Dependência Química

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A dependência química, uso abusivo de substancias psicoativas é um fenômeno que está presente em toda história da humanidade nas mais diversas culturas, épocas e contextos. Antigas civilizações já faziam uso de produtos naturais em busca de prazeres efêmeros ou alterações no estado de consciência.

A existência de uma estreita relação entre os seres humanos e a busca pelos diversos tipos de substancias é objeto de estudos e pesquisas que apontam ser esta uma prática humana e universal e que os objetivos ou motivações variam desde ser usado como remédio ou veneno, busca do prazer ou alívio da dor ou costumes em rituais de caráter religioso como forma divina ou demonizada. (Bucher,1992).

O uso de drogas e os aspectos inerentes a essa prática existem desde os primórdios da história da humanidade sendo natural do homem, através dos tempos, buscar o prazer supremo e o mínimo de sofrimento. (Martins & Correa, 2004).

O uso de drogas, assim como outros costumes, seguem padrões relacionados às épocas. Os tipos de substancias e a utilização muda de acordo com o contexto sócio-cultural em que estão inseridos.

Entretanto é importante pontuar que os hábitos e costumes de cada sociedade é que direcionavam o uso de drogas em cerimônias coletivas, rituais ou festas, sendo que, geralmente, esse consumo estava restrito a pequenos grupos, fato esse que apresentou grande alteração no momento atual, pois hoje se verifica o               uso dessas substancias em qualquer circunstancia e por pessoas de diferentes grupos e realidades. (Prata et al, 2009, p.203)

Com o desenvolvimento das civilizações e a evolução, o ambiente foi amplamente modificado e o homem passou a ter outros anseios e aspirações perdendo a capacidade de lidar com as emoções e administrar a própria vida. O homem passou a produzir drogas com caráter específico e padrão altamente voltado à dependência. (Lemos, 2013).

Durante a segunda metade do século XX o consumo de substancias psicoativas aumentou assustadoramente passando a ser um elemento de desestruturação social e aniquilamento da subjetividade do homem. A droga passou a ser usada como alívio para o sofrimento e as tensões sociais, mais do que para o prazer. “A intensificação do uso de drogas [...] levam os EUA em 1961 a proporem uma resolução na ONU que é seguida até os dias atuais, em que o consumo de drogas ilícitas seja criminalizado”. (Silva, 2000).

O abuso de drogas perpassa o nível social, intelectual e cultural tornando-se um problema internacional, jurídico, policial e de saúde publica por estar relacionado com doenças e deliquencia entre outros problemas. Reconhecendo a gravidade e a repercussão desse abuso, a comunidade internacional empreende esforços desenvolvendo ações para controlá-lo (Velho 1994).

 O uso de drogas deixou de ser um elemento de integração entre pessoas e grupos e passou a ser um problema social e de saúde publica. Ações governamentais são desenvolvidas visando o controle do trafico de drogas, apesar disso, aumenta-se a dependência no uso de diversas drogas e principalmente as de mais fácil aquisição e de maior impacto social – o crack.

A dependência química é o ultimo estágio no processo que envolve o abuso de drogas lícitas ou ilícitas. É considerada uma doença psiquiátrica de ordem biológica, psicológica e social, provocada e mantida pela auto administração compulsiva de drogas independendo dos resultados benéficos ou maléficos e, posteriormente o desejo de se manter abstinente (Lemos, 2013).

    Os fatores que levam o indivíduo a tornar-se um dependente químico são variáveis e alguns indefinidos. Conforme Kessler, Diemem e Pechanski, (2004):

A dependência química é um transtorno crônico caracterizado por três elementos principais: compulsão para busca e obtenção da droga, perda do controle em limitar esse consumo, e emergência de estados emocionais negativos (disforia, ansiedade, irritabilidade), quando o acesso a essa droga é limitado (abstinência). (Kessler, Diesmem e Pechanski, 2004, p.299).

“Falta de controle, impulsividade e incapacidade de ceder diante de pressão de grupos sociais” (Silva, 2000 p.25), são características que indicam um alto grau de dependência estando nesse estágio o organismo do indivíduo bastante comprometido pela substancia.

Os padrões de comportamento e transtornos são comuns entre os dependentes químicos e tem características próprias, de acordo com Cunha, (2006, p.35), entre elas estão:

  • Onipotência: o indivíduo acredita estar sempre no controle;
  • Megalomania: tendência exagerada à crer na possibilidade de realizar um intento visualizando sempre o resultado;
  • Manipulação: mentalidade de que tudo se faz pela realização de seus desejos, principalmente pela obtenção e uso de substancias psicoativas;
  • Obsessão: atitudes insanas pelo desejo de consumir drogas;
  • Compulsão: atitudes desconexas, incoerentes com a realidade provocadas pelo desejo intenso e necessidade de continuar a consumir a substancia;
  • Ansiedade: necessidade constante da realização dos desejos;
  • Apatia: Falta de empenho para a realização de objetivos e metas;
  • Auto-suficiência: mecanismo de defesa usado para afastar da consciência os sentimentos de inadequação social gerando uma falsa sensação de domínio;
  • Autopiedade: um tipo específico de manipulação que o dependente usa para conseguir realizar algum propósito;
  • Comportamentos anti-sociais: repertório comportamental gerado pela instabilidade emocional que o indivíduo desenvolve sem estabelecer vínculos tendo sua imagem marginalizada pelo meio social;
  • Paranóia: desconfiança e suspeita exagerada de pessoas ou objetos, de maneira que qualquer manifestação comportamental de outras pessoas é tida como intencional ou malévola.

A partir da segunda metade do século passado o conceito de dependência química deixou de ser enfocado como marginalização e desvio de caráter passando a ter contornos de transtorno mental com características específicas. (Ribeiro apud Prata et al , 2009, p.208).

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV:

A característica essencial da Dependência de Substancia consiste na presença de um agrupamento de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos indicando que o indivíduo continua utilizando uma substancia, apesar de problemas significativos relacionados a ela. (DSM-IV, 2002, p. 208).

A dependência química está classificada entre os transtornos psiquiátricos, sendo considerada uma doença crônica que pode ser tratada e controlada simultaneamente como doença e como problema social. (OMS, 2001).

Os prejuízos neurológicos, cognitivos e relacionais causados pelas substâncias são em sua maioria irreversíveis, progressivos e passam despercebidos pelo indivíduo. Os danos físicos e sociais quando percebidos impulsionam, ainda mais, o dependente químico a uma insaciável busca pelos efeitos da droga.(Silva, 2000, p.14).

 A necessidade de buscar constantemente a droga altera a vida do dependente afetando as relações familiar, social e profissional, trazendo para o indivíduo um intenso sofrimento físico e emocional. Assim, o tratamento da dependência química envolve o indivíduo e toda sua rede social afetada. (Leite, 2000).

Conforme Prata (2009), o tratamento é lento e romper o ciclo da dependência é difícil e delicado, cuidar do paciente dependente é considerá-lo em sua totalidade dentro do modelo biopsicossocial de saúde. Aceitar a dependência química e o dependente dentro desses parâmetros mostra a necessidade de romper o conceito de dependência química apenas como uma doença psiquiátrica e acatar ações de promoção e prevenção ao uso de drogas com a finalidade de reduzir esse complexo fenômeno da atualidade.

Conhecer o perfil do dependente químico que busca auxilio em unidade de recuperação é importante para a elaboração de estratégias de tratamento buscando a integração desses indivíduos à família e a sociedade. A falta de acolhimento e isolamento imposto pela família e pela sociedade faz com que o dependente químico de deixe de procurar atendimento.

A dependência química é um transtorno que atinge as pessoas em diversas maneiras, atinge tanto o seu corpo físico quanto as relações interpessoais. As implicações sociais, psicológicas, políticas e econômicas acarretam perdas que levam o indivíduo à exclusão social. O perfil do usuário de substancias psicoativas vem associado a delinquência e praticas antissociais relacionadas ao comportamento irresponsável que o indivíduo apresenta. (Silva, 2010).

Viver com um dependente químico não constitui tarefa fácil, pois são freqüentes as brigas familiares e, consequentemente, os divórcios, uma vez que o usuário de droga pensa, na maioria das vezes, de modo egoísta quando está sob o efeito da droga e tem o pensamento voltado ao uso da substancia pela qual está dependente. Ainda, o usuário de substancia psicoativa tem perdas individuais como: perdas do emprego, bens pessoais, prejuízos a saúde e rompimento do vínculo familiar. (Silva, 2010)

A dependência química é uma doença crônica e multifatorial quase sempre associada a outras doenças. Cada droga tem seu grau de dependência dificultando o diagnóstico. O tratamento consiste em parar de consumir a droga e se manter em abstinência. O processo terapêutico depende da vontade do paciente.

Sobre o Autor:

Maria Helena de Oliveira - Estudante do 8º período de Psicologia, estagiaria no CAPS-AD (estágio superviosionado)

Referências:

Burcher, R., Drogas e Drogadição no Brasil Porto Alegre, Artes Medicas 1992.

Cunha, W., In-dependência: aprende a se livrar das drogas, saiba lidar com um dependente e veja se você estimula a co-dependência. São Paulo: Idéia e Ação, 2006.

Rego, Thiago F. A. Atuação do Psicólogo em um Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Outras Drogas (CAPS AD) de Santarém: Relato de Experiência. Disponível em: http://psicologado.com/psicopatologia/saude-mental/atuacao-do-psicologo-em-um-centro-de-atencao-psicossocial-de-alcool-e-outras-drogas-caps-ad-de-santarem-relato-de-experiencia

DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002, 4.ed. p.208.

Lemos T. http://www.direcionaleducador.com.br/drogas/modulo-iii-%E2%80%93-aspectos-psicossociais-da-dependencia-quimica  (Acesso em 14/10/2013 às 15:29).

Leite M. C. (2000). Aspectos básicos do tratamento da síndrome de dependência de substâncias psicoativas. Brasília: Presidência da República, Gabinete de Segurança Institucional, Secretaria Nacional Antidrogas.

Martins, E. R., & Corrêa, A. K. (2004). Lidar com substâncias psicoativas: o significado para o trabalhador de enfermagem. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 12, 398-405.

Pratta, E.M.M.; Santos, M. A. O processo saúde-doença e a dependência química:

interfaces e evolução. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Brasília, v. 25, n.2, p. 203-211, 2009.

Silva, I. R., Alcoolismo e Abuso de Substancias Psicoativas:

Tratamento, prevenção e educação. São Paulo: Vetor, 2000.

Silva, H.P.S. et al , Perfil Dos Dependentes Químicos Atendidos Em Uma Unidade De Reabilitação Em Um Hospital Psiquiátrico. http://www.scielo.br/pdf/ean/v14n3/v14n3a21.pdf  Acesso em 14/10/2013 às 19:12.

Velho, G., Dimensão Cultural e Política do Mundo das Drogas. Projeto e Metamorfose Antropologia das Sociedades Complexas Rio de Janeiro (RJ) Jorge Zahar Editores; 1994.

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