Aplicação da Musicoterapia em Tratamentos Psicológicos e Clínicos

(Tempo de leitura: 5 - 10 minutos)

Resumo: O presente trabalho visa, através de uma revisão de literatura identificar e abordar algumas disfunções psicossociais além de alguns outros casos nos quais a musicoterapia tem poder terapêutico, a qual se revelou interessante para o desenvolvimento de cognição e reabilitação destes pacientes. O desenho da revisão segue por uma pesquisa textual de abordagens terapêuticas e teorias quanto ao seu funcionamento. Buscou-se com esta pesquisa entender como a musicoterapia funciona sobre a óptica da psicologia e da medicina, abordando conceitos pertinentes a cada disciplina.

Palavras-chave: Musicoterapia, Psicologia, Medicina, Música.

Title: Music Therapy Application in Psychological and Clinical Treatments

Abstract: This work aims, through a literature review to identify and address some psychosocial disorders and some other cases in which music therapy has therapeutic power , which proved interesting for the development of cognition and rehabilitation of these patients. The review design follows by a textual search of therapeutic approaches and theories about how they work .We attempted this research to understand how music therapy works on the perspective of psychology and medicine , covering concepts relevant to each discipline.

Keywords: Music Theraphy, Psicology, Medicine, Music.

1. Introdução

A música como uma forma de tratamento tem sua origem não muito bem definida. Na antiguidade já foi muito utilizada em rituais de eliminação ou banimento de espíritos que acreditavam residir nos corpos dos enfermos. Em tal época todas as doenças eram tratadas de forma a ser uma agressão a alma e não ao corpo. Porém, como forma estruturada surgiu apenas a partir em 1950 nos Estados Unidos com o surgimento dos primeiros musicoterapeutas.

A musicoterapia é uma ciência que tem como objetivo realizar uma reabilitação neurológica a partir da interação do paciente com o ritmo, melodia e harmonia de uma música, além de atividades psicomotoras que possam ser desenvolvidas a partir destes princípios.

Já foi comprovada a efetividade terapêutica do uso destes métodos para o tratamento de vários distúrbios neurológicos e psíquicos como: Depressão, Transtorno bipolar, Esquizofrenia, dentre outros. Além disso, também é utilizado com grande sucesso para reabilitação de pacientes que sofreram lesões por acidente vascular cerebral, traumatismo crânio encefálico e degeneração neurológica.

Porém, não é necessário estar enquadrado nas situações acima para usufrui de benefícios dessa técnica. Já foi comprovado que a musicoterapia pode gerenciar o estresse, melhorar a memória, a socialização e a cognição de um indivíduo.

Uma vez observados esses aspectos o objetivo deste artigo será fazer uma breve revisão sobre como a musicoterapia é vista sobre a ótica da medicina e da psicologia. Para tal, foi realizada uma revisão da literatura existente, com pesquisa realizada de Setembro a Novembro de 2015, nas bases de dados Scielo e Google Acadêmico utilizando-se dos termos: Musicoterapia, Distúrbio bipolar e musica Depressão e música, Esquizofrenia e música e Neurociência e Música. A pesquisa foi realizada sem distinção de língua ou data de publicação.

2. Desenvolvimento

2.1 A musicoterapia utilizada em distúrbios psíquicos

A música é um elemento dinâmico que através do ritmo, do timbre, da harmonia leva o indivíduo as mais variadas sensações físicas e emocionais estimulando o pensamento, a reflexão, movimentação e pode despertar tanto a agitação como trazer tranquilidade ou irritação. Por isso a musica pode ser amplamente utilizada em tratamentos de ordem emocional ou mental como pacientes com transtornos esquizofrênicos, depressão, bipolaridade, entre outros.

De acordo com o estudo realizado por Costa e Vianna (1984) a música tem o poder de invadir a interioridade do ser e de desobstruir canais de comunicação, desde os níveis mais profundos, o que poderá ser de utilidade no tratamento do esquizofrênico, preso em seu mundo particular.

Segundo Costa e Vianna (1984):

O esquizofrênico, por meio da produção de sons organizados, começa a expressar algo da realidade interna que constitui seu modelo de mundo, particular e por isto aparentemente caótico, relacionando-se e comunicando-se através da linguagem musical. Cabe ao terapeuta auxiliar o paciente a tornar explícitas estas emoções e sentimentos, trazendo para a linguagem verbal o que estava implícito tanto nas manifestações musicais quanto em seus comentários, o que dará ao paciente uma ampliação de seu leque de alternativas e uma possibilidade de modificação de seu modelo patológico.

Dentre estes distúrbios, o transtorno bipolar é uma doença psiquiátrica que é caracterizada por episódios de alterações bruscas de humor. Segundo Passoni (2006) a musicoterapia pode servir de ajuda para quem sofre desse transtorno no que diz respeito à comunicação, socialização e auto-expressão, pois se utiliza de uma abordagem não invasiva possibilitada pela música, que acaba por fortalecer estas habilidades, podendo induzir uma mudança de comportamento.

Para alguns autores a musicoterapia pode propiciar efeitos benéficos ao paciente depressivo, induzindo uma sincronização de sentimentos influenciada pela a música capaz de melhorar seu quadro clínico.

De acordo com Silva, Zanini e Pereira (entre 1996 e 2015):

Acredita-se que a musicoterapia tem condição de ajudar o paciente a entrar em contato com suas emoções, sentimentos e expressá-los através de músicas, instrumentos, sons, corpo ou qualquer outra forma que venha facilitar essa liberação de sentimentos. Quando o paciente expõe seus sentimentos, a carga fica mais leve, a culpa diminui, as relações interpessoais melhoram, as músicas alegres emergem com mais facilidade e, consequentemente, os sintomas da depressão diminuem, causando menor sofrimento. Logo, seu corpo, sua alma e sua psique cantam e dançam, enfim, agradecidos, pois o musicoterapeuta considera as potencialidades, aceitando que cada pessoa é ímpar, singular e subjetiva!

2.2 A musicoterapia aplicada à clínica médica

Para a medicina a musicoterapia tem uma ação ainda pouco estudada, porém com algum sucesso terapêutico. Além dos distúrbios psicomotores, já existem estudos que comprovam como a música pode afetar a amamentação de um recém-nascido, diminuindo a ansiedade materna e levando a continuidade da amamentação natural por um período mais longo (ARNON, 2011), bem como estimular um melhor desenvolvimento do recém-nascido devido às alterações que a música causa em frequência cardíaca e respiratória, saturação de oxigênio, pressão arterial e temperatura corporal (SILVA et al.,2013).

Alguns cientistas atribuem o efeito terapêutico da musicoterapia a atividade de neurônios espelhos. ”Os neurônios espelho, quando ativados pela observação de uma ação, permitem que o significado da mesma seja compreendido automaticamente (de modo pré-atencional) que pode ou não ser seguida por etapas conscientes que permitem uma compreensão mais abrangente dos eventos através de mecanismos cognitivos mais sofisticados“ (LAMEIRA, GAWRYSZEWSKI e PEREIRA, 2006). Ou seja, a partir da percepção de um estimulo estes neurônios são ativados de forma reflexa, de forma que o corpo se prepare para realizar uma resposta condizente. Este estímulo pode ser de qualquer natureza, inclusive musical.

Outra ideia é a de que a música induziria ações de plasticidade sináptica, ou seja, a capacidade de um neurônio criar novas conexões em função do ambiente. A música é uma ferramenta capaz de causar essas alterações neurais se tornando possíveis de serem benéfica psiquicamente e cognitivamente. Já existe um estudo que comprova que músicos profissionais têm um desempenho cognitivo e motor superior devido a plasticidade sináptica (RAGERT et al, 2004),da mesma forma a musicoterapia poderia ser utilizada como forma terapêutica para doenças como o autismo.

Uma teoria não exclui a outra e autores como Piazzetta (2014) trazem ambas as opções para explicar o sucesso terapêutico da musicoterapia no tratamento de diversas enfermidades. De fato é esta interação com a música e às vezes a interação social que vem desta atividade que proporciona o estímulo necessário para amenizar um problema e melhorar a qualidade de vida do sujeito.

É importante ressaltar que o efeito adquirido da musicoterapia não só depende de estar recebendo o estimulo musical, vai variar em relação ao tipo de estímulo em relação à amplitude, ritmo e frequência (SILVA et al.,2013), além da qualidade do profissional para selecionar a atividade necessária para o tratamento e saber conduzi-la com êxito.

3. Conclusão

A partir do levantamento de vários artigos, foi possível constatar que os benefícios da musicoterapia para pacientes com distúrbios psicológicos e na clínica médica, são diversos e de extrema relevância para o sucesso terapêutico.

Associada a outros tipos de tratamento a musicoterapia é capaz de intensificar o efeito terapêutico e até mesmo melhorar a qualidade de vida de um indivíduo. A atuação conjunta entre os diversos profissionais, entre médicos, psicólogos e musicoterapeutas, é extremamente positiva, pois possibilita a realização de um tratamento holístico, voltado para todos os aspectos da vida da paciente em questão.

Portanto, o desenvolvimento deste trabalho foi extremamente enriquecedor não apenas para nossa formação acadêmica, mas também para nossas futuras atividades profissionais, pois permitiu reconhecer que os aspectos que vão além do orgânico e do bioquímico.

Sobre os Autores:

Ludimila dos Reis Sampaio - Graduada em Administração UNIPAM – Centro Universitário de Patos de Minas e acadêmica do curso de Medicina pela Faculdade de Minas (FAMINAS-BH)

Tiago Azevedo Duarte - Acadêmico do curso de Medicina pela Faculdade de Minas (FAMINAS-BH)

Evaristo Nunes de Magalhães - Doutor em Ciências da Saúde pela UFMG e professor de Psicologia Médica no curso de Medicina da Faculdade de Minas (FAMINAS-BH)

Referências:

ARNON, Shmuel. Intervenção musicoterápica no ambiente da unidade de terapia intensiva neonatal. Jornal de Pediatria, p. 0, 2012.

COSTA, Clarice Moura; VIANNA, Martha Negreiros. Musicoterapia - uma pesquisa sobre sua utilização para pacientes esquizofrênicos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 33, n. 3, p. 178-185, 1984.

LAMEIRA, Allan Pablo; GAWRYSZEWSKI, Luiz de Gonzaga; PEREIRA JR, Antônio. Neurônios espelho. Psicologia UsP, v. 17, n. 4, p. 123-133, 2006.

PASONI, T. R. O Transtorno Bipolar sob a ótica da Musicoterapia. XII Simpósio brasileiro de Musicoterapia, VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia, II Encontro Nacional de docência em Musicoterapia, Goiânia- Go, disponível em: http://www. sgmt. com. br/anais/p05temalivrecomoral/TLCO015-Passoni_Anais_XIISBMT. pdf [Consultado em: 28/11/2009], 2006.

PIAZZETTA, Clara Márcia. Diálogos entre Musicoterapia e Neurociências: Música e Saúde. In: X Simpósio de Cognição e Artes Musicais-edição nacional. 2014.

RAGERT, Patrick et al. Superior tactile performance and learning in professional pianists: evidence for meta‐plasticity in musicians. European Journal of Neuroscience, v. 19, n. 2, p. 473-478, 2004.

SILVA, Camila Mendes da et al. Respostas fisiológicas de recém-nascidos pré-termo submetidos à musicoterapia clássica. Rev Paul Pediatr, v. 31, n. 1, p. 30-6, 2013.

ZANINI, C. R; PEREIRA, M. A.D. A Contribuição da Musicoterapia no Tratamento de Pacientes Depressivos.  Disponível em < http://biblioteca-da-musicoterapia.com/biblioteca/arquivos/pesquisa/2008%20Claudia%20Zanini,%20Camila%20lima%20e%20silva%20tratamento%20de%20depressivoss%20Cristiane%20Faria%20DROGAS%20resumo.pdf >

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