O Ajustamento Criativo Infantil em Crianças Educadas por Avós

O Ajustamento Criativo Infantil em Crianças Educadas por Avós
(Tempo de leitura: 14 - 27 minutos)

Resumo: O presente trabalho apresenta um estudo que tem o objetivo de investigar como se ajusta criativamente a criança que é educada pelos avós, como a mesma vivencia essa experiência e como se inter-relaciona no mundo. Para isto foi feita uma análise exploratória para obter mais informações sobre o tema e foi constatado que se a relação for cuidadosa e amorosa a criança pode se ajustar de forma saudável, se for ao contrário, não houver aceitação da nova relação a mesma pode realizar ajustamentos criativos disfuncionais que podem gerar conflitos e sofrimentos para todos os membros.

Palavras-Chave: Criança, desenvolvimento, ajustamento criativo, família, papéis familiares, relação intergeracional.

1. Introdução

O presente trabalho tem como objetivo principal entender como se dá o ajustamento criativo em crianças criadas pelos avós e como a mesma funciona nesta relação. Nos dias atuais tem se encontrado diferentes modelos de família, e dentro destes modelos convivem os avós e netos, às vezes junto com os pais ou não.

Para a maior compreensão destas vivências este estudo propôs-se a definir com alguns conceitos da Gestalt-terapia, dentro de seu aporte teórico, o funcionamento da criança nesta nova configuração familiar

Segundo Aguiar (2005), para a construção de um forte eu da criança, a mesma tem que se desenvolver e funcionar de forma saudável. E o primeiro contexto para que este desenvolvimento ocorra é o familiar, pois é nele que a criança vivencia os primeiros vínculos mais significativos.

De acordo com a Gestalt-terapia, a família é vista como uma totalidade composta por diferentes elementos que interagem de forma constante se afetando na busca do melhor equilíbrio possível, ou seja, a autorregulação (AGUIAR, 2005).

Para que o equilíbrio aconteça, o organismo tem que estar consciente de suas necessidades. E estas necessidades vão aparecer nas interações que a criança vai fazer consigo mesma e com o meio em que vive. Pois, segundo Ribeiro, (2006) “a pessoa humana é um ser de relação, e é na relação consigo e com o outro que o ajustamento se faz”.

A metodologia utilizada para a execução deste trabalho foi um levantamento de dados em artigos e livros sobre o tema no qual foi feita uma leitura e exploração de como a criança vivencia, funciona e se ajusta nas novas relações aqui apresentadas.

Desta forma, foi realizado um estudo qualitativo que segundo Oliveira (s. d. p. 02), “é a que defende o estudo do homem como um ser ativo e que interpreta o mundo em que vive continuamente. Neste posicionamento teórico, a vida humana é vista como uma atividade interativa e interpretativa, realizada pelo contato das pessoas”.

Para a realização deste estudo foram utilizados os fundamentos da Gestalt-terapia e seus conhecimentos teóricos tais como ajustamento criativo, auto regulação organísmica, e os conceitos de inter-relações familiares, contexto familiar, papéis familiares, novos modelos de família e relação intergeracional.

No estudo do conceito de papéis familiares, foram investigadas as novas configurações familiares da sociedade atual, e o possível surgimento de conflitos e sentimentos desta nova possibilidade de modelo familiar. Esta nova situação de modelo familiar pode gerar sentimentos positivos ou negativos tanto nos avós como na criança. Para o sentimento ser positivo, a situação tem de ser aceita de forma saudável e amorosa. Se ocorrer ao contrário, podem ocorrer conflitos e sensações inadequadas que poderão gerar ajustamentos criativos disfuncionais.

Foram estudados à luz da Abordagem gestáltica o desenvolvimento da criança, suas formas de se relacionar consigo mesma e com o mundo e como a mesma se ajusta e funciona dentro destas novas relações.

2. Objetivos

2.1 Objetivo Geral

  • Investigar como uma criança que é educada por avós vivencia essa experiência e se ajusta em suas inter-relações.

2.2 Objetivos Específicos

  • Analisar o ajustamento criativo funcional em crianças criadas pelos avós.
  • Examinar o ajustamento criativo disfuncional e o funcionamento destas crianças neste contexto familiar.
  • Entender as relações e as vivências experienciadas por estas crianças nesta configuração familiar

3. Os Papéis Familiares na Atualidade

Os papéis familiares passaram por várias transformações nas últimas décadas, e estas mudanças trouxe novas formas de se inter-relacionar e se ajustar nestas novas configurações.

De acordo com alguns estudos até meados da década de 60, houve o predomínio do modelo de família tradicional, no qual os homens e mulheres possuíam papéis específicos e bem definidos de acordo com a cultura social da época (PRATA; SANTOS, 2007).

Por causa das transformações econômicas, sociais e trabalhistas da sociedade a família sofreu intensas mudanças a partir da segunda metade do século XX. Houve uma maior participação da mulher no mercado de trabalho, um aumento no número de separações e divórcio e o número de membros nas famílias diminuiu, surgindo assim novos modelos familiares (PRATA; SANTOS, 2007).

Nesta nova concepção homens e mulheres trabalham fora, dividem as tarefas domésticas e procuram conciliar a vida profissional e familiar não aparecendo mais os papéis específicos e definidos do modelo anterior.

A família é o primeiro lugar onde vivencia-se os relacionamento íntimos, as emoções e os sentimentos. É nela que os indivíduos estabelecem suas primeiras trocas emocionais e seus primeiros relacionamentos interpessoais. Assim, é dentro de um modelo familiar que os membros se ajustam e se desenvolvem para ter um funcionamento saudável em suas inter-relações.

Na atualidade percebe-se uma mudança nas configurações familiares na qual surgem novas possibilidades de relações entre os membros e o grupo familiar podendo conviver mães e filhos ou pais e filhos, pais e mães com filhos de primeiras e segundas uniões, relações essas, que podem ser consideradas menos permanentes, porém, mais igualitárias (MARIANO, 2009). Esse novo modelo traz à tona uma troca nos papéis familiares, que pode ser saudável ou não para todos os membros da nova configuração familiar.

Sob o ponto de vista da Gestalt-terapia, o papel básico da família no desenvolvimento humano é o de confirmação do indivíduo em sua especificidade, promovendo assim a sua diferenciação do outro mantendo a coesão e a unidade entre os membros. Desta forma, podemos dizer que uma família saudável é a que respeita as fronteiras de seus membros e acolhe suas diferenças (AGUIAR, 2005, p. 95).

Porém, sabemos que, às vezes não é isto que acontece. Algumas famílias não são tão coesas e não respeitam as diferenças dos membros, se tornando assim disfuncionais, fazendo com que os membros não se inter-relacionem de forma adequada e não consigam o equilíbrio em suas formas de se relacionar consigo mesmo e com o mundo.

Nas formas de interação do indivíduo com o mundo é que o processo de autorregulação irá acontecer. A autorregulação é uma necessidade do organismo de estar sempre em equilíbrio, segundo Ribeiro, 2006, p. 56 “O corpo possui uma sabedoria que a mente não tem. Ele segue sempre a lei da preferência, sem pedir licença para acontecer, mas simplesmente acontecendo, fazendo, de suas necessidades, a cada instante, a realização de sua autoregulação”.

Ribeiro (2006), também afirma que:

Auto regular-se significa respeitar a totalidade funcional do organismo, significa olhar-se e comportar-se como um todo organizado e eficiente, significa privilegiar as necessidades que gritam dentro de nós para ser saciadas ou satisfeitas, significa olhar-se como uma pessoa inteira no mundo, significa amar o corpo como a casa na qual habitamos, significa prestar atenção aos infinitos pedidos de socorro que o corpo emite e pensar que o alimento pode ser encontrado, sempre, dentro da própria pessoa, sem perder seu aspecto relacional no mundo (RIBEIRO, 2006, p. 56).

Segundo a Gestalt-terapia, a família é uma totalidade inserida em outras totalidades e composta por diferentes elementos que interagem entre si, afetando uns aos outros buscando constantemente a autorregulação, ou seja o equilíbrio. Em todos os seus momentos, a família buscará a satisfação das necessidades dos membros, obedecendo o princípio da autorregulação, realizando assim ajustamentos criativos (AGUIAR, 2005).

4. Ajustamentos Criativos Funcionais e Disfuncionais

No desenvolvimento da criança e em sua forma de se relacionar com o meio é que a mesma se ajusta criativamente podendo funcionar de forma saudável ou não nessas inter-relações consigo mesma e com seus pares.

Segundo Peruzzo, (2010), a palavra ajustamento nos remete à adaptação, mas também à integração, um arranjo de diferentes elementos em um conjunto agradável e harmonioso, com o intuito da busca do bem-estar. Junto com a característica do criativo, que se destaca como um espirito inovador, capaz de criar de forma criativa novas soluções para o seu equilíbrio.

Assim, no ajustamento saudável a criatividade é a apropriação pela criança da aptidão de se guiar pelas novas exigências do meio de forma positiva, fazendo com que a mesma tenha um equilíbrio transformador. Já os ajustamentos disfuncionais, se dão na fronteira podendo se cristalizar e assumir formas crônicas de reação frente às vivências experienciadas pela criança (D’ACRI; LIMA; ORGLER, 2007).

Portanto, ao longo do seu desenvolvimento, a criança procura satisfazer todas as suas necessidades, privilegiando o que para ela, é importante, a confirmação do outro, por exemplo, para assim se diferenciar e construir para si uma percepção de si mesma.

Neste sentido, a tarefa da família é ao mesmo tempo acolher, satisfazer e proteger os seus membros, permitindo-se também a frustração e a aceitação das diferenças para a facilitação do desenvolvimento da autonomia de cada um (AGUIAR, 2005).

Ainda segundo Aguiar (2005):

A confirmação revela-se como a função relacional mais significativa para um desenvolvimento satisfatório da criança e para o estabelecimento de formas saudáveis de relação com o mundo e consigo mesma. É papel da família prover a criança de confirmações iniciais que vão ajudá-la a construir um forte senso de eu, com autoestima elevada e uma crença em sua capacidade de lidar com suas necessidades em consonância com as necessidades do meio (AGUIAR, 2005, p.98 e 99).

Por outro lado, se para obter a confirmação do outro a criança precisa abrir mão de suas necessidades, ela então tentará negar, suprimir, distorcer ou transformar suas necessidades, realizando assim ajustamentos criativos disfuncionais e inadequados.

Concluímos então, que a origem das dificuldades está na relação estabelecida entra a criança e o meio, na busca da melhor configuração possível a cada momento e a cada contexto, surgindo daí uma série de comportamentos enrijecidos, cristalizados e estereotipados, independente do contexto que a mesma se encontre. O que vai definir como ajustamento criativo não saudável é a frequência com que o comportamento ocorre e a impossibilidade da criança em ajustar-se de forma diferente (AGUIAR, 2005).

Segundo Aguiar, (2005, p 107) “a perspectiva não saudável só se apresenta a partir do momento que tal comportamento torna-se repetitivo ou generalizado para outras situações, fazendo com que a criança se veja presa em uma única forma de responder ao mundo”.

5. Troca de Papéis Familiares

A família é mais que a soma das partes que a compõe. Como contexto primário do desenvolvimento dos membros, o ciclo de vida individual se dá dentro do ciclo de vida familiar, e isso é de suma importância para o entendimento dos problemas emocionais que podem ocorrer durante o movimento das pessoas que se juntam neste contexto (CARTER; MCGOLDRICK, 1995).

Muitas vezes, o estresse familiar é aumentado nos pontos de transição dos estágios do processo de desenvolvimento familiar, e a maioria dos sintomas aparece quando há uma ruptura ou deslocamento no ciclo de vida da família em desenvolvimento.

A família compreende todo o sistema emocional de pelo menos três ou quatro gerações em qualquer momento da vida, assim surgem muitos problemas quando as mudanças sociais do sistema não acompanham as mudanças no nível familiar e não validam e apoiam essas mudanças (CARTER; MCGOLDRICK, 1995).

Atualmente, estão aparecendo muitas evidências de que os sintomas de estresse familiar, que geralmente acontecem nos pontos de transição e mudanças do ciclo de vida, causem rompimentos neste ciclo produzindo assim sofrimento e disfunções nas formas de se relacionar dos membros no contexto familiar.

Além do estresse adquirido das gerações anteriores e da ansiedade experienciados nos avanços do ciclo de vida familiar, existem o contexto social, econômico e político e seu impacto sobre as famílias que se movimentam em meio as diferentes fases do ciclo de vida em cada momento da história (CARTER; MCGOLDRICK, 1995).

A mudança do papel feminino é a principal diferença nos padrões do ciclo de vida familiar. Antes sua função primordial era de mãe e esposa, suas fases de vida estavam diretamente ligadas às atividades do lar e a criação dos filhos. Hoje, essas mesmas mulheres se desdobram no cuidado da casa, na criação dos filhos e na jornada de trabalho fora de casa (CARTER; MCGOLDRICK, 1995).

Muitas delas sofrem com essa dupla jornada de trabalho, e vivem um dilema quanto a essas escolhas, dilema este que pode gerar uma sensação de insatisfação, ansiedade e sofrimento que podem tornar o relacionamento interpessoal dos membros da família disfuncional e inadequado.

Na sociedade atual, tem se percebido uma mudança nos papéis familiares no que diz respeito aos avós, tem se evidenciado a participação dos mesmos como cuidadores dos netos de forma parcial e até mesmo integral.

Alguns fatores têm ocorrido para o aumento de crianças cuidadas pelos avós, tais como a longevidade dos mesmos, a inserção cada vez maior da mulher no mercado de trabalho, desemprego dos pais, divórcio do casal, o retorno para a casa dos pais trazendo os netos, gravidez precoce, morte dos pais, dependência química, problemas judiciais e etc (ARAÚJO; DIAS, 2010).

A vida familiar na atualidade está inserida num mundo complexo de profundas e rápidas transformações, situação essa em que a relação avós e netos mudou significativamente, e assim os avós ocupam, no seio da família, um lugar importante como parceiro dos pais, não só no apoio da criação dos netos, como na construção da identidade de todos os membros da família (PIRES, 2010).

Segundo Carter e McGoldrick, (1995, p. 213) “tornar-se avô(ó) faz lembrar a realidade finita da própria vida, assim como a possibilidade de ter de assumir um papel secundário no relacionamento tanto como o(a) filho(a) quanto com o(a) neto(a)”.

O modo de ser avó e viver esse período da vida vem se transformando no decorrer do tempo. Com essas mudanças, as formas de relações intergeracionais passaram a assumir características mais amplas, muito mais por falta de opção do que por escolha (ALVES, 2013).

De acordo com Pires, (2010) “é entre as várias gerações que se assegura a transmissão de padrões e valores educativos. Neste contexto, os netos podem aprender com a experiência dos avós que, por sua vez, podem transmitir-lhes os valores, princípios, comportamentos e atitudes perante a vida e a família”.

Observando pelo olhar das crianças, algumas pesquisas mostram que a relação com os avós é vista como positiva no que diz respeito à disciplina e acompanhamento escolar. Quando se fala do cuidado dado pelos avós, a percepção pode ser positiva ou negativa (PIRES, 2010).

As avós que fazem esse papel, de cuidado integral, no lugar da mãe, podem sentir uma misto de emoções variadas, que caminham desde a frustração e a obrigação até os sentimentos sobre a sua própria situação, quando pensam no que tem que renunciar para poder atender a essas novas demandas. Isto pode ser prejudicial ao relacionamento entre eles, podendo até mesmo gerar conflitos (MAINETTI; WANDERBROOCKE, 2013).

Ainda falando sobre sentimentos experimentados pelas avós, Alves (2013) afirma que:

Ao vivenciar uma situação que, muitas vezes, lhe surge como inesperada, a população mais velha adquire novo lugar na sociedade contemporânea, ou seja, a de cuidador dos netos, com tendência a reunirem as características maternas e ou paternas nesta relação. Com efeito, faz-se necessário destacar a amplitude que o vocábulo cuidado vem assumindo. É válido mencionar que o ato de cuidar passa a ser considerado inerente ao gênero feminino por motivos históricos e culturais, as quais ainda nos dias de hoje acompanham o ser mulher (ALVES, 2013, p 21).

Neste sentido, é importante a explicação que o impacto desse desafio, dos avós como cuidadores integrais, os atingem de forma considerável, já que desta nova relação surgem novas cobranças, novas obrigações que já não eram sua preocupação. Assim, para poder entender a família como um processo social, deve-se ampliar os horizontes para os novos arranjos que surgem no interior das mesmas (ALVES, 2013).

A mesma autora frisa ainda que a família é um grupo social formado por pessoas que se relacionam diariamente, produzindo uma dinâmica e complexa trama de emoções, não consistindo numa soma de indivíduo, mas num conjunto vivo e conflitante de pessoas com personalidade e individualidade próprias. E quando os avós se veem nesta situação de troca de papéis, por vezes não conseguem administrar os próprios sentimentos em relação ao neto, agora visto como filho.

Às vezes acontece que as avós não lidam de maneira saudável com seus sentimentos podendo acontecer conflitos e gerar sofrimentos em ambas as partes, da criança pelo sentimento de abandono e sensação de não pertencimento a esse novo contexto familiar, e dos avós pela imposição, sem escolha de agora, ser cuidador e provedor e não somente avós.

Hoje, se torna evidente a grande participação dos mesmos, tanto no sustento quanto no cuidado com os membros da família, devido também as melhores condições de vida financeira atual dos idosos. Portanto, nessa nova estrutura familiar, ocorrem também novos rearranjos de papéis e funções.

Importa levar em conta o fato de que tais transformações sociais enfrentadas pela categoria família contribuíram para o crescimento do número de famílias nas quais coexistem três ou quatro gerações, e, portanto, a assistência financeira do domicílio atravesse uma mobilidade social geracional. Assim sendo, os avós passam a contribuir para melhorar a condição de vida das famílias (ALVES, 2013, p. 94).

As transformações sociais pela qual a família contemporânea passa influencia na redefinição dos laços e papéis familiares, alterando assim o cotidiano das relações das mesmas, fazendo com que a figura dos avós se enfatize mais na sociedade atual.

6. Relação Intergeracional

Essa forma de se relacionar, com vínculos estabelecidos por duas ou mais pessoas em idades distintas é denominada relação intergeracional. Aqui neste contexto é a relação entre avós e netos, na qual existe a possibilidade do cruzamento de experiências nos diferentes estágios vividos pela família.

Assim, as crianças que mantém um relacionamento com membros mais velhos do contexto familiar possivelmente terão mais informações e conhecimentos, mais identidade do que aqueles que não experienciam essa relação intergeracional (CARTER; MCGOLDRICK, 1995).

Atualmente, tem crescido expressivamente a presença dos avós no contexto familiar, onde as avós além de cuidadoras dos netos assumem outras funções como acompanhamento médico e escolar, realização de desejos de consumo, o ato de educar e aconselhar, como também o carinho e a atenção (ALVES, 2013).

Percebe-se que o novo papel que os avós assumem na sociedade atual, implica aos mesmos, um sentido mais amplo da palavra cuidado, já que existem outras funções presentes nesta relação, tais como a função de educadores, transmissores de comportamentos e saberes, bem como das histórias familiares (ALVES, 2013).

Essas mudanças nos papéis podem trazer tanto para os avós quanto para os netos, sentimentos positivos ou negativos. Para os avós os sentimentos positivos podem ser senso de renovação, ter companhia e afastar o sentimento de solidão, transmissão de valores e saberes, etc. Os sentimentos negativos podem ser queda na qualidade da saúde física e emocional, sobrecarga financeira, alteração na vida familiar e social, ansiedade e estresse (CARDOSO, 2010).

Já para os netos os sentimentos positivos podem ser o estabelecimento frequente de um contato íntimo e de confiança com outro adulto, um meio para confidências e aprendizado de histórias familiares, carinho, amor e cuidado. Os negativos podem ser sentimentos de não pertencimento, sentimentos de abandono e revolta em relação aos pais, conflitos em relação a divergências de opinião das gerações, etc (CARDOSO, 2010).

Para muitas famílias o papel dos avós está inserido na tradição familiar, como figuras de autoridade que auxiliam os pais na socialização dos filhos e outras funções que podem ser vistas como continuidade intergeracional, mas também, quando os pais e avós convivem no mesmo ambiente familiar, os mesmos se tornam cuidadores parciais ou integrais dos netos, tornando assim, a função de avós de grande importância no ciclo de vida dos netos (CARTER; MCGOLDRICK, 1995).

7. Avós e Netos Numa Nova Configuração Familiar

Enfatizaremos no presente trabalho, os avós que assumiram a criação dos netos, mas que não o fizeram por escolha, e sim por obrigação. As crianças aqui mencionadas já sofreram um abandono, ou seja, os pais a deixaram aos cuidados dos avós.

As avós ao se depararem com essa nova situação podem entrar em conflito com os pais das crianças e não aceitar se tornar responsável pelos netos. Este conflito pode gerar mais sofrimento nesta nova relação, fazendo com que tanto os avós quanto os netos se ajustem de forma disfuncional.

O maior problema encontrado por elas foi o conflito resultante do comportamento irresponsável dos filhos e sua repercussão no desenvolvimento dos netos. Os sentimentos experimentados pelas avós foram de obrigação, ao mesmo tempo em que expressaram raiva, medo e culpa por julgarem que falharam como mães. As avós também reportaram sentimento de isolamento social e perda pessoal, ao reassumirem a criação dos netos, enquanto suas companheiras, que não criavam netos, estavam desfrutando de momentos de ociosidade e de lazer (DIAS; COSTA; RANGEL, 2005, P.160).

No espaço familiar é que a criança desenvolve seus laços emocionais, seu sentimento de pertencimento a um grupo e suas primeiras trocas afetivas, porém neste mesmo grupo podem ocorrer a violência, o desamparo, a negligência e os conflitos que podem levar ao abandono da mesma por parte dos pais (ORIONTE; SOUSA, 2005).

Assim, a criança pode apresentar entre outras carências, uma baixa qualidade das relações afetivas, pelas possíveis rupturas com pessoas significativas, podendo se manifestar em suas relações interpessoais de forma inadequada, não conseguindo se autorregular de forma satisfatória, apresentando então ajustamentos criativos disfuncionais.

Quando ocorre uma aceitação dos avós no acolhimento dessa criança, a mesma pode se ajustar de forma satisfatória e adequada, continuando o seu desenvolvimento de forma funcional e realizando interações com esse novo meio de maneira autorregulada.

Agora, quando acontece ao contrário disso, os avós não se sentem tranquilos e não aceitam a criança de forma amorosa, a mesma pode se sentir rejeitada e mais uma vez apresentar possíveis sentimentos de angústia, tristeza e não pertencimento ao novo contexto familiar, podendo assim se relacionar de forma inadequada com esse novo meio, realizando ajustamentos criativos não saudáveis, que poderão trazer mais conflitos a esse grupo.

A criança quando vive num ambiente desfavorável, hostil, sem carinho cria formas adaptativas de se relacionar consigo mesma e com o ambiente inadequados para manter o seu próprio equilíbrio e o da família. A capacidade que uma criança tem de inventar maneiras criativas para enfrentar um ambiente estressante ou negligente é extraordinária, pois como já vimos, o organismo procura formas de autorregulação para satisfazer as suas necessidades e as do ambiente (ANTONY, 2009).

Desta forma, essa criança vai procurar formas de se relacionar para alcançar o equilíbrio neste contexto que podem não ser saudáveis, já que o ambiente em que vive não a confirma e não atende as suas necessidades.

A Gestalt-terapia vê a criança como um ser de relação, de contato e de trocas, que se desenvolve a partir de encontros e desencontros com outras pessoas que tem significado para ela. É nessa relação com o mundo que ela se atualiza, descobre suas potencialidades e seus limites e procura satisfazer seus desejos e suas necessidades (BARBOSA, 2011).

Portanto, quando a criança não se sente confirmada em suas relações, a mesma adoece, podendo desenvolver um sentimento de menos-valia e uma ausência de confiança em si mesma que dificultam seu contato com o ambiente. Diante desta situação, o funcionamento da criança se cristaliza em uma única forma de ser no mundo, deixando assim de fazer contatos nutritivos e fixando em um ajustamento criativo disfuncional (BARBOSA, 2011).

Segundo Porta, (2010, p. 47) “crianças e adolescentes têm a esperança de encontrar alguém em quem confiar, vontade de viver, de recuperar, de inventar e construir um futuro, levando com eles um núcleo da infância e da inocência que havia sido ofuscada por vivências de medo e abandono”.

Assim, a criança quando se vê num novo contexto familiar, pode desenvolver alguns sentimentos negativos que ela mesma não sabe lidar, fazendo com que a mesma adquira um modo de funcionar inadequado para essa nova configuração.

Este modo de se relacionar disfuncional pode gerar angústia e sofrimento para todos os membros da família, por esse motivo é que vemos a necessidade de mais estudos sobre o tema, tanto pela visão dos avós quanto pelo foco da criança envolvida nessa nova situação.

8. Considerações Finais

Este estudo teve como objetivo investigar como uma criança que é educada pelos avós vivencia essa experiência e como a mesma se relaciona consigo mesma e com o meio em que vive. Nos novos modelos familiares atuais se destacam novas formas de convivência entre os membros desta família. Podendo conviver pais e avós, mães e avós ou somente os avós e os netos que por algum motivo passaram a morar com os mesmos.

Estes motivos podem ser desde o abandono por parte dos pais, a morte de um deles, divórcio ou separação, gravidez precoce, dependência química, problemas com a justiça, etc.

Segundo Aguiar (2005), “os membros de uma família se influenciam, reagem e respondem às expectativas um do outro na busca de um equilíbrio”. Desta forma, nesta nova configuração familiar, a criança terá que se ajustar criativamente para poder interagir com os membros agora existentes.

Segundo Antony (2014), “para que esta interação aconteça de forma saudável para a criança, a mesma deverá ser capaz de ter clara consciência da sua necessidade mais importante no campo organismo/ambiente, para assim poder manter o seu bem-estar organísmico”.

Investigando estas novas relações verifica-se que para ocorrer o ajustamento criativo funcional, a aceitação da configuração familiar atual deve acontecer de forma amorosa e cuidadosa para com a criança. Assim a mesma se sentirá segura e confiante e se autorregulará de forma saudável.

Quando não há aceitação deste novo modelo, a criança vai se relacionar de forma inadequada, não satisfazendo as suas necessidades podendo fazer ajustamentos criativos disfuncionais, se comportando de maneira padronizada e inadequada em todos os contextos em que vive.

Analisando as relações e vivências desta nova configuração constatou-se que, as mesmas podem ser positivas ou negativas tanto para os avós quanto para as crianças, podendo os sentimentos positivos aproximar os avós e os netos, e os sentimentos negativos gerar conflitos para todos os membros.

De acordo com Antony (2014), a criança se mantém progressivamente se autorregulando em relação ao outro de maneira complementar, assimilando e introjetando crenças e valores existenciais que lhe são passados durante a convivência.

Portanto, se nesta convivência a mesma recebe confirmação, amor e carinho que lhe trarão o equilíbrio e a satisfação de suas necessidades a mesma se ajustará e funcionará de forma saudável, se a criança não for atendida em suas necessidades e não receber afeto a mesma entrará em conflito e se tornará insatisfeita realizando assim ajustamentos criativos disfuncionais, funcionando de forma inadequada no ambiente em que vive.

Conclui-se com esse estudo que a aceitação por parte dos membros diante desta realidade familiar, é o que vai fazer com que as atuais e as novas relações desta criança sejam saudáveis no futuro. Pois, estas crianças já sofreram um abandono por parte dos pais, e assim já se sentem rejeitadas, desamparadas e inseguras não precisando mais de sentimentos negativos em relação a esta situação.

Constatamos que necessita-se de mais estudos a respeito destas novas relações intergeracionais quando os avós passam a ser cuidadores integrais dos netos, pois nas relações sem o cuidado percebe-se que os avós ultrapassam os limites de carinho e amor, porque os netos lhes trazem alegria e um objetivo para querer viver mais.

Quando a relação é de cuidado integral, e ainda não sendo por escolha, traz novas demandas que os avós podem não estar preparados, e com isso a geração de sofrimentos e conflitos tanto para a criança como para os avós. Observa-se também a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre estes sentimentos conflitantes vividos pelos avós e pelas crianças e também sobre estas relações familiares na contemporaneidade.

Sobre o Autor:

Sônia Maria Dauzacker Araújo - Psicóloga clínica no IGT - Instituto de Gestalt-terapia de Campo Grande - MS. Com pós-graduação em Formação Infantil em Gestalt-Terapia.

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