O Ser Humano e o Coaching

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Resumo: O coaching tem se tornado instrumento cada vez mais citado como alternativa ao desenvolvimento humano e organizacional e como uma das estratégias de mobilização da subjetividade em gestão de pessoas. Não obstante, seus fundamentos e referências são ainda pouco nítidos, fato que gerou motivações para este texto. Adotou-se como princípio a abordagem qualitativa e o método de revisão bibliográfica em face da natureza do objeto, do tema, objetivo em si da pesquisa e os procedimentos técnicos adotados. No caso, a fenomenologia é a fonte constitutiva dos elementos que dão consistência à práxis do coaching. A adoção de tal enfoque sustenta-se por este caracterizar-se ao mesmo tempo como método científico rigoroso e uma atitude perante o mundo. Enfatiza a consciência e a subjetividade como os caminhos para se desvelar as verdades relativas e provisórias da existência humana, o que traz impactos interessantes para o processo de coaching como estratégia de mobilização da subjetividade. Além do que, sob seu escopo, torna-se possível tanto a busca da compreensão do sujeito em sua relação com o trabalho, como ainda conceber-se uma visão responsável e conseqüente para a ação administrativa. Assim, parece possível a concretização do esforço em se aproximar os temas Subjetividade, Fenomenologia e Coaching, e é esta a tentativa empreendida.

Palavras-chave: Fenomenologia existencial, coaching, mobilização da subjetividade, gestão pela formação humana.

1. Introdução

O coaching tem se tornado instrumento cada vez mais citado como alternativa ao desenvolvimento humano e organizacional e como uma das estratégias de mobilização da subjetividade em gestão de pessoas. Sabe-se, contudo, que o processo não ocorre no isolamento e, portanto, requer o trânsito por teorias e fundamentos que extrapolam o como fazer apenas. Tanto o seu conceito quanto o contexto no qual se insere são marcadamente atuais e seus fundamentos, entretanto, pouco nítidos. A partir de motivações originárias das lacunas geradas em decorrência deste fato é que este capítulo tomou forma. No caso, a Fenomenologia constitui a fonte em que se buscou elementos que pudessem dar consistência à práxis do coaching.

Por se opor ao empirismo e ao objetivismo comuns às ciências naturais, 1 julgados incompletos para resolver as questões inerentes às ciências humanas e sociais aplicadas 1 a abordagem fenomenológica caracteriza-se ao mesmo tempo como método científico, uma

maneira de ver e uma atitude perante o mundo. Enfatiza, ao contrário daqueles, a consciência e a subjetividade como os caminhos para se desvelar as verdades relativas e provisórias da existência humana. Traz consigo o rigor que todo fundamento conceitual requer, propõe um método de pesquisa fiel a ele e ainda vai além da busca restrita de explicações, definindo seu interesse pela compreensão dos fenômenos e do ser do humano. Assim, parece possível a concretização do esforço em se aproximar os temas Subjetividade, Fenomenologia e Coaching, e é esta a tentativa empreendida.

Não há pretensão, é bom que se diga, de esgotar ou mesmo atingir uma abrangência definitiva. O intuito é contribuir para o ordenamento de referências que sirvam de alicerce

para a atuação de tantos que se interessam pelo tema. A bem da verdade, a necessidade surgiu não só para cobrir uma lacuna para a atuação do autor, 1 na medida em que já se vem praticando o coaching há pelo menos seis anos de maneira regular e estruturada 1, como ainda da necessidade de servir de referência para outros profissionais que buscam

consolidar sua prática. Alguns destes profissionais são parte daqueles que se teve contato quando da realização de cursos de formação em coaching ou ouvintes em palestras que versaram sobre o mesmo tema; outros, colegas que espontânea e generosamente têm debatido o assunto com o autor e outros ainda, alunos de pós-graduação, que têm se interessado igualmente pela discussão em sala de aula em cursos de Gestão de Negócios e Gestão de Pessoas em instituições diversas.

Assim, o objetivo deste texto pode ser sintetizado como uma pesquisa bibliográfica de fundamentos para a prática do coaching em organizações humanas, especificando e descrevendo os conceitos essenciais como convém ao método fenomenológico que a sustenta. Adotou-se como princípio a abordagem qualitativa e o método de revisão bibliográfica em face da natureza do objeto, do tema, objetivo em si da pesquisa e os procedimentos técnicos adotados.

O pensamento apresentado está estruturado em cinco grandes blocos, a saber: um primeiro tópico que justifica e arrola as razões para que se tenha “escolhido” a fenomenologia como base; em seguida, o segundo, percorre o conceito de mobilização da subjetividade em correlação com a fenomenologia existencial e a prática do coaching. O terceiro item descreve e analisa os principais conceitos próprios ao método em questão, além de tomar para si a tarefa de apresentar um modelo de personalidade sob o enfoque fenomenológico e aproximar estes temas com os contextos organizacional e de gestão. Associado a eles, tem-se esta introdução que fornece informações e contextualiza o surgimento do coaching como uma estratégia de mobilização da subjetividade; e, também, as considerações finais que cumprem o intento de discorrer sobre a adoção da atitude fenomenológica como enfoque essencial para o processo do coaching e suas implicações, complementando as idéias.

Portanto, com um único propósito contextual, tecem-se algumas poucas considerações acerca do que se construiu, até o momento, sobre o fazer em educação dentro das organizações empresarias e o surgimento do coaching. Conforme nota final, para um entendimento preciso e retrospecto histórico mais abrangente, sugere-se que se recorra ao trabalho que deu origem a estas considerações [01].

Grosso modo, pode-se afirmar que a Revolução Industrial e a conseqüente necessidade de qualificação profissional fizeram surgir a preocupação e a evolução dos métodos de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) de pessoas. No entanto, até as décadas de 1950 e 1960, permaneceu um forte caráter regulatório nas ações de formação, que só se esmaece, mas não finda, com o aparecimento da abordagem sistêmica do processo organizacional (KATZ; KAHN [02] apud MALVEZZI, 1994, p. 24). O modelo sistêmico teve um grande mérito de permitir a distinção entre treinamento e desenvolvimento. Neste último caso, a capacitação deixa de ser somente fornecimento de informações e aquisição de habilidades, para assumir status de ampliação de potencialidades com vistas ao acesso a posições hierárquicas superiores. Malvezzi (1994) entende que a noção de desenvolvimento emerge associada muito mais à carreira do que à formação da identidade profissional, o que tem conseqüências importantes ideologicamente. Pode-se dizer que a condição humana foi assumida de forma mais realista em sua complexidade, porém não foi assumida em sua indeterminância, porque a realização profissional e pessoal ficou configurada em função do acesso aos níveis de poder. “[...] A capacitação profissional emerge como uma questão do recurso humano para a empresa e não como uma questão do ser humano” (Ibidem, p. 25).

No novo paradigma que toma forma, tem-se a configuração do know-why em substituição ao know-how, em que o processo de produção passa, ainda que em parte, das estruturas administrativas e gerenciais para os grupos de trabalho (Ibidem, 1994). O trabalhador (um pouco mais próximo de sua condição de sujeito?) deixa de ser mer oseguidor de manuais, sendo solicitado a escolher caminhos e a tomar decisões. Bergamini (1994) aponta como alternativa de ação e ponto de partida de T&D nesse novo paradigma o processo de autoconhecimento, enquanto Gil (2001) e Nowack e Wimer (2002) introduzem a noção de coaching para relatar o mesmo tipo de intervenção ao qual a autora se refere. Descrevem o procedimento como alternativa ao processo de capacitação e preparação de pessoas no mundo do trabalho. Como propostas individualizadas e personalizadas, o coaching na visão deles tende a otimizar a performance. Além do que, revela-se uma abordagem de capacitação mais coerente com um paradigma contrário ao modelo de “comando-e-controle”, enfatizando o trabalho em equipe, a colaboração e a participação para a solução de problemas e a tomada de decisão (NOWACK; WIMER, 2002, p. 94).

O enfoque fenomenológico, como será possível constatar mais adiante, promove a retomada do “mundo das coisas mesmas” e da compreensão do ser do humano em sua intersubjetividade, resgatando a consciência e a ação humana em sua intencionalidade. Trata-se, pois, de resgatar a vivência ou a experiência, tal e qual se apresentam à consciência. O método permite estabelecer um rigor no processo de conhecimento, sem, contudo, prender-se na busca da verdade única dada pela visão experimental. Nesse sentido é que acena com possibilidades e conceitos com grande identidade não só com a práxis do coaching, como ainda com a compreensão da ação administrativa e do espírito de co-humanidade necessários às organizações empresarias. É este, pois, o estado da arte em que o coaching surge como abordagem alternativa voltada ao desenvolvimento humano nas organizações e estratégia de mobilização da subjetividade.

Ora, se o coaching se configura como uma forma de se desenvolver pessoas, quais os fundamentos que lhes dão sustentação e quais as implicações éticas e técnicas decorrentes?

2. Razões para a elaboração de um enfoque fenomenológico para o coaching

Ao se ministrar cursos de formação em coaching, depara-se sempre com a indagação: por que coaching fenomenológico? Ou de outra maneira: por que Fenomenologia?

“Talvez seja conveniente lembrar que existem três grandes abordagens na psicologia. A psicanálise, o behaviorismo e o humanismo. Hoje agregaríamos um nome novo, embora associado ao behaviorismo: o cognitivismo.” (ROMERO, 2000, p. 180). Como microescolas que se autodenominam e se mantêm sob o arcabouço do humanismo o autor enumera: psicologia compreensiva, psicoterapia centrada, escola humanista americana, gestalt-terapia, fenomenologia dialética, logoterapia, psicologia transpessoal e análise transacional. Interessa de imediato a abordagem humanista em sua vertente fenomenológica e é nessa direção que a discussão deverá caminhar. Espera-se que ao longo da discussão os argumentos e fundamentos apresentados justifiquem a predileção por esta abordagem e não por outra, ainda que não haja em princípio quaisquer objeções às demais.

Sabe-se que a Fenomenologia tem origem no domínio da Filosofia, do final do século XIX para o início do século seguinte. Contudo, somente nos anos 1950 em diante é que toma impulso como fundamento dentro da Psicologia (FORGHIERI, 1993), mesmo que não constitua até atualmente uma unanimidade entre os autores e que não se possa afirmar que exista um aporte concluído do que se poderia definir como fundamento fenomenológico das ciências humanas e sociais aplicadas. Entretanto, não há como tratar-se do humano sem que se retorne a estas áreas de conhecimento para resgatar fundamentos. Até porque a Fenomenologia tem servido de base para abordagens em Educação (BICUDO, 1999), espaço ocupado pela Pedagogia, como ainda na Administração de Empresas ou gestão (FRAGA, 2003; COLTRO, 2000).

Ainda que, conforme lembra Forghieri (1993), o suporte filosófico seja estritamente abstrato, enquanto as ciências que tratam do humano voltam-se para os fatos e a concretude da vivência, a Fenomenologia se apresenta como um método de investigação do fenômeno em si, que propõe um retorno às coisas mesmas, na dimensão do mundo-da- vida. “Inaugurada por Husserl, inspirado pela preocupação do rigor, não é um sistema filosófico, mas um conjunto de proposições para um método de pensar, de apreender e investigar o mundo, tão rigorosamente quanto possível” (RAMADAM, 1999, p. XI). Além do que, em seus temas centrais, conforma uma identidade peculiar que se presentifica na concepção do coaching como abordagem contemporânea de formação e apoio ao desenvolvimento humano.

A propósito, tematizar a educação e o treinamento em organizações sob um enfoque fenomenológico, é o mesmo que dizer do entendimento do sujeito como um pro-jeto humano (BICUDO, 1999), configurando um lançar-se adiante, um atualizar-se em ações e programas temporal e espacialmente - dimensões que se alongam entre passado/presente/futuro e entre o que já foi/o aqui e agora/o que virá -, “lugares” em que a vivência, o existir acontece individual e coletivamente. Abrange, portanto, percepções, análises, reflexões, escolhas e ações compostos todos, em um processo de ensino-aprendizagem em que o sujeito consciente e intencional apropria-se de sua condição como agente de todo o processo. Neste escopo, o sujeito-agente (com o perdão da redundância) toma para si o fazer e o transfazer, este último referindo-se ao como o ser humano sente o mundo e lhe atribui significados. Assim, o enfoque fenomenológico pressupõe um recriar incessante; o ser humano é entendido como um ser de possibilidades (Ibidem, 1999).

A contribuição primeira da Fenomenologia reside, pois, na concepção em si de educação e desenvolvimento, bem como na configuração de um método que por si parte do rigor e ao mesmo tempo de uma estrutura para a inserção no processo de ajuda e apoio. Conforme sugere Bicudo (1999, p. 12) sua contribuição à educação se dá em níveis diversos, a saber: a) como método de investigação, fundamenta procedimentos rigorosos de pesquisa; b) como procedimento didático-pedagógico, implica a busca de sentido e atribuição de significados caracterizando um modo de trabalho na realidade que parte do como o cotidiano é vivido, longe de partir de pressuposições lógicas ou de teorizações; c) como concepção de realidade e de conhecimento, configura uma postura de busca pelo sentido e significado do que se faz e do que se escolhe presentificando o autoconhecimento e o conhecimento do Outro a partir da análise crítica e da reflexão.

Uma outra razão importante está no fato de que o método fenomenológico preconiza a busca da essência de cada fenômeno, o que quer dizer não simplesmente uma teorização sobre ele, mas antes partir-se do real tal qual se apresenta no cotidiano, aprendendo-se a analisar os sinais presentes no percurso do existir. Neste âmbito, a prática do coaching toma contornos específicos na realidade organizacional e parte daquilo que se vive intencionalmente no trabalho e a dicotomia sujeito-objeto conforma modos de entendimento diversos ao fazer cotidiano e à produção. As elaborações teóricas tomam forma ou são construídas a partir dos fatos, vistos como fenômenos que se dão à consciência. Esta perspectiva lança possibilidades interessantes para a condução de um processo de apoio ao desenvolvimento humano.

Mais uma razão que se pode arrolar está inspirada na proposição de Fraga (2003) de se buscar um fundamento filosófico para a atuação em Administração de Empresas e em gestão. Ela destaca duas razões para tanto, uma teórica e outra de ordem prática.

No primeiro caso, o interesse em compreender as relações entre as pessoas que ingressam e que deixam a organização e o chamado “espírito da instituição”, bem como a recorrente invocação de seu “modelo”. No caso da prática, decorreu da expectativa das pessoas dessa organização, quanto à postura do agente na ação administrativa e o exercício da autogestão, em contraste com a carência e a dispersão de fundamentos filosóficos à gestão que pudessem embasar essa prática. Nesse ponto, constata-se que a literatura disponível em gestão privilegia o conhecimento, [...] deixando a lacuna de uma reflexão filosófica que questione qual é o sentido de uma organização.

O que a autora propõe é explicitado como “uma abordagem educacional fenomenológica à administração”, articulando os critérios científicos em administração, quais sejam: eficiência, eficácia e efetividade, aos critérios fenomenológico-filosóficos da relevância do humano e da legitimação da ação. Sua discussão abre espaço para a coexistência da orientação competitiva natural da organização vivenciada em co- humanidade, caracterizando o que se poderia denominar como gestão administrativa responsável e conseqüente (Responsabilidade Social). Faz emergir, então, um novo sentido complexo e abrangente para as ações na gestão: postura conseqüente e orientada para autogestão e, finalmente, aponta para a importância de pesquisar significados, apreender o sentido (propósitos, ações e estratégias) e compreender razões (circunstâncias que movem) cada fenômeno.

Razões expressas, vale a explicitação dos temas centrais de que tratam o enfoque fenomenológico naquilo que têm de essencial. É provável que o próprio entendimento dos mesmos justifique a escolha da Fenomenologia como aporte teórico essencial à prática do coaching. Na seqüência, investe-se na aproximação dos temas mobilização da subjetividade, abordagem fenomenológica existencial e coaching. Discorre-se em seguida sobre a concepção de personalidade sob o enfoque fenomenológico, como ainda detalha-se um pouco mais a proposição de Fraga (2003) que aproxima os temas fenomenologia e gestão.

3. Mobilização da Subjetividade, Abordagem Fenomenológica Existencial e Coaching

Tomando de empréstimo as considerações de Lino (s.d, n. p.) acerca da mobilização social, o verbo mobilizar, nos dicionários, remete a dois significados: “1. dar movimento a, movimentar; 2. Apelar para os serviços de alguém.”. Inicialmente, longe de se traduzir em um espontaneismo, o sentido pode ser associado a algo que ocorre a partir da iniciativa de alguém, ou seja, algum agente que toma para si a iniciativa de por em movimento outras pessoas ou algum ato. Implica, pois, um encontro em que se partilha alguma intenção, ideologia, crença ou sonho etc. No outro caso, denota a necessidade de se arregimentar “recursos” para que o que se pretende seja levado a termo. “Enquanto ‘apelar para os serviços’ de alguém reforça a cultura da adesão, ‘dar movimento’ serve para criar uma cultura de participação, em que as pessoas são tratadas como sujeitos, e não como recursos para viabilizar a vontade de quem quer que seja, por mais legítima e bem intencionada que seja essa vontade.”.

Mobilização, por seu turno, conforme as mesmas fontes, consiste no ato de mobilizar e carrega consigo uma forte conotação político-social, qual seja: conjunto de medidas governamentais e militares destinadas à defesa de um país ou à preparação dele para determinada ação militar, além de arregimentação para uma ação política ou reivindicatória.. (AURÉLIO, 1995 P. 437). É o mesmo Lino (Ibidem, n. p.) que avança afirmando que em se tratando da mobilização social, há três elementos fundamentais: o empoderamento, a irradiação e a convergência. Empoderamento, para ele, traduz-se na promoção da iniciativa e participação, na desconcentração do poder de decisão. O mesmo é tomado como uma energia em sua etimologia grega, e deve ser irradiado pressupondo-se a pluralidade, a diversidade e o fortalecimento crescente do tecido social gerado. E por fim, mas não menos relevante, todos estes elementos não se sustentam caso não haja convergência de esforços em prol de propósitos comuns.

Tudo indica que entender o processo pelo qual a mobilização social se dá permite apreenderem-se contribuições que ressoam na tematização da mobilização da subjetividade. O intento é entender a que se refere a mobilização, a mobilização do ser do humano. E mais, a mobilização da subjetividade em um contexto específico, o da organização empresarial e os mecanismos utilizados para que se obtenha o engajamento e “compromisso com a causa” corporativa. Igualmente neste contexto, os significados considerados caminham em direção semelhante, pelo menos no tocante ao discurso proferido. De início mobilizar a subjetividade remete à busca de adesão a uma cultura, a um propósito, a uma idéia ou intenção etc. Mas é também um chamado à participação. Não obstante as correlações existentes, permanece a indagação sobre o quanto o sentido implícito ou explícito presente no trato das pessoas não como “recursos”, mas como “sujeitos”, é conservada ao se dizer da mobilização da subjetividade como estratégia dentro das organizações.

A mobilização da subjetividade dos trabalhadores tem sido uma importante estratégia no processo de modernização sistêmica que vem se consolidando nas organizações brasileiras, no âmbito da reestruturação produtiva em curso no país há mais de uma década. A rigor, trata-se de uma estratégia presente no campo organizacional desde os primórdios da industrialização, como uma dimensão ideológica importante para a sustentação do sistema. No entanto, adquiriu relevo especial, e mesmo central, na gestão de pessoas nas organizações contemporâneas, porque viabiliza uma finalidade econômica, que é garantir a qualidade dos produtos e serviços. (CORRÊA et al, 2004, p. 2).

Mantendo-se bem distante daquilo que se preconiza no sentido originário visto, a mobilização da subjetividade, neste caso, toma forma com propósitos bastante diversos intencionando interesses econômicos. As autoras corroboram que já não basta somente a adesão dos trabalhadores aos objetivos empresariais, mas sim a sua integração ou comprometimento pleno, pautado no ideal de conciliação de interesses que por si se mostram antagônicos.

Nas empresas contemporâneas, o que se busca é o convencimento de que a divergência não existe, ou seja, os interesses e objetivos seriam os mesmos, tanto para os empresários como para os trabalhadores: a sobrevivência da organização num mercado altamente competitivo, por meio da qualidade dos produtos e serviços, das melhorias contínuas de produtividade e do controle de custos. (Ibidem, p. 2)

Entendida, portanto, como uma estratégia de gestão de pessoas nas empresas, a mobilização da subjetividade toma forma a partir da última década e se presentifica através da gestão participativa, da formação profissional e da comunicação interna. (CORRÊA et al, 2004). Interessa em especial aos propósitos delimitados neste texto a segunda estratégia enumerada pelas autoras, qual seja, formação profissional, e, sobretudo, o que denominam “moldagem de comportamentos”, que vem associada à escolarização e ao desenvolvimento de competências. O esforço empreendido está voltado para a análise e proposição de fundamentos para uma prática corrente hoje em dia, cujo objetivo se enquadra quer na abordagem de competências, quer na modelagem de comportamentos, que é o coaching.

Mudanças não são novidades no teorizar e no fazer da gestão de pessoas em organizações. Assinaladas insistentemente e reconhecidas no mundo do trabalho, as mudanças demandam uma revisão do perfil requerido dos trabalhadores, valorizando a polivalência, a qualificação técnica; a participação criadora; a mobilização da subjetividade; a capacidade de diagnosticar e, portanto de autonomia na ação e decisão. Tais pressupostos ou precondições desafiam as ciências que estudam o trabalho no sentido de identificar as necessidades políticas, sociais, materiais, culturais etc. decorrentes do processo de reestruturação produtiva. Necessidades que se revelam subjacentes às exigências de reconfiguração dos procedimentos operacionais, determinando o rearranjo de competências no contexto da nova divisão sociotécnica do trabalho. Dentre as exigências que se impõem, pelo menos duas interessam especialmente: o redesenho do papel da liderança e as técnicas ou estratégias de mobilização da subjetividade em uso nas organizações empresariais, pois que ambas estão em estreita correlação com o processo de coaching.

A analogia corrente com o mundo dos esportes referenda que o líder empresarial ao apropriar-se de seu “novo” papel de coach

tem compromisso tanto com os resultados quanto com a pessoa como um todo, seu desenvolvimento e sua realização. Exerce influências no desenvolvimento de padrões éticos, comportamentais e de excelência. O coach pode ser identificado ainda como um facilitador, um instrutor que age para reunir as capacidades das pessoas, grupos ou instituições com os quais se relaciona. (TOLFO, 2004, p. 270).

Há, portanto, autores que reconhecem que o coach “é um profissional que não se compromete apenas com os resultados, mas com o próprio desenvolvimento e realização da pessoa que é designada como seu cliente. Sua função é dar-lhe poder, para que suas intenções se transformem em ações que, por sua vez, se traduzam em resultados (ARAÚJO, 1999, p. 26 apud GIL, 2002, p. 283). Neste sentido, deve ser concebido como um composto de atividades intencionais a fim de que se caminhe em direção às aspirações de pessoas e de organizações, e que se dá a partir da busca de engajamento e compromisso com os resultados corporativos. Seus “fundamentos estão na estratégia, na mudança comportamental e na definição dos valores essenciais.”, não obstante também perpetuem uma visão de sujeitos organizacionais imaturos que, em sua relação com o trabalho, demandam ações que possam guiá-los ou conduzi-los. (TOLFO, 2004, p. 270). Enfim, “coach é o profissional do empowerment, pois o que lhe compete é dar poder para que a pessoa efetive as mudanças necessárias em seu ambiente de trabalho ou em sua conduta.” (GIL, 2002, p. 283). Nesta dimensão, apropria-se do papel de treinador, técnico ou educador naquilo que este tem de mais libertador. Etimologicamente educação, do latim educere, remete a “conduzir alguém ou algo para fora do lugar onde se encontra: no seu sair fora do lugar onde estava.” (MICHELAZZO [03], 1988 apud ANDÓ, 2000, p. 193). Originalmente o próprio sentido da palavra coach guarda o mesmo significado de alguém que conduz de um lugar a outro. (BRAGA¹ et al, 2006, p. 4).

No esforço empreendido da busca de fundamentos para o coaching encontrou-se no método fenomenológico existencial uma possibilidade de instrumentalizá-lo. Como método que inaugura uma perspectiva humanista, entendida como a filosofia que tem no homem seu elemento central, dá sustentação ao que se poderia denominar psicologia compreensiva que, por sua vez, mantém sob seu “guarda-chuva” as mais diversas microescolas. A propósito, método remete a “caminho”. Do grego meta (após) ódos (caminho). “Após o caminho” se encontra o mundo das coisas mesmas, ou de outro modo, é o caminho que conduz às coisas em si, desfazendo-se de todos os “pré” existentes (conceitos, teorias, suposições etc.).

Para além de uma consideração crítica e discussão em si do ato de mobilizar a subjetividade e as intenções ideológicas subjacentes ou explícitas, confia-se que interessa aos administradores, psicólogos, educadores e demais profissionais que adotam a prática do coaching ou quaisquer outras com os mesmos fins, compreender e fundamentar sua ação. Fala-se obviamente daqueles que se assumem como agentes transformadores, compromissados não somente com a técnica, mas principalmente com a conduta ética ao lidar com o ser do humano e todas as implicações decorrentes, “pois essa mobilização da subjetividade baliza as perspectivas e limites dos projetos educativos que propõem alternativas às estratégias empresariais.” (CORRÊA et al, 2004, p. 3). Portanto, o foco presente não está em se explorar a análise crítica em si da estratégia em questão e suas conseqüências políticas, ainda que indagar, refletir e atentar para o fato são certamente atos de extrema relevância. Fiel ao método fenomenológico, entretanto, deve-se permitir colocar entre parênteses a acepção de homem como ser bio-psico-social para que se possa trilhar um outro caminho em direção à essência do coaching como um processo de mobilização da subjetividade. Mesmo porque, render-se a determinismos é negar a natureza do humano, pois que já os gregos confiavam na capacidade de transformação inerente a esta natureza.

Isso quer dizer que, seja pela ação ou pela omissão, todos nós somos sujeitos da história, e não meros espectadores. Como já dizia Paulo Freire na década de 60, “o homem é, por natureza, um ser eminentemente transformador. Não é a acomodação, e sim a capacidade de transformar a realidade que caracteriza o modo de ser do homem no mundo. (LINO, s.d., n. p.).

Os argumentos da fenomenologia existencial reforçam a idéia de que o homem tem por condição de existência a liberdade de construir-se. Explicita, portanto, um caráter ativo, de movimento e não de espera. Na solidão, sem indicações de caminho a seguir, rumo a dar à própria vida, o homem parte na busca incessante de sentido para a existência. Não há, pois, sentido nem tampouco respostas prontas, estando assim, para a fenomenologia existencial, condenado a ser livre. Indelevelmente, mesmo na ausência de garantias, trata- se de fazer escolhas e responsabilizar-se por elas, construir a si próprio e dar sentido à sua vida. Ante tal indeterminismo se reconhece como um ser de possibilidades, incompleto, caracterizando-se como um vir a ser permanente, um pro-jeto. Assim, embora os humanistas levem em conta a máxima de Terêncio [04], reconhecem que existem diferenças marcantes e injustas entre os indivíduos, classes sociais etc. que emanam de condições socioeconômicas ou das circunstâncias de vida de cada biografia. (ROMERO, 2000, p. 184).

É nesta perspectiva que a subjetivação e singularização encontram espaço. Através de processos intersubjetivos as pessoas, contrariando lógicas do capital e subvertendo significados culturais, contrapondo-se aos determinismos social, biológico, psicológico ou religioso, expressam criativamente sua subjetividade. Sabe-se, contudo, que formar-se em uma cultura capitalista implica, em grande parte, a herança e modelagem da identidade calcada em códigos de valor de uso e troca. Entretanto,

na fenomenologia subjetividade não significa o contrário de objetividade. A objetividade e a subjetividade estão entrelaçadas e a assimilação do sentido de uma só é possível pela compreensão da outra; podemos falar então de uma objetivação da subjetividade humana na fenomenologia. [...] Em síntese, a fenomenologia é um método que busca conhecer o sujeito que faz ciência e o sujeito para quem a ciência é feita; [...] analisa a subjetividade humana em vários níveis: o transcendental, o existencial, o histórico, o social; [...] é o método que tem seu ponto de partida na especificidade do humano tomado in vivo acto, isto é, em subjetividade viva. (CASTRO, 2000, p. 43-47)

Com isto não se está esquecendo de apontar a perversa inversão da qual o ser humano é agente e paciente. As organizações não estão a serviço dos homens, são eles que existem em favor delas. Ao contrário, o que se pretende é, a partir das características inerentes ao pensar filosófico do ser, obter não só uma compreensão, mas, sobretudo, encontrar elementos norteadores para a práxis em gestão de pessoas, em especial para o coaching. Como será possível constatar mais adiante, há que se resgatar o ser do humano, entendendo a busca de subjetivação no contexto organizacional como ponte para a eliminação da dualidade agente-ação, sujeito-objeto. Visto que a perspectiva fenomenológica existencial preconiza que diante da solidão e da liberdade, o homem tem dois caminhos: aceitar-se numa existência autêntica como sujeito que escolhe responsavelmente e guia a própria vida; ou, de outro modo, cedendo à inautenticidade através da fuga para o anonimato do ser social, confundindo-se com a massa, buscando fora de si as respostas e a determinação de sua vida. Numa vivência inautêntica, se perde nas preocupações cotidianas, abre mão de sua individualidade em prol do anonimato que anula a singularidade do existir. Por outro lado, o perceber-se finito o conduz na direção de realizar seus projetos no presente, na busca de sentidos alternados e dinâmicos para a vida, ciente de que não há um único e genérico significado existencial que lhe é dado de fora para dentro.

4. Fenomenologia, Personalidade e Ação Administrativa: Temas Fundamentais.

O coaching fenomenológico existencial busca, então, suas bases na filosofia da existência. A Fenomenologia [05] surge em um momento histórico específico. A posição natural se funda no mundo dos fatos e eventos, no mundo da experiência enquanto a fenomenologia ocupa-se dos valores, significados, sentidos etc., enfim, no mundo-da-vida, no mundo das vivências. Pode, enfim, “ser entendida como o estudo que reúne os diferentes

modos de aparecer do fenômeno ou o discurso que expõe a inteligibilidade em que o sentido do fenômeno é articulado.” (BICUDO, 1999, p. 14) ou de outro modo, interessa-se pela consciência e os objetos da consciência. Assim, o método fenomenológico propôs o retorno às coisas mesmas ou às coisas em si. Opondo-se ao pensamento positivista, centra na experiência intuitiva e derruba a crença do senso comum de que as coisas do mundo existem independentemente dos sujeitos que as percebem. Para Husserl, na consciência tem-se certeza sobre a apreensão dos fenômenos, quer ilusórios ou reais.

Não há como afirmar que existe “o” método fenomenológico, porém muitos, conforme se considere estes ou aqueles fenomenólogos. A propósito, está-se falando da fenomenologia husserliana e de conceitos que surgem entre os seus principais seguidores: Heidegger e Gadamer, Ricouer e Merleau-Ponty, dentre outros.

De todo modo,

a aproximação da fenomenologia às ciências humanas pode ser de dois modos: uma como elucidação do comportamento humano enquanto modo originário de ser no mundo [...] O outro modo de aproximação é interno ao trabalho científico dessas ciências e toma em consideração as teorias e as explicações acumuladas por métodos não-fenomenológicos. (JOSGRILBERG, 2000, p. 80).

Em princípio, mais que um método, seria pertinente dizer que se está diante de

uma atitude assumida perante o mundo e o conhecimento que não apenas trabalha com um conceito estruturante de consciência, procedendo de modo analítico para esclarecê-lo.[...] Na atitude fenomenológica [...] a coisa não é tida como sendo em si, uma vez que não 1) está além da sua manifestação e, portanto, ela é relativa à percepção e dependente da consciência; 2) a consciência não é parte ou região de um campo mais amplo, mas é ela mesma um todo que é absoluto, não dependente, e que não tem nada fora de si. (BICUDO, 1999, p.15 e 17).

Em sua base distancia-se do empirismo cujo reverso

é o homem mesmo – a sua subjetividade, o seu mundo, o seu modo de ver não empírico. [...] Incluir a subjetividade nos modos de objetivação foi o caminho que Husserl se propôs a explorar tomando como eixo o caráter intencional dos atos de consciência na constituição ativa de objetividades. A crítica ao empirismo tornou claro que há distintos objetos e um tipo de objetividade que se constitui originariamente e imediatamente pela experiência do objeto na consciência. A constituição destes objetos é fundamento para outros tipos de experiência. (JOSGRILBERG, 2000, p.154)

4.1 Consciência. Intencionalidade. Reflexão. Vivência

Consciência e intencionalidade são noções coincidentes. Ou, dizendo de outro modo, a primeira é a essência e a característica peculiar da segunda (BICUDO, 1999, p. 18), e é representada pelo significado, o nome pelo qual o sujeito se dirige a cada objeto. Toda consciência é sempre dirigida a um objeto, ou seja, consciência não existe sem um objeto de referência, pois que um pensamento está sempre voltado para alguma coisa. Quando se pensa, se pensa acerca de algo. Então, refere-se ao próprio ato de estar-se atento a algo. Deste modo, o que se forma na consciência é o que constitui o mundo exterior ou o mundo-da-vida ou o mundo das coisas mesmas. A intencionalidade da consciência identifica e constitui os objetos da percepção, dotando-os de um sentido.

Para Husserl, essa experiência do objeto à consciência, e segundo os modos de se dar na consciência, é mais fundamental que a experiência de fatos. A experiência de fatos só é possível porque antes as coisas são experimentadas como mundo, vida, significado, horizonte etc. em termos de uma consciência [minha consciência] em correlação com o mundo. A contínua explicitação dessa correlação é tarefa da fenomenologia. (JOSGRILBERG, 2000, p. 78-79).

Os fenômenos são, pois, reais na medida em que são parte do mundo que se concebe na consciência. Existem a partir dos significados que se atribuem a eles. Assim o objeto da fenomenologia é a experiência vivida do sujeito e não concepções metafísicas que extrapolam ao trabalho da consciência e não possuem uma intencionalidade em sua produção.

Recorrendo-se ao sentido etimológico, intenção remete a intento, tendi, tentum, ere, cujo significado se associa a tender em uma direção, tender para, abrir, tornar atento, aumentar, sustentar, dar intensidade, afirmar com força [06]. Donde se conclui que consciência traduz-se em um abrir-se, voltar-se para o mundo das coisas mesmas, um movimento de estender-se em direção aos objetos. Após tecer estas considerações, Bicudo (1999, p. 18) adverte que “esse algo não se refere apenas ao visualmente presente, mas abrange o movimento de efetivação ou o desejo de efetivação do ato em que a vivência se dá.”. Esse estender-se significa que a consciência “enlaça” o objeto ao qual se dirige e, então, a dicotomia sujeito-objeto não encontra lugar na atitude fenomenológica. São, antes, uma mesma coisa, dizendo respeito ao que se denomina síntese noesis-noema [07]. Mais do que dirigir-se intencionalmente para o objeto, a consciência, também, intenciona as próprias vivências. A intencionalidade é um objetivo, mas ainda uma doação de sentido, atribuição de significados. O verbete “intenção”, para a fenomenologia vai além de projeção de um desejo, denotando um ato de consciência a partir do qual a percepção, a imaginação, a conceitualização de um objeto se dá ao sujeito.

Por outro lado, o voltar-se sobre consiste no ato reflexivo e permite a compreensão das vivências, das experiências. Neste aspecto é um voltar-se às percepções iniciais, às primeiras percepções, dando-se um passo atrás para olhar o vivido, o ato, a realização. Pressupõe um afastamento e ao mesmo tempo uma intencionalidade de envolver-se deliberadamente no ato de refletir. Esse é o sentido de transcendência na fenomenologia: uma percepção retrospectiva do vivido, de modo que haja evidência dos atos geradores do noema. Outro conceito importante é o de vivência (Erlebnis), que se refere a todo ato psíquico. A experimentação consciente e intencional constitui, portanto, o foco de estudo da fenomenologia. Contudo, em sua intencionalidade, a vivência consciente engloba o estudo dos objetos das mesmas, pois que são referências essenciais. Trata-se de experienciar conscientemente a situação factual.

Cobra (2001, n.p.) reafirma que para o expoente da fenomenologia,

os objetos dos fenômenos psíquicos independem da existência de sua réplica exata no mundo real porque contêm o próprio objeto. A descrição de atos mentais, assim, envolve a descrição de seus objetos, mas somente como fenômenos e sem assumir ou afirmar sua existência no mundo empírico. O objeto não precisa de fato existir. Foi um uso novo do termo "intencionalidade" que antes se aplicava apenas ao direcionamento da vontade.

Portanto, os elementos Consciência, Intenção, Reflexão e Vivência estão em relação estreita e o entendimento de seus significados dentro da fenomenologia tem implicações relevantes para a prática do coaching.

4.2 O método: Redução Fenomenológica, Redução Eidética e Redução Transcendental

Husserl designa diferentemente o processo referindo-se a ele como “redução”, “redução transcendental”, “redução fenomenológica” e epoché. (BICUDO, 1999, p. 22). “Especialistas em Husserl costumam distinguir até seis espécies diversas de reduções, donde a grande diversidade de exposições da fenomenologia, [...] as principais são evidentemente três: a redução filosófica, a redução fenomenológica e a redução eidética.” (CARMO, 1974, p. 15). Reduzir é diferente de desconsiderar e de ignorar. Reduzir é “colocar entre parênteses” tudo o que está além da essência da situação factual que se mostra à consciência. É, pois, um processo intelectual que suspende ou deixa de considerar determinados juízos ou conhecimentos acerca da situação factual. É antes de tudo um modo peculiar de abordar um problema. Ou seja, ocupar-se da busca de respostas à indagação: quais os significados contidos nas afirmações acerca da situação factual presente na consciência?

Sabaj (2005, p. 53) sintetiza de forma clara o processo:

A través del recurso de la epojé, es posible, primero, una reducción trascendental que abre camino hacia la intuición inmediata que, según Husserl, es la única garantía para alcanzar la certeza. El trásito de lo trascendental a lo inmanente permite acceder a las vivencias puras, a los actos intencionales. Luego, se logra una reducción eidética que se caracteriza por la aprehensión de esencias universalmente válidas [eidos]. A través de la intuición eidética se logra una experiencia directa [vivencia] de los universales.

Redução filosófica. Evidência. Consiste na suspensão de todos os sistemas filosóficos, teorias existentes e visões de mundo, a fim de que se atinja as coisas mesmas. Husserl parte da objetividade no mundo-da-vida, mediante a obtenção das idéias claras e distintas que são próprias da situação factual percebida, direcionando-se para sua compreensão, seu entendimento. Voltar-se às coisas mesmas nada mais é que um regresso à análise e reflexão sobre o concreto tal como se apresenta como fenômeno na consciência, confiando-se que a percepção pura revela a essência primeira das coisas. A proposta vem impregnada da necessidade de se desfazer totalmente de quaisquer juízos de valor subjetivos. Assim, trata-se de olhar com olhos de principiante, “em seu sentido mais nobre: aquele que volta sempre aos princípios de onde parte todo pensamento, às fontes que alimentam a reflexão.” (CARMO, 1974, p. 18). O que está fora do campo de consciência é colocado entre parênteses, em certo sentido referindo-se a tudo que pode ser entendido como uma pré-significação ou pré-conceito acerca daquilo que se apresenta. Deste modo, o que se apresenta à consciência define “a existência” para o sujeito de algo, o que torna a relação sujeito-objeto como indissociável. Em outras palavras, na significação presente, ou no fenômeno, estão contidos sujeito e objeto, um inexiste sem o outro. O que se pretende é chegar à verdade científica, mas se sabe que nenhuma ciência oferece acesso à verdade absoluta e para Husserl, ela só nos é dada pela evidência.

A evidência que é uma experiência ou uma intuição na qual as coisas estão presentes por si mesmas à mente. [...] Existem várias espécies de evidência [...] Existem evidências que não excluem totalmente a possibilidade de que alguma dúvida surja a seu respeito e que podem ser chamadas de “evidências assertóricas”. Ora, o de que precisamos é de verdades absolutamente indubitáveis, que excluam toda dúvida possível. Tal certeza só nos poderá ser dada por um tipo especial de evidência que poderemos chamar de “evidência apodítica”. (CARMO, 1974, p. 19).

Assim, pela redução filosófica é que se torna possível o retorno às coisas mesmas.

Redução fenomenológica. Redução Transcendental. Subjetividade Transcendental. Percepção. “Num primeiro momento somos convidados a colocar entre parênteses a existência transcendente do mundo [Redução filosófica] para, no momento seguinte, considerá-lo unicamente como fenômeno, ou seja, aquilo que está presente, que aparece à nossa mente e enquanto aparece.” (Ibidem,, p. 21). Como resultado, o que se tem é a Subjetividade Pura ou Transcendental, o Eu Puro. Deste modo, na redução fenomenológica o objeto como fenômeno consciente (noema) é o que tem relevância e o próprio ato de perceber constitui a noesis. Por outro lado, o empiricamente comprovado não é suficiente para açambarcar tudo o que a situação factual pode revelar ou significar. Interessa, sobremaneira, o modo como se apreende o mundo, sugerindo que um mesmo objeto pode se apresentar a diferentes sujeitos com significações distintas. Concentrar na experiência é focar em sua realidade singular. Importa à fenomenologia como esta experiência se dá e não se há no mundo-da-vida um objeto empiricamente correspondente. Não se trata de duvidar do mundo, mas colocá-lo entre parênteses como existência transcendente. A redução fenomenológica não parte, pois, da dúvida na existência do mundo. Contudo, colocá-lo entre parênteses traduz-se na busca de se atingir um olhar novo sobre ele. Redução fenomenológica nada mais é do que chegar-se às realidades constituídas pelos puros fenômenos; é o processo a partir do qual se atém ao que é consciente, ao que constitui o mundo-da-vida tal qual se mostra e como se mostra. Dentro desta visão, o mundo das coisas se torna um correlato da consciência.

Por outro lado, a Redução Transcendental conforme atesta Cobra (2001, n.p.) “basicamente seria a redução fenomenológica aplicada ao próprio sujeito, que então se vê não como um ser real, empírico, mas como consciência pura, transcendental, geradora de todo significado.” Somente a redução transcendental se ocupará de explorar com rigor todas as afirmações de modo a justificá-las. A reflexão é o componente da redução transcendental que permite evidenciarem-se as raízes cognitivas das próprias afirmações presentes nos atos de consciência que são explicitados através da redução. Através dela toma-se consciência dos atos e de si. Diz respeito ao colocar entre parênteses não só a existência, porém tudo o que não é correlato da consciência pura. Neste movimento, o produto da redução transcendental nada mais é do que a maneira como o objeto é dado ao sujeito.

Não obstante, percepção, em sua significação fenomenológica, diz respeito à experiência de perceber-se uma coisa não só sensitivamente. Diz respeito à tomada de consciência. É a via pela qual o imbricamento sujeito-objeto se presentifica, conformando a existência. Implica um sentir integral e diferentemente configurado nas possibilidades que envolvem os aspectos sensoriais (ouvir, cheirar, ver, tocar). Podem-se obter múltiplas percepções de uma situação factual, apesar disso não há o risco de se perder em concepções subjetivas diversas porque para a fenomenologia há uma unidade interna conservada à qual Husserl denomina síntese de identificação. Ela assegura o reconhecimento universal próprio e essencial presente na coisa percebida.

Para concluir, ao se colocar entre parênteses o mundo real, procede-se à redução fenomenológica atribuindo-se valor à visão de mundo do sujeito. “[...] Observemos que uma vez alcançado seu objetivo, a saber o Eu Puro com seus fenômenos, a fenomenologia não procura explicá-lo nem, muito menos, prová-lo mas unicamente descrevê-lo”. (CARMO, 1974, p. 22).

Intersubjetividade. Intuição. Redução Eidética ou à idéia (eidos, do grego, idéia ou essência) remete, por sua vez, à busca do significado verdadeiro, visto que a relação sujeito-objeto (subjetividade e objetividade) é indissociável. Ver as coisas "como elas são na realidade" diz respeito menos à comprovação empírica de uma existência objetiva e mais uma captação sensorial e ao mesmo tempo uma significação. Assim, o fenômeno que se apresenta à consciência contém em si a representação do objeto em sua significação subjetiva. Chegar à essência ou idéia primeira é resgatar o que há de universalidade no apreendido, tornando a experiência individual um processo posto em comum com as experiências dos demais indivíduos. A intuição é o caminho para se atingi-la, traduzindo-se em ato que não só capta imediatamente as qualidades sensíveis, como ainda e, principalmente, capta as essências. A este tipo especial se define como intuição eidética. E, ao se eleger uma faculdade necessária e que assume uma posição de pré-condição neste caso, é a imaginação que põe em relevo o que existe de essencial na situação factual.

A noção de intersubjetividade adquire, neste aspecto, crucial relevância. A essência de cada objeto apreendido o torna único e a um só tempo identificável por qualquer sujeito que o compartilhe perceptivamente, muito embora as vivências sensoriais (visão, audição etc.) nunca sejam as mesmas em um mesmo indivíduo, nem tampouco permaneçam estáveis de um indivíduo para outro, porém ainda assim todos são capazes de nomeá-lo, de significá-lo de forma inteligível para si e ao mesmo tempo para os demais. Na fenomenologia cada objeto possui um elemento essencial Invariante.

Não importa para a Fenomenologia como o mundo real afeta os sentidos. Husserl distingue entre percepção e intuição. Alguém pode perceber e estar consciente de algo, porém sem intuir o seu significado. A intuição eidética é essencial para a redução eidética. Ela é o dar-se conta da essência, do significado do que foi percebido. (COBRA, 2001, n.p.)

Para Husserl, todo fato particular guarda em si uma generalidade, algo de essencial que o faz reconhecível por todos. Para se chegar à essência, não se afasta do fato particular, ao contrário, volta-se para ele com o intuito de se obter o seu significado mais profundo. Deste modo,

[...] um fato é um fato e, como tal, não interessa ao fenomenólogo; mas todo fato, todo fenômeno tem um sentido, tem um feixe ou um núcleo de significações que constitui a fonte de todos os seus predicados necessários. A fenomenologia procura atingir esse núcleo de significação necessária, ou seja, a essência do fenômeno. (CARMO, 1974, p. 28).

4.3 O Existir: Ser-no-mundo. Maneiras de existir

Temporizar. Espacializar. Escolher. Forghieri (1993) trata de apresentar uma concepção de personalidade a “partir” e “além” de Husserl, de Merleau-Ponty, Heidegger, Buber e Sartre. Todas as considerações a seguir têm como referência a proposição da autora.

Como se sabe, dependendo da perspectiva que se empresta à realidade, é possível distinguir as diferentes fenomenologias preconizadas por cada autor: transcendental, husserliana, existencial (Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty), hermenêutica (Hans George Gadamer e Martin Heidegger). Não se trata aqui de estabelecer paralelos e nem tampouco distinguir semelhanças ou diferenças. O propósito é extrair dentre eles os conceitos que permitem a compreensão humana e servem de fundamentos à prática do coaching. O destaque deste ou daquele autor, deste ou daquele conceito partiu estritamente do quão os mesmos trariam essa contribuição. Sabe-se, inclusive, que dentro da diversidade da abordagem humanista, mesmo em se tratando da vertente fenomenológica existencial, se torna uma pretensão hercúlea a idéia de construção acabada e definitiva de fundamentos.

Assim, em Forghieri (Ibidem, p. 26) personalidade é “tomada como o conjunto de características do existir humano, consideradas e descritas de acordo com o modo como são percebidas e compreendidas, pela pessoa, no decorrer da vivência cotidiana imediata e tendo como fundamentos seus aspectos fenomenológicos primordiais.”

Ser-no-mundo. Afirmar que o humano é o único ser existente é dizer que se trata do único ser que tem consciência de sua existência. Experimenta-se o cotidiano, o mundo com “uma familiaridade imediata e pré-reflexiva” que não é necessariamente dada pelo conhecimento das ciências. Desta feita, “ser-no-mundo não quer dizer que o homem se acha no meio da natureza ao lado de árvores, animais e outros homens [...] é uma estrutura de realização [...] O homem está sempre superando os limites entre o dentro e o fora”. (HEIDEGGER, 1988, p. 20). O ser humano está, pois, implicado no mundo e é esta vivência que confere uma identidade própria a ele; até porque o localizar-se espacial e temporalmente está imbricado nela. O humano precisa do mundo para ser e vice-versa. A subjetividade para o ser, é sempre em relação a algo ou alguém, “a essência do homem está em se ser relativamente” (Ibidem, 1971, p. 54). Não se deve entender o ser do humano como uma “entidade” que existe independente do mundo e que eventualmente se manifesta. A existência só faz sentido se vista à luz da significação inerente. As pessoas e coisas existem a partir do significado que assumem para alguém.

“Mundo” é o conjunto de relações significativas dentro do qual a pessoa existe; embora seja vivenciado como uma totalidade, apresenta-se ao homem sob três aspectos simultâneos, porém, diferentes: o circundante, o humano e o próprio. (BINSWANGER [08], 1967 apud FORGHIERI, 1999 p. 29).

O circundante é a relação que se estabelece com o que se denomina ambiente e cuja modalidade preponderante é a adaptação ou ajustamento (sujeito-mundo). Envolve o que se poderia considerar tudo aquilo que se apresenta material, incluindo o próprio corpo do ser humano. Vivencia-se irreflexivamente este circundante em uma experiência sensorial (ver, cheirar, tocar etc.) e totalizada. As coisas se apresentam tal como são e assumem relevância à medida que têm significado para o sujeito e que este se relaciona com elas. Neste sentido, é corporalmente que a vivência se dá, mesmo que esta se configure para além das sensações. Ao se rememorar, por exemplo, ou imaginar são as sensações armazenas que são atualizadas. Do mesmo modo, a experimentação de limites origina-se desta presença corpórea. O ambiente físico apresenta-se com suas demarcações enquanto, diferentemente, o corpo do sujeito que se relaciona com o circundante se estende para além daquelas demarcações contidas nos limites da pele que o cobre, visto que as experiências presentes trazem consigo o já vivido, bem como o que se idealiza viver. O mundo tanto é constituído de sensações quanto de significação, tornando o existir ilimitado. O determinismo físico é, para o humano, relativo sob a perspectiva fenomenológica, pois é possível transcendê-lo, até porque como humano tem consciência dele, mundo, e da sua própria corporeidade. O humano, diversamente dos outros animais, não se mantém preso aos condicionamentos e nem está condenado a apenas “reagir” eternamente. Num ato consciente é capaz de refletir sobre si e sobre as coisas. Na busca de adaptação, na verdade ele transforma, age sobre a natureza.

O “mundo” humano, por seu turno, refere-se à inter-relação sujeito-sujeito. O existir humano é fundamentalmente ser-com e como tal vem sempre carregado de reciprocidade e inter-influência. Compartilhar o mundo com outros seres humanos também contribui, obviamente, para a construção da identidade individual e é ao mesmo tempo um meio de se realizar as próprias potencialidades ditas humanas. Ser em comum é o que se espera na relação sujeito-sujeito; não se trata apenas de uma adaptação como no caso da relação sujeito-mundo. Entretanto, nem sempre é o que se apresenta. A tentativa de dominação, a abdicação de responsabilidades não raro são estratégias de que o ser humano se utiliza neste contexto. Ao fazê-lo, recusa-se a tudo o que representaria possibilidade de realização plena de suas potencialidades, a saber: o amor, a liberdade e a responsabilidade. (FORGHIERI, 1999). É, portanto, quando o ser humano se encontra com os outros e entra em relação é que cumpre sua condição de humanidade.

Relacionar-se consigo mesmo, no que tange à autoconsciência e autoconhecimento, é a terceira possibilidade de ser-no-mundo e diz respeito ao “mundo” próprio. Configura o significado que as experiências assumem para o sujeito e pelo conhecimento de si e do mundo. Se para o “mundo” circundante a modalidade preponderante é a adaptação, para o “mundo” próprio o pensamento configura-se como função peculiar. O autoconhecimento possibilita tanto a consciência de si quanto daquilo em que se está implicado, comprometido ou envolvido. Para ser e realizar-se, o humano se descobre na relação que estabelece consigo e com os demais; a relação entre o dentro e o fora. No “mundo” próprio, a pessoa se percebe, ao mesmo tempo, como sujeito e objeto da experiência,

ela dá-se conta de si mesma como um ser existente no mundo, colocando- se tanto na situação concreta do momento como, também, vislumbrando a variedade de suas possibilidades. Assim sendo, a consciência de si e o autoconhecimento implicam a autotranscendência; esta é a capacidade do ser humano [...] de ultrapassar o momento presente, o aqui e agora, o espaço e o tempo objetivos. Pela autotranscendência a pessoa traz o passado e o futuro para o instante atual de sua existência e se reconhece como sujeito responsável por suas decisões e seus atos. (Ibidem,, p. 32)

As funções mentais (entendimento, raciocínio, memória, imaginação, reflexão, intuição e linguagem) são, pois, como dito, as vias de relação do sujeito consigo e com o mundo, sem que isto se traduza em um ensimesmamento.

Fechando os aspectos relativos ao ser-no-mundo, Forghieri (1999, p. 34) confirma a necessidade de se levar em consideração as três formas para que se entenda o existir humano: “o circundante, que requer adaptação e ajustamento; o humano que se caracteriza na relação ou nas influências recíprocas entre as pessoas; o próprio, que se caracteriza pelo pensamento e transcendência da situação imediata.” Sua concepção de personalidade ainda inclui o que chama de maneiras de existir. O ser humano existe face à tomada de consciência de si e do mundo. A existência se dá no mundo-da-vida, no cotidiano, e é nele que se tem intuitivamente e de forma global uma compreensão e um sentimento pré-reflexivos daquilo que se é enquanto ser. É neste lugar que o ser do humano se configura. O perceber e o intuir intencionais permitem ao sujeito contextualizar e conectar a vivência do mundo consigo. Portanto, compreender e sentir estão contidos na experiência cotidiana e “compreendo o meu existir com um sentimento pré-reflexivo que posso identificar como sendo de mal-estar, intranqüilidade e preocupação, ou de bem-estar, tranqüilidade e sintonia, em relação a mim e ao mundo que me cerca.” (Ibidem,, p. 36).

A Maneira preocupada de existir envolve, num continuum, desde uma leve intranqüilidade ou desconforto por algo até, no outro extremo, a profunda angústia. Sua expressão pode dizer respeito tanto a uma situação factual presente, quanto referir-se ao que já se foi ou se receia vir a ocorrer. Ainda que possa assumir uma dimensão intensa em contextos especiais, a maneira preocupada quase sempre se dá de forma branda e difusa no cotidiano. É inerente ao existir, o realizar-se, o ser em si e por isto mesmo está-se a todo instante sendo solicitado a tornar-se algo para alguém ou para alguma coisa. Assim, o estado de intranqüilidade se torna uma condição natural do próprio ser no mundo. No caso da angústia, o caráter difuso da intranqüilidade se acentua, nela carece-se de objeto definido como fonte. Na realidade sua fonte é o “nada”, o vazio existencial. Por isso, como afiança Forghieri (1999) sente-se a necessidade de transmutá-la em medo para que o enfrentamento encontre um alvo ao qual canalizar todo esforço para vencê-lo. Por outro lado, a Maneira sintonizada de existir é demarcada por estados momentâneos, de apenas alguns instantes, de completa harmonia os quais Buber [09] (1977, apud FORGHIERI, 1999) denomina relação Eu-Tu. Configuram-se em todas as dimensões do existir e das inter-relações que se estabelece, não só na relação sujeito-sujeito. Nesses estados a perspectiva espaço-temporal dilui-se completamente no tocante à suas objetividades. E, por fim, a Maneira racional de existir que nada mais é que o movimento reflexivo que se estabelece numa tentativa de compreensão dos dois modos precedentes (preocupado e sintonizado).

Como seres racionais, temos necessidade de analisar nossa vivência cotidiana imediata para conceituá-la e estabelecer relação entre nossas experiências, elaborando desse modo um conjunto de conceitos, relacionados por princípios coerentes, que nos permitam explicá-las. Isso nos fornece elementos [...] para conhecermos o nosso existir no mundo, e elaborar uma “teoria” sobre o mesmo [...] (FORGHIERI, 1999, p. 39).

A presença de um mundo concreto, ainda que apreendido diferentemente por quem o compartilhe, exige uma adequação e ajustamento das ações. A dinâmica do ser-no-mundo pressupõe que este age em consonância com a peculiaridade de compreensão que tem das situações, porém não há como prescindir-se deste ajustamento se se deseja obter eficiência e eficácia no mundo-da-vida. Quando se vive experiências agradáveis ou desagradáveis com intensidades moderadas, tende-se a concentrar-se apenas no cotidiano a ponto de perder-se a consciência acerca da própria existência, o que se está sentindo ou qual a significação que a vida possui. É, pois, a forma inautêntica de existir. Quando há, por outro lado, a intensificação do desprazer ou se vive a angústia, experimenta-se quase que a exigência de que se reflita a propósito dela. O estado toma o sujeito de tal modo que o obriga a identificar motivos e meios para que se auto-supere.

Temporizar. Espacializar. Existir deriva do latim “existire” (ex = fora de; sistere = colocar, por) que corresponde à palavra grega “extasis” (sair de si mesmo ou transcender). Daí, existir e transcender se equivalem no significado, dizendo respeito a lançar-se para fora, ultrapassar o imediato, o que, por sua vez, remete a temporalizar. “A existência humana consiste em estar continuamente saindo de si mesma, transcendendo a situação imediata, em direção a algo que ainda poderá ser para completar-se, ou totalizar-se.” (FORGIHERI, 1999, p. 42). O ser humano, então, é sempre um vir a ser, como também é um ser de possibilidades que nunca chegará a se realizar em toda a sua amplitude. Neste movimento, o tempo tanto pode ser experiênciado como monótono e sem sentido, como igualmente perene e pleno. Ao racionalizá-lo, porém, o ser humano culminou no estabelecimento de uma ordem sintetizada nas dimensões: passado, presente e futuro. Não obstante, no mundo-da-vida vive-se o tempo em sua totalidade. O presente contém em si o que se foi, o que se está sendo e o que se pretende ser. Se se vive as situações factuais de forma sintonizada ou preocupada, define-se uma “velocidade” subjetiva variável na intensidade, como ainda uma “extensividade” ao existir no tempo. “Nosso temporalizar estende-se, tanto em relação ao nosso passado como em direção ao futuro, com amplitude ou restrição”. (Ibidem,, p. 43). No amplo espectro do existir, é a racionalidade a responsável por estabelecer parâmetros que impeçam o humano de perder-se no vazio. Refletir sobre as vivências em cada dimensão temporal permite planejá-las.

Assim como o ser do humano se dá no tempo, dá-se também no espaço. As coisas, as pessoas e dentre elas o próprio sujeito que se insere são constantemente localizadas num determinado lugar, num dado momento. A referência espacial permite não só a racionalização geográfica que organiza, dá acesso e delimita, como, sobretudo a consciência de que é um ser existente, reflete e compreende o seu existir no mundo-da-vida. Tal como no temporizar, espacializar não se restringe ao “estar aqui”, mas inclui o “ter estado lá” e o “estar acolá”, sugerindo uma “extensividade” para além de seu próprio corpo e do mundo circundante e, também, a vivência da proximidade ou do distanciamento. Também neste caso, a maneira de existir interfere nesta experienciação: pode-se se sentir sozinho em meio a uma multidão ou se sentir próximo estando-se fisicamente distante. Do mesmo modo, pode-se estar espacialmente num ambiente físico amplo e sentir-se como se experimentasse o enclausuramento entre quatro paredes ou vice-versa.

Portanto, igualmente no temporalizar e no espacializar a vivência de amplitude ou restrição vincula-se estreitamente a visualização de possibilidades e a esperança de poder concretizá-las ou não. Sendo deste modo, um aspecto no mínimo interessante, vale nota: “o ‘ver’ sob um prisma vivencial, tem um sentido amplo e, de certo modo, paradoxal, pois tanto pode referir-se ao meu campo perceptual atual como ao meu ‘mundo’, que abrange uma ampla gama de percepções e significados aquém e além do meu ambiente físico.” (FORGHIERI, 1999, p. 45). Mais uma característica peculiar do espacializar está configurada na familiaridade ou estranheza, quer se pense no ambiente concreto ou no próprio existir no mundo e em conformidade com a maneira de existir preocupada ou sintonizada.

Escolher. A tomada de consciência constitui ponto fundamental na fenomenologia. Escolher e exercer a própria liberdade só se tornam possíveis à medida que o sujeito se abre à vivência e reflete para compreendê-la. Só é possível escolha na presença de alternativas múltiplas e na compreensão verdadeira. No entendimento da fenomenologia a verdade se dá na relação estabelecida entre sujeito e coisa, o que confere uma relatividade a ela. Contudo, como assegurar uma compreensão verdadeira visto que a mesma é relativa?

Primeiro parte-se da necessidade de acordos intersubjetivos, o ser com, para que se possam minimizar as verdades de cada um. Também, é importante frisar que, para a fenomenologia, “não há uma verdade existente por si mesma” sob a qual se obtenha certeza e fundamentos para que se façam escolhas. Têm-se, ao contrário, possibilidades a serem ou não serem confirmadas em determinadas situações, nas quais o sujeito se comporta de um modo ou de outro. (FORGHIERI, 1999). Mesmo porque, a verdade ou a realidade se dão ao entendimento a partir de uma perspectiva histórica, o que se reflete na escolha. Para escolher o sujeito se baseia no conhecimento relacionado ao que já aconteceu, tanto quanto no que está acontecendo e no que

poderá vir a acontecer. São exatamente estes elementos que conferem à escolha seu caráter de exercício da liberdade e da responsabilidade. Decidir sob certeza absoluta é determinismo, não é liberdade. “Ao escolher, contamos apenas com nossa abertura à compreensão de nossa vivência e à de nossos semelhantes, que nos colocam diante de possibilidades, exigindo de nós responsabilidade para assumir o risco da imprevisibilidade das conseqüências de nossa decisão.” (Ibidem,, p. 48). De todo modo, fazer escolhas por si já implica o descarte de algo. Assim, a realização plena nunca é possível visto que fazer algo é também abrir mão de fazer alguma outra coisa. Por outro lado, agir possibilita a concretização das escolhas. Antes de fazê-las está-se sob a égide da dúvida. A certeza do que se escolheu e do que se renunciou só vem depois de feitas as escolhas e de implementá-las.

4.4 Da constituição ontológica do Ego e a consciência

Como visto, consciência é sempre ligada a algo, ao objeto, ainda que nada a habite. Os objetos da consciência estão, pois, no mundo transcendente e não dependem dela para existir. “Constatamos desta forma que a consciência pela própria forma de se dar, não tem como conter alguma coisa, e, sendo assim, não pode conter o Eu.”, além do que “[...] é comprovável, visível e descritível que nada a governa [...]”. (EHRLICH, 2000, p. 225-227). Ao se fazer a redução fenomenológica, acessa-se exatamente esta consciência que seconfigura na relação sujeito-objeto. “[...] O ‘Eu’, tanto quanto o mundo, é um existente relativo, isto é, objeto para a consciência.” (SARTRE, 1965 [10], p. 26 apud EHRLICH, 2000, p. 227); não considerar esta evidência é por em risco todo o pressuposto fenomenológico da intencionalidade espontânea da consciência. Com este raciocínio é possível chegar-se à idéia de que se está dispensado da imagem do “[...] Eu - interior porque, finalmente, tudo está fora, até nós mesmos: fora, no mundo, entre os outros. Então, não será em nenhum refúgio que nos encontraremos: será na rua, na cidade, no meio da multidão [...].”. (Ibidem, p. 228).

Assim, “há consciências totalmente absorvidas no objeto, onde o Eu não aparece, e consciências onde o eu aparece.” (Ibidem, p. 228). No primeiro caso as consciências não se tomam como objeto. Neste caso, quando a consciência de si não está presente, diz-se que a mesma se encontra absorvida pelo objeto e são evidentemente consciências irrefletidas, automáticas e espontâneas, as quais se denominam consciências de primeiro grau. Nelas, o Eu não está presente. Por outro lado, à medida que se apropria da consciência - a pessoa se vê no que faz -, é que se configura o que poderia ser compreendido como consciências de segundo grau. Dizendo de outro modo, as consciências de segundo grau são aquelas que “se caracterizam exatamente por tomar como objeto outra consciência [irrefletida]. E, com este ato [...] surge um objeto que não estava presente nas consciências de primeiro grau: o EU.” (Ibidem, p. 230). É o que ocorre comumente quando se retoma uma experiência anterior. Ehrlich (2000) deixa claro que o Eu não está na consciência irrefletida, e só se dá conta disso quando se toma essa mesma situação reflexivamente. Ao se refletir sobre uma experiência anterior, imediatamente o Eu surge.

A constituição do Ego se dá como um pólo de Estados, Ações e facultativamente de Qualidades, que são totalizados a partir da experiência. Ainda que se possa afirmar que há ego porque há consciência, o contrário não é verdadeiro. E se ele não habita a consciência, só pode estar no mundo, na realidade transcendente. Mas como ele se constitui?

Os Estados dizem respeito àquilo que se sente na relação sujeito-mundo e ele se dá à consciência a partir do ato de reflexão. Através dela se pode intuir o que se sente ou se experimenta em relação a alguém ou alguma coisa. Já que se trata de uma consciência refletida, enquadra-se no que se configura como uma consciência de segundo grau; porém a reação que se experimenta com relação a alguém numa determinada situação específica e momentaneamente diz respeito à consciência imediata do objeto e o que ele produz. No primeiro caso, tanto o passado como o presente e o futuro estão comprometidos com o que se sente, já a consciência imediata do objeto refere-se a uma instantaneidade ( que pode ser uma experiência irrefletida ou reflexiva, mas que não perdura, não compromete o futuro). Pode-se, por exemplo, ter ódio de alguém (estado) ou uma repulsão momentânea em relação a alguém por alguma ocorrência específica (consciência imediata do objeto). O ódio (estado) pode até se dar em decorrência de uma repulsão instantânea, porém ele a ultrapassa e faz parte do ser que se é. Também, é bom que se diga que o estado dá-se na relação com o objeto e é transcendente em relação à consciência, visto que ele permanece presente no ser mesmo quando a consciência do objeto ao qual este ódio se presentifica não faça parte todo tempo da consciência. Se este objeto se revela em lembrança ou em realidade concreta, o estado se atualiza imediatamente, até porque ele existe por um processo histórico e não devido a uma experiência momentânea. Assim, “o estado é segundo em relação às experiências irrefletidas, que precisam ser tomadas como objeto para serem totalizadas num Eu.” (EHRLICH, 2000, p. 237). No estado, totaliza-se e retoma- se, através da reflexão, um somatório de experiências irrefletidas que o irão consumar em um continuum de tempo. Então,

é desta forma que constituímos os estados: através da existência, nas relações com as coisas, com os outros, implicando um passado e um futuro para nosso ser. Compreendemos, então, que primeiramente ocorrem experiências irrefletidas, para que, depois, mediados pela reflexão crítica, possamos fazer alguma coisa delas, incluindo-as ou não numa totalidade. Mas a experiência é anterior ao Eu, ou seja, não depende de nós termos uma experiência de atração ou repulsão [...]. (Ibidem, p. 237).

As Ações, tal como os estados, também são constitutivas do Eu, conformam a identidade, e são vividas por ele como próprias a si; são intervenções que são reconhecidas como emanadas de si pelos sujeitos que as desenvolve. O mecanismo para tal não difere do já descrito para os estados. As consciências irrefletidas precisam ser tomadas como objeto de uma consciência refletida a fim de que sejam totalizadas e apropriadas pelo sujeito. Pode-se dizer que os estados e as ações são diretamente o ego.

Diversamente dos estados e das ações que são experimentados concretamente, as Qualidades se revelam como abstrações, mesmo que se considere que elas são totalizações que ocorrem a partir deles. Compõem facultativamente o ser do ego, configurando-se como nada mais do que atributos autodesignados. Possuem a peculiaridade de ser facultativas na medida em que o sujeito pode possuir concretamente uma qualidade sem, contudo se reconhecer como tal e neste sentido ela deixa de ser constitutiva do ser daquela pessoa. Por outro lado, as ações e os estados não decorrem e, então, não dependem de que a autodesignação de determinada qualidade ocorra para que se estabeleçam.

Portanto a visão de Sartre é a de que a personalidade se constitui como segue: primeiramente têm-se as experiências que poderão ser totalizadas em estados e ações e, ambos, poderão ser totalizados em qualidades, elementos articulados que já são em si constitutivos do ego. Esta constituição acontece através de um caminho que sempre se dá por uma via que vai do concreto para o abstrato, da existência para a essência. Não se nasce com o ego (essência) constituído e vai-se atualizando ao longo da vida, ao contrário. Assim, pode-se afirmar que “a consciência é, na verdade, a sustentação ontológica do ser do ego; que ela é anterior a ele e a constitui.” (Ibidem, p. 243). O ego é, pois, realizado pela criação contínua da consciência.

4.5 Liberdade engajada. Ação administrativa. Gestão pela formação humana. Gestão de recursos do humano

Fraga (2003) traz contribuições relevantes, e acredita-se precursoras, à aplicação da fenomenologia à prática da gestão. Entre suas considerações, uma parece primordial. Mais do que a ação sobre coisas e pessoas, a autora compreende a ação administrativa como resultado de uma liberdade engajada. Para ela antes de tratar-se de uma intervenção sobre, é inserção, é ação em co- humanidade e diz respeito a assumir a intersubjetividade como processo presente na gestão, o que confere responsabilidades recíprocas. Com base na Filosofia da Experiência e na Fenomenologia de Merleau-Ponty principalmente, sustenta argumentos que tornam claro um enfoque filosófico peculiar à gestão, que nada mais é do que buscar significados e sentindo para a ação administrativa. Compreende o espaço organizacional como o “do mundo concreto, das relações do indivíduo encarnado com o outro na existência humana, na qual as organizações são permanentemente espaço e tempo vividos.” (Ibidem, p. 26). Assim, o caráter histórico assume dimensões óbvias para os fenômenos administrativos, uma vez que resultam de uma articulação passado-presente-futuro, como ainda da visão do que foi-está sendo-virá a ser. Fala-se, pois, de uma organização existente, mas que tem história e que faz história. Com esta visão, ao se pensar o humano em interação com sua dimensão técnica-administrativa, leva-se em conta os fatos como fenômenos, trilhando os percursos daquilo que os motiva e dá significado, sentido. Além do que, acresce aos critérios científicos da administração (eficiência, eficácia e efetividade), a “relevância” e a “legitimidade” da ação em sua representatividade ou, de outro modo, a relevância do humano e legitimidade de sua ação, as quais deslocam o foco do “resultado”, somente, para a “conseqüência” da ação administrativa. Pensar em conseqüência é pensar em responsabilidade e intencionalidade. O humano é a “direção” e o “sentido”, conforme sugere, e deste modo, antes de se falar em gestão DE recursos humanos, fala-se de gestão de recursos DO humano legitimando as ações sob o teto da organização. A compreensão do ATO humano exige a compreensão da totalidade do SER do humano, visto que a ação se dá em conexão com uma totalidade e implica inter-relações importantes. Neste sentido, a Gestão e seu Agente são intencionados, para Fraga (2003), caracterizando a relação entre ambos como de implicação em que o sujeito é tomado como parte do objeto que intenciona. Baseada em Paul Ricoeur (1988 apud FRAGA, 2003 p. 4), é possível salientar que a ação é atividade essencialmente humana.

Essa abordagem é fundamental para rever a questão de o humano ser considerado um recurso na teoria, o que vem reforçando a prática de uma gestão sobre o humano, um tratamento que, além de orientar o gestor no sentido de reduzir seu semelhante a mero recurso entre os demais em uma organização, ainda o induz a se comportar, ele próprio, como esse mero recurso, submetendo-se a prescrições teóricas que desfiguram o que se constituiria em uma autêntica ação humana como profissional.

O propósito é a inserção do próprio humano na gestão, compreendendo-se que os agentes na ação administrativa são intencionados, conscientes e conseqüentes. O agente do qual trata a autora, “não se limita à determinada categoria funcional ou cargo, mas a pessoas em situação de trabalho com outras pessoas, independentemente de hierarquia ou atribuições.” (Ibidem, p. 4).

Recorrendo-se novamente a Paul Ricoeur (1988, apud FRAGA, 2003) torna-se possível distinguir três níveis de compreensão da ação: Silogismo prático, traduzido numa “disposição para”, numa intenção implicitamente presente; a explicação teleológica que ao contrário de buscar razões antecedentes, explica a intenção pelo fim. Reconhece o surgimento de um acontecimento como dependente de outro acontecimento e que tem como característica, ser exigido para algum fim. E, a descrição fenomenológica “apreende nessa intenção o agente consciente, entendido como uma rede de intencionalidades.” (Ibidem, p. 6). Em seguida, analisa as implicações que esta visão da ação humana tem para a teoria da administração considerando o agente, a formação humana, espaço e tempo, a concepção de organização, a questão do outro, do público e de Deus e, por fim, o resultado, a conseqüência, a relevância do humano e a legitimação da ação. A autora chega à síntese seguinte:

Figura 1

agente/ação

Fonte: adaptado de Fraga (2003)

É com este olhar que Fraga (2003) constrói a concepção do que denomina Gestão pela Formação Humana em que resgata as noções de que o ser do humano é em aberto, que formação e desenvolvimento são coincidentes, que se busca um saber que nunca irá ser alcançado em absoluto, porém que nunca se deixará de buscar e que educar é viver, implicando gestão/autogestão. Neste escopo, a ação administrativa, como ação eminentemente humana, tem como significado o que faz e o que busca como sentido, em que direção caminha. Entender a organização dentro de uma visão compreensiva, para ela, é compatível com o modelo sócio-técnico ou realidade sistêmica, considerando apenas que esta abordagem é incompleta visto que interior e exterior coexistem como separados e unidos. A realidade organizacional sob a perspectiva fenomenológica implica, entretanto, assumir que: os critérios da Relevância e Legitimação da Ação orientam os objetivos para o ser do humano como objetivo fim; a Efetividade dirige os objetivos para a intersubjetividade; objetivos hegemônicos são incompatíveis com tal proposta e o humano não só significa a realidade, como ainda lhe dá Sentido; o Desenvolvimento DO SER do humano não se limita à educação formalizada e à cultura, compreende isto sim a vivência de um ser em aberto.

A Gestão pela Formação Humana, pois, é uma práxis cujos fundamentos não podem limitar-se à cognição, à intelecção e às sensações, e que não está fechada na cultura e na experiência social do ser humano, vai além do resultado pré-estabelecido, abrange a conseqüência, quer da ação, do resultado da ação ou da omissão, podendo antecipar-lhes o seu sentido. (FRAGA, 2003, p. 150).

5. Considerações

Para que se consiga obter um entendimento pleno das implicações que serão arroladas, talvez seja necessário que o leitor recorra a outro texto (BRAGA² et al, 2006) do autor que versa sobre o processo de coaching, o qual descreve fluxos, ações, ferramentas e a operacionalidade em si das estratégias adotadas. O propósito não foi o de descrever o processo, nem tampouco ferramentas e a intervenção em si do coaching. Além do mais uma ressalva parece ainda pertinente. Estas considerações sobre as implicações dos conceitos discutidos, antes de pretender esgotar, objetiva dar indicações e explicitar aquelas que mais imediatamente acorreram para o autor, ciente de que outras igualmente relevantes poderão tomar corpo na visão de quem se dedicar a analisar e refletir sobre o tema.

A realização do processo de coaching, como se sabe, não se limita à capacidade de reunir um conjunto representativo de ferramentas que possam ser aplicadas e nem tampouco se restringe ao mero aconselhamento, exige, isto sim, o desenvolvimento de um conjunto de competências e o domínio de conhecimentos capazes de sustentar o desenvolvimento global e sistêmico das pessoas em sua relação com o trabalho.

5.1 Do Desenvolvimento do Processo

Tendo-se como referência um fluxo genérico em que o processo se estabelece, pode-se dizer que o Coaching Fenomenológico Existencial mantém um compromisso com o desenvolvimento global do ser do humano e é sob esta perspectiva que todo o trabalho, que parte de uma situação factual tal como se apresenta, é analisado e considerado.

Na fase inicial de contratação (Fase I), o que está em evidência é a identificação dos meios a partir dos quais a relação no âmbito do humano dar-se-á (sujeito-sujeito; coachee-coach). Neste primeiro instante uma questão já se coloca: quem é o cliente a ser assistido, organização ou pessoa? Do ponto de vista do enfoque fenomenológico não faz sentido tal indagação, pois sujeito-mundo estão em relação de reciprocidade e tanto um quanto outro só têm significado na co-existência. Ambos, pois, podem ser entendidos como clientes. A organização é aquilo que se apresenta na consciência dos sujeitos que são, ao mesmo tempo, parte dela. No tocante a este ato, Agente e Ação são intencionados. Os critérios norteadores associam eficiência, eficácia e efetividade com a relevância do ser do humano e a legitimidade de sua ação. Vai além do resultado em seu sentido estrito, buscando-se estabelecer e analisar as conseqüências de uma ação no contexto do trabalho. Quais as implicações para si e para os outros que irão decorrer? Partir da compatibilização de interesses é confiar que a relação empresa-funcionário pode ser harmonizada, que não há paradoxos e nem muito menos antagonismos. O compromisso primeiro no coaching é, pois, com o sujeito e sua existência, ou seja, o ser do humano em seu modo de existir e ser no mundo. Na dimensão da mundaneidade, a adaptação ao circundante é parte da proposta, tanto quanto o mundo humano, na medida em que o ser-com apresenta-se como foco, no que tem de implicação intersubjetiva. Porém é na dimensão do mundo próprio que o autoconhecimento e autoconsciência ganham relevância como possibilidade de transcendência do imediato, abrindo espaço para o plano pessoal, a intenção de realizar-se como projeto.

Na adoção da atitude fenomenológica parte-se, pois, da situação factual a que se tem acesso, quaisquer que sejam as fontes de origem. Utiliza-se, portanto da redução exatamente como um modo peculiar de abordar um problema, para se atingir a consciências dos atos e de si. Nas reuniões de coaching, o atendimento, a escuta fenomenológica se inicia a partir do relato, daquilo que é trazido pelo coachee, ou outro sujeito envolvido no processo, bem como seus sentimentos conseqüentes. O coach está, desde o primeiro momento, diante da realidade cotidiana do sujeito tal como ela se mostra em sua consciência e este constitui seu primeiro instrumento de trabalho, uma vez que vai partir do que tem, do que é concreto. Há uma personalização e individualização do processo, ele se atém ao que a consciência intencional do coachee evidencia. Nenhum pré-julgamento ou seletividade tem lugar, o que não quer dizer que se deva prescindir do ato reflexivo. Essencialmente parte-se em direção à captação de sentidos e significação da experiência.

Constitui um momento importante para se delimitar papéis e definirem-se as responsabilidades dos envolvidos. Mesmo porque, como visto, a subjetividade só faz sentido sempre em relação a algo ou alguém. Parte-se da noção de que há uma relação de sujeitos (coachee-coach) intencionados, ativos e responsáveis. Ao método ou atitude que é adotada atribui-se o mérito de reforçar a necessidade de que se atente para tudo o que é imediato e originário, eliminando tudo o que se apresenta como justificação, explicação ou suposição. O processo de redução (por entre parênteses) vale-se da idéia de desconexão e suspensão de juízo, apenas descrevendo e registrando a vivência, o ato consciente tal qual se apresenta e é apresentado pelo coachee. Nesta primeira etapa do processo, está por definir a natureza e os padrões em que a relação sujeito-sujeito; ainda que um desafio que se apresenta para o coach seja a compreensão das formas como o coachee configura sua relação sujeito-mundo.

Delimitado o foco de atenção e os meios para que a relação coachee-coach se estabeleça, passa-se à fase seguinte que deve ser compreendida como inserção (Fase II) ao contrário de intervenção. Ao se planejar o processo não se deve perder de vista que o coachee é o elemento central e com ele deve permanecer a posse do mesmo. Entretanto, não se pode negligenciar a exigência de que se planeje cada reunião de coaching. Em cada uma o rigor metodológico deve ser assegurado, delimitando três momentos importantes de se levar a termo: planejar (esclarecer o que e o como), abordar a questão em tempo real, a distância ou fora do cenário de ocorrência (inserção do coachee e coach em co-relação no enfrentamento em si: descrição, reflexão e ação) e por fim, follow up (avaliação da reunião e inventário da aprendizagem obtida). Refletir sobre a dimensão temporal e o espacializar permitem uma abertura de perspectivas, criação de horizontes, compreensão de limites e apropriação consciente e responsável de papéis.

No coaching o sujeito é em aberto, ainda que o processo não o seja. Parte-se daquilo que se apresenta como fonte de preocupação ou sintonia peculiar ao modo de existir do coachee. Não obstante se dê no contexto do trabalho e quase invariavelmente os temas estejam implicados com este, o caráter personalizado e individualizado decorre da singularidade de cada sujeito entendido como um pro-jeto, à medida que se trata de um ser com potencialidades ilimitadas, porém que nunca se realizará por completo, haja vista que deverá fazer escolhas, trilhar caminhos, priorizar interesses e intencionar atos. Torna-se imprescindível construir os limites e fixar aonde se deseja chegar, para que posteriormente a inserção funcione como facilitação do desenvolvimento. O que está em jogo, na fase de inserção, é despertar no coachee a consciência de si e do mundo e sua conseqüente co- responsabilidade pelas ações que empreende. O mundo do trabalho e o mundo numa perspectiva ampla são definidos pelo conjunto de relações significativas que se estabelece. O “mundo” circundante da organização é temporal e espacialmente determinado e, portanto, fruto do que se é, do que se foi e do que se deseja ser, bem como do estar aqui, do ter estado lá e do estar acolá. Sob esta égide, planejar, conceber, temporalizar e espacializar são necessidades que delimitam fazeres, imprimem velocidade, ordena e torna o ser humano existente. A vida não passa, a vida é vivida e o é onde espacial e temporariamente o ser humano se encontra em seu meio circundante (sujeito-mundo), mas também o é no “mundo” humano (sujeito-sujeito) e no próprio (sujeito-si mesmo). Um dos primeiros desafios para além daquele que se apresenta à consciência do coachee é exatamente o despertar para a necessidade do autoconhecimento, da autoconsciência e do conhecimento do mundo-da-vida. Planeja-se desde o início do processo o que se dará naquele espaço, cientes de que não se trata de um contexto fechado em si e com previsões restritas de onde se é possível chegar. Sabe-se precisamente o ponto de partida, quanto ao ponto de chegada dependerá das escolhas que ocorrerem ao longo do processo. O espaço do coaching é, pois, um espaço em que algumas vivências dar-se-ão como, ainda, revela-se como espaço de abertura à reflexão e de tomada de consciência, além de lugar de processamento de decisões e escolhas intencionadas, conscientes e responsáveis. Busca- se, primordialmente, a compreensão de cada fenômeno em seu significado, mas, sobretudo de seu sentido. Como é sabido, a experiência só faz sentido se vista sob o holofote da significação que lhe é inerente. Adaptar-se e ajustar-se ao mundo circundante, aprender a realizar-se em co-participação no mundo humano e transcender-se para além das situações imediatas no mundo próprio demarca os resultados e conseqüências que se espera concretizar.

Parte-se da premissa de que o conhecimento resulta de uma criação compartilhada advinda da interação estabelecida entre sujeito-objeto, coachee-coach. E neste tipo de visão não há como abandonar a idéia de que a subjetividade ou intersubjetividade serão as vias de mediação e influência da generalização do conhecimento.

Cada situação factual merece registro e atenção, em outras palavras, requer um voltar-se sobre ela a fim de que se busque seu significado para o sujeito e, sobretudo, para que o mesmo aproprie-se dela como uma vivência sua e não algo de que possa se separar indelevelmente. Como mencionado, a intencionalidade está implicada não só com a escolha do “tema” em si, como ainda abrange um movimento e/ou um desejo de efetivação daquilo que se expressa ou se dá à consciência. Tal fluxo nada mais é do que buscar definir o problema através do uso do ato reflexivo, num movimento de observação/percepção e reflexão, sendo este o que dará lugar à compreensão do que se trata e em que direção se irá seguir no processo. As questões primeiras se referem ao “o que está acontecendo?”, “o que o aflige ou é priorizado pelo sujeito que se apresenta diante do coach?”, “qual é o problema concreto explicitado na relação sujeito (quem relata) e objeto (o que ou sobre quem) se fala?”. Entretanto, muito mais do que ensinar, do que dar respostas, o processo de coaching visa a um esforço concentrado e conjunto no aprender a pensar. Numa relação triangulada, entende-se que o sujeito se encontra diante de um desafio qualquer e que o coach é um terceiro elemento que lhe pode auxiliar a perceber a situação factual sob outras perspectivas. A relação que se estabelece (sujeito-sujeito) em sua intersubjetividade permite a construção de novas realidades e visualização de outras possibilidades que por motivos próprios ao coachee não se fizeram presentes em sua consciência.

Para que o foco de aprendizado e desenvolvimento seja assegurado, periodicamente procede-se ao que se pode definir como resumo analítico (Fase III), que se presentifica em paradas para pensar acerca do processo, o quanto se caminhou e em que direção. Trata-se de acertar o rumo, apropriar-se de avanços e conscientemente permitir ao coachee perceber-se e às suas ações. A intuição no sentido fenomenológico torna-se instrumento preponderante, assegurando um fazer comprometido com a essência e congruente com o existir que se escolhe e se esforça por construir. Mais do que conformar-se ante o determinismo biológico, psicológico e sociológico, a fenomenologia abre uma perspectiva para o ser do humano em sua busca de compreender e sentir, a fim de que possa implicar- se, comprometer-se, responsabilizar-se, se visualizando como sujeito e objeto simultaneamente.

O processo é encerrado através dos procedimentos de finalização (Fase IV), os quais cumprem importante função de transição suave de uma situação de apoio para outra de autonomia. A bem da verdade, em todo processo tais cuidados são levados a termo, mas de qualquer forma esta é a fase em que se apropriam os resultados alcançados e se confirmam a independência e condição do coachee de dar seqüência ao autoconhecimento, autoconsciência e autodesenvolvimento. Da perspectiva fenomenológica algumas gestalten se fecham, porém outras se abrem na seqüência, caracterizando um processo de crescimento contínuo.

5.2 Da Aplicação do Método

Para concluir, como mencionado, não se pode definir procedimentos-padrão ou afirmar a existência de “um” método fenomenológico, senão muitos. Macias (2006), não obstante, sugere um percurso que parece bastante útil, pertinente e aplicável à atitude que se deve assumir diante de um fenômeno sob o enfoque fenomenológico do coaching. Ao descrever o método qualitativo de pesquisa, inicialmente identifica seis fases, quais sejam:

1) Descrição do fenômeno. Parte-se da experiência concreta, descrevendo-a da maneira mais livre e rica possível, sem entrar em classificações ou categorizações, mas transcendendo o meramente superficial. 2) Busca de múltiplas perspectivas. Ao refletir sobre os acontecimentos, situações ou fenômenos se podem obter distintas visões: a do consultor, a dos participantes, a dos agentes externos, etc. Trata-se de obter toda a informação possível de diferentes perspectivas e fontes, inclusive quando estas são contraditórias entre si. 3) Busca da essência e estrutura. A partir da reflexão, o consultor tenta captar a estrutura do fato, atividade ou fenômeno objeto do estudo, e as relações entre e intra-estruturas. É o momento de encaixar as peças do quebra-cabeça, estabelecer categorias e as relações existentes entre elas. 4) Constituição da significação. O investigador aprofunda mais no exame da estrutura, centrando-se em como se forma a estrutura de um fenômeno determinado na consciência. 5) Suspensão de julgamentos. Ao mesmo tempo em que recolhe informações e se familiariza com o fenômeno objeto do estudo, realiza-se a suspensão dos juízos. Trata-se de distanciar-se da atividade para poder contemplá-la com liberdade, sem as construções teóricas ou as crenças que determinem uma maneira ou outra de perceber. 6) Interpretação do fenômeno. Trata-se de chegar à conclusão dos significados ocultos, extraírem-se da reflexão uma significação que aprofunde para além dos significados superficiais e óbvios apresentados na informação acumulada ao longo do processo. Na seqüência, descreve um conjunto de cuidados a serem adotadas a fim de que se assegurem os resultados desejados, ao qual denomina Processos Metodológicos: elaboração de perguntas de investigação que auxiliem a explorar o significado que as pessoas envolvidas conferem às experiências cotidianas, e solicita-se que as descreva; suspende-se qualquer juízo a respeito do que é real ou não no que é descrito; é importante que se chegue ao sujeito sem idéias preconcebidas e aberto a receber o quanto este expresse; obtêm-se informações de quem experimentou o fenômeno em estudo, geralmente através de entrevistas; realizam-se as análises fenomenológicas dos dados mediante uma metodologia redutiva, com auxílio da análise do discurso e de temas específicos, e com busca de significados possíveis. A análise de dados consiste em um processo de leitura, reflexão, escrita e reescrita, o que permite ao investigador transformar a experiência vivida numa expressão textual. A pessoa que investiga seleciona palavras ou frases que descrevem particularidades da experiência estudada. Pode agrupá-las por semelhanças e formar subconjuntos que revelem a subjetividade dos sujeitos pesquisados.

Sobre o Autor:

Gilberto Braga Pereira - Doutor em Psicologia Social do Trabalho, pela UFMG/Brasil. Mestre em Administração pela FEAD/MG, com ênfase em Organizações, Mudanças e Gestão de Pessoas. Psicólogo, graduado pela PUC-MG. Consultor de Organizações, sócio-diretor da NÚCLEO Consultoria e Desenvolvimento de Pessoas. Experiência gerencial em grandes empresas. Responsável pela implantação e reestruturação de Sistemas de Gestão de Pessoas. Coordenação e implantação de projetos nas áreas de Treinamento e Desenvolvimento, Gestão por Competências e Coaching de Executivos. Professor em cursos de pós-graduação lato e stricto sensu nas disciplinas Fenômenos do Comportamento Organizacional; Gestão do Desempenho e Carreira; Treinamento, Desenvolvimento e Educação; Gestão de Pessoas e Gestão Contemporânea, Gestão por Competências etc. Tem artigos publicados em periódicos nacionais, anais de congressos e reuniões científicas nacionais e internacionais. É autor de capítulos dos livros: “Temas de Psicologia e Administração” (2006) e “Identidade e Subjetividade na Gestão de Pessoas” (2007), Turismo, Sustentabilidade e Meio Ambiente: contradições e convergências (2009); Liderança: tradição, modernidade e pós-modernidade (2011), Vários Olhares e Saberes: efeitos do imaginário sobre liderança nos procedimentos de TD&E de líderes organizacionais (2011). Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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JOSGRILBERG, Rui de S. O método fenomenológico e as ciências humanas. In. CASTRO, Dagmar S. P. et al. (Orgs.). Fenomenologia e análise do existir. São Paulo: Universidade Metodista de São Paulo:Sobraphe, 2000.

LINO, Antônio. Mobilização social. Disponível em http://www.museudapessoa.net/ummilhao/biblioteca/mobilizacaosocial.pdf. Acesso em 12 março de 2007.

LYOTARD, Jean-François. A fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986.

MACIAS, Arturo B. Fenomenología como estratégia teórico-metodológica de la investigación cualitativa. Material de apoyo del diplomado. Trabajo publicado en Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. 2006. Acesso em fevereiro/2007.

MALVEZZI, S. Do taylorismo ao comportamentalismo: 90 anos de desenvolvimento de recursos humanos. In. BOOG, G. G. (Org.) Manual de treinamento e desenvolvimento. São Paulo: Makron Books, 1994. p. 15-33.

NOWACK, Kenneth; WIMER, scout. Como mudar seu executivo. In. JÚLIO, C. A.;SALIBI NETO, N. J. (Org.). Liderança e gestão de pessoas: autores e conceitos. São Paulo: Publifolha, 2002. p. 93-98.

RAMADAM, Zacaria B. A. Prefácio. In. FORGHIERI, Yolanda C. Psicologia fenomenológica:

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ROMERO, Emilio. Humanismo e psicologia. In. In. CASTRO, Dagmar S. P. et al. (Orgs.). Fenomenologia e análise do existir. São Paulo: Universidade Metodista de São Paulo:Sobraphe, 2000.

SABAJ, Maria Eugênia P. Fundamentos epistemológicos, metodológicos y teóricos que sustentan um modelo de investigación cualitativa em lãs ciências sociales. Tesis presentada a las Facultades de Ciências Sociales y Filosofia y Humanidades de la Universidad de Chile para optar al grado de Doctora em Filosofia con Mención em Epistemologia de lãs Ciências Sociales. Santiago, primavera de 2005. Acesso em 14.03.2007. Disponível em http://www.cybertesis.cl/tesis/uchile/2005/parra_m/sources/parra_m.pdf.

Filmes Sugeridos:

Mr. Holland: adorável professor (Mr. Holland’s Opus, EUA, 1995)

Em 1964 um músico (Richard Dreyfuss) decide começar a lecionar, para ter mais dinheiro e assim se dedicar a compôr uma sinfonia. Inicialmente ele sente grande dificuldade em fazer com que seus alunos se interessem pela música e as coisas se complicam ainda mais quando sua mulher (Glenne Headly) dá à luz a um filho, que o casal vem a descobrir mais tarde que é surdo. Para poder financiar os estudos especiais e o tratamento do filho, ele se envolve cada vez mais com a escola e seus alunos, deixando de lado seu sonho de tornar-se um grande compositor. Passados trinta anos lecionando no mesmo colégio, após todo este tempo uma grande decepção o aguarda.

Meu Mestre, Minha Vida (Lean on Me), EUA, 1989)

Vinte anos depois, o professor Joe Clark (Morgan Freeman), que se tornou atleta famoso, retorna à escola pública de onde fora demitido para assumir o cargo de diretor. Em meio à desordem geral, sua missão é educar estudantes violentos e drogaditos. Aplica métodos nada ortodoxos e sua conduta acaba gerando grande polêmica, dentro e fora do ambiente escolar. A trama baseia-se na história real de Joe Clark, ex-ídolo do beisebol norte-americano.

Ser e Ter (Être et avoir), França, 2003)

Neste premiado documentário, um professor mostra como é possível levar o mundo para dentro de uma pequena sala de aula multisseriada no interior da França. Não apenas o mundo do conhecimento puro e frio, mas aquele em que as relações interpessoais estão acima de tudo: amizade, justiça, lealdade, companheirismo e honestidade permeiam as lições, as conversas entre os colegas de classe e o marcante relacionamento deles com o mestre. Fazendo do respeito e da igualdade a chave da comunicação entre crianças de diferentes idades, o professor mostra a elas que mais importante do que ter é ser.

Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, EUA, 1989)

Um carismático professor de literatura nada ortodoxo (Robin Willians) chega a um conservador colégio, onde revoluciona os métodos de ensino ao propor que seus alunos aprendam a pensar por si mesmos. Com o seu talento e sabedoria, inspira os seus alunos a perseguir as suas paixões individuais e tornar as suas vidas extraordinárias. Deixa uma profunda mensagem de vida sintetizada na expressão latina carpe diem (aproveite o dia, goze a vida, ela é muito breve)

Coach Carter: Treino para a vida. (Coach Carter, EUA/Alemanha, 2005)

O dono de uma loja de artigos esportivos aceita o convite para dirigir o time de basquete de sua antiga escola. Ao chegar ele impõe regras rígidas, que incluem boas notas, comportamento respeitoso e modo adequado de se vestir. Com Samuel L. Jackson.

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