Transplantes de Órgãos, uma Análise Psicológica do Narcisismo do Culto ao Corpo e os Pacientes Frente aos Seus Medos e Ansiedades

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Resumo: Este trabalho faz uma reflexão sobre o contexto dos transplantes de órgão, abordando a questões das filas dos transplantes e a lei no Brasil, além de uma abordagem psicológica sobre as questões que facilitam ou trazem dificuldades na ótica do doador.  Nesse aspecto, realiza também uma análise da visão das pessoas que vivem na esperança de conseguirem um órgão, seus medos e ansiedades.

Palavras-Chave: Transplantes de órgãos, Narcisismo, Medo, Ansiedade.

Abstract: This work is a reflection about the context of organ transplants, addressing the issues of rows of transplants and the law in Brazil, plus a psychological approach on issues that facilitate or bring difficulties from the viewpoint of the donated. And also an analysis of the vision of people living in the hope of achieving an organ, their fears and anxieties.

Keywords: organ transplantation, narcissism, fear, anxiety.

1. Introdução

O transplante de órgãos constitui-se como uma profunda transformação física e psicológica do indivíduo que consiste na substituição de um órgão ou de um tecido doente de uma pessoa (chamada de receptor) por outro sadio, de um doador vivo ou falecido. O Brasil destaca se como um dos países que mais realizam transplantes no mundo, mesmo apresentando uma fila de transplantes, onde os pacientes chegam a esperar de cinco a dez anos para conseguir um órgão.

 Diante desse paradigma, e entendendo a doação de órgãos como um problema de relevância social e científica, já que envolve as formas como a vida é perpetuada através do corpo de outra pessoa, especificamente por meio de seus órgãos, o objetivo desse trabalho busca fazer uma reflexão de como é a ótica dos transplantes diante a visão dos doadores e dos receptores, como a cultura com o corpo e o simbolismo podem interferir nesse processo,  diante de uma ansiedade vivida pelo paciente em conseguir ou não o órgão.

 A temática desse trabalho pautou se em abordar questões como a lei dos transplantes em vigor no país, que busca uma adesão maior de pessoas como doadoras, além dos fatores de resistência e de facilitação à doação de órgãos. O primeiro, o narcisismo pelo próprio corpo; o segundo, o desejo de perpetuar-se a si mesmo e a vida.  Assim como uma análise psicológica das pessoas com relação ao seu corpo, sejam doadores ou receptores.

Para a construção de trabalho foi utilizado uma revisão retrospectiva de artigos científicos referentes ao tema a partir de coleções retiradas da internet, utilizando principalmente as bases do Scielo.

2.Desenvolvimento

O transplante de órgãos foi um dos maiores avanços obtidos pela medicina no século XX. O primeiro transplante humano (de rim) ocorreu nos Estados Unidos, no ano de 1954. O primeiro transplante humano de órgão (rim) no Brasil ocorreu no ano de 1965.  Atualmente, grandes parcelas dos indivíduos transplantados têm sobrevida superior a cinco, ou mesmo dez anos após o transplante. Desde o início da década de 1990, o progresso brasileiro na realização de transplantes tem sido notável (MARINHO, 2006).

 O Brasil é o segundo país do mundo em número de transplantes, sendo superado somente pelos Estados Unidos, onde 300 pessoas são adicionadas nas listas de transplantes diariamente, e 70 transplantes são realizados por dia (MARINHO, 2006).

2.1 Sobre os transplantes

Em 2001, a lei nº 10.211 extinguiu a doação presumida no Brasil e determinou que a doação com doador cadáver só ocorreria com a autorização familiar independente do desejo em vida do potencial doador. Logo, os registros em documentos de Identificação (RG) e Carteira Nacional de Habilitação, relativos à doação de órgãos, deixaram de ter valor como forma de manifestação de vontade do potencial doador. Para ser doador não é necessário deixar nada por escrito, mas é fundamental comunicar à sua família o desejo da doação. A família sempre se aplica na realização deste último desejo, que só se concretiza após a autorização desta, por escrito.

2.2 Relação da psicológica com os transplantes, doadores e receptores:

1 - Doadores

 A doação de órgãos diz respeito à individualidade e à alteridade do sujeito doador ou não doador, em outras palavras: à relação com seu corpo e com a sociedade. Além do mais, para a análise e compreensão da doação de órgãos julgamos ser relevante fazer uma distinção entre alguns dos fatores que possivelmente contribuem para sua ocorrência ou não. Eles parecem estar distribuídos em duas categorias gerais, a saber: uma particular e outra pública ao sujeito. A primeira compreende a relação do sujeito com seu próprio corpo; a segunda, sua relação com a sociedade, enfim, com seu contexto social.

A categoria particular agrupam-se os seguintes aspectos: o significado do próprio corpo, a percepção que se tem dele, o medo de sua mutilação, a morte, a catexia envolvida em cada órgão, a imagem, o simbolismo e a representação do corpo e de seus órgãos. Na categoria pública alinham-se: a relação indivíduo-familiares, as informações que se tem sobre a doação de órgãos, a negação da morte do parente falecido, emoções dos familiares envolvidas, crenças, mitos e superstições, a mutilação do corpo do familiar falecido após a morte, o contexto sociocultural, a influência da medicina e dos transplantes e a demanda social pela doação (BENDASSOLLI, 1988).

A doação mobiliza algumas fantasias, naturalmente que essa mobilização é específica e idiossincrásica, mas alguns traços talvez alcancem um relativo nível de generalização, habilitando-nos a supor uma relação entre o fator de resistência e o de facilitação aqui propostos: quanto mais incrementado for o narcisismo, maior será a recusa à doação caso não haja um sentido simbólico em torno do órgão a ser doado capaz de fazê-lo uma metonímia da própria vida (ou do próprio indivíduo).

Em outras palavras: um maciço investimento libidinal sobre o corpo pode, como pontuou Schilder (1981), apresentar certas barreiras e dificuldades para a doação de órgãos devido ao medo da mutilação do cadáver e à consequente perda da integridade individual associada com o prazer da integridade corporal pelos instintos. Se, porém, o órgão a ser doado represente (simbolize) a vida, como, por exemplo, o coração, então poderá haver uma favorável predisposição à doação, na medida exata onde a vida pode ser perpetuada em seu aspecto mais fundamental (o amor, por exemplo) através do corpo de outro  (BENDASSOLLI, 1988).

Portanto, doar órgãos (ou não doar) não é apenas uma questão de "boa vontade", de "preconceito", ou de "falta de informação", por exemplo. É mais que isso: é uma solicitação que remete o indivíduo à fronteira que o liga e o separa, ao mesmo tempo, da cultura e da Natureza, vale dizer, que o liga à integridade identitária forjada em sua imagem corporal ­ onde inflexionam-se tanto o corpo-matéria-organismo, quanto o corpo-imaginário-simbólico. Isto nos leva a crer que a doação de órgãos abre margem para uma compreensão da psicologia do corpo que seja capaz de perceber a mobilidade das fronteiras entre o corpo-organismo (o que sempre foi considerado como apenas "corpo") e o corpo-simbólico (chamado de "mente"), ora avançando numa direção, ora em outra, sempre móveis (BENDASSOLLI,  1988).

Talvez a nova lei sobre doação de órgãos minimize significativamente o "medo da morte", pois subtrai do indivíduo a necessidade de pensar sobre sua finitude, sempre que necessitasse ponderar sobre ela (ir até um banco de órgãos, por exemplo). Em compensação, uma vez que a oficialização da lei circunscreve um campo "legítimo" em torno da doação de órgãos, ou seja, pressupõe, implicitamente (às vezes até explicitamente!), que doar é um "bem máximo" em função do apoio que encontra na maioria da sociedade, via democracia, o desejo do indivíduo em não doar pode ser acompanhado de uma possível "coerção ideológica" digna de nota, pois ele estará "indo contra" o interesse da maioria, "contra" o interesse e o bem comum da sociedade (BENDASSOLLI,  1988).

2 - Receptores

A angústia inerente à procura de um dador é inevitável, bem como a que resulta do longo tempo de espera que advém do limitado número de órgãos disponíveis. Este, frequentemente longo, período de espera, é gerador de grande instabilidade física e psicológica. A espera é acompanhada de reflexões sucessivas sobre a decisão tomada, sobre a correção ou incorreção de se ter acedido à realização de um transplante, sobre a chegada do órgão doado que se receia mesmo que não venha a tempo. Estes altos e baixos são relatados como profundamente perturbadores (TAVARES, 2004).

Confrontação com a existência de uma doença terminal a que se associa a necessidade de realização de um transplante como única forma de sobrevivência, e a forma como tal fato é transmitido pela equipe médica, é sentido pelos pacientes como o primeiro momento de grande dificuldade em todo o processo que envolve esta terapêutica (BUNZEL, 1992; BOHACHICK, 1992).

Após a sua aceitação, a entrada numa lista de espera para transplante, é tida como o segundo momento mais difícil de todo o processo. Uma vez na lista de espera, os pacientes podem ser chamados para a cirurgia a qualquer hora do dia ou da noite, dada a imprevisibilidade inerente à disponibilidade dos órgãos. É o “terror do telefone” (BUNZEL, 1992). Alguns pacientes relatam o isolamento que sentiram relativamente aos amigos e família, dado o receio que estes tinham em estabelecer contato, pois teriam a noção de que qualquer toque de telefone seria perturbador, o seu familiar aguardava a todo o momento “Aquele toque do telefone” (TAVARES, 2004).

Neste período de espera o paciente sobretudo regride a estádios anteriores do seu desenvolvimento, tendo necessidade de aceitar uma relação de profunda dependência com o meio que o rodeia. Tal fato toca profundamente o seu ser nas mais variadas áreas. É a autoestima que se entristece, o autoconceito que se lamenta, a imagem corporal que se desgosta, a identidade sexual que se fragiliza (TAVARES, 2004).

O período pós-operatório imediato é um tempo de grandes implicações emocionais. Tomando como referência um evoluir clínico normativo, os primeiros três a oito dias são passados na Unidade de Cuidados Intensivos. É um momento de paradoxo. É um momento de grande desconforto físico, inerente à cirurgia. Mas é ao mesmo tempo um momento de profunda emoção para a pessoa transplantada. É a consciência de ter dobrado o “Cabo das Tormentas”, de se ter afastado daquela percentagem de 15% de insucessos no pós-operatório imediato, de ter dado um grande passo a caminho da vida. Após uma cirurgia bem-sucedida, sentimentos de extremo bem estar e euforia podem estar presentes. O grau de independência da pessoa transplantada aumenta rapidamente, ela é encorajada a começar o mais cedo possível a sua reabilitação física. São descritos sentimentos de “começar uma nova vida, renascer saudável”, sentimentos que podem ser interrompidos abruptamente quando das primeiras complicações pós-operatórias (BUNZEL, 1992; TAVARES, 2004).

3. Conclusão

O presente estudo buscou uma abordagem sobre os transplantes de órgão, diante de uma visão do doador e do receptor. Numa preocupação cada vez mais frequente com o corpo, e a ideia dele ser a sede dos prazeres desta vida, promoveram o “culto ao corpo", momento no qual ele emerge com todo o poder de atração e ao mesmo tempo de preocupação. Essa visão narcisista vai na contramão da psicologia dos transplantes, pois apresenta uma barreira e dificuldades para a doação de órgãos devido ao medo da mutilação do cadáver e a consequente perda da integridade individual. De um outro lado existem os candidatos a receptores de um órgão, transplante melhora a qualidade de vida do paciente, no entanto, mobiliza sentimentos ambíguos e ansiedades intensas, são, antes de tudo, pessoas que vão experimentar a ansiedade, o medo mas também com a emoção e expectativa de conseguirem um transplante e melhorarem.  Isto nos leva a crer que a doação de órgãos abre margem para uma compreensão da que vai além da boa vontade, passa por zonas de interfaces como imagem corporal, simbolismo, relação com o próximo impregnada também pela significação do órgão, como fonte de melhor qualidade de vida.

Sobre os Autores:

Felipe Augusto Biccas Mourão - Graduando em Medicina pela Faculdade de Minas – FAMINAS BH

Iago Rohr Louzada - Graduando em Medicina pela Faculdade de Minas – FAMINAS BH

Evaristo Magalhães - Orientador: formado em Filosofia e Psicologia. Mestre em Educação e Doutor em Clínica Psicanalítica pela UFMG.

Referências:

Paula Moraes Pfeifer; Patricia Pereira Ruschel: Preparo psicológico: a influência na utilização de estratégias de enfrentamento pós-transplante cardíaco. Rev. SBPH vol.16 no.2 Rio de Janeiro dez. 2013. Disponível em: <  http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S151608582013000200011&script=sci_arttext > acesso em 23 de novembro de 2015.

Elisa Kern De Castro. Bem-estar subjetivo de adolescentes transplantados de órgãos. Aná. Psicológica v.27 n.1 Lisboa mar. 2009.Aná. Psicológica v.27 n.1 Lisboa mar. 2009. Disponível em: < http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?pid=S087082312009000100007&script=sci_arttext> acesso em: 22 de novembro de 2015.

BENDASSOLLI, P.F: PSICOLOGÍA REFLEXAO E CRÍTICA, Doação de órgãos: meu corpo, minha Sociedade. REVISTA DE LA UNIVERSIDAD FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL / PUERTO ALEGRE, BRASIL / ISSN 0102-7972. Disponível em: < http://www.redalyc.org/pdf/188/18811105.pdf > acesso em 23 de novembro de 2015.

MARINHO, A.: Um estudo sobre as filas para transplantes no Sistema Único de Saúde brasileiro. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, out, 2006. Disponível em:<http://www.academia.edu/9598217/Um_estudo_sobre_as_filas_para_transplantes_no_Sistema_%C3%9Anico_de_Sa%C3%BAde_brasileiro> acesso em 21 de novembro de 2015.

Paulo Manuel Pêgo-Fernandes; Valter Duro Garcia: Estado atual do transplante no Brasil. Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), São Paulo, Brasil, 2010. Disponível em: < http://files.bvs.br/upload/S/1413-9979/2010/v15n2/a51-52.pdf > acesso em 22 de novembro de 2015.

TAVARES, E: A vida depois da vida: Reabilitação psicológica e social na transplantação de órgãos. Análise Psicológica (2004), 4 (XXII): 765-777. Disponível em: < http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v22n4/v22n4a10.pdf > acesso em 22 de novembro de 2015.

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