Significado do Movimento das Habilidades Sociais para o Fortalecimento da Educação Social Enquanto Prática Emancipatória do Sujeito

Significado do Movimento das Habilidades Sociais para o Fortalecimento da Educação Social Enquanto Prática Emancipatória do Sujeito
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Na sociedade contemporânea, altamente complexa, compreender e lidar com as relações interpessoais é um propósito, no mínimo, desafiante. O contexto social vigente, infelizmente, ainda é direcionado pelas diretrizes do modelo capitalista, um sistema que prega a competição entre as pessoas e valoriza a supremacia dos melhores e mais bem “adaptados” indivíduos, ou seja, aqueles que chegam a ser capazes de atender às suas altas demandas de consumo de mercadorias, aparência física e status socioeconômico. Esta formatação acarreta várias consequências negativas e preocupantes em relação à qualidade da socialização das pessoas.

Adelman (2009), por exemplo, relata que estamos “vivendo um momento de crise nas relações sociais e na cultura, com possibilidades de estar ocorrendo até mesmo uma degeneração social”, com novos e variados arranjos socioculturais. Segundo a autora,

O declínio de laços de família e de comunidade vincula-se a uma “erosão” (muito lamentada) das fronteiras entre o público e o privado e às mudanças nas relações de gênero e de cultura sexual que fariam parte de tal processo (p. 190).

Esta crise abrange algumas mudanças na forma como está sendo incentivado, para o indivíduo, lidar com a sua própria individualidade. De acordo com Ribeiro (2010), o indivíduo vai construindo a sua vida na dimensão pública (social) e também na dimensão privada (íntima), e aponta especificamente que “as crises afetam a intimidade das pessoas”. Segundo este autor, a busca pela aceitação social no mundo capitalista, acarreta uma “exposição tola e devastadora, recheada de vaidades, que ameaça o mundo da intimidade, onde se encontra o que a pessoa tem de mais precioso, que não deveria ser exposto para qualquer pessoa” (IBID, 2010).

Neste viés atual de dominação ideológica do mercado, a influência ou modelação deste sistema sobre os indivíduos é muito forte, atingindo todos os contextos relacionais, como os ligados ao trabalho, a família, a comunidade e também nos meios educacionais, escolares (formais) e não formais. As crianças e adolescentes são mais suscetíveis à imposição destes valores mercantilistas.

As modificações inevitáveis presentes na contemporaneidade influenciam – enquanto modelos ativos – o aprendizado social dos indivíduos, principalmente das crianças e adolescentes. São constantes os exemplos inadequados de condutas comportamentais (como as relações sociais egocêntricas e a estimulação da agressividade e violência), muitas das vezes fortemente difundidos pelos grandes meios de comunicação, como o cinema, a televisão e a internet.

Gavioli (2012, p. 178), afirma que “o vínculo se estabelece a partir do contato com o outro, entretanto nossa sociedade insiste em querer ser narcísica, pensando em ações verticais, ficando o coletivo em um espaço à parte”. O individualismo e o querer ganhar do outro a qualquer preço, sem se preocupar com as consequências das atitudes tomadas não são procedimentos capazes de formar vínculos afetivos e de pertencimento saudáveis.

Os ambientes educacionais, formais e não formais, são responsáveis pela discussão consciente destes acontecimentos, como forma de preparação das crianças e adolescentes para lidarem de maneira positiva com tais contextos. Em se tratando de desenvolvimento do indivíduo, evidencia-se a questão da socialização e da importância das interações e relações sociais nestes variados cenários contemporâneos, que nem sempre são favoráveis à construção de repertórios comportamentais satisfatórios.

A mudança provocada afeta a formação das pessoas. O ser humano somente se desenvolve em sociedade, no contato com o outro, através de suas relações interpessoais. Através das trocas de informações e conhecimentos nestes diversos contatos, o indivíduo vai acumulando experiências, percepções e vai construindo a sua personalidade e a sua identidade. Torna-se importante então, o cuidado com o repertório individual que vai se acumulando nesta trajetória permeada por estas mudanças.

Falando-se especialmente dos contextos não formais de educação, através de projetos sociais de convivência e fortalecimento de vínculos (socioeducativos), pode-se dizer que, em virtude de sua conformação conteudística diferenciada da escola, por exemplo, há a possibilidade de construção de um ambiente influenciador altamente favorável à aquisição de repertórios comportamentais de alta qualidade. Este repertório faz parte de pré-requisitos fundamentais para a criação de relacionamentos competentes na vida e pode ser estimulado nos ambientes da educação social, via Oficinas Socioeducativas.

No Brasil, a pedagogia social, que estabelece o arcabouço teórico da educação social, é uma ciência que tem foco na dimensão da sociabilidade humana, ou seja, apresenta alicerces sustentados na necessidade de aprender, estabelecer e sustentar bons relacionamentos interpessoais, como estratégias formativas e somativas que possam ser utilizadas na busca de superações individuais e coletivas.

A educação social é uma importante área de atuação de inúmeros educadores preocupados com o desenvolvimento de crianças e adolescentes que estejam passando por situações de desconforto vivencial, privações ou vulnerabilidades em variados contextos. Esta clientela é alvo primordial de intervenções intencionais, planejadas para a estimulação e para o aprendizado de habilidades sociais preventivas e protetoras.

Segundo Gohn (2010, p. 33), a educação não formal é “um processo sociopolítico, cultural e pedagógico de formação para a cidadania, entendendo o político como a formação do indivíduo para interagir com o outro em sociedade”. Esta interação com o outro, em termos de ganhos individuais e coletivos, precisa ser de qualidade, precisa ser competente, e só desta maneira o indivíduo pode vir a conquistar a sua emancipação. O cidadão emancipado, para impor-se, como cidadão, tem que ter autonomia do pensar e do fazer (IBID, 2010, p. 41).

Uma ferramenta fundamental, que precisa fazer parte dos propósitos da educação social, principalmente no que diz respeito à intenção de preparar para a autonomia, é o desenvolvimento ou treinamento de habilidades sociais. A formação de um repertório adequado de habilidades sociais e a sua correta (competente) utilização, pode contribuir para que uma criança ou adolescente consiga atingir seus objetivos interpessoais com qualidade, exercitando seus direitos de cidadania e também de autonomia (protagonismo).

As habilidades sociais são comportamentos que permitem manifestar atitudes, desejos, opiniões ou direitos de modo adequado à situação, respeitando a expressão desses comportamentos nos demais (CABALLO apud OLAZ, 2011). Habilidades sociais importantes para a vida em sociedade são, por exemplo: automonitoria, assertividade, civilidade, empatia, fazer amizades, solução de problemas interpessoais, autocontrole e outras.

No ambiente estruturado pela contemporaneidade, de pressa, impaciência, intolerância e pouca atenção para com os direitos humanos básicos, o aprendizado social, emocional e cognitivo-comportamental proporcionado pelo movimento das habilidades sociais, que defende um relacionamento justo e assertivo entre as pessoas, pode ser uma estratégia muito importante para se conviver melhor com os conflitos inevitáveis da vida cotidiana.

O treinamento de habilidades sociais é uma das técnicas cognitivo-comportamentais mais utilizadas. Sua eficácia é claramente comprovada e seus benefícios parecem claros em uma sociedade determinada pelas relações interpessoais (CABALLO; IRURTIA; SALAZAR, 2011, p. 101).

 De acordo com Oliveira & Andretta (2011),

A teoria cognitivo-comportamental é uma forma (pós) moderna de se olhar com o tempo suficiente para produzir mudanças e representar significados. Uma forma de reconstrução que entra na medida, que se adapta às exigências das inquietações provocadas pelas necessidades da pós-modernidade (p. 5).

Ao se implantar um planejamento estruturado de ensino, aprendizagem e treinamento das habilidades sociais nos projetos sociais, estabelece-se um novo contexto pedagógico, eclético, sintonizado com a necessidade de empoderar as crianças e adolescentes de recursos eficazes para a sua sobrevivência e também para o seu protagonismo na sociedade contemporânea. Este é o caminho proposto pelo “movimento das habilidades sociais”.

A consciência do que se deve fazer e do que não se deve fazer na relação com o outro, fazendo uso de uma boa leitura do ambiente e da interpretação dos fatos, é fundamental para o desenvolvimento de uma criança. Esta interpretação deve ser estimulada pelos educadores sociais através de suas atividades socioeducativas. Conforme explica Knapp apud Rangé et al (2011, p. 16-17), “as abordagens cognitivas partem do pressuposto de que um processo interno de cognição media o comportamento; havendo a interpretação de um evento que gera emoções e comportamentos, e não o evento em si”.

De acordo com Del Prette & Del Prette (2012, p. 12), o movimento das habilidades sociais tem como objetivo “garantir o desenvolvimento de novas competências para se evitar ou administrar conflitos interpessoais violentos e se viver de maneira mais harmoniosa e solidária”.

A convergência entre os objetivos deste movimento e os propósitos da educação social, pode ser exemplificada na afirmativa de Gohn (2010, p. 35), ao dizer que “a aprendizagem de conteúdos que possibilitem aos indivíduos fazer uma leitura do mundo do ponto de vista de compreensão do que se passa ao seu redor é fundamental na educação não formal”.

Vários estudos relacionam um bom repertório de habilidades sociais a um funcionamento saudável na infância e a perspectivas mais favoráveis para períodos posteriores do ciclo vital (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2006, p. 47).

No Brasil, a educação social é uma área em crescimento em termos de arcabouço teórico e científico, e que ainda não possui o devido reconhecimento profissional na sociedade, pelo menos no que tange à sua credibilidade e sua eficácia (estatisticamente comprovada) no propósito de melhorar a qualidade de vida de seus atendidos. O movimento das habilidades sociais pode ser um enorme reforçador de sua importância e um grande indicador de sua eficácia, ao passo que pode fortalecer, com sua potencialidade instrumental, social e pedagógica comprovada, as inúmeras ações, atividades e projetos desenvolvidos pela educação social. 

Sobre o Autor:

Leandro Barros Ribeiro - Mediador-tutor do Grupo de Estudos em Habilidades Sociais da AMAC.

Referências:

ADELMAN, M. Visões da pós-modernidade: discursos e perspectivas teóricas. Sociologias. Porto Alegre. ano 11. n. 21. jan/jun. 2009. p. 184-217.

CABALLO, V. E.; IRURTIA, M. J.; SALAZAR, I. C. Abordagem cognitiva na avaliação e intervenção sobre habilidades sociais. In: DEL PRETTE, A.; DEL PRETTE, Z. A. P. (Orgs.). Habilidades sociais: diversidade teórica e suas implicações. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.  p. 67-107.

DEL PRETTE, Z.; DEL PRETTE, A. Avaliação multimodal de habilidades sociais em crianças: procedimentos, instrumentos e indicadores. In: BANDEIRA, M.; DEL PRETTE, Z. A. P.; DEL PRETTE, A. (Orgs.). Estudos sobre habilidades sociais e relacionamento interpessoal. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006. p. 47-68.

______; ______. Psicologia das habilidades sociais: terapia, educação e trabalho. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

GAVIOLI, J. Vínculo: uma possibilidade de reeditar a nossa história. In: Sentido de vida: educação. ZIEGER, L.; ROXO, L. C.; ZIMMER, R. (Orgs.). Porto Alegre: Alcance, 2012.

GOHN, M. Educação não formal e o educador social: atuação no desenvolvimento de projetos sociais. São Paulo: Cortez, 2010.

OLAZ, F. Contribuições da teoria social-cognitiva de Bandura para o treinamento de habilidades sociais. In: DEL PRETTE, A.; DEL PRETTE, Z. A. P. (Orgs.). Habilidades sociais: diversidade teórica e suas implicações. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.  p. 109-148.

OLIVEIRA, M. S.; ANDRETTA, I. (Orgs.). Manual prático de terapia cognitivo-comportamental. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

RANGÉ et al. História e panorama atual das terapias cognitivas no Brasil. In: OLIVEIRA, M. S.; ANDRETTA, I. (Orgs.). Manual prático de terapia cognitivo-comportamental. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

RIBEIRO, R. J. Os cuidados com a intimidade. Café Filosófico. CPFL Cultura. Palestra. 03/09/2010. Campinas – SP. URL: <http://vimeo.com/27819949>. Acesso em: 26/11/2012.

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