Música e o Desenvolvimento Infantil

(Tempo de leitura: 8 - 15 minutos)

Resumo: O objetivo deste artigo e discutir a contribuição do aprendizado musical na infância, se tratando de memória, percepção e do pensamento. A educação musical adequada e planejada auxilia na compreensão dos aspectos da nossa língua, de nossos costumes, de nossa história e de nossa realidade nacional, facilitando assim a formação do sentimento de cidadania, o enriquecimento de nossa cultura popular e, principalmente a importância de seu papel na sociedade. O enfoque é nas crianças que estão no ensino infantil, pré- escola e ensino fundamental. Esta área já vem sendo estudada há alguns anos e suas evidências correspondem ao período em que ocorrem mudanças muito importantes nas funções psicológicas da criança. Esta  reflexão  nos mostra que a educação musical pode contribuir para promover esse desenvolvimento por meio do ensino pedagógico musical. A perspectiva deste artigo é histórico-cultural  baseando-se em alguns dos principais autores da área, dentre eles Vigotski e Leontiev. Pautado o assunto é dado as seguintes questões:  Por que ensinar música? Como a linguagem musical como elemento cultural, pode contribuir para o desenvolvimento da memória, da percepção e do pensamento dessas crianças?

Palavras-chave: Educação musical, Memória, Percepção, Pensamento, Cultura, Psicologia Cognitiva, Cognição.

1. Introdução

A linguagem musical tem extrema importância pelo fato de promover o desenvolvimento do ser humano. É um modo de interdependência entre o corpo e a mente, entre a razão e a sensibilidade, entre a ciência e a estética, para promover a liberdade na criação e realização de sua própria ação. Portanto, educar por meio das linguagens artísticas, teatro, dança e entre elas a música, não é só um desafio, mas a aspiração de conscientização política e social.

A educação musical já esteve ausente mais ou menos trinta anos dos currículos escolares. O que não exige a formação de profissionais na área de música, licenciatura. Sendo assim, a música se torna um campo fechado. As escolas que por ventura venham a trabalhar com o ensino pedagógico musical são obrigadas a elaborar seu próprio plano de ensino. O maior desafio, contudo esta na formação de futuros profissionais e programas adequados para não fragilizar o papel essencial e humanizador que a música propicia, em meio a “nomes, números e datas”, favorecendo o conhecimento, a criatividade e a expressão musical (KAETER, 2008, p.2).

Neste sentido, um dos aspectos fundamentais no aprendizado da música é entender que ela é uma forma de representação das visões de mundo, das maneiras de interpretar a realidade por meio de sons e silêncios.

Segundo Vigotski (1991), o desenvolvimento de funções psíquicas acionadas pela educação musical, está em estreita relação com as condições histórico- culturais nas quais o sujeito está inserido.  Nessa reflexão pretende-se estabelecer relações entre os processos de aprendizagem e desenvolvimento tal como definem alguns autores, a linguagem musical como uma prática pedagógica capaz de contribuir para o desenvolvimento de funções psíquicas em crianças, aprimorando as qualidades humanas historicamente produzidas.

2. Conceito da Música e a Inteligência Humana

A educação musical exige um trabalho complexo quando envolve formação de grupos e isto é muito comum em quase todas as atividades musicais: corais, banda, teatro, rodas e brinquedos cantados.

Deve-se sempre preservar a expressividade de cada elemento envolvido no trabalho e muitas vezes se torna difícil conciliar posturas diferentes. O educador deve estar atento a todas as formas de expressão escolhidas pelas crianças valorizando – as.

Fontes superiores, conforme explica Vigotski (1991) são assim denominadas, porque se referem a mecanismos intencionais, ações conscientes controladas, processos voluntários que nos dão à possibilidade de independência em relação a circunstâncias do momento e espaço presente, tem sua origem nas relações sociais que o indivíduo estabelece com o mundo.

O processo de humanização está ligado às relações de trabalho e ao próprio trabalho ( ação com instrumentos para modificar a natureza). As ações de transformação da natureza, e consequentemente do próprio homem, promovem a constituição de novas funções psíquicas. Assim, por meio do trabalho, as funções psicológicas humanas, de elementares transformaram-se em funções capazes de diferenciar o homem dos outros animais. Leontiev (1978) “o trabalho é, portanto, desde a origem, um processo mediatizado simultaneamente pelo instrumento (em sentido pleno) e pela sociedade” (LEONTIEV, 1978, p. 74).

Dessa forma não há apenas uma relação do homem com a natureza, mas também, para a efetivação desse trabalho, uma interação com outros homens. As atividades musicais contribuem para que o educando aprenda a viver na sociedade, abrangendo aspectos comportamentais como : disciplina, respeito, gentilezas e polidez.

Esclarecendo, é pelo processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas relações entre  a história sócio-cultural e a história individual que ocorre a formação humana. Portanto, a memória, a percepção e o pensamento infantil, dentre outras funções, compõem o psiquismo humano, e diferenciam o homem dos demais animais, pela intencionalidade de suas ações. Essa perspectiva teórica leva em consideração que essas capacidades mentais tipicamente humanas são constituídas no decorrer de interações mediadas por signos ( neste caso linguagem musical), e instrumentos físicos entre o indivíduo e o meio social. O ser humano encontra-se em uma ambiência que pode favorecer ou não seu desenvolvimento.

O cérebro humano possui uma base fisiológica neuronal, um bebê ao nascer dispõe de todas as células nervosas, mas necessita de sinapse, isto é, conexões entre os neurônios para que ocorra o seu desenvolvimento psíquico, físico e vital. Para que isto ocorra, o seu cérebro precisa de um ambiente estimulante, uma vez ao inserir-se num mundo de linguagem cultural, a crianças necessita da presença do adulto para sua sobrevivência, aprendizagem e desenvolvimento.

Esses autores percebem que a criança não nasce com seu desenvolvimento predeterminado, ao contrário, a exposição à cultura e à língua específica determina a sua forma de perceber o mundo e a si mesmo. Nesse contexto como a música parte da cultura sócio histórica do homem, pode contribuir para o desenvolvimento da criança.

A música se faz presente na história da humanidade. Ao nascer a criança entra em contato com o universo sonoro que a cerca. Sua relação com a música pode ocorrer, por exemplo, por intermédio do acalanto da mãe ou aparelhos sonoros, sons da natureza e outros sons produzidos em seu cotidiano. Sendo assim a música dialoga com a constituição interna do ser humano. A criança estabelece suas primeiras relações com o mundo sociocultural por meio dos sentidos e dos laços afetivos.

Alguns estudos afirmam que o contato da criança com a música ocorrer até antes de seu nascimento, este contato pode ser sentido até mesmo dentro do útero da mãe, ao ouvir os batimentos cardíacos, este contato estimula a percepção do ritmo. Deste modo iniciamos nosso contato musical desde quando nos encontramos no útero materno e o estendemos por toda a vida, na medida em que nos apropriamos de práticas sociais e tradições culturais historicamente produzidas pela humanidade.

Justificando a linguagem musical como recurso para o desenvolvimento psíquico de crianças da educação infantil, visto que a mesma garante que desenvolvam-se determinadas funções psíquicas ao se apropriarem do conhecimento veiculado em produções culturais da humanidade, em um processo educativo do qual participam de forma integral.

3.  A Música como uma Linguagem

Alguns estudos investigaram as relações causais entre o aprendizado da música e o aprendizado da linguagem. Cutietta (1996) revisou a literatura e encontrou uma relação estreita entre o aprendizado das duas formas de comunicação humana por sons. Nos estudos revisados, os alunos musicalizados mostraram um desempenho superior ao de seus colegas não-musicalizados em tarefas de percepção e de articulação da fala. Outro estudo (THOMPSON, SSCHELLENBERG e HUSAIN, 2003) sugeriu que os músicos possuem uma habilidade superior aos não-músicos na percepção da prosódia na fala tanto em frases faladas como em frases musicais análogas. Segundo os pesquisadores, tal habilidade se estende à interpretação do conteúdo emocional, que é transmitido através da prosódia contida tanto na fala quanto na música. Além disso, Cutietta (1996a) sugere que há uma possível relação entre a aprendizagem musical e o aprendizado de línguas estrangeiras. No entanto, apesar de a música e a linguagem aparentarem ter relações muito próximas, todo cuidado é pouco no estabelecimento de relações causais entre elas já que não há garantias de que haverá, necessariamente, transferência cognitiva de uma área para a outra.

A musicalização favorece sobremodo a oralidade, uma vez que a música é primordialmente oralidade. Convivendo com as crianças é notável   que no início das atividades elas só observavam as canções e aos poucos acompanhavam o ritmo e cantavam os finais das frases, isto na pré- escola. Elas fazem registros musicais na sua memória, a princípio apenas vocaliza, canta e aos poucos vão aumentando seu repertório de palavras, desenvolvendo sua capacidade de expressão, ao imitar gestos e ações. A linguagem faz com que pensamentos e emoções de uma pessoa possam habitar a outra.

Como professora na área de musicalização infantil eu suponho que a música reorganiza todos os processos mentais da criança. A palavra passa a ser assumida como um fator excepcional que dá forma à atividade mental aperfeiçoa o reflexo da realidade e cria novas formas de memória, de imaginação, de pensamento e de ação. Desse modo, o ser humano constitui-se não só um produto do seu meio, mas agente ativo nessa ambiente. Assim o desenvolvimento da linguagem é fator essencial para seu desenvolvimento psicointelectual.

A linguagem musical guarda em si, e, portanto, permite comunicar aos outros, o conhecimento, os valores, os sentimentos e o modo de pensar dos homens de diferentes épocas distintas. Por essa razão, ela faz mediação entre o individual e o social, em um processo em que ambos se modificam.

É possível afirmar depois de ler livros e pesquisas que a música ajuda a desenvolver a capacidade de concentração imediata, de persistência e de dar resposta à constante variedade de estímulos, e assim, facilita a aprendizagem ao manter em atividade os neurônios cerebrais.

4. O Aprendizado Musical e a Leitura

O interesse pelos efeitos da música no desenvolvimento cognitivo nos últimos anos, trouxe à tona a questão dos efeitos da educação musical em uma área fundamental: a alfabetização. Embora existam poucos estudos, os resultados apresentados até o momento são bastante sólidos. Um estudo recente conduzido por Anvari e colegas (2002) sugeriu que a percepção musical tem uma relação estreita com o desenvolvimento da leitura e com a consciência fonológica (isto é, a habilidade que o ouvinte tem de segmentar a fala em unidades menores e ainda assim reconhecê-las independentemente de variações em altura, tempo, timbre e contexto). Outros estudos revisados anteriormente por Cutietta (1995) sugerem uma forte correlação entre a educação musical e o rendimento de leitura em alunos com idade variável entre 5 e 19 anos. Em conjunto, estes estudos sugerem que o aprendizado musical pode ser útil para o desenvolvimento da leitura. Porém, é importante frisar novamente que, até o presente, não foram encontradas relações causais entre os dois aprendizados. Os estudos resenhados sugerem que as crianças musicalizadas podem aprender a ler mais depressa, mas novos estudos ainda são necessários para determinarmos se há, de fato, uma transferência cognitiva generalizada, de uma área de conhecimento para a outra.

A linguagem musical estimula a memória verbal e escrita, visto que uma canção pode ser o relatório de uma leitura, e as notas ensejam o mesmo significado das palavras. Amplia seu repertório de palavras e a sua visão de mundo, não com repetições monótonas, mas com conhecimento que fazem parte de sua vida e por meio da apropriação de bens culturais produzidos socialmente. Leontiev (1978) deixa bem claro que memorizamos melhor o que tem significado importante para a nossa vida, e também aquilo que está associado aos nossos interesses e necessidades.

Este mesmo autor sugere que a atenção e a percepção são funções fundamentais, que se encontram na base do desenvolvimento das demais capacidades de modo que o raciocínio, a memória e a imaginação, não se estabelecem e não operam sem essa participação efetiva.

Há também outro fator de grande importância na educação infantil, a escuta. Escutar é perceber e entender os sons por meio do sentido da audição, ou seja, detalhar e tomar consciência do ato sonoro.

Enfim, nesse pequeno estudo, compreendemos que as crianças ao se apropriar da linguagem, fica apta a organizar sua percepção e memória, e é capaz de tirar conclusões a partir das suas próprias observações e fazer deduções e, assim, conquistar todas as potencialidades do pensamento. Ao nomear algo, ela estará analisando e passando a usar palavras para designar e resolver problemas relacionados ao seu mundo, por intermédio de experiências de todo o gênero humano.

Com base na concepção de que o desenvolvimento da linguagem oral e escrita bem como da musical é resultado do processo de educação, e, por acreditar que a música é um dos meios mais adequados para essa mediação de ensino. Neste estudo me baseei na minha experiência como professora de musicalização infantil com crianças de 0 há 10 anos submetidas ao ensino de musicalização em aulas semanais de uma hora por dia. Um dos motivos que me levaram a fazer psicologia foi a curiosidade em saber o quanto a musica contribui para o desenvolvimento psíquico não só das crianças mas também de adolescentes, jovens, adultos e idosos.

A musicalização deve ser vista como uma educação em si, e não, uma pré-educação. Devem ser valorizados seus objetivos, conteúdos e métodos próprios, de forma que as crianças possam se apropriar da herança cultural deixada pela humanidade, desenvolvendo suas funções psíquicas. Segundo Leontiev (1978) é neste período de novos aprendizados que se reorganizam e reforçam as conexões entre as células do cérebro humano. Novas conexões e sinapses são formadas à medida que novos conhecimentos são adquiridos.

Os dados obtidos nas pesquisas e na vivencia com as crianças são indicativos de que a linguagem musical é um instrumento psicológico excelente para o desenvolvimento de funções psíquicas de crianças nesse nível de ensino. É notável que além da aprendizagem de conceitos musicais, houve a ampliação do vocabulário das crianças, maior participação nas aulas trazendo as suas próprias experiências sonoras como contribuição e também a alegria com a participação de jogos e brincadeiras infantis do nosso folclore esquecidos por educadores. Apesar dos avanços científicos recentes, as investigações acerca dos efeitos da música no desenvolvimento intelectual ainda estão em fase preliminar.

A música no contexto da Educação Infantil, quando é trabalhada de forma lúdica e dinâmica, com professores comprometidos, traz experiências gratificantes para as crianças e constitui um elemento inestimável para a sua formação e desenvolvimento, permitindo-lhes a sua apropriação sem reservas, porque a música não deve ser um privilégio de alguns, mas de todo ser humano.

Se por um lado os estudos sobre os prováveis benefícios extra-musicais da música parecem fomentar argumentos promissores para a educação musical, sobretudo em um país como o nosso que luta pela inserção da música como disciplina obrigatória na educação básica, os mesmos estudos transformam a música em um meio e não em um fim em si. A música tem valor próprio e há muitas razões que justificam sua inserção na escola. Em primeiro lugar, a música constitui uma importante forma de comunicação e expressão humana e praticamente todos os povos do mundo possuem algum tipo de música. Em segundo lugar, a música carrega traços de história, cultura, e identidade social, que são transmitidos e desenvolvidos através da educação musical. Em terceiro lugar, o fazer musical da aula de música envolve diversas formas de aprendizagem contidas em atividades como audição, canto, representação, reprodução, criação, composição, improvisação, movimento, dança e execução instrumental entre outras. Todas estas atividades auxiliam no desenvolvimento da inteligência musical. Além disso, no exercício dessas formas de aprendizagem os alunos podem ter uma sensação de realização pessoal, de bem estar e de prazer.

É possível que as pesquisas futuras apresentem evidências que apontem para enormes efeitos e benefícios da educação musical no desenvolvimento cognitivo. Enquanto evidências sólidas e convincentes não são apontadas, ao meu ver, os maiores efeitos da música são aqueles contidos nas experiências que ocorrem diariamente em todas as partes do mundo, quando crianças, de diversas etnias, culturas e classes sociais cantam, dançam, criam e brincam com a música simplesmente porque é natural (e muito divertido) faze-lo. São as experiências musicais de qualidade, realizadas dentro e fora da escola, que fomentam e garantem o desenvolvimento cognitivo musical das crianças.

Referências:

BRITO, T. A. Música na educação infantil. São Paulo: Peirópolis, 2003.

ILARI, B. A música e o cérebro: algumas implicações do neurodesenvolvimento para a educação musical. Revista da ABEM, Porto Alegre, v.9, p.7-16, 2003.

LEONTIEV, A. N. O homem e a cultura. In: O desenvolvimento da cultura. Trad. Manoel Dias Duarte, Lisboa: Livros Horizonte, 1978.

LEONTIEV, A. N. Os princípios da brincadeira pré-escolar. In: VYGOTSKII, L. S.; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Trad. Maria Villalobos, São Paulo: Ícone, EDUSP, 1988.

SCHERER, C. A. Musicalização e desenvolvimento infantil: um estudo com crianças de três a cinco anos. 151f. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade estadual de Maringá. Maringá, 2010.

SCHOROEDER, S. C. N. A música nos anos iniciais da escolarização: uma proposta para a formação e atuação do professor não especialista. In: COLE, 16º, 2007, Campinas. 5º Seminário “Linguagens em educação infantil”. Anais... 16º COLE, Campinas, 2007. p. 1-10

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Trad. José Cipolla Neto. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

ANVARI, S. H., L. J. Trainor, J. Woodside, & B. A. Levy. Relations among musical skills, phonological processing, and early reading ability in preschool children. Journal of Experimental Child Psyhcology 83 (2002): 111-120. 

CUTIETTA, R. A. Does music instruction help a child learn to read? UPDATE: The applications of Research in Music Education 9 (1995): 26-31.

CUTIETTA, R. A. Language and music programs. UPDATE: The applications of Research in Music Education 9 (1996a): 26-31.

SCHELLENBERG, E.G. Music lessons enhance IQ. Psychological Science 15, no. 8 (2004): 511-514.