Perdidos de Si: na experiência das relações amorosas nos tempos de hoje e seus desdobramentos na clínica psicológica

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Resumo: Este estudo propôs a discussão da construção da subjetividade na relação do sujeito com o outro e seus desdobramentos na clínica psicológica. Abarcando os modos de subjetivação permeados pela cultura na contemporaneidade, no enfoque de compreender a implicação da alteridade na construção subjetiva apresentando também as nuances encontradas enquanto sofrimentos psíquicos na clínica psicológica. A metodologia desta pesquisa consiste em um levantamento bibliográfico apoiando-se em três capítulos. O primeiro aborda autores que discorrem sobre a cultura e sua influência nos modos de subjetivação, em seguida discute-se o ser-si-mesmo e ser-com na relação a dois debruçando-se pela alteridade. O terceiro apresenta a clínica psicológica como espaço de acolhimento e cuidado. O Homem encontra-se no mundo existindo nas relações com-outros, no entanto, direcionando-se a sociedade atual, surge um autocentramento do sujeito, com o qual, a subjetividade passa a ter um valor do externo, assumindo uma configuração estética. Apontando o cuidado consigo como uma experiência desalojadora num contexto de negação de si para melhor conviver. Deste modo destacamos que atualmente se vive tão aprisionado aos dogmas que devemos seguir, do comportamento ideal, do estilo coerente e do modelo a ser seguido que realmente temos dificuldade de desembarcar de nós mesmos, assumir nossas próprias vontades ou o que escolhemos para ser certo ou errado; da conta do nosso existir.

Palavras-chave: Cultura, Subjetividade, Clínica Psicológica.

1. Introdução

A mudança ocorre quando uma pessoa se torna o que é, não quando tenta converte-se no que não é. A premissa é que a pessoa deve permanecer em seu lugar, a fim de ter um terreno firme para se deslocar, e que é difícil ou impossível qualquer movimento sem essa base sólida (FAGAN, SHEPHERD, 1980, p.111 apud RODRIGUES, 2011, p.194).

Partindo desta citação, este trabalho debruça-se pela temática de como ser-si-mesmo e ser-com com o outro e seus desdobramentos na clínica psicológica. Para tal discussão, inicialmente falaremos sobre a construção da subjetividade que está marcada pelo encontro com o coletivo, já que somos seres onde existimos a partir das nossas relações, relações estas que englobam todo nosso meio social, começando por nossa família, habitat onde nascemos, e, a partir daí, outros vão surgindo, como a escola, comunidade em que moramos, religião em que acreditamos, o próprio poder público, e outros. Ou seja, vamos nos constituindo enquanto sujeito por este emaranhado de relações no decorrer da nossa existência. Toda esta teia é tecida através dos costumes, valores, educação, crenças e todos os aspectos que vão tatuando marcas culturais na construção da subjetividade.

No entanto, a subjetividade vai sendo formada a partir da sociedade onde o sujeito encontra-se, visto que cada civilização possui sua própria cultura. Com isto, é percebido que o externo fala de nós assim como do entrelace dessa troca, onde influenciamos e somos influenciados. Como nos constituímos enquanto sujeito, se entendemos que a cultura exerce uma grande influência no modo como experiencia-se nossa singularidade? Em que contexto esse registro do coletivo não favorece uma marca singular? Será que não poderia pensar numa perspectiva em que alguns sujeitos nesse emaranhado de imposições se perdem de si atendendo por vezes a padrões e regras convencionais e padronizadas pela cultura. Se perder, no sentido, de muitas vezes não conseguirmos ser autônomos e autênticos diante de nós mesmos; perante desta experiência alguns sentimentos podem ser suscitados, tais como a angústia, o sofrimento, o desamparo e tantos outros sentimentos podem ser vividos como des-confortos.

Porém, como ser-si-mesmo e como ser-com-os-outros em uma sociedade onde muitas vezes não nos enquadramos no “modelo perfeito” que ela elege? Ou até mesmo nem concordamos com esse? Como existir neste meio social, ao passo que ao discordarmos das regras impostas, somos excluídos? Como ser diferente em uma sociedade que apoia e valoriza uma subjetividade homogeneizada, não dando espaço ao singular, marcadas e guiadas para sermos todos “iguais”?

A inclinação por este tema emana da implicação em compreender o sentido do ser-si-mesmo, ao meio desta sociedade? Algo que eu imaginava que seria exclusivamente particular, no que diz respeito à construção da nossa subjetividade, como: a maneira de ser, as escolhas e tudo aquilo em relação à individualidade formada por cada sujeito; ou seja, a singularidade como algo independente do “outro”.

 Ao estudar Psicologia Social nas pesquisas acadêmicas no decorrer do curso de Psicologia, observei que os acontecimentos eram o oposto da forma como eu pensava, porque foi mostrado que nossa identidade é formada a partir do “outro”, refletimos no sentido que nosso nome são os pais que escolhem, nos constituímos enquanto sujeitos a partir da educação e da cultura na qual estamos inseridos, enfim, nos construímos através do campo relacional, onde fazemos parte. Porém, ao ouvir a frase “o outro diz de você“, me impliquei.

Contudo, o interessante é que, realmente, nem sempre escolhemos ou queremos estar no lugar onde estamos, ou com as pessoas que se encontram ao nosso redor; porém, nas entrelinhas nos perguntamos: Quem é o responsável por nossas escolhas? Somos nós mesmos? Ou são os outros que interferem nas nossas decisões? Enfim, em que ponto nos construímos enquanto sujeitos partindo de nós mesmos ou das interferências culturais, familiares etc.? Então, os questionamentos surgem, as implicações afloram mediante este processo, de ser o protagonista ou apenas um coadjuvante da própria história. E nestas turbulências das relações, percebe-se que é formado um vínculo, o qual muitas vezes, nos prende e não entendemos como nem sempre conseguimos transformar alguns laços afetivos.

No decorrer do curso de Psicologia, novas construções foram se configurando. Me reporto quando comecei a estudar a Fenomenologia, alguns autores, como (BUBER, 1979. apud FONSECA, 1989, p.4), nos falam que: “O homem se torna EU na relação com o TU”, e mais uma vez me veio o questionamento: Se cada “ser” tem sua singularidade, sua subjetividade, pode escolher a forma de ser e estar no mundo, como ser eu se o outro exerce influência sobre mim?

Porém, comecei a me auferir nas minhas relações e as relações de outrem. Passei a observar como o ser humano se comporta diante das relações nas quais está imerso, e então comecei a enxergar como as pessoas têm uma necessidade de agradar as outras, muitas vezes não sendo verdadeiras, mas só pelo fato de se sentirem amadas ou elogiadas, mesmo que seja tentando ser o que os outros querem que elas sejam.

Reporto-me, neste momento, à disciplina de psicossomática que nos traz a discussão que nos conflitos emocionais não elaborados nosso corpo acaba sofrendo as consequências, se cristalizando como algumas alterações físicas marcadas por dificuldades afetivas. Diante deste contexto, vi uma pesquisa feita por uma médica com pacientes terminais, estes falavam sobre os aspectos levantados dizendo que se arrependeram de não terem feitos suas próprias escolhas e de não terem sido elas mesmas.

Assumindo então a si próprio primeiro, a pessoa estabelece uma forma mais autocentrada de entrar em contato com o outro. O outro pode ser visto então como sendo ele próprio, a ‘outra pessoa em si’, com seu mundo, seus sentimentos, opiniões, e que posso ouvir, concordar, ou não, mas correspondendo que é o mundo ‘do outro’, já que reconheço qual é o ‘meu’ mundo, sentimento ou opinião (RODRIGUES, 2011, p.150).

Estes fatos me chamaram a atenção, como ser nós mesmos na relação com o outro? Porque é tão difícil as pessoas aceitarem o diferente? Porque todo mundo tem que estar enquadrado e rotulado no que a sociedade acha que é certo, coerente, normal?  Provavelmente, viver confrontado com essa demanda não é nada fácil, e pode gerar adoecimento ao individuo.

Entretanto, apesar de toda esta contextualização, ninguém quer estar só, sempre há o desejo de compartilhar sua vida com o outro. Portanto, como construir a singularidade nas relações amorosas sem se perder de si?

Foi a partir destas reflexões que quis escrever sobre o tema, pois percebo também que essa problemática de maneira implícita e/ou explícita se manifesta nas narrativas de clientes em psicoterapia. A clínica psicológica como espaço de acolhimento e encontro consigo, em que muitas vezes, surge no discurso de pessoas um desencontro entre ser si mesmo e estar no mundo em situações de relações amorosas com outros gerando sofrimentos emocionais. “O sentido não está ‘em mim’ e nem está ‘no mundo’, mas está exatamente nesta relação eu/mundo” (RODRIGUES, 2011, p.41).

No entanto, este trabalho corrobora para uma importante atuação ao meio acadêmico no que diz respeito à clínica psicológica e seus desdobramentos enquanto um espaço de acolhimento para escuta de pessoas que procuram a psicoterapia como momento de resgate do cuidado de si mesmo nas experiências de encontro e desencontros nas relações amorosas com outros no mundo; sendo este também um espaço de poder re-criar e dar um novo significado aos desencantos vivenciados durante a existência.

Doravante tais explanações, sua contribuição é de suma importância para a discussão da atenção psicológica, servindo de aporte para pesquisa em psicologia, posto isso, um trabalho que engloba o ser e o espaço da clínica psicológica. Direcionando-se a relevância da contribuição social, tem um impacto significativo quanto às discussões voltadas ao respeito ao outro, assim como uma vivência no coletivo em que se discute a noção de alteridade na sociedade contemporânea, marcado por uma atmosfera capitalista e exacerbação de si mesmo num movimento de negação do outro e dificuldade de aceitação com o diferente. No que tange a justificativa pessoal, pretendo compreender melhor e aceitar mais os diferentes nas minhas relações com os outros, me dando a oportunidade de acolher a mim mesma e retomar o cuidado por mim, considerando o outro e respeitando o diferente sem ameaças ao meu modo de ser.

Diante tais contextualizações este trabalho terá a finalidade de: Discutir a construção da subjetividade na relação de ser-com-o-outro em seus desdobramentos em clínica psicológica; apresentando os modos de subjetivação na contemporaneidade permeados pela cultura, pontuando o modo de convivência em uma relação amorosa, debruçando-se pela alteridade e inferir as nuances que se apresentam enquanto sofrimentos psíquicos na clínica psicológica diante da temática de “ser-si-mesmo” e “ser-com”.

Este estudo consiste em um levantamento bibliográfico. Sendo esta uma pesquisa caracterizada quanto ao objetivo, como Pesquisa Exploratória, devido seu planejamento ser mais flexível, pois considera os mais variados aspectos relativos ao fato ou fenômeno estudado, com isto, objetiva uma maior familiaridade com o problema, tornando-o explícito ou à construção de hipóteses.

Para Gil (2010, p. 29), o procedimento é nomeado como Pesquisa Bibliográfica, pois:

é elaborada com base em material já publicado. Tradicionalmente, esta modalidade de pesquisa inclui material impresso, como livros, revistas, jornais, teses, dissertações e anais de eventos científicos. Todavia, em virtude da disseminação de novos formatos de informação, estas pesquisas passaram a incluir outros tipos de fontes, como discos, fitas magnéticas, CDs, bem como o material disponibilizado pela internet.

Conferenciando com autores como: Laraia (2004), Lins (1997), Rolnik (1997), Costa (2005) trazidos nas discussões da construção da subjetividade; Nunes (2010), Rodrigues, (2011), Luft (2014), Alves (2008), Alberone (1988), Buber (1979) Schettini Filho (2000), elencados no tema de ser-si-mesmo e ser-com perante as relações vivenciadas; Axline (1991), Barreto (2006), Caldas (2006), Fonseca (1989), Prado (2009), Rodrigues (2011), explanando a compreensão da clínica psicológica; são, entre outros, referências utilizadas na fundamentação teórica do respectivo trabalho.

2. A Construção subjetiva permeada pela cultura na contemporaneidade

A construção da subjetividade não é algo fixo, estático e acabado, ela está em constante interação com a cultura e, logo, em constante processo de mutação (COSTA, 2005, p.25).

A cultura é algo que influencia, configura e ao mesmo tempo nos enquadra em padrões sociais. Possuindo certa interferência nos nossos modos de subjetivação e contribuindo na formação da singularidade, retratando os modos de convivência entre pessoas. Visto que nosso meio social engloba desde a família que nascemos, aos cuidadores, responsáveis, escola, religião, Estado, grupos os quais nos identificamos, e tudo o quanto vivenciamos na nossa existência, faz parte da cultura onde estamos em coletividade.

Laraia (2004, p.13), falando da cultura, diz: “Desde a Antiguidade foram comuns às tentativas de explicar as diferenças de comportamento entre os homens a partir das variações dos ambientes físicos”.

Dialogando sobre as diferenças de culturas, Laraia (2005, p. 14-15) escreve:

Se quiser constatar, uma vez mais, a existência dessas diferenças não necessita retornar ao passado, nem mesmo empreender uma difícil viagem a um grupo indígena, localizado nos confins da floresta amazônica ou em uma distante ilha do Pacífico. Basta comparar os costumes de nossos contemporâneos que vivem no chamado mundo civilizado.

Sendo assim, cada povo possui seus próprios costumes, valores dentro da sua peculiar cultura e civilização a qual se encontra. Portanto, as diferenças comportamentais são algo totalmente comum em qualquer lugar ou época, mas é notório como está cada vez mais difícil conviver com o diferente, principalmente nesta sociedade contemporânea em que fazemos parte.

Partindo destes pressupostos, cada comunidade e localidade absorvem as características que são atribuídas à população daquele respectivo lugar, essas herdadas e configuradas desde os valores e princípios das civilizações antigas. Laraia (2004) assinala que a cultura está diretamente relacionada à aprendizagem, considerando como exemplo “se transportarmos para o Brasil logo após o seu nascimento, uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja, ela crescerá como tal e não se diferenciará em nada dos seus irmãos de criação” (LARAIA, 2004, p. 17).

Este mesmo autor cita “um menino e uma menina agem diferentemente não em função dos seus hormônios, mas em decorrência de uma educação diferenciada” (Idem, p. 20). Segundo este autor, as diferenças vão se explicando pela história cultural de cada grupo, neste sentido ele cita “o homem é resultado do meio cultural em que foi socializado” (Idem, p. 45). E complementa: “Toda a experiência de um individuo é transmitida aos demais, criando assim um interminável processo de acumulação” (Idem, p. 52).

E é mais uma vez Laraia (2004, p. 52) quem irá considerar a importância da comunicação, ao afirmar que “A comunicação é um processo cultural. Mais explicitamente, a linguagem humana é um produto da cultura, mas não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de desenvolver um sistema articulado de comunicação oral.”

Percebido que existem vários conceitos de cultura, ao passo que são construídos durante todo o percurso da história e formulados por teóricos diferentes, citaremos dois, encontrados em Laraia (2004, p. 59-61):

Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica, padrões de estabelecimento, de agrupamento social e organização política, crenças e práticas religiosas, e assim por diante.

Com esta citação é explicito que nosso aprendizado é transferido e adaptado, pois somos um vir a ser através do sistema cultural ao qual nos encontramos, sendo este um modelo que determina muitas questões comportamentais e afetivas e que por diversas vezes somos obrigados culturalmente seguir.

O segundo conceito de cultura elencado por Laraia (2004, p.61) assinala que “cultura é um sistema de conhecimento: consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”. Nesta segunda, nos faz reportarmos a determinados comportamentos que são considerados aceitáveis pela cultura, que deve estar condizente com as regras e condutas, as quais, a sociedade elege como normas adequadas a serem seguidas.

Porém, existem culturas diferentes, devido cada uma possuir sua própria visão diante das coisas. “É de fundamental importância para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna, assim, não apenas produtor da cultura, mas também, num sentido especificamente biológico, o produto da cultura” (GEERTZ apud LARAIA, 2004, p. 57).

Segundo Laraia (2004), a cultura é limitada, pois nenhum individuo é capaz de participar de todos os elementos desta, visto que, levando em consideração à própria idade, uma criança não pode fazer atividades de adulto, um idoso também é mais limitado, entre outros. Este autor também observa o quanto à cultura é dinâmica, esse dinamismo é devido às mudanças que surgem nos costumes, nos estilos de roupas que mudam perante a época, entre outros fatores. Nesta dinâmica é aflorado o conflito, pois o conservador e o inovador vão se confrontar, já que a mudança modifica o próprio padrão ideal.

Neste sentido, Marion Levy Jr. (apud LARAIA, 2004, p.82) afirma: “Nenhum sistema de socialização é idealmente perfeito, em nenhuma sociedade são todos os indivíduos igualmente bem socializados, e ninguém é perfeitamente socializado”.

A cultura encontra-se envolvida com regras de um grupo, formando um sistema cultural. E para fazer parte de determinada cultura é necessário comungar dos princípios desta sociedade, podendo em caso contrário alguns sujeitos ficarem a margem, deste modo termina gerando comportamentos preconceituosos.

Há neste sentido, uma discussão que perpassa tanto as questões culturais, como suas mudanças assim como as repercussões das mesmas no modo como as pessoas subjetivam em determinados momentos históricos e sociais, pois a uma corrente que defende a perspectiva que os determinantes culturais seriam mais enaltecidos e que os sujeitos seriam muito mais um reflexo dos padrões estabelecidos enquanto adequados e outra perspectiva que traz a autonomia dos sujeitos como aqueles que constroem tanto nas suas relações consigo e quanto com os outros, princípios e valores permeados pelo seu aspecto privado e singular enquanto sujeito no mundo com outros.

Visto que não existe uma perfeição e nem um modelo como correto, chama-se atenção para a diversidade, com isso, o conflito de se conviver com o diferente vai tomando largas proporções e os modos de convivência nessa sociedade contemporânea tem sido transpassado por uma grande dificuldade de considerar a alteridade.

É fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças entre povos de culturas diferentes, é necessário saber entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema. Este é o único procedimento que prepara o homem para enfrentar serenamente este constante e admirável mundo novo do porvir (LARAIA, 2004, p.101).

Passeando por esta explanação de cultura, não há como sermos seres iguais na perspectiva trazida pela sociedade contemporânea, pois o diferente é algo que está presente em toda e qualquer civilização, os grupos se distinguem em suas próprias particularidades. Percebido o quanto a subjetividade é constituída a partir, das crenças, valores, experiências e histórias de vida do sujeito, como negar a alteridade? Como extinguir as diferenças?

Remeter-se a subjetividade nos proporciona correlacionar à singularidade de cada pessoa, sua autonomia, autenticidade, singularidade e seu modo afetivo. Porém, transcrevem alguns teóricos sobre a diferença da subjetividade e singularidade. Contudo, esta é uma maneira a qual os sujeitos se compõem diante da sua existência.

Cuja existência tomada da experiência de ser-si-mesmo e ser-com-os-outros, sendo este um modo de existir. Transcrito por Heidegger como “Befindlichkeit”, configurando a condição existencial de ser-com-os-outros-no-mundo, segundo Costa (2005).

No entanto, quando Heidegger (1889-1976), segundo (PRADO, CALDAS, 2013), expressa o ser-no-mundo-com-os-outros, refere-se a um modo ontológico, sendo este, um ser lançado no mundo, onde ele e mundo são unidade, coexiste. Este homem é lançado para-fora-de-si, na existência, vivenciando o ek-xistir na facticidade do ser-no-mundo, ou seja, ele está dentro do mundo.

Dialogando com as ideias de Heidegger, Nunes (2010) fala dos seres imersos nesse mundo formando um circuito da convivência, caracterizando-se no sentido de ser-com-outros. Onde esta imersão seria o Befindlichkeit, “que nos revela o nosso irredutível aí no mundo, onde já nos encontramos lançados” (NUNES, 2010, p. 18). Perpassando por estas reflexões este autor escreve: “E cada modo de existência traz a compreensão de nós mesmos e do mundo” (NUNES, 2010, p. 18).    

Segundo Heidegger (1889-1976 apud PRADO, CALDAS, 2013) ser si mesmo nas relações e no mundo com outros implica em muitos momentos uma experiência marcada pelo sentimento de angústia. Angústia esta experimentada como sensação de vazio em que os sujeitos por vontade de livrar-se deste sentimento optam por perderem-de-si, inautêntico, na tentativa de tamponar este sofrimento, terminam agindo de modo desapropriado de si, contexto este em que surge o espaço de acolhimento e cuidado da atenção clinica psicológica como momento de retomada de cuidado de si.

O sentido das coisas não está nas coisas em si, mas no que sobressai em cada relação observador/observado. Assim, a lua que inspira poesia em um, poderá inspirar medo em outro. Precisamos saber o mundo de cada um, ou como cada um vê o mundo (RODRIGUES, 2011, p. 41).

Perante estas acepções do existir, o ser humano tem percorrido adentrando em um processo de angústia e sofrimento, já que viver com outros é conviver com diferenças, estranhezas, normas, preconceitos, discriminação, e é estar inserido no que a sociedade considera correto ou errado, ser o que os outros querem, entre outras coisas.

Portanto, é percebido que a singularidade é construída diante de toda esta gama de fatos e aspectos culturais no qual estamos incorporados. Porém, ser si mesmo no mundo é estar imerso neste coletivo, é se constituir doravante às diferenças, pois a partir destas também vamos nos reconhecer e, com isso, exercitar a alteridade. Boss (1963, p.34 apud COSTA, 2005, p.45) nos diz que: “Ser-no-mundo consiste na maneira única e exclusiva do homem existir, se comportar e se relacionar às coisas e às pessoas que encontra”.

Contudo, a construção da subjetividade está relacionada com a formação das identidades do sujeito, que, segundo Ronilk (1997), procura-se uma “identidade perfeita” baseada em modelos capitalistas e que diretamente exercem um registro nos sujeitos ao passo que pode gerar uma despersonalização, um assujeitamento, um deslocar-se de si mesmo.

Segundo Guatarri (2005), a subjetivação produzida pela sociedade capitalista não está vinculada a significados e as significações do meio onde se vive, não há uma preocupação de  identificações com polos maternos e paternos, mas sim, “trata-se de sistemas de conexão direta entre as grandes máquinas produtivas, as grandes máquinas de controle social e as instâncias psíquicas que definem a maneira de perceber o mundo” (GUATARRI, 2005, p. 35).

Este mesmo autor, percorrendo por estes caminhos da subjetividade, nos relata que singularidade é diferente da subjetividade, onde a produção da subjetividade está vinculada à economia, ao setor industrial, em que esta promove a ciência dos robôs. Robôs pelo fato de serem normatizados, pois na sociedade capitalística a singularização não existe, a subjetividade torna-se coletiva, não havendo subjetividades individuais. Mas que existem várias teorias da subjetividade, como também há vários elementos que a configuram, devido a este processo de subjetivação ser manipulado por esta sociedade de máquina e poder. Neste sentido, ele classifica a subjetividade sendo: “a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro social” (GUATARRI, 2005, p. 40).

Nesta perspectiva, Guatarri (2005) disserta explanando que o processo de singularização é eliminado nesta sociedade massificada, que impregna na vida das pessoas, sistemas automodeladores reprimindo as vontades, os desejos e qualquer outra coisa no sentido singular.

A subjetividade está em circulação nos conjuntos sociais de diferentes tamanhos: ela é essencialmente social, e assumida e vivida por indivíduos em suas existências particulares. O modo pelo qual os indivíduos vivem essa subjetividade oscila entre dois extremos: uma relação de alienação e opressão, na qual o individuo se submete a subjetividade tal como a recebe, ou uma relação de expressão e criação, na qual o individuo se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização (GUATARRI, 2005, p. 42).

Partindo deste contexto, o mesmo autor retrata “todos os devires singulares, todas as maneiras de existir de modo autêntico chocam-se contra o muro da subjetividade capitalística” (GUATARRI, 2005, p. 59).

E complementa:

O traço comum entre os diferentes processos de singularização é um devir diferencial que recusa a subjetivação capitalística. Isso se sente por um calor nas relações, por determinada maneira de desejar, por uma afirmação positiva da criatividade, por uma vontade de amar, por uma vontade simplesmente de viver ou sobreviver, pela multiplicidade dessas vontades. É preciso abrir espaço para que isso aconteça. O desejo só pode ser vivido em vetores da singularidade (GUATARRI, 2005, p. 56).

 

Dentro desta sociedade contemporânea vivenciada pelo sistema capitalista surgem duas forças que têm exercido forte influência nos modos de subjetivação das pessoas na sociedade atual: um trazido por Debord (1997), chamado de “Sociedade do Espetáculo”, e outro por Lasch (1984), como “Cultura do Narcisismo”.

Considerando que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (DEBORD, 1997, p.14 apud COSTA, 2005, p. 51). Já a cultura do narcisismo, caracterizada por Birman (2000b, p.25 apud COSTA, 2005, p. 52), é dada “pela impossibilidade de poder admirar o outro em sua diferença radical, já que não consegue descentrar de si mesmo”.

Porém, uma sociedade marcada pelo comportamento do narcisismo e/ou a vivência do espetáculo, não reconhece e não permite o sujeito ser si mesmo, cujas comtemplando à aparência, provocam um distanciamento da singularidade, causando uma anulação das próprias vontades, desejos e a satisfação pessoal. Portanto, a aparência como um “ideal” provoca uma despersonalização, contribuindo para uma subjetividade homogênea onde as diferenças terminam não existindo.

Neste processo acontece a negação do diferente, o não reconhecimento do outro, limitando a diferença e fazendo uma agregação do outro, do pensamento distinto, sendo assim, impossibilitando ser na alteridade. Com estas implicações, as inquietações surgem, pois estamos imersos no meio onde influenciamos e somos influenciados, causando um desconforto pelo fato de muitas vezes não haver a distinção do que é meu e do que é do outro.

Doravante esta reflexão do influenciar Moscovici (2011), relata que a influência acontece quando existem dois lados; um considerado fonte e o outro alvo. Neste sentido, a fonte teria o papel do emissor, emitindo a influência sobre o segundo _ o alvo, sendo este, o receptor da influência. A este movimento ele chama de assimetria e configura como um processo recíproco por implicar ação e reação de ambos os lados.

Perante esta assimetria o autor direciona um lado como ativo, o qual goza da verdade e das normas no contexto social, este sendo, uma maioria e considerando pessoas que possuem um peso psicológico maior, vistas como um lado positivo e direito.

Quanto ao segundo, seria classificado como passivo, o qual se submete, enquadrado em uma minoria por expressar uma opinião diferente e classificada de errônea, diante destes fatos este grupo ou indivíduo são privados das próprias opiniões, apontados como um peso psicológico menor, por serem uma minoria e não terem sido investidos de autoridade.

Partindo deste aporte ele aponta:

tudo se encontra, pois, concentrado em torno do polo das relações sociais onde se reúnem aqueles que determinam os elementos desta cultura. São os que estão autorizados a decidir o que é verdadeiro e bom. Toda opinião divergente, todo juízo diferente, representa um desvio em Relação ao que é real e verdadeiro. Inevitavelmente, é o que ocorre quando o juízo emana de um indivíduo ou de um subgrupo minoritário (MOSCOVICI, 2011, p.15).

Percorrendo por toda esta gama de aspectos é perceptível este emaranhado do sujeito e meio social onde convive, este é um retrato da sociedade contemporânea, em que as pessoas normalmente não possuem escolhas autênticas, escolhem pela maioria ou um líder. No entanto, a diferença afasta a interação real e a submissão e repressão aparecem diante às atitudes autênticas, contudo a independência é necessária para uma afirmação de si. Nesta contextualização Moscovici (2011, p.16) diz “um indivíduo define seu eu em referência ao grupo ou às expectativas sociais, e não pelo que ele espera do grupo ou da sociedade”.

Através destas explanações pode-se observar o quanto o indivíduo vem tecendo sua teia de ser-si-mesmo e ser-com-o-outro, pois, apesar de encontrar-se tão entrelaçado ao coletivo ele também pode fazer suas próprias escolhas, mesmo que isto o leve a uma exclusão, já que a sociedade tem uma grande dificuldade de respeitar a diferença, produzindo um exercício de uma sociedade homogênea, devido a esta realidade a influência social acarreta um bloqueio, igualando a particularidade e a individualidade das pessoas, acarretando uma perda de singularidade.

Percorrendo por este caminho o indivíduo pode trilhar ser conformista, aceitando a influência para obter aprovação do outro ou torna-se independente, buscando soluções para os problemas e satisfação das suas necessidades. Dialogando com Moscovici (2011) ele sinaliza a personalidade dependente, sendo esta, com uma maior facilidade de submeter-se e representando a “fraqueza”, e a personalidade independente, esta, com uma linha de recusa a submeter-se, representa a “força”. Partindo deste direcionamento o comportamento do sujeito, a forma de sentir-se seguro e dono de si, será fundamental para suas próprias decisões, percebido por este mesmo autor que o ambiente pode ser favorável ou não, a essas nuances.

No entanto, o conflito gerado diante de ser-si-mesmo, causa uma mudança e um enfrentamento de angústia, mas o sujeito pode ser dono de si. “[...] O desejo de ser fiel a si mesmo, de ser um indivíduo único, é estimado em nossa sociedade como um alto valor moral” (MOSCOVICI, 2011, p.52). Aspecto este, o levará a diferenciar-se dos demais, pois, é responsabilidade do indivíduo a atitude de mudar. Considerando que muitas vezes o sujeito encontra-se forçado a uma submissão, sendo obrigado a fazer ou dizer o que não quer, justamente pelo fato do medo de ser tratado com indiferença ou ser excluído. Porém, “o fato de ser diferente reflete uma necessidade de diferenciar-se dos outros e o desejo de afirmar o que ele crê e julga importante. O fato de ser diferente traz consigo problemas e tensões” (M0SC0VICI, 2011, p.49)

Trazendo Birman (2007), para esta discursão na construção da subjetividade, o autor nos aponta o mal-estar-na-atualidade, com uma realidade não muito distante de épocas anteriores. Inspirado na obra de Freud: Mal Estar na Civilização, ele reflete sobre este mal estar do sujeito na modernidade, fazendo indagações relevantes sobre a condição da subjetividade atual.

Este autor traz que durante todo o percurso histórico tem acontecido fragmentação da subjetividade e esta fragmentação não se destaca em apenas uma nova forma de subjetivação, mas em outras modalidades forjadas. Aponta que, “todas essas novas maneiras de construção de subjetivação, o eu se encontra situado em posição privilegiada” (BIRMAN, 2007, p.23).

Diante de toda contextualização percorrida pode-se perceber o quanto a cultura, a sociedade, o coletivo, estão infiltrados ao nosso comportamento e a forma de como funcionamos, bem como nos constituímos perante nossa existência. Compreendendo que cada autor possui sua leitura a cerca do complexo tema ilustrado e olhando o quanto o individuo é identificado através das características condizentes á cultura onde está inserido, este, não possui todos os elementos desta manifestação cultural, mas é necessário o mínimo conhecimento para fazer parte dela.

Assim o que permanece é a dificuldade em conceber e aceitar as diferenças, sejam elas culturais, sociais e subjetivas, incidindo diretamente no acolhimento da alteridade submetida que é pela imposição de modelos normatizadores, modelos que, sem dúvida, são construídos e incorporados pela cultura (COSTA, 2005, p.18).

Percorrendo pelos aspectos e fatos explanados, é observado que não há uma subjetividade, mas sim, modos de subjetivação, devido ao constante movimento de nos constituirmos perante as experiências vivenciadas e assim, percebendo as inúmeras subjetividades existentes.

Contudo, o modo de subjetivação que nos encontramos, vai falar da maneira de como nos comportamos e lidamos com o coletivo, ao qual estamos inseridos. Coletivo este, não distinguindo de um grande grupo ou apenas entre duas pessoas; podendo citar como exemplo, a relação amorosa, sendo esta, contemplada no próximo capítulo.

A relação amorosa, considerada também como um movimento coletivo, pelo fato dos sentimentos, dificuldades e desconfortos, serem os mesmos de qualquer outro movimento com o número maior de pessoas.

Contemplando toda esta apresentação por mais que um conjunto social imponha os dogmas, não há como segui-los ou abonar a particularidade do indivíduo, pois, as diferenças existem e é fundamental conviver e se construir com elas. Perpetuando por esses aparatos a linguagem aparece como um dos principais instrumentos de cultura, pois, a partir dela, há uma socialização, comunicação, passa de uma para outra e principalmente muda-la.  E é a partir desta linguagem também que o sujeito reclama suas insatisfações, busca sua independência, se apropria um pouco de si mesmo exercendo sua singularidade, afinal, ele é capaz de modificar seus atos. Da mesma forma esta singularidade muitas vezes é revestida de angústia, dor, sofrimento e o indivíduo perde-se-de-si, imersos nestes sentimentos que afloram na dificuldade à prática da alteridade.

Referenciando a relação amorosa, justamente por ser um momento em que o sujeito tende a anular-se de si, pela grande mistura de sentimentos que se fundem, causando uma eliminação da singularidade; neste sentido a con-vivência com-o-outro, pode gerar um desencontro consigo próprio, ao meio das relações experenciadas.

 

2 A arte do encontro e desencontro de ser-si-mesmo e ser-com

É possível desafiar os conceitos que imperam, desatar fios que nos enredam, limpar o pó desse uniforme de prisioneiros, deixar de lado as falas decoradas, a tirania do que temos de ser ou fazer. Pronunciar a nossa própria alforria: vai ser livre, vai ser você mesmo, vai tentar ser feliz, seja lá o que isso for (LUFT, 2014, p.90).

Derivando destas objeções, este capítulo irá abordar um pouco do sofrimento psíquico que surge no discurso de clientes por fatores relacionados á discussão referente à construção da singularidade na relação com-o-outro. Permeado por estes conflitos que aparecem diante do não respeito às diferenças, fazendo o indivíduo perder-se-de-si, justamente por essa grande dificuldade de pronunciar sua própria liberdade, devido ao assujeitamento, muitas vezes vivenciado nas relações que compartilha.

Neste sentido reportam-se a vivência de relações em que o ser tende há uma anulação dos aspectos de identificação individual e de espontaneidade, ao mesmo tempo em que sua singularidade é constituída partindo do coletivo em convivência com os outros.

 Diante destas relações, vamos nos direcionar à discussão quanto as relação amorosas, sendo este um momento que geralmente está permeado por um encantamento em que os sentimentos associam-se ao outro e neste movimento, o qual parece ser um encontro ao outro, pode torna-se um des-encontro consigo mesmo.

Segundo Moscovici (2011), as pessoas preferem serem amadas e admiradas por outras semelhantes, no entanto, quando se é admirado e amado por quem é diferente, essa experiência não é comum. Pois, o que uma pessoa ama em outra, nada mais é, do que algo que parece ou reflete consigo próprio.

Quando, porém, é uma pessoa que é diferente que tem sentimentos positivos em relação a nós, sabemos intuitivamente que nos ama pelo fato de sermos nós mesmos, pela impressão que lhe produzimos. Seu amor, sua inclinação por nós são considerados como as consequências de uma ação específica, de uma mudança, da qual nós somos responsáveis e como resultado de um esforço que essa pessoa deve ter feito para superar as resistências internas e a distância externa que nos separava dela (MOSCOVICI, 2011, p.227).

No entanto, experienciar a singularidade, é ir ao encontro do outro podendo ser-si-mesmo e também permitindo o outro ser ele mesmo e é assim onde se caracteriza a alteridade, o respeito á diferença, reconhecendo suas limitações. Não é absorver o individualismo desta sociedade contemporânea, em que o eu prevalece sobre todas as coisas e o outro não existe, sendo negado o tempo todo, mais sim, a partir desta relação ser-com vivenciar uma construção contínua.

 Alves (2008) nos aponta que é impossível engaiolar o sentido, que não há como determinar os limites, pois não nos conhecemos o suficiente e que é importante ter um caso de amor com a própria vida. Quando não se espera nada da pessoa, ela está livre para ser aquilo que nunca foi, deve-se viver a vida, a partir de si próprio e não a partir do nome que foi dado ou do que é conhecido.

Contudo vivenciar uma relação a dois, desfrutando do enamorar-se, muitas vezes engaiola-se o sentido do viver-com, pois, o fato do outro está esperando algo nosso, nos aprisiona, começamos a fundir os sentimentos e muitas vezes começamos olhar mais para o outro, se distanciando dos próprios desejos para a realização de um desejo alheio e ao distanciarmos de nós mesmos, perdemos nosso próprio sentido.

Todavia, esta citação de Alberto Caeiro (apud ALVES, 2008, p. 28), traz a reflexão da importância do ser-si-mesmo: “Procuro despir-me do que aprendi, procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desencaixotar minhas emoções verdadeiras, desembrulhar-me e ser eu.”

Bernardo Soares (apud ALVES, 2008, p.41) escreveu: “Nosso problema está em nossa incapacidade de desembarcar de nós mesmos.” Vivemos tão aprisionados dos dogmas que devemos seguir, do comportamento ideal, do estilo coerente e do modelo a ser seguido que realmente temos dificuldade de desembarcar de nós mesmos, assumir nossas próprias vontades ou o que escolhemos para ser certo ou errado; da conta do nosso existir. Permitir-se ser autentico, assumindo sua singularidade não é tão fácil e simples e principalmente quando vivemos um relacionamento amoroso.

E com isso Alves (2008, p.59), cita: “Se convivemos bem com nossos rostos diferentes, por que haveríamos de querer que nossas ideias fossem iguais?”. Será que o que é diferente espanta? No entanto ele reflete que a alegria é o que se sente em encontrar aquilo que se deseja, e ao mesmo tempo configura a nostalgia como uma dor bonita, sendo um pedaço de si e que não se pode esquecer. Sendo assim, existir é isso, é estar imerso nestes acontecimentos e sentimentos, que ao tempo tudo está mudando. É se construir através das relações que nos compõe.

 “No mundo do ‘eu-tu’, o outro ouve atentamente e acolhe o tu como parte de si mesmo. E ao assim me relacionar, um mundo humano é criado ao meu redor, mundo em que as entidades não são objetos de uso, mas objetos de prazer” (grifo do autor, ALVES, 2008, p.202). Certamente, é este o sentido de ser-si-mesmo-com-o-outro.

Dialogando com Luft (2014, p.54), ela escreve: “Mas para a gente, esse indefinido ser é algo misterioso, sedutor e dolorido. É dizer adeus a si mesmo em cada fase”. É viver partilhando de encontros e despedidas cotidianamente, buscando aprender administrar nossa existência. Ainda a respeito, é a mesma autora (2014, p. 75) quem pontua que: “Possivelmente nem a queríamos administrar, porque isso significaria sair da alienação protetora para o susto das decisões. Enfrentar obstáculos e exercer o tão desejado - e temido - poder sobre nós mesmos, e desafiar a correnteza.”

Segundo Luft (2014), nossa vida tem que ser construída através da nossa própria vontade, pois senão, vamos sucumbir e nunca mais saberemos quem fomos e quem somos. Neste sentido, se não conseguimos ser nós mesmos dificilmente vamos deixar o outro ser ele mesmo e consequentemente dificultará a relação do ser-com.

Transcrevendo com Buber (1979), a relação é essencial da existência, pois, o homem é situado no mundo com o outro, onde esta configuração de estar no mundo com o outro, é introduzida a partir da palavra. Ele reflete, que a palavra mantem-se no ser, faz o homem situar-se no mundo com os outros, pois, ela liga dois polos, se instaura como revelação, sendo a palavra o princípio da existência humana, cuja, configurando-se entre as relações humanas.

Segundo este autor, a afirmação da existência não é original, por conta do ser existir através da relação. O homem é um ser de relação e não há eu em si, o eu se torna eu em virtude do tu, sendo assim, o eu só existe a partir da relação, com isso, o nós é que passa a existir, o movimento relacional é o que prevalece. No entanto, tem que haver uma independência do sujeito em relação ao representado, pois, nesta relação há um envolvimento de passividade e espontaneidade.

É a própria relação dialógica na medida em que o EU se vincula ontologicamente ao TU, sem que ambos percam sua realidade e atualidade. Tal atualidade, supõe ação e paixão, ou atividade e espontaneidade, uma autêntica alteração pois o EU age sobre o TU e o TU, sobre EU (BUBER, 1979, p. LVIII).

Nesta acepção, Buber (1979), contempla que o sentimento surge a partir de uma relação viva e matura e que o relacionamento define as coisas com uma soma das partes e acontece através da reciprocidade e neste movimento acontece o encontro. “Amor é responsabilidade de um EU para com o TU” (BUBER, 1979, p.17).

Segundo Costa (2005 apud GIDDENS, 1993), o ser que se mostra como autônomo e independente é ter condições de se relacionar com outras pessoas de modo igualitário, pois, o reconhecimento da singularidade não será uma ameaça à relação, mas uma interlocução aberta entre as duas pessoas, com a disponibilidade de troca e uma aceitação dos limites de cada um.

Decorrendo desta significação, não é um exercício do individualismo gerado na sociedade contemporânea, mas sim, o exercício ao considerar a alteridade, em respeito à singularidade de cada ser. Pois só assim, o indivíduo consegue crescer e relacionar-se com-o-outro; e sua subjetividade será construída diante dos acontecimentos vivenciados perante seu existir.

Em consequência desta gama de aspectos doravante o existir, ser neste mundo com o outro não é simples e o fato de ser si mesmo, também não é tarefa fácil implicando em muita angústia. A angústia é algo presente em nossas experiências cotidianas, principalmente frente as nossas relações, sendo um objeto também que nos impulsiona a transformar situações experimentadas no nosso existir.

Direcionando-se as relações amorosas, esta angustia surge no envolvimento com-o-outro. Para Alberoni (1988), classifica o enamoramento como: “É o estado nascente de um movimento coletivo a dois” (p.05). Segundo este autor, o movimento é categorizado como coletivo pelo fato das forças liberadas e atuantes, como os sentimentos, serem semelhantes e pertencerem à mesma classe, comparando-se aos movimentos coletivos de um modo geral; sendo a diferença, de acontecer apenas entre duas pessoas. Com isso, o autor aponta que o nós, o qual está sendo formado nesse movimento, se constitui, dividindo o que estava unido e une o que estava dividido e assim é formado o novo sujeito coletivo, onde citando a paixão como exemplo, é composto pelo par amante-amado.

No entanto, ao experienciar o enamoramento, este par, compenetra-se tanto, que os dois tornam-se um. Porém, “o enamoramento, portanto, sempre constrói algo novo a partir de suas estruturas distintas” (ALBERONI, 1988, p. 16).

Todavia como todo movimento, toda relação também, vivencia dilemas e deterioração, e o “enamoramento é o abrir-se de uma existência sem qualquer garantia de que esta se realize” (ALBERONI, 1988, p.23). Transcrevendo a partir deste autor, o enamorar-se, é concedido através do encontrar, perder e reencontrar, pois, nem sempre há uma continua reciprocidade. É um funcionamento onde o ser abandona-se confiantemente no outro, todavia, ou se consegue tudo ou se perde tudo.

Nesta intenção o ser envolve-se tanto, buscando uma igualdade com esta outra pessoa, ao ponto de surgir um movimento de renúncia, anulação de si próprio, sem que haja uma consciência de tais comportamentos, justamente, por encontrar-se em um grau bem elevado de encantamento com este outro. Discutindo com Alberoni (1988), ele sinaliza sendo esta uma experiência que acontece também, porque o sujeito apresenta-se insatisfeito com algo, demonstrando uma perca do próprio ser. Mas com o passar do tempo este excesso ao outro, logo se revela como excesso.

Trazendo Bauman para este contexto, surge à reflexão onde, ao que amamos, esperamos um reconhecimento, uma esperança de sermos amados e este amor, sendo a prova de tal estado de reconhecimento. Ele condiz também, que o fato de sermos amados é a contribuição para se ter amor-próprio, pois, com a negação do outro, haverá um surgimento da autoaversão. “O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros”. (BAUMAN, 2004, p.100).

Com este pensamento, o eu reflete, no sentido de que se sou amado, é porque tenho algo a oferecer e consigo ser respeitado. Partindo desta essência, se faz lembrar a consideração de Alberoni, ao falar, da insatisfação e da perca do próprio ser, este, precisando ancorar-se através da admiração de outro.

Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um _ o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas (grifo do autor, BAUMAN, 2004, p. 101).

Todavia ao experienciar o enamoramento, o sentido de singularidade é esquecido neste movimento a dois, confundindo e misturando a particularidade de cada ser. Discorrendo com Schettini Filho (2000), ele reflete que o amor aparece no encontro e ao mesmo tempo dissolve-se no desencontro, contudo, o que mais almejamos está dentro de nós e não fora. Referindo-se ao amor, ele cita: “O amor é a explicação mais simples e efetiva que encontramos para a grande questão da angústia humana gerada pela separação” (SCHETTINI FILHO, 2000, p.17).

Entretanto, este amor tão presente nos laços afetivos, principalmente aos enamorados, não aparece apenas como uma busca da felicidade, mas simultaneamente, aduzido de medo, angústia, dor da perda; nesta essência, é uma felicidade acompanhada de tristeza.

Correlacionando Schettini (2000), com as reflexões de outros autores citados anteriormente, sobre a questão da incompletude do sujeito, ilustrando uma leitura onde o ser estar sempre em busca de algo para se completar ou mesmo para sentir-se no próprio existir, é redigido: “Se nos sentimos como partes (incompletos), resta-nos buscar uma forma de sermos novamente inteiros (completos). Essa tentativa seria possível através da ligação amorosa. A tentativa do amor seria a possibilidade da unificação.” (SCHETTINI FILHO, 2000, p.19).

Para Fromm (1987 apud SCHETTINI FILHO, 2000, p.20): “No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um e, contudo, permaneçam dois”. É este paradoxo que acontece nesta vivência a dois, o tamponamento do singular, na suspensão das próprias vontades, em prol de outro, ou até mesmo podendo ser um movimento da própria idealização, em busca de determinada “completude”. Porém, esta completude, enquanto ser humano, dificilmente será alcançado, pois as experiências emocionalmente dolorosas são inerentes à condição do existir. Neste sentido segundo Schettini (2000), o amar não é torna-se dependente, posto isso, perder a pessoa amada não é perder-se com ela. Provavelmente, este seria o significado do amor próprio ou do estar apropriado de si.

Certamente o perder deve ser a angústia mais avassaladora defrontada pelo ser humano. Não só no sentido de perder algo ou alguém, mas no próprio perder-se-de-si; talvez esta seja uma das causas, de tantas pessoas correrem desenfreadas atrás do ter, buscando um domínio de pessoas ou coisas, na necessidade de apreciarem-se mais protegidas.

Há, no entanto, pessoas que ultrapassam o limite do ter em relação às coisas, querendo projetá-lo na sua relação com pessoas, tentando conquistar uma segurança que só encontrariam dentro de si mesmas. Se não houver segurança interior, fora só encontraremos ansiedade (SCHETTINI FILHO, 2000, p.34).

Portanto, nas relações interpessoais não há como usufruir do domínio, nem posse sobre a outra pessoa, o que se pode existir é uma reciprocidade do afeto, e é este afeto que nos deixa tão fragilizados e tão necessitados para o convívio com outro. Por isso, segundo Schettini (2000), a submissão acontece quando uma das partes aceita o individualismo exacerbado do outro e a convivência passa a ser uma continuidade individual de um tempo anterior, e ao mesmo tempo adverte, [...] “quando nos damos a alguém, também damos do que possuímos” (p.65). Contudo, a relação só existe de uma forma saudável ou até mesmo duradoura, quando a singularidade de cada ser é respeitada e cada um podendo ser-si-mesmo.

“Nas relações interpessoais, a grande conquista é o amor é o amor pelo outro e não o amor do outro” (grifo do autor, SCHETTINI FILHO, 2000, p.70).

Mediante tal contexto, Schettini Filho (2000) redige mostrando que, é primordial, antes de direcionar o amor ao outro, vivenciá-lo na relação conosco mesmo. Feito isto, estaremos preparados para lançar esse amor ao outro. Concretizando este fato, será produzida uma relação de satisfação, pois, não haverá a necessidade de desagradar a si mesmo, para agradar o outro, achando que com isso estamos amando.

 É ainda o mesmo Schettini Filho (2000, p. 75) quem considera que “Somos todos amadores, porque somos feitos de afeto. Amar é uma capacidade que compõe a trama da vida humana e permite às pessoas transcender o limite fisiológico, promovendo a aproximação e a interação entre individualidades”.

É justamente este desagradar a si mesmo onde o ser, passa a perder-se-de-si, é um deslace do encontro consigo próprio e a partir do momento que o sujeito percebe este movimento, começa a surgir à angústia. Angústia esta acentuada ao envolvimento com o outro de uma forma um pouco excessiva, causando ao sujeito uma desapropriação de si mesmo, sendo este um processo que gera desconforto, com isso, alguns mecanismos psicológicos de defesa podem aparecer como uma forma, de amenizar o sofrimento.

Porém, diante da demanda do perder, seja de qual forma aconteça, é algo que promove um grande sofrimento psíquico, entretanto, algumas perdas são necessárias para o desenvolvimento do indivíduo e se faz necessário uma coragem para mudar ou para não mudar também, afinal a pessoa possui a responsabilidade, de como ser e estar no mundo. Todavia: “Amar é arriscar-se à rejeição e à perda, mas também é tentar não viver as dores de uma alma vazia” (SCHETTINI FILHO, 2000, p. 100).

Diante das reflexões apresentadas é notório e comum, o quanto o ser humano encontra-se imerso nas angústias, dores, sofrimentos vivenciados no seu existir e muitas vezes não conseguindo velejar nesta maré, procura o espaço psicoterápico para poder buscar uma forma de lidar melhor com os desencontros e desencantos experenciados, e neste processo poder apropria-se um pouco mais de si, se apoderando do presente de maneira mais apropriada com suas escolhas perante sua existência.

3 A Clínica Psicológica: espaço de acolhimento e cuidado

“Se por um tempo mergulhamos em nós mesmos, é para esquadrinhar nossas forças e organizar a nova forma de viver” (SCHETTINI FILHO, 2000, p.28)

Olhando para esta citação, certamente podemos refletir quanto ao espaço psicoterapêutico, em que o indivíduo vai à procura de retomada de seu cuidado. Justamente por viver neste emaranhado do ser-si-mesmo no registro do coletivo, as relações que comunga e essencialmente, por ser responsável e o autor principal, dessa grande trama que é a existência humana. 

“O nós não existe por si só, mas se constitui a partir do eu e você e é um limite de intercâmbio onde duas pessoas se encontram. E quando nos encontramos lá, eu, mudo e você muda” (PERLS, 1977a, p.21 apud RODRIGUES, 2011, p.187).

Partindo destes pressupostos, Birman (2000b apud COSTA, 2005, p.54) dialoga sobre todo esse contexto falando da construção da identidade que o sujeito vem passando, sendo esta uma questão que reverbera na clínica psicológica.

Esta crise identitária, como alguns autores caracterizam, tem causado um enorme sofrimento psíquico ao individuo, sentimentos como angústia, desamparo, fragilidade, entre outros que tecem nesse mesmo sentido, têm aumentado.

Outro sofrimento trazido por Birman (2000b apud COSTA, 2005, p.53) é em relação às psicopatologias, como a depressão e o pânico, que vêm sendo comuns na experiência de sujeitos que procuram os cuidados na clínica contemporânea. Todas essas adversidades estão sendo constituídas na sociedade atual.

Esta sociedade exige um ‘sujeito cheguei’ sendo a incapacidade dos depressivos e panicados a de corresponder essa exigência. O panicado vive o pânico permanente de se expor a uma situação de espaço público, de se colocar sob o olhar dos outros; o deprimido, por sua vez, é aquele que sofre de um excesso de interioridade, não tendo, capacidade de ocupar o lugar da exterioridade (COSTA, 2005, p.53, aspas do autor).

Neste sentido, pode-se fazer um recorte onde Heidegger (1987, p. 197 apud LINS, 1997, p. 98-99) escreve, “nós nos encontramos, antes de tudo e cotidianamente, a maior parte das vezes, a partir das coisas e é assim que somos revelados a nós mesmos na nossa ipseidade, na nossa identidade própria, singularizada, única”.

Todavia, a psicologia clínica encontra-se com-o-outro, através da escuta, sendo a fala do cliente o veículo condutor para acessar o cuidado que se apresenta no espaço da clínica psicológica e, sobretudo, deixando o outro ser ele mesmo, sem nenhuma restrição, pois é naquele espaço psicoterapêutico que o psicólogo irá receber e estar disponível para acolher o outro com toda sua diferença, em que, a partir desta relação, a confiança irá emergir, fazendo com que este outro, que se sentindo acolhido e compreendido nas suas diferenças, possa “despir-se” em todo seu íntimo, podendo ser ele mesmo.

Neste sentido, diante da sua experiência, Barreto (2006, p.14) retrata: “Acolho as falas de meus clientes a qual desvela algo do que necessitam a fim de poderem viajar pela existência”. A mesma autora traz a ação clínica “como abertura de acolhimento para algo que não se conhece, com disponibilidade para se lançar nas complexidades da abertura do ser-aí". (BARRETO, 2001, p.110 apud BARRETO, 2006, p.13).

Partindo desse pressuposto, segundo Costa (2006, p.68), “clinicar é dispor-se ao encontro com o outro em sua alteridade buscando-se através da afetabilidade, da compreensibilidade e da comunicabilidade criar espaços de acontecimento de uma experiência intersubjetiva produtora de sentidos”.

Contudo, a clínica acontece a partir de uma relação de troca, onde exista uma afetação para poder compreender e entrar em contato com o cliente; é estar disponível para a escuta, respeitando o outro na sua dor e percorrendo pelo caminho do cuidar, em que o outro também vai se cuidando e se responsabilizando por si mesmo.

A partir da relação terapeuta-cliente, a qual acontece ao se estabelecer um vínculo de confiança, a pessoa passa a descrever os fenômenos que vão emergindo no momento presente. O psicólogo precisa se afetar também nesta relação para ela acontecer, este, também necessita se acessar e estar livre para o outro, ocorrendo uma aceitação do modo como o outro se apresenta, não o categorizando e sim respeitando toda sua dor e angústia.

Portanto, a clínica psicológica é um espaço de acolhimento, para todo desamparo e tristeza discorridos e vivenciados pela pessoa que procura este lugar. É o espaço que está aberto a aceitação da singularidade de cada pessoa, com o sentido de cuidar de todos os desafetos e situações desalojadoras.

Discorrendo por estas caracterizações, o espaço psicoterapêutico não está preocupado em explicar os fenômenos relatados na fala do cliente, mas sim, a partir da linguagem falada, a pessoa procurar uma compreensão, buscando um sentido para o desamparo, ao qual ela se encontra no momento.

Porém, a clínica em consonância com o papel do psicólogo é estar em uma posição de facilitar o cliente ser ele mesmo, se percebendo e acatando outros caminhos, é procurar adaptar-se ao presente e dar um novo significado sentido ao mesmo.

Sendo a fala um dos instrumentos do psicólogo, é através desta onde o próprio cliente vai encontrar-se, aceitando suas estranhezas, olhando para suas diferenças e as de outrem, para assim poder se transformar e enxergar um novo percurso.

No entanto, o espaço psicoterapêutico é um momento de pensar e refletir sobre as experiências, é olhar para o oculto que está se apresentando, contribuindo de um modo a encarar melhor a realidade e poder ser mais autônomo diante das suas escolhas. É encontra-se defronte o medo, o terror; não negando as insatisfações, raiva, dor ou qualquer outro sentimento que surja, sendo positivo ou negativo, mas que, no entanto, está incomodando... Porém, se faz necessário encara-los para poder libertar-se.

Como declara Kornfield (2010, p. 119): “Viver é arregaçar as mangas e encarar a encrenca”. Com este processo, as circunstâncias serão aceitas com mais respeito e a pessoa tende há relaxar um pouco mais, honrando suas lágrimas para poder seguir adiante, com a consciência que a mudança ocorre partindo do próprio interior. No entanto, Alberoni (1988, p.104), adverte: “Renascer significa voltar ao inferno da vida inevitavelmente, encontrar a dor”. E neste sentido, a vida vai se confirmando na solidez do cotidiano.

Em frente a esta exposição, o psicoterapeuta passa a ser um testemunho do sofrimento, da dor, de quem está narrando sua história. Segundo Axline (1991), relatando sobre sua própria experiência, nos mostra a importância do psicólogo passar confiança ao seu cliente, no intuito de deixa-lo mais seguro e responsável por si mesmo e poder assim, ajuda-lo a conseguir sua independência emocional. Sendo assim, é uma forma de respeitar o tempo do outro, e este, acessar melhor seu mundo.

Quando a liberdade de iniciativas abre-se para o indivíduo, sua escolha recai nas atividades em que se sente mais seguro. Qualquer exclamação de surpresa ou elogio pode ser interpretada por ele como indicadores da direção que deverá seguir. E, com isso, outras esferas de exploração são fechadas, representando perdas da maior importância. E esta é a sua oportunidade de encontrar suas novas estradas redentoras (AXLINE, 1991, p. 57).

O enfrentamento do real seria a forma mais promissora de ajudar, pois, o terapeuta na clínica possibilita o cliente, apropriar-se um pouco mais das suas escolhas, com a compreensão que pode se responsabilizar por elas, mesmo não sendo muitas vezes, as mais coerentes, mais são dele. E com isso, o único que pode cuidar e dar conta delas, é ele próprio. Segundo Prado e Caldas (2013), a compreensão é essencial na psicoterapia, pois, compreender o modo que se apresentam as infinitas possibilidades do ser, abarcando a própria angústia, como uma variação deste ser, o paciente apropria-se mais da sua forma de existir. “[...] somente na disposição da angústia pode-se nos compreender como seres de possibilidades” (CALDAS, PRADO, 2013, p.95)

Entretanto, esta angústia que leva o ser a procurar o espaço psicológico, apresenta-se não só como sofrimento, mas também como uma possibilidade de sair dos dissabores, o qual se encontra e abrir-se para algo novo; e não fugindo dela para acomoda-se aos dilemas pessoais. Partindo dos escritos de Calda e Prado (2013), é observado em nossa existência, algumas situações que provocam incomodo como: frustração, carência, fraqueza, depressão, estresse, ou qualquer outro sintoma que apareça, como uma forma de mostrar que não podemos mais ficar na mesma disposição, perante isso, a angústia nos leva a fazer outras escolhas.

Referente aos modos de ser e a importância do compreender Heidegger (2008, p.422 apud CALDAS, PRADO, 2013, p. 101) registra:

Apreendido de modo existencialmente originário, compreender significa: ser, projetando-se num poder ser, em virtude do qual a presença sempre exista. O compreender abre o poder ser próprio de tal maneira que compreendendo, a presença, de algum modo sabe a quantas anda. Esse saber não significa contudo, ter descoberto um fato mas manter-se numa possibilidade existenciária. O não-saber que lhe corresponde não significa ausência do compreender mas deve ser considerado um modo deficiente de projetar o poder-ser. A existência pode ser digna de questionamento. Para que este questionamento seja possível, é necessário uma abertura.

Partindo deste aporte, Barreto (2011, p. 10 apud CALDAS, PRADO, 2013, p. 103), expressa, que o homem em sua existência, diante das infinitas aberturas ao ser, pode perder-se ou apropriar-se do seu existir. Neste sentido, seguindo estes autores, é percebido que a ação clínica não objetiva, nem garante a eficiência, pois, é um movimento do ser-com, a maneira portada pelo terapeuta e paciente, possibilita a ação clínica. E a partir deste movimento, quando o paciente procura a clínica com seu sofrimento, na percepção do perdido-de-si, ele já está se apropriando e cuidando desta inquietação e sendo mobilizado, através do dialogo com o terapeuta ouvir o que o sofrimento aponta e sendo assim, perceber outras possibilidades do ser.

Por meio desta exposição Alves (2008), se expressa trazendo: “São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer” (p.12). Para ele o sofrer cria uma beleza, a qual, não extingue a fatalidade, mas a torna suportável e compara com o artista, onde possui a capacidade de criar o belo com o insignificante. Certamente, o espaço psicoterapêutico é um momento para aflorar o artista que existe em nós, reinventando e colorindo o que estava precisando ser transformado.

Partilhando com Schettini Filho (2000, p. 47), “Não se trata de viver apenas com o que restou, e sim, viver com toda a vida que está em nós. E essa é inesgotável”. E diante deste sentido, Buber (1979), nos fala que, ao fazer estamos criando, quando inventamos estamos encontrando e ao dar forma estamos descobrindo. “A arte “se encarna”: seu corpo emerge da torrente da presença, fora do tempo e do espaço, para a margem da existência” (aspas do autor, Idem, p. 16). Continuando neste mesmo segmento, o autor nos retrata dos reflexos, como sendo uma ferramenta essencial para a pessoa na construção do seu mundo.

Portanto, podemos elencar o espaço clínico como um acolhimento ao sujeito, diante todas suas angústias, incertezas, sofrimento e ao mesmo tempo fazendo deste recinto, um lugar de abertura para o encontro consigo mesmo. Para Figueiredo (1996 apud COSTA, 2005, p.67), a clínica enquanto ética “está comprometida, com a escuta dos interditados e com a sustentação das tensões e dos conflitos. Talvez o clínico seja a escuta de que nosso tempo necessita para ouvir a si mesmo naquilo em que lhe faltam as palavras.”

Portanto, clínica e cliente formam uma sincronia para uma compreensão dos fatos ocorridos, com a intenção de direcionar os desafetos experimentados. Neste aspecto, ambos estão desfrutando do cuidado. Um cuidado para consigo com a relação e um cuidado com o outro. Permeado por esta interlocução o terapeuta se disponibiliza a cuidar do cliente e o convida para cuidar de si mesmo, percebido que o cuidado é uma condição humana, por isso, é inerente a clínica, ele não só cuida como zela, dando sentido ao que emerge. Este é o sentido da clínica: o cuidar.

Dessa forma, o instrumento de trabalho do psicólogo é ele mesmo. Ao cuidar da vida de outros, fica diretamente implicada a revisão e exame de sua própria vida, de sua personalidade, conflito, frustrações. Em outras palavras, é sua sensibilidade experenciada no encontro com o outro que propicia a condição de conhecimento, compreensão e comunicação para o cuidado e a cura. (MORATO, 1999 p. 69 apud COSTA, 2005, p. 71)

Contudo, para acontecer este encontro do terapeuta e cliente, é fundamental a eminência da fala, como já vimos anteriormente e esta fala é caracterizada como uma expressão de linguagem, e ao falar consequentemente, estamos ouvindo. Sendo esta escuta não só para o terapeuta, mas para o próprio cliente onde neste momento, está ouvindo sua própria voz, percebendo os desalojamentos que ela grita e com esta intervenção, encontra-se consigo mesmo.

Heidegger (2003, p.10 apud PRADO, 2009, p. 24), nos propõe a pensar o significado da linguagem como: “[...] alcançar de tal modo a fala da linguagem que essa fala aconteça como o que concede e garante uma morada para a essência, para o modo de ser dos mortais”.

Segundo o autor, a fala apresenta-se na linguagem, e a partir desta fala encontramos um poema, em sentido de ser pleno no seu dizer. Mergulhando nesta significância a fala aparece como poesia e assim reporta: “É a fala cotidiana que consiste num poema esquecido e desgastado, que quase não mais ressoa” (HEIDEGGER, 2003 p. 24 apud PRADO, 2009, p. 25). Seguindo o mesmo autor, ele frisa que na poesia, o pensamento é singular e não há como penetrar na ciência ou filosofia, o poeta tem que estar afinado com a tristeza.

Dialogando com Prado (2009), inspirado nas leituras de Heidegger (2003), nos demonstra que o homem alinha-se na linguagem como moradia própria de sua presença, e que a palavra e pensamento andam vizinhos, articulando a palavra emergindo a poesia e o pensamento como linguagem; sendo este o sentido da fala está interligada a linguagem.

Doravante esta percepção, o espaço clínico também aparece enquanto espaço de linguagem, seja ela, através da fala ou do silêncio, mas propiciando um espaço único e singular, para que o poeta possa emergir, dando sentido ao seu mundo.

Notando como à língua aparece enquanto meio qual estamos imersos, e nos constituímos através dela, sendo um instrumento que nos interliga ao mundo-com-outros;no espaço clínico é de suma importância, pois é um meio primordial para relação poder acontecer e o vínculo ser formado. Entretanto, comungando com tais explanações, neste espaço foi observado uma abertura para a transição poética a partir da fala.

Segundo Barreto (2006), esta transição distingue-se enquanto, fala cotidiana e fala poética. A primeira pelo fato de ser expressa no sentido impessoal do ser, o qual, o leva a fugir da angústia, tamponando suas responsabilidades de decisões e escolhas e não conseguindo entrar em contato com seu próprio silêncio. Na segunda “fala poética (poieses), abre-se como disponibilidade para a escuta do que não está plenamente disponível, desvelado; solta a linguagem para a aventura de descobrir e recriar o sempre novo de si e do mundo” (BARRETO, 2006, p. 170).

Diante este âmbito a poieses configura a ação clínica, dando o sentido de representar a libertação de tais conflitos e desalojamentos do ser, promovendo através do diálogo a compreensão e afetação do modo em que se encontra, e perante tal momento poder re-significar o caminho percorrido.

Em suma o espaço clínico psicoterapêutico, não se configura apenas em um lugar de acolher o sofrimento, mas, sobretudo, um lugar de arte, onde o artista: reinventa, da cor, cria e re-cria, postulando novos significados e sentidos, as suas telas preta e branca, as quais o levaram a procurar este refúgio, e assim, poder sentir-se um pouco mais apropriado de si, para continuar a caminhada em sua existência.

 

4 Considerações Finais

Acentuamos a importância de compreender a reflexão sobre a construção da subjetividade permeada pela cultura, identificando a singularidade do ser e percebendo o quanto esta se dispersa no entrelace das relações; direcionamos esta pesquisa para discutir a relação amorosa nas situações de anulação de si no que concerne a um modo de reprodução do coletivo, sua presentificação, diretamente interligando a singularidade do ser, postulando a experiência do ser-si-mesmo e ser-com debruçando-se pela alteridade.

Este homem é lançado para-fora-de-si, na existência, vivenciando o ek-xistir na facticidade do ser-no-mundo, ou seja, ele está dentro do mundo.

Destacando o sujeito no perder-se-de-si, diante este encontro com-o-outro, foi contemplado algumas possíveis constatações de angústia e sofrimento, sentidos na experiência da anulação de ser-si-mesmo com o outro. Sentimentos estes que levam sujeitos a pro-cura pelo espaço clínico psicoterápico.

As construções que tomaram formas doravante as dissertações pesquisadas para a conclusão deste trabalho, foi de uma imensa relevância para o tear do aprendizado, configurando as diversas possibilidades aos modos de ser que se apresentam ao homem em sua existência, possibilitando uma maior inclinação e conhecimento, sobre teorias e conceitos, diante da temática apresentada.

Aproximando-se deste trilhar de uma forma especial, são notórios como tantos sentimentos encontram-se contidos e transbordando em vários momentos diante as relações vivenciadas, contudo, nada é fixo, sendo um movimento eternamente dinâmico e que a todo instante estamos buscando um ajustamento para as inquietudes da con-vivência, sendo esta, uma condição de ser e existir. No entanto, os significados e sentidos revelados através das relações, devem ser formados, a partir da singularidade de cada Ser. Com esta interpretação o indivíduo sente-se perdido diante sua própria singularidade e, muitas vezes, nem a conhecendo no seu sentido.

Posto isso, o ser aparece revelado em um desalojamento diante de si mesmo, muitas vezes não conseguindo diferenciar o que é seu e o que pertence ao outro. Debruçando-se neste contexto, surge um desencontro não só consigo mesmo, mas um desencontro com-o-outro, pois, só podemos existir na relação, partindo do ponto, de antes temos que ser nós mesmos, para poder deixar o outro ser ele mesmo também, na sua singularidade, este é o sentido de ser-si-mesmo e ser-com.

Observando este pensamento o homem encontra-se no mundo existindo nas relações com-outros, no entanto, direcionando-se a sociedade atual, surge um autocentramento do sujeito, com o qual, a subjetividade passa a ter um valor do externo, assumindo uma configuração estética.      Desta forma, surge um mal-estar ligado à subjetividade revestido de um suposto bem-estar. Pois, o outro não será admirado em sua diferença e singularidade, cujos, sendo elementos da alteridade.

Então como buscar este ajustamento em ser-si-mesmo-com-outro? No entanto, o mal estar da atualidade, será o desejo subjetivo, conectado a aprovação do outro?

Vivemos tão aprisionados dos dogmas que devemos seguir, do comportamento ideal, do estilo coerente e do modelo a ser seguido que realmente temos dificuldade de desembarcar de nós mesmos, assumir nossas próprias vontades ou o que escolhemos para ser certo ou errado. Numa palavra: temos dificuldade de dar conta do nosso existir.

Contudo, na experiência de ser-si-mesmo é que podemos ser-com, não é o fundir-se em ser igual ao outro, nem ser opostos mais complementos. Partindo deste pressuposto, a alteridade será exercida em nós mesmos, com a presença do outro em nós e servindo de espelho para o estranho que nos habita. Entretanto, lidar com este outro é enfrentar nossas imperfeições apontadas o tempo todo por ele; é o se construir diante a diferença.

A questão da Diferença não deve se limitar à demanda ou a exigência de integração do outro, do pensamento-outro minoritário – o estrangeiro, o imigrante, o deficiente físico, o ‘drogado’, o transexual etc. - , mas ‘ao reconhecimento do outro’ e à possibilidade da emergência do sujeito no outro, na alteridade, no Diverso, no de Fora (TOURAINE apud LINS, 1997, p. 80, grifos do autor).

Contendo a inspiração deste aparato podemos citar Luft (2004, p.20), com: “Cúmplices de nós mesmos nesse solitário brinquedo do existir, alternamos trabalho duro com euforia cintilante, desejo de se ocultar atrás de fantasias e o ímpeto de arrancar as máscaras e finalmente ser”.

Postulando através da perspectiva fenomenológica existencial, é percebido este sentido como sendo, apenas um modo de ser, diante de todas as possiblidades que existem. É caracterizado como um fenômeno emergido no tecer das relações e na grande dificuldade encontrada em assumir sua singularidade, perante o outro, vendo que este outro simultaneamente, desvela algo nosso e estar com esse outro, é estar com nossa própria estranheza, nossas insatisfações e incertezas. E se deparar com toda essa realidade, não é nada fácil, podendo surgir um grande desconforto e desapropriação do ser. Devido a este enredo o perder-se-de-si surge, aportado em um desalento de angústia, dor e sofrimento. Infiltrado em tamanhos sentimentos, o ser aparece em sua fragilidade, esforçando-se para encontrar um equacionamento ou livramento em frente a tantos des-confortos.

Portanto, viver imerso neste misterioso e colorido mundo, não é estar apenas como criaturas, mas podendo existir com a finalidade de ser os criadores da própria história; superando os desafios e se encontrando aberto ao encontro consigo mesmo e com o outro.

Dialogando com as referências teóricas expostas, significa apenas um pontinho diante do imenso e sublime tema, pois, desde que nascemos já somos lançados neste vasto mundo e consequentemente, precisamos dar conta desta enorme teia que é: construir a singularidade ao meio deste grande outro.

E buscando a inspiração atribuída á Fenomenologia Existencial, toda esta construção e explanação, é apenas mais um dos infinitos cenários e perspectivas do homem ser um constante vir-a-ser, em seu modo de apreciar sua existência.

Observando como a singularidade é marcada neste encontro com-o-outro, em um sentido de muitas vezes, ser incapacitada de exercer sua autonomia, tanto em uma relação a dois, como na própria sociedade atual, devido à homogeneidade adquirida a estes movimentos coletivos, cujos, com poucos componentes ou muitos, mais concluindo o quanto os sentimentos e significados emergidos são os mesmos.

Contudo, a clínica aparece no sentido de inclinar-se, acolhendo o outro em toda sua dor e angústia, no sentido de cuidado; e com este intuito, convidar o cliente ao cuidado consigo próprio. E neste movimento o ser sentir-se mais seguro em frente suas escolhas e decisões.

Neste sentido, finalizo com a percepção de que o sujeito pode produzir e exercer sua singularidade em frente as tantas adversidades; mesmo deparado com a dificuldade do exercício a alteridade, não há como abonar a particularidade. Pois, foi elencada a importância do ser-si-mesmo, em razão de que a autonomia só existe, em respeito à diferença do outro; partindo desta essência, podemos ser-com e apropriar-se de si, entende-se assim que o modo inautêntico de estar no mundo também se apresenta como um modo de constitui-se subjetividade singularizando-se.

Então vou ao encontro com o sentido da Psicologia Clinica, perguntando: Até que ponto estamos nos cuidando para poder cuidar do outro? Mediante tal estudo, encontro-me muito mais próxima do sentido de ser psicóloga e do significado do espaço clínico, com uma forte atribuição a minha vida profissional.

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