Como Podemos Situar os Objetos Autísticos e Transicionais na Clínica do Autismo?

Como Podemos Situar os Objetos Autísticos e Transicionais na Clínica do Autismo?
(Tempo de leitura: 21 - 41 minutos)

Resumo: Na perspectiva psicanalítica, onde se enfatiza a dimensão da subjetividade, concebe-se que uma verdadeira relação de objeto se estabelece quando a criança se arranja bem com a alternância da presença-ausência da mãe, elemento este fundamental para a aquisição da consciência do eu e do não-eu. No caso de autismo infantil, compreendido como uma falha no processo de subjetivação, esta consciência do eu e do não-eu está comprometida. Esta pesquisa tem como objetivo investigar a significação dos objetos autísticos e transicionais no processo de subjetivação destas crianças submetidas ao acompanhamento psicológico e os efeitos de seus desdobramentos na relação transferencial com o terapeuta, visto que estes objetos fornecem indícios sobre a elaboração (ou não) do processo de separação-individuação da criança frente à mãe. Foi realizada uma pesquisa empírica em torno desta temática, tomando como referencial teórico a psicanálise, na qual foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com psicólogos e/ou psicanalistas que atuam na clínica do autismo. A partir desta coleta, os dados foram analisados em termos de seu conteúdo em quatro subtópicos: como as crianças usam os objetos; objetos autísticos; objetos transicionais e a migração do uso de objetos de uma forma autística para uma forma transicional. Concluiu-se que é possivel apontar avanços no quadro clínico destas crianças em decorrência do processo terapêutico, que podem se revelar em uma maior abertura ao outro e no uso simbólico e funcional destes objetos.

Palavras-chave: autismo, objeto autístico e transicional, psicanálise.

1. Introdução

O autismo infantil tem sido um tema bastante atual, despertando interesse dos profissionais de diversas áreas. Visando trazer contribuições em torno desta ampla temática, no campo da psicanálise, é de grande relevância a realização de estudos voltados para a reflexão sobre a forma de utilização de objetos, por parte da criança autista, visto que estes dados podem trazer elementos fundamentais sobre o seu processo de subjetivação.

Sabe-se que, diferentemente dos objetos transicionais que apontam para o enfrentamento da experiência de separação, através do espaço potencial, minimizando a dor e o sofrimento decorrentes da consciência do não-eu, os objetos autísticos refletem a evitação do confronto com este tipo de experiência, defendendo-se da consciência do não- eu. Entretanto, será que é possível apreender os avanços na subjetivação de crianças autistas quando percebemos a transição de uma forma estereotipada de usar os objetos para outra de natureza transicional?

Para isto, tomamos por objetivo geral desta pesquisa investigar a significação dos objetos autísticos e transicionais no processo de subjetivação das crianças autistas submetidas ao acompanhamento psicológico e os efeitos de seus desdobramentos na relação transferencial com o terapeuta. Detalhando melhor este objetivo descrito, temos: 1) analisar a importância da relação das crianças autistas com os objetos transicionais e autísticos no seu processo de subjetivação; 2) avaliar os possíveis danos causados às crianças autistas frente à retirada dos objetos transicionais e autísticos; e 3) identificar se o avanço no processo de subjetivação destas crianças está relacionado à passagem de objetos autísticos para os objetos transicionais;

Esta investigação está situada no campo da clínica dos distúrbios psíquicos precoces (particularmente, do autismo), podendo contribuir para uma melhor atenção a importância dos objetos autísticos e transicionais na vida das crianças, ampliando os estudos que abordam esta temática e auxiliando os profissionais de diversas áreas que trabalham com tais crianças.

No primeiro tópico, abordamos questões cruciais acerca do autismo infantil; no segundo, trouxemos reflexões importantes sobre as formas de manuseio dos objetos. As questões metodológicas foram tratadas, logo depois, no terceiro tópico. No seguinte, analisamos os dados colhidos das entrevistas semi-estruturadas feitas com os profissionais de psicologia e/ou psicanalistas que atuam na Clínica do Autismo. No final, realizamos algumas considerações finais.

2. Autismo

O autismo infantil precoce, nomenclatura inserida, inicialmente, por Leo Kanner (1943) em seu artigo “Distúrbio autístico do contato afetivo”, tem sido alvo de grandes debates e pesquisas ao longo de todos esses anos. Foi estudado em diferentes perspectivas, sendo ainda um assunto bastante atual, tendo em vista que há muitas controvérsias em relação a pontos centrais desta síndrome.

Vale destacar que o termo “autismo” já havia sido utilizado anteriormente por Bleuler (1911) para designar um dos sintomas da esquizofrenia no adulto.  Entretanto, Kanner (1943) foi o primeiro a descrever o autismo como uma nova síndrome, ou seja, uma entidade clínica específica.

Kanner, neste momento, a partir da observação de 11 crianças autistas, apontou que elas apresentavam as seguintes características típicas: 1) incapacidade de estabelecer contato com os outros e de se vincular às situações; 2) impossibilidade de assumir uma postura antecipatória diante dos outros;  3)  excelente memória mecânica;  4)  recusa de alimento; 5) reações intensas e abruptas aos ruídos e objetos em movimento; 6) boas possibilidades cognitivas e fisionomias inteligentes; 7) movimentos estereotipados e necessidade de estabelecer rotinas; 8) envolvimento durante horas com objetos de seu interesse; e 9) distúrbios de linguagem.

Diante destas características descritas, podemos perceber a gravidade do quadro clínico desta síndrome, comprometendo áreas centrais do desenvolvimento da criança, tais como, interação social; comunicação e atividade imaginativa; e comportamento repetitivo e estereotipado. É conhecida, atualmente, pela Classificação dos Transtornos Mentais e do Comportamento de CID-10 (1993), como Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (F. 84.0).

É bom assinalar que, desde os primórdios da nomeação do autismo, levantou-se o interesse destas crianças em relação aos objetos que giram, podendo manter a atenção nos mesmos por horas a fio ou, por outro lado, utilizá-los de forma estereotipada, sem levar em consideração a sua função específica – aspectos este no qual se centra o presente estudo.

Outro ponto relevante no que diz respeito ao autismo infantil foi a forma de categorizá-lo a partir dos diversos quadros clínicos. Conforme Frances Tustin (1975), o autismo pode ser enquadrado em duas categorias: primário e secundário.

O autismo primário é um estado em que toda criança, em seus primórdios de vida, se encontra. Assim, pela ausência de maturidade psíquica, por estar na fase inicial de desenvolvimento, dentro dos padrões de normalidade, ainda está no momento em que encara a mãe como sendo uma extensão de si, ou seja, um prolongamento de si, compondo uma unidade da relação mãe-lactente. Entretanto, faz referência ao autismo primário anormal ou patológico como uma condição em que a criança se torna vulnerável a qualquer indício de separação diante da mãe, sentindo ameaçada de aniquilação, fracassando em desenvolver uma vida interior. Neste caso, a deterioração é, às vezes, irreversíveis (TUSTIN apud MANNONI, 1982).

Por sua vez, o autismo secundário seria a permanência da criança enquanto extensão da mãe, que é o que o torna patológico pela ausência da identificação do “não-eu” pela criança. É uma defesa ou um refúgio contra a consciência do mundo exterior. O perigo é que este refúgio se prolongue e que qualquer resposta do sujeito às estimulações externas torne-se impossível (como no caso do autismo primário patológico). Caso não haja o prolongamento do refúgio, o prognóstico parece mais favorável (TUSTIN apud MANNONI, 1982).

(…) Os autismos normal e patológico são aqui encarados mais como diferentes graus de uma mesma e única entidade, do que como dois tipos nosológicos diferentes, podendo-se dizer, até certo ponto, que o autismo normal é, como estado, anterior à capacidade de pensar (pré-pensamento), ao passo que o autismo patológico é um estado de antipensamento. (TUSTIN, 1975, p. 11)

Portanto, segundo Tustin (1975), as crianças autistas possuem uma forma muito particular de ver o mundo; pois, diante de qualquer estímulo externo ameaçador, elas se recolhem em seu mundo impenetrável. A criança autista pode, na relação com o outro, estabelecer afetividade, desde que não se sinta ameaçada ou invadida em nenhum momento desta relação.

Tustin (1975) concordava com  Meltzer  quando afirmava que crianças que são inseridas em condições familiares inadequadas são predispostas a desenvolver o autismo. Portanto, mesmo que “o ambiente não forme a criança; na melhor das hipóteses, permite- lhe realizar um potencial” (WINNICOTT apud MANONNI, 1982).

Entramos, aqui, em outro ponto importante e polêmico sobre o autismo: a sua etiologia. Dentro do próprio campo da psicanálise, pode-se observar que existem ainda muitas controvérsias sobre as causas do autismo. É mais prudente pensar que, associado a fatores primários constitucionais do bebê, predomina nas mães um quadro depressivo (depressão subclínica), que não as permite investir, antecipar e olhar para o seu bebê, criando um ambiente pouco propício para a constituição subjetiva da criança. Desta forma, o autismo pode ser considerado por muitos como advindo de uma falha na função materna, quando estas mães estão perdidas em sua própria dor, atrelado a fatores primários de vulnerabilidade orgânica.

Não acho que exista uma personalidade típica da mãe de autista. Existe sim uma multifatorialidade, sendo que um dos fatores que pode intervir, de fato, é um luto não realizado. Eu diria que, em alguns casos, entre os elementos multifatoriais, pode haver uma depressão subclínica da mãe, isto é, desconhecida dele mesma (e a palavra “pode” aqui é importante, porque não ocorre em todos os casos) (LASNIK, 2004, p. 209).

Diante deste quadro depressivo, alguns autores colocam que a própria mãe não conseguiria perceber os sinais precoces de sofrimento do bebê. Entretanto, contrariamente, outros autores, baseados em dados clínicos, enfatizam que, amiúde, são as próprias mães quem se dão conta de que algo não está bem com o seu bebê.

O pressuposto de que as mães não eram capazes de perceber o mal-estar do bebê, por exemplo, foi aos poucos abalado pelos inúmeros relatos testemunhados ao longo de nossa experiência clínica, que demonstram como muitas vezes foram as mães que deram o sinal de alerta (CAVALCANTI; ROCHA, 2002, p. 61)

De acordo com Cavalcanti e Rocha (2002), em sua experiência clínica, da mesma forma que o bebê é inventado como estranho, ameaçador e imprevisível, os pais também se inventam de forma a acreditarem serem incapazes e insuficientes para seus bebês.

Essas visões aparentemente divergentes só reforçam a prudência e a pertinência de utilizar um modelo plurifatorial para a compreensão e o enfrentamento desta complexa síndrome, modelo este que assinala que este transtorno resulta de um efeito de encontro entre fatores primários de riscos situados na dimensão neurobiológica e fatores secundários desencadeantes e de fixação encontrados no ambiente social que detonam e potencializam a vulnerabilidade pré-existente (GOLSE, 2004).

A partir do que já foi exposto acima, percebemos a importância de se levar em consideração a singularidade da trajetória individual de cada criança e as dificuldades encontradas pelos pais a partir do momento em que é imposto um diagnóstico de autismo a respeito de suas crianças. Portanto, deve-se ter muita cautela em fornecer diagnósticos, pois, diante dos mesmos, muitos pais estabelecem um bloqueio relacional, diante da situação, visto que acham que a “criança autista” será eternamente incapaz de compreender a comunicação e desenvolver afetividade, deixando, inclusive, de investir nestes aspectos frente aos filhos. Paradoxalmente, seria deste investimento dos pais, que foi retirado, que poderiam estar situadas as chances de mudança e evolução desta criança. Desta forma, o diagnóstico, ele é necessário para nortear a direção da cura, mas não deve ser entendido como algo estático, sobretudo, quando se trata da infância, que é um momento fecundo de subjetivação.

Diante do que brevemente foi exposto a respeito do autismo, pode-se afirmar que é um tema amplo, que abre margem para muitos debates e pesquisas. A partir deste momento, iremos focar, na próxima sessão, no estudo dos objetos autísticos e transicionais: Como eles são percebidos na clínica do autismo? Que representação eles possuem para a “criança autista”?

3. Objetos Transicionais e Autísticos

Antes de abordarmos os objetos transicionais e autísticos, seria interessante falar dos primórdios do processo de subjetivação. Assim que uma criança nasce, ela se encontra em estado de fusão com a sua mãe (ou substituta), “percebendo-se” como uma extensão dela. Vive na etapa, descrita por Winnicott (1996), de “dependência absoluta” (entre 0 a 06 meses de vida). Isto só é possível, visto que a mãe se identifica com o seu bebê e focaliza quase que integralmente a sua atenção no filho (“loucura necessária das mães”). Esta etapa exige uma continuidade de cuidados, pautada em uma permanência da figura materna, que promove uma regularidade de intervenções. Este estado doentio na mãe, que, paradoxalmente, é normal, promove no bebê o “sentimento contínuo de existência”. Além disso, promove também no bebê a “ilusão de onipotência”, ou seja, de que os objetos não têm uma existência real, mas que são criados por ele mesmo.

À medida que o bebê cresce, a mãe começa a voltar a investir em outros aspectos de sua vida, mostrando para o bebê que não é o seu único objeto de interesse. Este momento é chamado de “dependência relativa” (entre os 06 meses e 02 anos de vida), onde a criança começa a perceber os períodos de presença e ausência da mãe. Quando não mais atende imediatamente as necessidades de sua criança, como no período anterior, a mãe começa a empreender as necessárias frustrações, ou seja, a prova da realidade ao seu filho. Desta forma, ela permite ao bebê que ele perceba paulatinamente que é um ser diferenciado da mãe e que, inclusive, precisa fazer um apelo para que ela lhe dedique sua atenção. Além disso, percebe também que os objetos têm uma existência real e não são criados por ele. É, por tais atitudes, que Winnicott (1996) denomina esta cuidadora de “mãe suficientemente boa”. Entretanto, vale ressaltar que, quando ela se ausenta por um tempo além do limite suportável para o bebê, ele se angustia e demonstra aflição.

Somente por volta dos dois anos, é que ele se torna apto a enfrentar, mais efetivamente, a experiência de separação da pessoa amada, desde que ele tenha um suporte de um meio substituto tranquilizador. Portanto, as estruturas sociais, ou seja, outras figuras do entorno (que são de confiança da figura materna) podem ajudar a criança a passar sem ela, promovendo o que Winnicott (1996) chama de “etapa de independência”. Contudo, a independência não é um estado adquirido de uma vez por todas e nem de uma forma total.

Por conseguinte, após esta breve descrição das etapas de desenvolvimento emocional da criança, conforme a teoria winnicottiana, como podemos situar o uso dos objetos por uma criança em termos de “objetos transicionais” e “autísticos”? – objeto de estudo desta pesquisa.

Pode-se afirmar que os objetos transicionais são de grande contribuição para o desenvolvimento  emocional  das  crianças,  pois,  é  neles  que  elas  encontram  o  “apoio” necessário quando se deparam com a necessidade de separar-se da sua mãe (ou quem exerce essa função), bem como são também uma forma de “consolo” quando as crianças se deparam com frustrações. Desta forma, pode-se dizer que:

O objeto transicional representa a passagem do bebê de uma etapa em que ele forma apenas um com a mãe (participando da onipotência dela) a uma etapa em que ele está em relação com ela, como alguém separado dele (MANNONI, 1982, p. 25).

Assim, eles surgem predominantemente na “etapa de dependência relativa”, (embora já possa surgir já em torno do quarto mês de vida) como um recurso pré-simbólico para lidar com a angústia de separação frente à figura materna.

Podemos perceber que uma das características dos objetos transicionais é a maciez e suavidade do toque, pois o que estas crianças buscam é uma semelhança da sensação do contato com sua mãe: é um paninho, travesseirinho, ursinho, etc. O objeto transicional preenche a falta deixada pela ausência materna (sendo a sua forma de utilização semelhante ao objeto fetiche), como uma forma de enfrentar a ameaça de aniquilação frente a não continuidade da presença materna (MANNONI, 1982).

Este objeto transicional só pode emergir como resultado de um espaço potencial entre a criança e a mãe, ou seja,  entre o indivíduo e o seu ambiente: uma área de experiência. Neste espaço intermediário, há um lugar para o brincar do bebê e o contra- brincar da mãe. “A participação no brincar é condição da verdade do sujeito” (OCTAVI MANNONI apud MANNONI, 1982). É nesse espaço que o sujeito realiza precocemente a experiência de uma vida criativa.

É interessante assinalar que além de certo limiar de tolerância, a criança não consegue manter a representação interna de sua mãe, e esta “morre” para a criança. Pode, então, haver um desinvestimento brusco do objeto transicional, que não pode mais preencher a falta materna ou, por outro lado, um hiperinvestimento no objeto transicional como uma negação da separação; existindo, em ambos os casos, um esgotamento da criatividade. O desinvestimento progressivo, na situação normal, diferentemente das descrições anteriores, promove o caminho para a criatividade (MANNONI, 1982).

Por outro lado, a criança também pode mudar de objeto transicional,  porém, quando esta passar por uma situação de privação, provavelmente, retornará ao objeto primário, ou abster-se-á de utilizar as representações simbólicas substitutas.

Estas reflexões sobre os objetos transicionais são extremamente pertinentes para o desenvolvimento emocional saudável da criança. Entretanto, quando Winnicott (1997) assinala situações, como foram ditas acima, nas quais pode ocorrer o desinvestimento brusco do objeto transicional ou hiperinvestimento no mesmo, retratando o esgotamento da criatividade, podemos desembocar em alguns graves problemas do desenvolvimento. Entretanto, mesmo que algumas crianças passem por grandes dificuldades e sofrimento psíquico na primeira infância, sendo comumente denominadas de autistas, Winnicott (1997) assinada que não devemos considerar tal quadro clínico como uma patologia - pois considera o autismo inexistente – mas sim como um problema do desenvolvimento infantil.

Na perspectiva winnicottiana, a nomenclatura “autismo” - com todos seus significantes - só veio a beneficiar no que se refere a uma formatação clínica (médica- pediátrica), pois assim, em suas palavras, eles podiam procurar por casos de autismo e colocá-los convenientemente num grupo com uma fronteira artificialmente clara” (WINNICOTT, 1997, p.98).

Após falarmos sobre o objeto transicional, passaremos ao objeto autístico abordado por Frances Tustin. Os objetos autísticos têm como objetivo dar sensação de segurança a crianças autistas, bem como para elas é como se, de fato, fizessem parte da sua estrutura corporal, afastando assim, o perigo de qualquer noção de objeto externo ou de separação. Inferimos que a preferência dos autistas na escolha de seus objetos é que estes sejam duros e lisos, pois, a sensação causada por estes é de segurança e proteção.

Se um objeto autístico se vai, a criança fica tensa como se houvesse perdido uma parte de seu corpo, mas o objeto é logo substituído por outro, que é experimentado como sendo o mesmo. (...)‘Dureza’ é um traço característico da maioria dos objetos autísticos.  Estes dão à criança o sentimento de que ela está a salvo (TUSTIN, 1984, p. 131-135).

Os objetos autísticos têm a função de não se confrontar com um vazio. Os objetos do mundo exterior são sentidos como pertencendo à criança. Toda separação é negada, donde a impossibilidade de que tenha lugar à experiência transicional. Esses objetos não são suporte de nenhum jogo, não se incluindo no campo do simbólico (MANNONI, 1982).

Estes objetos também substituem a perda de alguém, pois, além de serem rapidamente substituídos por outros objetos, lhes dão a sensação que necessitam naquele momento.

Para a criança, [grifo do autor] um Objeto Autístico é primeiramente uma sensação. (... ) A sensação é experimentada de uma maneira concreta, como um objeto. (...) parecem ser todos os mesmos para a criança, que apenas uns distinguem em termos de sensações que eles lhes dão, quando parecem tocar seu corpo (TUSTIN, 1984, p. 136).

Nas palavras de Tustin (1975), “esses objetos ajudam a impedir a conclusão da separação corporal e promovem o delírio de que as imposições do mundo exterior são obstruídas.” Tustin (1984, p. 129), afirma ainda que “os objetos autísticos são peculiares a cada criança individualmente. Eles são usados obsessivamente de modos idiossincrásicos que impedem o desenvolvimento mental”, bem como são dominados pelas sensações preeminentes que provocam.

Indo mais adiante, Tustin (1975) subdivide os objetos autísticos como sendo normais e patológicos. Os normais são usados de uma forma estereotipada, já os objetos autísticos considerados patológicos, além de serem utilizados de maneira estereotipada, são manipulados de uma maneira fixa, e raramente associados com fantasias” (TUSTIN, 1984, p.137).

Outro ponto importante a ser destacado é que, muitas vezes, as crianças, por serem rotuladas como “autistas” são tratadas como objetos autísticos – até mesmo pelos próprios profissionais de saúde - e não como seres humanos que agem e interagem no/com o meio. Isto ocorre pelo fato da criança ter esta “falha” de subjetivação, o que faz com que o outro erroneamente não invista nela e não a estimule. Como assinala Tustin (1984, p. 143): “Outro resultado é que as próprias crianças são vulneráveis a ser manipuladas como Objetos Autísticos, em vez de ser tratadas como seres humanos”.

A partir deste momento, será feito um paralelo entre estes dois objetos de suma importância na construção da subjetividade da criança. Começando esta proposta de reflexão, para a criança, o objeto transicional é um algo que surge entre ela e a mãe, não faltando um conhecimento de que este objeto é externo. Já a criança autista entende o objeto autístico como sendo algo que diz respeito ao seu próprio corpo, ou seja, visto como um prolongamento de si mesma.

No que se refere à escolha destes objetos, poder-se-ia dizer que, de acordo com Winnicott (1994), as meninas, geralmente, elegem objetos transicionais de textura macia, e os meninos, contrariamente a elas, amiúde elegem objetos mais duros. Por uma razão ou outra, “as meninas tendem a persistir com objetos macios até utilizarem bonecas e os meninos tendem a passar mais rapidamente para uma adoção de objetos duros.” (WINNICOTT, 1994). Nos objetos autísticos, como já foi exposto anteriormente, a preferência é por objetos que sejam duros e lisos, devido à sensação de segurança.

Outra diferença que se faz necessário destacar é o que estes objetos, transicionais e autísticos, representam para a criança. Os transicionais preenchem a falta que a criança sente do cuidador, fazendo com que ela suporte a ausência temporária da mãe. Já os autísticos são, para ela, a barreira para evitar o mundo externo, impedindo o contato social.

Vale salientar que existe na relação criança-objeto, no que diz respeito aos autistas, uma impermeabilidade que impede que se estabeleça qualquer que seja a relação interpessoal.

Elas perderam o trabalho criativo de ajustar ilusões e desenvolver fantasias, que o trabalho de Winnicott sobre Objeto Transicional e Fenômenos Transicionais mostra ser uma ponte para a realidade (Winnicott, 1958). Ao invés disso, usam os Objetos Autísticos patológicos, que são uma barreira para a realidade. Bloqueiam a apreensão da realidade que pode ser dividida com outros seres humanos em sua cultura. Nada consegue entrar, mas, mais importante ainda, nada consegue sair (TUSTIN, 1984, p. 141).

Diante de tudo que foi exposto, temos como objetivo neste trabalho refletir sobre o uso destes objetos pelas crianças autistas, percorrendo uma linha de raciocínio que é a de que a intervenção terapêutica, em uma clínica do autismo, pode viabilizar um avanço significativo destas crianças no endereçamento ao outro, bem como no campo do simbólico.

4. Metodologia de Pesquisa

Visando esclarecer melhor o tema dos objetos autísticos e transicionais na Clínica do autismo, foi realizado levantamento bibliográfico tomando por referência a psicanálise, levando em consideração estudos e discussões clínicas feitas por diversos teóricos sobre esta temática.

Foi realizada uma pesquisa empírica cuja população de estudo foi um grupo de seis profissionais de psicologia e/ou psicanálise que atuam em quatro instituições, sendo duas públicas e duas privadas, reconhecidas no tratamento de crianças com Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (TID) nas cidades de Recife e Olinda.

Foi realizado contato direto com estes profissionais, e a partir da disponibilidade destes, as entrevistas foram agendadas. Como procedimento padrão, foram apresentados e entregues o Ofício Institucional e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido com a finalidade de regulamentação e autorização da análise dos dados fornecidos.

A coleta de dados foi realizada através de entrevista semi-estruturada composta de perguntas previamente estabelecidas.  Durante estas entrevistas, outras questões foram acrescentadas com objetivo de esclarecer certos pontos que não ficaram claros no discurso dos entrevistados.

Logo depois, as entrevistas gravadas foram transcritas. A partir deste material transcrito, foi feita uma análise qualitativa dos mesmos, recorrendo a “análise de conteúdo”, apontando os pontos mais relevantes e frequentes abordados pelos participantes, que resultou em uma rica discussão do objeto de estudo.

5. Discussão dos Dados

5.1 Como as crianças usam os objetos?

No contexto da clínica infantil em geral, tomando como referência a psicanálise, a técnica utilizada com crianças é o “brincar”. Partimos do pressuposto que é na atividade lúdica – algo típico e natural do mundo infantil - que a criança expressa e elabora as suas tensões e conflitos internos. Sabemos que esta atividade não precisa estar necessariamente ancorada no uso de objetos, mas ela se apoia frequentemente neles e, portanto, é necessário levar em conta o material que as crianças utilizam; a maneira como brincam; e os meios que escolhem para suas representações durante as sessões na relação transferencial com o terapeuta. Desta forma, é possível dizer que o brincar  revela um espaço intermediário, entre as realidades externa e interna, onde a criança pode se construir psiquicamente.

Portanto, no contexto clínico, é muito pertinente focalizarmos não apenas o objeto utilizado pela criança, mas também a forma como a criança o maneja, visto que revela dados significativos relativos à sua estruturação subjetiva. A relevância deste elemento pode ser observada pelo fragmento de discurso da entrevistada (R.), quando fala do protocolo que deve ser seguido no momento do psicodiagnóstico do paciente, como segue:

(R.) - [...] A qualidade do brincar e o uso que ele faz dos objetos é um dos itens importantes para gente observar [...] a qualidade da relação que se estabelece; a qualidade do brincar e os desenhos; as produções gráficas; como acontece. E aí esta coisa do uso dos objetos é algo que a gente valoriza [...] e aí a gente considera que é importante porque vai fazer uma diferença se a criança só valoriza os objetos e não me valoriza, se ela me usa como um objeto. [...] E aí as crianças que tem os transtornos invasivos do desenvolvimento, os transtornos mais graves [...] são crianças que têm dificuldade neste tipo de uso do objeto.

A maneira de usar os objetos pode revelar o tipo de relação que a criança estabelece com o ambiente, a possibilidade (ou não) de entrar em contato com o outro e o nível em que se encontra em termos de diferenciação “eu” / “não-eu”. Tais aspectos podem ser descritos no seguinte depoimento do entrevistado:

(R.) – Porque o tipo de relação que ele vai estabelecer com uma pessoa, que tem a ver com a consideração dele próprio e do outro, essa diferenciação eu/outro, como a gente usa em psicanálise. Então, o que você olha ali [no momento do psicodiagnóstico] que ele está só olhando para os brinquedos e não tá olhando para você e tá brincando com você; então, você faz parte da brincadeira quase que como um brinquedo, como um objeto. No sentido assim, ele quer pegar um papel que ele viu, que tá em cima da estante, mas ele não consegue. Aí, ele pega sua mão assim e puxa para você ir lá pegar; às vezes, é sem a linguagem oral, às vezes ainda vem pega, mas às vezes não vem nada, sai lhe puxando, arrastando como se você fosse um objeto. Então, isso aponta um bocado de coisa [...]

Pode-se observar ainda, a partir deste uso dos objetos, a qualidade do brincar/uso que está diretamente relacionada ao desenvolvimento da criança, revelando o nível de simbolização em que ela se encontra.  Situando este  aspecto na clínica dos distúrbios psíquicos infantis, pode-se dizer que é possível encontrar uma grande variedade de quadros clínicos. Algumas crianças não se interessam por objetos; outras utilizam o objeto  de maneira repetitiva e estereotipada; e ainda existem aquelas que os utilizam de maneira simbólica, reconhecendo a funcionalidade dos mesmos. Como podemos observar nos seguintes fragmentos das entrevistas:

(A.)– E é muito variável. Tem criança que chega aqui e que sabe brincar e que usa, por exemplo, os brinquedos mais especificamente, como a gente diz, funcionalmente. Então, pega carrinho e sabe brincar de carrinho; pega boneca e sabe brincar de boneca. [...] Outras crianças não, e aí a gente vê muita descarga de agressividade, joga, quebra, tenta quebrar, todo objeto que pega joga para quebrar, para destruir, né?! É [...] outras que a gente vê que ainda estão bem, digamos assim, numa fase do desenvolvimento anterior, bota o objeto na boca, tudo leva à boca, a forma de se relacionar com os objetos e com as coisas é na boca [...] e algumas crianças não pegam objetos nenhum, nada na verdade chama a atenção delas. Então, a gente teria esses quadros que, de toda sorte, é o que me dizem como a criança está caminhando.

(R.) – [...] E, do mesmo jeito, quando ele vai estabelecer uma brincadeira e ele atribui funções aqueles objetos, se o carro é carro, ou se carro é só para ficar batendo assim, para ficar fazendo uma brincadeira estereotipada. Se é uma brincadeira mais elaborada que vai ter simbologia [...] ou se a brincadeira é pobre [...] Então, eu estou dando aqui vários exemplos, várias situações [...] Eu diria que isso é uma das coisas mais importantes, porque via o uso dos objetos é como a gente aprende a se relacionar com o mundo.

Por outro lado, existe também um enorme leque de situações quanto à capacidade de compartilhar uma brincadeira, desde aquelas que interagem com outras crianças até outras que, mesmo que já utilizem os objetos de maneira funcional, preferem manter-se em posição de retraimento, não permitindo a entrada de nenhum outro.

(A.) [...] Então, têm algumas crianças [...] que elas têm algumas coisas e outras não tem [...] que interagem, por exemplo, ou que brincam sozinhas, não gostam de brincar com outras crianças, mas quando ficam sozinhas com os objetos, elas ficam lá sozinhas, mas brincam [...].

Para finalizar este tópico, vale a pena colocar que, a partir das entrevistas realizadas, foi possível encontrar uma diversidade de usos dos objetos pelas crianças, dentre os quais, queremos ressaltar aquele manejo autístico em que o objeto possibilita a

sensação de fechamento, impedindo à consciência do “não-eu” e aquele outro transicional que já reflete o caminhar em direção ao outro (“não-eu”), fazendo uso do objeto para suportar o afastamento do mesmo, minimizando o sofrimento, os quais serão melhor discutidos a seguir.

5.2 Objetos Autísticos

Iniciando a reflexão pelo manejo autístico do objeto, pode-se dizer que as crianças autistas se utilizam de alguns objetos, denominados de objetos autísticos, enquanto prolongamento de si, ou seja, como se este fizesse parte dela. Podemos observar este aspecto nos seguintes fragmentos das entrevistas:

(S.) - Ele já é um objeto que vai fazer parte, é como se fosse um prolongamento do autista. Ele pega aquele objeto e ele e o objeto são a mesma coisa, então não há essa intercalação, não há essa possibilidade do uso daquele objeto com mais... como auto-mediador, né?! [...] Ele e o objeto são a mesma coisa.

(J.R.) - De certa forma, em alguns  momentos o objeto representa ela também, ela passa a ser a bola, por exemplo, e se a pessoa segura a bola é como se tivesse prendendo ela ali.

Concebendo os objetos autísticos enquanto um prolongamento de si, como foi dito acima, a retirada dos mesmos pode causar certa desestruturação psíquica, sendo esta sentida como sendo da ordem da experiência de automutilação.

(S.) No caso do objeto autístico, a gente pensando que ele faz parte mesmo da criança e passa a ser ele e a criança a mesma coisa, quando você arranca é como se você tivesse arrancando um pedaço dela. Então, essa sensação ou essa possibilidade é muito angustiante.

(A.) Nesse caso traz muita angústia, eles se angustiam, entram em desespero, a gente evita entrar com algum objeto que sabe que vai gerar um isolamento, a gente não tira não.

No que se refere aos objetos autísticos, ainda nesta perspectiva de diferenciação eu/outro, alguns pontos podem ser destacados. É possível dizer que estes objetos podem ser usados como uma barreira que impede o contato com o outro, provocando na criança um isolamento. Este aspecto pode ser constatado na prática, a partir das entrevistas:

(J. R.) – Normalmente, a criança usa um objeto para entrar em contato com a pessoa [...] que para a gente falar de objeto, a gente precisa falar do eu e do outro. O que eu estava pensando é que normalmente o objeto serve para você chegar ao outro; e o que se diz do autismo é que o objeto serve para impedir que ela chegue ao outro, ela fica no objeto para não chegar ao outro.

(A.) - Eu vejo que algumas crianças selecionam alguns objetos pra manter o isolamento e fica só evitando, fazendo uma evitação do contato com o humano e aí se  prende a relação com o objeto. O objeto não responde, o objeto não da um tipo de estímulo, o objeto não tira daquele lugar de... seguro, né?! Porque os objetos autísticos de certa forma é um lugar seguro né?! [...]

Vale destacar outro ponto relevante na Clinica do autismo que é a estereotipia dos movimentos, onde as crianças utilizam os objetos de maneira repetitiva e prolongada, podendo permanecer durante muito tempo com o mesmo movimento.

(J.R.) - O que se descreve é que estas crianças usam os objetos de forma repetitiva, estereotipada, sempre da mesma forma, em geral, girando os objetos. Muitas vezes chegando ao objeto de uma maneira periférica, ou seja, não olha diretamente para o objeto, como se tivesse uma visão periférica. E isso, a pessoa olhando pode pensar que ela está brincando com o objeto, mas na realidade é de uma maneira muito repetitiva, sempre da mesma maneira, a exploração não varia muito... Outra coisa é que ela pode durar muito tempo. [...]

5.3 Objetos Transicionais

Agora, no que diz respeito ao manejo transicional, pode-se observar que o objeto transicional está em outra instância, diferente do objeto autístico, onde a criança começa a diferenciar o “eu” / “não-eu”, passando a distinguir o que faz e não faz parte dela, utilizando do mesmo para minimizar o sofrimento da separação.

(JR.) Então, pra ser este objeto que faz parte da vida e da comunicação, num dado momento, este objeto assegura a transição dela fazer o caminho de sair dela e saber que existe o outro, que ela e o outro são diferentes [...] ela ta no caminho dela reconhecer o objeto como independente dela que ela pode ficar, que ela pode usar, mas que está fora dela, quer dizer, ela já está mais adiante no caminho que ela tem que fazer pra reconhecer que ela é uma pessoa e o outro é outra, e existem os objetos dos quais ela se utiliza.

Na ausência da mãe, a criança necessita de um acalento, pois esta pode se sentir angustiada diante desta falta. Com isto, o objeto transicional vai exercer essa função apaziguadora, fazendo com que a criança reconheça e, ao mesmo tempo, aplaque a ausência materna.

(A.) O que eu entendo sobre objeto transicional é que o objeto transicional é aquele objeto simbólico que a maioria das crianças tem, que dentro da psicanálise a gente diz que serve como algo para apaziguar a angústia na hora da falta da mãe, ou da função materna de uma forma geral. E aí essas crianças elas tem o objeto transicional como uma coisa apaziguadora que na clínica é mais ou menos o que eu observo, de uma forma geral.

(D.) [...]é um transicional porque teve o acalento, teve aquela coisa boa, aquela mãe fez uma boa maternagem, essa questão da substituição do seio por aquele paninho [...] então, aquilo ali lhe acalenta, ele traz uma paz [...]é uma forma de acalentar e proteger. [...]

Outro ponto importante é a forma como os adultos lidam com tais objetos. Como dito anteriormente, estes objetos possuem características da criança e do Outro. Por este motivo, ele perde a razão de ser quando este é lavado, limpo ou tem seu cheiro modificado.

(JR). Então, é um objeto que tem, ao mesmo tempo, características dela e do outro... aquele travesseirinho, ou aquela coisa que ela não quer que limpe ou lave de jeito nenhum, que tem o cheiro dela, o cheiro da mãe, então.

Como foi dito anteriormente, os objetos transicionais tem a sua importância na estruturação psíquica e, certamente, a retirada abrupta dos mesmos podem causar sofrimento psíquico como retratado nos fragmentos abaixo.

(S.) Na questão do objeto transicional é de proteger a animação que a criança ta podendo fazer [...] Tem que esperar o tempo que a criança possa ficar sem ele. [...] Danos de atrapalhamento psíquico mesmo [...] na questão do objeto transicional que eu acho que vai desmontar algo que a criança ta organizando pra diminuir seu sofrimento psíquico [...]

Essa questão da retirada dos objetos remete a outra tão importante quanto a anterior que é a forma da retirada, caso isso venha a acontecer. Essa retirada deve ser permeada de palavras, criando condições para esta criança elaborar simbolicamente essa separação. Caso ocorra uma retirada muito brusca, pela ausência da elaboração, pode acontecer o fenômeno da compulsão à repetição.

(JR.) Então, não é somente a retirada, mas a forma como é retirado. É preciso saber que desde o começo é preciso considerar a criança como uma pessoa por inteiro, respeitada como uma pessoa como um adulto, e a retirada das pessoas e das coisas precisam ser faladas e negociadas [...] Então esse dano seria no sentido de que a criança não ta de acordo, não entendeu o que aconteceu, nem ta podendo saber o que aconteceu. O que às vezes a gente pode supor é que às vezes ela vai ficar naquele ponto, ela não vai conseguir superar aquele ponto, ela vai ficar sempre voltando naquela situação pra tentar dessa vez que não seja retirado... o dano que eu entendo aí é retirado sem que ela soubesse, estivesse de acordo e aceitasse.

Entretanto, sabemos que esses objetos transicionais podem ser desinvestidos naturalmente pela criança. Pode-se observar que, aos poucos, estes objetos vão perdendo a sua importância, na medida em que vão lidando melhor com a ausência da mãe.

(S.) servem no momento de lugar de substituto da mãe ou figura representativa materna daquela criança, no momento que aquela pessoa começa a ter um distanciamento e a criança usa aquilo e depois ela mesma vai largando, aquilo vai perdendo sua importância, ou não, né?!

5.4 A migração do uso autístico para o uso transicional de objetos

Estamos, agora, neste momento, interessados nos efeitos de desdobramentos do uso destes objetos pelas crianças autistas decorrentes da intervenção terapêutica. Diante disto, devemos levar em consideração a postura ética do terapeuta no sentido de antecipar a condição de sujeito nestas crianças, criando condições para que haja a evolução do quadro clínico. Podemos observar algo desta natureza, quando o terapeuta se questiona se tais movimentos estereotipados o são assim simplesmente ou se há uma aposta na constante tentativa da criança de subjetivar-se. Este aspecto pode ser constatado no seguinte trecho:

(R.) - O que é uma estereotipia a gente tende a fazer outra leitura, estereotipia não é simplesmente movimentos repetitivos sem sentido, que é como muitas vezes os psiquiatras descrevem, mas a gente tenta entender porque é que tem hora que ele faz isso e tem hora que não faz. [...]

Indo nesta linha de reflexão, pensando em uma clínica antecipatória do sujeito, a concepção de que o objeto autístico é visto como uma barreira na relação com o outro pode sofrer uma radical torção, fazendo com que o  uso do mesmo signifique exatamente o inverso, ou seja, uma tentativa de intermediar a relação eu/outro.

(S.) - Ele entra com ele abanando e ele nem tocava a gente com esse objeto, então esse objeto ta entrando em outra instancia, tanto pela forma como ele toca, quanto pela forma que ele toca o outro com esse objeto, o que a maioria das crianças não fazem, eles pegam o objeto e ficam batendo, geralmente é um lápis, uma colher, um cipozinho [...] mas, essa criança tem entrado com esse objeto e chamado muita a atenção da gente. Quer dizer, o que é que esse objeto está proporcionando a ele? A entrada do outro, a chegada. [...]

Pautados nesta postura ética de aposta de um sujeito a advir na criança, quando indagados diretamente sobre a migração do uso de objetos de uma forma autística para uma maneira transicional, os entrevistados se posicionaram de forma diferente. Alguns não acreditam nessa passagem e outros afirmam que isto seja possível. Entretanto, mesmo aqueles que não acreditam nesta específica mudança, concebem a saída de um uso estereotipado dos objetos para uma forma mais lúdica, embora não da ordem transicional, como  resultado  de  uma  intervenção  clínica.  Portanto,  mesmo  nestas  duas  situações contrárias, concebe-se a possibilidade de evolução do quadro clínico em decorrência de um avanço na sua capacidade criativa e simbólica.

Levando em consideração que o objeto transicional é fruto de uma relação satisfatória entre a mãe e seu filho, a entrevistada (D.) não acredita na migração do uso autístico para o uso transicional dos objetos. Entretanto, acredita que possa haver uma saída para a criatividade, entrando na dimensão lúdica, tal como relata abaixo.

(D.) - Pelo menos, comigo, eu nunca percebi, até porque eu não relaciono as duas coisas porque ele não teve essa maternagem, então aquilo não pode ser um objeto transicional pra ele, porque ele não teve a maternagem. Então ele sai pra criatividade, pra uma questão mais assim que  você precisa ver se ele ta melhorando na relação, na comunicação, não que ele chegou a um objeto transicional, ele não vem pra mim com um paninho, uma bonequinha, entendeu?!

Nesta mesma linha de raciocínio, a entrevistada (S.) também não acredita nesta migração, embora acredite que possa ocorrer um desinvestimento do objeto autístico, como o efeito da intervenção clínica, como segue abaixo:

(S.) - Eu não observo muito não [...], porque as crianças autistas estão muito ligadas aos objetos autísticos. E, em relação à criança autista, geralmente, eu acho que ela vai perdendo aquele contato ou o uso do objeto autístico, mas ela não vai substituí-lo com um objeto transicional. Eu não tenho visto isso na clínica não, pode ser outros setores que tenham visto, mas na clínica institucional e de consultório eu não tenho visto muito não.

A entrevistada (A.) acredita que, mesmo não fazendo uso de objetos transicionais, a criança autista pode deixar o uso estereotipado e fixado do objeto autístico com a intervenção do terapeuta, reconhecendo o caráter funcional dos objetos, retratando o endereçamento ao outro.

(A.) - Essas que tem estas características do autismo, são pouquíssimos os objetos que a gente vê como paninhos, travesseirinho, uma bonequinha, e as que têm, é muito mais essa coisa na fixação do objeto. Eu até hoje não observei essa mudança não, o que eu observo aí [...] é no sentido assim, crianças que se utilizavam de brinquedos digamos com fechamento autístico passam a se utilizar desses brinquedos pra brincar. Então crianças que pegavam uma bola e ficavam girando a bola e só olhando a bola girar, passam a jogar essa bola pro outro.

Em uma posição bem mais assertiva em relação a essa passagem do uso autístico para o uso transicional dos objetos, a entrevistada (R.) aponta para um avanço no desenvolvimento psíquico, visto que deixam uma relação mais primitiva para outra mais evoluída com os objetos, como retrata abaixo:

(R.) – É [...] veja, a migração vamos dizer assim [...] eu tô entendendo assim como vocês estão chamando a relação com os objetos autísticos e de relação com os objetos transicionais, eu diria assim mais primitiva e precária com os objetos e a relação mais evoluída, a relação mais dentro de um desenvolvimento psíquico esperado pra uma criança. Então, é muito [...] to tentando ver se me lembro de algum exemplo aqui pra ver como é que eu explico pra vocês, porque como eu vejo seria exatamente essa lógica de que a terapia ta funcionado, a criança ta mudando, o tipo de relação que ele estabelece com o mundo ta ficando diferente né?! Se antes ele trazia um pedaço de lixo e ele agora traz um ursinho de pelúcia que nitidamente virou um objeto transicional [...].

Para finalizar, a clínica é soberana no sentido de que afirma e questiona as teorias. Além disso, o terapeuta é convocado transferencialmente a responder às situações que se apresentam na clínica a partir também da sua própria história de vida. Assim, é nessa relação entre paciente e terapeuta, que o uso estereotipado desses objetos pode ganhar novos sentidos, abrindo novas janelas pulsionais nas crianças.

6. Considerações Finais

Após a realização desta pesquisa, pode-se dizer que nossos objetivos foram alcançados e que outros questionamentos surgiram durante os estudos, os quais podem gerar novas propostas de pesquisas dentro desta temática. Portanto, vivenciamos a experiência de que a atividade de pesquisa é crucial para a formação do futuro profissional, além das atividades de estudo e extensão.

Aprendemos que o espaço terapêutico pode possibilitar, a partir de uma postura ética do profissional, uma nova chance para que essas crianças ditas autistas possam avançar subjetivamente em um momento de vida que as coisas ainda não estão fechadas e decididas.

A importância de "olhar" e “escutar” melhor o que vem do paciente, sem deixar que a prática profissional se torne uma rotina, deixando-se envolver por uma clínica antecipatória do sujeito, proporcionando condições para a transformação de objeto encapsulador para objeto mediador da entrada do outro, foi o que esta pesquisa nos trouxe de ensinamento.

Sobre os Autores:

Daniela Vicente Cabral Alves Barreto - Psicóloga graduada pela Fafire e pesquisadora do NUPIC sob orientação da Dra. Fernanda Wanderley Correia de Andrade.

Késia Nathália do Nascimento - Psicóloga graduada pela Fafire e pesquisadora do NUPIC sob orientação da Dra. Fernanda Wanderley Correia de Andrade.

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