Rapport

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(Tempo de leitura: 4 - 7 minutos)

Resumo: A instauração e manutenção da transferência no enquadre psicanalítico, viabiliza a possibilidade da psicanálise propriamente dita.  No processo psicoterapêutico, para que este seja possibilitado, há que haver o equivalente à transferência que é o rapport. Enquanto a transferência acontece num tempo variável podendo demandar dias, meses e até mais tempo, o rapport ao contrário pode ser facilitado e fomentado de várias maneiras. As mais conhecidas e comuns são dicas de conversação que visam de início “quebrar o gelo” e deixar o cliente mais relaxado e à vontade.  Essas dicas são boas, contudo ficam muito aquém do desejável, principalmente se considerarmos a exigüidade do tempo utilizado pelo profissional medico no atendimento clínico, bem como a importância da instauração e manutenção do rapport no processo psicoterapêutico.

Palavras-chave: Psicologia, Psicoterapia, Rapport, Empatia, Confiança, Transferência, Comunicação Inconsciente, Comunicação Subliminar.

Comunicação Inconsciente

O Inconsciente é também afetado por experiências oriundas da percepção externa. Normalmente, todos os caminhos desde a percepção até o inconsciente permanecem abertos e só os que partem do inconsciente estão sujeitos ao bloqueio pela repressão.

Constitui fato marcante que o inconsciente de um ser humano possa reagir ao de outro, sem passar através do Consciente. Isso merece uma investigação mais detida, principalmente com o fim de descobrir se podemos excluir a atividade pré-consciente do desempenho de um papel nesse caso; descritivamente falando, porém, o fato é incontestável.

Comunicação Subliminar

Um dos contemporâneos de Freud, o doutor Poetzle, teria feito uma das primeiras descobertas cientificamente comprovadas sobre a percepção subliminar, formulando a Lei de Exclusão.

Para Poetzle, um estímulo captado conscientemente não se manifesta nos sonhos subseqüentes, ou seja, ele demonstrou pelo estudo de casos e mediante experiências documentadas, que o conteúdo dos sonhos consiste em informações percebidas subliminarmente, sendo este o material processado nos sonhos. É a lei da exclusão.

A equipe de Poetzle documentou que os olhos realizam cerca de 100.000 fixações diariamente, sendo que apenas uma ínfima porcentagem destes focos se fixa conscientemente. O restante é subliminar.

Cerca de 90% dos estudos e pesquisas realizados na área da percepção subli-minar referem-se à comunicação visual. De acordo com mapeamento de complexos de neurônios da neurofisiologia, 87% da nossa arquitetura cerebral destina-se ao processamento de informação visual.”

A psicologia apresenta o primeiro conceito ao definir subliminar como qualquer estímulo abaixo do limiar da consciência, estímulo que – não obstante – produz efeitos na atividade psíquica. De acordo com a psicologia sensorial, a percepção é seletiva, segundo o interesse focado.”

Obtenção de Rapport

Uma tradição de longa data em hipnose requer que o hipnotizador “estabeleça rapport”, desenvolva uma empatia, um senso de confiabilidade e compreensão com o sujeito. De maneira semelhante, em terapia também se enfatiza a consecução de rapport, confiança, empatia e compreensão mútua. Através de seu trabalho, Milton Erickson desenvolveu certas estratégias para conquistar rapidamente a confiança e a cooperação dos pacientes, tanto no campo da hipnose como na atividade não-hipnótica. O rápido estabelecimento de rapport pavimentava o caminho para que Erickson desenvolvesse a terapia breve. Se levar muitos meses ou anos para se conseguir rapport em terapia, o processo necessariamente se arrasta. Erikson às vezes realizava tratamentos de uma só sessão e mesmo em processos terapêuticos mais longos ele operacionalizava intervenções já na primeira sessão.

Rapport

É uma palavra de origem francesa que literalmente quer dizer relação, traduzida como sintonia, harmonia, empatia, confiança. 

Afora os processos mais simples de estabelecimento de rapport através da conversação como os já citados, ele pode ser implementado de forma mais rápida.

Com a utilização de técnicas desenvolvidas por Milton H. Erickson, médico, psicoterapeuta e hipnólogo norte americano, é possível melhorar a relação medico-paciente estabelecendo-se rapport logo nos 4, 5 minutos iniciais da consulta ou sessão.

A fundamentação do método encontra respaldo tanto na psicanálise quanto nas pesquisas de Poetzle.

Freud reconhece como incontestável, o fato de o Insciente de um ser humano poder reagir ao de outro sem que informações passem pelo crivo da mente Consciente. Obvia-mente que ao nos utilizarmos desse conhecimento da visão periférica onde as imagens e movimentos se tornam sutis, e, imperceptíveis para a mente consciente a maior parte do tempo, podemos estabelecer comunicação com a mente inconsciente do nosso interlocutor através do espelhamento.
Poetzle postula que as imagens que estão fora do foco da atenção da pessoa, passam à sua mente inconsciente sem que ela se aperceba  disso.

Dentre as práticas Ericksonianas de estabelecimento imediato de Rapport, está o espelhamento da fisiologia da outra pessoa.  Esta técnica possibilita a comunicação de mente consciente para mente inconsciente evoluindo para uma interação de inconsciente para inconsciente O espelhamento pode ser feito de forma direta ou cruzada. No espelha-mento direto, imitamos a postura que o nosso interlocutor está usando, como se fôssemos espelho. No espelhamento cruzado, adotamos a mesma posição do nosso cliente, porém espelhando de forma oposta.  Estabelecer Rapport é portanto, espelhar e, espelhar é adotar de forma natural, os elementos da fisiologia e comportamento do outro. É importante termos em mente que o espelhamento deve ser feito sempre de forma discreta e elegante.

Outras formas eficazes para estabelecimento de rapport são: a) o espelhamento de movimentos repetitivos do cliente, bastando para isso que espelhemos aquele movimento com uma parte do nosso corpo, num movimento sincrônico porém de amplitude mínima,  b) o espelhamento da respiração da outra pessoa.
(Milton Erickson conseguia com muita paciência, espelhar a respiração de um catatônico até tira-lo da catatonia.)

Poderíamos estabelecer rapport antes mesmo do primeiro contato pessoal, quando por exemplo, a pessoa nos telefona para agendar uma entrevista inicial?
Sim.  Tanto pessoalmente quanto por tele-fone podemos espelhar:

    1. a altura (volume) da voz (alto, médio, baixo).
    2. o andamento da fala, ou  seja: lenta, normal ou rápida.
    3. a fala contínua ou entrecorta-da com pausas.
    4. a musica da voz.

OBS: Não devem ser espelhadas as limitações do tipo gagueira, asma, "tiques", posições causadas por defeitos físicos, etc. É importante lembrarmos que para dominarmos inteiramente as técnicas de rapport Ericksonianas, é necessário que estas sejam exercitadas e  saibamos que o uso intenso desse instrumento pode levar a relação ao nível da sedução. Tanto o médico quanto o psicólogo, - este, de forma mais acentuada, - devem estar atentos pa-ra a quebra de rapport sempre que esta se tornar necessária. Dessa forma evitam-se os problemas do excesso de rapport (sedução) e a conseqüente interrupção do processo terapêutico.
Para a quebra de rapport basta diferir da fisiologia ou comportamento do outro e o rapport estará sendo reduzido ou quebrado.

Conclusões

Esses instrumentos possibilitam o estabelecimento rápido do rapport.

As perturbações na relação médico-paciente podem ser minimizadas e melhor enquadradas, quando se utilizam as técnicas Ericksonianas de estabelecimento e quebra de rapport.

Sobre o Autor:

Joel Antunes dos Santos - Psicólogo, Psicoterapêuta Especializado em Psicoterapia Breve, Pós Graduado em Psicologia Médica pela  Faculdade de Medicina, Departamento de Psiquiatria e Neurologia da UFMG

Referências

HAYNAL e W. PASINI e M. ARCHINARD. – Medicina Psicossomática - Abordagens Psicossociais – Medsi, Brasil 2001 (orig. 1997).

SIGMUND FREUD. – Edição Standard Brasileira das Obras Completas de  Sigmund Freud – Imago, Brasil 1969.

FLÁVIO CALAZANS. – Propaganda Subliminar Multimídia – Summus  Editorial – São Paulo 1992.

WILLIAM HUDSON O’HANLON – Raízes Profundas – Editorial Psy II – Brasil  1994.

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