A Epilepsia e suas Complexidades

A Epilepsia e suas Complexidades
5           Avaliação 5.00 (2 Avaliações)
(Tempo de leitura: 7 - 13 minutos)

Resumo: O artigo apresenta um conjunto articulado de reflexões sobre o sistema nervoso central   e como ele atua no funcionamento e processo de informações neuronais. Os estados convulsivos e a epilepsia são os pontos chaves para este estudo, no primeiro momento veremos o funcionamento cerebral e como ele processa essas informações   diante do quadro convulsivo. Os neurônios são células existentes no sistema nervoso que tem a função de levar e receber informações através das sinapses, apresentaremos alguns aspectos nesse contexto mediante o estudo da neurofisiologia, e por fim consagraremos   aspectos relevantes da psicanálise, passando pelas teorias freudianas e pregressas a ela e as dificuldades e tratamentos para uma pessoa convulsiva, apontando aspectos comportamentais no contexto social contemporâneo.

Palavras-chave: Estados Convulsivos, Epilepsia, Sistema Neuronal, Psicanálise Sociedade.

1. Introdução

A epilepsia é um transtorno do cérebro caracterizado por uma predisposição duradoura a crises epilépticas e pelas consequências neurobiológicas, sociais, cognitivas e psicológicas desta condição. O presente estudo foi realizado através de textos bibliográficos e artigos sobre o assunto, assim como material didático sobre neurofisiologia. Diante disso, percebe-se a importância de entender o funcionamento neuronal diante do contexto e explorar as múltiplas influências do sistema com as emoções, cognição e comportamento.

A comunicação básica do sistema nervoso central com todo o organismo se faz presente neste estudo, assim como o entendimento da psicanálise. A partir dos conceitos freudianos sobre a histeria desde o século XIX, a neurose se caracterizou por uma doença nervosa, que mais tarde passou a ser relacionada com os distúrbios funcionais do sistema nervoso sem alterações estruturais reconhecíveis. Aborda-se também como a sociedade pensa a respeito dessa doença e como agem em detrimentos as consequências que ela traz em si. A cada dia as pesquisas aumentam em torno desse conceito, assim como, há muitas pessoas acometidas por essa enfermidade.

O trabalho permitiu esboçar o conhecimento sobre a epilepsia, estados convulsivos, e sua gênese, descrevendo as relações que o sistema nervoso faz através de suas múltiplas comunicações neuronais, classificadas em diferentes vias e permitindo um entendimento no processo de formação.

2. Funcionamento Cerebral

O sistema nervoso representa uma rede de comunicações e controle que permite que o organismo possa interagir de modo apropriado com o seu ambiente. Dividido em Central e Periférico, as funções gerais do sistema nervoso incluem a detecção sensorial, o processamento das informações e a expressão do comportamento. Ele é composto por células, tecido conjuntivo e vasos sanguíneos (Berny; Levy, 2009).

Brandão (2004), contempla o sistema nervoso como um dispositivo capaz de perceber variações energéticas do meio externo ou interno no organismo, analisar essas variações quanto à sua qualidade, intensidade e localização para organizar comportamentos que constituam uma resposta adequada ao estímulo que foi apresentado ao indivíduo. Lundy-Ekman (2008), aponta para a neurociência molecular que investiga a química e a física envolvidas na função neural, abordando os estudos das trocas iônicas necessárias para que uma célula nervosa conduza informações de uma parte do sistema nervoso para outra e a transferência química de informações entre células nervosas.

As células constituintes do sistema nervoso são neurônios e glia. Os neurônios que transmitem informações ao sistema nervoso central são aferentes, e os que transmitem para o sistema periférico são eferentes (Lundy-Ekman, 2008). O neurônio é a unidade funcional do sistema nervoso e os circuitos neurais são formados por neurônios conectados sinapticamente. O neurônio típico consiste do corpo celular, ou soma, de número variável de estruturas semelhantes aos galhos de uma árvore, os dendritos e o axônio. Eles são anatômica e fisiologicamente especializados para a comunicação e sinalização e são fundamentais para o funcionamento do sistema nervoso (Berny; Levy, 2009). Desse modo, há uma transmissão de informação pelas redes neuronais, o qual todo o processo de informações dependerá dessa comunicação intercelular e circuitos neuronais. As emoções também estão ligadas a esse processo de informações.

Com o entendimento da neurofisiologia, podemos observar o quanto o sistema nervoso está ligado também com as emoções. Segundo Ângelo Machado (1985), as áreas encefálicas relacionadas com o comportamento emocional, ocupam territórios muito amplos do telencéfalo e do diencéfalo, nos quais encontram-se as estruturas que integram o sistema límbico, a área pré-frontal e o hipotálamo. Verifica-se ainda, que estimulações elétricas em várias áreas do hipotálamo, da área pré-frontal ou do sistema límbico determinam manifestações viscerais diversas, tais como salivação, sudorese, dilatação pupilar, modificações no ritmo cardíaco ou respiratório.

Talvez isso explique o que acontece com o sistema nos ataques epiléticos ou em convulsões. Essa fisiologia faz compreender melhor todo o sistema e demonstrar a importância do estudo e localização funcional do hipotálamo e do sistema límbico.

3. Epilepsia e Estados Convulsivos

A epilepsia é uma disfunção cerebral onde ocorre uma descarga elétrica anormal no funcionamento do cérebro, produzindo alguns movimentos involuntários no comportamento, no controle muscular, na consciência e sensibilidade do indivíduo e se expressa por crises epilépticas repetidas. Para Dalgalrrondo (2008), a definição neuropsicológica emprega o termo consciência no sentido de estado vigil (vigilância), o que de certa forma, iguala a consciência ao grau de clareza do sensório, então consciência no contexto neurofisiológico é o estado de estar desperto, acordado, vígil, lúcido.

Quando isso não acontece, nos referimos às alterações da consciência, onde está incluído os estados crepusculares, que se referem a um estado patológico transitório, que pode surgir e desaparecer de forma abrupta e ter duração variável, de poucos minutos ou horas a algumas semanas (Sims, 1995 apud Dalgalarrondo, 2008). Em estados convulsivos e epilépticos geralmente ocorre amnésia lacunar para o episódio inteiro, podendo o indivíduo se lembrar de alguns fragmentos isolados. Os estados crepusculares foram associados a epilepsia, mas podendo também ocorrer em intoxicações por álcool ou outras substâncias, após traumatismo craniano, em quadros dissociativos histéricos agudos e, eventualmente, após choques emocionais intensos (Peters, 1984 apud Dalgalarrondo, 2008).

As causas da epilepsia são inúmeras, podendo ser uma lesão no cérebro, convulsões febris na infância em crianças abaixo de 5 anos, meningite, neurocisticercose (ovos de solitária no cérebro), assim como álcool, drogas e fatores genéticos. O sintoma mais identificável para a epilepsia é a crise convulsiva ou ataque epiléptico, apresentando várias manifestações, por exemplo, a pessoa pode cair no chão, ter seus músculos contraídos em todo o corpo, morder a língua, ter os olhos revirados, a salivação intensa, queda de pressão e a respiração acelerada, às vezes até urinam ou defecam. Neste sentido, existem medicamentos para o controle das crises, dependendo da situação de cada indivíduo, para evitar a recorrência ou controlar as convulsões ou ataque.

4. Psicanálise

No século XIX, Freud atendeu a paciente Anna O., naquela época ele pode vislumbrar pela primeira vez a palavra histeria. Hystera, vem do grego que significa útero, porque Hipócrates explicava sua etiologia remetendo-se a migrações uterinas, a doença se produziria pelo estancamento de uma substância sexual que não era descarregada a nível genital, senão era retida por abstinência sexual adquirindo, então um efeito tóxico. Ao espalhar-se pelo organismo, esta substância afetaria a múltiplos órgãos e sistemas, provocando diversas expressões patológicas como gritos e febres, então todo sangue contaminado subiria para a cabeça, causando assim também as convulsões (Mayer, 1989). Nesta época as mulheres acometidas deste mal viviam em asilos junto com os doentes mentais e os epilépticos, sendo afastadas da sociedade. Muitos estudos freudianos acabam por analisar que as mulheres viviam numa época de repressão, e a histeria da época, nada mais era que uma energia dos processos mentais, que se afastam da consciência, causando assim uma inervação corporal e logo em seguida uma ab-reação.

Freud apud Claret (2005), sugere a divisão do psíquico num psíquico consciente e num inconsciente, a qual constitui a premissa fundamental da psicanálise. Sem a mesma seria incapaz de compreender os processos patológicos, tão frequentes quanto graves da vida psíquica e de fazê-los entrar no âmbito da ciência. No início do século XIX, Freud elege Charcot como a personalidade da época, o mais ilustre médico da sua época, e se assombra quando Charcot, se valendo apenas de palavras, faz desaparecer sintomas histéricos. O médico afirmava que os fenômenos histéricos era a somatização do hereditário com o adquirido, Freud tentava a qualquer custo valer-se de investigar a histeria a cunho psicológico e neurológico, o que não agradava muito Charcot.

Nesta perspectiva, Uchoa (1984), dá uma definição mais realista diante da Psicanálise e a teoria do inconsciente, “O ser humano, como unidade psicofisiológica, revela, desde o início, essa unidade biológica e psicossocial que vai se tornando mais evidente à medida do seu desenvolvimento. Processos químicos, anatômicos, fisiológicos, psicológicos, integram-se em um sistema funcional a serviço da vida, logo completando-se tal sistema pelos influxos sócio-ambientais, isto é, influências vindas dos objetos primários e dos demais pertencentes ao âmbito da família e do grupo social”.

5. Filosofia e a Evolução Na Patologia

Desde os primórdios da humanidade até os dias atuais percebemos a evolução em toda sua trajetória patológica. No início Hipocrátes sugeria que a causa dos transtornos eram tanto psicológicos quanto biológicos, logo em seguida, Galeno (400 a.C.), sugere que os comportamentos anormais e normais estavam ligados ao fluídos corporais ou a humores. No século XIV, vieram as superstições e todo transtorno era atribuído a demônios e feiticeiras, logo o exorcismo entra em cena. Pelo século XV apareceram os primeiros estudos vinculando a insanidade a problemas de estresse e depressão. No decorrer da evolução muitas coisas podem ser mencionadas e houveram muitas descobertas, mas ao se entrar na filosofia, a simplicidade dos fatos faz perceber que antigamente os estados convulsivos eram tidos como comportamentos anormais, logo uma pessoa acometida desta patologia precisava ser exorcizada, devido aos pensamentos arcaicos e ao sistema da época.

Segundo Caixeta et al. (2007), em psicopatologia há dois problemas inquietantes de cientificidade: em primeiro lugar, quando observamos um comportamento, nós não o captamos, só captamos o comportamento diante do que vemos e ouvimos. Wittgenstein apud Caixeta (2007), mostra que a filosofia não pode descobrir nada de novo, nada do que já não esteja neste mundo, o que se pode fazer é elucidar, desenfeitiçar, e não querer funcionar como um método científico de descoberta de novas verdades que estavam veladas.

O que se quer destacar dentro da filosofia e a evolução é o que Cotrim (2006), enfatiza com muita propriedade. “O ser humano tem uma massa  encefálica maior que a dos outros animais e um sistema nervoso extenso e complexo, isso que nos permite a criação cultural”. O ser humano não nasce pronto pelas mãos da natureza, a vida de cada um depende do parto de si mesmo, num processo de nascer sem parar.

6. Sociedade e a Discussão do Senso Comum   

No dia-a-dia é natural encontrar pessoas que diante de um quadro convulsivo fiquem ainda assustadas e sem saber como agir. Mas o que pensar? Se uma pessoa convulsiona ao seu lado de um modo severo, como agir? Essas são discussões que podem servir de alerta, pois muitas pessoas que sofrem de epilepsia, sofrem também o preconceito do desconhecido e da ignorância de muitos.

“A característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais” (Aristóteles apud Cotrim, Política).

Segundo estudos realizados pelo Instituto de Neurologia Funcional, há um medo excessivo relativo às consultas médicas, exames, uso de medicamentos; os portadores de epilepsia tem preocupações a respeito do futuro e a necessidade de provar que são iguais as outras pessoas e a família também precisa de muita compreensão diante o diagnóstico para aceitar e lidar com a realidade (Instituto Neurologia Funcional).

Muitos casos de epilepsia geralmente iniciam-se na infância ou na adolescência e o tratamento é preventivo, portanto, deve ser rigoroso e sem falhas na administração dos fármacos. A cura se dá com mais facilidade quando diagnosticados precocemente. É um transtorno que é bem comum, segundo pesquisas realizadas pela ABE (Associação Brasileira de Epilepsia), de cem pessoas, uma ou duas são portadoras de epilepsia.

 

7. Conclusão

Dentro desta perspectiva, foi abordada de uma forma teórica e simplificada a epilepsia  e a sua neurofisiologia, passando pela filosofia e a psicanálise, buscando um entendimento mais aprofundado do tema discutido, ao mesmo tempo, apontando estratégias para intervir especificamente nesse contexto. Ao longo dos últimos tempos, uma série de mudanças relacionadas com essa doença tem sido investigada e analisada no sentido fisiológico, neurológico e psicológico. Teorias diversas têm sido acrescentadas como compreensão mais abrangente em várias situações e casos clínicos.

A prática nasce da concepção sobre o que deve ser realizado e qualquer tomada de decisão fundamenta-se naquilo que se afigura como o mais lógico, racional, eficiente e eficaz. (MARCONI; LAKATOS, 2010).

Para entender o que passa uma pessoa portadora de epilepsia ou estados convulsivos em todos seus aspectos, cabe a compreensão do assunto e o posicionamento no processo investigativo, terapêutico e clínico, integrando liames de identificação com o que pode ser feito para aliviar o sofrimento físico e psíquico do paciente. As consequências da epilepsia  levam os portadores a uma sensação extremamente dolorosa, angustiante e sofrida, no qual precisa se ajustar a rotina do cotidiano, objetivando a capacidade de conferir um sentido à existência.

No presente estudo, toda a complexidade e histórico da doença leva a crer que poderá acarretar a família uma fase crítica que exigirá uma nova adaptação a um corpo instável, ao declínio de algumas capacidades e a uma vida não tão satisfatória. Nos casos de epilepsia, o principal meio para a prevenção e cuidados é com os exames realizados ainda precocemente. Novos estudos continuam surgindo para uma mudança no paradigma atual, de que 1 pessoa a cada 100 é acometida de epilepsia ou tem convulsões causadas por algum disfuncionamento no organismo. O tratamento adequado e o entendimento das causas da doença ainda se torna o melhor aliado, o paciente que aprende a conviver com a epilepsia e podendo superar os desafios que a doença acarreta, favorecendo o equilíbrio geral de suas funções globais.

Sobre a Autora:

Rosemeire Simões Chaves - Psicologa, especializada na área de neuropsicologia e psicologia clinica.

Referências:

 BARLOW, David H. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

BERNY&LEVY. Fisiologia /editores: Bruce M. Koeppen, Bruce A. Stanton. – Rio de Janeiro: Elsevier,2009.

CAIXETA, Marcelo, COSTA Fernando Oliveira; NÓBREGA, da Magno, HANNA, Marcelo. Neuropsicologia dos Transtornos Mentais.  São Paulo: Artes médicas, 2007.

CLARET, Martin. O pensamento Vivo de Freud. Editora Martin Claret. São Paulo ,2005.

LAKATOS, Eva Maria, MARCONI, Marina de Andrade. - Fundamentos de Metodologia Cientifica- 7º Ed. – São Paulo, 2010.

MAYER, Hugo. Histeria. trad. (de) Ricardo Costa Sanguinetti. - Porto alegre, Artes Médicas, 1989.

UCHOA, M. Darcy. Psicanálise Teoria e Prática. Editora Atheneu- Rio de Janeiro, 1984.

SAÚDE-TEMAS –EPILEPSIA   DATA. Disponível em <http://www.minhavida.com.br/saude/temas/epilepsia> Acesso em: 02 de Fev.2016.

EPILEPSIA BRASIL. DATA. Disponível em:<http://www.epilepsiabrasil.org.br/definicoes-e-conceitos> Acesso em: 02 de Fev.2016.

NEUROLOGIA E EPILEPSIA. DATA. Disponível em: <http://www.neurologia.srv.br/epilepsia> Acesso em 02 de Fev.2016.

O que é Epilepsia e Convulsão. DATA. Disponível em :<http://www.amato.com.br/content/o-que-é-epilepsia-e-convulsão-epilepsia> Acesso em: 02 de fev.2016.> 

Informar um Erro Publique Seu Artigo