Abuso Sexual: Cicatriz Traumática à Luz da Clínica Psicanalítica

(Tempo de leitura: 12 - 23 minutos)

Resumo: O presente artigo propõe-se a estudar que o abuso sexual na infância pode desencadear trauma psíquico profundo, bem como originar mudanças na dinâmica psíquica da vítima, além de provocar sintomas adoecidos na adultez. Como possibilidade interventiva, a psicoterapia psicanalítica possibilitará a reestruturação da personalidade, bem como ressignificação da psique do sujeito psicoterapeutizado. O objetivo primordial do estudo em balha é esclarecer a respeito da visão contemporânea do abuso sexual infantil, adentrando na instalação do trauma no psiquismo e entendendo seu dinamismo, bem como que a psicoterapia psicanalítica pode intervir para que tais sintomas venham a ser minimizados. O método utilizado para compilação será a revisão bibliográfica a partir da literatura psicanalítica adentrando nas contribuições e conceptualização do abuso sexual. Os resultados encontrados possibilitaram elencar que as alterações na estrutura psíquica impactam diretamente a vida do sujeito vitimado na infância. Deste modo, a partir do trauma perpetrado a partir do abuso sexual, a vítima passa a ter sofrimento psíquico e a psicoterapia é de fundamental importância para que a mesma atravesse o trauma com o mínimo de sofrimento possível.

Palavras-chave: Abuso Sexual, Trauma, Psicanálise.

1. Introdução

O abuso sexual tem como conceito “o envolvimento de uma criança em atividade sexual que ele ou ela não compreende completamente, é incapaz de consentir, ou para a qual, em função de seu desenvolvimento, a criança não está preparada e não pode consentir, ou que viole as leis ou tabus da sociedade” (OMS, 1999, p. 7).

De acordo com Finkelhor e Browne (1985), no momento em que ocorre o ato surge a experiência sexual traumática causando sentimentos disfuncionais devido a tal situação inapropriada no momento evolutivo da criança, onde tais relações interpessoais com pessoas do seu círculo de confiança são primordiais para o desenvolvimento propício de toda sua instância psíquica. (ANNA FREUD, 1971). Quando isto ocorre na primeira infância (0 a 6 anos) os sintomas mais comuns são: a presença de ansiedade, pesadelos, transtorno de estresse pós-traumático e comportamentos sexuais inapropriados. (KENDALL-TACKETT; WILLIIAMS; FINKELHOR, 1993). Destarte, estendendo-se à vida adulta o estresse pós-traumático pode propiciar impacto emocional levando o sujeito a condutas ou estruturas de pensamentos patológicos. (FLORES; CAMINHA, 1994).

A psicoterapia de base psicanalítica tem como objetivo as alterações estruturais e a integração dos conflitos inconscientes recalcados ou dissociados no ego consciente. (KERNBERG, 2006). Deste modo, o processo terapêutico psicanalítico consiste em revelar os conflitos originais que, na maioria das vezes, encontra-se na infância do paciente submerso no inconsciente, causando sofrimento atual, com isso passa a compreender seus conflitos e a razão dos sintomas, podendo assim ressignificar tais conflitos e cessar o sofrimento.

Tendo em vista a problemática apontada quanto ao trauma causado pelo abuso sexual percebe-se a importância para melhor esclarecimento social dos sintomas e do sofrimento causado pelo mesmo, visando que as vítimas possam compreender a complexidade da sua estrutura e podendo assim entender o próprio dinamismo psíquico, buscando assim a ajuda necessária.

Como ponto de partida para este estudo é relevante esclarecer a respeito da visão contemporânea do abuso sexual infantil, visto que é essencial para a compreensão desse tipo de violência, adentrando na instalação do trauma no psiquismo e entendendo seu dinamismo, que leva às consequências do trauma na vida adulta no qual diversos sintomas surgem e afetam a saúde mental da vítima, bem como que a psicoterapia psicanalítica pode intervir para que tais sintomas venham a ser minimizados.

2. Abuso Sexual: uma visão contemporânea

O abuso sexual é um tipo de violência que parece atingir a sociedade mundial. Desde a década de 90 pesquisadores apontam o grande interesse pela problemática, mas existiam dificuldades na metodologia e na fragmentação dos estudos da época, segundo Knutson (1995). Devido à indagação de vários profissionais quanto ao tema, houve a necessidade de definir abuso sexual perante toda a complexidade psicológica e legal que o envolve. Com isso a Organização Mundial de Saúde (OMS) referenda a violência sexual em criança ou adolescente como sendo abuso sexual infantil:

É o envolvimento de uma criança em atividade sexual que ele ou ela não compreende completamente, é incapaz de consentir, ou para a qual, em função de seu desenvolvimento, a criança não está preparada e não pode consentir, ou que viole as leis ou tabus da sociedade. O abuso sexual infantil é evidenciado por estas atividades entre uma criança e um adulto ou outra criança, que, em razão da idade ou do desenvolvimento, está em uma relação de responsabilidade, confiança ou poder. (OMS, 1999, p. 7).

Segundo Neves (2010), a violência sexual pode ser diferenciada em 02 (duas) categorias: a extrafamiliar e a intrafamiliar. A extrafamiliar é definida por qualquer atividade sexual entre uma criança e um não membro da família, podendo ser um conhecido ou desconhecido da família ou da mesma. (VIODRES; RISTUM, 2008). Já a intrafamiliar é perpetrada por alguém que mantenha laços consanguíneos ou afetivos com a criança (HABIGZANG; SILVA; KOLLER, 2013), também podendo ser entendido como incesto (KAPLAN; SADOCK, 1990).

O incesto pode ser entendido como o contato sexual entre pessoas que possuam um grau de parentesco, incluindo padrastos, madrastas, avós, tios, primos e tutores (FLORES; CAMINHA, 1994), podendo ocorrer em qualquer nível social, raça, etnia ou credo. (FERRARI; VECINA, 2004).

Pesquisas realizadas em todo o mundo apontam que aproximadamente 7,4% das meninas e 3,3% dos meninos já sofreram algum tipo de abuso sexual (PFEIFFER; SALVAGNI, 2005). No Brasil, o abuso sexual é o segundo tipo de violência que envolve crianças.

Em 2011, foram registrados 146.255 casos de violência doméstica, sexual e física no país, sendo que 10,5% foram de violência sexual, na faixa de idade entre 10 e 14 anos e de 5,2% entre 15 e 19 anos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2011).

De acordo com Batista (2009), apesar dos esforços recentes para a identificação e o enfrentamento do fenômeno em estudo, existem poucos casos que realmente foram notificados, o que parece dificultar o dimensionamento do problema, tudo isso devido ao sentimento de culpa, vergonha, ignorância e tolerância da vítima que levam a não denuncia judicial. (KAPLAN; SADOCK, 1990).

De acordo com o Código Penal Brasileiro, nos Artigos 213 e 217 (BRASIL, 2017), o abuso sexual é crime, ou seja, quando uma criança menor de 14 anos está envolvida em atos sexuais, com contato físico sem consentimento, em razão da idade e da natureza do abusador, pode gerar reclusão que varia de 8 a 30 anos.

Com pesquisas envolvendo a população mundial surge uma visualização ampla do abuso sexual em criança e adolescente que reflete sobre conceitos e intervenções pelos profissionais envolvidos na temática. Sendo assim, as entidades e os especialistas pela conceitualização, prevenção e cuidado tem como responsabilidade o desenvolvimento de estratégias de interversões para interromper a violência, denunciar os autores e minimizar os danos causados às vítimas. 

3. A Instalação do Trauma

Nos primeiros anos de vida o desenvolvimento infantil tem como principal característica para que a criança venha a ter vida psíquica saudável. De acordo com Winnicott (1999), a família tem o papel fundamental para promover e atender às necessidades básicas da criança, oferecendo um ambiente saudável que proporcione o pleno desenvolvimento e suas potencialidades, fazendo com que ocorra um processo interno de crescimento e transmitindo para a mesma confiança e segurança. Neste momento, a criança se encontra frágil e a estrutura psicológica está em desenvolvimento. Devido ao estado de crescimento e desenvolvimento, a criança ao passar pelo trauma do abuso sexual pode ser acometida pelo sentimento de desamparo, bem como desacreditar que o adulto que deveria exercer o papel de proteger e cuidar não o faz, como consequência ocorre a ruptura da função protetiva e de identificação, originando trauma ainda mais profundo pelo fato da criança ainda não ter a estrutura psíquica formada e não saber reagir da forma adequada à situação. (BRANDÃO; RAMOS, 2010).

O trauma segundo Laplanche e Pontalis (2001) é:

Acontecimento da vida do sujeito que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se encontra o sujeito de reagir a ele de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogênicos duradouros que provoca na organização psíquica. Em termos econômicos, o traumatismo caracteriza-se por um afluxo de excitações que é excessivo em relação à tolerância do sujeito e à sua capacidade de dominar e de elaborar psiquicamente estas excitações. (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 522).

Segundo Freud (1920) a situação traumática provém do excesso de excitação que a experiência externa provoca no psiquismo, possibilitando a não representação mental do evento, com o excesso dessa energia associado à incapacidade de liberação do acontecimento instala-se o do trauma, levando o sujeito o a ativar os mecanismos de defesa que por sua vez impedem que exista uma reorganização saudável na instância psíquica.

Em suas investigações, Freud (1916), observou que a maioria dos conflitos reprimidos do adulto referia-se a ocorrências nos primeiros anos de vida, portanto, deduz-se que vivências em tenra idade deixam marcas profundas na estrutura da personalidade.

O abuso sexual na infância pode trazer consequências devastadoras para o desenvolvimento físico, social e psíquico da vítima, (MORGADO, 2001), causando impactos profundos que geram sintomas, tais como: medo, tristeza, raiva, ansiedade, desregulação do afeto, comportamentos desadaptativos sexuais ou violentos, abuso de substâncias psicoativas e/ou automutilação. (WILLIAMS, 2009), e como consequência segundo Benjamin Sadock e Virgini Sadock (2008) podem causar transtornos como os dissociativos, de ansiedade, transtornos alimentares, de estresse pós-traumático e depressivos.

Portanto, crianças que sofreram abuso sexual (BOARATI; SEI; ARRUDA, 2009) precisam de um ambiente suficientemente saudável para que seu desenvolvimento emocional prossiga a contento e que proporcione suporte para superar essa falha, pois tal sofrimento sempre será a intrusão de uma falha ambiental, que causou uma intensa angústia de aniquilamento levando-a a possíveis dificuldades no desenvolvimento psíquico.

4. Consequências do Trauma na Vida Adulta

O trauma ocorrido na infância traz para o adulto graves sequelas, prejudicando a vida psíquica levando a perturbações devido ao ocorrido em seu passado, mortificando assim a relação que tem consigo e com o mundo. Muitas vezes as vítimas não sabem nem ao menos qual seria o motivo desses sintomas e acabam aceitando-os como parte de si, por falta do conhecimento que tais questões podem sim ser compreendidas e solucionadas.

Alguns sintomas podem ser elencados como fazendo parte do trauma na adultez: dores ou incômodos físicos repentinos que não sejam de uma ordem biológica – somatização – que, para Freud (1895), é o sintoma psicológico convertido através do corpo, no qual existe um conflito inconsciente constituído através do trauma experienciado.  

De acordo com Gabel (1997), após a ocorrência de abuso sexual existem diversas queixas somáticas sobre as alterações físicas (persistências de sensações indesejadas, dores abdominais agudas e corporais, crises de falta de ar, enxaquecas e desmaios). Portanto, o abuso sexual pode reverberar no corpo como afirmam os autores supracitados.

O sentimento de culpa ocorre quando o sujeito pensa que deveria ter feito algo que não fez do modo que para si seria o mais correto, causando sensação de que poderia ter evitado e/ou por ter tido prazer, levando-o a ter impulsos incontroláveis, punindo-se e/ou passando pela repetição do ato com o sentindo de que é merecedor de tal sofrimento, responsabilizando-se pelo ato ocorrido. (FREUD, 1931).

Para Cromberg (2001), a criança diante da autoridade e do poder do abusador não consegue contestar, mesmo com o pensamento fluindo livremente por está fragilizada psiquicamente e o fato de sentir prazer. (FREUD, 1905). Este ainda afirma que as crianças em fase de desenvolvimento buscam pelo prazer e satisfação sendo impulsivas pelo fato da satisfação da instância do Id que naquele momento é maior que a do Superego, então diante a situação a criança age por instinto de satisfação sem ter como medir consequências de seus atos.

Sensações de impotência, sentimento de incerteza e insegurança, propósito da vida, culpa, autojulgamento e fadiga mental fazem parte dos sintomas de uma crise existencial que, segundo Sartre (1997), naquele momento o sujeito percebe algo de errado e passa a se questionar sobre suas limitações e assim é tomado pela consciência do nada, fazendo com que o sentimento de angústia cresça pelas experiências inacabadas de sua vida. A consciência do nada é o oposto da plenitude no qual o sujeito quer chegar, que leva-o a pensar onde está e onde gostaria de estar naquele momento, definindo-o como um nada em relação a sua vida.

A crise existencial tem como uma das suas causas um trauma psicológico – o abuso sexual – podendo deixar a vítima com tais sintomas, mas o que mais chama atenção é o propósito de vida que o sujeito vem a se questionar o porquê de sua existência, levando-o a sintomas depressivos.

Freud (1917), afirmou que melancolia é sintoma da depressão como reação à perda do objeto amado ou ideal, não que o mesmo tenha sido perdido efetivamente, mas como objeto amoroso. Cromberg (2001) propôs que no evento do abuso sexual, o agressor rompe com esse ideal deixando a vítima com sintomas melancólicos, assim a mesma se aprofunda na crise chegando ao ponto em que a vida não tem mais sentido e, como consequência, aparecem as ideações suicidas como possibilidade errônea de acabar com o sofrimento.

Oposto à crise existencial há o termo Existencialismo que, segundo Sartre (1997), o homem é nada e precisa se construir através da valorização de cada experiência vivida. É um ser livre e pode tomar as próprias decisões e viver de escolhas. Deste modo, cabe ao Ser a reponsabilidade diante si, ou seja, é um ser-para-si que se questiona, indaga, que se impressiona com a realidade e a subjetividade, é insatisfeito por querer ultrapassar as próprias limitações, como sendo algo que constrói a si mesmo (FOUCAULT, 2006), no “cuidado de si” que consiste nas regras da existência que o sujeito dá a si, conforme sua vontade e desejo, levando-o a reflexões de como se reinventar e elaborar a própria vida.

O distúrbio do sono-vigília, de acordo com o DSM-V (2014), é a dificuldade de iniciar ou manter o sono que leva o sujeito a ter insônia e/ou sonos curtos, podendo ocasionar empobrecimento na capacidade de sonhar. Após passar pelo abuso sexual parte do imaginário da criança é prejudicado, resultando em um temor intenso em sonhar por ter uma sensação constante de que retornará à cena ansiogênica, com isso evita-se exercer a capacidade restaurativa de dormir. (BOLLAS, 2015).

Para Freud (1914), o sono é a retirada libidinal do mundo exterior, um refúgio amoroso e reparador de si mesmo frente aos conflitos diurnos, então há uma grande importância na normalização do dormir na dinâmica psíquica do sujeito.

O transtorno de ansiedade é a expectativa de ameaças futuras sendo frequentemente associado à tensão muscular e vigilância em preparação ao perigo futuro (DSM-V, 2014), levando o sujeito a episódios de insônia, pelo fato de sofrer com uma situação que ainda não surgiu, ao se preparar para dormir sua atenção se eleva para tais pensamentos como problemas familiares, financeiros e profissionais, gerando assim dificuldades com o sono Castillo. (2000).

Os episódios de ansiedade são respostas do inconsciente a conflitos emocionais internos, decorrentes da repressão de sentimentos perturbadores ao ego, apesar de estarem inconscientes liberam lembranças e impulsos que buscam gratificação provocando por serem fatos ameaçadores ao ego. (FREUD, 1926). Desta maneira, o trauma infantil provoca os mais variados sintomas e reflete abruptamente no sujeito adulto através de transformações significativas para si, mas tudo isso pode ser amenizado através do reconhecimento amplo do trauma e a procura de ajuda profissional.

5. O Caminhar Teórico-metodológico na Psicoterapia Psicanalítica

A diminuição dos sintomas causada pelo trauma do abuso sexual pode ser constatada na psicoterapia, na qual Freud (1937) a define como a libertação do sujeito de seus sintomas, inibições e anormalidade de caráter, através da investigação de sentimentos reprimidos do ego para o inconsciente, despertando no mesmo o interesse pela vida e o ajuste das relações importantes, ou seja, a possibilidade de reorganização fundamental da estrutura mental e da personalidade levando o sujeito a uma ressignificação dos sentimentos e traumas proporcionando a diminuição dos seus sofrimentos e sintomas. (GILBEAULT, 2002),

Com o abuso sexual podendo ocasionar diversos sintomas a psicoterapia psicanalítica colocará o paciente em condições conscientes de aprender sobre seus impulsos e desejos inconscientes, através das próprias manifestações – verbalização – com a ajuda da interpretação do psicoterapeuta de seus complexos inconscientes antes não reconhecidos como fonte do sofrimento (FREUD, 1909). Destarte, ao estender à consciência ao inconsciente, as repressões são emergidas, a formação dos sintomas são abolidas, e assim, os conflitos patogênicos são substituídos por um normal. (FREUD, 1916).  

Este processo ocorre através de 03 (três) atos: recordar, repetir e elaborar, nos quais o paciente chega em um processo de repetição causado por certas experiências traumáticas passadas. Por exemplo: o paciente não se lembra que foi teimoso e rebelde diante a autoridade do pai, e nos dias atuais repete esses mesmos comportamentos, devido ao esquecimento e repressão de tais experiências, que são encapadas pelas resistências mediante o fato de não suportar tais sentimentos em sua consciência. Esta repetição ocorre naturalmente sem que o mesmo perceba que a faz e é transferida ao passado esquecido. Ao perceber tais comportamentos repetitivos, o psicoterapeuta reconduz o paciente ao passado, desvelando as resistências nunca reconhecidas e comunica para o mesmo, que por sua vez vem a recordar dos fatos originais de seus sintomas, porém, o fato de revelar as resistências não significa a uma cessação imediata dos sintomas. Desta feita, o paciente deve ter um tempo para refletir a resistência agora conhecida e poder elaborar para que supere e ressignifique os fatos originais que levam à superação dos sintomas patológicos. (FREUD, 1914).

Conclui-se, portanto, que a psicoterapia psicanalista ao modificar a estrutura da psique em relação aos sentimentos indevidos que o sujeito traz sobre si, faz com que o mesmo analise situações a partir de possível releitura de uma nova forma de vida, além de contribuir para minimizar os sintomas e os sofrimentos, sendo de fundamental importância para tratar as vítimas de abuso sexual.

6. Considerações

Esse estudo permitiu analisar os aspectos que envolvem a complexidade do abuso sexual infantil e as consequências traumáticas para a vida adulta, no qual crianças vitimizadas são submetidas à instalação de trauma psíquico, que ocasionam mudanças estruturais e de funcionamento personalístico na vítima, sendo assim, a psicoterapia psicanalítica é de fundamental importância para a reestruturação da personalidade e a diminuição dos sintomas patológicos.

As alterações da estrutura psíquica das vítimas de abuso sexual na infância podem ser consideradas mais profundas pelo fato da criança estar em fase de desenvolvimento na estruturação psíquica e não ter condições de reagir a tal situação adequadamente. Consequentemente, o trauma causa sintomas que prejudica a vida da vítima podendo ser compreendido, em particular, a partir da teoria psicanalítica. Assim, a compreensão sobre o dinamismo dos sintomas é um facilitador tanto para o psicoterapeuta quando para a vítima, na diminuição dos sintomas, pelo fato de haver entendimento adequado e correto da situação traumática, que antes era vista de uma maneira errônea, chegando a um dos pontos principais da psicoterapia psicanalítica que é a libertação das inibições e anormalidades de caráter.

Assim sendo, conclui-se com base nas compreensões constatadas que as vítimas de abuso sexual infantil precisam do esclarecimento dos sintomas e da complexidade do fenômeno em estudo, para que o adoecimento psíquico seja identifico e assim sejam tratadas e restabeleçam a saúde mental.

Sobre os Autores:

Edson de Oliveira Freitas - Graduando em Psicologia pelas Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão (FAINTVISA).

Leila Maria Vieira Medeiros - Doutora em Ciências da Educação pela Universidade de Coimbra/PE e docente do curso de Psicologia das Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão (FAINTVISA).

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