Habilidades Sociais na Infância e Autismo: Possibilidades de Promoção de Saúde

Habilidades Sociais na Infância e Autismo: Possibilidades de Promoção de Saúde
(Tempo de leitura: 14 - 28 minutos)

Resumo: O homem é um ser social que desde o seu nascimento está envolvido em relações interpessoais. É nesse contexto de interação recíproca que as habilidades sociais se manifestam, podendo ser compreendidas como uma variedade de classes de comportamentos de um indivíduo que orientam as suas relações sociais. Tais habilidades configuram-se processos passíveis de aprendizagem e a sua expressão varia em função da idade como também de aspectos situacionais e culturais. As aprendizagens dessas habilidades se dão durante todo o processo da vida e a infância tem sido apontada como um período crítico para a sua ocorrência. Para lidar com as demandas e desafios atuais, a criança precisa desenvolver um repertório cada vez mais elaborado de habilidades sociais. Crianças que apresentam algum tipo de transtorno no curso do seu desenvolvimento, como as crianças autistas, as quais apresentam como sintoma proeminente um déficit nas relações sociais, necessitam de espaços propiciadores e reforçadores para a construção de um repertório comportamental habilidoso, que leve em consideração sua maneira peculiar de comunicação. Nesse sentido, baseando-se na literatura especializada, este trabalho teve como objetivo investigar as possibilidades de intervenção com crianças autistas tendo como ferramenta o treinamento em habilidades sociais (THS), que constitui-se uma tentativa direta e sistemática de ensinar estratégias e habilidades interpessoais aos indivíduos, com a intenção de melhorar a qualidade de suas interações em tipos específicos de situação.

Palavras-chave: Relações interpessoais, Habilidades sociais, Autismo, Treinamento.

1. Introdução

O homem é em sua essência um ser social, dotado de pensamentos, emoções e atitudes que permeiam as suas relações sociais. Durante todo o percurso de sua vida está em constante interação com outras pessoas, tendo como objetivo vivenciar relações saudáveis e produtivas. Nessa construção, os indivíduos se utilizam de estratégias que servem como mediadoras no processo de comunicação. Essas estratégias podem ser entendidas como habilidades sociais, definidas como um conjunto de classes de comportamentos que o indivíduo apresenta para atender as diversas demandas existentes nas relações sociais cotidianas.

As habilidades sociais podem ser aprendidas durante toda a vida e possuem uma significativa relevância em cada fase do desenvolvimento humano. A infância tem sido considerada uma etapa importante para esse processo de aprendizagem. Del Prette e Del Prette (1999) argumentam a existência de uma significativa preocupação com as conseqüências dos déficits de habilidades sociais em etapas formativas da vida do indivíduo. Tais preocupações são de fato reforçadas pelas evidências empíricas que correlacionam esses déficits, com uma variedade de problemas psicológicos, como: delinqüência juvenil, desajustamento escolar, suicídio, como também síndromes clínicas do tipo depressão e esquizofrenia.

Caballo (2004) defende a ideia que grande parte dos transtornos psiquiátricos apresenta um importante componente de problemas na comunicação, que podem funcionar como predisponentes, ou simplesmente estarem presentes, caracterizados como sintoma de um quadro psicopatológico. Como exemplo dessa relação, podemos citar o autismo, que tem como um dos sintomas mais proeminentes o déficit nas relações sociais.

O autismo é um transtorno do desenvolvimento que se manifesta tipicamente antes dos três anos de idade, tendo como principais sintomas o isolamento, distúrbios na comunicação e uma acentuada necessidade de imutabilidade. Nos últimos anos tem havido um aumento significativo na pesquisa científica sobre o autismo, visando à ampliação do conhecimento, tanto acerca da natureza do transtorno, como de possíveis estratégias de tratamento.

Ferramentas de intervenção que tenham como objetivo a aprendizagem de comportamentos que facilitem as relações interpessoais, como é o caso do treinamento em habilidades sociais (THS) têm sido apontadas como uma estratégia que pode ser utilizada com crianças autistas. Com base na relação existente entre déficits em habilidades sociais e o comprometimento do funcionamento das crianças em diferentes esferas de atuação, este trabalho teve como objetivo investigar as possibilidades de intervenção com crianças autistas tendo como ferramenta o treinamento em habilidades sociais, utilizando-se como fonte de informação a literatura especializada.

2. Habilidades Sociais

O ser humano é por excelência uma criatura social dotada de emoções e que ao longo da sua existência funciona em um contexto relacional interdependente, necessitando de habilidades que favoreçam suas relações interpessoais, com vistas a construir vivências saudáveis e conseqüentemente produtivas. A comunicação entre as pessoas está presente em todo o ciclo da vida, ocorrendo nos mais diferentes contextos e de formas diversificadas. Alguns pilares básicos como viver em grupo, solucionar problemas em situações conflituosas e expressar sentimentos, podem beneficiar as relações existentes no cotidiano.

Costa (2004), partindo da idéia de Moscovicci (1985), ao referir-se à dinâmica das relações interpessoais, diz que o desenvolvimento dessas interações ocorre com o simples fato de não agir com indiferença à presença de outra pessoa. Dessa maneira, a interação apresenta um caráter de reciprocidade, que ocorre sempre entre duas ou mais pessoas, sob a forma de comportamentos manifestos, como também de pensamentos e sentimentos.

Os seres humanos passam grande parte do tempo envolvidos em alguma forma de comunicação interpessoal. A esse respeito, Magalhães e Murta (2003, p. 18) dizem que “em qualquer relação interpessoal são requeridas habilidades para que a convivência seja satisfatória aos envolvidos na interação”. É nesse contexto que as habilidades sociais se manifestam. Os menos familiarizados com a área de conhecimento que estuda as habilidades sociais, podem entendê-la de maneira normativa e simplista como sinônimo de uma boa educação. O uso de termos como socialmente habilidoso, jeitoso ou sociável, por vezes induz a uma compreensão parcial e mesmo equivocada dessa área que se constitui tanto uma área de pesquisa como também de aplicação (DEL PRETTE E DEL PRETTE, 2005).

Em virtude da crescente complexidade das demandas sociais existentes nos níveis pessoal e profissional, essa área de estudos e aplicação vem, nos últimos anos, se desenvolvendo no cenário nacional e internacional (BANDEIRA, COSTA, DEL PRETTE, DEL PRETTE, CARNEIRO, 2000). O interesse pelas Habilidades Sociais é relativamente antigo na ciência psicológica. Costa (2004), fazendo uma revisão histórica sobre os estudos desenvolvidos, conclui que diversos países como Inglaterra, Canadá, Espanha, Bélgica e Colômbia vem desenvolvendo uma produção significativa na área das habilidades sociais. Embora acredite que no Brasil a produção de trabalhos ainda seja escassa, o autor cita os trabalhos de Del Prette e Del Prette (1982, 1983, 1985), Ayres e Ferreira (1985), Pasquali e Gouveia, e Costa (1999) como pioneiros no cenário nacional.

2.1. Habilidades Socias na Infância

As relações sociais começam a tomar forma desde a tenra idade. Ainda na vida intrauterina, os padrões cognitivos e comportamentais dos nossos pais, como sentimentos, pensamentos, desejos e atitudes indicam a maneira como vamos ser recebidos no mundo e quais os grupos dos quais vamos fazer parte inicialmente. Funcionamos como seres ativos desde o nascimento, mas inicialmente, precisamos de mediadores que favoreçam relações satisfatórias. Na infância, como em qualquer etapa do ciclo vital, as habilidades sociais configuram-se em processos que permeiam tais relações, favorecendo uma qualidade nas interações estabelecidas cotidianamente.

Vivemos hoje em uma sociedade que se modifica constantemente. O mundo na contemporaneidade, com os avanços tecnológicos, apresenta diariamente novas formas de comunicação. As crianças rotineiramente se deparam com diversas situações que exigem delas aprendizagens de novos conhecimentos para que possam responder de maneira satisfatória a essas demandas.

Para aqueles que trabalham com o público infantil é necessário levar em consideração que a criança é um ser em célere desenvolvimento (CORDULA, 1995). Nesse sentido, a infância tem sido apontada como um período importante para o desenvolvimento das habilidades sociais. Bussab (1999), trazido por Bandeira et al (2006), parte do princípio de que se a criança for adequadamente estimulada, ela terá maiores probabilidades de desenvolver interações sociais mais satisfatórias e conseqüentemente reforçadoras. Mesmo que o desenvolvimento da comunicação interpessoal do indivíduo tenha início desde o nascimento, esta se torna mais elaborada nas diversas etapas existentes ao longo da vida. A cultura, sendo aqui entendida como um conjunto de práticas permeadas por pensamentos e crenças que norteiam as relações sociais de uma determinada localidade, é um dos principais influenciadores para os padrões de relacionamentos, pois definem as classes de comportamentos que tendem a ser valorizados ou reprovados para diferentes tipos de situações. Os valores funcionam como componentes reforçadores ou punitivos para a construção do repertório comportamental da criança. Além de aprender um conjunto de habilidades sociais para atender as diferentes demandas das situações sociais, a criança necessita articular fatores pessoais, situacionais e culturais para apresentar um desempenho socialmente competente. (DEL PRETTE E DEL PRETTE, 2005)

Para esses autores acima citados, nas últimas décadas, vem existindo variadas tentativas de identificar e arrolar o conjunto das habilidades que podem ser consideradas como prioritárias para um desempenho socialmente competente da criança em sua relação com colegas e adultos. Levando em consideração as demandas interpessoais mais freqüentes encontradas na infância, propõe-se um sistema de sete classes de habilidades sociais entendidas como essenciais para o desenvolvimento interpessoal da criança. Essas classes comportam certa sobreposição em seus componentes, bem como uma relação complementar entre si. São elas:

  • Autocontrole e expressividade emocional: reconhecer e nomear as emoções, controlar a ansiedade, falar sobre emoções, tolerar frustrações, expressar sentimentos positivos e negativos;
  • Civilidade: cumprimentar pessoas, despedir-se, usar lacunas como por favor, obrigado,desculpe e com licença, fazer e aceitar elogios, seguir regras, fazer perguntas, chamar o outro pelo nome;
  • Empatia: observar, prestar atenção, ouvir e demonstrar interesse, inferir sentimentos, demonstrar respeito às diferenças, expressar compreensão, oferecer ajuda e compartilhar;
  • Assertividade: expressar sentimentos negativos (raiva e desagrado), falar sobre as próprias qualidades e defeitos, concordar ou discordar de opiniões, fazer e recusar pedidos, lidar com críticas e gozações, pedir mudança de comportamento, negociar interesses e defender os próprios direitos;
  • Fazer amizades: fazer perguntas pessoais, sugerir atividades, apresentar-se, elogiar, oferecer ajuda, cooperar, iniciar e manter conversação;
  •  Solução de problemas interpessoais: acalmar-se diante de uma situação problema, pensar antes de tomar decisões, reconhecer e nomear diferentes tipos de problemas, avaliar possíveis alternativas de solução e o  processo de tomada de decisão;
  • Habilidades sociais acadêmicas: seguir instruções orais, prestar atenção, aguardar a vez, oferecer, solicitar e agradecer ajudas, cooperar e participar de discussões.

A aprendizagem de habilidades sociais se dá continuamente durante toda vida, permitindo assim que possíveis déficits sejam superados. Fatores constitucionais inatos como temperamento e capacidade sensorial influenciam as interações iniciais da criança, porém é inquestionável o papel das experiências de aprendizagem, planejadas ou não, na determinação do estilo interpessoal que a criança pode vir a desenvolver. A força e coerência dessas aprendizagens dependem das condições que as crianças encontram nos ambientes dos quais participam, o que influi diretamente sobre a qualidade de suas relações interpessoais subseqüentes (DEL PRETTE E DEL PRETTE, 2005).

A magnitude das interações sociais e sua relação com a aprendizagem e desenvolvimento vêm sendo já há muito tempo reconhecidas, podendo-se desta maneira evidenciar que a qualidade das relações as quais a criança é exposta e participa, norteiam as diferentes realidades por elas compreendidas, tendo como resultado final, a construção de diferentes indivíduos, possuidores de conteúdos pessoais, como modo de agir, pensar e sentir diferenciado (CAMPOS, DEL PRETTE E DEL PRETTE, 2000).

É possível compreender que, além dos aspectos como idade, sexo e cultura na aprendizagem e atuação das habilidades sociais na infância, a família e a escola podem ser considerados como grupos que atuam na aquisição e manutenção de um repertório socialmente habilidoso da criança. Ambos os contextos são exemplos de “palcos” onde as relações interpessoais e consequentemente a manifestação das habilidades sociais podem acontecer. É importante que nesses cenários não ocorram privações nem censuras a algumas formas de expressão dessa arte, pois este fenômeno pode ocorrer de maneiras distintas. Cada ser humano com suas limitações apresenta variadas formas de expressão. Crianças com alguma dificuldade nas suas interações sociais, como crianças autistas, por exemplo, necessitam ter espaços propiciadores, motivadores e reforçadores para a construção de um repertório comportamental socialmente habilidoso.

3. Autismo

Através do aperfeiçoamento teórico e técnico no campo da psicologia e psiquiatria infantil, tornou-se possível o conhecimento de alguns quadros psicopatológicos presentes no período de desenvolvimento infantil que por muito tempo podem ter ficado encobertos. Alguns personagens presentes no mundo infantil, como pais e professores também estão cada vez mais atentos a manifestações sintomáticas que possam indicar alterações no desenvolvimento saudável das crianças. Como exemplo disso, podemos citar o autismo. Atualmente esses aspectos são mais visíveis, permitindo diagnósticos mais precoces e programas de intervenção cada vez mais específicos.

A expressão “autismo” foi utilizada pela primeira vez por Breuler em 1911, para designar a perda do contato com a realidade. Em 1942, Kanner descreveu sob o nome distúrbios autísticos do contato afetivo um quadro caracterizado por autismo extremo, obsessividade, estereotipas e ecolalia. Essa combinação de sintomas foi por ele visualizada como uma doença especifica relacionada a fenômenos da linha esquizofrênica. Em 1956, Kanner continua descrevendo o autismo como uma psicose, argumentando que todos os exames clínicos e laboratoriais foram incapazes de fornecer dados consistentes no que se relacionava a sua etiologia, diferentemente dos quadros de déficits sensoriais (ASSUUMPÇAO e PIMENTEL, 2000).

O diagnóstico e subclassificações do autismo estiveram sob o amplo rótulo de esquizofrenia infantil por muitas décadas. Segundo Rutter (1985), citado por Bosa e Callias (2000), já nos anos 70, havia um reconhecimento da necessidade de distinguir as severas desordens mentais surgidas na infância e as psicoses cujo aparecimento se fazia mais tarde. Até 1980 o autismo não era considerado como uma doença separada da esquizofrenia. Só em 1987 foram instituídos critérios diagnósticos com uma perspectiva de desenvolvimento. Atualmente o autismo é entendido como um transtorno global do desenvolvimento caracterizado por uma incapacidade qualitativa na integração social, na comunicação verbal e não verbal, com repertório de atividades e interesses acentuadamente restritos e com início antes dos 3 anos de idade (ASSUMPÇÃO et al, 1999).

A manifestação dos sintomas presentes nas áreas da integração social, comunicação e no repertório de atividades das crianças autistas podem se apresentar com intensidades diferentes e em contextos variados, bem como algumas características sintomáticas podem simplesmente não estar presentes (BOSA, 2002). Nesse sentido, torna-se pertinente elucidar a maneira como alguns sintomas podem se apresentar.

3.1. Descrição da Sintomatologia do Autismo

De acordo com as idéias de Leboyer (1995), será descrito a tétrade sintomática do autismo (isolamento, distúrbios das comunicações, imutabilidade e idade de surgimento). Embora existam teorias que defendem alguns sintomas como primários e secundários no quadro autista, nesse momento de descrição sintomática não se pretende explanar sobreposições com relação à manifestação de alguns sintomas, mas apenas descrevê-los:

O isolamento autístico: caracteriza-se pela incapacidade muito acentuada de desenvolver relações interpessoais, caracterizando-se pela falta de reação aos outros e interesse por eles, não apresentando comportamento de apego adequado. Esses aspectos das relações interpessoais podem estar contextualizados da seguinte maneira: ausência de uma atitude antecipatória, ausência de contato social e de respostas através de sorrisos e mímicas. Por muitas vezes mostra-se indiferente aos outros, ignorando a afeição e ao contato físico. As características peculiares do apego podem caracterizar-se como a não distinção entre os pais e outros adultos, outros possíveis cuidadores podem ser tratados com indiferença, não procuram ser acariciadas e não esperam ser reconfordadas, por vezes se interessam por uma parte especifica do corpo das pessoas, como a mão ou um detalhe do vestuário.

Distúrbios na comunicação: A linguagem em crianças autistas pode esta total ou parcialmente prejudicada. Quando desenvolvida, muitas vezes assume formas de ecolalia, repetição de frases estereotipadas, uma inversão pronominal e uma afasia nominal, além de não possuir um objetivo explicito de comunicação. É possível também observar peculiaridades com relação a aspectos como volume, qualidade da voz, ritmo e entonação, muitas vezes produzindo uma linguagem sem expressividade. A comunicação não verbal também pode apresentar-se de maneira limitada.

Necessidade de imutabilidade: este elemento do espectro autista pode está presente através de alguns comportamentos como: uma resistência a mudanças no ambiente, como o deslocamento de um móvel ou a mudança na rotina cotidiana. Mínimas alterações podem provocar reações explosivas. Suas brincadeiras costumam ser mecânicas, repetitivas e desprovidas de imaginação podem, por exemplo, ficar alinhando botões e carrinhos por um longo tempo, como também acender e apagar luzes de maneira repetida. Os autistas são geralmente apegados a um objeto particular que não são utilizados por sua função ou seu valor simbólico, podem, por exemplo, usá-los para cheirar ou ficar rolando no chão de maneira seqüenciada. São fascinados por objetos em movimento, em particular por aqueles que giram, como: ventiladores ou pêndulos. Entre autistas com expressões verbais alguns possuem preocupações inabituais. Fazem perguntas de maneira estereotipada com relação a datas históricas, horários, cores e nomes e costumam sempre esperar respostas idênticas. De maneira geral os autistas apresentam movimentos estereotipados como girar as mãos e bater uma na outra que podem se repetir em um momento específico do dia.

Idade de surgimento dos sintomas: a idade de início faz parte integrante dos critérios diagnósticos do autismo, de qualquer forma é sempre difícil situar com precisão a idade exata de surgimento do autismo. Freqüentemente os pais percebem os distúrbios no momento em que tomam consciência de que seu filho não atingiu um determinado estagio de desenvolvimento, como a aquisição da linguagem e a socialização. Só a reconstituição precisa dos primeiros anos de vida pode revelar quais os sintomas estavam presentes mais cedo.

O progresso das pesquisas na área da psicologia, psiquiatria e educação enfocando o autismo, possibilitou certo grau de popularização dos sintomas autistas. Os meios de comunicação por vezes abordam a problemática do autismo, contribuindo para que as pessoas de uma forma geral tenham acesso a informações referentes a esse transtorno global do desenvolvimento.

Torna-se necessário afirmar que o diagnóstico de autismo deve ser formulado por uma equipe interdisciplinar. Nesse sentido Gadia, Tuchman e Rotta (2004) dizem que o diagnóstico de autismo requer uma apreciação clínica cuidadosa, como avaliações neuropsicológicas e da linguagem, bem como exames complementares. Além desses aspectos de avaliação, existem na literatura médica, manuais que demonstram parâmetros para diagnósticos tanto para o autismo como para outros transtornos.

Na ausência de um determinante biológico, o diagnóstico de autismo e a delimitação dos seus limites permanecem uma decisão clinica um tanto arbitrária. Se forem utilizados os critérios aceitos na atualidade para definir o autismo, esse não é um distúrbio raro. A prevalência do autismo tem variado de 40 a 130 por 100.000, ocupando o terceiro lugar entre os distúrbios do desenvolvimento, na frente das malformações congênitas e da síndrome de Down. A prevalência é quatro vezes maior em meninos do que em meninas. As meninas tendem a ser mais severamente afetadas. Este fato pode ser em decorrência das meninas com autismo apresentarem QI mais baixo que os meninos (BOSA e CALLIAS, 2000, GADIA, TUCHMAN e ROTTA, 2004).

Ainda não existe no campo da ciência psicológica um determinismo com relação aos fatores etiológicos do autismo. Em decorrência dos mistérios que fazem parte da essência deste quadro de funcionamento infantil, seria até certo ponto reducionista elucidar sobre um único prisma etiológico. A esse respeito Leboyer (1995, p. 67, 68), diz: “[...] é possível conceber o autismo como a conseqüência de um mecanismo patológico único, por tanto de uma etiologia especifica? Na verdade, a literatura esta cheia de hipóteses etiológicas e doenças associadas extremamente variadas [...]”.

Mesmo reconhecendo-se a multideterrminação dos transtornos psicológicos, é coerente pensar no investimento teórico, técnico e financeiro em programas que trabalhem com crianças autistas. Como exemplo desses programas, podemos citar o Treinamento em Habilidades Sociais (THS), que pode atuar de maneira preventiva integrando-se à escola e à família, como também através de intervenções clinicas, visando a superação de dificuldades interpessoais e os problemas a elas associados.

4. Treinamento em Habilidades Sociais (THS)

As habilidades sociais apresentam-se como pilares estruturantes da comunicação eficazes entre as pessoas, sendo assim sua inadequação podem provocar inúmeras dificuldades em diferentes áreas do funcionamento do indivíduo. Tal inadequação pode ser considerada um fator que predispõe os indivíduos a desenvolverem uma categoria de transtornos psicológicos. Atualmente existe certo acordo, no sentido de que boa parte dos transtornos psicológicos ou psiquiátricos possui um significativo componente de problemas de comunicação e relações interpessoais (CABALLO E IRURTIA, 2004).

Os autores acima citados dizem que, desde o seu início na Inglaterra na década de 70, a partir dos estudos e das publicações realizadas por Argyle, da Universidade de Oxford até os dias de hoje, o THS vem sendo empregado no tratamento de problemas relacionados à inadequação social, e atualmente é uma das melhores opções para o clínico na hora de abordar uma variedade de problemas, como: fobia social, transtornos de personalidade, ansiedade social e solidão.

Constituindo-se o THS uma ferramenta utilizada para o tratamento de problemas psicológicos, vem sendo empregada de maneira cada vez mais freqüente para a melhoria da efetividade interpessoal, como também na contribuição para uma melhor qualidade de vida. Desde o seu início, quando recebeu significativas contribuições do treinamento assertivo elaborado por Wolpe, as esferas de atuação desse movimento estenderam-se de maneira tão promissora, que hoje é considerado uma das estratégias de intervenção mais amplamente utilizadas dentro do campo dos serviços de saúde mental (ABATE E MILAN, 1985 apud CABALLO, 2003).

O THS pode ser definido como uma tentativa direta e sistemática de ensinar estratégias e habilidades interpessoais aos indivíduos, com a intenção de melhorar sua competência interpessoal individual em tipos específicos de situações sociais. O THS se adere a um enfoque comportamental de aquisição da resposta, ou seja, concentra-se na aprendizagem de um novo repertório de respostas (CABALLO, 1996, 2003; DEL PRETTE E DEL PRETTE, 1999, 2005).

Em termos técnicos, o THS compreende duas etapas que não necessariamente ocorrem de maneira separada. As etapas são: avaliação e intervenção. A avaliação tem como objetivo a identificação de déficits e excessos comportamentais, seus antecedentes e conseqüentes, respostas emocionais que possam estar interferindo na expressão de comportamentos socialmente habilidosos. Algumas das técnicas que podem ser utilizadas no processo de avaliação são: entrevistas, inventários, auto-registros, observação direta do comportamento e avaliação por outros significantes (DEL PRETTE E DEL PRETTE, 1999; COSTA, 1997).

De acordo com Cecconello e Koller (2000) citados por Murta (2005), o reconhecimento das habilidades sociais como um fator de proteção no curso do desenvolvimento humano, tem estimulado intervenções para a aprendizagem dessas habilidades através do THS. Essas intervenções podem estar delineadas em três tipos de modalidade, que segundo esses autores podem estar definidas da seguinte maneira: Intervenções em prevenção primária, Intervenções em prevenção secundária e Intervenções em prevenção terciária.

Tendo em vista as possibilidades de intervenção aqui expostas, é possível considerar que o treinamento em habilidades sociais é uma ferramenta valiosa em diversos níveis de atuação em saúde, sendo útil para minimizar fatores de risco e incrementar fatores de proteção ao desenvolvimento humano, tratar problemas já instalados passíveis de remissão, como também reduzir o impacto de déficits graves em habilidades sociais em pessoas portadoras de condições psicopatológicas crônicas (MURTA, 2005).

4.1. Treinamento em Habilidades Sociais com Crianças Autistas

O déficit nas relações interpessoais apresentadas por crianças autistas fazem parte da sintomatologia do transtorno, sendo inclusive um dos critérios diagnósticos. Nesse sentido, a intervenção com essas crianças através do THS caracteriza-se como uma intervenção de ordem terciária. Este tipo de intervenção almeja minimizar conseqüências de déficits acentuados em habilidades sociais, sem ter a pretensão de cura. Murta (2005), diz que crianças com deficiência mental e autismo costumam ser uma população alvo para este tipo de intervenção, haja vista ser comum neste grupo de crianças comprometimentos graves em habilidades sociais.

Mesmo que as crianças autistas apresentem uma condição patológica crônica, os programas de intervenção precoce podem produzir ganhos significativos e mesmo duradouros. De fato, é razoavelmente coerente pensar que crianças com autismo apresentem progressos distintos de crianças não autistas, entretanto, é sabido que serviços como o THS podem mudar o prognóstico de crianças autistas (GADIA, TUCHMAN E ROTTA, 2004).

O treinamento em habilidades sociais, sendo uma intervenção fundamentada no modelo psicoterápico cognitivo-comportamental, utiliza em seus procedimentos técnicas oriundas desse modelo. De maneira geral, as técnicas não são utilizadas aleatoriamente, devendo ser escolhidas após um processo avaliativo e costumam ser empregadas dependendo dos déficits e da maturidade cognitiva apresentada pela criança.

A partir das idéias de Caballo (2003, 1996) e Del Prette e Del Prette (1999), serão descritas algumas técnicas que podem ser utilizadas no THS com crianças autistas:

Ensaio comportamental: esta é uma técnica freqüentemente empregada no THS. O objetivo a ser alcançado consiste em apreender novas formas de se comportar diante de situações sociais. Através de instrumentos lúdicos, o terapeuta pode tentar ensaiar com a criança maneiras de comunicação, que podem ser verbais ou não verbais. Aspectos como postura e contato visual também podem ser ensaiados. Em algum momento do processo, ao pretender-se a instalação de uma classe de resposta, dentro das várias existentes no repertório de habilidades sociais infantis, pode-se começar por componentes menores, para que assim possa se atingir a aprendizagem do comportamento como um todo. Por exemplo: crianças autistas que possuem o instrumento da linguagem falada, mas que não conseguem manter conversação em um tom de voz satisfatório, o ensaio comportamental pode começar com o componente tom de voz. A grande vantagem desta técnica é que ela pode ser utilizada em outros contextos, além do clínico.

Modelação: esta técnica é derivada dos estudos de Bandura (1977, 1979) sobre aprendizagem através da observação. Esta técnica consiste em promover situações onde a criança possa observar alguém desempenhando comportamentos a serem aprendidos. Assim como no ensaio comportamental, no processo de modelação pode ser feita a representação de todo o comportamento ou simplesmente apenas uma parte que componha o comportamento alvo. Em geral a modelação é mais eficaz quando o modelo a ser “copiado” é da mesma idade e do mesmo sexo da criança. Nesse sentido, com crianças autistas, é possível a participação de outro modelo que não seja o próprio terapeuta. Diante de uma perspectiva lúdica, bonecos e fantoches também podem servir como modelos. É necessário que o comportamento emitido pelo modelo se apresente de maneira coerente com as capacidades apresentadas pela criança. A modelação tem a vantagem de ilustrar os componentes verbais e não verbais presentes no processo de comunicação, os quais são tão precários em crianças autistas.

Reforçamento: o reforço pode ser entendido como a conseqüência que se apresenta depois da emissão de um dado comportamento e que possui o poder de aumentar sua freqüência. O reforçamento está presente ao longo de todas as sessões do THS e serve tanto para adquirir novos comportamentos, recompensando aproximações sucessivas, como também para aumentar comportamentos habilidosos presentes no repertório comportamental da criança. O reforço pode assumir a forma verbal, ocorrendo através de elogios, com pode ter um componente também não verbal, como sorrisos e aplausos.

Tarefas para casa: as tarefas para casa são uma parte essencial do THS, pois, o que acontece na vida real proporciona subsídios que servirá como ferramenta para intervenções clinicamente planejadas. Com crianças autistas, essas tarefas podem estar destinadas ao registro do desempenho dessas crianças em situações que exijam uma relação interpessoal. Estes registros podem ser feitos pelos adultos que participam do dia-a-dia da criança. As tarefas de casa constituem o veículo através do qual as habilidades aprendidas nas sessões de treinamento possam ser praticadas em ambientes naturais. À medida que o treinamento for progredindo, é importante que cada tarefa tenha o seu grau de dificuldade aumentado.

Para Tamanaha, Perissinoto e Chiari (2008), aliado a todo o processo técnico empregado, é importante que os cuidadores da criança com autismo estejam atentos às manifestações de comunicação expressadas por elas. É fundamental que contextos comunicativos onde a criança possa ter participação efetiva sejam proporcionados. Durante todo o programa de treinamento são essenciais orientações precisas com relação ao manejo dessas crianças em outros contextos.

Ao optar pelo treinamento em habilidades sociais (THS) como ferramenta de intervenção com crianças autistas, é importante compreender que os ganhos a serem alcançados podem manifestar-se de maneiras distintas em cada criança. O impacto da intervenção está diretamente ligado a fatores como idade, grau de déficit cognitivo, presença ou não de linguagem, como também da gravidade dos sintomas apresentados pela criança. É necessário ter consciência de que a maioria das crianças autistas não apresenta déficits em todas as áreas de desenvolvimento, e que muitas possuem um ou mais comportamentos disfuncionais por breves períodos de tempo ou mesmo em situações especificas. Além disso, aspectos como funcionamento familiar e apoio social devem ser devidamente considerados. O conhecimento do profissional sobre autismo e sua habilidade em trabalhar com equipes multiprofissionais e família apresentam significativa correlação com o sucesso da intervenção (BOSA, 2006).

5.  Considerações Finais

As habilidades sociais são processos inerentes na construção da comunicação eficaz entre as pessoas. Tendo em vista que o homem é um ser social por natureza, e que necessita está em constante interação para construir uma vida em sociedade saudável, as habilidades sociais ocupam um lugar significativo na promoção de saúde.

Sabendo que a infância é um período crítico para o desenvolvimento de habilidades sociais, é coerente pensar em processos interventivos que promovam a aquisição de tais habilidades. Crianças que possuem algum transtorno no curso do seu desenvolvimento, apresentando como sintoma proeminente uma dificuldade acentuada nas interações sociais, como as crianças autistas, também necessitam de programas que visem à aquisição de maneiras mais adaptativas de comunicação.

Embora o autismo seja considerado um transtorno de muitas faces e questões ainda sem respostas. Estratégias de intervenção como o treinamento em habilidades sociais tem sido apontada como uma possibilidade de tratamento com essas crianças. Esse tipo de intervenção não objetiva a cura, pois, até o presente momento o autismo é considerado um quadro patológico crônico.

Escrever sobre o autismo tem sido historicamente, um desafio para todos os profissionais que trabalham com a demanda infantil. Poucas patologias infantis suscitaram tanto interesse e controvérsias. É um grande desafio pensar em possibilidades de intervenção que visem à aquisição de comportamentos sociais com crianças autistas, em decorrência dos seus padrões comportamentais rígidos, acompanhados muitas vezes de uma baixa comunicação verbal. Entretanto, é pertinente termos em mente, que crianças são seres em célere desenvolvimento, e que possuem imensas possibilidades de construção.

É necessário que possamos entender que crianças autistas demonstram maneiras de comunicação diferentes da maioria das pessoas, mais que esse instrumento não esta ausente. Nós, ditos normais, precisamos perceber que outras formas de comunicação e afeto podem existir.

Com um coerente embasamento técnico e teórico, juntamente com expressiva habilidade em trabalhar com equipes interdisciplinares, o trabalho com crianças autistas através do treinamento em habilidades sociais, pode proporcionar ganhos satisfatórios.

Levando em consideração a urgência de elaborações cientificas, enfocando o treinamento em habilidades sociais com crianças autistas, o número de material disponível na literatura, como livros, artigos e periódicos ainda é insuficiente. É necessário que profissionais que trabalhem com esse público, se unam com o objetivo de compreender cada vez mais as peculiaridades desses seres sociais, e só assim, produzir ferramentas de intervenção cada vez mais eficazes.

Sobre o Autor:

Jefferson Pontes Cristo de Albuquerque - Psicólogo com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental, Especialista em Saúde Mental, Psicólogo do CAPS do Município de Itambé-PE, Ministrante da disciplina de Psicologia aplicada a Saúde na Faculdade Paulista de Tecnologia. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

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