir de hipóteses. A ideia de jogo no Método Suzuki, segundo a autora, também difere dos teóricos contemporâneos da educação. De modo geral, Fonterrada (2007, p. 162-163) avalia que “há uma profunda filosofia de vida por trás de um método quase ingênuo, baseado na memória e na repetição [...] mais do que um método, brilha um profundo amor pela humanidade”.

Em relação à repetição, Sloboda (2008, p. 296-297) adverte que em muitas situações naturais de aprendizagem as repetições são dadas pelo próprio ambiente. De forma espontânea, segundo o referido autor, as crianças são repetitivas em muitos aspectos e pode ser que a repetição integre uma tendência natural que é benéfica à aprendizagem.

Em seus estudos de psicopedagogia musical GAINZA (1988, p. 24) faz observações a respeito da conduta musical humana e afirma:

A conduta musical é COMPLEXA, uma vez que expressa os diferentes aspectos ou elementos que concernem tanto ao objeto (música), como ao sujeito (homem). Além disso, é HETEROGÊNEA, pois comporta um constante jogo entre atributos ou características do objeto, do sujeito e do objeto internalizado.

A autora estabelece duas formas de conduta perante a música conforme o papel exercido pelo sujeito. A conduta musical do RECEPTOR é passiva e do EMISSOR é ativa. Segundo a autora, a absorção musical ou recepção se cumpre de forma espontânea nos indivíduos. A educação musical tem como tarefa fundamental estimular e orientar esse processo utilizando vários recursos para atrair o sujeito para o objeto musical e fazendo com que focalize sua atenção e concentração na aprendizagem. Ressalta que o afeto deve ser o principal impulso motivador e comenta que se torna essencial que o educador tenha cada vez mais conhecimentos psicológicos e pedagógicos para atuar de forma conveniente ao desenvolvimento cognitivo e musical dos alunos. Desse modo, afirma: “A aprendizagem se concretiza com a aquisição - consciente ou não- de uma série de capacidades ou destrezas no campo sensorial, motor, afetivo e mental.” (GAINZA, 1988 p. 34).

Gainza (1988, p. 103) considera que Shinichi Suzuki obteve êxito no ensino coletivo de violino, que antes era considerado um instrumento menos apto para a iniciação musical. Como vemos em seu comentário a seguir:

Através de uma prática pedagógica intensiva, que desenvolve em seu país natal e que logo se difunde por numerosos países europeus e americanos, confirma a vigência de sua tese sobre a importância que tem a educação musical da criança e de seu ambiente sonoro, que centralizará na figura da mãe - segundo se  afirma - deve  participar  ativamente  com  a  criança  nas experiências e na aquisição de conhecimentos musicais (GAINZA, 1988 p. 103).

De acordo com MATEIRO e ILARI (2011, p. 187) uma das maiores contribuições de Suzuki refere-se à discussão acerca do talento musical como consequência do estudo sistemático. As autoras apontam para o fato de que este pensamento antecedeu as teorias psicológicas e educacionais da atualidade, como o conceito de inteligência musical de Gardner e a teoria da prática deliberada proposta por Ericsson e Charness (1994). Esta última sugere que o talento é resultado de horas de treino concentrado durante um período de tempo.

Em suas pesquisas, MATEIRO e ILARI (2011, p. 201) afirmam que “Suzuki incluiu algumas ideias do Zen-Budismo, mais especificamente do Soto-Zen em sua abordagem pedagógica, sobretudo no que diz respeito à repetição e á memória”. Para as autoras, de acordo com a tradição Soto-Zen, a prática reiterativa pode vir a se transformar em um hábito que reflete a dedicação intensa a algo de valor. Destacam então: “Para ser bem-sucedida, a repetição prescinde da memória, o que talvez explique as muitas considerações que Suzuki fez do seu papel na Educação do Talento”.

Gardner (1995, p. 285- 290) descreve os pontos principais do Método Suzuki e analisa algumas críticas que geralmente são a ele destinadas. Esclarece de início que o programa tem como meta o treinamento de um desempenho musical aperfeiçoado em crianças pequenas e que a presença e envolvimento da mãe é crucial para o sucesso. A seguir, comenta que o desempenho é constantemente modelado através de gravações e através de exemplos da própria mãe e do professor. Destaca que grande parte do método consiste na repetição e na prática e que estes são os pontos do método que recebem mais críticas. Segundo o autor, essas críticas argumentam que há uma “grande demanda sobre a mãe” e que “ grande parte do método focaliza na imitação servil e não crítica de determinadas interpretações de uma música”. (p.288) Mas, o autor considera que “esses déficits são talvez menores em comparação aos prazeres da interpretação hábil que o Método Suzuki proporcionou para muitos indivíduos (inclusive para as mães!)”. Assim, sugere que algumas mudanças poderiam melhorar esta abordagem pedagógica:

[...] vale considerar que alterações poderiam minimizar estas deficiências enquanto ainda preservando os pontos-chave do Método. Segundo minha análise, não há motivo algum para que as crianças não adquiram um repertório mais amplo e poucos motivos para que elas não atinjam elevados níveis de competência na esfera da notação. Os meios disponíveis para a criança poderiam certamente ser ampliados (GARDNER, 1988 p. 288).

Na visão dos autores apresentados percebemos que os aspectos da repetição e da memorização presentes na abordagem do Método Suzuki foram ora considerados como um meio positivo e eficaz para atingir a melhoria do desempenho, ora considerados como um elemento que estaria a serviço do cumprimento da tradição Soto-Zen como um fim em si mesmo, ora como um aspecto disciplinador e modelador de uma prática mecanizadora, o que seria um aspecto negativo. No entanto, todos são unânimes em relação aos benefícios pessoais e sociais do Método Suzuki para as crianças. Esta avaliação, em geral positiva, pode está relacionada aos aspectos filosóficos e psicológicos inseridos como condições essenciais desta prática pedagógica musical.

5. Considerações Finais

A abordagem de Suzuki ajudou a mostrar que a aprendizagem musical pode ser uma realidade para qualquer criança e não só para alguns indivíduos especiais. A intuição de que toda criança é capaz de desenvolver suas habilidades musicais contrariou os adeptos da tese do talento inato e humanizou o acesso à educação musical. O impressionante desenvolvimento de altas habilidades musicais em crianças a partir deste método trouxe várias contribuições que vão além da área de educação. Os aspectos técnicos de sua metodologia se tornam menos importantes em relação ao alcance final dos objetivos da mesma. Estes se referem a valores universais que devem ser observados em qualquer sociedade, como o respeito à criança, o amor e o cuidado necessário para que o seu ambiente seja capaz de promover a formação do seu caráter e lhe traga segurança e perspectivas de crescimento e realização.

Desse modo, compreendemos que para o Método Suzuki, a imitação e repetição, com a consequente memorização do repertório são aspectos que fazem parte do início da aprendizagem musical, quando os alunos estão aprendendo a aprender música. A formação do hábito da prática musical, bem como a observação de alguns princípios como respeito, honestidade, cordialidade, perseverança, dedicação e disciplina é fundamental para que o aluno se reconheça como sujeito da sua aprendizagem e saiba se relacionar com seus pares. Com a posterior aprendizagem dos aspectos formais da leitura e escrita musical, além da valorização de sua autonomia o aluno passa a conduzir seus estudos de forma cada vez mais independente, utilizando o recurso da repetição e da memorização de forma mais elaborada e com um nível ainda mais especializado criando seus próprios artifícios mnemônicos.

Concordamos com Gardner (1988), quando o mesmo acredita que o Método Suzuki pode investir em alguns pontos que apresentam um grau menor de aproveitamento como o desenvolvimento da leitura musical. Da mesma forma como faz com a prática instrumental, adequando níveis de dificuldade e encontrando formas de estimular uma aprendizagem duradoura e prazerosa o professor poderá encontrar os meios para inserir, logo que possível, a leitura e escrita musical. Assim como é possível adaptar peças do cancioneiro popular para a ampliação do repertório e diversificar a prática instrumental utilizando os mesmos princípios do método, potencializando a motivação e a participação.

Esta pesquisa no campo da psicopedagogia musical contribuiu para que a nossa formação como professora de música fosse enriquecida de novos elementos. Ao refletirmos sob esta nova óptica a respeito dos aspectos inerentes ao processo de ensino-aprendizagem, aqui especificamente pelo Método Suzuki, passamos a compreender que o papel do psicopedagogo musical é olhar além dos acontecimentos e das técnicas, procurando conhecer melhor sobre as pessoas em suas relações.

Esperamos contribuir academicamente para o despertar de novas pesquisas desta área em relação às demais funções neurológicas relacionadas à cognição, como por exemplo a atenção, que para muitos é ainda um dos maiores desafios da educação. Como diria Suzuki “Onde há vontade, há caminho”. Por isso acreditamos que a humanização dos processos de educação ainda é algo que podemos alcançar. Este é o nosso compromisso!

Sobre o Autor:

Maria Betânia Medeiros Maia Sales é psicopedagoga e educadora musical.

Referências:

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