O Atendimento Psicológico Online: aspectos éticos do uso da Internet

O Atendimento Psicológico Online: aspectos éticos do uso da Internet
(Tempo de leitura: 5 - 9 minutos)

Introdução

A internet tem permitido uma facilidade para a vida das pessoas. Muitas consideram que aumenta a conectividade entre elas, diminuindo a distância e facilitando na comunicação como um todo, mas, principalmente, este meio de comunicação gera um bom rendimento no tempo gasto nas tarefas pessoais e profissionais. No entanto, a internet tem possibilitado a formação de novos subsídios de interação, organização e atividades sociais, devido ao uso de redes sociais como Facebook, Messenger (MSN), Skype, Orkut, Twitter, e-mails, entre outras, mudando, também, a maneira das pessoas proporcionarem e receberem informações e cuidados de saúde.

Porém a intenção do presente trabalho não é abordar o aprofundamento na questão das redes sociais como um todo, mas aterá a atenção nas práticas psicológicas possibilitadas pela internet, mais especificamente, aos atendimentos psicológicos virtuais, também denominados no decorrer como terapia online ou terapia virtual, sendo estas caracterizadas pela orientação de questões psicológicas feitas pelo profissional Psicólogo, através das redes sociais supracitadas.

Atendimento Psicológico Online: apontamentos e questões éticas

De acordo com sites próprios de atendimento online, que não serão especificamente citados, este tem por objetivo servir como uma nova modalidade de ajuda prestando um serviço de orientação psicológica, a fim de ampliar a atuação da Psicologia, proporcionando o esclarecimento de dúvidas e oferecendo a possibilidade de obter orientações práticas para a resolução de determinado problema. Porém, ao se fazer uma pesquisa pela internet pode-se constatar que alguns sites de atendimento online não promovem apenas trabalhar com a orientação, mas dizem “curar” casos de depressão e de outras doenças psicopatológicas, atendimento este não autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) de acordo com a resolução CFP nº 012/2005, que limita a prática do Psicólogo.

As indicações para este tipo de atendimento são variadas, desde orientações de como proceder diante de relacionamentos amorosos, profissionais, entre pais e filhos e orientação profissional até acompanhamento e orientação no desenvolvimento da criança e do adolescente, entre outras demandas (EVARISTO, 2011). De acordo com Prado (2002) a pessoa que busca a terapia online tem como vantagem a fácil acessibilidade, pois as que moram em localidades onde não se encontram profissionais especializados podem ter acesso; bem como, as pessoas tímidas podem se sentir mais a vontade para falar de seus medos e angústias.

Segundo Pinto (2002), “muitos profissionais reagem como se a intermediação do computador retirasse toda a qualidade terapêutica de suas intervenções” (p. 170), porém a autora considera que essas home-pages de orientação, principalmente as de orientação vocacional, são de grande ajuda para a proliferação da Psicologia e suas áreas de atuação, podendo ser consideradas como um segundo tipo de inserção psicológica. A autora ainda cita que outra vantagem de se exercer o atendimento psicológico pela internet é a diminuição que pode ser feita no custo do trabalho, isso pode acontecer porque não é necessário ao profissional Psicólogo se utilizar de consultórios.

Contudo, um dos maiores empecilhos para a terapia online é a dificuldade em se manter a confiabilidade das informações. Nos consultórios uma das maiores preocupações do terapeuta é a de manter o sigilo, qualquer prática na Internet está sujeita a curiosidade de quem trabalha nos provedores, além de não haver uma proteção contra a invasão dos hackers, portanto, é necessário que o terapeuta virtual se adapte a técnicas seguras (PINTO, 2002). A segurança total pode não acontecer também nos consultórios convencionais, mas deve haver algumas medidas para garantir a segurança padrão, como por exemplo, o processo de codificação digital em que terapeuta e paciente recebem uma senha para poder acessar as informações contidas na terapia, assegurando que tais informações não serão lidas por demais pessoas (PRADO, 2002).

Outra questão relativa à ética do atendimento online é a capacidade do terapeuta de lidar com as situações de crise que correm o risco de acontecer em qualquer tipo de terapia, no caso de acontecer durante uma terapia virtual, é necessário que o terapeuta possua subsídios para lidar com o ocorrido (PRADO, 2002). Em uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo (2009) a conselheira do CFP, Andréia Nascimento, diz que se durante o atendimento online o paciente, que sofre de um transtorno grave, surta, o profissional, que não estará presente no local, tem de responder eticamente por isso.

Para compreender melhor o que é ética, temos esta como uma filosofia moral, ou uma reflexão que discute, problematiza e interpreta o significado dos valores morais (CHAUI, 1995). No entanto, não se pode confundir a ética com a moral, a ética não cria a moral. Toda moral supõe determinados princípios, normas ou regras de comportamento, mas não é a ética que os estabelece em uma determinada sociedade. A ética depara-se com uma série de práticas morais já em vigor e, partindo delas, procura determinar a essência da moral, suas origens, e as condições objetivas e subjetivas de seus atos. A ética não é a moral, portanto não pode ser reduzida a um conjunto de normas e prescrições. Sendo assim, a ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade (VÁZQUEZ, 1997). Portanto, uma pessoa ética é aquela que reflete, discute e problematiza as situações vividas, e cada profissional possui um determinado código de ética que deve ser seguido.

No entanto, de acordo com o Código de Ética Profissional do Psicólogo, relembrado pela Resolução CFP nº 012/2005, é dever deste profissional, prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimento e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional. Verificando o princípio fundamental do Código de Ética destes profissionais, temos a determinação de que estes devem atuar com responsabilidade, bem como é dever dos mesmos respeitar o sigilo profissional, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos e organizações a que tenha acesso.

A resolução supracitada regulariza o exercício dos profissionais psicólogos à prática do atendimento online, desde que obedeça às exigências do Código de Ética do profissional, além de que não deve ser um atendimento psicoterapêutico, não sendo capaz de oferecer “cura” ou melhora para psicopatologias, mas sim um trabalho de orientação como já foi explicitado, podendo ser também utilizado em caráter experimental, no qual o pesquisador deve seguir rigorosamente os termos presentes na resolução.

Conclusão

A partir dos apontamentos feitos sobre a ética e o atendimento online foi possível a constatação de como a tecnologia pode favorecer na dimensão de ciências como a Psicologia. Em um mundo globalizado, os custos decorrentes, principalmente, do deslocamento de pacientes para atendimento psicológico, acabam por restringir o acesso destes às orientações terapêuticas, muitas vezes não disponíveis em algumas localidades. A internet está presente, portanto, para facilitar a acessibilidade para as pessoas que necessitam desse tipo de atendimento.

Não pode ser deixado de mencionar, novamente, sobre o dever do terapeuta em criar um ambiente seguro ao se comprometer com a terapia virtual, ficando claro que informações que identifiquem o paciente devem ser evitadas de serem expostas no meio virtual. A prática do atendimento psicológico online pode ser desenvolvida por todos os terapeutas e podem ser destinadas para qualquer pessoa, contudo, paciente e terapeuta devem sentir-se confortáveis nessa interação. Cabe ao terapeuta possuir habilidades específicas para esse tipo de terapia, com a aprovação de psicoterapias pela internet, novas técnicas e formas de trabalho devem ser desenvolvidas, não se deve apenas transpor a terapia convencional dos consultórios para a internet, mas é necessário que haja um estudo de como seria a terapia mediada por essa via.

Deve-se ter em mente a ideia de que fazer um tratamento psicológico é bem diferente do que resolver uma questão pontual com a ajuda de um e-mail, ou fazer uma orientação para um problema específico através do MSN. Para concluir as discussões referentes à terapia online, Pinto (2002) cita que esta se constitui em “(...) um processo terapêutico, usada, por alguns psicólogos, para auxiliar algumas pessoas, com alguns tipos de dificuldades e problemas” (p.176-177, grifo da autora). Assim como nas terapias como um todo, nem todas as práticas funcionam iguais para todas as pessoas, essa lei pode ser aplicada também aos atendimentos online.

Sendo assim, a terapia virtual deve ser usada como uma prática diferente de se trabalhar com a terapia, deixando de lado a ideia de que o trabalhado do profissional Psicólogo nos consultórios possivelmente será substituído pelas práticas de atendimento ocorridas na internet. Apesar de tais práticas serem de grande ajuda para os pacientes que necessitam de uma orientação, em alguns casos o trabalho das psicoterapias ou as terapias convencionais é fundamental.

Referências:

CHAUI, M. de S. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 012/2005. Disponível em: <http://www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/legislacao/legislacaoDocumentos/resolucao2005_12.pdf>Acesso: 02/10/2011

EVARISTO, E. Atendimento Psicológico via Internet. Recanto das Letras, 2011. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/artigos/3059366> Acesso: 02/10/2011

LHANO, M. Conheça os benefícios da orientação psicológica virtual. Disponível em: <http://www.milenalhano.com.br/artigos/conheca-os-beneficos-da-orientacao-psicologica-virtual/> Acesso: 02/10/2011

MEDNICOFF, E. O. Sobre o atendimento psicológico On-line. Novo Equilíbrio. Disponível em: <http://www.novoequilibrio.com.br/mostra_pag.php?Tipo=17&Cod=114> Acesso: 02/10/2011

PINTO, E. R. As modalidades do atendimento psicológico On-line. Temas em Psicologia da SBP -2DD2, vol 10, nº 2. p. 167-178. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/tp/v10n2/v10n2a07.pdf>

PRADO, O. Z. Terapia via Internet e relação terapêutica. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, 2002.

SILVEIRA, J. Pacientes recorrem a psicólogo via web; prática divide especialistas. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u621960.shtml> Acesso: 02/10/2011

SILVEIRA, M. D. P. Efeitos da Globalização e da Sociedade em Rede Via Internet na Formação de Identidades Contemporâneas. Rev. Psicologia Ciência e Profissão, 2004,  24 (4), p. 42-51. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/pcp/v24n4/v24n4a06.pdf> Acesso: 02/10/2011

VÁZQUEZ, J.D. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

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