Etnografia entre Sujeitos em Situação de Rua

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 10 - 20 minutos)

Resumo: O presente trabalho refere-se a busca pela identificação das contigências na formação das representações sociais e da identidade, bem como a linguagem utilizada pelos moradores de rua. A organização social ao qual a pesquisa foi realizada é o Albergue Shalom (Projeto Jesus Meu Abrigo), uma instituição confessional católica. Através dos referenciais teóricos de Ciampa, Silvia Lane, Moscovici, Jacques, Nasio, dentre outros, que abordam questões as questões das representações sociais, identidade e linguagem. Este estudo foi desenvolvido como uma pesquisa etnográfica e de estratégias de observação participante, entrevistas e pesquisas documentais. Como resultado, verificou-se a intrínseca conexão das representações sociais e a construção da identidade destes indivíduos, afetando a comunicação e a auto-imagem, fruto também de um sistema excludente e da estigmatização social.

Palavras-chave: Morador de rua, Representação social, Linguagem, Identidade

1. Introdução

Os moradores de rua são considerados um sinal emergente de mudanças sócio-político-econômicas das últimas décadas e um problema comum às grandes metrópoles. Através dos dados macroestruturais e conjunturais das últimas três décadas é possível identificar o surgimento do fenômeno “moradores de rua” concomitante a um processo de exclusão social. Segundo Escorel (1999 apud VARANDA; ADORNO, 2004, p. 61), a exclusão social é um “processo no qual os indivíduos são reduzidos à condição de animal laborans, cuja única atividade é a sua preservação biológica, e na qual estão impossibilitados de exercício pleno das potencialidades da condição humana”.

Segundo o perfil traçado pelo Estudo da Secretaria Estadual do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS), em 2008, havia 508 moradores de rua em Fortaleza. Da totalidade, 66,5% adultos (19 a 59 anos); 27,3%, crianças e adolescentes; 3,4%, idosos; e 12,9% não sabem a idade. Essa população é caracterizada pela baixa escolaridade e 48% se consideravam sem qualificação profissional para adquirir um emprego, mas 72% apresentavam remuneração em suas atividades (GUIMARÃES, 2008).

Vale ressaltar que não é possível generalizar todas as pessoas em estudo como moradores de rua que estão na rua há muito tempo, pois existem pessoas que se enquadram perfeitamente em categorias distintas como “ser da rua, permanentemente”, “estar na rua, recentemente” e “ficar na rua, circunstancialmente” (VIEIRA et al., 1994 apud VARANDA; ADORNO, 2004).

A escolha do tema deve-se a uma investigação instigante acerca desses “milhões de existências que estão destinadas a não deixar rastro” (FOUCAULT, 1977 apud PINI FERNANDES, 2008, p. 441), que vem não apenas contribuir para uma interpretação mais clara dessa realidade tão perversa, mas também disponibilizar a esses “cidadãos invisíveis” a oportunidade de serem escutados, quase como um processo de catarse.

Portanto, buscamos dar vida a essas vozes oriundas da escuridão do asfalto, a essas pessoas que se encontram na conjuntura de habitantes de rua.

Um grupo (...) populacional heterogêneo, mas que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, em função do que as pessoas que o constituem procuram os logradouros públicos (...) e as áreas degradas (...) como espaço de moradia e sustento, por contingência temporária ou de forma permanente, podendo utilizar albergues para pernoitarem, abrigos, casas de acolhida temporária ou moradias provisórias, no curso da construção de saídas das ruas (SILVA, 2009, p. 29).

2. Metodologia

O trabalho foi realizado através de uma pesquisa qualitativa cujo método é a pesquisa etnográfica na organização social já mencionada, o Albergue Shalom.  Foram efetuadas oito visitas e cada visita apresentou duração de duas horas nos meses de Março a Junho do ano de 2012. Vale ressaltar que o método etnográfico não foi utilizado completamente devido ao curto espaço de tempo e pouca interação com os membros dos grupos, pois o objetivo primordial foi a observação.

Anteriormente as visitas supracitadas foram executadas uma entrevista semi-aberta com a “pastora do grupo” objetivando obter informações para o diagnóstico do processo grupal. Questões como histórico, objetivos, metodologias, ambiente físico, relacionamentos interpessoais do grupo, dentre outros, foram explorados. O discurso foi gravado em áudio, autorizado pela participante, com a finalidade de registrar todos os detalhes e posteriormente serem transcritos e analisados.

É através da abordagem qualitativa que evidenciamos os aspectos subjetivos, ideológicos, representacionais, simbólicos, afetivos, reflexivos, ou seja, a profundidade do fenômeno e dos processos que não podem ser quantificados (MINAYO, 2002).

A pesquisa etnográfica caracteriza-se pela inserção do pesquisador em um local diferente do seu próprio habitat. Essa prática proporciona o vínculo de novas relações e para isso se faz necessário certas habilidades e sensibilidades. Os sentidos do pesquisador tornam-se ferramentas para a consequente descrição minuciosa dos fatos ocorridos. Portanto, o tipo de pesquisa mencionado depende da sensibilidade, empatia e habilidade do pesquisador (SOUSA; BARROSO, 2008).

3. Resultados e Discussão

Na definição de representação social há elementos dinâmicos e explicativos para aspectos fidedignos do social, físico e cultural. Perpassa o contexto histórico, cultural, cognitivo e valorativo, ou seja, ideológicos. Esses elementos apresentam uma dimensão transformadora nos objetos e nos sujeitos. Assim, o supracitado é sempre relacional e social (GUARESCHI, 1996 apud JACQUES et. al., 1998).

O estudo das representações sociais torna-se mister por proporcionar o conhecimento do modo pelo qual um grupo de sujeitos constrói um conjunto de saberes que manifestam a identidade de um grupo social, as representações que este apresenta perante a heterogeneidade de objetos (longínquo ou propínquo), e, acima de tudo, o conjunto dos códigos culturais que caracterizam as regras de um espaço físico em determinado tempo histórico (JACQUES et. al., 1998).

Segundo Moscovici (2005), as representações sociais são originadas através por processos de ancoragem e objetivação. O primeiro processo ocorre quando algo novo e pouco familiar proporciona uma resistência para ser apropriado, e cuja assimilação se torna problemática. Para integrar este conhecimento, utilizam-se categorias já existentes no repertório do indivíduo, permitindo então que o novo se “ancore” a esta referência, e que assim ele seja classificado, denominado e manejável, inclusive assumindo as características desta categoria previamente conhecida. O processo de objetivação ocorre quando certos conceitos abstratos são materializados por meio de experiências palpáveis, de forma que uma palavra possa se transformar numa imagem (transformação pictórica), e esta passe a ser uma realidade concreta (naturalização), formando assim o núcleo figurativo que representará aquelas ideias iniciais.

Segundo Mattos e Ferreira (2004), torna-se notório as representações sociais tidas sobre a população de rua atendida nesta organização: vagabundo, louco, sujo, perigoso e “coitadinho”. Todavia, na fala da “pastora” do grupo”, o público estudado dentro do Albergue Shalom é visto como “filho preferido de Deus” e a metodologia utilizada é sempre “com amor e por amor”. Ocorre assim o processo de ancoragem no contexto da instituição. Vale ressaltar que a “dignidade humana” trabalhada e fundamentada no grupo de oração se equipara às garantias contidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).

Outra representação significativa para a instituição está vinculada com a dependência química de drogas. Segundo a “pastora do grupo”, o morador de rua é denominado como “viciado”, “drogado” e “pessoa doente”. Vale ressaltar há existência de moradores de rua que não apresentam convívio com o supracitado, mas é um número sintetizado diante da população de rua. Para Kalina (1988, p.42), “para suportar esta tensão, derivada da insatisfatória resolução das ansiedades básicas da vida, este tipo de personalidade necessita de compensações acessórias”.

O público estudado também é identificado como “pobre”. Esta representação é reforçada em consequência do contexto social em que vivem - baixa escolaridade e ausência de oportunidade profissional (MATTOS; FERREIRA, 2004). Ao decorrer dos encontros ocorreram relatos dos albergados de serem tratados de forma indiferente, negligente e invisível. A “pastora do grupo” mencionou que antes de conhecê-los apresentava receio de ter contato mais próximo. O mencionado ocorre por o morador de rua ser analisado como alguém que não apresenta muito para contribuir, não anseia melhorar de vida e acabamos os tratando como se não fossem pessoas.

Acerca do processo de linguagem objetivado, torna-se possível encontrar a linguagem desde épocas remotas nas distintas culturas. Esta é responsável pela memória coletiva de um povo, determinação de regras comportamentais e práticas simbólicas (PATRINI, 2005 apud FIGUEIREDO, 2010). Portanto, a linguagem apresenta seu surgimento objetivando transmitir práticas às pessoas, ou seja, a relação resultante de uma ação em uma consequência (LANE, 1981).

A linguagem mediante à ação de falar não é a única forma de comunicação, pois a compreensão do conteúdo comunicativo não é restringido ao conteúdo semântico dito. O exposto pode ser evidenciado na frase “feche a porta” mencionada em uma conversa entre os albergados anteriormente ao grupo iniciar. O receptor interpretou a interjeição como humilhação e ordem, entretanto, um educador social da organização visitada analisou como um ingênuo pedido. Logo, tanto para o ouvinte como para o falante, a compreensão fidedigna da real intenção é importante para o entendimento verdadeiro do ato (SKINNER, 1972 apud FERES JUNIOR, 2005).

Segundo Lane (1981), a linguagem é produzida socialmente através da atribuição de significados as palavras. Na distinção entre palavra e objeto é possível verificar valores associados a práticas sociais. Para exemplificar o supracitado, tornou-se notório o uso de gírias como meio para expressar opinião e pensamento. Na fala dos albergados,“otário” pode significar uma pessoa sem responsabilidade, sem ética moral, designado a fazer injustiças. O termo “mané” designa uma pessoa que não tem conhecimento, experiências e sem perspectivas para qualquer situação. “Cabeça de gelo” evidencia a figura de uma pessoa calma, fria e tranquila de suas atitudes. Por fim, “chapa” é um indivíduo aceito e respeitado naquele ambiente, detentor de atitudes confiáveis.

Confirmando o supracitado, é notório um dialeto próprio dentro de cada contexto histórico-social (MENEGHEL; INIGUEZ, 2007). A linguagem estabelecida é a coloquial em consequência de a grande maioria apresentar escolaridade baixa. Há ocorrência de muitas gírias e de linguagens não verbais, ou seja, de códigos. Mesmo com a existência de uma comunicação autêntica entre eles, isso não compromete a comunicação com outras pessoas.

Portanto, uma característica do morador de rua é a heterogeneidade e a partir dessa diversidade esses vão desenvolvendo maneiras de interagir com os grupos já existentes na rua (VARANDA; ADORNO, 2004). Esses juízos foram relatados pela “pastora do grupo”: “os moradores de rua que passaram pela prisão, saíram, não tiveram para onde ir e foram para a rua. Esse grupo já desenvolveu uma linguagem muito característica dos presos. Outro exemplo são os que passaram pelos hospitais psiquiátricos e já adquiriram um jargão desse meio”.

Acerca da linguagem, não é possível estabelecer um único meio de comunicação. Uma pessoa que tem seus antecedentes rurais, por exemplo, apresenta um vocabulário diferente da grande maioria dos moradores de rua. Outro estigma é o tempo decorrido do sujeito no ambiente da rua, ou seja, moradores de rua que estão há muito tempo nesse espaço físico terão uma maneira própria de falar e até mesmo de se comunicar com as pessoas que vêm a rua como local de passagem.

Para Lane (1981), o homem é constantemente transformado quando o outro fala e consequentemente é modificado também por sua fala. A mediação entre nós e o mundo corrobora a construção de representações sociais. Essas são elaboradas a partir dos juízos pertinentes dos grupos sociais dos quais os indivíduos convivem ao longo de sua vida e são reproduzidas pela linguagem para facilitar a comunicação. Assim, é a partir da representação social que identificamos os grupos sociais e sua ideologia dominante.

Para ilustrar essa situação, ao decorrer de um encontro do grupo, a reunião foi interrompida em consequência da chegada de uma viatura da polícia para deixar um albergado que estava na rua e foi molestado. Um integrante do grupo mencionou “se aquele cara estivesse na reunião aquilo não teria acontecido”. Esta expressão expõe a representação social construída de pertencer a um grupo de oração e de não estar mais na rua.

Acerca da identidade, destaca-se a constituição desta a partir de duas concepções. Uma caracteriza-se pelo sujeito autônomo perante seu grupo, ou seja, apresenta a constituição da identidade de forma independente de suas relações. Segundo Bezerra (1996 apud PINHEIRO; MARTINS, 2006, p.112), a identidade é constituída anteriormente “a qualquer tipo de intercâmbio entre humanos, um universo imaterial, um meio estranho”.

A perspectiva subsequente caracteriza-se pela relação do processo de identidade com o meio social, a sociedade. Para esta é considerada a visão sociológica de Norberto Elias (1990 apud PINHEIRO; MARTINS, 2006, p.112) que “defende a tese de que a constituição da identidade é uma atividade social por excelência e envolve dois pólos: o individual e o coletivo”. Portanto, uma defende a formação de uma realidade existente por si mesma e a outra acredita que é uma atividade social. Estes perpassam os modelos culturais de identificação, pois “todo grupo necessita de uma cultura que o sustente para poder existir” (PINHEIRO; MARTINS, 2006).

Esses juízos se tornam evidentes na construção de uma imagem de si a partir da relação com o outro. Apesar da luta pela liberdade e pelo direitos humanos, o sujeito em situação de rua é estigmatizado pelo próprio medo e sofrimento. Assim, foi evidenciado que os sujeitos mencionados apresentam rotulação da própria identidade em consequência de experiências anteriores.

Segundo Lane (1994), a identidade não é algo dado, mas está em constante transformação, ela passa a ser concebida através de uma dialética “morte e vida”, o que possibilita desvelar seu caráter de metamorfose. Portanto, segundo a autora, o homem é um ser social em movimento, o qual se relaciona com outros indivíduos. A identidade também é movimento, é desenvolvimento do concreto.

Para explicitar o supracitado os albergados apresentaram dificuldade de relacionamento interpessoal dentro da instituição Albergue Shalom. Na fala da “pastora do grupo”, “cada um vem de uma cultura diferente da rua e na rua não tem lei, não tem limite, não tem educação. Alguns se sentem bichos e se transformam em bicho na maioria das vezes. Assim é muito difícil manter um relacionamento. Você sempre tem que se adaptar a nova lei”.

Portanto, o morador de rua necessita de compensações acessórias para suportar a vida na rua. Esses sujeitos passam a representar outros personagens, moldando sua identidade conforme as novas relações e condições às quais estão expostos. Fica explícita a metamorfose a que se submetem suas identidades, levando em consideração o contexto social em que estão inseridos e seus sentimentos de pertença a esse grupo.

Assim, a identidade na contemporaneidade caracteriza-se por aspectos da cultura pós-moderna, ou seja, há uma acelerada transitoriedade e consequentemente ocorre o desaparecimento de algumas identidades, o surgimento de outras, e uma reorganização dessas. Faz-se mister ressaltar que a formação de identidade perpassa aspectos políticos e ideológicos. “As personagens são vividas pelos atores que as encarnam e que se transformam à medida em que vivem seus personagens” (CIAMPA, 1989, p. 157).

Segundo Pinheiro e Martins (2006), o reconhecimento de quem somos, apesar da concretização de questões políticas, remete a questionamentos referentes à natureza da mencionada realidade. Assim, quem somos (nossa identidade) proporciona indagações: por que nos identificamos com “isso” ou “aquilo”? É imutável ou possível de transformação? É individual ou faz referência à influência grupal? É cultural? (CIAMPA,1989, p. 216).

Para ilustrar essa situação, o depoimento de um albergado participante do grupo é favorável com o explicitado. Este mencionou não saber como o destino atual foi Fortaleza, o sujeito que é e como realizou algumas ações no passado. Sua fala é estigmatizada por dúvida em relação a trajetória de vida, ao percurso realizado até ser um morador de rua. Relatou não compreender como se permitiu ser um albergado.

Para Nasio (1997), a Psicanálise denomina de identificação “o processo de transformação efetuado no próprio seio do aparelho psíquico, fora de nosso espaço habitual e imperceptível diretamente por nossos sentidos” envolvendo assim, dimensões intersubjetivas, sociais, culturais e inconscientes (enquanto linguagem). Esse autor esclarece que para Freud identificação é a nomeação inconsciente do Eu na sua relação com o objeto, com o Outro. Essa construção leva Lacan a concluir que o processo de identificação faz constituir o sujeito do inconsciente a partir do objeto, que aqui será compreendido como representação psíquica. O processo de identificação para Lacan se daria nas relações que o sujeito estabelece com o objeto, o outro, no mundo da linguagem.

Para explicitar o mencionado, a “pastora do grupo” mencionou que o comportamento de um albergado é influenciado pelo meio em que se encontra. Esta apresentou que “quando chega um morador novo, ele contamina o grupo novamente porque apresenta toda a cultura da rua e não sabe que as formas de se resolver um problema é a base do amor, da misericórdia”.

4. Considerações Finais

Durante o percurso do trabalho empírico, observamos melhor as estratégias de sobrevivência utilizadas pelos moradores de rua. Especificamente, pudemos perceber estratégias de linguagem, formas de perceber a vida, de lidar com os medos e perseverar diante das adversidades. Analisamos a cidade em sua dimensão geográfica, local de passagem para a maioria de nós que estamos sempre muito atarefados, e percebemos como ela se comporta diante daqueles que são considerados seu “lixo”.

Alguns vêem esses sujeitos como conformados ou pessoas que preferem a marginalidade à responsabilidade, outros os entendem como vítimas do sistema vigente. O fato é que a situação é indesejável e incômoda, afinal, nenhum de nós deseja enfrentar esse quadro de miséria, sofrimento, degradação e insegurança. É mais fácil mudarmos de rua quando nos deparamos com um desses “desgraçados”; darmos uma esmola qualquer para evitar mais perturbação; ou até pagarmos um segurança particular, para afastá-los de nossos estabelecimentos.

Nessa perspectiva, a ideia de identidade nos foi de extrema valia, pois sabemos que a imagem que construímos de nós mesmos constitui-se também através do outro, ou seja, o discurso alheio nos perpassa e constitui, no nosso imaginário, a verdade acerca de nós, acarretando de certa forma a identificação e apropriação dessa verdade. Dito isso, compreendemos a ausência de autoestima, a dificuldade desses corpos errantes em se reconhecerem socialmente ou mesmo como sujeitos da construção de suas histórias, pois se sentem, ao mesmo tempo em que assim são vistos, como fracassados e até culpados por essa exclusão.

O trabalho mostra-se enriquecedor em termos de busca pela desconstrução da imagem preconceituosa existente e pela tentativa de alcançar um processo de conscientização do nosso papel enquanto seres humanos e profissionais da Psicologia. Reafirmamos a imprescindibilidade de ações solidárias e coletivas que busquem a autonomia desses guerreiros; valorizem suas potencialidades; despertem-lhes a esperança; promovam sua libertação; e conquistem a dignidade.

Para finalizar, propomos uma reflexão baseada no Mito da Caverna de Platão, descrito no livro VII da obra A República, suscitando o pensar acerca dos esquemas superficiais de comportamento e interpretação de vida aos quais estamos presos e que contribuem para a legitimação do mundo como ele existe. A única maneira de torná-lo menos cruel e mais humanizado é fugirmos das correntes que nos prendem a falsas crenças. Esse resgate é dado na medida em que nos movimentamos, avançamos para fora da caverna de mentiras, desconsideramos o acaso e os limites impostos e nos libertamos dos preconceitos criados pelas ilusões das sombras na parede. Enfim, como já dito sabiamente por uma grande socialista revolucionária no começo no século XX, Rosa Luxemburgo: "Quem não se movimenta não sente as correntes que o prende”.

Sobre o Autor:

Tallys Newton Fernandes de Matos - estudante de psicologia do oitavo semestre na Universidade de Fortaleza. Escreve projetos e ações para organizações e instituições publicas e privadas. Segue a abordagem psicanalítica.

Referências:

CIAMPA, Antonio de Costa. Identidade. Em LANE, S. & CODO, W. (Org.). Psicologia Social: o homem em movimento. São Paulo: Ed Brasiliense. 1989.

FERES JUNIOR, João. De Cambridge para o mundo, historicamente: revendo a contribuição metodológica de Quentin Skinner. Dados,  Rio de Janeiro,  v. 48,  n. 3, set.  2005.  

FIGUEIREDO, Glaucy Ramos et al. Entre a ficção e a realidade: a interdiscursividade no gênero reportagem. Revista do Sell, Minas Gerais, v. 2, n. 02, 2010.

GUIMARÃES, Yanna. Mapeamento da STDS: 504 pessoas vivem nas ruas de Fortaleza, segundo estudo. Jornal O Povo. Fortaleza, 10 setembro 2008. Disponível em: <http://www.opovo.com.br/opovo/fortaleza/818272.html> Acesso em: 19 março 2012.

JACQUES, Maria da Graca Corrêa et al. Psicologia Social Contemporânea: livro-texto. Petrópolis: Ed. Vozes, 1998.

KALINA, Eduardo; KOVADLOFF, Santiago. Drogadicção: indivíduo, família e sociedade. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1988. 3ª ed.

LANE, Silvia.O que é psicologia social? São Paulo: Ed. Brasiliense, 1981.

MATTOS, Ricardo Mendes; FERREIRA, Ricardo Franklin. Quem vocês pensam que (elas) são? -Representações sobre as pessoas em situação de rua. Psicol. Soc., Porto Alegre, v. 16, n. 2, ago. 2004.

MENEGHEL, Stela Nazareth; INIGUEZ, Lupicínio. Contadores de histórias: práticas discursivas e violência de gênero. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro,  v. 23,  n. 8, ago.  2007.  

MINAYO, Maria Cecília de Souza. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2002. 20ª Ed.

MOSCOVICI, Serge. Representações Sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Ed. Vozes, 2005.

NASIO, J.D. Os 7 conceitos cruciais da Psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 1997.

PINI FERNANDES, Mariana. Representações de si a partir do outro: uma análise discusiva da fala de adulto em situação de rua. Língua, Literatura e Ensino, Campinas, v. 3, maio, 2008.

PINHEIRO, Clara Virgínia de Queiroz; MARTINS, Jose Clerton de Oliveira. Identidades e identificações na contemporaneidade. Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental. Ano VI, n.2, Nov/2006.

SILVA, Maria Lucia Lopes. Trabalho e população em situação de rua no Brasil. São Paulo: Cortez, 2009.

SOUSA, Leilane Barbosa de; BARROSO, Maria Grasiela Teixeira. Pesquisa etnográfica: evolução e contribuição para a enfermagem. Esc. Anna Nery, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, mar. 2008.

VARANDA, Walter; ADORNO, Rubens de Camargo Ferreira. Descartáveis urbanos: discutindo a complexidade da população de rua e o desafio para políticas de saúde. Saude soc., São Paulo, v. 13, n. 1, abr. 2004.

Curso online de

Recrutamento e Seleção

 Recrutamento e Seleção

Aprofunde seus conhecimentos e melhore seu currículo

Carga horária:  60 Horas

Recém Revisados