O Apoio Matricial como Fortalecedor da Atenção Primária de Saúde

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O processo saúde-doença tem tido significados conforme a época, uma vez que o conceito que se tem de saúde depende do entendimento que se tem do organismo vivo e de sua relação com o meio ambiente. Como esta compreensão muda de uma cultura para outra e de um momento histórico para outro, as noções de saúde e de doença também mudam. Desta forma a conceituação do processo saúde-doença é condicionada pelo homem em cada contexto histórico e pelas suas condições de existência

Palavras-chave: Apoio Matricial, Atenção Primária a Saúde, Centro de Atenção Psicossocial.  

Para universalizar o conceito de saúde, a Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgou em 1948 uma carta implicando o reconhecimento do direito à saúde e da obrigação do Estado na promoção e proteção desta, conceituando saúde como “Saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade”. Porém, a amplitude deste conceito acarretou críticas, visto que não leva em consideração os modos de vida subjetivos e o contexto social, econômico e cultural de cada país (Scliar,2007).

A política de Saúde Mental, não diferente, foi construída e pactuada por diferentes atores sociais desde meados da década de 1980 e também se mostrou fortemente presente nessas discussões preconizando e almejando profundas transformações no atendimento e nos cuidados voltados tanto ao sofri­mento psíquico quanto aos demais impasses subjetivos.  E tais transformações apontaram para mudanças na concepção do processo saúde-adoecimento, tal como modelo teórico e técnico-assistencial que organiza e sustenta as práticas dos profissionais (Costa-Rosa; Yasui, 2008).

A fim de lidar com a saúde partindo dessa perspectiva ampliada, o SUS trabalha com princípios da Lei Orgânica de Saúde (1990), são eles: Universalidade, que entende a saúde como direito de todos; Integralidade, na qual as ações não se restringem aos meio curativos, mas também a promoção e prevenção da saúde; Equidade, na qual todos devem ter igualdade de oportunidade de usar o sistema de saúde.

E, para tanto, o modo de trabalho precisa ampliar-se desconstruindo gradativamente o modelo médico-centrado ainda vigente em algumas práticas e modo de pensar, para dar lugar a uma clinica ampliada sendo esta uma ferramenta de articulação e inclusão dos diferentes enfoques e saberes sobre como é vista a doença e a saúde, considerando o sujeito em seus contextos sócio-afetivo, territorial e ambiental (um sujeito biopsicossocial).

Para dar conta de toda a complexidade existente aí, o trabalho precisa ser articulado em rede que no campo da saúde, é vista como um conjunto de ações que, por sua vez, estabelece relações que criam formas de cuidado. Tal criação é atravessada por diversos fatores (instituições, gestão de saúde, etc.) cada qual a influenciando de uma determinada maneira e intensidade. Estes fatores formam múltiplas condições nas quais surgem as formas de cuidado em saúde. (Melo, 2008).

É em rede que há uma rica troca de saberes e práticas. Trabalho em saúde precisa ter caráter interdisciplinar e ser intersetorial, a fim de que o olhar que se lança, seja para o sujeito assim como suas potências e não somente para a sua doença.

O trabalho realizado em CAPS (centro de atenção psicossocial) entra nessa mesma lógica de olhar ampliado, independente da modalidade deste (CAPS I, CAPS II, CAPS III, CAPS ad, CAPS i), pois assim como qualquer outro serviço de saúde, apesar de um bom atendimento aos usuários, não funciona sozinho e é neste cenário que o Apoio Matricial entra.  

Apoio; vem da ideia de dar suporte, estar junto. Matricial; vem de Matrice, mãe, lugar onde alguma coisa se gera; construção de um novo saber – interdisciplinar e interprofissional. (MARTINS, 2012). Diante dessa ferramenta, os profissionais de saúde (e volto a atenção às equipes que trabalham em CAPS) podem rearranjar o trabalho tornando-se uma Equipe de Apoio Matricial  dos profissionais que trabalham na Atenção Primária de Saúde, que serão a Equipe de Referência (ER).

A ER tem como objetivo potencializar a interdisciplinaridade e a clínica construída a partir dessa equipe. Ou seja, potencializar o entendimento sobre a saúde como um processo inserido em um determinado tempo histórico, desenvolvido por condições sociais, econômicas e naturais específicas de um determinado território; além disso, ampliar a clínica significa integrar ações dos vários atores envolvidos na cena da saúde e chamar mais atores que podem ou deveriam contribuir para essa cena (Campos, 1999).

Como metodologia de trabalho, a ER visa horizontalizar o poder concentrado no conhecimento das especialidades, por meio de conversas entre essas várias especialidades a fim de que todas contribuam nas ações da saúde enquanto equipe. O que se espera desse arranjo é o deslocamento dos atores envolvidos de suas posições defensivas de especialistas para uma posição de corresponsabilização frente ao objetivo – a saúde territorial,

Com isso, o Apoio Matricial se torna um novo arranjo organizacional e, também uma metodologia para a gestão do trabalho em saúde, que tem objetivo de ampliar a perspectiva conceitual e de ação, além de dialogar com vários campos de conhecimentos que compõem o que conhecemos como saúde pública.

 O relato que segue se trata de minha experiência como estagiária de um CAPS I, participando das reuniões da equipe de Apoio Matricial deste (composta por um psicólogo, uma terapeuta ocupacional e uma estagiária de psicologia), com a equipe do serviço público de saúde, de uma cidade de pequeno porte do oeste paulista (composta por duas enfermeiras, uma enfermeira padrão, uma agente comunitária e uma auxiliar de serviços gerais).

O apoio matricial à equipe desta cidade, já acontecia em anos anteriores, porém por questões de mudanças na gestão de saúde, com o tempo se perdeu, voltando a ganhar força a partir de outubro de 2011 e prosseguindo ao longo deste ano, portanto é uma ação que ainda está em processo. Logo nas primeiras reuniões foi preciso, repactuar o apoio, retomando qual a importância deste e qual o papel dos apoiadores ali.

Na verdade, ao longo de todas nossas reuniões vamos apontando uns aos outros de que forma as ações que decidimos ali estão promovendo saúde, de que forma as inquietações que trazemos ali configuram as ações de uma equipe, de fato multiprofissional.

Articulamos-nos sempre que possível para fazer visitas às famílias que precisam de algum apoio, às pessoas que acompanhamos e que, por alguma razão entraram em crise e passaram por uma internação, necessitando de um acolhimento não só da família, mas também de ambas as equipes, na volta para casa.

Um dos casos por nós discutidos que venho acompanhando um pouco mais de perto é o de Maria [01]. Casada, mãe de três filhos (o mais velho mora na capital do Estado e os dois mais novos, moram com Maria e o marido José), residente na cidade em questão a vida toda, tem por volta de 50 anos. A família mora em uma casa pequena e bastante simples. Maria faz tratamento em saúde mental há muitos anos estando atualmente no CAPS I, conosco. Maria já teve algumas crises e foi internada várias vezes ao longo de sua vida e foi diagnosticada como esquizofrênica.

As relações familiares de Maria são bem conturbadas visto que o casamento há anos está em crise, o filho mais velho mora longe vindo visitá-la muito pouco. O filho do meio, André de 16 anos, é um dos grandes motivos de preocupação de Maria por fazer uso de drogas. André tem que prestar serviços comunitários em razão de um ato infracional que cometeu e a equipe da UBS até negociou para que esses serviços fossem prestados no espaço físico da UBS a fim de que a equipe pudesse acompanhar de perto o menino e dá-lo uma ajuda. Mas André só apareceu por lá duas vezes e não voltou mais.

Maria sempre diz que tem muito medo de “perder o filho” para as drogas e no começo deste ano, o filho mais velho disse a mãe, querer levar André para morar com ele na capital, o que fez despertar em Maria, um medo ainda maior de perdê-lo.

E foi durante uma visita feita pelo filho mais velho que Maria entrou em crise sendo internada no Hospital Psiquiátrico da região onde permaneceu por um mês. E durante o tempo de internação, procuramos dar suporte à família com algumas visitas e mantendo sempre contato com o Hospital Psiquiátrico, a fim de proporcionar um bom acolhimento à ela na sua volta para casa. Recentemente Maria recebeu alta e voltou para casa. O processo em que entramos agora é o de repensarmos juntos - ambas as equipes e Maria - em um PTS (projeto terapêutico singular) para ela.

Questões relacionadas com uso abusivo de álcool e drogas também têm sido cada vez mais discutidas nas reuniões na busca por alternativas, com o conhecimento que cada um tem para possíveis intervenções no pequeno município.

As reuniões acontecem quinzenalmente em uma sala da Unidade Básica de Saúde e, como o serviço não para, nem sempre é possível estar com toda a equipe da UBS, o que por vezes enfraquece um pouco nossas discussões, mas não as tornam menos pontencializadoras.

O que pude perceber nesses sete meses participando desse apoio matricial, foi que conforme as reuniões estão acontecendo, a equipe da UBS está aos poucos se apropriando do espaço do apoio com mais segurança do trabalho que é feito ali e discutindo de forma cada vez mais assídua, os casos que trazem pensando em conjunto conosco, em projetos terapêuticos singulares (PTS) para casos que precisam em articulações com outras redes do município quando o caso exige, assim como visitas e acompanhamentos das pessoas que passam por nós.

Em fim, estamos ampliando aos poucos os modos de promover saúde ali, novamente o que nos faz afirmar que para o CAPS, o apoio vem com uma nova maneira de organizar seu cotidiano, uma vez que este agrega diferentes níveis de atenção em uma só unidade (Luzio, 2010). Para a equipe de referência, vem de fato como um fortalecedor de ações na APS enriquecendo o trabalho de todos os envolvidos.

Sobre os Autores:

Silvio Yasui - Psicólogo, Doutor em Saúde Pública. Professor da Faculdade de Ciências e Letras, da UNESP- Campus de Assis

Natália T. Montagne - Graduanda do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP – Campus de Assis

Referências:

Campos, G. W.S.(1999) Equipes de referência e apoio especializado matricial: uma proposta de Reorganização do trabalho em saúde.Ciência Saúde Coletiva; 4:393 -404.

Chiaverini, D.H (Org.) (2011). Guia prático de Matriciamento em Saúde Mental. Brasília, DF: Ministério da Saúde: Centro de Estudo e Pesquisa em Saúde Coletiva, 236 p.

Costa-Rosa, A.; Yasui, S. (2008). A Estratégia Atenção Psicossocial: desafio na prática dos novos dispositivos de Saúde Mental. In: Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 32, n. 78/79/80, p. 27-37, jan./dez.

Luzio, C. A. (2010). Atenção Psicossocial: reflexões sobre o cuidado em saúde mental no Brasil.Tese de Livre Docência-Faculdade de Ciências e Letras de Assis-Unesp.

Martins, S. Atenção Básica e Saúde da Família: Alguns apontamentos sobre Apoio Matricial e Projeto Terapêutico Singular. In: Fórum Permanente de Saúde Mental (2012). Ourinhos: São Paulo.

Melo,V. M.(2009).  Uma experiência baseada no Apoio Matricial em Saúde Mental: estratégia para um atendimento integral.Dissertação de Mestrado-Faculdade de Ciências e Letras de Assis-Unesp.

Scliar, M. (2007). História do Conceito de Saúde. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro.

 Souza, E. C. F.; Oliveira, A. G.(1998).O processo saúde-doença: do xamã ao cosmos. In: Curso de Mestrado em Odontologia Social da Universidade Federal do Rio grande do Norte. Odontologia Social: textos selecionados. Natal: UFRN.