A Relevância da Maternagem para a Manifestação da Psoríase: uma Contribuição Psicanalítica

A Relevância da Maternagem para a Manifestação da Psoríase: uma Contribuição Psicanalítica
5           Avaliação 5.00 (2 Avaliações)
(Tempo de leitura: 19 - 38 minutos)

Resumo: Para a psicanálise, principalmente, nas Escolas Inglesas, Intermediária e Britânica, o sucesso no ato da maternagem é essencial para a estruturação de uma vida psíquica saudável. Falhas e omissões na relação da mãe com seu bebê podem estar na gênese de perturbações psicossomáticas vividas pelo sujeito adulto. A psicossomática é um campo de estudo voltado ao conhecimento, à investigação e ao tratamento de doenças e perturbações que atingem tanto a psique quanto o soma, considerando que corpo e mente são indissociáveis, no sentido de que quando algo afeta a mente, o corpo também é afetado, e vice-versa. A psoríase é uma doença de etiologia desconhecida, que afeta e desfigura a pele, podendo deturpar a imagem corporal, minar a autoestima e ocasionar sérios danos nas relações sociais do sujeito. Fatores emocionais e conflitos psíquicos estão envolvidos em sua manifestação. A psicanálise é um importante método terapêutico, investigativo e exploratório do psiquismo, a ser utilizada no acompanhamento e no suporte do sujeito acometido por psoríase. Este artigo, utilizando como metodologia a pesquisa bibliográfica com base nas obras dos psicanalistas Joyce McDougall, Melanie Klein, Donald W. Winnicott e Wilfred R. Bion, almeja: explicitar a importância da maternagem para a eclosão da psoríase; descrever possíveis modos de compreensão e intervenção psicanalítica em relação a esta doença; e apontar a maternagem bem sucedida como ato primordial para que o sujeito se desenvolva de modo sadio. Conclui-se que as emoções experienciadas pelo sujeito, cuja origem remonta às relações iniciais com sua mãe, estão envolvidas tanto no abrandamento quanto no agravamento da psoríase.

Palavras-chave: Relação Mãe-Bebê, Psicossomática, Psicanálise.

1. Introdução

Este artigo objetiva explicitar a relevância da maternagem para a manifestação da psoríase, bem como evidenciar suas perspectivas para o desenvolvimento humano “saudável”, além de descrever o processo de intervenção e compreensão psicanalítica, segundo a teoria winnicottiana.

Será apresentada a relação mãe-bebê, transitando pelos aspectos psicossomáticos da psoríase. Sendo assim, o corpo será abordado como cenário onde atuam os limites do psiquismo e suas fragilidades. No decorrer deste artigo, a pele será referenciada como possível palco para o resultado da relação entre os mundos internos e externos, e de todas as manifestações psicossomáticas existentes, esta será escolhida como órgão-choque. Através da perspectiva psicanalítica, a psoríase será levantada como um recurso inconsciente do corpo para externalizar um sofrimento psíquico.

No âmbito da psicossomática, Haynall e Pasini (1983, p.202) citam que “na psoríase, os conflitos intrapsíquicos participam do desencadear da doença. Jorge, Z.H. (2004 apud Ballone, Neto e Ortolani 2002) relata que a psoríase se manifesta ora de forma mais severa, ora mais amena, de acordo com as oscilações do estado emocional dos próprios pacientes psoriáticos. Segundo Jorge, Z.H. (2004), a psoríase é capaz de comprometer seriamente a qualidade de vida do paciente, podendo desfigurar-lhe a imagem corporal, afetando-lhe a auto-estima e, consequentemente, causando graves prejuízos também em suas relações sociais.

Joyce McDougall, psicanalista de renome internacional, pontua que o acompanhamento psicanalítico desse sujeito afigura-se como uma ferramenta fundamental a ser utilizada na tentativa de lhe oferecer um suporte.

A partir de suas experiências clínicas foi possível perceber que, diante de situações traumáticas, pacientes adultos regrediam psiquicamente a uma fase da primeira infância a ponto de não conseguirem verbalizar seus pensamentos.     Pautando-se nessa observação clínica, a autora constatou este padrão em seus pacientes e assim, emergiu como condição possível o deslocamento do trauma psíquico para o corpo.

 A autora explica, também, que “as estruturas psíquicas mais antigas da criancinha articulam-se em torno de significantes não-verbais nos quais as funções corporais e as zonas erógenas desempenham papel preponderante.” (MCDOUGALL, 2013, p.10).

Devido às questões mais arcaicas serem evidenciadas nos discursos de seus pacientes, a autora traz a importância dessa função materna no desenvolvimento saudável da criança. É neste desiderato que a teoria winnicottiana é evocada, no intuito de explicar a dinâmica relacional entre o bebê e sua mãe, onde o conceito de mãe “suficientemente boa” adquire profundos e relevantes aspectos.

Para melhor aprofundamento desse início de vida e assim explicitar os desdobramentos da relação mãe-bebê, foi usada como metodologia a pesquisa bibliográfica, onde foram tomados como referências a autora Melanie Klein, psicanalista pioneira em descobertas e fundamentações teóricas sobre o psiquismo infantil e na clínica psicanalítica voltada para a relação mãe-bebê; Donald Winnicott, pediatra e psicanalista da Escola Intermediária ou Escola do meio; Wilfred Bion, médico psiquiatra e psicanalista da Escola Britânica; e Joyce McDougal, oriunda da Escola Inglesa de Psicanálise, mas que também frequentou os seminários de Jacques Lacan, cuja produção literária tem ocupado lugar de destaque na contemporaneidade.

Esse artigo busca ampliar o entendimento da psoríase através da perspectiva psicossomática, pois as emoções intensas são fatores preponderantes tanto para a sua eclosão como para a sua piora ou melhora; e, também, da perspectiva psicanalítica em sua possível gênese e acompanhamento do sujeito que é acometido por essa enfermidade. Desta forma, a clínica psicanalítica se estende como um possível espaço de escuta onde este sujeito buscará formas mais saudáveis para si, de manifestar sua história emocional.

2. A Psoríase

A psoríase caracteriza-se como uma afecção inflamatória sistêmica, de caráter não contagioso, que acomete cerca de 2% da população mundial, podendo surgir em qualquer idade (ARRUDA, CAMPBELL e TAKAHASHI, 2001, apudSOUZA et al, 2005), atingindo mais comumente a pele, embora também possa acometer as articulações.

Rodrigues e Teixiera (2009) pontuam que ela pode se manifestar de diversas maneiras, de acordo com as suas particularidades clínicas, e da localidade em que ela ocorre. De modo mais frequente, mostra-se por meio de lesões avermelhadas e descamativas, que atingem especialmente a pele que recobre os cotovelos, joelhos, couro cabeludo e região lombar. É a chamada psoríase vulgar, ou em placas. Tais lesões geralmente acarretam grande prurido e queimação, e a pele pode tornar-se extremamente ressecada, podendo rachar e ocasionar sangramentos.

Em suas manifestações mais graves, pode acometer grandes áreas da pele. Neste caso, ela é chamada de psoríase eritrodérmica, que pode gerar edema, dor e imenso prurido. Quando as unhas são acometidas, é chamada de psoríase ungueal, a qual também pode ser profundamente estigmatizante, prejudicando as atividades laborativas e demais relações sociais do sujeito (PITA, 2003). De fato, as unhas podem ser completamente destruídas em decorrência da doença (SANTOS, 2012)

Pode atacar também as articulações, causando inflamação e dor nos tendões e, em alguns casos, sendo capaz de desencadear um processo de deformidade articular. Neste caso, é chamada de psoríase artropática.

Na psoríase gutata, a qual usualmente aparece após um processo infeccioso do sistema respiratório, ou consequente a uma situação de estresse emocional (PITA, 2003), surgem pontos avermelhados, em formato de gotículas, atingindo com maior frequência o tronco, pernas e braços.

Ocorre também, em cerca de 12% dos pacientes psoriáticos, a psoríase palmoplantar, na qual surgem placas eritematosas e pruriginosas circunscritas apenas às mãos e aos pés (SABBAG, 2006, apud RODRIGUES e TEIXIERA, 2009).

A etiologia da psoríase é desconhecida, embora se saiba que certas disfunções do sistema imunológico e fatores genéticos estejam relacionados ao seu surgimento (MARQUES, 2009). Acredita-se que certas influências do ambiente, aliadas a questões genéticas, levariam a um funcionamento desregulado do sistema imunológico, levando os linfócitos T (células especializadas na defesa do organismo) a atacarem as células da pele, o que geraria as lesões características.

A base genética da psoríase foi evidenciada pela pesquisa de Farber e Noll (1974, apud MARQUES, 2009), que destacou o aparecimento desta doença em até 36% de membros de uma mesma família, bem como de 70% de concordância quanto ao surgimento da psoríase em pares de gêmeos homozigóticos.

Segundo Ortonne (1996, apud MARQUES, 2009), alguns agentes patogênicos também podem estar relacionados à deflagração do processo inflamatório da psoríase; dentre eles, os Estreptococos B-hemolíticos e o Staphylococus Aureus.

Estima-se que no Brasil existam mais de três milhões de pessoas acometidas pela doença, embora haja escassez de dados tanto na mídia como nos serviços de saúde (CENTRO BRASILEIRO DE PSORÍASE, 2007, apud RODRIGUES e TEIXIERA, 2009). Devido à sua cronicidade, comumente ocorrem períodos em que ela se manifesta tanto de modo mais brando, como mais severo (JORGE, Z. H. et al, 2004). Não há predileção quanto à variável gênero, embora nas mulheres ela costume surgir mais precocemente (SOUZA et al, 2005).

2.1. A Pele, Afetos e a Psoríase

Segundo Howard Lewis e Martha E. Lewis (1988) a pele é extremamente sensível ao “estado de espírito”. Os autores levantam a questão de observar o que se sucede com a pele quando o indivíduo se encontra preso em uma forte emoção.      Tal levantamento acaba suscitando, pelos próprios autores, questionamentos para corroborar essa afirmação, como “costuma ruborizar-se quando encabulado? Sente a pele gelada quando está com medo? Sua frio? Ou será que sente a nuca quente quando irado? Quando impaciente por fazer algo não chega literalmente a se coçar para fazê-lo?”(LEWIS e LEWIS, 1988, p.245).

Destacam, também, que psiquiatras e dermatologistas têm unanimidade ao afirmar que em se tratando de distúrbios da pele, as emoções desempenham um importante papel.

Tais consequências são trazidas por Silva e Silva (2007 apud Chiozza 1991,pp.19-42) para explicar que:

[…] portadores de psoríase, mais que outros com doenças de pele, sentem-se desprezíveis, sujos e intocáveis. Temem ser isolados, rejeitados e apresentam fantasias de abandono. Sentem a exclusão como falta de reconhecimento, no sentido da aceitação de sua identidade, como a rejeição que os coloca em uma classe, casta ou condição inferior; sentem-se possuidores de uma identidade repugnante e sofrem frente a uma sociedade que estabelece padrões ideais de beleza e de adequação. O problema da pele acaba favorecendo sensações de discriminação, inadequação e insatisfação quanto à aparência física (CHIOZZA,1991,ps.19-42).

Neste artigo os autores trazem uma série de pesquisas realizadas por outros diferentes pesquisadores, no qual correlacionam a eclosão da psoríase com eventos percebidos como estressantes, ratificando assim, a não continência das emoções quando essas excedem seus recursos psíquicos, assim provocando o aparecimento e a piora das doenças dermatológicas.

2.2. Psicossomática e o Pré-Simbólico

Psicossomática é o termo utilizado para abordar o ser humano sem o dualismo mente e corpo. Segundo Mello-Filho (1991), toda doença humana é psicossomática, pois é evidente que os seres humanos são possuidores tanto de soma (corpo) e quanto de psique (mente) inseparáveis, anatômica e funcionalmente. McDougall (2013, p.10) destaca que na dinâmica de manifestações psicossomáticas.

[…] as ideias associadas a qualquer afeto conflituoso importante não eram recalcadas como nas neuroses, mas imediatamente apagadas do campo da consciência (mecanismo que Freud em 1918 chamou de Verwerfung – forclusão – a propósito dos estados psicóticos). (MCDOUGALL, 2013, p.10).

Para explicar tal atuação, a autora supracitada diz que “seus pacientes adultos às vezes funcionavam psiquicamente como bebês que, não podendo utilizar as palavras como veículo de seu pensamento, só conseguiam reagir psicossomaticamente a uma emoção dolorosa.”(MCDOUGALL, 2013, p.10).

 E assim explica que,

[…] nas afecções psicossomáticas, o dano físico é bem real, e sua descrição, durante uma análise, não revela à primeira vista qualquer conflito neurótico ou psicótico. O “sentido” é de ordem pré-simbólica e provoca curto-circuito na representação da palavra.[...] Nos estados psicossomáticos, é o corpo que se comporta de maneira “delirante”; ele “hiperfunciona” ou inibe funções somáticas normais e o faz de modo insensato no plano fisiológico. O corpo enlouquece. (MCDOUGALL, 2013, p.22)

Percebe-se que nos estados delirantes desse corpo, encontra-se somente a expressão de um sintoma com um radical mais profundo, assim como a ponta de um “iceberg”, onde o que se observa na superfície da água é apenas um pequeno fragmento de toda a sua imensa totalidade submersa. Ao falar sobre “... ordem pré-simbólica...” e “... curto-circuito na representação da palavra...” a autora sinaliza um período antecessor à aquisição desta palavra, ou seja, o período no qual o ser humano é um bebê.

2.3. As Relações com o Bebê

O nascimento de um bebê demanda que o adulto tenha que atuar como decodificador para todas as externalizações desse recém-nascido, a fim de sanar todas as necessidades da “sua majestade – o bebê”, termo cunhado por Freud em “Introdução ao Narcisismo” de 1914.

Segundo Papalia (2013, p.194), “antes de utilizar palavras, o bebê faz suas necessidades e sentimentos serem conhecidos por meio de sons que evoluem do choro para o arrulho e o balbucio, depois para a imitação acidental e então para a imitação deliberada.” (PAPALIA, 2013, p.194). Essas são expressões primitivas de uma tentativa de comunicação, e, por conseguinte, uma atuação que ocorre posteriormente ao processo psíquico de criação de uma representação desse ambiente externo, em suma, posteriormente ao processo de simbolização desses afetos.

De acordo com McDougall (2013), o início de vida desse ser humano acometido por fenômenos psicossomáticos tem absoluta importância e relevância para a condição patológica no qual este, agora adulto, se percebe sofrendo.

2.4. Melanie Klein e os Primórdios da Relevância Materna

O entendimento do psiquismo dessa tenra idade foi postulado por Melanie Klein (1975), que nos aponta uma perspectiva para a compreensão deste mundo prematuro:

[...]o recém nascido experimenta, tanto no processo do nascer como no ajustamento à situação pós-natal, uma ansiedade de natureza persecutória. Isto se pode explicar pelo fato de que a criança de tenra idade, sem ser capaz de apreendê-lo intelectualmente, sente de forma inconsciente todos os desconfortos como se fossem infligidos sobre ela por forças hostis (KLEIN, 1975, p.24).

A mãe protagoniza o papel fundamental na vida do bebê, pois é ela que representa o mundo exterior para a criança. Seja o modo amoroso como ela segura o bebê, o alimento e o calor que ela lhe fornece – enfim, tudo o que o bebê percebe como bom – assim como a frustração, as dores e o desconforto que ele experimenta – tudo o que ele percebe como mau – chega-lhe à mente como algo oriundo da sua mãe.

De acordo com a autora, o bebê também se relaciona com outros aspectos da mãe, especialmente quando ela o pega no colo, ou mesmo no momento em que lhe dá um sorriso. É preciso que haja uma atitude amorosa da mãe para o bebê, inclusive para que este se identifique positivamente em relação àquela, o que aperfeiçoará o seu processo identificatório com outras pessoas amistosas. Tal processo resultará no predomínio de sentimentos e objetos bons em seu mundo interior, o que, por sua vez, auxiliará na formação de uma personalidade saudável e integrada.

2.5. Donald W. Winnicott E A Mãe “Suficientemente Boa”

Winnicott (1978) vai além da teoria kleiniana: ele enfatiza a relação mãe-bebê ainda na fase intra-uterina. Durante a gestação, a mãe assume um estado psíquico específico, uma condição especial caracterizada por grande preocupação com a gravidez, certo retraimento, mesmo uma fuga do mundo externo a si própria, como se a maternidade temporariamente assumisse o controle total de sua personalidade. Winnicott (1978) denominou tal condição de Preocupação Materna Primária. Este estado assumido pela mãe, se não se tratasse de algo consequente à gravidez, poderia mesmo ser considerado como uma doença.

Para explicar como se dá o desenvolvimento infantil, Winnicott (1998) enfatiza a situação de dependência, inicialmente total, do bebê em relação à mãe. Entendia os cuidados que a mãe devota ao filho, como sendo o ambiente com o qual o bebê manteria uma relação inicial de estrita dependência. Esta dependência, com o tempo, se torna relativa, à medida que ocorre o desenvolvimento da criança.

No princípio da vida do bebê, a mãe é indispensável. Precisa ter um grau de sensibilidade e habilidade suficiente a fim de fornecer ao, ou de ser para o, seu filho o ambiente adequado para que ele supra satisfatoriamente as suas necessidades. Inicialmente, nos primeiros momentos do puerpério, é extremamente importante que o bebê receba de sua mãe, um contato de boa qualidade, e isto se traduz inclusive na necessidade dele sentir o cheiro, o calor do corpo de sua mãe. O bebê solicita proteção, alimentação sensata, afeto genuíno e cuidados corporais que se expressam não apenas em questões sanitárias, mas também em formas de segurá-lo e embalá-lo, mudá-lo de posição, olhares tranquilizadores, respeito à sua movimentação e aquiescência, enfim, ele precisa que a mãe lhe forneça uma atenção plena.

Ou seja, a mãe precisa ser “suficientemente boa”. Neste sentido, também é fundamental que a mãe exerça adequadamente não apenas o “holding” (verbo to hold: segurar), todo este contato corporal cuidadoso; o “handling” (manejo) que dá alento ao seu filho; mas também tenha a sensibilidade necessária para a “apresentação de objeto” no momento ideal para o bebê. Winnicott (1983) ressalta que a apresentação deste objeto deve ser feita de modo que seja o bebê quem o cria, esta criação deriva de uma expectativa vaga do bebê e que acaba se originando em uma necessidade não-formulada.

A mãe deve atuar como ego auxiliar para o bebê durante este período primitivo de seu desenvolvimento. Sendo assim, não somente “o que”, mas também “como” os objetos são apresentados, adquirem proporções tanto sedutoras como traumatizantes, “se chegam à criança sem o apoio do funcionamento do ego.” (WINNICOTT, 1983, p.56).

Para que ela exerça satisfatoriamente todo esse papel, precisa estar bem, emocionalmente e psiquicamente; deste modo, proporcionará ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da experiência necessária para que este se sinta mais confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real.

Ser uma mãe “suficientemente boa”, não existe necessidade de procurar por padronizações já estabelecidas como corretas para tratar o seu filho. Não carece de se espelhar em famílias que se considera, por assim dizer, “culturalmente perfeitas”. Em vez disso, para que seu filho cresça psiquicamente integrado e saudável, ela precisa estar entregue à maternidade, vivamente, atentamente, e não circunscrita a fatores meramente intelectuais. Urge que ela tenha devoção ao bebê.

Essa mãe “suficientemente boa” atuará concomitantemente ao desenvolvimento deste bebê, adaptando-se a cada situação que este demanda. Para Winnicott (1975), ser mãe é um ato natural, o que não significa que seja especificamente instintual, mas ser mãe “suficientemente boa” também significa frustrar algumas necessidades do bebê, gradualmente diminuindo a intensidade destes cuidados, em consonância com a habilidade que o bebê vai demonstrando em entender algumas ausências maternas, no atendimento às suas solicitações. Também é uma tarefa materna, “desilusionar” o bebê.

A partir deste processo de desilusão, o bebê passa da fase de dependência absoluta da mãe, para um estágio de dependência relativa, que dura aproximadamente de seis meses a dois anos, sendo o momento em que ele precisa se adaptar a essa “falha gradual” da mãe. Nesta fase, ele adquire a capacidade de se relacionar com um objeto, ligando-o perceptivamente à pessoa integral de sua mãe. Ele passa a perceber que a mãe possui uma existência própria, separada. Mas, para que o bebê chegue a este nível de relativa dependência, a figura da mãe como ambiente favorável continua sendo vital, pois ela precisa se apresentar a ele como um ser humano com as suas próprias necessidades.

Ainda nesta fase, o bebê passa a perceber que a mãe de fato lhe é necessária. Quando a mãe se encontra ausente, o bebê sente-se ansioso; ora, é precisamente esta ansiedade que corrobora o fato dele já ser capaz de ter esta percepção da ausência da mãe.

No estágio rumo à independência, com a mãe paulatinamente otimizando todo este processo de confronto do bebê com as asperezas do mundo, o ambiente externo do bebê, que de princípio consistia unicamente na sua mãe, passa a englobar também seus pais e demais familiares, e, gradualmente, pessoas e grupos em geral. A busca pela independência se dá de maneira contínua: trata-se de um movimento em direção a esta independência (WINNICOTT, 1978). A independência completa nunca é alcançada. Ser um adulto capaz de cuidar de si próprio não denota a conquista absoluta desta independência, nem mesmo de uma completa e permanente maturidade emocional. Com efeito, para Winnicott (2005), se uma pessoa está viva, indubitavelmente ela experimenta em sua vida algum grau de dependência.

2.6. Wilfred R. Bion E A “Rêverie” Materna

Esta atuação materna descrita por Winnicott entra em consonância com as explicações da dinâmica psíquica de Bion (1991), que diz que a mãe deveria funcionar como um “continente” para receber as projeções deste bebê. Sendo assim, as modificaria, de forma que seu caráter destrutivo fosse, até certo ponto, neutralizado, para que o bebê pudesse então novamente introjetá-las, já “trabalhadas” pela mãe.

Surge, então, o conceito de “rêverie” em Bion (1991), que é a capacidade da mãe em viver esta fantasia, ou seja, para ser este tal continente. O termo “rêverie” também pode ser entendido como um estado de espírito receptivo a qualquer conteúdo mental oriundo da criança, transmutando-o em algo que ela seja capaz de utilizar imaginativamente. Com efeito, a mãe também exerce um papel muito importante neste processo da capacidade do bebê suportar as frustrações. Esta capacidade de tolerância do bebê, aliada a esta função continental da mãe, é denominada por Bion (1988) de modelo “continente-contido” (ou continente-conteúdo). Para que os pensamentos se formem e sejam utilizados, é preciso que haja uma dinâmica interativa desse modelo.

Assim, segundo Bion, têm-se alguns momentos importantes na relação mãe-bebê: primeiro existe a preconcepção, aquela expectativa que o bebê mostra, de receber o seio da mãe; se tal preconcepção é realizada positivamente (se este seio de fato torna-se real, se ele é efetivamente dado à criança), então é formada uma concepção sensorial, uma percepção baseada no sentido gustativo, tátil, olfativo que o bebê experimenta em decorrência do contato com o seio; se esta pré-concepção se depara com uma realização negativa (quando o seio não está presente), aí ocorre o pensamento, pois a ausência do seio fez com que a criança elaborasse uma forma de lidar com essa falta.

É vital, portanto, a capacidade de “rêverie” da mãe, para o desenvolvimento psíquico sadio de seu bebê. Caso ela contenha satisfatoriamente as angústias do filho, e também supra as necessidades de alimento, alento e segurança que ele apresenta, as realizações positivas e negativas propiciarão à criança uma aprendizagem pela experiência, e tal aprendizagem sempre exige um confronto com a dor, e não uma fuga.

Se a mãe falhar neste papel, as intensas projeções de descargas emocionais oriundas da realização negativa serão novamente introjetadas pelo seu filho, o que o levará a experimentar o “terror sem nome” (BION, 1988), em consequência evitando a dor depressiva, o que contribuirá para inibir o seu processo de crescimento psíquico, como já explicitado acima.

A função materna tem papel primordial para relação deste bebê com o mundo e consigo. Auxiliar na compreensão das ocorrências em seu dia-a-dia, também é uma das atribuições da função materna, assim como o ato de nomear as sensações e situações que este bebê venha a experienciar. Tal dinâmica é parte fundamental na “tradução” das sensações provocadas por esse tal “ambiente externo” no qual este bebê, que ainda não tem mecanismos psíquicos estruturados, se percebe inserido.

O bebê poderá verbalizar aquilo que aprendera a nomear. Entretanto, quando a verbalização de afetos, devido a alguma situação traumática ou por não introjeção desta funcionalidade da mãe, se encontra limitada ou impossibilitada, a massa afetiva que se encontra em ebulição dentro deste sujeito demanda escoamento.

2.7. Joyce Mcdougall E A Relevância Da Maternagem Na Psicossomática

Joyce McDougall (2013) pontua que se a mãe estiver livre de entraves internos, saberá “ouvir” as comunicações iniciais de seu lactante e assim, evidencia as possíveis consequências da falha nesse “ouvir” da mãe, onde:

[...]psicossomatistas de orientação psicanalítica, publicaram nos últimos 20 anos resultados de uma pesquisa que realizaram a partir de entrevistas com centenas de pacientes em centros especializados. Num primeiro momento, suas pesquisas permitiram a criação de dois conceitos principais, bem como o esboço de uma “personalidade psicossomática”. O primeiro conceito foi o de “pensamento operatório”, o qual se refere a uma maneira de relação com os outros e consigo mesmo, bem como a uma forma de pensamento e expressão. Esse modo de pensar, de alguma maneira “deslibidinizada” e extremamente pragmático, foi descrito por psicanalistas da Sociedade Psicanalítica de Paris (MCDOUGALL, 2013, p.25).

Tal conceito pode ser melhor compreendido quando um paciente, ao ser questionado ou encorajado a falar sobre uma pessoa que lhe é próxima, (a mãe, por exemplo), descreve-a de modo muito superficial. Essa superficialidade pode ser descrita com riqueza de detalhes, sendo assim, não deve ser entendida como carência destes, mas sim como a ausência de nomeações de afetos em relação a essa pessoa. Esta atuação é como “se (a pessoa) não tivesse acesso às representações de palavras que teriam podido exprimir seus sentimentos ambivalentes em relação a sua mãe, [...].” (MCDOUGALL, 2013, p.26).

Quando se analisa o ser humano ontogeneticamente, fica evidente que, em sua mais tenra idade, ele apreende o mundo ao redor sem representações de palavras; em vez disso, o faz apenas pelo afeto em seu corpo. “O infans, antes de ter a palavra, é necessariamente “alexitímico”. (MCDOUGALL, 2013, p.27). A alexitimia indicaria a incapacidade de o sujeito nomear seus afetos, ou de distingui-los um do outro, este é o segundo conceito principal criado pelos psicossomatistas de Paris.

Enquanto bebê, o corpo do sujeito é o receptáculo de inúmeros afetos, os quais Klein atribuiu como “forças hostis” (KLEIN,1975, p.25). Devido à falta de maturação psíquica, o bebê ainda percebe sua mãe como um universo único.

Nessa primitiva relação com a mãe, McDougall (2013, p.33) explica que o bebê começa sua vida psíquica com “uma experiência de fusão que leva à fantasia de que existe apenas um corpo e um psiquismo para duas pessoas e que estas constituem uma unidade indivisível”. Tendo em mente essa fusão, a autora complementa, “Ela (mãe) é um ambiente total, uma “mãe-universo”, e o bebê não passa de uma pequena parcela dessa unidade imensa e apaixonante.”(MCDOUGALL, 2013, p.33).

Sobre a fantasia de só existir um corpo, a autora traz sua experiência clínica na qual percebeu que as crianças vivem experiências somáticas intensas em seus primeiros meses de vida, isto é, antes de terem uma representação clara de sua imagem corporal, elas não conseguem vivenciar seu corpo ou o de sua mãe senão como unidade indivisível.

Nesse processo de desenvolvimento, quando a relação mãe-filho é “suficientemente boa”, a mãe atuará como um facilitador na estruturação psíquica que demanda o processo de diferenciação entre o corpo da criança e a representação do mundo externo, que nesse caso é o corpo materno, e segundo a autora, seria o “seio-universo”.

Sendo assim, “paralelamente e pouco a pouco, aquilo que é psíquico vai se diferenciando na mente da criança daquilo que é somático” (MCDOUGALL, 2013, p.34). Esse processo é lento e esses bebês buscam psiquicamente fundir-se completamente com a mãe-universo e ao mesmo tempo serem “completamente” diferenciados dela.

Essa dinâmica de fusão e diferenciação desperta no bebê necessidades de elaborar mecanismos psíquicos, como incorporação, introjeção e identificação, que atuam no processo de internalização do ambiente maternal e como uma representação mental da própria mãe enquanto figura tranquilizadora e benevolente, capaz de acalmar as tempestades afetivas de seu bebê e de modificar seu sofrimento sem se opor ao seu desejo constante de alcançar a autonomia psíquica e somática, acabando por assentar os fundamentos de uma identificação ulterior no mundo interno da criancinha com uma imago atenciosa e reconfortante para o bem da constituição de seu próprio self.

Assim, McDougall (2013, p.36) explica o processo de diferenciação:

[...] à medida que diminuem o contato corporal e as formas gestuais de comunicação com a mãe, estas são substituídas pela linguagem, pela comunicação simbólica. O lactente torna-se uma criança dotada de palavra. A partir desse estádio, o desejo contraditório de ser ela mesma e de, ao mesmo tempo, continuar sendo parte indissolúvel do outro é recalcado, a nostalgia é compensada pela dupla ilusão de possuir uma identidade separada, inabalável, enquanto se conserva um acesso virtual à unidade original, inefável (MCDOUGALL,2013, p.36).

Destacando a importância dessa atuação materna, a autora conclui relatando que “qualquer fracasso nesse processo fundamental vai comprometer a capacidade da criança integrar e reconhecer como seus o seu corpo, os seus pensamentos, os seus afetos.” (MCDOUGALL,2013, p.36).

Tais dificuldades na diferenciação foram evidenciadas num momento no qual, a autora, trabalhava com seus analisandos que sofriam de diferentes fragilidades narcísicas. Tais pacientes lhe comunicaram sua dificuldade de distinguir entre sua mente e a dela, dificuldade que tinha repercussões também sobre suas percepções do mundo externo. Estes relatavam a crença absoluta nas fantasias que tinham sobre os pensamentos da autora, como exemplo destaca que muitas vezes apresentavam a solicitação implícita de serem compreendidos sem ter que recorrer à linguagem.

Entretanto, tais condutas são legítimas nos primórdios da constituição do ser humano, mais especificamente nos bebês. Estes demandam que sua solicitação seja atendida sem a utilização da linguagem, e para tal, a “rêverie” materna se faz fundamental.

Quando uma falha ocorre nessa dinâmica primitiva de mãe e filho, pode ocorrer no bebê um sentimento permanente de frustração e de fúria impotente. Segundo a autora, esse tipo de experiência pode impeli-lo a construir, com os recursos de que dispõe, maneiras radicais de se proteger de crises afetivas e do esgotamento que disso pode resultar. Destaca, também, outro fenômeno, provavelmente ligado às defesas primitivas contra a emotividade, que é a recordação de uma precocidade notável na aquisição da autonomia (de andar, da utilização da linguagem, dos hábitos higiênicos).

Em contrapartida, “à medida que se dá a lenta introjeção do ambiente maternal, o lactante começará a fazer a diferença entre si e sua mãe, e a recorrer a ela com total confiança, para que ela lhe traga reconforto e alívio de seu sofrimento físico ou mental.” (McDOUGALL, 2013, p. 44). Todavia, a mãe, com suas peculiaridades intrínsecas e todo vasto universo histórico que lhe compõe, pode, de forma inconsciente, ser um continente incapaz de receber os conteúdos trazidos por esse bebê, e assim, provocar uma superestimulação traumática.

Por outro lado, se houver negligência aos cuidados continuamente demandados pelo bebê, poderá advir uma subestimulação, que também é traumática. Este bebê poderá ser levado a não distinguir uma representação de si, da representação do outro. Isso pode suscitar uma representação corporal arcaica na qual os contornos do corpo, o investimento das zonas erógenas e a distinção entre o corpo materno e o corpo da criança permanecem confusas.

Os traumas infligidos na primeira infância rompem, em alguns pacientes psicossomáticos, os escudos psíquicos que deveriam protegê-los. Estes pacientes atribuem seus problemas às circunstâncias externas, em decorrência dessa falha emocional primitiva em realizar uma elaboração mental de natureza simbólica ou verbal.

A luta contra essa divisão primordial, ou seja, mãe e bebê, é que dá origem ao indivíduo, entretanto, esta pode ceder lugar a outras conciliações variadas, no qual citou a construção de modelos de personalidade narcísica ou fronteiriça, dependência de drogas ou medicamentos, alcoolismo e bulimia, inclusive “uma fissura profunda entre psiquismo e soma” (MCDOUGALL, 2013, p. 45).

A autora destaca que:

Há dois tipos de soluções: o primeiro leva a uma patologia autista na qual o corpo e seu funcionamento somático permanecem intactos, enquanto a mente se fecha ao mundo exterior; o segundo mantém, intacta a relação com a realidade exterior, mas ainda correndo o risco de ver o soma reagir e funcionar de modo que poderíamos qualificar de “autista”, desligado das mensagens afetivas do psiquismo em termos de representações verbais, reduzido a representações de coisas muito fortes e, portanto, a uma expressão não-verbal (MCDOUGALL, 2013, p. 45).

O termo “autista”, empregado para se referir ao encapsulamento do corpo como forma de proteção contra o mundo de afetos, traz também uma conotação de distanciamento patológico entre esse psiquismo e o corpo que deveria perceber esses afetos. Tal distanciamento tem como efeito ou a impossibilidade deste psiquismo nomear tais afetos, em decorrência de não ter a maternagem suficientemente boa para construir tais representações, ou o sujeito ter consciência do que ocorre, porém sem que seu corpo encontre formas de externalizar tais afetos, numa total incongruência entre verbalização e externalização somática desses afetos.

McDougall (2013) explica essa dinâmica por meio da “palavra desafetada”:

[...] no qual as palavras não têm mais sua destinação primordial, isto é, sua função de ligação pulsional existe apenas como estruturas congeladas, esvaziadas de substância e de significação. Este discurso pode ser inteligível e até altamente intelectualizado, mas é totalmente desprovido de afetos.”(MCDOUGALL, 2013, p. 104).

2.7.1. A palavra e as manifestações psicossomáticas

Os indivíduos que podem ser chamados de “desafetados”, de “personalidades adictivas” e “normopatas”, termo cunhado pela autora para se referir aos pacientes que pareciam não apresentar sofrimento neurótico e que exibiam uma total aparência de normalidade, pseudonormalidade, tendiam a somatizar em situações de estresse. Muitas vezes a reação psicossomática era consequência de um fracasso de seu método habitual de dispersão, ou de um transbordamento do funcionamento alexitímico, cuja função defensiva consiste em exorcizar angústias arcaicas do tipo psicótico.

Deste modo, as manifestações psicossomáticas, como a psoríase, eclodem devido ao fato do psiquismo não encontrar representações verbais para cercar ou refrear tais situações aterrorizantes.    McDougall (2013) completa dizendo que:

[...] as palavras,[...] são diques mais eficazes para conter a energia vinculada às pulsões e aos fantasmas aos quais estas deram origem, em relação com os objetos parentais do início da infância. Quando as palavras deixam de preencher essa função, o psiquismo vê-se obrigado a emitir sinais de sofrimento de tipo pré-simbólico, contornando, por aí mesmo, as ligações limitadoras da linguagem. Há então, um considerável risco de suscitar respostas somáticas e não psíquicas diante de uma angústia indizível (MCDOUGALL, 2013, p.114).

Dessa forma, a autora explica os mecanismos psíquicos para a eclosão de tais sintomas; entretanto, ainda assim, levanta-se outra questão: por que o sujeito, que se encontra adoecido, manifesta a psoríase, e não uma úlcera, por exemplo?

2.7.2. Órgão choque

Julio de Mello Filho (1991, p.34) destaca a importância dos trabalhos de grupo psicanalítico, executado por Franz Alexander em Chicago, para entender a escolha do órgão choque. E assim, explica que tais trabalhos:

[...] mostraram a importância que adquirem alguns órgãos, sistemas ou partes do corpo, por terem sido sede de doenças em certos períodos cruciais do nosso desenvolvimento, ou por terem recebido especial atenção do meio-ambiente, ficando carregados de significação afetiva (MELLO-FILHO, 1991, p.34).

O autor também ressalta a importância do contato epidérmico mãe-filho descrito por Winnicott através do conceito de “holding” e explica que este “é a criação, por parte da mãe, de toda a atmosfera de carinho, aceitação e proteção ao “aninhar” o filho”, este ato tem grande importância no estabelecimento dos limites do ego e no processo de diferenciação do eu-mundo.

É sobre o fracasso nesse processo de diferenciação, tão fundamental no processo de desenvolvimento do indivíduo que McDougall (2013) se refere ao dizer que

[...] vai inevitavelmente comprometer a capacidade que a criança pequena tem de integrar e reconhecer como possessões pessoais, não somente seu corpo e suas zonas erógenas, mas também sua mente, isto é, seus pensamentos e sentimentos. Quando uma elaboração inadequada e a descarga da tensão psicológica através de um trabalho ou de uma ação psíquica se aliam à incapacidade de cuidar de si mesmos, percebemos que esses pacientes tendem a ignorar os sinais de sofrimento do corpo e não chegam a ouvir os sinais de sofrimento da mente. Em casos como esses, a clivagem que resulta entre psiquismo e soma pode ter consequências catastróficas.” (MCDOUGALL, 2013, p. 51).

Pela perspectiva psicossomática, o corpo sofre quando o psiquismo se mostra incapaz de elaborar os excessos de afetos. Sendo assim, a psoríase é um dos meios que esse corpo encontrou para sinalizar que existem inaptidões psíquicas do sujeito. Levar para o “setting” analítico o processo de adoecimento do corpo se faz necessário para propiciar as condições de analisabilidade do paciente acometido por uma doença psicossomática (McDougall, 2013) e assim proporcionar a vinculação dos afetos aos seus correspondentes simbólicos.

3. O Que a Clínica Psicanalítica Tem aOferecer ao Paciente Com Psoríase?

Não é novo, nem para a teoria e nem para a clínica psicanalítica tratar de questões que estão diretamente relacionadas com continente materno, ou com a falha dele. Dessa forma, será abordada na vivência clínica a maneira que o psicanalista pode exercer a função continente. Para Winnicott (1975), o mais importante, e onde é preciso voltar à atenção é o “entre” da relação mãe-bebê e sendo assim, o “entre” da relação psicanalista – paciente.

O psicanalista atua como um facilitador para que o paciente venha a dar outro significado à sua história de vida, um passo importante para que este pare de agredir inconscientemente seu próprio corpo, ou seja, deixe de desviar para a pele, no caso da psoríase, questões psíquicas difíceis de elaborar. A história de vida do paciente é única, e é exclusivamente dele, por isso, quando este procura um psicanalista, cabe ao profissional compreender sua singularidade em todas as suas peculiaridades, e assim, receber esses conteúdos da vida do paciente, trabalhá-los de modo “suficientemente bom” e retorná-los de forma que este consiga introjetá-los em congruência com sua maturidade psíquica.

3.1. A Importância do Campo Relacional para o Tratamento das Doenças Psicossomáticas na Visão Winnicottiana

O caminho a ser percorrido é o do campo relacional,ou seja, como esse sujeito se relaciona com o mundo e como será desenvolvida a relação entre psicanalista – paciente.

Sendo assim, pode-se tomar as produções de Winnicott como fundamentação teórica para o acompanhamento e compreensão desse sujeito regredido. Afinal, muitas vezes é o lado infantil do adulto que comparece no “setting” analítico, e é com essa “criança” que se desenvolverá a relação analítica, por isso, é muito provável que o psicanalista, represente a “figura materna” para o paciente até o momento em que este paciente tenha condições de ser continente de si.

Diante desse sujeito que atualiza suas relações primárias e se mostra impossibilitado de ser continente de si mesmo, é de fundamental importância a capacidade do psicanalista em se implicar no processo de análise de seu paciente.         Isso é o que Winnicott (2000) descreve como esforço do profissional em criar as condições necessárias para o desenvolvimento do paciente. O psicanalista suficientemente bom é aquele que consegue adaptar as condições existentes no “setting” analítico às necessidades do paciente.

Winnicott (1983) chama de preocupação materna primária a capacidade da mãe de perceber e atender as necessidades básicas de seu bebê. Como citado anteriormente, o autor em sua prática clínica percebe que somente a interpretação não é suficiente para construir um ambiente de confiança para o paciente mudar sua forma de funcionamento. Dessa maneira, é possível observar no paciente três etapas em seu processo de análise: a dependência absoluta em relação a análise, geralmente é como ele chega ao “setting” analítico; a fase de dependência relativa, que pode ser considerada uma etapa intermediária e por último, a independência.       Nesta última, o paciente já está apto a cuidar de si, e no caso da psoríase, a pele já pode se encontrar livre para viver de forma saudável as relações, e sentir o toque do outro, sem ter medo do contato e da insegurança de um continente precário.

O autor diz que as dificuldades do paciente podem surgir a partir de um histórico de abandono e exclusão por falhas na relação mãe-bebê, onde construir um ambiente de confiança é uma condição “sine qua non” para o resgate psíquico do sujeito.

O “setting” analítico pode favorecer o ambiente mais propício para que isso ocorra, pois o profissional psicanalista poderá auxiliá-lo no processo de construção das representações mentais que sirvam de pontos de ancoragens para a maturação psíquica.

4. Conclusão

Durante a pesquisa para a produção desse artigo, foi possível concluir que a psoríase encontra seu abrandamento ou agravamento em decorrência das emoções que o paciente se percebe experienciando. Suas emoções adquirem tamanha força que seu psiquismo não consegue conter, tal incontinência acaba provocando a busca desse corpo por meios, momentaneamente, mais eficientes para abrandar a pressão que essas emoções criam, resultando assim, em manifestações somáticas, como a psoríase.

A aquisição da habilidade de experienciar, conter e nomear tais afetos tem sua gênese no período mais arcaico do desenvolvimento do ser humano, ou seja, quando bebê. Esta advém do exercício da função materna, que ao atuar de forma acolhedora aos temores e terrores que esse bebê experiencia, acaba por propiciar ao “infans” a aquisição de ferramentas psíquicas para interagir com o ambiente de novos afetos.

A função materna tem grande importância no estabelecimento dos limites do ego e no processo de diferenciação do eu-mundo, ou seja, nos contornos desse corpo. Por isso a pele adquire tamanho destaque e importância como via de internalização e externalização de afetos.

Entretanto, quando adulto e acometido por tais enfermidades, poderá encontrar suporte, também, na clínica psicanalítica, pois para o psicanalista, existe a possibilidade de atuar como ego auxiliar, e assim, o paciente poderá buscar, em sua singularidade, os mecanismos psíquicos necessários para que possa se constituir como continente mais fortalecido de si, e assim, fazer uso de vias mais eficientes para externalizar seus afetos.

Concluiu-se também que, quando a mente do paciente psicossomático pode finalmente se encarregar da tarefa de modificar sua história psíquica, o corpo acaba se libertando das tentativas repetidas e infrutíferas de encontrar uma conciliação com o sofrimento psíquico.

Sobre o Artigo:

Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação de Psicologia) – Centro Universitário Celso Lisboa, Rio de Janeiro, 2015.

Referências:

ARRUDA, H. F. C; CAMPBELL, G. A. M; TAKAHASHI, M. D. F (2001). Psoríase. Anais Brasileiro de Dermatologia, 76 (2), 141-167

BALLONE, G. J., NETO, E. P., & ORTOLANI, I. V: Da emoção à lesão: um guia de medicina psicossomática. São Paulo: Manole, 2002.

 

BION, W. R. As transformações. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

_________. Uma teoria do pensar. In: BION, W.R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

_________. O aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

HAYNAL, A; PASINI, W. Manual de medicina psicossomática. São Paulo: Masson, 1983.

JORGE, Z. H et al, 2004. Pacientes portadores de dermatoses: relações iniciais e auto-agressividade. Disponível em: http://www.Frevistaseletronicas.pucrs.br%2Fcivitas%2Fojs%2Findex.php%2Frevistapsico%2Farticle%2FviewFile%2F1386%2F1086&ei=50D1VMOzA4ymNtX6gbgC&usg=AFQjCNHqnV1W3COhrOgZm_vng99GeWOUDA&bvm=bv.87269000,d.eXY Acesso em: 03 mar. 2015

KLEIN, M. O sentimento de solidão. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

LEWIS, H.R.; LEWIS, M.E. Fenômenos psicossomáticos: até que ponto as emoções podem afetar a saúde. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.

MARQUES, S.A: Conceito, epidemiologia, génética e imunopatogênese in CONSENSO BRASILEIRO DE PSORÍASE. Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2009

MCDOUGALL, J. Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

MELLO-FILHO, J. Concepção psicossomática: visão atual. 6. ed. Rio de janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.

ORTONNE, J.P. Aetiology and pathogenesis of psoriasis. Br J Dermatol. 1996;135(Suppl 49):1-5.

PAPALIA, D.E.; FELDMAN, R.D. Desenvolvimento humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

PITA, C. R., 2003. Psoríase sob a luz da medicina ocidental. Disponível em: http://www.abrapse.com.br/monografia_001.pdf Acesso em: 25 mai.p 2015.

RODRIGUES, A. P; TEIXIERA, R. M., 2009. Desvendando a psoríase. Disponível em: http://www.sbac.org.br/rbac/017/260.pdf Acesso em: 03 mar. 2015.

SABBAG, C. Y. A pele emocional: controlando a psoríase. São Paulo: Iglu

Editora LTDA, 2006.

SANTOS, L. R. D. Psicodermatologia: perspectivas sobre vinculação em pacientes com psoríase. 2012. 72f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). ISPA Instituto Universitário, Lisboa.

SILVA, K. de S.; SILVA, E. A. T., 2007. Psoríase e sua relação com aspectos psicológicos, stress e eventos da vida. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2007000200012&lng=en&nrm=iso Acesso em: 22 maio 2015.

SOUZA, A. P. F. S. et al., 2005. Associação de eventos estressores ao surgimento ou agravamento de vitiligo e psoríase. Disponível em: http://www.Frevistaseletronicas.pucrs.br%2Fcivitas%2Fojs%2Findex.php%2Frevistapsico%2Farticle%2FviewFile%2F1386%2F1086&ei=50D1VMOzA4ymNtX6gbgC&usg=AFQjCNHqnV1W3COhrOgZm_vng99GeWOUDA&bvm=bv.87269000,d.eXY Acesso em: 03 mar. 2015.

WINNICOTT, D. W. Conseqüências da psicose parental para o desenvolvimento emocional da criança. In: WINNICOTT, D. W. A família e o desenvolvimento individual. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

______________. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

_______________. O ódio na contratransferência. In: WINNICOTT, D. W. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

_______________. Preocupação materna primária. In: WINNICOTT, D. W. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

_______________. Objetos transicionais e fenômenos transicionais. In: WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

_______________. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

_______________. Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Informar um Erro Publique Seu Artigo