O Papel da Transferência no Processo Terapêutico

(Tempo de leitura: 4 - 8 minutos)

Resumo: A relação entre terapeuta e paciente é um dos pontos mais importantes da terapia, sendo que a transferência desempenha um papel essencial nesse processo, onde as emoções inconscientes são expostas em sentimentos bons ou ruins dirigidos a figura do terapeuta. Isso levanta uma preocupação imediata sobre a forma mais adequada para se trabalhar com essas emoções em terapia. Muitos argumentam que a transferência é uma barreira para uma terapia eficaz, no entanto essa crítica é facilmente contestada quando se leva em consideração que alguns conteúdos inconscientes não podem ser expressos verbalmente.  Portanto, o processo de transferência é um valioso e, por vezes, a única ferramenta para trabalhar com estas emoções. Destarte, este artigo tem como objetivo discutir a importância da transferência na relação terapêutica, avaliando o papel do terapeuta e as possíveis barreiras para um processo terapêutico eficaz.

Palavras-chave: transferência, contratransferência, processo terapêutico, relação terapêutica, aliança terapêutica.

Introdução  

A relação terapêutica ou aliança terapêutica pode ser vista como um processo que envolve duas ou mais pessoas em um ambiente profissional, visando o mesmo objetivo: o tratamento terapêutico. Embora essa relação possua muitos elementos semelhantes a todos os relacionamentos da vida diária (como confiança e cooperação), ela também difere em muitos outros aspectos, que são únicos e essenciais para o resultado da terapia. Como abordado por Greenberg, Elliott & Lietaer (2003), a relação terapêutica pode ser vista como um processo curativo que facilita o aprofundamento da experiência do paciente, ajudando-o a simbolizar e criar um novo significado para experiências passadas, que é o ponto principal na terapia. Na relação terapêutica o paciente tem a oportunidade de lidar com conflitos antigos e recuperar o que foi perdido em relacionamentos anteriores, dando significado aos conteúdos inconscientes e conscientes, recriando o mundo interno e uma nova experiência de relacionamento (Casement, 1985 e Green, 2003). Por conseguinte, o elemento essencial neste processo de resignificação é chamado de transferência.

Transferência: processo essencial em terapia

Como abordado por Brousse (1995), a transferência não é imaginária, é um ato, que traz à realidade conteúdos do inconsciente; é o processo de reproduzir o inconsciente em uma relação analítica, portanto, não há psicanálise sem transferência. Este fenômeno está presente em todo o processo terapêutico, desde o momento em que o paciente escolhe entre a psicanálise dentre quaisquer outras práticas até a escolha de um psicanalista em particular, sem conhecê-lo, talvez por causa do nome, sexo, idade, etc. Portanto, apesar da transferência ser um processo presente em qualquer relacionamento, esse fenômeno tem um papel essencial no contexto terapêutico, onde as emoções inconscientes são colocadas na figura do terapeuta, como uma repetição de relações anteriores.

Flaskas (1996) aponta que a transferência é importante para uma relação analítica, porque pode mostrar a abordagem para um trabalho terapêutico, baseada em lutas e questões emocionais centrais expostas na terapia. Assim, a relação terapeuta-paciente é construída de forma a maximizar a utilização da experiência de transferência do cliente com o terapeuta.

Porém, é importante salientar que, embora a perícia sobre o processo terapêutico possa vir do terapeuta, ele é apenas o facilitador, e não o fornecedor da verdade. Além disso, a aliança terapêutica precisa de uma colaboração de ambas as partes: o terapeuta e o paciente. Assim, como afirma Lipchik (2002), para um relacionamento eficaz na terapia o paciente tem que confiar no terapeuta como um profissional que é capaz de ajudar sem ferir. O papel do terapeuta é ser útil, paciente, compreensivo, comprometido e demonstrar uma atitude positiva para ajudar o paciente a refletir e encontrar o seu próprio caminho para possíveis mudanças. Com conhecimento e responsabilidade, o terapeuta pode usar os obstáculos e emoções que emergem na terapia, de forma terapêutica.

Portanto, conforme afirma Greenberg (2007), os resultados positivos podem ser vistos quando uma conexão bem sucedida é feita com o terapeuta, o que afeta centros de processamento no cérebro do paciente, criando um ambiente positivo onde o cliente pode se sentir seguro, para iniciar o novo processo de aprendizagem e autoexploração.

Como mencionado por Bateman & Holmes (1995), na teoria de Freud, o processo de transferência foi dividido em duas categorias: positivo, como um representante do relacionamento anterior com os pais de uma forma terapêutica útil; e negativo, como representante da resistência à lembrança verbalizada. Porém, em nenhum deles o processo de transferência é reconhecido pelo paciente; sendo, portanto, tarefa do terapeuta analisar e ajudar o cliente a re-experimentar esses antigos sentimentos no presente, a fim de superar as emoções desagradáveis ou não resolvidas do passado.

Entretanto, levando-se em consideração que um relacionamento envolve duas ou mais pessoas, não são apenas os sentimentos do paciente que atuam em terapia, também há emoções advindas do terapeuta, processo esse chamado de contratransferência.

Contratransferência: o lado do terapeuta

A contratransferência é uma característica importante deste processo, podendo tornar-se uma ferramenta ou uma barreira para uma relação terapêutica eficaz. Contratransferência como uma barreira em terapia, seria o processo em que o terapeuta reage aos conteúdos transferidos pelo paciente como pessoal, tornando-se muito envolvido nesse processo. O terapeuta deve manter o espaço terapêutico neutro de sentimentos pessoais, a fim de que este possa ser usado de maneiras que não eram possíveis antes, com outros relacionamentos.

Schoenewolf (1989), afirma que a terapia eficaz necessita de uma intervenção adequada no momento preciso. Para isso, o analista deve apoiar as intervenções na análise objetiva dos sentimentos do paciente, não sendo influenciado por sua contratransferência própria. Gelso & Hayes (2007), afirmam que a contratransferência pode ser vista positivamente ou negativamente na terapia, de acordo com a gestão do terapeuta. Positivamente, a contratransferência pode ser usada agindo como um bom pai e apoiando o paciente. Por outro lado, sem uma administração correta, a contratransferência pode levar o terapeuta a se envolver nos problemas do paciente. Este inconveniente pode ser causado por uma má aliança terapêutica ou pela falta de acompanhamento clínico do terapeuta.

Ainda considerando contratransferência como um processo positivo, Maroda (2004), aponta que todas as emoções levantadas a partir de uma relação na terapia são importantes para acessar os sentimentos de verdade de ambos os lados. O aspecto mais importante é o terapeuta manter o empenho e integridade da relação terapêutica, estar atento à influência da transferência e da contratransferência de forma positiva ou negativa.

Portanto, retornando a importância da transferência para o processo terapêutico, Frank & Frank (1993), acrescentou que o resultado positivo pode mostrar ao paciente que ele pode ser levantar, fortalecer seu domínio e autoconfiança, encorajando os pacientes a enfrentarem outras situações de suas vidas. Além disso, a transferência não é apenas um processo que ocorre em terapia individual, é também um fenômeno importante no grupo e terapia familiar, constituindo uma valiosa ferramenta para trabalhar a relação entre os membros, parceiros e terapeuta.

Considerações Finais

Pode-se concluir que, se bem administrada pelo terapeuta, a transferência é muito importante para um relacionamento eficaz na terapia, à medida que emoções do passado podem ser expressas e trabalhadas, auxiliando a construir uma nova maneira de lidar com estes sentimentos. Além disso, em um resultado positivo, é possível que o paciente possa aumentar a sua autoconfiança para lidar com outras situações da vida.

Porém, também e muito importante discutir a importância da formação e apoio aos terapeutas para lidar com as emoções pessoais provocados em terapia, o que pode se tornar uma barreira para uma relação terapêutica eficaz, se não for bem gerenciado. Como regra geral, os terapeutas devem estar conscientes das possíveis barreiras na terapia e trabalhar sempre levando em consideração o bem-estar dos pacientes.

Sobre o Autor:

Elisangela Cristina Aparecida Pereira - Psicologa formada pela UNIP (Universidade Paulista) com mestrado pela Universidade Middlesex de Londres (Inglaterra).

Referências:

Bateman, A. & Holmes, J. (1995). Introduction to Psychoanalysis: Contemporary Theory and Practice. London: Routledge.

Brousse, M. (1995). “The Drive”, in Feldstein, R., Fink, B. & Jaanus, M. (Eds.). Reading Seminar XI: Lacan’s Four Fundamental Concepts of Psychoanalysis (pp. 99-118). New York: State University of New York Press.

Casement, P. (1985). On Learning from the Patient. London: Tavistock Publications.

Flaskas, C. (1996). “Understanding the Therapeutic Relationship: using Psychoanalytic ideas in the Systemic Context” in Flaskas, C. & Perlesz, A. (Eds.) The Therapeutic Relationship in Systemic Therapy. London: Karnac.

Frank, J., Frank, J. (1993). Persuasion & Healing: A Comparative Study of Psychotherapy (3rd Ed.). Baltimore: The Johns Hopkins University Press.

Gelso, C.& Hayes, J. (2007). Countertransference and the Therapist’s Inner Experience: Perils and Possibilities. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates.

Greenberg, L. (2007). “Emotion in the Therapeutic Relationship in Emotion-Focused Therapy” in Gilbert, P. & Leahy, R. (Eds.). The Therapeutic Relationship in the Cognitive Behavioral Psychotherapies. East Sussex: Rotledge.

Greenberg, L., Elliott, R. & Lietaer, G. (2003). “Humanistic Experiential Psychotherapy” in Weiner, I. (Ed.).Handbook of Psychology (Vol. 8). New Jersey: John Wiley & Sons.

Green, V. (Ed.). (2003). Emotional Development in Psychoanalysis, Attachment Theory and Neuroscience: Creating Connections. East Sussex :Brunner-Routledge.

Lipchik, E. (2002). Beyond Technique in Solution-Focused Therapy: Working with Emotions and the Therapeutic Relationship. New York: The Guildford Press.

Maroda, K. (2004). The Power of Counter-Transference: Innovations in Analytic Technique. Hillsdale: The Analytic Press.

Schoenewolf, G. (1989). 101 Therapeutic Successes: Overcoming Transference and Resistance in Psychotherapy. New Jersey: Jason Aronson Inc.

INFORMAR UM ERRO