Noções Básicas do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)

Noções Básicas do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)
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Resumo: O Transtorno da Personalidade Borderline (TPB), provoca sofrimento psíquico, podendo levar as pessoas com este transtorno às consequências catastróficas como o suicídio. Este estudo apresenta o (TPB), que se estabelece como uma psicopatologia, em uma população de forma considerável, não podendo ser ignorado pelos agentes de saúde, educadores, psicólogos e médicos psiquiatras.

Palavras-chave: Borderline, Comportamentos, Sofrimento Mental, Tratamento Psicoterapêutico

1. Introdução

Este artigo visa oferecer informações referentes a um assunto voltado para o problema do Transtorno da Personalidade Borderline (TPB). Por ser um transtorno muito complexo, exigindo um diagnóstico clínico bem feito, muitas pessoas não sabem dar nome para as suas dores psíquicas. Pela observação clínica psicológica, o transtorno da personalidade borderline se apresenta com os seguintes sintomas: impulsividade comportamental, manipulações, dissociação cognitiva e afetiva, pensamentos suicidas, automutilação, comportamento infantilizado, sedução, sentimentos exagerados de abandono, euforia e disforia no humor.

Estudos apontam que aproximadamente 2% da população geral é atingida pelo Transtorno da Personalidade Borderline (TPB), sendo que as maiores vítimas pertencem ao sexo feminino (SADOCK E SADOCK, 2012).

Por se tratar de um assunto tão sério, este artigo oferece noções básicas para as pessoas que passam pelo problema, a buscarem ajuda psiquiátrica e psicológica. Como apontam Beck, Freeman e Davis (2005): “muitos indivíduos com TPB são inteligentes e talentosos, mas seu transtorno os impede de se desenvolverem”.

Abordaremos no decorrer do artigo que além de não permitir uma evolução saudável da personalidade, este transtorno causa dores constantes e intensas, levando cerca de 10% dos pacientes a cometer suicídio (Paris, 1994).

 2. Metodologia

O presente artigo foi desenvolvido com pesquisa bibliográfica, utilizando a plataforma SCIELO (Scientific Eletronic Library Online), e outros artigos sobre o tema transtorno de personalidade borderline.

Desse modo, o presente estudo possui caráter descritivo, resumido com informações retiradas por meio de Livros e periódicos de embasamento teórico, técnico-científico que se baseiam em saúde mental, em específico a psicopatologia do Transtorno da Personalidade Borderline (TPB).

 3. Surgimento do Termo “Borderline” 

Em meados de 1905, Kraepelin já apontava que existiam os estados ‘limítrofes’. Os pesquisadores Mack (1975), Pfeiffer (1974), Chessick (1974) e Millon (1981) são citados como autores que contribuíram com a descrição da categoria limítrofe. Para estes pesquisadores, existia uma dificuldade para diagnosticar a neurose e a psicose surgindo o termo ‘borderline’.

O termo Transtorno de Personalidade Borderline foi usado pela primeira vez em 1938, por Stern, e desde então passou por diversos conceitos ao longo dos anos, como Estados Borderline – Knight em 1953, Esquizofrenia latente ou borderline – CID-9 em 1976 e Transtorno da Personalidade Borderline – DSM-III em 1980 (DALGALARRONDO; VILELA, 1999).

Originalmente, quando nomeada em 1890 por Kahlbaum como Heboidofrenia ((DALGALARRONDO; VILELA, 1999, p. 57), designava um grupo composto por pacientes que viviam no limite da sanidade, dando então sentido ao termo limítrofe, vivendo na fronteira; dessa forma, fazendo um comparativo à borda, se deu a expressão borderline, que retrata a realidade entre a neurose e a psicose (STERN, 1938).

Por viver no limite da neurose e a psicose (STERN, 1938), o agente transtornado passa a não ter discernimento e compreensão das consequências geradas pelas atitudes que está prestes a cometer devido ao seu instante de insanidade. Dessa forma, tratamos da possibilidade do suicídio, que, por sua vez, acreditam encontrar nessa atitude um alívio das dores emocionais.

Na contemporaneidade, na abordagem do assunto por Fiorelli e Mangini (2017, p. 5), temos que:

O cérebro é o palco das funções mentais superiores; o que a mente comanda não ultrapassa os limites de funcionamento das estruturas cerebrais e as possibilidades dessas funções, por meio do processamento do que ali se encontra armazenado. As funções mentais superiores [...] constituem uma espécie de programação por meio da qual os indivíduos desenvolvem imagens mentais de si mesmos e do mundo que os rodeia, interpretam os estímulos que recebem, elaboram a realidade psíquica e emitem comportamentos.

Percebe-se que o estado emocional não poderá ser explicado por uma visão simplista no Transtorno da Personalidade Borderline (TPB). A complexidade se estende para além do funcionamento fisiológico da mente. As constelações afetivas, cognitivas e comportamentais necessitam serem entendidas para se pensar os caminhos e descondicionar a impulsividade destrutiva do repertório comportamental de quem sofre desse mal, que provoca prejuízos imensos. A mente tem o funcionamento integralizado com o corpo e a emoção. Essa necessidade de compreensão oferece meios para ajudar quem vivencia o problema.

 4. O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e sua Classificação.

Citando, Beck, Freeman, Davis (2005):

O Transtorno da Personalidade Borderline (TPB) pode ser caracterizado pela notável instabilidade em muitos, se não em todos, aspectos do funcionamento da pessoa, incluindo relacionamentos, auto imagem, afeto e comportamento.

Seguindo tal afirmação, trata-se de um transtorno caracterizado por fatos marcantes, dentre os quais se pode citar e compreender tão grande instabilidade, como a discrepância entre a lucidez e a insanidade, alteração constante de humor, raiva intensa e descontrolada e a extrema dificuldade de controle das emoções (DSM-IV, 1994).

Tais características possuem imensa influência sobre o comportamento do possuidor do transtorno, pois como trata Damásio (2000, p. 196), “o cérebro é a audiência cativa do corpo”, estimulando assim reflexões e trazendo significado para compreensão de mecanismos que comandam o comportamento.

Na interação social, o possuidor de TPB, segundo a CID-10, “frequentemente se envolve em relações intensas e instáveis, que comumente terminam em crises sentimentais intensas”. Tais crises podem acarretar em um comportamento agressivo, onde se presencia além de ameaças constantes, atos de autoagressão, como se cortar.

As relações intensas são geradas por extrema idealização da pessoa que, logo após (com grande chance) sofrerá imensa desvalorização. A idealização se dá por uma forte atração, por um ardente sentimento, algo intenso e, após a desvalorização, por sentimentos de repulsa, ódio, aversão e antipatia, mesmo que seu (sua) companheiro (a) não tenha alterações em seu modo comum de convivência.

Como salienta Lígia Carneiro (s/p., 2004): 

Identificar uma pessoa com personalidade borderline não é difícil, pois os sintomas incomodam todos os que se relacionam com ela, especialmente familiares. O quadro engloba algumas manifestações típicas de vários transtornos psiquiátricos como esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar, mas em geral os pacientes não saíram totalmente do estado considerado normal para serem enquadrados em tais classificações.

Podemos ver, com base em tal afirmação, que a "síndrome" borderline se descreve como sendo um transtorno que engloba várias outras síndromes. 

Tratando-se da impulsividade, temos que esta pode ser manifesta por duas distintas maneiras, sendo: transtornados autodestrutivos, caracterizados por atitudes cometidas contra si, sendo que pessoas como essas que tendem ao comportamento suicida e/ou automutilação; e pacientes que manifestam formas mais gerais de impulsividade, caracterizadas basicamente pela explosão oral, pela busca constante de adrenalina (direção imprudente), abuso de drogas, descontrole alimentar e até participação em orgias (CARNEIRO, s/p., 2004).

O DSM-5, oficialmente publicado em 18 de maio de 2013, é a mais nova edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana. O manual apresenta informações aos estudantes universitários com TPB para a tomada de consciência e procurar ajuda especializada. O aluno com TPB apresenta um padrão instável nas relações humanas, autoimagem e afetos. Isto acontece geralmente na idade adulta e preenchendo cinco ou mais dos critérios citados abaixo:

Critérios Diagnósticos do Transtorno de Personalidade Borderline, segundo o DSM-V-TR (APA, 2013):

  1. Esforços para evitar um abandono real ou imaginário – são pessoas intolerantes à solidão;
  2. Padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, em que a pessoa alterna entre extremos de idealização e desvalorização;
  3. Perturbação da identidade – instabilidade constante da autoimagem ou do sentimento do “eu”;
  4. Impulsividade em duas ou mais áreas, prejudicando significativamente a sua vida (sexo, abuso de substâncias, comer compulsivo etc);
  5. Comportamentos, gestos ou ameaças de suicídio ou de comportamentos automutilantes;
  6. Instabilidade afetiva – oscilação frequente de humor;
  7. Sentimentos crônicos de vazio;
  8. Raiva intensa ou dificuldade em controlar a raiva;
  9. Episódio de ideações paranóides relacionados ao stress à sintomas dissociativos intensos.

5. Tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline

A psicoterapia é o principal tratamento para pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline, alguns procedimentos psicoterápicos são essenciais para a intervenção das crises de ansiedade e desespero.

Existem várias abordagens psicoterapêuticas, e a vertente cognitivo-comportamental é bem eficaz, segundo provas clínicas científicas. A mesma possibilitará um trabalho com o cliente focalizado em pensamentos, sentimentos e comportamentos. Na psicoterapia cognitivo-comportamental, trabalha-se as crenças mal adaptadas, a mudança afetiva e a avaliação dos esquemas negativos por aqueles mais saudáveis, contribuindo com a reestruturação mental/emocional do paciente. Este procedimento psicoterapêutico ajudará o paciente a se engajar em pensamentos assertivos e resilientes, estimulando-o a desenvolver mecanismos de defesa saudáveis na esfera intrapessoal e interpessoal.

A Terapia Cognitivo-Comportamental de Beck, também conhecida como Terapia Cognitiva (TC), ressalta os aspectos relacionados ao monitoramento e mudanças das funções cognitivas e a sua relação com os comportamentos de determinada pessoa. A cognição se apresenta como uma base para a compreensão dessa teoria e prática. Na reflexão de Beck, para entender de forma contundente a terapia cognitivo-comportamental, é necessário levar em consideração a estrutura organizacional do pensamento humano e a definição de cada esfera dessa estrutura. Os pensamentos automáticos se mostram como os mais superficiais e manifestos fluxos da cognição, por serem rápidos e superficiais. São facilmente aceitos como verdadeiros e estão presentes a todo o momento, influenciando inclusive na apresentação das emoções da pessoa. Se a pessoa em questão não estiver sendo orientada para que os monitore, esses pensamentos são capazes de passar de forma despercebida. No contexto da terapia, os pensamentos automáticos alertam o terapeuta para investigar em busca das crenças intermediárias e centrais (BECK, 1997).

A psicoterapia possui o papel em auxiliar o paciente com Transtorno da Personalidade Borderline (TPB) a se encontrar dentro de uma perspectiva psicodinâmica e enfrentar os seus conflitos emocionais e comportamentais de uma maneira mais equilibrada, diante de um transtorno que provoca grandes instabilidades, comorbidades e recaídas constantes.

Os desafios vivenciados pelo paciente com TPB são enormes, os sintomas são os mais variados, levando a pessoa a se comportar de forma extrema na emoção. As ameaças de suicídio podem ser constantes, deixando toda a família em estado de alerta para uma intervenção a qualquer momento.

6. Conclusão

O presente artigo abordou as noções básicas sobre o Transtorno da Personalidade Borderline (TPB), que acomete grande parte da população mundial, trazendo prejuízos pessoais, profissionais e acadêmicos, não somente para os mesmos, como também aos ciclos sociais e familiares dos pacientes.

Tal transtorno causa grandes dores emocionais, os acometidos vivem sempre no limite de suas insanidades, com idealizações e desvalorizações de modo surreal, anormal e incomum. O TPB não permite o desenvolvimento pleno das habilidades cognitivas, afetivas e comportamentais. E, sem possuir total discernimento das atitudes, quem sofre pode cometer atos agressivos contra si, ou contra aqueles que estão próximos.

Embora perceba-se que existem estudos consideráveis sobre o Transtorno da Personalidade Borderline (TPB), faz-se necessário compreender melhor sobre o assunto. Com as informações devidas, os pacientes seus familiares e a equipe de saúde mental poderão contribuir de forma eficaz no tratamento.

Sobre o Autor:

Adriano Nicolau da Silva - Graduado em Psicologia, Licenciado em Psicologia, Licenciado em Filosofia. Professor Universitário, desde 1994. Especialista em: Ciências e valores Humanos (Psicologia), Pedagogia, Administração em Saúde, Neuropsicopedagogia e atualmente cursa gestão de Pessoas e Coaching.

Referências:

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