A Teoria Cognitiva dos Transtornos de Personalidade

A Teoria Cognitiva dos Transtornos de Personalidade
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Muitos são os aspectos que envolvem os Transtornos de Personalidade e sua ocorrência. Vários são também os tipos desse transtorno e a maneira como eles influenciam e causam sofrimento às pessoas. Dessa forma, o presente texto tem como objetivo clarear, à luz da Terapia Cognitiva, alguns dos fatores que são causadores desse transtorno, independentemente das crenças relacionadas a cada um deles.

Personalidade é um termo que representa a configuração única de características e comportamentos de um indivíduo. Representa também sua maneira particular de se comportar e se relacionar com os outros. Ainda, designa aquilo que é distintivo no indivíduo e que o diferencia de todas as outras pessoas. Essas definições sugerem que a personalidade se refere àquela parte do indivíduo que é mais representativa, mais típica e característica da pessoa. Essas características típicas de cada um de nós são desenvolvidas ao longo da vida e podem mudar de acordo com as experiências.

Algumas pessoas, no entanto, desenvolvem, durante a vida, um tipo de personalidade mais rígido ou inflexível, um padrão duradouro de experiência interna que pode causar prejuízos e sofrimentos a elas e a quem está ao seu redor. Essas são pessoas que apresentam o diagnóstico de Transtorno de Personalidade.

Vinte anos atrás, os terapeutas comportamentais e cognitivos achavam que uma personalidade arruinada seria a raiz dos Transtornos de Personalidade, portanto com poucas chances de cura. O fato de a terapia cognitivo-comportamental ter sido classificada como pouco eficaz no tratamento dos TP, fez com que esses terapeutas aprofundassem os estudos sobre seu tratamento (LEAHY, 2010).

Os teóricos sugeriram então que os TP eram causados por esquemas disfuncionais. Contudo, isso se fez pouco para explicar a ocorrência desses transtornos, pois eram mais difíceis de tratar do que outros problemas. Young (1990) criou a hipótese de que os TP tem origem com os “esquemas desadaptativos precoces” (EDP), que são mais que esquemas disfuncionais comuns.

Ainda, Young et al. (2003) acredita que esses EDPs tem a ver com eventos infantis da formação de esquemas. Os esquemas, a partir do que experienciamos, observamos e aprendemos, ao longo da infância e adolescência, permitem que construamos um conjunto de crenças a respeito de nós mesmos e de nossas relações com os outros, formando um padrão cognitivo estável e duradouro que norteia nossas estratégias comportamentais.

Tais esquemas disfuncionais, como dito anteriormente, geram crenças que originam comportamentos fontes de sofrimento. Como então esses comportamentos perduram? Segundo DiGiuseppe (1986, apud Beck, Freeman, Davis e cols., 2005), uma das explicações pode ser a dificuldade em fazer mudanças, inerente a todo ser humano. Para Freeman (1987, apud Beck, Freeman, Davis e cols., 2005), outra explicação seria a facilidade que as pessoas em geral têm para se ajustar a esquemas tendenciosos, os quais diminuem a capacidade de lidar com os desafios da vida. Para pessoas com TP, esses esquemas tendenciosos são funcionais durante toda a vida.

Como as crenças se originam desde a infância, ao longo da vida podem ser reforçadas no relacionamento interpessoal. Isso, segundo Leahy e cols. (2010), resulta na autoperpetuação dos ciclos cognitivo-interpessoais, os quais são bastante resistentes a mudanças. Ou seja, com frequente repetição, a crença se estrutura.

Outro fator que promove a perpetuação desses esquemas são os “mecanismos de evitação dos esquemas” (MEEs), já que os EDPs, quando ativados, geram reações emocionais aversivas. Esses mecanismos atuam através de processos de distorção cognitiva, ou seja, comparando as informações da realidade do self com as da realidade do mundo. Constatando-se as dissonâncias, a pessoa as diminuem, exatamente através das distorções, exagerando, diminuindo ou negando informações.

A evitação dos esquemas acontece de forma afetiva, cognitiva e comportamental. Young (2003), citado por Callegaro em seu artigo, diz que a evitação afetiva ocorre quando o sujeito sente algo incômodo, porém, não consegue saber a que se refere tal sentimento. A evitação cognitiva se refere à tentativa de bloquear os pensamentos que acionam o esquema. A evitação comportamental ocorre quando o indivíduo se esquiva de situações que ativam os esquemas dolorosos. Dessa forma, para um paciente com Transtorno de Personalidade, a autoperpetuação dos esquemas é certa, já que o sujeito não se dispõe a botá-los em questão.

O paciente com Transtorno de Personalidade procura terapia levando como queixa principal outro aspecto diferente, não referente ao transtorno em si, pois normalmente apresentam problemas concorrentes. Ele acredita que suas dificuldades de relacionamento são independentes de seus comportamentos e não os percebem como causadores de problemas.  Normalmente, esses pacientes não respondem ao tratamento padrão da terapia cognitiva, pois ela solicita mudanças pouco simples de comportamentos. São mudanças na maneira como a pessoa é e como ela foi por muitos anos (LEAHY, 2010).

A modificação das cognições disfuncionais de quem apresenta diagnóstico de Transtorno de Personalidade pode ser um objetivo de difícil alcance, pois devido aos mecanismos de evitação, na terapia essas cognições podem não aparecer facilmente. Pode-se então tentar, antes da abordagem das crenças do indivíduo, fazê-lo passar a ter um comportamento interpessoal mais adaptativo. Ou mesmo, a abordagem das crenças pode ser feita simultaneamente a mudança de comportamento. Essa é uma das muitas técnicas utilizadas pela terapia cognitiva que visam facilitar o tratamento desse transtorno (LEAHY, 2010).

Concluindo, pacientes diagnosticados com Transtorno de Personalidade possuem crenças muito mais enraizadas que um paciente diferente. Dentre suas causas, incluem-se tanto a estruturação da crença desde a infância como a dificuldade de acesso à mesma por sua evitação. A importância de se fazer um diagnóstico correto do transtorno se faz pertinente, pois direciona o seu tratamento e permite uma maior eficácia do mesmo.

Referências:

BECK; FREEMAN; DAVES e Colaboradores, Terapia Cognitiva dos Transtornos e Personalidade. 2 edição, Artmed, 2005.

CALLEGARO, MARCO MONTARROYOS. A neurobiologia da terapia do esquema e o processamento inconsciente. Rev. Bras.ter. cogn. v.1 n.1 Rio de Janeiro, jun. 2005. <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1808-56872005000100002&script=sci_arttext>. Data de acesso: 23/03/2012.

LEAHY, Robert L. e Colaboradores, Terapia Cognitiva Contemporânea.  Teoria, pesquisa e prática. Artmed, Porto Alegre, 2010.

SCRIBEL, M. do C.; SANA, M.R.; BENEDETTO, A. M. di. Os esquemas na estruturação do vínculo conjugal.Rev. bras. ter. cogn. v.3 n.2 Rio de Janeiro dez. 2007 <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872007000200004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt> Data de acesso: 23/03/2012.

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