A Prática do Plantão Psicológico

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No contexto acadêmico, o plantão psicológico tem como uma de suas funções o treino da escuta que, neste sentido, está relacionada à capacidade de o estagiário captar aquilo que o paciente busca naqueles cinquenta minutos em que a relação paciente–terapeuta se estabelece.

Para que haja uma boa compreensão da queixa central, o estabelecimento do vínculo nem sempre é fundamental, mas a habilidade que o estagiário tem de estar disponível para o cliente tem um valor inestimável para o bom andamento do processo.

Neste sentido, Mahfoud (1987 – p. 75), diz que “(do ponto de vista) do profissional, esse sistema pede uma disponibilidade para se defrontar com o não planejado e com a possibilidade (nem um pouco remota) de que o encontro com o cliente seja único”. Assim, a capacidade do estagiário/terapeuta entender a demanda do paciente e compreender o que o fez buscar pelo auxílio do plantão reside em sua habilidade em ouvir e estar atento ao tema central da queixa.

Muitas vezes tomado pela ansiedade, o estagiário ficará tentado pela ideia de que tem o dever de “resolver” os problemas do paciente que senta a sua frente e, se não tiver sucesso nesta empreitada, que ao menos seja capaz de fornecer o antídoto para o sofrimento de quem o procurou. No entanto, estas ideias podem despertar sentimentos de impotência no estagiário que poderão comprometer o sucesso do plantão psicológico.

No entanto, compreender que o estagiário não dispõe de ferramentas para resolver os problemas do paciente e que sua função é a de estar disponível para recebê-lo e acolher sua demanda, pode ser fator decisivo para o sucesso do plantão.

Ainda de acordo com Mahfoud (1987) cabe ao psicólogo proporcionar ao paciente uma compreensão a respeito de si mesmo e de seu papel diante da problemática que o levou a procurar pelo plantão.

Em certas ocasiões o paciente não procura o plantão psicológico em busca de ajuda. Sua intenção pode ser apenas a de ser ouvido e poder falar sobre algo que já não encontra mais espaço para ser dito em seu convívio social. Problemas íntimos, que esposa, filhos, amigos, colegas de trabalho ou familiares já não tem mais disponibilidade para ouvir.

Assim, cada paciente do plantão psicológico é único e por mais experiência que o terapeuta ou estagiário tenha nesta prática, é inevitável que exista certa dose de ansiedade antes de cada atendimento uma vez que não se é possível prever qual será a queixa do paciente antes de ouvi-lo.

Da mesma forma que as queixas serão únicas, a forma de abordá-las também deverá condizer com aquilo que elas demandam. Como no caso de G, um idoso de setenta e três anos de idade que buscou o serviço de plantão queixando-se de forte depressão após ter sido diagnosticado com Mal de Parkinson.

Os atendimentos foram realizados na clinica e na casa do paciente e, a partir do segundo atendimento, foi possível notar que o senhor sentia uma enorme necessidade de falar sobre sua vida pregressa e sobre os sucessos alcançados.

Com o passar do tempo, G verificou que ao contrario do que ele imaginava, a depressão não era um efeito colateral de sua doença, mas a diminuição de sua capacidade física tanto por conta do Parkinson quanto por conta de sua idade, faziam-no se sentir inútil e incapaz de ser feliz com sua esposa, sua companheira fiel.

Já no caso de J, um jovem de vinte e sete anos, a família procurou pelo plantão dizendo que o paciente era esquizofrênico e precisava de atendimento. Mas mesmo conhecendo a condição do jovem, eram contrários a todo e qualquer tipo de tratamento medicamentoso. Aqui, ao invés de uma simples escuta e do atendimento seguindo os moldes “tradicionais”, foi necessário um trabalho de conscientização da família a respeito do quadro clínico, uma reavaliação da condição do paciente e realização de um encaminhamento condizente com a necessidade do quadro verificado.

Em outra ocasião, um time esportivo demandou o serviço de plantão e uma estagiária teve de se deslocar até o local para poder compreender a queixa. A desorganização encontrada na instituição refletia a desorganização de seus dirigentes e, com um trabalho bastante diretivo a plantonista teve de orientá-los pontualmente sobre quais aspectos estavam transformando o time infantil de beisebol em uma disputa entre pais e treinadores.

Verifica-se então que o plantão nem sempre se enquadrará ao molde de atendimento clínico já conhecido pelo estudante de psicologia e requer também do terapeuta experiente jogo de cintura para se adequar às diferentes necessidades de cada paciente.

O plantão caracteriza-se pelo atendimento em situações de crise e guarda peculiaridades não só quando olhada sob a perspectiva clínica, mas também quando encarada em relação a sua forma e seu conteúdo. O foco do processo será a queixa e o tempo do atendimento será limitado, o que contraria o formato da maioria das linhas tradicionais de psicoterapia.

Por este motivo não há espaço para lidar com demandas secundarias e o terapeuta tentará, utilizando de todos os recursos disponíveis, possibilitar que o paciente encare sua queixa sob uma nova perspectiva ou que fale sobre o assunto que o fez buscar o plantão naqueles momentos em que o atendimento se desenrolar. Cabe também ao terapeuta avaliar se será necessário atender tal paciente mais de uma vez, se faz-se necessário algum tipo de encaminhamento ou se apenas uma única sessão será capaz de atender a demanda daquele cliente.

Sobre o Autor:

Joao Gabriel Schenferd - aluno do 10º semestre do curso de Psicologia da UNIP Campinas. Texto desenvolvido durante o estágio em Plantão Psicológico, 2011.

Referência:

MAHFOUD, Miguel. A vivência de um desafio: Plantão Psicológico. In Rosenberg, R.L. (org.), Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa, E.P.U., São Paulo, 1987, pp.75-83.

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