Intervenções Clínicas: Experiência de Estágio na Clínica de Psicologia

Intervenções Clínicas: Experiência de Estágio na Clínica de Psicologia
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A experiência na Clínica de Psicologia é muito singular para cada estagiário-terapeuta, mas existem questões que mobilizam a maioria de nós em relação à técnica orientada pela teoria psicanalítica. Durante nossas discussões levantou-se inúmeros questionamentos acerca da intervenção do psicólogo no tratamento do paciente: o que se busca com ela? Quando realizar? É preciso planejar? E quando não dá certo? Essas questões logo no início irão se mostrar sem resposta, pois caso houvesse resposta, esta indicaria uma condição de engessamento no trabalho terapêutico. Esse artigo surge como uma tentativa de esclarecer e discutir esses aspectos de nossa prática.

Trabalhamos com a idéia de que no período de um ano, duração da Ênfase Clínica, só é possível instalar uma demanda no paciente. Quando alguém procura atendimento clínico chega como indivíduo e não como sujeito, trazendo uma queixa. A queixa diz de uma não implicação do paciente com seu sofrimento, ocupando uma posição objetal em relação ao seu próprio discurso. Desse modo:

“Esse sujeito pode se apresentar ao analista para se queixar de seu sintoma e até pedir para dele se desvencilhar, mas isso não basta. É preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo” (Quinet, 2009).

Para que seja possível que o paciente se aproprie do que fala é necessário que o terapeuta não ocupe o lugar de outro semelhante, ou seja, não tampone a falta. A tendência na fala comum é procurar um outro semelhante, à medida em que nós estagiários-terapeutas não respondemos desse lugar, fazemos com o que o paciente também saia dessa posição (CALLIGARIS, 1989).

A intervenção diz de uma interrupção, um corte, um modo de não fazer um tamponamento ao paciente, de não ser um outro semelhante. Erik Porge, citando Lacan, diz “em nenhum caso uma intervenção analítica deve ser teórica, sugestiva, ou seja, imperativa (...). A interpretação analítica não é feita para ser compreendida; ela é feita para produzir ondas” (LACAN, 1976, apud PORGE, 2013). Não podemos pensar na intervenção como algo intuitivo, mas algo que deve ser construído a partir da escuta. Por isso, é preciso ter cuidado para não interpretar de forma antecipada, já que alguns significantes irão ganhar ou modificar seu sentido no decorrer do tratamento.

Na clínica fazemos as intervenções em cima de alguns significantes, os quais permitem que o sujeito se reconheça no que fala, isso consiste na pontuação. Existem outras duas formas de intervenção, a escansão e a interpretação, mas inicialmente utilizamos a pontuação – uma intervenção mínima.

A pontuação não é própria da psicanálise, ela é natural. Pois, quando conversamos em nosso cotidiano também utilizamos dela para demonstrar que estamos escutando. No atendimento clínico usamos essa intervenção para apontar os significantes que se repetem na fala do paciente para que ele se reconheça naquilo que diz. Desse modo:

“A pontuação é esta intervenção mínima do analista, que pode consistir numa confirmação ou na emissão de algum ruído. Ela chama a atenção do analisando para um de seus dizeres e provoca, assim, um “efeito sujeito”: graças a ela, o paciente se questiona sobre o que acabou de enunciar e pressente aí um saber desconhecido” (Pommier, 1990).

As intervenções do terapeuta, como não ocupar uma posição de outro semelhante e as pontuações, fazem com que o paciente produza formações do inconsciente, ou seja, provocam um efeito sujeito. Segundo Pommier, “trata-se, em suma, de injetar um sujeito no lugar que, como bom sujeito do inconsciente, ele já estava (...)” (1998). Esse efeito discursivo possibilita que o paciente aproprie-se do que diz, vindo a reconhecer a própria responsabilidade em seu sofrimento.

As intervenções do terapeuta, como não ocupar uma posição de outro semelhante e as pontuações, fazem com que o paciente produza formações do inconsciente, ou seja, provocam um efeito sujeito. Segundo Pommier, “trata-se, em suma, de injetar um sujeito no lugar que, como bom sujeito do inconsciente, ele já estava (...)” (1998). Esse efeito discursivo possibilita que o paciente aproprie-se do que diz, vindo a reconhecer a própria responsabilidade em seu sofrimento.

O “efeito sujeito” possibilita a transferência, na medida em que o paciente passa a questionar-se acerca de seu sintoma e, então, supor que o terapeuta possui um saber sobre ele. Inicialmente o paciente está envolto no discurso do Outro, é preciso que a palavra passe pelo Outro e retorne a ele, para que o mesmo possa se reconhecer, o que permite uma apropriação daquilo que se queixa. É a partir disso que o paciente sai do lugar de indivíduo e passa ao de sujeito, incluindo-se em seu próprio discurso.

Como exemplo citamos um recorte clínico no qual a paciente se dirige à estagiária-terapeuta da seguinte maneira: “Mesmo que tu não fale nada o teu olhar parece que pede, que solicita que eu fale tudo. É assim que é, né?”. A isso a estagiária-terapeuta estagiária responde: “É assim que você pensa?”, fazendo com que a paciente se dê conta da sua produção imaginária, dizendo “É eu que estou criando isso?”. Neste sentido:

“Agora, o mínimo esperado de uma situação analítica, é que ela não seja a proposta de uma tampa para o discurso do paciente. A partir disso, o enunciado do paciente está exposto a efeitos. Mas, mais do que isso, a partir disso verifica-se uma separação entre o enunciado e o saber suposto do qual este enunciado pode esperar alguma significação, a qual significação é um efeito de sujeito produzido pela e na rede do saber” (Calligaris, 1989).

Ainda que o efeito sujeito auxilie no processo de instauração da demanda e da transferência, dar-se conta do sujeito do inconsciente não é suficiente para que se decifre o sintoma. O sintoma contém um saber, uma mensagem, que precisa ser decifrada, nunca interpretada, para isso necessitando das associações livres. Essas não se dão de forma linear, isso faz com que o efeito sujeito encontre um limite, pois a pontuação constata uma formação inconsciente, porém não dá conta de decifrar ou inscrever uma ressignificação do sintoma.

“A escrita do sintoma não seria modificada por sua reflexividade unicamente, e de uma inteiramente outra operação vai depender o trabalho de reescrita que especifica propriamente o efeito terapêutico da análise. O “efeito sujeito”, graças ao qual aquele que fala se dá conta de que disse o que acaba de dizer (enquanto que o faria sem pensar nisso, maquinalmente), difere desse efeito terapêutico, segundo o qual uma formação do inconsciente que aparece no discurso desloca e reescreve uma outra, penosa de suportar na medida em que se escreve no corpo” (POMMIER, 1998).

A terapia não pode estagnar no efeito sujeito, precisa ir além, porém tal efeito se mostra importante na medida em que contribui para alcançar um efeito terapêutico. Esse é o objetivo da terapia, na medida em que ressignificar o sintoma possibilita que o sujeito se reposicione no discurso, se apropriando de um saber sobre o seu sofrimento.

Referências:

CALLIGARIS, Contardo. Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. (p. 30 a 33).

POMMIER, Gérard. O amor ao avesso: ensaio sobre a transferência em psicanálise. Tradução: Sandra Regina Felgueiras. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1998. 480 p.

______.O desenlace de uma análise. Rio de Janeiro: Zahar ,1990.

PORGE, Erik. O inapanhável objeto do savoir-faire na análise. Estud. psicanal.,  Belo Horizonte ,  n. 40, p. 49-61, dez.  2013 .   Disponível em . acessos em  05  out.  2016.

QUINET, Antônio. As 4+1 Condições de Análise. Rio de Janeiro: Zahar,2009.> 

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