Cultura, Corpo e Subjetividade: a Busca Constante pela Perfeição na Atualidade

(Tempo de leitura: 18 - 35 minutos)

Resumo: Este trabalho teve como objetivo analisar as buscas da mulher contemporânea pelo corpo perfeito, e como essa imagem corporal, que está no imaginário feminino, vem sendo construída e alimentada através da mídia, influencia na construção da identidade feminina. Muitas são as práticas apresentadas para obtenção deste corpo perfeito, tratando dele como se fosse eterno, havendo, na realidade, uma divinização do mesmo. Desta forma, ser bela se transformou numa questão moral e, com isso, ignora-se toda a história da mulher, genética e/ou a sua condição socioeconômica, como se todas, sem exceção, pudessem alcançar este padrão de beleza socialmente estabelecido. Nessa busca, a mulher tem adoecido de várias formas, algumas, colocando a vida em risco, se utilizando de todos os artifícios, que a medicina e o mundo da estética dispõem com seus resultados imediatos, enquanto outras estão deprimidas, por não terem a condição de utilizar tais recursos.

Palavras-chave: Cultura, Mulher, Beleza, Corpo Ideal, Mídia.

1. Introdução

Considerando os aspectos contemporâneos acerca da problemática da beleza e do corpo, tendo como foco a mulher, e o peso que a mesma carrega para corresponder a este padrão imposto pela cultura. O presente trabalho teve como objetivo pensar a relação da mulher com a beleza na contemporaneidade, sobre o peso que isso tem na subjetividade feminina e de como o culto ao corpo vem influenciando o modo de ser e existir das pessoas e transformado a vida das mulheres. Na tentativa de atingir este padrão de beleza, muitas têm experimentado o sentimento de angústia, tristeza e depressão, por não conseguirem atender ao padrão ditado pela sociedade hodierna.

Diariamente somos confrontados com o padrão magro e belo nas propagandas de TV, nas novelas, no cinema e nas capas de revista. Entretanto, consideramos que ele seja inatingível para algumas mulheres. Este modelo tem provocado, na mulher, a criação de uma imagem distorcida de si mesma e de sua imagem corporal, existindo um confronto do real com o imaginário. O combate diário passa a ser outro: com a balança e o espelho. Em busca de um ajustamento de suas próprias medidas, a mulher contemporânea, na tentativa de adiar a passagem do tempo, faz um pacto imaginário e de erradicação, um repudio a morte. Isso nos faz remeter às palavras ditas por Mario Lago “Eu fiz um acordo de coexistência com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele”. Um dia a gente se encontra “(NOVAES, 2006 p.75)”.

Emagrecer parece ser uma das grandes preocupações da humanidade. O discurso da beleza confunde-se com o da saúde. Os esteticistas e a indústria da beleza apropriam-se, com frequência, de tal discurso, classificando-o como “médico”. Este sacrifício vivenciado pelas mulheres, na contemporaneidade, na tentativa de se manterem próximas ao chamado padrão de beleza, nos faz lembrar o Mito de Procusto. Nele, existe um relato no qual os gregos, que tramitavam entre as cidades de Atenas e Mégara, se deparavam com um bando de salteadores liderados por Procustos. Este bando tinha uma característica cruel que os marcavam. Obrigavam os viajantes a deitarem na “cama do castigo” feita por Procustos. Essa cama tinha uma medida exata. Se a pessoa fosse maior, teria suas pernas e pés mutilados e se fosse menor seria esticada, mas todos teriam que caber no tamanho exato da cama, mesmo que isso lhes custasse à vida (BRANDÃO, 1991).

O Mito de Procusto é muito interessante, por isso resolvemos utilizá-lo como ilustração neste artigo, pois viver com a diferença não é uma experiência aceitável na nossa cultura. Assim como eles, também possuímos um senso de julgamento, que, muitas vezes, mutilam o ser humano, quando não fisicamente, mas psicologicamente. Ao construir a cama do castigo, o objetivo dele foi de acabar com as diferenças, colocar todos dentro de um mesmo padrão. Se sobrar, corta-se. Se faltar, estica-se. (BRANDÃO, 1991)

Tal intolerância está cada dia mais presente. Com isso, as mulheres contemporâneas estão sendo submetida a essa “cama de Procusto” atual. Podemos dizer que a mídia tem sido o Procustos do século XX e XXI. Isso porque ela dita um modelo de beleza, exigindo da mulher a busca incessante pela boa forma e mostrando-a a necessidade de manter-se eternamente jovem. Os equipamentos de ginásticas moldam e esquadrinham os corpos em modernas academias, assim os novos artefatos de Procusto convivem harmoniosamente na sociedade contemporânea. “Sem dúvida o olhar sobre o corpo não é recente, porém esta lipofobia parece ser algo mais recente” (ARAÚJO 2007, p.11) Enquanto pobres enfrentam a luta para conseguir alimento, visando o seu sustento; ricos, vivem em buscas de dietas e remédios para emagrecer. “No final do século XX, ser gordo não representa mais saúde e prosperidade. Sê-lo representa descuido, que exige ajuste ou disfarce, seja em nome da saúde ou da beleza” (ARAUJO 2007, p.11).

Historicamente a imagem da mulher se justapõe com a da beleza, a da saúde, que está ligada à fertilidade, e a juventude. Porém, na contemporaneidade a imagem que temos é de corpos bem trabalhados, sensualizados, os quais buscam responder, sempre, ao desejo do outro. Quando isso não acontece, encontramos corpos medicalizados, lutando contra o cansaço e o envelhecimento.

O “eu” e o ideal do “eu”, do qual Freud se referiu, em o Mal Estar na Civilização (1929-1930), retrata o modelo de cultura em que vivemos. As pessoas estão insatisfeitas com a própria imagem, tendo o ideal do “eu” distante daquele que veem no espelho. Esse ideal do “eu” agride, de forma impiedosa, o “eu” real. Nessa perspectiva, podem-se conduzir jovens mulheres à morte em nome da beleza tão almejada, pois não suportam o peso de pensarem em ser excluídas, por não serem consideradas perfeitas, por não estarem inseridas neste padrão de beleza imposto pela sociedade consumista dos dias atuais.

Mas o que determina ser algo perfeito ou imperfeito? Quem dita as regras da estética? Será o mercado? Mas o mercado não é uma entidade por si só, ele é constituído e apoiado por todos que fazemos parte da sociedade. O que faz uma mulher considerar-se feia? Muitas são as questões que envolvem essa problemática.

A princípio apresentaremos um breve histórico do conceito de beleza e de como o mesmo vem mudando desde o Renascimento até os dias atuais. Em seguida, iremos abordar o conceito de beleza na cultura ocidental e seus ideais. No que diz respeito à regulamentação do comportamento humano, a cultura sempre foi importante e decisiva. Outro ponto importante, que destacaremos, é o corpo narcísico, as implicações dele na subjetividade e as importâncias que esses novos sintomas têm para a clínica psicológica. Abordaremos também a imposição da beleza e o culto ao corpo, o corpo compreendido através da linguagem, e sua subjetividade, e as consequências sofridas pela mulher, devido a este padrão de beleza imposto pela cultura. O método de pesquisa adotado foi o descritivo. Esta se propõe a ser flexível, considerando que realização dela foi a partir de um levantamento bibliográfico.

2. O Corpo Feminino e Suas Mudanças ao Longo da História

Para considerarmos os aspectos que constituem a definição daquilo que vem a ser beleza, faz-se necessário compreendermos o desenvolvimento deste tema ao longo da história da humanidade, ou seja, vislumbrarmos o contexto sociocultural em que esse conceito se estabeleceu. É, praticamente, impossível, conceituarmos o que venha ser a beleza feminina, sem nos apropriarmos dos períodos da história, a qual a sociedade concebia tal conceito.

Diante de tais momentos históricos, poderemos construir uma linha do tempo, na qual percorreremos o modo como às mulheres eram vistas e classificadas quanto a sua beleza. Quais os aspectos possibilitavam que elas fossem denominadas como belas ou feias. O que faziam para seus corpos serem considerados o padrão de beleza da época a qual pertenciam.

O corpo já foi considerado forte e guerreiro na Grécia Antiga. Ele contemplava a pluralidade da cultura e desta feita se admitia um corpo mais intelectual e com estilo de vida mais próprio dos poetas, dançarinas e artistas. Este tipo físico poético e filosófico era valorizado. A ele era dado às praticas físicas como a dança e o circo. No Renascimento, séculos XV e XVI, os conceitos de beleza eram bem diferentes dos encontrados nos dias atuais. Já o feminino tinha outras formas. As mulheres possuíam seios fartos e grandes, e eram admirados, tendo suas belezas retratadas nas telas de pintores renascentistas (GARRINE, 2007).

Nesta época, a beleza era limitada a algumas esferas do corpo, ou seja, existia um critério daquilo que seria escondido e descoberto. Isso se dava não com o objetivo de destacar algum tipo de mistério, mas o de colocar em evidência as partes consideradas enobrecidas e, fora do olhar, as partes consideradas depreciadas. As altas eram valorizadas e as baixas eram escondidas. As pernas, por exemplo, não havia nenhuma preocupação em mostrá-las, pois as mesmas estavam inseridas no critério do escondido. Nesta época, o corpo era descrito hierarquicamente (VIGARELLO, 2006).

A imagem que se tinha da mulher só encontrava um contraponto: a Virgem Maria. Só ela podia ser considerada pura e inocente, pensamento este que permanece até os dias atuais. Desse modo, a mulher era controlada pela igreja, pois sua beleza era considerada perigosa. Isso despertava toda sorte de preocupação aos pregadores católicos, pois associavam o corpo da mulher e sua beleza a um instrumento de pecado e às forças diabólicas. “Durante quase toda a Idade Média, a beleza feminina era vista como uma armadilha do pecado, uma tentação do diabo. Tal beleza seria, assim, um embuste, um encobrimento enganoso de uma essência impura, leviana e vil” (NOVAES, 2010, p. 32).

Na Idade Média, por exemplo, as idéias e as imagens a respeito do corpo divergiam consideravelmente das que vigoram entre nós. A alma desempenhava um papel fundamental, é claro, mas aquela alma medieval não era uma entidade imaterial e separada do corpo (ou dele separável). Ao contrário, intimamente ligada à carne, ela animava a vida impregnando as matérias orgânicas (SIBILA, 2002, p. 106).

Na Idade Moderna, esse conceito muda. A razão passa a ser valorizada e o corpo passou a ser mais funcional. A fé foi substituída pela razão e pela ciência, aparecendo assim o dualismo corpo e mente. Os aspectos que movem este momento na história evocaram a soberania de Deus e a sua bondade naquilo que vem a ser a sua vontade criadora. Em contrapartida, o corpo passa a dominar a alma e, por conseguinte, chega à degradação, ou seja, afasta-se do bem. Neste dualismo, se estabelece uma batalha interior no indivíduo, uma vez que o mal é a privação do bem, e o homem pode, ao afastar-se de Deus, distanciar-se do bem. Porém, é nesse contexto que a identidade corporal era percebida apenas como algo voltado para a eternidade (SIBILIA, 2002).

O corpo miúdo e roliço lembrava às bonecas na década de 1910. Em 1940, as mulheres se tornam mais sedutoras, como por exemplo: Rita Hayworth, a musa do cinema, que passou a ser símbolo da beleza feminina nesta época. Marilyn Monroe também foi um marco de sexualidade na década de 1950, sendo vista como símbolo de desejo e consumo em sua geração. Assim, as formas se avolumaram nas atrizes consideradas mignons, porém as cinturas de pilão eram mantidas.

Por outro lado, na década de 1960, John e Jaqueline Kennedy foram símbolos de elegância e poder, ao exibir seus corpos magros. No mundo da moda, a modelo inglesa, Leslie Hornby, também conhecida como Twiggy, que em inglês significa galho seco, representava um novo padrão de beleza, o extremamente jovem e magra. No Brasil, o corpo violão vai perdendo o seu lugar para o considerado “tábua”.

Nos anos de 1970, a magreza das modelos foi determinante, tornando-se objeto de desejo das mulheres da época. Nesta mesma época, no Brasil, se buscava mais a liberdade da expressão, do que mostrar a beleza de corpos saudáveis. Ele é mais politizado. Neste mesmo período, a atriz Leila Diniz, que estava grávida, exibiu-se em um biquíni, causando um escândalo para os padrões daquela década. Mesmo assim, ela lançava moda.

Em 1980, surge, um novo modelo de mulher. Poderosa, de cabelos grandes, recheada por ombreiras e exercícios realizados em academias, assim, ter um corpo redefinido passa a ser objetivo não só de homens, mas das mulheres também. A sensualidade feminina fica garantida pelas cirurgias plásticas, dietas e tratamentos estéticos. Na década de 90, o modelo ideal de beleza é definido pelas supermodelos, com seus corpos excessivamente magros, quase que irreal, nesta época.

“Kate Moss, ressuscitou a fragilidade física de Twiggy, desta vez com uma causa identificada: anorexia. A doença se alastra nas passarelas e, segundo os médicos, tem relação direta com a compulsão estética de um corpo magro estipulado às mulheres” (ULLMANN,2004 apud GARRINE 2007, p.3).

A partir do século XX e início do XXI, passamos a assistir, em especial, nos grandes centros urbanos, um crescimento quanto à idolatria ao corpo, com um foco cada vez maior na exibição pública. Porém, antes, era escondido e, aparentemente, mais controlado. A devoção a ele provocou mudanças no comportamento da sociedade, evocando a necessidade de se alcançar um novo corpo, ou seja, aquele exigido pela sociedade em que se estava inserido.

[...] foram inúmeras as sociedades que acolheram, com alegria, a presença dos gordos e desconfiaram da magreza, como se esta expressasse um déficit intolerável para com o mundo. Magreza lembrava doença e o peso do corpo não parecia um pesar. Entretanto, no decorrer deste século, os gordos precisaram fazer um esforço para emagrecer, o que lhes pareceu bem mais pesado do que o seu próprio corpo (SANT’ANNA 1995, apud GARRINE 2007 p.4).

A busca pelo corpo “bem-feito”, “sarado”, “trabalhado” representa o triunfo sobre a natureza. O que antes era vergonhoso passa a ser respeitado, tornando-se orgulho para as pessoas. Portanto, a cultura, que se apresenta de forma soberana, vem transmitindo, como valor desejável, a obtenção de um físico magro e, hoje, o corpo tornou-se objeto de estudo nas mais diversas áreas que compõem o conhecimento científico na sociedade. Isto vem possibilitando várias reflexões. Tê-lo perfeito é ter vitória sobre a natureza? Ser gordo é sinal de incompetência? Será que podemos controlá-lo? Ele tem assumido um valor cultural, que insere o indivíduo dentro de grupos como também o diferencia dos demais (GARRINI. 2007).

Podemos perceber que, atualmente, as pessoas são responsabilizadas e tidas como fracassadas, pela condição do próprio corpo. Entretanto, vale salientar que, isso ocorre numa cultura classificadora de forma física. As pessoas consideradas acima do peso são tidas como doentes, uma vez que, o ideal é produzir um tipo físico perfeito, bem trabalhado, ultramedido, sendo a aparência fundamental para que o indivíduo seja reconhecido nesta sociedade.

Os corpos exigidos são bem construídos. Eles devem ter suas proporções dentro dos padrões estabelecidos, sendo cada dia mais valorizado. As medidas e as mediações, que tem como objetivo incentivar o consumo, visam a preparação do físico e a busca pelo retardo do envelhecimento. Assim, a mídia encontrou o seu lugar. O discurso é, exclusivamente, a serviço da beleza, exercendo um grande poder, influenciando a massa.

[...] na segunda metade do século XX, o culto ao corpo ganhou uma dimensão social inédita: entrou na era das massas. Industrialização e mercantilização, difusão generalizada das normas e imagens, profissionalização do ideal estético com a abertura de novas carreiras, inflação dos cuidados com o rosto e com o corpo: a combinação de todos esses fenômenos funda a idéia de um novo movimento da história da beleza feminina e, em menor grau, masculina (GOLDENBERG, 2002, apud GARRINE 2007 p. 6).

A metade do século XX foi importante, pois podemos dizer que foi um divisor de águas porque, neste momento, o culto ao corpo ganhou uma nova dimensão, nunca vista antes. Já que o mesmo estava restrito, apenas no sentido de ser ultramedido, esse cultualismo atingiu outras instâncias, envolvendo outros cuidados e abrindo espaço para novas profissões. Foi implantado um ideal estético e, com isso, houve um crescimento da indústria da beleza. Esta busca vem se tornando cada dia mais presente na vida das pessoas, em maior parte das mulheres. Ser magro e ter formas perfeitas, conforme ditado pela cultura ocidental, não é o suficiente. Havendo uma busca incansável para manter-se bela, esta indústria vai ditando as regras de como alcançar um físico perfeito para manter-se jovem, desejada e feliz (GARRINE, 2007).

3. Conceito e Ideal de Beleza na Cultura Ocidental

A cultura sempre foi importante e decisiva, no que diz respeito à regulamentação do comportamento humano, pois o indivíduo é socializado no seio de sua cultura. É compreensível que o mesmo internalize as crenças, valores e comportamentos do meio em que está inserido, moldando suas atitudes em função daquilo que é tido como “normal e aceitável” dentro desta cultura, com o objetivo de atender às necessidades exigidas.

Se tratando da cultura ocidental, podemos dizer que o corpo vem sendo tratado como algo divino e eterno. O importante é observar como os fatores socioculturais influenciam o indivíduo em relação à imagem que ele tem de si mesmo. A construção da aparência faz parte da identidade da sociedade capitalista. Ela tenta implantar a todo o momento o sonho do físico perfeito. Porém, devemos lembrar que a concepção de beleza se difere de acordo com a etnia do qual esse indivíduo faz parte.

A imagem corporal está associada ao conceito que o indivíduo tem de si. Ele sofre influência do meio em que vive, e esta imagem corporal envolve aspectos afetivos, cognitivos, sociais, culturais, tendo o processo de desenvolvimento sido influenciado pelos determinantes da cultura. Estes foram mudando à medida que os valores, normas e comportamentos sociais, também, sofreram mudanças.

É totalmente compreensível que, em uma cultura que valoriza a magreza como padrão ideal de beleza, as pessoas façam dela e busquem, por todos os meios, atingir esse padrão pré-estabelecido socialmente. Entretanto, para muitos, esse padrão de beleza é inalcançável. Quando não atingido, pode trazer sérios problemas quanto à insatisfação corporal, gerando uma imagem negativa de si mesmo e repercussões no psicológico do individuo (ALVES; PINTO; ALVES; MOTA e LEIRÓS, 2009).

Podemos afirmar que, sem dúvidas, proporcionamos, nos dias atuais, mais cuidados e saúde ao nosso corpo, porém isso não nos dá o alívio e a garantia de nossa finitude. O que fazemos é apenas adiar o final de nossa existência. A gratidão pelos avanços da ciência aumenta a cada dia, pois a mesma tem oferecido a oportunidade ao indivíduo ter uma vida mais longa. Será isso esperança ou ilusão? (NOVAES, 2012).

Em 1930, Freud escrevia que eram três as principais fontes de sofrimento humano: a natureza, com a sua força indomável; as vicissitudes do corpo, em sua marcha inexorável na direção de sua autodissolução; e a relação entre os homens, que os condenava ás exigências sociais e renúncias pulsionais muito além das possibilidades de seu acanhado espírito (NOVAES, 2010, p. 36).

Sendo assim, podemos pensar que nossas possibilidades de felicidade serão sempre compostas por restrições. Isso se dá por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito mais fácil de ser experimentada, pois o sofrimento nos ameaça a partir de três direções e uma delas é o nosso próprio corpo. Ele é condenado à decadência e a dissolução, não podendo dispensar o sofrimento, ansiedade e o mundo externo também, com suas forças esmagadoras e impiedosas como fonte de sofrimento para o homem (FREUD, 1920-1930).

Nesta época, Freud já considerava interessante a questão da felicidade atrelada à beleza. “A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento, tenuemente intoxicante. A beleza não conta com um emprego evidente, tampouco existe claramente qualquer necessidade cultural sua” (FREUD 1929-1930, p. 90).

Ele se mostrava intrigado acerca desta valorização da beleza pela civilização, ainda que esta não proporcionasse nenhuma utilidade. É numa sociedade globalizada, que existe uma divisão, entre ganhadores e perdedores. Sem ideias, os sujeitos se entregam às compulsões. Nessa urgência, qualquer espera, causa desespero, no que diz respeito a empecilhos que surjam e atrapalhem a busca pela perfeição e nada mais distante desta, em nossa sociedade, do que não se enquadrar no padrão de beleza ditado pela mesma (NOVAES, 2010).

Freud, em o Mal Estar na Civilização (1929-1930), observou a existência de uma grande discussão quanto à busca, ou melhor, à investigação do conceito de felicidade e o que fazer para obtê-la. A civilização é a grande responsável por nossas desgraças. Segundo Freud, seríamos muito mais felizes se abandonássemo- la e voltássemos às condições primitivas. A sociedade exige do homem reverência à beleza, pois ela tem ocupado um lugar especial. Nos dias atuais, percebemos a humanidade desprovida de ocupação útil.

Observamos que o padrão vem mudando a cada época. Mulheres consideradas bonitas tinham formas arredondadas. Difere do conceito de belo hoje, principalmente, quando se refere à cultura ocidental. A beleza está diretamente ligada à juventude. Elas devem possuir corpo magro e atrativo, recorrendo às várias alternativas com o objetivo de alcançar tal ideal de beleza, que não se resume apenas em perder peso. “O novo paradigma cultural da Contemporaneidade consiste no dever moral de ser bela, como um adicional aos padrões estéticos de beleza que sempre existiram ao longo da história” (NOVAES 2005 apud ALVES; PINTO; ALVES; MOTA e LEIRÓS, 2009, p. 3).

3. O Corpo Narcísico e Suas Implicações Subjetivas

Ao pensarmos no corpo, neste contexto, acreditamos ser importante discorrer sobre a seriedade que os novos sintomas corporais da contemporaneidade têm para a clínica. Podemos observar, de forma clara, os transtornos de percepção que a mulher contemporânea tem em relação à sua imagem corporal. Distúrbios alimentares se desenvolvem, gerando um culto exacerbado ao corpo e, por conseguinte, a busca por ele perfeito, por meio de cirurgias para correção estética, assim como outros métodos disponíveis na atualidade. Observa-se, também, o desenvolvimento de síndromes e fobias sociais. Mulheres se tornam dependentes de drogas, lícitas ou não, construindo um quadro de abuso em relação à exploração das sensações corporais.

O corpo físico, dentro deste contexto, sempre foi visto como um componente de conflito psíquico. Esse termo, em Freud, nos mostra vários referentes, porém nos deteremos nas relações entre o corpo físico e a formação do eu.

Freud nos estudos sobre narcisismo, as identificações e as relações entre as instâncias psíquicas – eu isso, supereu, ideal do eu, eu ideal - diz que o eu é uma projeção da superfície corporal. Isto quer dizer que o eu se constitui como correlato mental da forma corpórea. O complemento egóico, contudo não é um fenômeno simples (FREIRE COSTA, 2005, pp. 72 e 73).

O eu, quando na sua formação narcísica, se autopercebe como uma Gestalt continua sendo derivado da percepção imaginária do corpo, ou seja, essa identidade egóica é formada e se modela através de uma imagem corporal, que atenda a demanda do outro. Este pode vir a ser, os pais, adultos que tenham um significado importante para o sujeito. Também podem ser figuras culturais, consideradas ideais. Esses modelos atribuem ao sujeito uma sensação de completude física, emocional e moral, correspondendo, assim, à fantasia do que venha ser perfeito. Em troca, o que é exigido desse sujeito é uma submissão a esse ideal, e preso a ele o sujeito usa a imagem com o objetivo de sustentar o interesse do outro por ele. As demais qualidades, que a pessoa tem, servirão apenas para reforçar o desejo de atender ao desejo de perfeição do outro. Dessa forma, o “eu” vai utilizando tal imagem corporal como moeda de troca nas relações com o outro.

“Freud, apoiado na clínica, afirmava o que as teorias ecológicas da percepção e da cognição vieram a confirmar: Somos em grande medida, aquilo que imaginamos causar no outro, gozamos, em grande medida, com o usufruto dessa condição” (FREIRE COSTA, 2005, p. 73). Isso nos conduz ao entendimento de que o nosso maior desejo é fazer com que o outro nos deseje. Assim nos satisfaremos, alcançando isso na realidade ou na imaginação, sendo antecipado de forma imaginária.

A percepção imaginária no corpo narcísico, desejado pelo outro, tenta fazer com que o sujeito se curve a esse ideal de perfeição. Isso cria uma resistência na pessoa em aceitar sua própria imagem, expressões ou atributos físicos. Logo, entram em contradição com tais expectativas, chocando, assim, a satisfação ego– narcísica com os interesses corporais autorregulatórios e sensórios–motores. Na contemporaneidade os interesses narcísicos, e demais interesses pelo corpo físico, mudaram as imagens e ideias que se tinha sobre ele. O elo entre o “eu” narcísico e o corpo físico sofreu mudanças em áreas da experiência da subjetividade do sujeito. Com o avanço real da ciência e da tecnologia houve mudança nesse imaginário da perfeição, mudando assim o perfil do ideal de imagem corporal.

Buscava-se alcançar, no futuro, uma perfeição mítica, a encontrada no passado sentimental. Porém, atualmente, acredita-se que essa perfeição física será alcançada através das novas tecnologias, que a medicina vem apresentando. Junto à elas, a medicina promete resultados rápidos e milagrosos, e assim o futuro deixa de existir como algo indeterminado, no que diz respeito à realização das fantasias emocionais, passando a ter data e hora marcada para a correção da aparência física do corpo. “A imagem narcísica de sua majestade o bebê, continua hibernando no fundo do eu, mas agora sob a máscara do adulto protético” (FREIRE COSTA 2005, p. 77).

Existe um fascínio crônico, que exerce uma forte influência, no sujeito, em especial nas mulheres. Quando se trata da possibilidade de transformar o corpo indesejado num perfeito, através das técnicas anunciadas com uso de próteses, cirurgias plásticas, dentre outras coisas, nos leva a pensar que o corpo físico, na sua dimensão de esquema corporal, volta ser julgado, sendo a causa real da ferida narcísica. Isso mostra, de forma clara, a necessidade do “eu” em despertar o desejo do outro por si, através da idealização da própria imagem.

Poucos temas despertam o interesse das pessoas, mas quando o assunto é beleza, taxa de colesterol, dietas de emagrecimento, como ter uma vida e uma alimentação saudável, pode-se observar o fascínio que estas questões exercem na vida das pessoas. O narcisismo triunfou sobre o esquema corporal e o perigo se deslocou, mudou de lugar, e este passou a ser o da estria, da celulite, da flacidez da obesidade, dos pneus indesejáveis, sendo vigiado de forma implacável, temido pelas mulheres, muitas vezes, de maneira fóbica, obsessiva e até mesmo persecutória. E, assim, sem ter como esconder essa aparência indesejável deste corpo este ego se vê acuado e humilhado com medo de não despertar o interesse do outro (FREIRE COSTA 2005).

4. A Imposição da Beleza e o Culto ao Corpo

O culto ao corpo vem produzindo nas mulheres uma verdadeira obsessão quanto à sua forma física, como também, as considerações sobre saúde, tornando- se uma mania na contemporaneidade. Isso tem se desenvolvido através da fascinação das imagens corporais expostas pela moda. Muito se fala sobre o que pode ter causado tal fascínio, inclusive a perda dos valores, como causador da obsessão do culto ao corpo. Porém, não se trata apenas da perda de valores, mas de uma mudança dos tradicionais. A maioria das pessoas, residentes nos grandes centros urbanos, optou por considerar o bem-estar e os prazeres físicos como algo primordial, regentes das próprias vidas, ou seja, uma questão moral.

Todavia, é importante analisarmos que existe uma diferença e uma distância entre o ideal imaginário e a realidade: uma coisa é dirigir a vida para a obtenção de algo e outra é conseguir o que se busca. Na sociedade contemporânea, ter felicidade está relacionado a consumir, podemos ver isso diariamente nas propagandas veiculadas através da TV, revistas de moda e outdoors.

Segundo (FREIRE COSTA 2005), não se sabe ao certo quando surgiu o consumismo, alguns dizem que foi no século XVII e XVIII, outros dizem que foi no século XIX ou até mesmo nos séculos XX e XXI.

O que importa é compreendermos qual o significado e os objetivos e as circunstâncias históricas em que consumimos. Isso é que vai fazer toda a diferença para compreendermos o que muda de acordo com cada século, porém, queremos nos deter ao modelo de consumismo da contemporaneidade, a fim de buscarmos uma maior compreensão para o significado deste culto ao corpo. Na atualidade consumir está ligado ao conceito de felicidade e, assim, o que é produzido e consumido tem valor à medida que se refere à felicidade de quem fabrica e de quem consome. “Até o advento da Revolução Industrial, sociedade alguma havia imaginado que a felicidade pudesse advir do consumo de bens. Apenas os mais necessitados e pobres poderiam acreditar nisto” (ARENDT 2000, apud FREIRE COSTA 2005, p. 135).

A sociedade em que vivemos é a do bem-estar consumista. Hoje, por meio do acesso ao crédito e da superabundância de ofertas de consumo, edificou-se uma nova civilização na qual os desejos não são refreados, muito pelo contrário, mas existe um incentivo para levá-los a uma exacerbação extrema. “A fruição do momento presente, o culto de si próprio, a exaltação do corpo e do conforto passaram a ser a nova Jerusalém dos tempos modernos” (LIPOVETSKY, 2005, p. 29).

Vivemos em uma sociedade que está obcecada pelos conceitos de saúde perfeita e de eterna juventude. Isso vem propagando conselhos dietéticos, estéticos e esportivos como modelo de vida, gerando obsessão psicológica na busca por esse bem-estar e a felicidade que o mesmo pode proporcionar, pois na atualidade a felicidade esta acima de tudo, não havendo lugar para a tristeza.

O bem-estar tornou-se um deus e a publicidade é seu profeta. A felicidade é light, o narcisismo é celebrado sem trégua pela cultura saudável, esportiva, estética e dietética. Manter a forma, lutar contra rugas faciais, celulites, bronzear-se e não perder a silhueta faz parte da ética contemporânea da felicidade, que não é só consumista, mas ativista e construtivista. Podemos perceber que não se trata mais de um controle de modelo das próprias paixões, pois tenta potencializar no indivíduo a não aceitação resignada do desgaste que os anos nos causam, e o levar a crer na eterna juventude do corpo. É uma luta competitiva do sujeito consigo mesmo, tudo voltado para uma realização pessoal, que se adapta ao estilo de cada pessoa. Porém as imposições são as mesmas (eterna juventude, saúde, peso ideal, forma perfeita, dentre outras coisas) e, com isso, desencadeando uma ansiedade pela própria exigência que este bem-estar pessoal exerce na vida do indivíduo, neste trabalho particularmente, na vida da mulher. (LIPOVETSKY, 2205)

Um ponto agravante neste contexto é que estas estimulações ao consumo são feitas de forma moderada, ou melhor, em doses homeopáticas e infinitas sendo disponibilizadas de forma moderadamente light e é por isso induzem o indivíduo a uma ansiedade crônica, depressão, vazio e estresse. Nem sempre se pode escolher a forma do corpo, devido a questões sociais, genéticas, familiares, de saúde e outras, que são ignoradas pela indústria da beleza e pela mídia.

5. Corpo, Linguagem e Subjetividade

Essa rendição a que nos submetemos nos dias atuais está inteiramente relacionada ao desejo de ter o olhar do outro. O nosso corpo não tem apenas como objetivo satisfazer as nossas funções fisiológicas, mas também obter prazer através do olhar e do desejo desse outro.

Este corpo simbólico é compreendido através da linguagem, pois ela é fundamental para que seja constituída a subjetividade, pois todo ser humano, para ser reconhecido, precisa que outro ser o deseje. É a partir da linguagem que o conceito de beleza é construído. Neste contexto pensamos: o que pode nos remeter a este corpo que tanto necessita do olhar do outro? Por isso achamos importante falar sobre este desejo e busca para alcançar um padrão de beleza que atenda a ele, não esquecendo de apontar as consequências que isso traz na subjetividade da pessoa (ALMEIDA, SILVA e SANTOS 2006).

Uma das consequências que podemos apontar é a mudança constante do discurso do que seria o belo e perfeito e, a cada mudança, o sujeito muda sua posição diante da sociedade, o que não dá a ele o direito de conseguir ter acesso à realização deste desejo devido a mudanças e bombardeios emitidos pela mídia. Ora este corpo deve ser magro, esbelto como as modelos e manequins, ora deve ser malhado e definido, como aqueles apresentados pelas academias. Assim, o discurso vai sempre mudando, não dando tempo de o sujeito ouvir o seu inconsciente e, na busca para se adequar a este padrão, podem até se mutilar.

A TV exerce uma influência muito forte no imaginário das pessoas e o seu acesso é fácil, o que ela transmite é sempre o desejo do outro e gera no indivíduo uma ilusão, fazendo o mesmo acreditar que, se seguir tais instruções, será desejado e aceito pelos outros. “A mídia acaba por tomar conta da subjetividade de cada um, impondo uma “subjetividade industrializada”, imaginariamente programada para ser seguida por todos”. (KEHL,2004 apud ALMEIDA, SILVA e SANTOS, 2006, p. 5) Isso torna a mídia um referencial em nossa vida cotidiana e assim a mesma vai vendendo seus sonhos, ideias e valores para toda uma sociedade, nos levando ao monopólio, valorizando o que ela dita como belo.

Existe um gozo em mostrar, de forma extrema e, até, exibicionista, o corpo. Podemos ver isso nos “reality shows”, em que a preocupação é mostrá-lo para aqueles que os assiste, despertando nas pessoas um ideal de beleza imaginário, mesmo estando muito distante do real dos telespectadores. Esse imaginário também encontra espaço no mundo virtual. Pessoas ficam horas em frente ao computador, falando para o outro de seus atributos físicos, quando na realidade eles às vezes nem existem. Dessa forma, alimenta-se o imaginário do outro e assim o corpo vai exercendo seu poder nas mais diversas formas.

Quais As Consequências da Imposição Sociocultural da Beleza E do Culto ao Corpo na Subjetividade Feminina?

Ser belo segundo a sociedade hodierna é condição primordial para ser feliz. Partindo deste princípio, a mulher contemporânea é bombardeada de informações que a colocam em pé de guerra com a sua imagem, ou seja, ela precisa buscar a beleza para ser contada entre as consideradas felizes.

Estar magra é positivado em qualquer contexto, discurso ou meio de sociabilidade. Estar magra é o melhor capital, portanto, a melhor forma de inclusão social e, por fim, a moeda de troca mais eficaz. Ser magra, nos dias atuais, é um adjetivo de beleza. Esta última, por sua vez, reforça e condiciona a feminilidade. Batalhar para ser bela põe uma mulher em pé de igualdade com as outras, afaz sentir-se em condições de competir, aumenta sua autoestima e o seu poder de sedução. Uma vez segura da sua beleza e de seus dotes, está preparada para eliminar a concorrência (NOVAES, 2006, pp. 72, 73).

Considerando as palavras de Novaes, percebemos uma violência na subjetividade feminina, uma vez que ser magra é uma imposição e nem todas as mulheres alcançarão este padrão, o que pode fazer com que tais mulheres adoeçam emocionalmente. Entretanto, quem pode definir a beleza de uma mulher a partir de sua compleição física?

Por outro lado, o corpo ideal não está apenas ligado ao controle do peso e de suas medidas, mas também evidencia questões psicológicas e morais. Ser feio caracteriza, ao mesmo tempo, uma quebra estética e psíquica que é decorrente da perda da autoestima. Portanto, ao impor determinado padrão de beleza e o culto ao corpo, a sociedade promove, na subjetividade feminina, a autorrejeição, uma vez que ao não atingir tal padrão, a mulher sofre com a perda de sua autoestima.

A beleza moderna, longe de prometer uma compensação narcísica à mulher, agudiza sua frustração e sua impotência em face da potência da imagem. A mulher passa a ser mais algoz de si mesma em relação à beleza. Prosaicas “Mouras-Tortas”,como afirma Costa, desenvolvem uma relação persecutória do ego, onde cada ruga ou cada grama a mais levam- na ao desespero. “Este corpo, insaciável, não é mais para o ego objeto que realiza o desejo de prazer. É o objeto que o ego tenta dominar e controlar, à custa de um crescente sentimento de culpa e uma ansiedade infindável” (FREIRE COSTA, 1985, p. apud NOVAES, 2006, pp. 88, 89).

Desta forma, além da perda da autoestima a mulher é subjugada pela imposição sociocultural e o culto ao corpo evoca um sentimento de culpa e uma ansiedade que promovem a dor e o desespero, além de mobilizar na mulher escravizada por essa busca desenfreada da beleza uma agonização de sua subjetividade.

Segundo Novaes (2010), “criou-se uma cultura que induz a mulher a acreditar ser possível a perfeição estética, pregada se a mesma submeter-se com afinco e força de vontade a todo arsenal técnico – cosmetologia, cirurgias estéticas, massagens e academias”. Sendo assim, a imposição sociocultural e o culto ao corpo, no que se diz respeito ao conceito de beleza, promovem certa escravidão subjetiva na mulher que busca de todas as formar atender ao chamado alucinador que provoca alienação emocional e pode levar à angustia, baixa autoestima, ansiedade, medo de exclusão, dentre outros problemas.

6. Considerações Finais

Quando decidimos percorrer os caminhos da imposição sociocultural e do culto ao corpo na subjetividade feminina, tínhamos a nossa percepção formada acerca do tema que nos propomos a estudar. Entretanto, os aspectos socioculturais, que se referem à construção do conceito de beleza ao longo da história da humanidade, como também os parâmetros contemporâneos, fomentam tal conceito. A cultura influencia naquilo que vem a ser a percepção da mulher quanto ao seu conceito de beleza.

Discutir a beleza nesse século globalizado perpassa pela consciência da influência midiática com suas nuances e generalizações, ou seja, ser belo é ter um corpo atlético, esguio, em outras palavras, ter um corpo ultramedido. Nesse contexto, como a mulher tem se visto ao olhar-se no espelho? Que autoconstrução a mesma tem vivenciado acerca de sua própria imagem?

A partir do momento que a mídia evoca o culto ao corpo, e essa mulher não se enquadra nesse modelo “ideal”, a sua subjetividade, é bombardeada por padrões fabricados de beleza. Na maioria das vezes, a mesma não tem condições de enquadrar-se devido à sua condição sociocultural e econômica. Através da pesquisa realizada, vislumbramos a busca pelo corpo perfeito e, como tal, para algumas mulheres, resultando no adoecimento psíquico.

Este adoecimento fica evidenciado no sentimento de tristeza vivenciado pela mulher e seus medos quanto a possíveis perdas afetivas. Muitas apresentam insegurança, carência, dentre outros sentimentos que mobilizam a sua subjetividade. A perda da autoestima, o aumento da ansiedade e o medo de ser excluída e/ou não aceita trazem consequências dolorosas a esta mulher.

Consideramos que a imposição sociocultural da beleza e o culto ao corpo, ao solidificarem-se e subjugarem o imaginário feminino, evocam não só um desejo desenfreado pela busca do corpo perfeito, como também, alavancam sentimentos de frustração e desespero na vida desta mulher e, por conseguinte, em sua subjetividade e autoimagem.

Sobre os Autores:

Martha Severo Lopes da Silva - Aluna concluinte do curso de Psicologia na Faculdade de Ciências Humanas - ESUDA

Orientadora: Ângela Fernandes Baía - Possui mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (2007). Atualmente é pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco, trabalha na área acadêmica como professora de psicopatologia e ética profissional, na faculdade de ciências humanas ESUDA (PE) e na FAITVISA (VITORIA DE SANTO ANTÃO). Tem pesquisa na área de Filosofia, com ênfase em subjetividade e ética. Membro da Associação de Psiquiatria Cultural (ABE). Orientadora de AEE.

Referências:

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