A Religiosidade no Setting Terapêutico: O Manejo do Jovem Terapeuta na Abordagem Fenomenológica Existencial

(Tempo de leitura: 10 - 19 minutos)

Resumo: O objetivo deste trabalho é buscar compreender o cliente acerca de sua religiosidade dentro do setting terapêutico na visão existencial fenomenológica, esclarecendo ao profissional em treinamento, a postura ética e como é a sua posição de intervenção diante das crenças, buscando contribuir ao jovem terapeuta, o manejo diante de diferentes crenças religiosas. O método de estudo foi elaborado através de observação e escuta em atendimentos psicológicos realizados na clínica escola – Unipac–Ipatinga.

Palavras-chave: Religiosidade, espiritualidade, ética e manejo no setting terapêutico.

1. Introdução

Como estagiária e futura psicóloga, tentei buscar informações com objetivo de ampliar os conhecimentos clínicos do futuro profissional, além de procurar entender a posição ética do terapeuta em função de clientes cristalizados em crenças religiosas e valores cristãos. Ressalto que não cabe aqui neste artigo julgar, discutir, contradizer a religião, a fé de nenhum indivíduo, mas a clarificação, a ressignificação, o entendimento do jovem terapeuta diante da religião na contemporaneidade e ficará incumbido de  promover conhecimento ao ser, através da experiência vivida que acontece no setting terapêutico, tal como se dá, evitando julgamentos prévios. Achei de grande valia ressaltar uns dos assuntos mais pertinentes na clínica, mas não tão bem esclarecidos na academia, deixando o estagiário a escolha de buscar ou não mais conhecimento sobre a religiosidade, espiritualidade e suas procedências diante do cliente. E com o intuito de entender um pouco mais a vivência de meus clientes, tive a necessidade de me adentrar no assunto devido a religiosidade e como o futuro terapeuta enfrenta no setting terapêutico, assunto que vem ganhando cada vez mais espaço na ótica da sociedade atual.

É sabido que muitos pacientes trazem em seus relatos, experiências ligadas a religiosidade que possuem como ponto de apoio. Para alguns, esse é o único meio de relacionar  a suas vivências e experiências humanas, assim sendo, a forma de como a pessoa se coloca no mundo, como ela lida com as situações atuais de sua vida e como irão enfrentá- las. Com o intuito de clarificar estas situações, foram feitos estudos em publicações de alguns filósofos existencialistas, acessos aos sites: SCIELO, GOOGLE ACADÊMICOS e periódicos, abordando o tema da religiosidade no setting terapêutico e a posição ética do terapeuta na abordagem existencial fenomenológica.

2. O Ser Espiritual

Afirma Ribeiro (1998, 2004)  que a definição do homem é constituído em quatro dimensões básicas – biológica, psicológica, sociológica e espiritual – que, ao se desenvolverem, nessa ordem, de forma saudável, possibilitam alcançar a dimensão espiritual (sacro-transcendental), ou seja, a pessoa em que os três primeiros campos se desenvolveram de forma harmônica e integrada poderá reconhecer e vivenciar o quarto campo – a dimensão espiritual. Integrando estes quatro elementos que são fundamentais podemos perceber que o homem é um ser vivido diferenciado entre todos os seres vivos sendo a sua dimensão espiritual. E ainda Frankl (1978) ressalta que a humanidade só terá chance de sobreviver se encontrar uma tarefa que todos possam desempenhar solidariamente, animados por uma mesma vontade de encontrar um sentido.

Somente considerando o homem holisticamente torna-se possível conhecê-lo profundamente. A experiência do sagrado quando vivenciada de forma saudável e integrada, isto é, sem o fanatismo presente em alguns espaços de religião institucionalizada, possibilita à pessoa tornar-se aberta e transparente, entrar em contato com o mais íntimo dela mesma e também pode incitar a manifestação de seu verdadeiro eu. Entretanto, Frankl (1993) iniciou a logoterapia aprofundando-se a religiosidade, buscando uma explicação diante do sofrimento além do intelecto, acima da capacidade de compreender que a vida que pode ser dotada de um sentimento incondicional. Não que Frankl quisera exceder com a psicologia, mas complementá-la e adicionando-a também, junto com o ser humano o - mais indispensável às ciências do homem do que o método e técnicas corretas.

A Logoterapia e Análise Existencial busca restituir a imagem do homem superando reducionismos, através de sua visão bio-psico-espiritual pretendendo superar o reducionismo e condicionamentos, contribuindo com uma visão do ser humano mais completo, de um ser livre e responsável, que constrói a sua história, que se posiciona diante dos condicionamentos biológicos, psicológicos e sociológicos. E ainda conforme Frankl (1992) a religiosidade pode ou não ajudar o homem no encontro de um sentido na vida, assim como nem toda crise de sentido pode ser solucionada pela crença religiosa.

Na análise existencial, a existência é para nós um Vir-a-Ser, uma incerteza. A existência real do ser é atribuir o seu sentido, o seu significado, o seu propósito. O ser do homem deve ser um "Ser-Aí" e "Aí" é o mundo. O nosso Ser-no-Mundo-Com consiste em estar relacionado com alguma coisa, em fazer uso de algo, em renunciar algo, apreender, realizar, determinar e saber algo.

Segundo Heidegger (1982) somos "lançados" no mundo, sem escolha pessoal, sem conhecimento prévio deste mundo que está aí diante de nós e estará aí depois de nós. Não sabemos a que fim fomos lançados na existência. Entretanto, é justamente esse desconhecimento que torna a condição "lançada" da existência humana mais enfática e palpável. A existência é uma questão de assumir ou não a própria vida.

O ser alienado não sente o peso da responsabilidade de suas escolhas. Esta forma de existência é o oposto de um Dasein (ser-ai) que tem domínio de si, e daí consiste a distinção entre condição autêntica e uma condição inautêntica do modo de vida humano, de existência do Ser.

2.1   Religiosidade e Espiritualidade

Visto que a religião é um sistema de crenças, práticas, símbolos e estruturas sociais, considero que no setting terapêutico é impreterível a escuta diferenciada entre estes dois conceitos; religiosidade e espiritualidade. O momento será de uma escuta sensível ao ouvir, separando-os e ao mesmo tempo, sem esquecer que as religiões caminham junto com a espiritualidade.

"A religião é uma palavra que vem do latim, religare, significa restabelecer a ligação de Deus entre os homens. A espiritualidade que também vem do latim, spiritus, que significa "sopro", referindo-se ao sopro da vida.Envolve a capacidade de se maravilhar, de referencia e gratidão pela vida. È a habilidade de ver o sagrado nos fatos comuns, ter consciência de uma missão transcendente, que leva em consideração o próprio ser, o outro, a natureza e a vida"(Elkins,200, pag.27).

Segundo Oliveira (2006) a religiosidade possui um duplo aspecto. No primeiro momento: tendo sentido de religião, quando é expressa como exterioridade, através de práticas devocionais, ritos, um primento de preceitos, celebrações e doutrinas; Segundo: sentido de vivência na interioridade, ao impulsionar à visão do invisível, a crer no que não pode ser constatado pela razão, uma Força Transcendente.

Já a espiritualidade é descrita por Valle (2005) como também sendo essencialmente uma busca pessoal de sentido para o próprio existir e agir, porém sem estar ligada a um Ser ou uma Força Transcendente. A pessoa espiritualizada apesar de acreditar e ter devoção em algo superior, não possui necessariamente uma crença religiosa, nem participa de uma religião institucionalizada.

Conforme Safra (2003b) alerta que na clínica, quando se investiga uma pessoa, observa-se que há uma religiosidade se manifestando a despeito de se ter uma religião. Há um movimento de religiosidade na subjetividade da pessoa, isto é, um movimento originário que busca dar sentidos às experiências no mundo, que busca sempre um mais além. O autor vem definir a religiosidade como complexa ampla e presente em dois níveis da subjetividade humana: os níveis ontológicos e o ôntico.

O indivíduo que experiência a religiosidade segue suas vivências tão importantes no caminho da busca do sentido da vida, que Frankl (1993) afirma que o homem irreligioso não foi capaz de dar este último passo - o da experiência religiosa - escolhendo ficar no meio deste caminho. O homem irreligioso parou antes do tempo, não teve capacidade de  perguntar para além de sua consciência. A experiência religiosa, de cada individuo busca uma vida plena de sentido, podendo ou não encontra-la na religiosidade, tratando-se de uma busca particular e única, momento que o homem explora a força de sua dimensão espiritual, advertido na dinâmica da própria consciência. A religiosidade faz parte da constituição ontológica do sujeito.

Acredito que a religião e psicologia são compreendidas através da ciência e principalmente a psicologia. Visto que é uma reação  dialética entre a religiosidade e a psique. A simbologia, ritos e mitos é que faz o ser humano se adentrar, experiências com o sagrado, ressignificando suas vivências.

No entanto, estas dimensões do ser humano, são fundamentais a sua cultura e o seu modo de estar no mundo, por sua vez Frankl (1978,pag.33) igualmente destaca que a dimensão espiritual é essencial ao homem e é neste momento em que o ser humano se envolve na capacidade de se maravilhar diante do sagrado na busca de vida plena tendo reverência e gratidão pela sua existência. É subjetiva a experiência da religiosidade e espiritual, sendo que cada um poderá encontrá-la ou não, sendo uma busca particular e única, momento em que o homem tem a escolha de explorá-la ou não, advertindo na dinâmica da própria consciência.

A dimensão do espírito é que nos possibilita a transcendência, isto é, estar aberto para uma realidade mais ampla e estar presente a si mesmo. Frank (1978) relata que  "vejo o homem como um ser caracterizado pela autotranscendência, aberto ao mundo, voltado para o sentido da vida e tendido ao encontro com os outros seres humanos (parceiros)"

Espiritual, neste sentido, é usado sem nenhuma conotação religiosa, mas simplesmente para indicar que estamos lidando com um fenômeno especificamente humano (em contraposição aos fenômenos subumanos que compartilhamos com os animais). Em outras palavras, o espiritual é o que há de humano na pessoa. (FRANKL, 1985, p.21, grifos do autor)

Frankl (1976, apud XAUSA, 2003) refere-se à espiritualidade inconsciente como algo existente no homem que se contrapõe ao impulso inconsciente. "Tal espiritualidade inconsciente existe de fato e não hesitamos em declarar que, assim como uma sexualidade inconsciente também uma religiosidade inconsciente". No entanto,  Paiva (2005:43) ressalta que se separe a Psicologia da Espiritualidade da Psicologia da Religião, pois espiritualidade e religião são coisas diferentes e merecem duas formas diferentes de olhar através da Psicologia, estes dois constructos são bem próximos que devem ser aprofundados junto com a psicologia da religião. Vejo que é importante este estudo mediante a psicologia clínica, na prática psicoterapêutica, que precisa de suportes da Psicologia da Religião. E ainda destaca que é necessário não reduzir o ser humano  ao corpo e  ao psíquico, mas, pelo contrário, admitir que há uma dimensão mais profunda,  e que essa dimensão é essencial no desenvolvimento do homem.

A espiritualidade é uma experiência que acontece através do conhecimento, buscando atitudes para aceitar os próprios limites e possibilidades. O espiritual é o ato de significar nossas ações individuais. A espiritualidade cada vez mais está se deslocando dos rituais, dogmas e doutrinas para o sujeito, com sua capacidade de escolha, passando pela experiência afetiva. Essas experiências subjetivas, que podem ser consideradas como aquelas que o homem toma consciência da própria existência, ajudam o homem a entender melhor sua vida e o sentido da vida.

As pessoas ao procurar atendimento psicoterápico, chegam cristalizadas espiritualmente e religiosamente que é o seu apoio diante de suas decepções do seu dia a dia e a forma possível de construir um sentido para todas as suas dificuldades atuais. Na fala de Boff (2001),a espiritualidade designa o mergulho que fazemos em nós mesmos. No momento que nos voltamos para o nosso interior mergulhamos no nosso mais profundo, e ao experimentamos a realidade como um todo, estamos vivenciando a nossa espiritualidade.

3. Ética e Manejo no Setting Terapêutico

"Os psicólogos encontram dificuldades em compreender, aceitar, abordar e interagir com o tema religiosidade na prática clínica, devido a alguns fatores tais como o pouco contato com estudos de Psicologia da Religião nos cursos de graduação e em consequência a falta de uma abordagem que lhes dê suporte teórico; a forte orientação na formação do racionalismo científico, além de sua própria religiosidade e das questões éticas implicadas em tal fenômeno, que também se fazem presentes" (Ancona-Lopez 1999, pag.54).

A experiência de religião na atualidade e o seu contexto de espiritualidade, trás ao ser humano momentos relevantes nos atendimentos clínicos, certos de que a avaliação da qualidade desta experiência em ampliar a escuta sobre os significados das queixas e dificuldades psicológicas. Mostrando neste momento, como a pessoas se identifica no mundo, como ela está em especial como o cliente concebe o divino, o sagrado.

O código de ética vem trazer ao profissional a sua identidade junto com sua busca de inspirações, conselhos e normas de condutas. E no setting terapêutico ao atender pessoas que trazem a religião como escudo para o seu cotidiano, observei na importância e a dificuldade de lidar com falas de clientes exaltando o sagrado, contudo, procurei ter cuidado ao intervir as falas do cliente e de suas crenças, como é um exercício bem difícil,e ressalto que não é tarefa do psicólogo induzir o cliente a qualquer tipo de orientação religiosa, nem utilizar sua fé como fonte de legitimação de seus procedimentos e teorias psicológicas. E mesmo que eu pertencesse a alguma religião e se algum cliente me procurasse devido a esta religião, a prática da psicoterapia para com o cliente também deverá ser mantida nos parâmetros da ciência psicológica que é reconhecida pela academia e pelos conselhos da psicologia.

No entanto, percebo que é importante ao jovem psicólogo saber um pouco mais de suas crenças, sua espiritualidade. E o raciocínio clínico deve ser direcionado pelos conhecimentos psicológicos e pela observação do que ocorre entre ele e seu paciente conforme Ancona Lopez, (1999) para que saiba diferenciar tais conceitos diante de clientes fanáticos ou alienados em religião, pois poderá se deixar levar pelo senso comum, de que tudo é culpa de algo espiritual e deixará cair por terra o seu profissionalismo. E no setting terapêutico o jovem terapeuta terá como aliado as condições facilitadoras fenomenológicas; congruência, vinculo terapêutico e compreensão empática e assim facilitará o desenvolvimento do paciente, que busca esclarecimentos do seu sofrer.

O manejo de como lidar com tais posturas dentro do setting vai depender de cada profissional, somente ele vai saber articular diante de sua abordagem escolhida, reparando a impossibilidade da separação entre as esferas pessoal, cultural e profissional do psicólogo. E cabe ao profissional ter clareza de suas crenças fundamentais.

Vale salientar que a cultura na qual o indivíduo se constitui é prática comum na clínica psicológica. E todas as abordagens não ignoram a importância da cultura como formação da subjetividade.

Conforme Amatuzzi (2006) há muitos obstáculos na comunicação entre o psicólogo e o cliente. Em alguns casos, os pacientes têm uma interpretação espiritual sobre alguns comportamentos diferentes (influência de demônios ou outros espíritos) e são diagnosticados como tendo uma alteração de causa psicopatológica. Em outros casos, os pacientes podem receber esclarecimentos religiosos por parte do psicoterapeuta sobre determinados sofrimentos de causa psíquica, entre eles os de natureza sexual.

No entanto, cabe ao futuro profissional estar atento a psiquiatria, psicopatologia, crença e fé. Pois só assim, irá desmistificar o seu conteúdo terapêutico. Durante todo o curso do psicólogo é impreterível ao jovem terapeuta, trabalhar a sua neutralidade para com o outro. Ou seja, o psicólogo deve deixar em suspenso suas opiniões e crenças pessoais para se colocar em posição neutra, podendo assim agir com objetividade.

Na fala de Teixeira (2005) apesar dos medos, das culpas e imposições, ele considera que a religião também pode provocar uma mudança de conduta na vida que envolve toda a pessoa, e ser também um fator preventivo. No entanto,  o jovem terapeuta deve auxiliar o cliente a tonar se aware, ter consciência do seu agir, pensar, sentir, precisa o psicólogo voltar-se para com o cliente e sua experiência. O homem, como ser singular, atribui, de maneira única, diferentes significados às suas experiências devendo utilizar como método clínico a atitude fenomenológica, que é a investigação e descrição da experiência como ela se apresenta à consciência daquele que experiencia; é a apreensão segundo o referencial daquele que vive o fenômeno. E percebendo a realidade do cliente e seu significado  por ele, o  psicoterapeuta deve utilizar-se da epoché, recurso da fenomenologia, a fim de atingir a essência do fenômeno &– que, na psicoterapia, é o vivido pela pessoa atendida.

Realizar a epoché consiste em nos ausentarmos por completo dos julgamentos que temos (...). Só desta maneira que é possível chegarmos à reflexão clarificadora do fundamento último e absoluto e deixar surgir o sentido de ser de algo (Goto, 2004 pag.33).

Fazer epoché não se trata de negar o que se conhece a respeito do objeto, mas simplesmente assumir uma rigorosa disciplina metodológica de modo a permitir que o novo apareça (Dartigues,1992 pag.28).

E ainda, conforme Hycner (1995) relata que é papel do terapeuta estar atento à experiência do cliente, mas simultaneamente atento à sua própria existência. Para tanto, o mesmo autor ressalta que entrar no mundo do outro pode implicar a perda da própria perspectiva, por isso, constitui desafio para o terapeuta não só apreciar total e profundamente a experiência do cliente, mas também manter seu próprio centro diante de experiências divergentes e até conflitantes.É imprescindível o psicoterapeuta manter seu próprio centro diante de experiências próximas às dos clientes, e escutas o outro e a si mesmo, em um movimento constante como diz Ribeiro (1999).

4. Conclusão

Conforme meus atendimentos psicológicos como estagiária, neste último semestre do curso de psicologia, senti na necessidade de saber um pouco mais sobre a religião e religiosidade, devido a grande dificuldade em saber manter posturas coesas dentro da psicologia e atitudes durante os atendimentos, no momento em que  os clientes abordavam a vivência de conflitos entre suas necessidades ou experiências pessoais e suas crenças relacionadas a questões religiosas. Foi exposto estes obstáculos e discutidos com a supervisora sobre as minhas ações diante de conflitos impregnados de religião, crença e fé, percebi  que necessitava de  adentrar mais sobre o assunto, me via longe de meus clientes e vazia de aprendizado.

No mais, a consciência dessa dificuldade é fundamental, pois como lembra Forghieri (2004)  o psicólogo também deve ser objeto de suas investigações e reflexões; e então as perguntas tanto se voltam para seus clientes como para ele próprio. O modo como tenta compreender e ajudar outras pessoas é, basicamente, o modo como tenta compreender- se.

Ao lidar frente a frente com pessoas fanáticas a religião ou religiosas é um momento difícil. Principalmente ao falar em aceitar o cliente como um todo, como um ser bio-psico-socio-espiritual, sendo necessário o psicoterapeuta abandonar qualquer ideologia que a prenda em apenas teorias, enfatizando o respeito fenomenológico por aquilo que ele está sendo e pelo seu surpreendente– e não controlável– vir a ser.

Como terapeuta, entendo que alguns erros foram cometidos no manejo das sessões, porém revelando bons resultados, que se deu através da atitude intencional e consciente de acolhimento da vivência do outro, e com a busca e a compreensão da religião no seting terapêutico, me ajudou  na revelação da pessoa do cliente na sua autenticidade. Com o diálogo socrático, que foi o elemento fundamental nos atendimentos, busquei o bem estar pessoal dos clientes promovendo assim, a abertura dos pacientes  à awareness do seu ser aqui-agora e do destino  que ainda irão escolher para  percorrer, isto é, que os clientes que corroboraram para este trabalho, estejam abertas e fidedignas as sua escolhas e conscientes de suas responsabilidades.

Enfim, todo atendimento impregnado de conteúdo religioso, sendo ele em qualquer abordagem, deve-se o psicólogo saber mais sobre si mesmo, seus ideais, valores, religião independente de qual é, estar atento ao seu próprio existir - seus pensamentos, sentimentos, sua atuação, a liberdade, suas possibilidades, o risco, a escolha, a autenticidade. E só assim o psicólogo consiguirá ir ao encontro com o seu cliente, no buscar junto ao ser, resgatando junto com o cliente nas diversas situações e ocupações, o movimento do ser que se perde e se acha, que se confunde e se resgata diante da religião.

Sobre o Autor:

Liliane Gomes Zorzam - Estudante do 10º período de Psicologia, Faculdade Presidente Antônio Carlos de Ipatinga. Rua Salermo, Ipatinga, MG, Brasil.

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