O Processo do Constructo da Estrutura Psicológica e dos Mecanismos de Enfrentamento do Indivíduo que é Acometido pela Amputação de um Membro e Conquista a Superação

O Processo do Constructo da Estrutura Psicológica e dos Mecanismos de Enfrentamento do Indivíduo que é Acometido pela Amputação de um Membro e Conquista a Superação
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Resumo: Este artigo visa elucidar mediante uma revisão referencial bibliográfica de trabalhos com temas afins, como ocorre a construção psicológica do indivíduo que supera a amputação de um membro de seu corpo, enfatizando, contudo, a estrutura psicológica familiar e os mecanismos intrínsecos a este processo que possibilitam o enfrentamento e a posterior superação, elevando o indivíduo a viver saudável psicossocialmente.

Palavras-chave: Amputação, Estrutura Psicológica Familiar, Aceitação, Enfrentamento, Superação.

1. Introdução

A amputação de um membro caracteriza-se por ser um procedimento médico-clínico que causa consequências variadas à estabilidade emocional e comportamental ao indivíduo que passa por esse procedimento tão doloroso no que concerne à vivência posterior à amputação.

A reflexão que se apresenta ao longo deste trabalho é fruto de pesquisas feitas sobre a superação de pessoas que têm algum membro amputado. Superação essa que sofreu ou ainda sofre influências decorrentes da convivência com a família, amigos e as demais pessoas da sociedade. Essa convivência é o fator principal na superação do indivíduo, pois dela advém a adaptação e os demais fatores que fazem parte da mesma, como a cultura, os valores e a maneira de agir de acordo com suas necessidades.

Sabendo que, o indivíduo que passa por essa etapa pode enfrentar a mesma de modo construtivo ou não, quando, em sua estrutura familiar, visualiza a possibilidade de superação, a possibilidade de reconhecer-se como um ser humano que passou por uma amputação, onde, a partir de agora, tem a oportunidade de redescobrir-se como um indivíduo capaz de transpor esse desafio de sua vida através do apoio psicológico e social necessário a sua aceitação e à valorização do seu potencial renovador.

Desta forma, este artigo visa explanar mediante uma revisão bibliográfica, a forma pela qual a estrutura psicológica e os mecanismos de enfrentamento que promovem a superação do indivíduo-amputado são construídos, tendo, como base, o contexto familiar do mesmo, pois sabemos que, a família constitui-se como o primeiro núcleo de inserção social de todo ser humano.

2. A Estrutura Familiar como Base de Apoio e Segurança ao Ser Humano

Diante das marcas de uma cultura globalizada inscrita no campo simbólico e na construção dos saberes sociais, identificamos a família enquanto um grupo que constitui um campo de relações entre pessoas que compartilham significados de suas experiências existenciais. Este grupo atravessa os tempos passando por inúmeras transformações [01] e críticas, sem afastar-se, ao menos em tese, da responsabilidade e das exigências dos papéis socialmente atribuídos a ela de procriar e criar filhos saudáveis e preparados para assumir o mercado profissional e a vida em coletividade.

Cada pessoa desenvolve-se dentro de uma determinada sociedade que, por intermédio de seus padrões específicos de educação das crianças e suas instituições sociais, exerce forte influência sobre a maneira como essa pessoa resolve os seus conflitos. O ego está relacionado não apenas com as questões biológicas, mas também com assuntos interpessoais, que Erikson denominou psicossociais. Para Erikson a personalidade se desenvolve de acordo com passos predeterminados que tornam o organismo humano apto para se dirigir a um espectro cada vez mais amplo de indivíduos e instituições significativos, percebê-los e interagir com eles (ERICKSON apud CLONINGER, 2003, p.93).

Erikson apud Friedman et. al., 2004, baseou sua compreensão do desenvolvimento no princípio epigenético, ou seja, tudo o que cresce tem um plano básico, e é a partir deste que se erguem as partes, tendo cada uma delas o seu próprio tempo de ascensão até que todas tenham surgido para formar um todo em funcionamento. Esse princípio aplica-se tanto ao desenvolvimento físico dos fetos antes do nascimento quanto ao desenvolvimento psicológico das pessoas ao longo da vida.

Para que um ego global e sadio se desenvolva, várias partes têm de se desenvolver de maneira peculiar a cada indivíduo, pois essas partes constituem as forças do ego identificadas por Erickson e desenvolvem-se em oito fases. Em cada fase há uma ênfase particular em um dos aspectos do desenvolvimento do ego, como a confiança durante a infância, autonomia durante a segunda infância e assim por diante. Quando há um equilíbrio nessas fases, a criança tem um desenvolvimento sadio, chegando à fase adulta como um indivíduo autêntico, seguro e apto em sua vida tanto social, como psicossocial.

Conforme Erickson (2003), o desenvolvimento psicossocial é dividido em oito fases:

(...) Primeira fase: confiança versus desconfiança, na qual a confiança é o sentimento de poder depender dos outros e de que eles atenderão ás suas necessidades. Na desconfiança não encontra respostas para as suas necessidades no mundo (...). Segunda fase: autonomia versus vergonha e duvida. Na autonomia controle do seu corpo e das relações interpessoais. Mas para isso é preciso que haja apoio dos adultos para o desenvolvimento dessa autonomia, se não tiver esse suporte desenvolve-se um senso de vergonha e dúvida (...). Terceira fase: iniciativa versus culpa. Nessa fase a criança pode escolher que tipo de pessoa quer ser, parcialmente baseado nas identificações com os pais. Se não houver uma boa resolução nessa fase a criança desenvolve a culpa. (...). Quarta fase: produtividade versus inferioridade. Nessa fase a criança aprende a obter reconhecimento produzindo coisas, e quando há um bom êxito obtém-se satisfação e desenvolve a perseverança. Inferioridade é o lado negativo (...). Quinta fase: identidade versus confusão de identidade. Nesse período de transição entre a infância e os papéis adultos o adolescente luta para adquirir um senso de identidade. As identificações anteriores com os pais e outros modelos de papéis têm sua importância, mas o adolescente tem de desenvolver uma identidade pessoal que vá além dessas identificações. A confusão de identidade ocorre quando não se consegue alcançar uma identidade coerente (...). Sexta fase: intimidade versus isolamento. A intimidade envolve a capacidade de fusão psicológica com outra pessoa, seja amigo ou amante, com a certeza de que a identidade individual não será destruída nessa união, daí a importância da identidade individual se encontrar estabelecida, pois o não estabelecimento de identidade leva o indivíduo ao isolamento (...). Sétima fase: generatividade versus estagnação. Interesse em estabelecer e orientar a próxima geração. A impossibilidade do pleno desenvolvimento nessa fase deixa a pessoa com um senso de estagnação (...). Oitava fase: integridade versus desesperança. Capacidade de olhar retrospectivamente para a própria vida e admitir que ela tem sentido do jeito como foi vivida, sem desejar que as coisas tivessem sido diferentes. A ausência disso provoca a desesperança. (...) (ERICKSON, 2003, p.153-157).

É na relação familiar onde tudo se inicia tendo, como princípios básicos os valores, educação, costumes e principalmente uma boa estrutura familiar. A sociedade não é uma mera reunião de indivíduos, mas é resultado de relações entre pessoas, homem e mulher, pais e filhos, entre irmãos, que têm como base a vida familiar e os vínculos de afeto que dela derivam. “O núcleo familiar engloba, em seu cerne, uma vasta gama de condutas e sentimentos que são determinantes para explicar os seus funcionamentos e o funcionamento de seus membros” (BATISTA; FRANÇA, 2007, p. 117).

Cada família integra à sociedade através de seus filhos, a riqueza humana que viveu. Com razão se pode afirmar que da saúde e da qualidade das relações familiares depende, a saúde e a qualidade, das próprias relações sociais. Um ambiente familiar sereno e construtivo é a primeira escola de trabalho e o espaço mais indicado para que a pessoa descubra seus potenciais, aumente seus desejos de superação e desenvolva suas aspirações mais nobres.

A vida familiar ensina a superar o egoísmo, a cultivar a solidariedade, o sacrifício pela felicidade dos outros, a valorizar o bom e o justo, para que os indivíduos se empenhem com convicção e generosidade para o bem-estar comum e para o bem recíproco, criando responsabilidade por si mesmo, pelos outros e pelo meio em que vive.

A família [02] é a base para qualquer ser, no sentido mais amplo, é um conjunto de pessoas que se unem pelo desejo de estarem juntas, de construírem algo e de se completarem. É através dessas relações que as pessoas podem se tornar mais humana, aprendendo a viver o jogo da afetividade de maneira mais adequada.

É necessário salientar que é nos momentos mais difíceis que o indivíduo percebe o verdadeiro sentido de se ter uma família para apoiar, valorizar e estar sempre ao lado, e, é ainda nesses momentos que o indivíduo que sofre algum tipo de amputação necessita mais da família para superar seus medos e limitações.

A amputação não deve ser considerada como o fim, e sim como o início de uma nova fase, que tem como principal objetivo manter e/ou devolver a dignidade e funcionalidade do indivíduo. E, embora alguns indivíduos possam ver a amputação como uma catástrofe pessoal, outros vêem nesta experiência uma luz mais positiva como a oportunidade para crescimento o psicológico.

O apoio social, e principalmente da família, é de suma importância para o indivíduo que sofreu algum tipo de amputação, pois o torna mais significativo, pois, fazendo assim, com que o mesmo sinta-se mais amado e estimado, com a sensação de controle sobre sua própria vida. É um processo recíproco que gera efeitos positivos tanto para o sujeito que recebe como também para quem oferece, permitindo que ambos tenham variedade de medidas dependentes como saúde, adaptação psicológica, percepção de bem-estar, redução do mal-estar, longevidade e mortalidade, satisfação com a vida, entre outros. Assim Batista; França, 2007, corroboram que:

A família saudável apresenta espaços de apoio, compreensão e aceitação. Sua organização oferece um ambiente que garante a individualidade e a busca da auto-realização de seus membros. Ela serve como um campo de treinamento seguro onde se realizarão experiências que serão significativamente importantes a todos os seus integrantes (BATISTA; FRANÇA, 2007, p. 118).

É importante compreender que, em qualquer momento do ciclo vital e em qualquer sociedade, qualidade de vida é um fenômeno de várias faces e, assim, é melhor descrito por intermédio de um constructo multidimensional, que considera valores individuais, familiares e sociais a respeito do que é normal e do que é tido como desejável ou ideal quanto ao bem estar objetivo e subjetivo. E é justamente aí que a família entra com seus valores tanto morais como sociais, ajudando, contudo, o indivíduo a lidar com suas perdas e superar as várias limitações.

Acerca da qualidade de vida Diogo, 2003, explana que:

A satisfação e a felicidade definem com maior precisão a experiência de vida em relação ás vária condições de vida do indivíduo. São os indicadores mais frequentemente utilizados nas avaliações de qualidade de vida percebida. (...). Assim, reflete, em parte, o bem-estar subjetivo individual, ou seja, o modo e os motivos que levam as pessoas a viverem suas experiências de vida de maneira positiva (DIOGO, 2003).

3. Aspectos Psicológicos de Pessoas que Sofrem a Amputação de um Membro

A sintomatologia psicológica das pessoas que passam pelo trauma da amputação é muito variada no que refere-se à visão que a mesma irá apresentar em decorrência de suas experiências anteriores ao evento. Alguns sintomas como a tristeza e o pesar, são respostas já esperadas após a perda do membro, porém a depressão clínica possui maiores implicações, visto que precisaria ser rapidamente percebida e tratada, por representar um risco muito grande para o aumento de morbidade e mortalidade nesses pacientes (FITZPATRICK apud GABARRA et.al. 2009).

Horgan e Maclachlan, 2004, realizaram uma revisão da literatura sobre a adaptação psicossocial em amputados, em que sugerem que os estudos sobre depressão em pessoas amputadas possuem resultados variados, dificultando assim achados conclusivos. Segundo as autoras, as pesquisas utilizam metodologias diferentes, com uma diversidade de instrumentos para mensurar depressão, dificultando a comparação entre elas. Assim sendo, as autoras fizeram um agrupamento de estudos baseados no tempo da amputação: até dois anos, de dois a 10 anos, entre 10-20 anos, entre 20-30 anos (HORGAN; MACLACHLAN apud GABARRA et. al., 2009).

De acordo com o estudo acima citado, pôde-se inferir que nem todas as pessoas que passam por experiência traumática se tornam psicologicamente traumatizadas. Algumas não resistem à vitimização, ao isolamento; já outras procuram ser ajudadas por amigos ou até mesmo procuram ajuda na literatura. Há pessoas que desenvolvem alguns transtornos de ansiedade, depressão e outras patologias.

Os traumas psicológicos podem afetar com grande impacto a qualidade de vida do indivíduo. Sabe-se que os fatores genéticos influenciam de modo significativo na vida das pessoas que passam por traumas. Portanto, o meio sociocultural e o tipo de personalidade podem contribuir de modo importante no que concerne aos impactos da amputação na vida do indivíduo. Um aspecto fundamental neste caso são os eventos de vida que esse indivíduo pode experienciar concomitante a sua real situação, tais como: a possível dificuldade financeira, a morte de um familiar, a perda de um membro. Ou seja, há vários fatores que contribuem para uma forma mais traumática ou não de enfrentar essa nova condição de vida.

(...) encarar a mudança que não escolhemos traz sofrimento, expectativa, ansiedade, medo, raiva. Essas emoções básicas, imprescindíveis para a sobrevivência dos seres humanos, são essencialmente fontes de energia e propiciam a percepção de ameaças à integridade, e são fundamentais para a reação defensiva e posterior ação construtiva. Em si mesmas, não são emoções boas nem más, desde que estejam a serviço do equilíbrio dinâmico exigido para a manutenção da vida. Se a pessoa souber ou vier a aprender como utilizá-las certamente terá ganhos imensuráveis nas diversas crises que fazem parte do viver (CHAGAS, 2010, p.194).

A maioria dos indivíduos já passou ou passará por alguma situação dolorosa que lhes causou um forte impacto psicológico, assim como perdas, doenças e acidentes. Há pessoas que, em geral, se recuperam de uma experiência negativa sem expressar nenhum tipo de psicopatologia.

Sendo assim, pode-se inferir que o processamento das experiências pessoais é particular diferindo-se uma das outras, e, por isso, os eventos simples e importantes são percebidos, codificados e processados de maneira única. O indivíduo que enfrentou alguma tragédia na sua vida atribui que essa tragédia veio como um resultado positivo a ele. Assim como o desenvolvimento e a superação pessoal. A visão expressa aqui é que a depressão tem valor, no entanto, também é claro que as pessoas deprimidas sofrem, e podem machucar a si mesmas e até suicidam-se, e que algumas delas são vítimas de acidentes psiquiátricos por conta de algum trauma (PERES, 2011).

Para Winnicott, o trabalho construtivo é uma das melhores coisas para se sair da depressão, pois a depressão é vinculada ao sentimento de culpa (a capacidade para sentir culpa é um sinal de desenvolvimento saudável) e, ao processo de luto. O luto também tende a terminar seu trabalho. A tendência que traz embutida para a recuperação vincula a depressão igualmente ao processo maturacional da infância de cada indivíduo, é um processo que, em ambientes facilitadores, conduz à maturidade pessoal, o que significa saúde. Por isso, o indivíduo que foi criado em um ambiente social e harmônico, onde há a vivência de relações emocionais e interpessoais, tende a superar qualquer trauma com mais facilidade (WINNICOTT, 1999).

A fonte desse progresso é o processo maturacional inato no indivíduo, que pode ser facilitado pelo ambiente. O ambiente facilitador é necessário, e, se não for bom o suficiente, o processo maturacional se enfraquece ou se interrompe. A dificuldade é cada indivíduo assumir plena responsabilidade pela destrutividade, que é pessoal e inerente a uma relação com um objeto sentido como bom – em outras palavras está relacionado ao amor. E, sendo assim, a palavra que surge aqui é “integração”, pois, se concebe uma pessoa totalmente integrada, então essa pessoa assume plena responsabilidade por todos os sentimentos e ideias que pertencem ao “estar vivo” (WINNICOTT, 1999).

A autoimagem pode ser definida como a visão que temos de nós mesmos, o nosso “retrato mental” baseado em experiências passadas, vivências e estímulos presentes e expectativas futuras. Inclui a forma o tamanho, as proporções do nosso corpo, nossos sentimentos em relação a ele e suas partes segundo nossa avaliação.

Com a amputação o indivíduo tem uma percepção da sua autoimagem corporal distorcida e negativa da sua aparência e física. Portanto, Adler afirma que pessoas com fraquezas orgânicas graves tentarão com freqüência, compensá-las, e um órgão antes fraco pode tornar-se fortemente desenvolvido por meio de treino e exercícios, e, com isso, o indivíduo adquire maior habilidade e até mesmo força.

Assim, é possível compreender que, em quase todas as pessoas ilustres encontramos algumas imperfeições orgânicas, e ficamos com a impressão de que elas foram dolorosamente testadas no início da vida, mas lutaram e superaram suas dificuldades (ADLER apud FADIMAN; JAMES, 1986).

Adler, discípulo de Freud, criou o termo “complexo de inferioridade”, afirmando que todas as crianças são profundamente afetadas por um sentimento de inferioridade, que é uma consequência inevitável do tamanho da criança e de sua falta de poder. Um forte sentimento de inferioridade, ou um complexo de inferioridade, impedirá o crescimento e o desenvolvimento positivo.

A imagem que a criança tem de si pode não ser exata. Quanto mais real for essa imagem, maior facilidade terá de se comportar diante da vida. Quanto mais a criança gostar da sua autoimagem maior será sua autoestima (TOMMASO, 2012).

Adler falava em sentimentos de inferioridade originados na infância, onde a criança sente-se pequena e fraca em contato com o adulto, grande e forte, assim precisando ser cuidada, e colocada no colo, onde a mesma receberá mensagens da sua dependência e fragilidade. Então, se o indivíduo quando criança vive em um ambiente repleto de carinho, atenção e amor, terá maior facilidade para lidar com qualquer obstáculo que venha a enfrentar, e com esses ingredientes, ele será motivado para a vida toda e, por conseguinte, não se sentirá inferior diante de qualquer circunstância.

Sentimentos de inferioridade mais moderados podem motivar o indivíduo para realizações construtivas. Desde a mais tenra idade a criança passa a perceber que existem outros seres humanos capazes de satisfazer completamente suas necessidades mais urgentes, e elas estão melhor preparadas para viverem o despertar em sua alma do desejo de crescer, de ficarem tão forte quanto os outros, ou mesmo mais forte ainda (ADLER apud FADIMAN; JAMES et. al.,1986).

A perda de um membro é uma situação que provoca uma grande tensão emocional, com um grande impacto na vida das pessoas, originando assim, uma série de respostas psicológicas complexas, podendo ou não, conduzir a um ajuste adequado a essa perda. Dentre as diversas respostas psicológicas que o indivíduo pode vir a apresentar, destacam-se as seguintes:

A negação diz respeito a comportamentos não adaptativos como isolamento social, tendência ao suicídio, consumo de substâncias, assim como álcool, drogas e a impulsividade. Na visão de Marques, esses comportamentos são considerados como um processo normal, que podem variar de indivíduo para indivíduo e podem não seguir a mesma ordem. No caso de uma amputação pós-traumática o que vai predominar é o choque. No entanto, em outros indivíduos, que estão na mesma situação, essa fase poderá não existir (MARQUES, 1991).

O torpor é o período em que ocorre o choque e a negação emocional da perda; esse comportamento pode misturar-se ou ser vivido sequencialmente no tempo. A negação emocional da perda é a fase em que, o indivíduo sente ainda em seu corpo a constante presença do membro que foi amputado, mesmo havendo o conhecimento, a consciência de que o membro já não constitui a sua estrutura corporal (MARQUES, 1991).

A autoaceitação é quando o indivíduo aceita as transformações e as limitações que a vida lhe oferece e vai se manifestando como se fosse uma conquista a cada dia. Ou seja, é a vivência do constante desafio que há, agora, em sua vida. Maslow acreditava que os seres humanos com o conhecimento mais profícuo de si próprio e de seu meio, com a base sólida construída na família, possuem uma visão ampla que possibilita uma relação mais favorável de compreender e a si, os outros, e a natureza (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.263).

Segundo as teorias de Maslow, o self é o âmago ou a natureza essencial do indivíduo, isso inclui o temperamento da pessoa, seus gostos e valores únicos. Se pensarmos na vida como um processo de escolhas, a autoatualização significa fazer de cada escolha uma opção para o crescimento do ser humano. Portanto, autoatualizar é aprender a sintonizar-se com sua própria natureza íntima. E escolher o crescimento é abrir-se para experiências novas e desafiadoras (FADIMAN; FRAGER, 1986, p. 264).

4. O Processo de Enfrentamento e os Mecanismos para Alcançar a Superação

Sabe-se que a amputação de um membro do corpo constitui-se como uma perda não só de uma parte da estrutura corpórea do indivíduo que o perde, mas, como uma vivência de redescoberta de suas possibilidades enquanto um ser que já tinha uma vida, uma história de ser alguém que contribuía e colaborava ao progresso de seu meio.

No entanto, a partir do momento em que ocorre a amputação, o indivíduo sofre o impacto da notícia de sua nova situação, sua nova condição de vida, mas acima de tudo, o maior impacto emerge no instante do encontro família e indivíduo- amputado, pois a família sente-se como uma âncora que não tem a força, ou seja, o apoio que será necessário ao processo de aceitação, enfrentamento e superação do próprio indivíduo concomitante à família. Contudo, o processo de enfrentamento, ou o coping, como popularmente está tornando-se conhecido no meio acadêmico, pode ser compreendido na visão de Gabarra et. al., 2009, da seguinte forma:

No processo de adaptação à amputação, os indivíduos precisam se ajustar às mudanças físicas, psicológicas e sociais advindas da perda do membro incorporando estas no seu novo senso de self e na autoidentidade. (...) o coping, em pessoas com amputação de membros, é um processo que envolve múltiplas demandas, físicas e psicológicas (OSKAFORD & COLS, 2005 apud GABARRA; CREPALDI, 2009). O coping é definido por Antoniazzi et. al. (1998, p.274) apud Gabarra e Crepaldi (2009), como o conjunto das características utilizadas pelas pessoas para adaptarem-se as circunstâncias adversas.

Assim, a reabilitação caracterizar-se-á como uma constante modificação do comportamento e do pensamento da família e do indivíduo – amputado, como uma forma mais salutar de se visualizar a recuperação do indivíduo, como também, da aceitação deste, e daquela que sempre será o verdadeiro suporte nesta etapa que sempre é muito desafiadora a quem decide transpô-la. “Nossas respostas emocionais e comportamentais, bem como nossa motivação, não são influenciadas diretamente por situações, mas sim, (...) pelos significados que atribuímos a elas” (SERRA, 2001).

Ou seja, de acordo com a forma que os indivíduos têm de visualizar uma determinada situação, esta por sua vez, terá um escore bem sucedido ou não em virtude do modo que àqueles se posicionarão neste contexto. E, uma forma pela qual o êxito nesta situação pode ser alcançado, emerge da capacidade e do interesse que os envolvidos, familiares e amigos, têm de aceitarem, e, da disponibilidade e da sensibilidade para trabalharem visando o intuito precípuo no que refere-se ao processo recuperacional, o desenvolvimento paulatino do ser -amputado.

Acerca do processo de aceitação e enfrentamento da amputação Benedetto et. al., 2002, preconizam que:

O paciente amputado pode utilizar diversas estratégias para se adaptar à realidade e neutralizar sua ansiedade diante do novo estado de seu corpo: pode reagir agressivamente contra tudo e contra todos, pode ficar muito passivo e fugir do contato com os outros, isolando-se cada vez mais etc. Porém, a forma mais sadia de adaptação é procurar meios que satisfaçam as necessidades internas e as exigências externas do paciente amputado, reformulando formas de adaptação coerentes com a sua limitação física (BENEDETTO; FORGIONE; ALVES, p. 86, 2002).

Deste modo, compreende-se que o processo de enfrentamento irá constituir-se como um processo dual, onde o indivíduo–amputado ao reconhecer a sua, agora, limitação física, irá juntamente com a sua família, buscar mecanismos que o estimulem na constante reabilitação e à descoberta de um novo ser, com novas potencialidades de superar as adversidades que se farão presentes, entretanto, o mais relevante, superar as limitações que ele próprio acredita existirem em si.

É nesta visão, que a afetividade e a volição, vontade a algo, compreendem as duas grandes estruturas que tornarão o indivíduo um ser mais capaz de conseguir motivar-se e, paulatinamente, ir rompendo as barreiras às novas experiências. A primeira engloba o humor, as emoções, os sentimentos, os afetos, as paixões por algo ou alguém. A segunda caracteriza-se por ser “uma dimensão complexa da vida mental” que, garante ao indivíduo a plena capacidade intelectiva de avaliar, julgar, analisar e decidir (DALGALARRONDO, p. 174-175, 2000).

No intuito de reaprender a viver, o ser amputado irá sempre enfrentar o processo de ensaio-e-erro, em uma constante necessidade de estabelecer conexões entre as suas emoções e as suas complexidades cognitva-intelectiva a fim de restabelecer um constante equilíbrio homeostático, onde este só é possível mediante o enfrentamento de situações problemas que fazem-se presentes no cotidiano do mesmo. Conforme Campos, 2011:33:

A quebra deste equilíbrio determina, no indivíduo, um sentimento de desajustamento (...), e o único meio de ajustar-se é agir ou reagir até que a resposta conveniente venha fazer parte integrante de seu equipamento de comportamento adquirido (...).

Sendo assim, é possível compreender que todo ser humano contém em si, as bases para transpor os desafios da vida, e, apresentar-se ao mundo com uma nova “persona”; uma persona que se mostrará mais forte e sensível às necessidades de seu entorno. Para Friedman e Shustack (2004), a persona, e as necessidades que a revestem podem ser decifradas da seguinte forma:

O arquétipo persona (...) é uma imagem idealizada do que as pessoas poderiam ser; ele é modificado pelo esforço de cada indivíduo de alcançar essa meta (FRIEDMAN; SHUSTACK, p. 119, 2004). Para Maslow, assim como para Rogers e Jung, há uma tendência natural ou uma pressão para a autorrealização. Isto é, o estímulo para o desenvolvimento vem de dentro para fora do organismo em crescimento, e não de fora, no ambiente externo. Como Jung, Maslow afirmou que o estado de ser mais evoluído é o de estar em paz consigo mesmo, uma peculiaridade e uma característica preciosamente humanas (FRIEDMAN; SHUSTACK, p. 320–321, 2004).

É relevante salientar que, através das inúmeras situações adversas durante o período do enfrentamento, o amputado é capaz de reconhecer em si uma motivação tão vivaz, que o torna capaz de seguir superando a si mesmo, o preconceito social e, as dificuldades concernentes a não aplicabilidade de políticas públicas que possam subsidiar este indivíduo.

As políticas públicas têm o poder e a funcionalidade de direcionar o indivíduo-amputado a uma vida digna a sua nova condição. Estas têm como objetivo garantir a nova condição, instrumentos não amenizadores das problemáticas intrínsecas à amputação, mas sim, colaborar com mecanismos mobilizadores de ações que possam elucidar ao indivíduo a redescoberta de uma vida e do conviver saudavelmente.

Conforme Bernardes et. al., 2009:

Entendendo, portanto, que a Constituição Federal não mencionou claramente as responsabilidades do setor da saúde no tocante ao público de pessoas com deficiência, tanto a Lei nº 7.853/895 como o Decreto nº 3.298/995estabeleceram extensa relação de obrigações para o setor público de saúde. Assim a lei determina ações preventivas, de diagnóstico e encaminhamento precoce para tratamento; programas específicos de prevenção de acidentes; criação de redes de serviços especializados em reabilitação e habilitação, garantia de acesso aos estabelecimentos de saúde, públicos e privados, recebendo tratamento adequado, garantia de atendimento domiciliar de saúde para pessoas com deficiência grave e programas de saúde desenvolvidos com a participação da comunidade para estimular a integração social do grupo(BERNARDES et. al., 2009, p. 35–36).

O Sistema único de Saúde (SUS) apresenta-se como uma política de base complexa, no sentido de conseguir atender as estruturas simples e complexas, fazendo com que os seus objetivos sejam alcançados. “Os objetivos finais do SUS se caracterizam por prestar assistência à saúde (...) buscando eliminar ou controlar as causas das doenças e agravos (...); proteger a saúde da população” (OLIVEIRA et. al., 2008).

De acordo com Batista et. al., 2007, o indivíduo saudável é aquele criado em uma família que possibilita “o apoio, a compreensão, e aceitação”, sendo que sua organização estrutural é marcada por um ambiente que valoriza a individuação como o caminho à autorrealização. “Ela serve como um campo de treinamento seguro onde se realizarão experiências que serão significativamente importantes a todos os seus integrantes” (BATISTA; FRANÇA, p. 118, 2007).

Destarte, pode-se inferir que o enfrentamento ultrapassa a nomenclatura “processo”, que muitos entendem como um mecanismo de seqüência de etapas, para compor a estrutura de superação de situações inimagináveis pelo indivíduo que sofre a amputação, ao redescobrir-se como um ser que, junto ao apoio familiar, é capaz de motivar-se a mais uma luta na vida. A mais uma vitória por descobrir na “dor”, o real sentido de valorizar a vida.

5. Considerações Finais

Este trabalho teve como objetivo esclarecer de modo conciso o processo do constructo da estrutura psicológica e dos mecanismos de enfrentamento do indivíduo que é acometido pela amputação de um membro e conquista a superação a partir da estrutura familiar, pois como acadêmicas do Curso de Formação em Psicologia interessadas neste assunto, sentimos a necessidade de haver um trabalho que abordasse de forma objetiva e compelida um tema pouco conhecido e discutido nos meios acadêmico e social.

No decorrer de sua elaboração foi verificada a escassez de trabalhos acadêmicos que explicassem os efeitos psicológicos da amputação e, acima de tudo, qual a tipologia de apoio e/ou mesmo incentivo o indivíduo-amputado tinha após a cirurgia, e, como o mesmo reagiria no intuito de aceitar o seu novo corpo, a sua nova vida, para poder mover mecanismos que possibilitassem-no o enfrentamento salutar a sua constante recuperação.

Conforme as pesquisas realizadas no decurso deste artigo, compreendemos que a amputação está longe de uma perspectiva apenas patológica, pois, pôde-se visualizar diversas respostas psicológicas positivas relacionadas às experiências da amputação, onde, alguns indivíduos conseguem enxergá-la como um acometimento pessoal que possibilita uma experiência de vida com mais clareza e oportunidade de crescimento psicológico.

Sendo assim, pôde-se inferir que o fator psicológico é essencial em busca da reabilitação e felicidade desses indivíduos, no início, da nova vida do amputado, obtendo aqui, a prova de que persistência e a coragem podem mover a vida de pessoas que passaram por angústias e vitórias ao mesmo tempo em que sofreram uma amputação de membros e superaram.

Contudo, partindo do interesse de possibilitar uma informação esclarecedora, sólida nos princípios éticos que necessita haver um artigo acadêmico elaborado entorno de uma revisão bibliográfica, compreendemos que o indivíduo-amputado conquista a superação quando, ele passa a enxergar em sua própria família a estrutura basilar para o acionamento de mecanismos que o faça descobrir em si mesmo, a estrutura psicológica ao enfrentamento construtivo de seus próprios paradigmas quanto à crença constante na reabilitação, na árdua e felícita superação.

Sobre os Autores:

Ana Cláudia Sousa - Acadêmica do 4° Semestre do Curso Formação em Psicologia da Faculdade Cathedral Boa Vista

Janilce Campos Morais - Acadêmica do 4° Semestre do Curso Formação em Psicologia da Faculdade Cathedral Boa Vista

Laurice Taís Araújo Rêgo - Acadêmica do 4° Semestre do Curso Formação em Psicologia da Faculdade Cathedral Boa Vista

Referências:

ALMEIDA, Cássia. Novos tipos de família já são maioria no Brasil. “Pai, mãe e filhos” já não reinam mais nos lares. In: O Globo, 26/08/2012. Disponível em: < http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/8/26/novos-tipos-de-familia-ja-sao-maioria-no-brasil >. Acesso em: 18 de novembro de 2012.

BATISTA, Sérgio Murilo; FRANÇA, Rodrigo Marcellino de. Família de pessoas com deficiência: desafios e superação. Disponível em < http://www.apaenet.org.br/images/apostilas/familia_pessoas_deficiencia.pdf >. Acesso em: 02 de outubro de 2012.

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