Cinema e “Loucura”: Fobia Social uma Analogia Diagnostica do Real para Fictício

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Resumo: O presente artigo tem como proposta explanar a distinção da timidez e do fóbico social, pois ambos percorrem caminhos tênues. O primeiro se apresenta na forma de não oferecer grandes prejuízos nas habilidades sociais, mas que podem ser um dos preditores no desenvolvimento da fobia social. Já o segundo é um transtorno de ansiedade (fobia social) intensamente prevalente, e que está dividido em subtipos: generalizado  ou  restrito/não  generalizado.  Significações que serão esclarecidas no decorrer  desse  artigo,  e que na carência de  tratamento,  exibem  um  curso  cíclico, incapacitante. Através do divertido mundo cinematográfico, foi concretizada uma breve apreciação do aspecto comportamental do personagem do filme Adaptação, muito bem representado pelo ator Nicolas Cage. Para essa análise diagnóstica fictícia utilizamos como base fundamental o Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais DSM-IV-TR da American Psychiatric Association (2003), seguido de alguns teóricos.

Palavras-chave: Cinema e Loucura, Fobia Social, Analogia Diagnóstica.

1. Introdução

Iniciaremos contextualizando o conceito de timidez. No dicionário Michaelis foi encontrada a “qualidade de tímido”, ou “acanhamento excessivo”, “fraqueza de ânimo” legitimando a uma característica de desconforto ou inibição em circunstâncias de influência recíproca, ou seja, é um arquétipo de comportamento em que a pessoa não se manifesta ou não evidencia de forma suficiente seus pensamentos e sentimentos, não interage ativamente, embora não comprometa de forma expressiva suas habilidades sociais e subjetivas. “As habilidades sociais caracterizam-se pela existência de diferentes classes de comportamento sociais presentes no repertório do indivíduo para lidar de maneira adequada com as  demandas  das  situações  interpessoais”  (DEL PRETTE eDEL PRETTE, 2001 APUD M. LEVITAN, RANGÉ et al., 2008). A origem da palavra timidez surgiu do latim “TIMIDUS”, aquele que tem medo, do Timor medo [01]. Os medos podem ser classificados pelas circunstâncias ou pelos estímulos que os suscitam ou pela intensidade da reação. Assim a reação do temor pode se tornar muito intensa, e quando isso acontece passa a ser nomeada de fóbica (M LIPP, 2009).

2. Fobia Social: Critérios do DSM-lV-TR e CID 10

A Fobia social ou Transtorno de Ansiedade Social (TAS) é considerado conforme o Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais DSM-IV-TR da American Psychiatric Association (2003), como característica diagnóstica o temor acentuado e persistente de situações ou de atuação nas quais o indivíduo poderia se sentir acanhado, sendo de exposição a uma situação ou a de desempenho, seguido constantemente por repostas imediatas de ansiedade. As aversões estão relacionadas à exposição de parecer ridículo, de ser advertido e julgado por outras pessoas, de interagir com o sexo oposto, de comer, beber ou falar em público, entre outras. Quando tais exibições não podem ser prevenidas, são vivenciadas com grande aflição (ansiedade) e, na maioria das vezes seguidas de sintomas fisiológicos como palpitações, tremores, sudorese, desconforto gastrointestinal, tensão muscular e ruborização facial, (APA, 2003). Já para a Classificação Internacional das doenças CID 10 (2006), a Fobia Social começa na adolescência e está usualmente associada à baixa autoestima e ao temor de avaliação negativa  por  parte  do outros  (preocupação  exagerada  do  que outros  pensam), provocando o comportamento de esquiva, podendo resultar em afastamento social completo. O CID 10(2006), estabelece para o diagnóstico um dos sintomas físicos: urgência para urinar e evacuar, rubor, tremores, medo de vomitar, excluindo indivíduos que apresentam outros sintomas independentes como taquicardia e sudorese excessiva.Outro aspecto importante desta classificação está pertinente com o critério de tempo, o CID 10 (2006),não determina como no DSM-lV-TR (2003), a presença por mais de seis meses em indivíduos menores de 18 anos. A fobia social está subdividida em duas classes: a generalizada, que advêm da ansiedade e evitação na maior parte das circunstâncias sociais, sendo  o tipo mais  incapacitante e com início mais  precoce. Tendência a começar na infância, de forma progressiva sucedendo em sofrimento, em situações como iniciar e manter uma conversação e/ou participar de festas. Há um elevado déficit nas relações afetivas, com alta taxa de comorbidade, depressão, abuso de álcool, transtorno de personalidade esquiva e outros transtornos. A circunscrita (não generalizada) incide em geral, acima dos 10 anos de idade de forma repentina, e limita a uma ou duas situações sociais específicas, Tal Como: comer, falar e assinar cheques em público, comprar em lojas. Em síntese, a fobia social generalizada é a ansiedade de desempenho social, [itálico adicionado] enquanto a não generalizada se relaciona na maior parte das vezes com situações de interação verbal [itálico adicionado] (RAPEE  e HEIMBERG, 1997, APUD RANGÉ, 2011). Os fatores predisponentes da fobia social (TAS) são multifatoriais, com evidências de que estes sejam genéticos e ambientais, mas o padrão  etiológico ainda não está bem  clarificado (FUMARK, 2009, apud RANGÉ, 2011).

3. Epidemiologia

Estudos disponíveis na população brasileira reforçam a ideia de que os transtornos ansiosos estejam entre os mais prevalentes e potencialmente mais incapacitantes, do ponto de vista da saúde pública. Num estudo envolvendo as cidades de Porto Alegre, São Paulo e Brasília, ALMEIDA FILHO et al (1992), APUD RAMOS RT, (2006) aferiram 6.470 indivíduos e encontraram os transtornos ansiosos como sendo  os  mais  prevalentes  (17,6%),  seguidos  pelos  transtornos  fóbicos  (16,7%).

Trabalhando com uma amostra  da  cidade  de  São  Paulo  de  1.464  indivíduos, ANDRADE (2002),   apud  RAMOS   RT,   (2006),   encontraram ao   menos   um diagnóstico psiquiátrico ao longo da vida em 45,6% da amostra com dependência de tabaco em primeiro lugar (25% ao longo da vida), seguido por transtorno depressivo (18,5%) e transtornos ansiosos (16,8%). Dentro dos transtornos ansiosos destacaram-se as fobias (8,4%), seguidas pelo transtorno de ansiedade generalizada (4,2%), transtorno de pânico (1,6%) e transtorno obsessivo-compulsivo (0,3%). Estudos populacionais referem que o transtorno mais frequente é em mulheres (1,5: 1), em indivíduos de baixo poder aquisitivo e com início precoce, com 50% dos casos iniciados na adolescência e 50% em torno dos 20 anos de idade. O pico de incidência é aos 15 anos. No entanto, em populações clínicas de ambulatórios especializados, a prevalência é maior em homens do que em mulheres (2:1). A fobia social restrita e generalizada tem sido aferida por estudos populacionais americanos entre 2,4 e 13,3%. Conforme KNAPP & COLS (2004/2008), estudos apontam que menos de 25% dos pacientes portadores de fobia social recebem o tratamento adequado.

4. Sinopse do Filme Adaptação

O filme descreve a história Charlie Kaufman (Nicolas Cage) que se envolve em uma complexa tarefa de adaptar para o cinema o romance "The Orchid Thief", de Susan Orlean (Meryl Streep). O livro apresenta a biografia de John Laroche (Chris Cooper), um fornecedor de plantas que clona orquídeas raras para vendê-las a colecionadores.

Contudo, além dos problemas naturais da adaptação de um livro em roteiro de cinema, Charlie necessita lidar com sua suposta timidez acentuada e com uma crítica demasiada de si mesmo, originando dificuldades de relacionamento, frustração sexual, e com seus julgamentos a circunstâncias, que aparecem componentes negativos.

Charlie  possui  um  irmão  chamado  Donald  (também  vivido  por Nicolas  Cage), totalmente o seu oposto, autoconfiante e com uma vida social repleta. Mas, ainda que apresentem diferenças, possui algo em comum, ambos almejam vir a ser roteirista. No entanto, um alcança o objetivo desejado, enquanto outro sofre com a dificuldade para escrever. Qual é razão afinal para que Charlie não alcance seus objetivos? Falta de talento? A partir do universo cinematográfico (lúdico), nos arriscaremos entender de forma hipotética, as possíveis inaptidões de Charlie, através de uma concisa análise fictícia diagnóstica, de determinadas cenas que avaliamos ser importantes. Utilizando como base o Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais DSM-IV-TR da American Psychiatric Association (2003), acrescentada de alguns teóricos.

5. Analise Diagnóstica

Inicialmente iremos ilustrar  a  forma  pela  qual  estão  expostos  os  critérios  e  as peculiaridades que enquadram o transtorno de ansiedade social (fobia social), descrito pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais DSM-IV- TR(2003), para que se possa abranger melhor a análise feita do personagem do filme adaptação. Os critérios e as características estão fixados nas seguintes formas:

5.1 . Transtorno de Ansiedade Social 300.23

CRITÉRIOS

(A) Medo acentuado e persistente, de uma ou mais situações sociais ou de desempenho, onde indivíduo é exposto a pessoas estranhas ou ao possível escrutínio por outros.
(B) Exposição de situação Social ataque de pânico.
(C) Há um reconhecimento excessivo e irracional
(D) Situação social e desempenho são evitadas ou suportadas c/ sofrimento
(E) Esquiva/antecipação ansiosa interferem na rotina normal
(F) Indivíduo com menos de 18 anos
(G) O temor e esquiva não se deve a efeitos fisiológicos direto de uma substância
(H) Em presença de uma condição médica geral ou outro

Fonte: DSM-IV (2003)

CARACTERÍSTICAS

Timidez patológica
Hipersensibilidade as criticas, avaliações negativas e rejeição.
Dificuldade em ser afirmativos, baixa autoestima ou sentimento de inferioridade.
Medo  persistente, excessivo  e  incapacitante  de  agir  de  forma  ridícula  ou inadequada na presença de outros.
Temor de ser avaliado negativamente e de ser humilhado
Ataques de pânico ou esquiva das situações
Manifestações fisiológicas:  Sudorese,  rubor,  boca  seca,  t emor  e  urgência urinariam.
Extrema ansiedade ao iniciar conversação, por medo de parecer que não sabe se expressar.
Temores em falar em público, mas o grau de prejuízo e que devem ser avaliado.
Interesse pela interação com pessoas familiares.

Fonte: DSM-IV(2003).

 Imediatamente na primeira cena do filme nos deparamos com o personagem declamando  as seguintes falas:  “eu  tenho  alguma  ideia  original  na minha  cabeça careca”;“se fosse mais feliz, meu cabelo não caía”; “hoje é 1º dia d resto de minha vida”;”sou um clichê ambulante”;“ preciso ir ao médico”; “preciso ir ao dentista”; “se não adiasse tudo seria mais feliz”;“ passos dias sentados, se tivesse uma quadris [02] menor seria mais feliz”; “preciso mudar minha vida: “me apaixonar”; “patético, seja seguro isso atrai as mulheres”; “homem não precisa ser bonito: isso não é mais verdade”; “por que vivo me desculpando por ter nascido”; “vai ver que é a química do meu cérebro”; “e isso é químico”; ”meus problemas e ansiedade derivam de um desequilíbrio químico”; “sinapses errantes preciso me tratar”;” mas, vou continuar feio, nada vai mudar isso”. Nestas falas foram percebidos claramente anseios exacerbados (ansiedade, aflição, desejo de felicidade), baixa autoestima e sentimentos de inferioridade, que são uma das características descritas pelo DSM-IV-TR (2003). A autoestima tem sido igualmente relacionada ao desempenho social, uma vez que ela pode influenciar a expectativa que as pessoas possuem sobre o resultado de seu próprio desempenho.

Esta expectativa, por sua vez, tem sido considerada uma variável importante para o desempenho social, em particular, do comportamento assertivo (DEL PRETTE e DEL PRETTE, 1999; APUD, BANDEIRA. M et al., 2005). Nesta circunstância citada acima poderemos enquadrar no critério (C), onde há um reconhecimento de seu medo irracional, quando se refere que precisa se tratar e que os agentes de sua ansiedade procedem de desequilíbrio químico. Ainda poderemos atribuir ao critério (E), uma situação de esquiva, onde aparece sua hesitação de ir ao médico, que evidencia ser uma situação ansiogênica, gerando culpabilidade de não conseguir realizar o feito, e de atribuir sua possível “infelicidade” a essa hesitação, entre outras. Sob esta perspectiva a ansiedade está associada a representações internas, que funcionam como elementos essenciais para a manutenção das crenças presentes na fobia social. (HOFFMAN 2000; RAPEE  e  HEIMBERG, 1997;  APUD  BURATO  et  al.,  2009).  Neste sentido, a ansiedade social representa as implicações das percepções negativas da pessoa em relação a si e ao outro, expressas pelas crenças em ter uma atuação impresumível ou imprópria frente a diferentes situações sociais (HOFFMANN e DIBARTOLO, 2000; APUD BURATO et al., 2009).

A segunda cena que avaliamos de suma importância para colaborar nesta análise e avigorar que esse personagem possa sofrer de ansiedade social foi durante o estúdio de gravação onde supostamente estariam improvisando os acertos da adaptação do livro para cinema. Charlie entra no ambiente do estúdio de gravação, de cabeça baixa, parecendo estar muito constrangido, torcendo para não ser notado, mas para sua “infelicidade”, sem perceber, passa na frente do local onde estavam gravando. Neste momento, solicitam para que se retire (crítica), estava atrapalhando. Parecia não saber com quem estavam falando, já que ele era o roteirista. Charlie se retira e começa a objurgar o porquê de insistir de estar lá, afinal ninguém o conhecia não servia para nada, nem mesmo conseguia entender o motivo de ter nascido. Nesta situação poderemos identificar  o  critério  (A) que  segundo  DSM-lV  (2003),  é  o  medo  acentuado  e persistente de mais de uma situação social ou desempenho, onde o indivíduo é exposto a pessoas estranhas. O possível escrutínio feito pelas pessoas ao redor lhe aterrorizava.

Critério (B), a exposição de uma situação temida, provocando imediata ansiedade, utilizando como recurso a fuga (esquiva) na tentativa de aliviar a ansiedade gerada naquela  situação.  Novamente  aqui  está  sendo  acentuado  o  critério(E).  Além  das características de sentimento de inferioridade e da hipersensibilidade a críticas, avaliações negativas e rejeições (APA, 2003). O protótipo comportamental dos indivíduos com fobia social distingue-se por um temor típico e um desejo de evitar as circunstâncias sociais nas quais tenham que se expor, pois o medo central na ansiedade social (fobia social) é o de ser foco das atenções, de expor suas fraquezas e, em consequência disto, ter seu desempenho avaliado negativamente. Tal conduta tem como propriedade a estratégia de enfrentamento associada à evitação e autopercepção de perigo que requer autoproteção, conforme STRAVYNSK; BOND e AMADO (2004); APUD BURATO et al., (2009). A terceira e quarta cena não mais deixam imprecisão sobre o transtorno de fobia social do personagem de Nicolas Cage. Charlie está em um almoço de negócios, onde não conseguiu evitar, a representante da escritora do livro, a qual necessita adaptar para o cinema, em que muitas ocasiões na noite desfrutavam um “amor platônico” (escritora). No decorrer do almoço (exposição da situação) provocou muita ansiedade a  ponto de Charlie  ter  ataque  de  pânico,  resultando  em  sudorese excessiva, engasgos, conversação um pouco ambígua, preocupações obsessivas sobre sua aparência, (fazendo afirmações mentais), que ela o achava gordo, feio e careca. O que só fazia aumentar sua ansiedade e os sintomas físicos, o seu maior receio era de que a jovem estaria reparando em seus sintomas fisiológicos. Identificamos claramente o critério (B) pela exposição em uma situação social com ataque de pânico e o critério (D),  pois  é  suportada  com  extremo  sofrimento.  Na  última  cena Charlie  encontra novamente a representante, que estava acompanhada da escritora que havia saído por um instante para dar um telefonema, e convidou Charlie para sentar-se à mesa junto a elas, essa situação foi extremamente ansiogênica, onde ele usa como meio de proteção, a esquiva, recusando o convite, inventando algumas desculpas e literalmente saindo correndo.  Em  síntese  o personagem  Charlie  de  fato  se  enquadra nos  critérios  e características diagnósticos do Eixo l DSM IV (2003) de fobia social, ou seja, sua timidez patológica gera problemas de desempenho na interação do grupo de trabalho, dificultando o processo em escrever seu roteiro, devido a seu elevado grau de exigência e críticas a si mesmo, extremada baixa estima que foi várias vezes mencionadas no decorrer deste artigo, que procedem em fracassos afetivos, pois possui uma série de dificuldades de iniciar e manter conversações, interagir com o sexo oposto, vida sexual frustrada, que são fortes particularidades apresentadas por portadores de fobia social de quadro generalizado, cujo quadro é de temor e evitação na maioria das situações. Uma feição importante seria abrangência dos aspectos da fobia social que diz respeito ao comportamento de segurança. Tal construto refere-se ao conjunto de comportamentos evitativos, que tendem a diminuir a exposição às circunstâncias de interações sociais, percebidos  como  ameaça e  risco,  onde  as  pessoas  que  sofrem  desta  fobia  podem antecipar que serão aferidas negativamente, Conforme GOUVEIA; CUNHA e SALVADOR, (2003); APUD BURATO et al., (2009). Outro fato relevante nesta análise seria que Charlie também pode ser enquadrado no de Eixo ll, da avaliação multiaxial, que aparece o transtorno de personalidade Esquiva (301.82). Conforme o DSM IV(2003) seria possuir um padrão invasivo de inibição social, sentimentos de inadequação, hipersensibilidade a avaliação negativa, que se inicia na idade adulta e que estão presentes  em  vários  contextos,  e  precisam  estar  evidente,  no  mínimo,  em  quatro critérios  (APA  2003).  Estudos  evidenciam  a  elevada  frequência  de transtornos de personalidade entre os fóbicos sociais, especialmente o de personalidade esquiva, por haver uma sobreposição de critérios diagnósticos (TURNER, 1991; MARTEINSDOTTIR, 2001; TILFORS 2004; APUD BARROS NETO. et al., 2006).


6. Sugestão de Melhor Tratamento Terapêutico e Farmacológico

Nos dias atuais, por sorte encontramos diversas intervenções terapêuticas de distintas correntes teóricas, mas as pesquisam assinalam que a abordagem mais utilizada para o tratamento de fobia social, dentre outros transtornos, é a terapia cognitiva comportamental (TCC). Este mesmo estudo tem apresentado cada vez mais evidências de sua acurácia ao tratamento, nas diferentes classificações da ansiedade social, quer seja ela generalizada ou não generalizada, onde podem ser eficientemente tratadas. (GOULD et al.,1997; APUD D’El REY et al., 2006). Faremos uma abreviada narração dos princípios fundamentais da terapia cognitiva comportamental (TCC), para em seguida, introduzir uma sugestão de intervenção de tratamento da fobia social, nos meandros dessa teoria. A terapia cognitiva comportamental é um termo genérico que compreende uma variedade de mais 20 abordagens, dentro do modelo cognitivo e cognitivo  comportamental (MAHONEY  et  al., 1988;  APUD KNAPP et al.,. 2008/2004,). Os primeiros escritos importantes e as primeiras abordagens cognitivas comportamentais para tratamento dos transtornos emocionais começaram há surgir nos anos 1960 a 1970 com autores como: Aaron Beck (1963,1967; Beck et al. 1979, Albert Ellis (1962); Lazarus (1966), Meichenbaum (1973) e Mahoney ((1974), entre outros.

Segundo DOBSON APUD KNAPP e COLS.. (2004/2008): Existem três preposições basilares que originam as particularidades que estão no cerne das terapias cognitivo comportamentais:

  • a) A atividade cognitiva influencia o comportamento;
  • b) A atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada;
  • c) O comportamento desejado pode ser influenciado mediante a mudança cognitiva,

Tradicionalmente, o tratamento cognitivo comportamental da fobia social é dividido em quatro tipos de procedimentos:

  • a) estratégia de relaxamento;
  • b) treinamento em habilidades sociais;
  • c) exposição;
  • d) eestruturação cognitiva.

Discorreremos de forma concisa sobre cada  uma delas.  Conforme HEIMBERG et al. ,(1995), APUD CABALLO e COLS (2007/2003). O treinamento de habilidades sociais tem por objetivo desenvolver comportamentos interpessoais adequados, a fim de melhorar a aptidão interpessoal dos indivíduos em tipos característicos de situação social.Uma das premissas do tratamento na fobia social é baseada na ideia de que os portadores de ansiedade social carecem das habilidades sociais adequadas, tanto verbais quanto não verbais (SCHNEIER et al., 1995; APUD CABALLO e COLS, (2007/2003, pp34). O protótipo comportamental dos indivíduos com fobia social distingue-se por um medo característico e um desejo de evitar as circunstâncias sociais nas quais tenham que se expor. A técnica de habilidade social de uma forma simplificada nada mais é do que uma forma de aprendizado ou ensaio comportamental que seriam treinar as maneiras mais apropriadas das situações reais que causem ansiedade ao portador de fobia social. Estudos significativos concernem que a mudança cognitiva nos portadores de ansiedade social (fobia social) é efetiva para o sucesso do tratamento, ou seja, o enriquecimento de habilidade social causa uma redução de ansiedade. Mas a assertividade dessa técnica advém  em  conjunto  com as  demais  técnicas.  Conforme TURNER;  BEIDEL  e COOLEY,1994;APUD  D’EL  REY  et  al.,2006). Outra estratégia de tratamento  é  a exposição que pode começar como imaginária (in vitro), e consiste em uma forma de dramatização das circunstâncias provocadoras de ansiedade e por derradeiro o confronto em lócus (local). As referidas técnicas devem ser aplicadas primeiramente, e em conjunto com o terapeuta, estabelecendo uma lista  das circunstâncias ansiogênicas (ansiedade)  em  uma  escala  de  situações  que  despertem  menor  ansiedade  para  as maiores.  Essa prática deve ocorrer até o  momento  de  acontecer  à  habituação  da ansiedade.  Esse processo deve  continuar  até  o  paciente  enfrentar todos  os  itens relacionados na lista, e na redução de ansiedade e desconforto (WOLPE, 1973; APUD D’EL REY et al., 2006). A exposição é um elemento central do tratamento. Para que essa  técnica  (exposição) obtenha  sua  efetividade,  é  necessário  o engajamento  do paciente (FAVA; GRAND RAFANELLI; CONTI e BELLUARD, 2001; WELLS e PAPAGEORGIUS, 1998 APUD D’EL REY et al., 2006).

Na terapia cognitiva comportamental (TCC), existem táticas para aprender a relaxar, tais como o relaxamento progressivo, que incide em trabalhar os grupos musculares de forma gradual. Outra técnica seria a respiração diafragmática que incide em um exercício de aprendizagem do controle da respiração, onde pode ser usado nos momentos que antecedem a situação ansiogênica ou durante o fato. O uso da estratégia de reestruturação cognitiva objetiva a instruir o paciente na observação e controle dos seus  pensamentos  irracionais  (medos)  e  negativos,  nas  análises das  evidências favoráveis e contrárias  ao pensamento distorcido, e na correção  das  interpretações tendenciosas por interpretações alicerçadas na realidade. Estudos comprovam eficácia do arrefecimento sintomático da fobia social no tratamento baseado nas técnicas da terapia cognitiva comportamental. (CLARK e MCMANUS, 2002; APUD D’EL REY et al., 2006).Em súmula, a técnica de reestruturação busca desafiar absolutamente as crenças  irracionais  ou  disfuncionais, suprindo-as  por  outras  mais  adaptativas. Essa técnica  é  aplicada  tanto nos  pensamentos  que  acontecem  antes  da situação  social (temida), ou naquelas que incidem, durante e após o ocorrido (TAYLOR; WOODY; KOCH;  MCLEAN;  ANDERSON  1997;  APUD  D’EL REY et  al., 2006).    Para completar, mencionaremos alguns dos psicofármacos indicados para ansiedade social, que são utilizados como instrumentos mais adicionados ao processo terapêutico. Mas sua utilização vai depender da particularidade de cada evento e da ideologia (teoria) terapêutica. Ainda que não seja de “responsabilidade” do terapeuta as medicalizações, o seu conhecimento é imprescindível, pois necessita compreender os presumíveis locais de ação (onde vai agir), os mecanismo de ação (como age), se o paciente faz uso de um ou  mais  medicamentos (interações  medicamentosas),  qual  o  efeito  que  faz  no organismo, e as prováveis reações adversas. Os psicofármacos mais utilizados para ansiedade social são os antidepressivos, benzodiazepínicos (BZD) e o â-Bloqueadores que são utilizados em larga escala. (TOWNSEND, 2002, EM BRAGAet al., 2010). Os antidepressivos  (tricíclicos)  Fenelzina  (IMAO) [03]  foram  demonstradas  como  sendo eficazes na diminuição de sintomas de agorafobia [04] e fobia social, que igualmente tem
seu andamento controlado pela utilização dos antidepressivos Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS) especialmente a Paroxetina, Sertralina, Fluvoxamina e Escitalopram. (KASPERet  al  2002,  EM  BRAGA  et  al.,  2010).

O  Aprazolan  e Clonazepam (BZD) parecem ser bem sucedidos na redução dos sintomas de agorafobia associados a transtorno de Pânico. O beta Bloqueador (adrenérgico) propanolol diminui as manifestações fisiológicas (físicas) tais como tremores e taquicardia, que são relacionadas com ansiedade de desempenho antecipatória, pois se trata de uma forte característica dos fóbicos sociais. Entretanto, pesquisas indicam uma eficácia relativa. (JEFFERSON, 1995; TOWNSEND, 2002; GRAEFF, 2004; HETEM, 2004, EM BRAGA et al., 2010).

... Do Cérebro, e apenas do cérebro, surgem nosso prazeres, alegrias... Bem como nossas tristezas, dor, pesar e lágrimas. Este é o mesmo órgão que nos torna loucos ou delirantes,  influencia-nos com  terror  e  medo,  traz  a  insônia... “E  ansiedadedespropositada”.
Hipócrates,406-337a.c

7. Considerações Finais

Estudos epidemiológicos averiguaram que, dos transtornos ansiosos, a fobia social é a que tem mais predomínio na população. Outro dado curioso é que 25% das pessoas que apresentam fobia social não recebem tratamento adequado, o que nos faz pensar na hipótese das muitas ocasiões em que é confundido apenas como uma timidez, ou um hipotético “traço de caráter”, o que impele a procura de um terapeuta, não levam a sério, mesmo quando ocorre algum prejuízo social, familiar e profissional. Quando procuram ajuda na  terapia,  tratam  apenas  o  que  graduam  ser  transtorno  (outro problema).    Afinal a timidez e a timidez patológica percorrem por caminhos muito tênues.

Através de pesquisas empíricas foi corroborado que as intervenções (técnicas) da TCC que abordam percepções e os pensamentos distorcidos podem especialmente ser eficazes para o tratamento da fobia social, acometendo o indivíduo vir a ser mais capaz socialmente,  amortizando seus  déficits,  consequentemente  reduzindo  em  muitas ocasiões e incidindo em um convívio mais harmônico na sociedade.

Além disso, não podemos nos esquecer dos psicofármacos no tratamento de transtornos mentais,  que  a  partir  dos  anos  50,  transformou  essencialmente a  carência  de expectativas que prevaleciam no campo da psiquiatria e saúde mental, originando uma extensa    reformulação    das   compreensões    das    práticas,    de    tal contemporaneidade,   reconhecer   os   medicamentos   existentes,   as forma    que,    na evidências   que embasam o seu uso, são efetivas para um essencial trabalho, mesmos para aqueles profissionais que sugerem preferencialmente a exercício da psicoterapia.

Sobre os Autores:

Liege de Oliveira Araújo - Graduanda de psicologia Faculdade Inedi Cesuca Cachoeirinha-RS.

Ivana Luz - Graduanda de psicologia Faculdade Inedi Cesuca Cachoeirinha-RS.

Josiane Guimarães - Graduanda de psicologia Faculdade Inedi Cesuca Cachoeirinha-RS.

Orientadora: Débora S. de Oliveira - Professora do curso de Psicologia da Faculdade Inedi Cesuca Cachoeirinha-RS

Referências:

BRAGA. J.E. F et al Ansiedade patológica: bases neuronais e avanços na abordagem psicofarmacológica Revista Brasileira de Ciências da Saúde, v 14, n. 2, 2010 p. 93-100, Disponível:< http://pt.scribd.com/doc/68408679/Ansiedade-Farmaco-2010 > Acesso 13/outubro.

BANDEIRA, M. et al., Estudos de Psicologia: comportamento assertivo e sua relação  com ansiedade, lócus de controle e autoestima em estudantes universitários. Campinas, Abril/Junho 2005.v.22(2)p.111-121. Disponível: <http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v22n2/v22n2a01.pdf > Acesso 02/set.

BURATO, K.R. S. et al. Transtorno de ansiedade social e comportamentos de evitação  e de segurança: uma revisão sistêmica.  Estudos de Psicologia, v. 14(2), [S.l.], Maio-Agosto 2009, p.167-174. Disponível: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2009000200010> Acesso: 13/outubro

BARROS NETO, T. P. et al. Transtorno de Personalidade em pacientes com fobia social.  Revista  da  psiquiatria  clinica  v.33,  n.1.  SÃO  PAULO,  2006.  Disponível:
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CABALLO, V. E. (2007/2003) Manual para tratamento cognitivo-comportamental dos transtornos psicológicos: transtorno de ansiedade, sexuais, afetivos e psicóticos. [São Paulo]: Santos, 2003, cap. 02, p 26-81.

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