Solidão: uma Breve Reflexão Fenomenológica Sobre a Busca de Sentido na Contemporaneidade

(Tempo de leitura: 15 - 29 minutos)

Resumo: Esta monografia tem intuito de fazer uma meditação sobre a solidão como momento reflexivo, levando em consideração a contemporaneidade e seus possíveis desdobramentos, aspectos da existência e alguns prováveis  impactos subjetivos, sob o enfoque da fenomenologia existencial. Portanto, adotou-se o tipo de pesquisa bibliográfica. E, para elucidar nossos questionamentos, dialogou-se com textos de autores como Pompeia e Chauí, que se apropriam do pensamento Heideggeriano, como apoio em suas narrativas, na tentativa de atingir o objetivo da pesquisa. Questionou-se se o indivíduo deveria buscar pensar sobre o mundo, através de momentos solitários de reflexão, como forma de se aprofundar nas questões que o auxilie na busca de sentido, utilizando a clínica psicológica como possível situação de melhor apropriação de sua condição humana.

Palavras-chaves: Solidão, Contemporaneidade, Busca de sentido, Clínica fenomenológica.

1. Introdução

O presente trabalho tem como objetivo buscar uma reflexão sobre a solidão na atualidade, sob a ótica de uma perspectiva fenomenológica. Refletindo sobre a solidão e alguns possíveis impactos subjetivos do homem, e certos aspectos da nossa existência, gerados pela contemporaneidade, caracterizada por profundos processos de reorganização e mudanças. Buscando compreender a clínica fenomenológica como um lugar possível para a compreensão do homem como ser solitário na contemporaneidade, como uma das vias escolhidas por ele como possibilidade de maior clareza através do ato clinico, no intuito de procurar e se aproximar/apropriar de suas experiências.

A escolha pelo referido tema surgiu pelo inquietante pensamento, sobre a solidão não como ausência do outro, nem como tédio e muito menos como fobia social e sim como diz no poema de Fátima Irene Pinto (2004) “(...) Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma”. A solidão, nesse caso, ocorre de maneira gratificante, gerando fontes criativas de produção, um encontrar-se consigo mesmo, quando ficar só torna-se opcional. Procuramos, então, nos isolar para criarmos condições de enriquecermos e aproximarmos de questões existenciais básicas tais como: Quem eu sou? Porque existo? Para  que existo? Quem deve ser? Como viver? Para onde vou quando morrer? Questões das quais nos distanciamos por sermos condicionados a vivermos de acordo com o que a sociedade nos propõe.

Percebendo, assim, que o homem contemporâneo encontra-se cada vez mais solitário, vivendo em uma sociedade tecnocrata, globalizada e fragmentada que vem destruindo o significado, a transcendência e os relacionamentos. Consequência desse modo individual de viver em sociedade, por uma "separação espaço/tempo” GIDDENS, (2002) oferecidos pelos meios de comunicação atuais, que empobrece as relações humanas, havendo pouca estabilidade entre elas e de raro ou nenhum controle. Impelindo o individuo ao isolamento, a falta de sentido pessoal, a sensação de que a vida nada tem a oferecer, ficando apenas “um vazio”. Lembrando que o homem “(...) não é uma entidade passiva, determinada por influências externas  (...)” (GIDDENS, 2002, pag.9). Exerce função de contribuinte das influências sociais quando passa a usá-las para atender seu prazer mais imediato. Entretanto, o que seria próprio da condição humana: os questionamentos, as reflexões, os sentidos para a possibilidade de possíveis saídas, são substituídos por bens de consumo na tentativa de preenchimento da lacuna.

A nossa forma de vida veloz, agitada e nervosa provoca ansiedade e indagações dolorosas “por ver o tempo passar enquanto a vida permanece de certa forma, estagnada e sem vibração” (ANGERAMI-CAMON, 1992, p.25). Essa inquietação é inerente ao ser humano, pois nunca estamos satisfeitos, em plena homeostase. Porém, pode ocorrer de forma demasiadamente dolorosa - quando tentamos concorrer com as imposições midiáticas - ao ponto de torna-se patológico quando não há energia para criar novos sentidos -“Esta sempre faltando alguma coisa que, de fora, viria magicamente salvá-la”, (ANGERAMI-CAMON, 1992, p.25) - deslocando-nos do real para o imaginário/ilusório como fuga de questões fundamentais, afastamento de sentimentos que nos levaria a elaborar e dar  sentido a vida, como um momento de tentar compreendê-la.

Heidegger, em seu texto O caminho do campo, tem uma imagem bonita que nos ajuda a compreender isso: o grande carvalho, que se encontra lá no caminho, precisa mergulhar profundamente suas raízes na terra escura. É na obscuridade da terra que ele vai buscar a força que o manterá vivo, que lhe dará condições de expandir sua copa em direção à imensidão do céu (POMPEIA e SAPIENZA, 2004, p.66).

Segundo Pompeia essa angústia que Heidegger vai assinalar como disposição ontológica que nos possibilita um vir-a-ser-próprio, ou seja, aprendendo a lidar com sua condição de estar lançado no mundo com os outros, na inospitalidade.

Refletir sobre esse movimento, de “como” se apresenta a solidão, em momentos de busca de sentido, levando em consideração a contemporaneidade e seus desdobramentos através de uma aproximação da condição humana de modo a facilitar um olhar fenomenológico para a clínica/prática psicológica.

2. Referencial Teórico

A escassez da temática solidão em literaturas na área de psicologia, especificamente em uma perspectiva de clínica psicológica fenomenológica existencial, nos aponta para o quanto é pertinente provocar/instigar reflexões que alcance o prazer da interrogação.

Dessa forma, procurou-se, inicialmente, fundamentar/motivar nossa busca sobre solidão através de leituras de autores que viabilizasse a introdução dos pensamentos do filosofo alemão e analista existencial Martin Heidegger, que trata justamente a problemática do ser, como um ser esquecido pelas coisas do mundo, como análise existencial humana. Para isso, dialogou-se através dos estudos bibliográficos de Pompeia, autor que se aproxima fenomenologicamente  de questões existências básicas em seus escritos no livro intitulado Na Presença de Sentido: Uma aproximação fenomenológica a questões existenciais básicas, citando Heidegger, nos auxiliando na proposta de compreensão. Somando a apresentação de Marilena Chauí que convida a engendrar revelações sobre o pensamento Heideggeriano em Conferência e Escrito Filosófico, livro utilizado como ponto de partida para melhor compreender a existência humana, para pensar o homem como sujeito de consciência de si reflexivo.

Contudo, também nos apoiou-se de outros autores para compor os diálogos, com a necessidade de harmonizar o estudo, dentre eles Valdemar Augusto Angerami-Camon autor do livro Solidão a ausência do outro de 1992, considera o tema pouco explorado pela Psicologia, sua obra percorre vários aspectos da solidão, entretanto, nos detemos a exemplificar a solidão como tédio existencial na tentativa de pensar sobre a sensação de vazio sentida por nós em tempos tão velozes da contemporaneidade. Como também Ulisses Infante sobre literatura brasileira auxiliando na exemplificação de como o artista relacionasse com a sua produção, exposto no primeiro capítulo. Completando com uma importante obra de Walter Benjamin, filósofo alemão e também crítico de arte que exerce grande influência sobre o pensamento terminante da cultura moderna e contemporânea, que oferece um   conjunto   de   reflexões   sobre   a   arte  na   era   da  reprodutibilidade técnica, fornecendo base para pensarmos nos impactos subjetivos desse ato e  sua ampliação na realidade culturalmente construída pelo modo de relaciona-se com o mundo.

No segundo capítulo tentamos visualizar uma imagem da realidade dos relacionamentos humanos através da radiografia realizadas por Zygmunt Bauman (2004) em sua obra Amor Líquido (2004) que registra a “fragilidade dos laços humanos” termo utilizado por ele para explicar o conflito de estreitar laços e ao mesmo tempo por segurança mantê-los frouxos,  característica do tempo moderno em que vivemos. Em adição utilizamos outro livro do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2007) em Tempos Líquidos, o autor preocupasse com o desmonte dos mecanismos de proteção somados aos efeitos gerados pela modernidade especificamente a globalização que segundo Baumam, propiciou um ambiente inseguro, alimentando a angústia da vida na modernidade líquida.

Modernidade e Identidade, de Anthony Ginddens considerado um filósofo social, livro que trata das influencias exercidas pela modernidade nos indivíduos e as transformações que alteram de forma radical a vida social e cotidiana, Embora não seja uma obra de psicologia o assunto principal são os novos mecanismos que estão afetando os aspectos mais pessoas da nossa existência suas consequências e aplicações.

Victor E. Frankl (2002), psiquiatra austríaco, autor do livro Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. Relata a experiência vivida por ele em meio a dor e ao sofrimento, uma situação desfavorável vivida como detento em um campo de concentração, nesse período o autor observou a si mesmo, descrevendo como se sentiu, buscando razões para manter-se vivo.

O projeto existencial dos personagens de Clarice Lispector (1991) em sua obra Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres nos deram suporte para a utilização das experiências vivida por Lori, figura feminina, que se lança dentro de si incentivada por seu tão desejado Ulisses, personagem que vive sua existência de forma plena e propõe a Lori que faça o mesmo antes de celebrarem a vida juntos.

A utilização da dissertação de Luisa Manjorani Cardoso (2004), intitulada Da Experiência do Escutar/Dizer do Psicólogo – Na narrativa daqueles que dela partilham – a um sentido clínico atual apontado, marca o alcance do que foi proposto nos objetivos específicos, buscar a clínica psicológica sob a ótica fenomenologia como possível lugar para compreender o homem que pensa sobre o mundo através de momentos reflexivo/solitários. Lugar sugerido que auxilie  o homem a aprofundar-se sobre suas questões que o auxilie na busca de sentido, situação que o favoreça a apropriar-se melhor de sua condição humana.

Somando ao entendimento da clínica psicológica tomamos como referência, Os dois Nascimentos do Homem: escritos sobre terapia, educação na era da técnica de João Augusto Pompeia e Bilê Tatit Sapienza. Livro adquirido com o propósito de relacionar a Clínica, os pressupostos de Heidegger, muito utilizado por ele em sua prática clínica como psicólogo, completando as indagações geradas sobre a técnica bastante dominante na contemporaneidade.

2.1 A arte como expressão solitária humana.

A arte e a filosofia, diz muito das transformações do desenvolvimento humano, das manifestações culturais e ideológicas de uma sociedade, em comum traduzem a necessidade do homem de ampliar a compreensão do mundo, tomando como ponto de partida a realidade, recriando com sensibilidade e poder imaginativo através de lentes sensíveis. A proposta inicial é usar a arte, a literatura, especificamente o momento de produção artística como instrumento de expressão reflexiva, uma ação primeiramente solitária entre o artista e a obra, e depois entre a obra e o expectador secundada pelo pensamento de Martin Heidegger filosofo alemão que coloca como problema filosófico do “ser”:

O caminho que leva ao ser – pensa Heidegger – passa pelo homem, na medida em que este está sozinho para interroga-se sobre si mesmo, colocar-se em questão e refletir sobre seu próprio ser.  (...) tal como se dá imediatamente à consciência, a fim de elevar-se até o desvendamento do ser em si mesmo, último objetivo de toda reflexão filosófica (CHAUÍ, 1996, pág.7).

Quando o expectador é tocado pela arte acontece um fenômeno que POMPEIA e SAPIENZA (2004, pág.25) vai chamar de “reunião” por que há uma expectativa de comunicação entre o artista, à obra e o espectador. Ao criar, ele, o artista, escuta alguma coisa que lhe fala. Então, ele é tocado e eterniza esse momento, permitido que outros também a escutem. Por que a obra em toda sua criação: poesias, romances, teatros, esculturas.

Falam de um momento, de sentimentos, de experiência, de uma sociedade, de uma história, de uma época. E tornar-se especial quando ocorre a disponibilidade de escutar o que a obra tem para dizer: “É preciso que alguém ouça e acolha o que é falado para que haja comunicação” (POMPEIA e SAPIENZA, 2004, p.21). Ser tocado pela arte é lembrar o pensamento heideggeriano que todas as coisas falam para o homem através da fala do homem, um debruçar diante de um mistério que pode dizer coisas diferentes, a pessoas diferentes, dependerá do momento circunstancial em que o homem se encontre. A existência e a arte relacionam-se, nos fazem capazes de ouvir a voz das coisas que falam por intermédio da obra que emergiu que se manifestou através do artista.

As palavras tem essa condição fantástica, se bem reunidas, de fazer daquilo que era apenas uma possibilidade torna-se algo verdadeiro, algo extremamente particular que fala ao homem. Porque o produzir artístico nasce de observações e questionamentos internos e/ou externos, dirigido por conceito de beleza que fora construído da vivência do artista.

O romântico William Blake nos servirá de exemplo, pertencente à segunda geração romântica poética no Brasil usou como meio de expressão tanto a literatura como a pintura, como elementos de ampliação do mundo. Tornou-se um dos mais originas artistas da época séc. XX, por retratar através da poesia e da pintura sua visão do mundo espiritual, suas indagações e intuições como ele mesmo disse, “todo o artista é um profeta, uma vez que lhe é dada a intuição divina” (INFANTE, 2001, pag. 263). A obra singular desse artista, baseada na peça de  Shakespeare, Intitulada MacBeth, uma visão etérea do que seria a vida além-túmulo,

(Fig. A).

MacBeth, uma visão etérea do que seria a vida além-túmulo, por William Blake

O artista retrata em sua obra as indagações inerentes ao homem, sobre a morte e para onde iremos depois dela. Momentos reflexivo/solitários quando nos distanciamos da vida cotidiana, das coisas tidas como obvias assim como diz Heidegger que o “nada” se manifesta na angústia, “(...) na angústia, todas as coisas do mundo aparecem bruscamente como desprovidas de qualquer importância” (CHAUÍ, 1996, pág.8) e o artista abre essa possibilidade, através de sua obra de arte, fazendo com que o expectador também sinta a morte - se assim permitir - porque a obra não tem o objetivo de ser pensada, e sim para ser sentida, pois é preciso escutar, voltando Heidegger, o apelo do “ser”.

Atualmente, somos levados a padronizar esteticamente nosso modo de olhar, racionalizar a imagem, dando a ela um destino de mero objeto, esquecendo-se do que seria próprio e livre, o esvaziar das coisas do mundo para permitir que algo seja. A reprodução até a exaustão é uma prática muito comum em nossos dias, somos capazes de copiar desonestamente sem nenhum remoço utilizando um frequente termo “caiu na rede é de todos”. Como um ato de banalização o que demonstra a preponderância da massa sob si mesmo. A partir da leitura do filósofo Benjamin (2006) em seu texto sobre a reprodutibilidade da técnica, alega o momento da existência da obra de arte, o aqui e agora do original que compõe o conteúdo da sua autenticidade da seguinte forma:

Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar onde  ela se encontra. É nessa existência única, e somente nela, que se desdobra a história da obra (BENJAMIN, 1994, pág.169).

O autor conceitua esse momento próprio da criação de “testemunho” essa relação singular que não acontece na reprodução, pelo contrário, o que há é um afastamento do homem como ser que testemunha, que assiste, nota, observa, vê, protesta, o que seria próprio da subjetividade, se perde na ação de reproduzir, indo muito além da esfera individual, perdendo-se na técnica, na massa, quando as reações do individuo já são esperadas, as mesmas reações de um grande público, ou seja, são elas condicionadas.

Dessa forma, na contemporaneidade a arte é resumida a dois propósitos “Para as massas, a obra de arte seria objeto de diversão, e para o conhecedor, objeto de devoção” (BENJAMIM, 2006, p.192).

Diversão é a palavra de ordem do momento, não devemos hoje levar nada a sério, não fomos preparados para derrotas, perdas e frustrações por isso em adição aos fenômenos anteriormente descritos - distanciamento, autenticidade, testemunho - podem ser também percebidos nas relações contemporâneas, o que queremos expor é que estamos vivendo um momento de distanciamento das frustrações, procuramos mascarar nossos sentimentos sendo assim inautênticos, deixamos de assistir na direção de oferecer assistência às relações que deveriam ser afetivas no sentido de ser cultivadas para obtenção de prováveis frutos.

2.2 Solidão e a arte de relacionar-se na contemporaneidade.

Quando o assunto é relacionamento, percebemos certo desconforto generalizado, por ser hoje cada vez mais flexível, ninguém quer mais se sentir preso, ou dizem não querer para se defender da maleabilidade do parceiro então, prefere também não querer mais ter “compromisso”, palavra que nos remete a outros aspectos envolvidos, tais como: responsabilidade, cobrança, tolerância, cuidado, emoções, e principalmente, os “sentimentos” que geram, sobretudo, desconfiança. Na opinião de Bauman sobre as relações “não admira que os ‘relacionamentos’ estejam entre os principais motores do atual ‘boom do aconselhamento’” (BAUMAN, 2004, pág.09). O autor explica que as atenções humanas se focalizam em evitar consistência em seus relacionamentos, deixando-os frouxos, ao mesmo tempo em que desejam estreitar laços, procuram vínculos nas redes sócias, tornando-se ações antagônicas, entre conforto e desconforto, confiança e desconfiança, segurança e insegurança. Reafirmando o problema, continua Bauman:

A complexidade é densa, persistente e difícil demais para ser desfeita (...) os seres humanos que se veem em tais circunstâncias podem pedir ajuda a especialistas que oferecem seus préstimos em troca de honorários. O que esperam deles é algo como a solução do problema (...) (BAUMAN, 2004, pág. 09).

Revelando assim, a fragilidade dos vínculos humanos e os desejos conflitantes gerados pela preocupação exclusivamente individual que levam ao isolamento e escassez do contato humano. Igualmente, “(...) o contato direto com eventos e situações que ligam a vida individual a questões mais amplas de moralidade e finitude são raras e fugazes” GIDDENS (2002, pag.15). Evitando o que seria inerente ao ser humano a ‘angústia’ que segundo Heidegger “(...) é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido” Heidegger (1927 apud CHAUÍ, 1996, pág.8), pela indiferença e alienação que a vida cotidiana nos propõe.

O que importa é a velocidade! As fórmulas prontas, os resultados imediatos que não são encontrados nesse local de atendimento, quando se trata do psicológico, exigem-se cuidado e responsabilidade, características que não combinam com rapidez. Então, recorre-se aos fármacos, as drogas em geral,  o irreal, a virtualidade suprindo a ausência de contato físico, recursos tão conhecidos dos tempos atuais quando nos encontramos desamparados, tão somente solitários, descrentes, vazios, empobrecidos de ser. Citando mais uma vez Bauman:

A vida solitária de tais indivíduos pode ser alegre, e é provavelmente atarefada – mas também tende a ser arriscada e assustadora. Num mundo assim, não restam muitos fundamentos sobre os quais os indivíduos em luta possam construir suas esperanças de resgate e a que possam recorrer em caso  de  fracasso  pessoal.  Os vínculos  humanos  são   confortavelmente frouxos, mas, por isso mesmo, terrivelmente precário (...) (BAUMAN, 2007, pág.30).

Para pensar na aceleração do modo de vida cotidiano que nos torna estranhos entre nós mesmo, nos isolamos por medo de nos envolver afetivamente, ao mesmo tempo, que nos desesperamos quando nos damos conta que optamos por estarmos sozinho com os outros, uma sensação de estranheza descrita por Heidegger como “a própria dissolução do eu nas coisas do mundo e nas trivialidades impedi-o de localizar a causa de sua angústia” (CHAUÍ, 1996), vivendo na superficialidade, fazendo com que deixemos de reconhecer um dos modos de ser no mundo que é estar só.

Momento bem demarcado por Frankl (2008), autor do livro “Em busca de sentido”, quando relata a necessidade de ficar sozinho, preso em um campo de concentração buscando nesse movimento de “estar só” para manter a esperança em meio à adversidade:

Naturalmente existe momentos que são necessário e também possível distanciar-se da massa. É fato notório que a companhia de tantos parceiros de sofrimento, a toda hora, em todos os atos triviais do cotidiano, cria muitas vezes uma ânsia irresistível de escapar dessa permanente comunhão compulsória, ao menos por algum tempo. A gente é tomado pelo desejo profundo de ficar sozinho consigo mesmo e com os próprios pensamentos pela saudade de um lugar de recolhimento e solidão (FRANKL, 2002, pág.53).

Uma solidão que percebe, através da ausência do outro sua própria existência, um intervalo no tempo e no mundo, que procura dar significado à vida,  levando-nos a lembrança de quanto ela é frágil, porque “ser mortal é ser limitado o tempo todo, é não poder ser tudo” (POMPEIA e SAPIENZA, 2004, pág. 79), ou  tão somente quanto os versos da música “(...) como um Deus que amanheceu mortal, e assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim ver toda essa procura não ter fim (...)” (LENINE, 2003), um refletir pleno, marcado pelo momento de conflito e ao mesmo tempo pela aceitação, que abarca todos os vazios, em busca de sentido que renovam e preparam o reencontro com outras existências.

2.3 Solidão e o sentido de uma busca

Quando passamos algum tempo sozinhos, temos a possibilidade de refletir sobre nossas vidas, de darmos atenção aos nossos sentimentos, esperanças, projetos, futuro e sonhos “aquilo que antecipo como algo que faz parte do sentido da minha vida, aquilo sem o que minha vida ficaria sem graça (...) é o que caracteriza a existência humana” (POMPEIA e SAPIENZA, 2007, pág. 105). Pode-se então, buscar caminhos que nos levam as profundezas do nosso ser, lugar que nos aguarda, podendo assim, passar pela angústia, na lembrança de nunca sermos completos e de nossa própria finitude.

Entretanto, sabendo disso, criamos a ilusão de que teremos muito tempo para alcançar nossos objetivos, ampliarmos nossos interesses e desejos na tentativa de nos levar para longe de tais questões (angústia/finitude).

Parece que nesse momento nos damos conta. Como se o sentido que se dá a vida estivesse ligado ao sentido que se dá a morte, buscamos então um gesto próprio para afastar o inevitável. Quando compreendemos a nossa condição de ser inacabado e lançado nas possibilidades, tendemos a criar novas formas de existir através de nossas escolhas.

Clarice Lispector (1991) em sua obra Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres traz na figura de Ulisses, preceitos importantes da existência. O personagem desse livro ensina a sua amada Lori que a vida só tem sentido para quem experimenta, traduz sentimentos e necessidades do cotidiano, com a propriedade de quem fala de sua própria experiência, que assim nos revela:

(...) uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente.  Foi apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi criadora de minha própria vida (LISPECTOR, 1991, pag.33).

É nessa perspectiva de enfrentamento, de continuar existindo que a solidão se mostra como um transbordar no recolhimento, na incerteza de viver bem descrito pela  música  “Mas  e  a  vida  (...)  sempre  desejada  por  mais  que  esteja   errada,

ninguém quer a morte só saúde e sorte” (GONZAGUINHA, 2004). É atendendo a incerteza do futuro, considerando a morte como algo familiar que o sentido da busca nos é revelado. Muito embora “a ruína”, termo utilizado por Heidegger, poderia explica o distanciamento vivido por nós, o que nos impede de descobrir, de prosseguir em nossa direção:

(...) o desvio de cada indivíduo de seu projeto essencial, em favor das preocupações cotidianas, que o distraem e perturbam, confundindo-o com a massa coletiva. O eu individual seria sacrificado ao persistente e opressivo eles. O ser humano, em sua vida cotidiana, seria promiscuamente público e reduziria sua vida à vida com os outros e para os outros alienando-se totalmente da principal tarefa que seria o torna-se si-mesmo. Heidegger (1927 apud CHAUÍ, 1996, pág. 08).

Portanto, o pensamento Heideggeriano acima citado nunca foi tão atual, aponta para um homem oprimido pelas exigências sociais, fraco, entregue à banalidade, vivendo alheio a si mesmo, prejuízo bem marcado por nosso modo de viver na contemporaneidade.

É ainda nesse sentido, de vivenciar a angústia e de certa forma atribuir sentido a ela, manifestando o poder de transcendência, que o encontro terapêutico funcionaria como um possível facilitador de tal reflexão. A clínica psicológica, então, surgiria nessa direção como um espaço possível de abertura para questões dentro das perspectivas aqui exploradas, tornando-as mais próximas e acessíveis ao toque.

Através de leituras da pesquisa de CARDOSO (2004), podemos compreender o escutar/dizer do psicólogo como possível caminho que se refere à disponibilidade, cuidado que acompanha os conflitos expressados no dizer do cliente que se anuncia. E quando o ato de escutar passa a ter função além do designado, atento as possibilidades de aproximação.

Nesse trânsito entre fronteiras, que acontece por simultaneidade, reversibilidade e reflexividade, o homem chega ao mundo que lhe chega, tocando, sendo tocado, atingindo, sendo atingido, afetado e sendo afetado. Como abertura para o mundo, ele não pode controlar o que lhe apresenta, sendo invadido e afetado pelo o que o alcança, mas pode escolher, atentar e se dirigir para que mais lhe chama e imprime possibilidades de sentido (MERLEAU-PONTY apud Cardoso, 2004, pág. 31).

Compreendendo que o homem é um ser que de interação e mobilidade, que suas experiências caminham nesse transitar de possibilidades desejadas a afetação no escutar/dizer.

A personagem Lori descrita no livro Uma aprendizagem ou livros dos prazeres, de LISPECTOR, (1991), trás uma passagem cheia de angústia e desentendimentos de si própria, revelando que naquele momento não sabia o que fazer de si mesma. Porém, preferia aceitar o mistério e horror de um Deus desconhecido. “Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta. Mas doía demais mexer-se nesse sentido” (LISPECTOR 1991, pág. 35). Figura dramática que traduz o modo sofrido de estar consigo, comprometendo-se com sua presença, trazendo o que há de mais intimo, de mais revelador: suas dores.

Quando buscamos na terapia as tais “respostas” para os nossos questionamentos, chegamos com a propriedade de quem sabe o que se busca, mas não se sabe o que vai encontrar lá. Queremos nos assegurar do tempo, de sua eficácia, queremos saber do psicólogo, resumindo queremos sair satisfeitos com posicionamento de consumidores.

Existem escritos no livro de Pompeia e Sapienza (2011), sobre a terapia e a era da técnica, que ressalta esse modo consumidor que temos referente a quase tudo como também a própria sessão psicoterápica, “um produto disponível no mercado” (POMPEIA e SAPIENZA, 2011, pág. 127). Então é compreensível que a terapia seja avaliada dentro dos mesmos parâmetros, de previsibilidade, de precisões, com resultados previstos que tragam a tão famosa “eficiência” necessidade de “controle”.

O autor defende o sentido desse momento terapêutico como coparticipativo “o tempo que durar essa procura poderá ser a oportunidade (...) sua compreensão de si mesmo como alguém que tem a responsabilidade pelo cuidado de sua vida” (POMPEIA e SAPIENZA, 2011, pág. 131). Uma oportunidade de descoberta de si mesmo que abrange os outros e o mundo.

Diante do controle necessário, obtido pelo mundo da técnica, no qual nós vivemos nos percebemos em uma situação de querer poder exterminar com o que nos oprime, o que nos incomoda, o que nos faz vulneráveis (nós mesmos). Procuramos alguém que faça isso por nós, que domine o mal, que é o mesmo que dizer “vamos à busca da técnica”. Em outras palavras, “(...) o que o paciente [o cliente] diz que é seu “mal” está ancorado em tantas outras coisas que compõem a sua vida e que (...) achar certos “nós” leva tempo” (POMPEIA e SAPIENZA, 2011, pág.131).

Do mesmo modo “a experiência de se sentir escutada favorece a experiência de se escutar e de se dizer, possibilitando abertura para a experiência. Percebo que ela articula o escutar/dizer, o primeiro facilitando o segundo” (CARDOSO, 2004, pág.123). Novamente a clínica surgiria como um espaço público de atendimento para reflexão, entendido aí como abertura para outros modos de pensar, uma meditação que se afaste de uma linguagem técnica. Lembramos que, não há pretensão de vencer esse tipo de linguagem, já que nos  encontramos jogados no mundo, mas com a liberdade de podermos nos dedicar a se tornar humanos, considerando a própria condição humana como algo em construção que nos é dada.

Através da necessidade, a princípio de domínio, condicionado ao homem pelo mundo da técnica, descrito por Pompeia e Sapienza (2011) que articularemos Cardoso (2004) com a experiência de transitar do escutar/dizer, que se dispõe a atentar e cuidar de algo que emerge, “(...) ação de mudança de direção ou desvio (...) ato de pensar, ponderar, meditar, de traduzir, comunicar-se. Aproximações entre eles podem ser percebidas” (CARDOSO, 2004, pág. 64). Criando ações que reconduzem, após ter sido provocado pelo mundo, abrindo prováveis meios de sentidos “que acontece quando se está solitário, mas não isolado” CARDOSO, (2004), que o faz retornar para o mundo afetando, como continuamente nós somos, e sendo afetados. Nessa perspectiva, teríamos de pensar sobre a solidão de forma acompanhada/alimentada que proporcionaria um caminho apontado por  Pompeia e Sapienza, (2011) como:

“(...) um caminho em que, juntos, se aproximarão da história vivida por ele [o cliente], dos seus modos de ser consigo mesmo e com os outros, dos seus planos de futuro, do que tem constituído a sua vida, incluindo aquilo pelo que procurou a terapia” (POMPEIA, 2007, pág. 131).

Trilhado através da narrativa, no “escutar/dizer”, baseado em Cardoso (2004), próprio e cheio de significado, convocando o que existe de mais intimo, ditos a alguém que testemunha e compartilhe da experiência, construindo juntos afetivamente, no ato clínico, ações de abertura a elaboração, os questionamentos, a compreensão de uma solidão acompanhada que movimenta novas questões e possibilidades, seus modos e sentidos de estar no mundo.

Por fim, o pensamento heideggeriano caracteriza bem o homem, como um ser que está capacitado a atribuir um sentido a sua existência, tem a possibilidade transcender, de buscar, de dar direção a sua vida, de escolher e continuar existindo. “Produzir diante de si mesmo o mundo é para o homem projetar originalmente suas próprias possibilidades” Heidegger (1927 apud CHAUÍ, 1996, pág. 09).

3. Metodologia

Empreendendo reflexões sobre a temática solidão, transitando por aspectos teóricos através de pesquisa exploratória, que tem o intuito de proporcionar maiores informações para pesquisa bibliográfica que tem por definição:

A pesquisa bibliográfica é elaborada com base em material já publicado. Tradicionalmente, esta modalidade de pesquisa inclui material impresso, como livros, revistas, jornais, teses, dissertações e anais de eventos científicos. Todavia, em virtudes da disseminação de novos formatos de informação, estas pesquisas passaram a incluir outros tipos de  fontes, como discos, fitas magnéticas, CDs, bem como material disponibilizado pela internet (GIL, 2010, p.29).

Para realização da referida pesquisa, dialogamos com livros encontrados na biblioteca da Faculdade de ciências humanas - ESUDA, como também houve necessidade de aquisição de um novo saltério e outros títulos foram adquiridos por empréstimos do orientador. De posse desse material, pudemos abordar/trocar numa perspectiva fenomenológica que mantenha/cultive/alimente viva nossa própria curiosidade.

4. Considerações Finais

Sabe-se que há mais de um modo de compreender um tema e com esse estudo estávamos buscamos apenas, um olhar para solidão sob a ótica da fenomenologia existencial, como algo inerente ao homem, que faz parte de nossa existência.

Durante a exploração sobre o tema proposto, solidão como momento reflexivo em busca de sentido na contemporaneidade, nos deparamos com uma sensação de empobrecimento do assunto, por ser algo tão particular, intimo para apenas descrever. Questionamos, então, se não é o fato de querer definir em uma pesquisa reflexiva uma temática que abarca todas as maneiras de vivenciar a solidão, nas mais diferentes compreensões pessoais. Por esse motivo, se fez necessário diante de um sentimento de vários aspectos e formas de expressão ligadas ao homem, que nos detemos às questões existências.

Encontrou-se subsídios na filosofia de Heidegger, descrita por outros autores que ponderam o homem na tentativa de compreendê-lo, encontramos maneiras de pensar sobre a solidão como algo que está presente na condição privilegiada de ser humano e poder sentir através da angústia, assinalada por ele como disposição antológica, ou seja, a lembrança da finitude, a redução de si mesmo, a esperança de junta os pedaços, que segundo o pensamento heideggeriano, o que nos mata e nos ressuscita é o que nos reconduz a nos elevar, assumindo, portanto, a sua  condição e seu projeto de ser mesmo jogado nas possibilidades de existir.

Apoiando-se ainda, na critica heideggeriana sobre o nosso modo de existir que se traduz a darmos mais atenções às coisas do mundo (enter). Pudemos, assim, perceber o quanto estamos imersos nas coisas cotidianas bem marcadas na contemporaneidade, o progresso cientifico demonstra maior domínio sobre todos os âmbitos, o homem moderno cria expectativas comerciais, em busca do domínio da técnica, do autocontrole, as relações são consideradas um produto disponível no mercado.

Diante dos efeitos e transformações da vida social e cotidiana, com efeitos profundos, que a solidão se confunde com a falta de sentido. Então, é compreensivo que a o espaço clínico seja procurado dentro do pré-requisito, da eficácia e excelência. Entretanto os sentimentos de desconfiança, desinteresse, a sensação de desabrigo, tão solitários. Torna a clínica um espaço possível auxiliando na tarefa de refletir as experiências de ser na modernidade, de percebermos nosso modo de ser no mundo só com os outros, isso se faz possível por que só o homem é capaz de escrever a sua própria historia e refletir sobre ela.

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