Uma Abordagem Psicológica Sobre o Medo

Uma Abordagem Psicológica Sobre o Medo
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Resumo: Este artigo visa contribuir para análise e discussão acerca do tema medo, assim como dos aspectos psicológicos envolvidos neste contexto e suas representações no cotidiano. A partir de uma revisão bibliográfica faz-se uma sucinta explanação dos conceitos, tipos de medos e fobias. Abordando também alguns costumes e crendices da cultura popular sobre o medo. Enfatizar-se-á as percepções da psicologia com uma abordagem psicanalítica sobre a construção destes medos e/ou fobias presentes em muitos dos indivíduos que buscam os serviços de psicólogos e psicanalistas. Com base no que fora levantado, muitos dos medos e fobias vivenciados por indivíduos, sejam eles de qualquer faixa etária, estão associados à passagem do Complexo de Édipo e o processo de castração.

Palavras-chave: medo, fobia, angústia, complexo de Édipo, castração.

1. Introdução

Este artigo aborda sucintamente a temática sobre o medo, suas implicações e consequências psíquicas no cotidiano das pessoas, assim como as fantasias que emergem nessas vivências.

Falar sobre medo é algo muito complexo, tendo em vista a singularidade do ser humano e a infinidade de fatores psicológicos capazes de desencadeá-lo.

A relevância deste artigo se dá pelo fato de abranger um tema que emerge em rodas de conversa, em todas as faixas etárias e pode, de certa forma, implicar negativamente no convívio social. O medo que apavora, paralisa, impede e angustia, que muitas das vezes se apresenta como queixa nos consultórios de psicólogos e psicanalistas.

Medo de dirigir, medo de morrer, medo de baratas, medo de assombração, medo de envelhecer, etc. São tantos que elencá-los seria impossível.

São vários e inusitados, declarados e ocultos, existem e estão cada vez mais sendo abordados em estudos e pesquisas.

Abordar-se-á ao longo deste artigo algumas crendices que compõem o cotidiano das pessoas, como assombrações, canções de ninar que despertam o medo, o bicho papão, etc., e as implicações psicológicas neste contexto.

Com base nesta vertente buscou-se em acervos bibliográficos e artigos científicos publicados, dados que venham corroborar e enriquecer os estudos sobre esta temática.

Enfatizar-se-á, também, a visão psicológica com uma abordagem psicanalítica sobre questões inconscientes que desencadeiam sinais e sintomas do medo e da fobia, do simples ao patológico.

2. Medo e Suas Definições

Aquele que não tem medo, mesmo que lá no íntimo, atire a primeira pedra! Esta afirmativa se dá por sermos seres humanos, passíveis desses sentimentos e emoções, existe uma infinidade de fatores desencadeantes do medo, que podem acometer pessoas em todas as faixas etárias, podem ser passageiros, assim como tornar-se psicopatológicos.

O que é medo? Quais os sinais e sintomas do medo? O medo é patológico? O medo significa a mesma coisa que fobia? O que pode estar por detrás das fobias? Partindo deste princípio, o medo é “caracterizado por referir-se a um objeto mais ou menos preciso” (DALGALARRONDO, 2006, p. 107).

Segundo Dalgalarrondo (2006) apud Mira y López (1964), o medo se apresenta em escalas até a sua inativação, ou seja, ele vai paulatinamente tomando uma proporção até que o indivíduo tenha seus sentimentos e emoções estabilizados, dividindo-se em seis fases de acordo com o grau de extensão e imensidão, são eles:

  1. Prudência;
  2. Cautela;
  3. Alarme;
  4. Ansiedade;
  5. Pânico (medo intenso);
  6. Terror (medo intensíssimo).

O medo é uma alteração das emoções e dos sentimentos, também é fundamental para a nossa autopreservação. Já imaginou se não o tivéssemos? O que seríamos capazes de fazer? Atravessar uma rua sem temer a um possível acidente, pôr em risco a própria vida.

Segundo Dalgalarrondo (2006),

O medo não é uma emoção patológica, mas algo universal dos animais superiores e do homem. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que queríamos evitar e que progressivamente nos consideramos menos capazes de fazer. (DALGALARRONDO, 2006, p. 109)

3. Fobias

No que tange às fobias, pode-se dizer que são medos exacerbados, desproporcionais, limitantes e psicopatológicos. Um dos sinais é a própria esquiva do objeto fobígeno, o indivíduo evita falar e se aproximar, até mesmo mudar a rotina por conta desse medo, podendo ter sua vida pessoal e social comprometida e ameaçada, passando a sofrer por isso. O que pode ser corroborado por Dalgalarrondo (2006) quando diz que:

São medos determinados psicopatologicamente, desproporcionais e incompatíveis com as possibilidades de perigo real oferecidas pelos desencadeantes, chamados de objetos ou situações fobígenas. Assim o indivíduo tem um medo terrível e desproporcional de entrar em um elevador, ou de gatos, ou de contato com pessoas desconhecidas. No indivíduo fóbico o contato com os objetos ou situações fobígenas desencadeia, muito frequentemente uma intensa crise de ansiedade. (DALGALARRONDO, 2006, p. 109)

O indivíduo fóbico vivencia além da angústia e da vergonha, sintomas observáveis, uma série de reações corporais, alterações somáticas causadas pelo estado de exposição ao objeto fobígeno, que fora corroborado por Delumeau (1989),

Colocado em estado de alerta, o hipotálamo reage por uma mobilização global do organismo, que desencadeia diversos tipos de comportamentos somáticos e provoca, sobretudo, modificações endócrinas. Como toda emoção, o medo pode provocar efeitos contrastados segundo os indivíduos e as circunstâncias, o até reações alteradas em uma mesma pessoa: a aceleração dos movimentos do coração ou sua diminuição; uma respiração demasiadamente rápida ou lenta; uma contração ou uma dilatação dos vasos sanguíneos; uma hiper ou uma hipo-secreção das glândulas; constipação ou diarréia, poliúra ou anúria, um comportamento de imobilização ou uma exteriorização violenta. Nos casos-limite, a inibição era até uma pseudoparalisia diante do perigo (estado cataléptico) e a exteriorização resultará numa tempestade de movimentos desatinados e inadaptados, característicos do pânico. (DELUMEAU, 1989, p. 23)

Dentro da Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), as fobias estão na classe de transtornos neuróticos, estresse e somatoformes, grupo F40 – F48, que compreende os Transtornos fóbicos ansiosos (F40).

Elencando-os com base na CID 10 (2007), encontram-se:

Agorafobia (F40.0)

Medo de sair de casa, de entrar em lojas, multidões e lugares públicos ou de viajar sozinho em ônibus, trens e aviões. “Representa um dos mais incapacitantes transtornos fóbicos e alguns pacientes tornam-se confinados ao lar, são aterrorizados pelo pensamento de terem um colapso e serem deixados sem socorro ao público”. (CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO CID 10, 2007, p. 133).

Fobias Sociais (F40.1)

Medo de expor-se a outras pessoas em grupos, levando a evitação de situações sociais. (CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO CID 10, 2007, p. 135)

Fobias específicas (F40.2)

Medo de aproximar-se de determinados animais ou situações como por exemplo: medo de altura, baratas, trovão, escuridão, visão de sangue, exposição à doenças específicas. (CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO CID 10, 2007, p. 135)

Transtorno de pânico (F41.0)

Ataques recorrentes de ansiedade grave (pânico), os quais não estão restritos a qualquer situação ou conjunto de circunstâncias em particular e que são, portanto, imprevisíveis. (CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO CID 10, 2007, p. 137)

Pode-se exemplificar que dentre todos os tipos e subtipos de fobias, o medo de barata, o medo de fantasma, o medo de gatos são fobias simples; o medo de multidões e aglomerações é denominado de agorafobia; o indivíduo quando tem medo de expor-se em público, tem fobia social; pessoas que têm medo de elevadores e espaços fechados sofrem de claustrofobia e que as crises de ansiedade e medo intenso de morrer, são chamadas de crise de pânico.

Como fora citado por Dalgalarrondo (2007),

[...] A fobia simples é o medo intenso e desproporcional de determinados objetos, em geral pequenos animais (barata, sapo, cachorro, etc.) A fobia social é o medo de contato e interação social, principalmente com pessoas pouco familiares ao indivíduo e em situações nas quais o paciente possa se sentir examinado ou criticado por tais pessoas (proferir aulas ou conferências, ir a festas, encontros, etc.) A agorafobia é o medo de espaços amplos e de aglomerações, como estádios, cinemas, supermercados. Inclui-se na agorafobia o medo de ficar retido em congestionamentos. A claustrofobia é o medo de entrar (e ficar preso) em espaços fechados, como elevadores, salas pequenas, túneis, etc. [...] Pânico é uma reação de medo intenso, de pavor, relacionada geralmente ao perigo imaginário de morte iminente, descontrole ou desintegração, [...] são crises agudas e intensas de ansiedade, acompanhadas por medo intenso de morrer ou perder o controle e de acentuada descarga autonômica (taquicardia, sudorese, etc.) (DALGALARRONDO, 2006, p. 110)

4. Medos e Crendices

Quem nunca foi embalado quando pequeno? Ou nunca embalou ninguém com canções de ninar, como: boi...boi...boi...boi da cara preta...pega essa menina...que tem medo de careta; nana neném...que a cuca vem pegar...papai foi para roça...mamãe foi trabalhar...

Segundo Almeida (1926),

O acalanto, canção ingênua, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninam seus filhos, é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Forma muito primitiva, existe em toda a parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror, que os nossos meninos devem afugentar dormindo. Vieram as nossas de Portugal, na sua maior parte, e vão passando por todos os berços do Brasil e vivem em perpétua tradição, de boca em boca, longe das influências que alteram os demais cantos. (ALMEIDA, 1926, p. 106)

Que criança dormiria tranquila com uma canção dessas? Bem, se formos analisá-las, assim como associá-las aos medos comuns de algumas crianças, podemos levantar a hipótese de que alguns pais, na tentativa de disciplinar seus filhos, podem estar incutindo em seus inconscientes medos imaginários, que poderão ou não se apresentar em outras fases do desenvolvimento de acordo com a estruturação de suas personalidades.

Lopes e Paulino (2010) apud Melo (1985) “a visão que se guarda da infância desses ‘perseguidores’ é realmente profunda e aterradora e que teria a função de amansar os rebeldes, embora possa ser contraproducente para a educação, produzindo um pavor estúpido.”

Elias (1994) diz que “os pensamentos fantasiosos [...] ajudam-nas a aliviar uma situação de outro modo insuportável, na qual se encontram inteiramente expostas, como crianças pequenas, a forças misteriosas e incontroláveis.”

É comum que as sociedades venham ao longo dos tempos guardando tradições e costumes voltados para as lendas, mitos e personagens fantasmagóricos que compõem os contos e as cantigas de ninar, tendo como intento amedrontar e assegurar-se, mesmo que de forma sutil, que a criança não fará nenhuma traquinagem, temendo que os possíveis monstros venham castigar-lhes.

No artigo Histórias de assombração: quem tem medo de quê? De Pauli, Silva & Branco, extraído da Revista Eletrônica de Educação, reforça o parágrafo acima quando diz que:

Cada cultura possui seus medos e ferramentas próprias para se defender deles e seria também na infância que os medos sofrem processo de intensificação pela sociedade. As famílias ou sociedades criam dispositivos de amedrontamento de suas crianças: lobisomem, bicho-papão, homem do saco, monstros, bruxas, boi-da-cara-preta, mulas sem cabeça, saci, etc. [...] trata-se de dispositivos de segurança e de doutrinamento. (PAULI et al 2007)

Ainda abordando o objeto assombração, medo muito comum em nossa sociedade, faz- se referência a Carl Jung [2] em uma de suas experiências. O texto relatado abaixo resume trechos do livro “Diálogo com Outros Mundos” de Gruber e Fiebag.

Dedicou parte de seu tempo ao estudo da Parapsicologia. Conhecia muito sobre espiritismo, haja vista que sua família materna era voltada para esta vertente. Sua avó era vidente e sua mãe muito aberta a fenômenos paranormais.

Esta experiência se passou em uma casa na Inglaterra, a qual Jung e seu amigo haviam alugado, nela vivenciaram vários eventos dentre eles cita-se:

“Em 1919, C. G. Jung fez uma exposição sobre os fundamentos psicológicos da crença em espíritos perante a Sociedade para a Investigação Mediúnica, na qual analisou os fenômenos paranormais de um ponto de vista psicológico, classificando-os de complexos autônomos inconscientes deslocados para o exterior. No ano seguinte, entrou ele próprio em contato com semelhantes fenômenos na Inglaterra. Jung tinha às vezes a possibilidade de passar o fim de semana numa casa de campo que um amigo alugara pouco antes. De noite ouvia pancadas nas paredes e barulhos curiosos e espalhava-se no ar um mau cheiro estranho. Os acontecimentos, que provocavam nele uma espécie de paralisia, atingiram o seu ponto mais alto quando uma noite viu aproximar-se metade de uma cabeça feminina, que pousou na almofada a menos de meio metro de distância dele. O único olho da cabeça estava aberto e fitava o assustado médico. Jung acendeu uma vela e a assombração desapareceu. Ele passou o resto da noite sentado na cadeira. Depois, Jung e o amigo souberam o que toda a aldeia já sabia: tratava-se de uma casa assombrada, na qual os inquilinos ficavam sempre por pouco tempo. O psicólogo Jung interpretou as assombrações como projeções de conteúdo psíquico inconsciente, mas não conseguiu encontrar nenhuma explicação satisfatória para o fato de elas se produzirem apenas naquela casa e de o deixarem em paz em Londres durante o resto da semana.”

Segundo Grosso em seu artigo “Medo da Vida depois da Morte”, ao fazer referência ao trabalho de J. Frazer (1913), numa coletânea de relatos de antropólogos e missionários sobre o medo primordial dos mortos, cita que: “na Melanésia, Polinésia, Nova Guiné, Índia, Ásia, África e nas Américas do Sul e do Norte, os povos tribais acreditam que os espíritos dos mortos são capazes de infligir todo tipo de danos aos vivos, sendo os parentes próximos considerados mais letais”.

Relatos como esse, arraigados nas crendices da sociedade, dentre todos, um dos mais corriqueiros - o medo de assombração. Pessoas que vivenciam experiências extracorpóreas, que veem seus parentes já falecidos, ou até mesmo pessoas que nunca viram, tendem a temer. Espíritos? Assombrações? Crendices populares?

Como diz a celebre frase de Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia”.

5. Uma Visão Psicanalítica sobre o Medo e a Fobia

O medo tem vários conceitos, alarme, acovardamento, ansiedade, angústia, apavoramento, desassossego, enlouquecimento, etc., para Freud o termo utilizado é angústia (angust), e além do sofrimento psíquico o indivíduo fóbico vivencia o sofrimento físico, o que fora corroborado por Vanier (2006),

A angústia tem com o nosso corpo a mais estreita vinculação, como nos é mostrado pela etimologia (do latim angustia): designa um mal-estar psíquico, mas também físico – sensação de aperto na região epigástrica, de bolo na garganta, com palpitações, palidez, impressão de que as pernas vacilam, dificuldade para respirar, em suma, a angústia afeta o corpo. (VANIER, 2006, p 286)

Com base nos estudos de Freud o medo se dá através da exposição do indivíduo ao objeto fobígeno, a angústia é um estado de expectativa de um perigo ignorado e o terror é quando o indivíduo vivencia uma situação inesperada de perigo. O que é explicado por Abla (2009), ao citar Freud:

Para Freud, o termo medo requer um objeto determinado, em presença do qual algo se sente. A angústia, ele esclarece, designa certo estado de expectativa frente ao perigo e preparação para ele, ainda que se trate de um perigo desconhecido. Freud chama terror o estado em que o sujeito cai quando corre perigo sem estar preparado, com destaque ao fator surpresa. (ABLA, 2009, p. 155)

São muitos os clientes que buscam os serviços de psicólogos e psicanalistas em busca de curar-se do medo que de certa forma os incapacita. “Medo e angústia caracterizam um tempo subjetivo que leva o paciente à busca de um saber que o livre do medo e alivie do mal-estar”. (Abla, 2009, p. 156)

O medo de alguma forma está associado a um estado de angústia, angústia que castra, tolhe, inibe e reprime, algo que vai muito além do compreendido e manifesto. É na Teoria de Freud sobre o Complexo de Édipo e a angústia de castração que se encontra embasamento necessário para dirimir as dúvidas quanto à temática sobre o medo e a fobia.

O indivíduo fóbico inconsciente tem no objeto fobígeno uma atenção desviada, mascarada, deslocada do real sentimento de angústia que o move, “a representação é recalcada no inconsciente, e o afeto é deslocado, destacado dessa representação à qual estava ligado.” (Vanier, 2006, p. 287)

Explicando como funcionam os conteúdos no inconsciente durante o processo da angústia de castração vivenciada no complexo edípico pode-se dizer que:

Trata-se daquilo que se apodera do menininho diante do amor que sente por sua mãe. Ainda que apareça como perigo interno, esse amor remete a um perigo externo que é o temor imaginário da castração. Não é tanto que a castração possa efetivamente ser praticada, Freud escreve, mas “esse é um perigo que ameaça do exterior, e a criança acredita nele”. Essa crença é determinante. Para as meninas, Freud prossegue, trata-se da angústia ante a perda do amor, “visivelmente um prolongamento da angústia do lactente quando experiencia a ausência da mãe”; remete a uma angústia originária, a angústia do nascimento, que já significa separação da mãe. (VANIER, 2006, p. 287)

“A castração é uma função simbólica que necessita da intervenção de um pai real num momento preciso de estruturação do sujeito”. (Vidal, 1999, p. 218)

“A fobia manifesta ao mesmo tempo uma realização e um fracasso; de certo modo a operação edipiana erra o alvo, uma vez que ao mesmo tempo manifesta e disfarça uma falha na separação”. (Vanier, 2006, p. 291)

A relação com a imagem paterna de alguma forma representa parte na produção da fobia, a ausência do pai mesmo que simbólica pode desencadear esse tipo de emoção. Como pode ser corroborado por Vanier (2006) apud Maupassant (1884/1979) ao citar que:

Há algum tempo o tema do declínio do pai, do enfraquecimento de sua função, tem tomado ares de banalidade [...] nossa época mostra um enfraquecimento de uma dimensão imaginária do pai [...] as inevitáveis fobias que balizam e escandem o desenvolvimento da criança manifestam isso. Quer se trate do medo da escuridão, do lobo, etc., essas fobias aparecem em idades determinadas: por volta de 3 a 5 anos, e a fobia de Hans provavelmente é uma dessas; depois por volta de 8-9 anos, quando a criança apreende que pode perder ou ser perdida por seus pais, que são mortais. É por isso que se pode dizer, ante essa incompletude, “só temos medo verdadeiramente daquilo que não podemos compreender”. (VANIER, 2006, p. 291)

O medo e/ou a fobia representa um objeto real, forma esta que o inconsciente tem de sinalizar conteúdos mal resolvidos ou recalcados, lacunas na fase fálica compreendida no processo do Complexo de Édipo. Assim “é através de uma crise subjetiva que tem lugar o aparecimento do medo e o objeto que porta este significante está referido a alguma coisa [...] real, que funciona com as características de um sinal de alarme.” (Abla, 2009, p. 157)

A relação com a figura paterna ideal, figura protetora, é que direciona a criança durante a fase fálica, período que compreende a idade de três anos e se estende até os cinco anos, podendo ser fundamental no processo de proteção contra o medo e o desenvolvimento das neuroses. “O pai, ou sua figura, protege do medo [...] se faz à custa de uma regressão que mantém o sujeito em determinada posição, aquela que Freud qualificava como infantil, mas que pode tomar corpo e constituir uma proteção eficaz contra a neurose”. (Vanier, 2006, p. 294)

6. Considerações Finais

O medo está associado de alguma forma ao sofrimento e à angústia. É até hoje um sentimento comum a todo indivíduo. Tem suas representações e significados singulares e representa parte significativa das queixas em consultórios de psicólogos, psicanalistas e psiquiatras.

São várias as formas de fobia, dentre elas as mais comuns são: as simples e específicas, como medo de elevador, baratas, assombração, síndrome do pânico e etc.

Além do sofrimento psíquico vivenciado pelo indivíduo fóbico, junto com o medo e a fobia, vem o sofrimento físico, as reações orgânicas e fisiológicas alteradas por conta de um estado de forte emoção e angústia.

Iniciar um processo de análise e terapia para curar-se de medos incapacitantes demonstra ser a melhor alternativa para o equilíbrio da saúde física e mental. O medo e a fobia podem comprometer a capacidade de independência e autonomia do indivíduo que vivencia este estado.

No que tange às crendices populares sobre a temática do medo, temos a exemplo, inúmeras cantigas de ninar que fazem referência ao medo, ao amedrontar para conter, controlar, “educar”, como fora levantado em algumas obras lidas. Todas elas trazem conteúdos capazes de introjetar no inconsciente da criança, dependendo da fase de desenvolvimento humano, personagens monstruosos que farão ou não, parte do cotidiano das mesmas ao longo do processo de crescimento e amadurecimento até a fase adulta.

Vale ressaltar a necessidade de se rever alguns conceitos sobre o educar sem incutir o medo imaginário, assim como produzir cantigas e brincadeiras construtivas e educativas capazes de desenvolver criatividade e raciocínio.

Com base no que fora levantado para a produção deste artigo, compreende-se que, estes estados fóbicos capazes até mesmo de incapacitar um indivíduo, têm suas raízes muito mais profundas, além do que está manifesto.

Portanto, é na teoria de Freud sobre o Complexo de Édipo e no processo de castração, que se encontram respostas para dirimir dúvidas sobre a construção das neuroses e a forma de externá-las através das fobias.

Na fase fálica, que compreende a idade de três a cinco anos, período do desenvolvimento do complexo de Édipo, de introjeção de valores, respeito e moral. Nele, tanto para meninos quanto para meninas, o objeto de prazer é a mãe, que passa a ter seu amor

disputado entre o filho (a) e o pai. O pai representa a figura real, capaz de castrar para demonstrar seu poder, e o filho temendo esta castração, cede espaço ao sentimento de admiração pela mãe, deixando de lado o amor e o desejo.

É nesta fase que a presença do pai se faz fundamental na estruturação da personalidade da criança; e na ausência real deste pai que a protege, é iniciada a construção dos medos e das neuroses.

O medo e a fobia são formas de denunciar as lacunas na passagem do Complexo de Édipo durante o processo de castração. Mascarando o real sentimento de angústia latente, criando um objeto externo para descarregar seus conteúdos, mantendo o objeto real interno, rechaçado no inconsciente.

Sobre o Autor:

Karla Alessandra de Amorim D’Elía - Psicóloga graduada pela Uninorte - Laurete International Universites, pós graduada em Gestão em Saúde pela CED/UFAM – Universidade Federal do Amazonas.

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